Aula de 26/07/1995 – O nascimento do tempo

“As impressões não se interpenetram. Elas são uma heterogeneidade de extinção. Aparece uma impressão, desaparece. Aparece outra. Aparece uma impressão, desaparece. Aparece, desaparece. Nas imagens, não. Nas imagens há a interpenetração. O que faz o espírito que contrai? Ele junta o que na natureza está separado”.

A imanência: uma vida… | Gilles Deleuze

"Uma vida não contém nada mais que virtuais. Ela é feita de virtualidades, acontecimentos, singularidades. Aquilo que chamamos de virtual não é algo ao qual falte realidade, mas que se envolve em um processo de atualização ao seguir o plano que lhe dá sua realidade própria. (...) Por exemplo, os recém-nascidos são todos parecidos e não têm nenhuma individualidade; mas eles têm singularidades, um sorriso, um gesto, uma careta, acontecimentos, que não são características subjetivas. Os recém-nascidos, em meio a todos os sofrimentos e fraquezas, são atravessados por uma vida imanente que é pura potência, e até mesmo beatitude."

Aula de 24/07/1995 – A imagem-afecção

“O nosso rosto traz com ele três funções: produzir comunicação, produzir socialização e produzir individuação. E esse rosto tem que estar preparado para participar de uma comunidade, para participar de um campo social. Mas o afeto despersonaliza o rosto. Vejam: o filme é A Paixão de Joana D'Arc, o nome da atriz é Falconetti. É um filme mudo. Não se preocupem com o que está escrito, preocupem-se com os rostos. O rosto se despersonaliza para poder expressar somente afetos. Ele é pura expressão de afetos. Começou a aparecer uma coisa muito difícil - é a noção de afeto, que está surgindo aqui. O afeto despersonalizaria o rosto. O rosto seria apenas um porta-afetos; e esses afetos nada teriam a ver com a história pessoal. Vejam o rosto... Olhem só! Olhem que coisa! Não há preocupação de personalização, há a preocupação do afeto. São apenas os afetos que importam: a paixão, o afeto... nada mais! (...) O que eu estou falando para vocês é que, quando nós convivemos dentro de um campo social, as nossas manifestações (que são sentimentos efetuando comportamento com aquelas três características do rosto) não são manifestações do nosso espírito - são manifestações de um eu social. O que eu estou chamando de espírito - e que é a expressão desses afetos - é a nossa singularidade: é aquilo que é único, é aquilo que somos nós - independentemente do campo social, independentemente do outro, independentemente da comunicação, independentemente da socialização, independentemente da individuação. Seria, por exemplo, alguma coisa que, ao longo de quaisquer 24 horas, aparecesse algumas vezes em nós, e - de repente - nós entrássemos em contato conosco mesmo e não nos importássemos com o outro, com o campo social, com a comunicação, com o mundo da socialização; e quiséssemos expressar a nossa singularidade.”

Aula de 20/07/1995 – Sombras e Imagens

“Nós, os homens, costumamos absorver o movimento que vem do mundo pelo nosso rosto. O nosso rosto é uma espécie de porta-sensibilidade. Pelo rosto eu vejo, sinto cheiro, sinto gosto, eu ouço... Então, o meu rosto é o meu ponto essencial sensório, mas que não tem a função de devolver movimento. Ele recebe o movimento e passa esse movimento para a parte motora, que devolve o movimento. Quando a parte sensória recebe o movimento e a parte motora devolve o movimento, isto se chama comportamento. (...) A função do rosto não é devolver movimento; a função do rosto é receber movimento. Mas o que vai acontecer, é que no primeiro plano o rosto vai devolver movimento. Mas quando é o rosto que devolve o movimento, ele não devolve movimento extensivo, devolve movimento intensivo: amor, ódio, desprezo, martírio, sofrimento ― e isso se chama afeto. (...) Quando o rosto quer devolver movimento, faz essa devolução por intensidade. E aqui vão aparecer os dois mecanismos de intensidade, que, neste momento, vamos colocar assim: o renascentista e o barroco. As duas maneiras do primeiro plano, ambas retomadas pelo cinema moderno”.

Aula de 19/07/1995 – Plano de imanência: esse turbilhão de luz

“Existe um pintor inglês, chamado Turner, que é um pintor de marinhas. E ele começou sua vida como pintor pintando fragatas no porto, naus no porto, nas calmarias, na brisa das primaveras... e depois, na segunda fase dele, ele evoluiu ― ou involuiu ― para pintar essas naus e fragatas no interior de uma tempestade. E na terceira fase, ele faz desaparecer todos os objetos: só existe uma tempestade de luz dourada (era a tela que eu ia mostrar para vocês!) onde não se pode distinguir nenhuma coisa, nenhum objeto, não há nenhum objeto para se distinguir... Só há aquele turbilhão de luz... um fulgor de luz dourada. Esse turbilhão de luz, esse fulgor de luz dourada chama-se Plano de Imanência ― e é a Natureza na sua origem. É um fulgor de luz dourada.”

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