Imagens-Deleuze, por Roger-Pol Droit

por Roger-Pol Droit | Trad.: Rodrigo Lucheta

 

Quando eu já não souber amar e admirar pessoas ou coisas (não muitas), me sentirei morto, mortificado.

Gilles Deleuze, Conversações.

 

Sem clichês calculados. Nenhum ponto de vista. De Gilles Deleuze me restam imagens de amador. Não são fotografias. Nada além de esboços mentais, que eu sou o único a ver. Eles têm para mim algo de amistoso, afetuoso, vivo e desfocado. Desfocado não significa impreciso ou descuidado, menos ainda “falhado”. É o próprio movimento da vida que é desfocado, sem bordas nítidas, sempre tremido. Os contornos se duplicam, triplicam, fimbriam e se desfiam. Difícil dizer. Não uma degradação, de maneira alguma a passagem de um estado estável, pleno, a uma situação de menor nitidez. Não. Um desfoque sempre aí, antes durante depois. O desfoque do movimento incessante, aquele que contém o mais  preciso dos gestos, o mais exato dos movimentos, um desfoque interno, “essencial”, ainda que ele seja justamente, sem dúvida, ligado à ausência de essência.

Dessas imagens, tentar dizer algumas palavras. Sem triagem, como isso vier. Também sem procurar compreender. Lembranças-telas.

O jogo das sete famílias

A primeira vez que encontrei Gilles Deleuze foi na casa dele em Paris, na rua de Bizerte, em 1974 ou 1975. Lembro-me somente que ele estava na cozinha e jogava com a sua filha o jogo das sete famílias. Ele ria. Não como as pessoas riem, mirando-se no fora e abrindo-se para fora delas mesmas pelo riso. Ele, ao contrário, ria de dentro. A voz, o olho, o inclinado da cabeça – como algum olhar aliás, todo Deleuze era atravessado pelo riso de dentro [que] o fazia circular, o deixava escapar sem cessar. Como se ele tivesse vivido na borda do riso, empurrado pelo riso, segurando-se com dificuldade de tempos em tempos nas palavras e nas coisas.

Bizerte era bizarro. O nome como o lugar. O nome evocava para mim, sem que eu saiba bem como, o Oriente, a Legião, tempos indistintos dos impérios coloniais desaparecidos. Aquele lugar era um parêntese. Entre lugares definidos – Batignolles, Rome,  rue des Dames, Ternes -, ele parecia pousado, sem identidade.

Por que eu tinha ido vê-lo? Nenhuma lembrança. Somente a cozinha e o autor de O Anti-Édipo, diabo pensador que diziam perverso: jogando com a sua filha o jogo das sete famílias. Acho que ele me tinha feito esperar, porque a pequena se divertia, ela devia ter uns seis ou sete anos, a partida não tinha terminado.

Eu não sei se isso tudo é verdade. Ninguém poderá verificar. Isso seria aliás absurdo. Nenhuma importância. Está tornado verdade, em imagem.

A lagosta apaixonada

Outras cenas são vagas. Deleuze em La Lorraine. Eu me perguntava por que ele gostava tanto dessa cervejaria. Ela me parecia fria, impessoal, desinteressante. Alguma coisa de Paris antes da guerra, que eu constato sem sentir. Meu pai também gostava desse lugar, pelas mesmas razões, sem dúvida, que me escapam. Da rua de Bizerte, ao longo das outras visitas, mais tarde, eu guardo a imagem de um veludo grená, um curioso móvel de madeira negra e de veludo, um pouco anos 30, um pouco bordel e burguês e ao mesmo tempo deslocado. Acho que vi esse móvel (ele mesmo? esse precisamente?) há alguns meses na vitrine de um antiquário do Marais e aquilo me deu uma estranha emoção: quase comprei-o, mas depois preferi caminhar pela rua como se isso substituísse.

O que me resta desses anos, por volta de 1975, é – entre outras – a imagem de um almoço. Não era em La Lorraine. Eu tinha proposto a Deleuze assinar um volume de diálogos numa coleção que eu havia preparado com um amigo da Flammarion. A ideia era fazer falar um pesquisador sobre o seu itinerário, incitá-lo a responder questões mais ou menos embaraçosas sobre seu percurso teórico e deixar-lhe um espaço para esboçar oralmente projetos que ele talvez não tivesse tempo de escrever. Deleuze tinha decidido realizar esse livro com Claire Parnet. Eu evidentemente escolhi deixá-los trabalhar como quisessem.

Diálogos é um belo texto. Sinto-me feliz que essa cumplicidade tenha sido perseguida bem depois, até a série de TV intitulada Abecedário. No momento de concluir esse projeto, Deleuze estava mergulhado nas análises do devir-animal e das máquinas desejantes. Ele propôs que fôssemos comer na Lagosta Apaixonada. Esse restaurante, ao lado da Place des Ternes, era então de um gordo chef que fazia muito o estilo Falstaff e colocava conchas de creme fresco com conhaque nos molhos.

Uma coisinha

Momentos curiosos como cascas de enigmas, grãos de mistérios sem conteúdo, embaraços sem objeto – segredos sem importância… Eu não sei ao que correspondiam, em Deleuze, essas passagens de pequeno segredo, essa vela para nada. Acredito mesmo, graças a ele, que perguntar ao que “corresponde” uma conduta é uma inconveniente maneira de colocar a questão, uma fabricação de falsos problemas.

Entre as imagens que vêm, esse telefonema estranho, alguns dias ou semanas após a Lagosta Apaixonada:

Bom dia, é Gilles Deleuze (ele acentua as primeiras sílabas de uma maneira quase suíça). Eu queria lhe dizer que os contratos estão assinados. Foram muito gentis na Flammarion. Enfim, teve uma coisinha, mas verdadeiramente sem importância. Não, eu prefiro não lhe falar. Isso põe em causa uma pessoa que você conhece bem,  então me aborrece, e isso verdadeiramente não tem nenhuma importância, eu lhe garanto, isso não tem nenhum interesse.

Lembro-me de ter me contido para não parecer muito irritado. Ou tinha havido um incidente, e então ele devia falar-me – já que tinha decidido começar a dizer. Ou então ele se calava porque não havia acontecido nada – ou porque isso não tinha realmente nenhuma importância. Então eu sutilmente tentava falar-lhe, cobrindo tudo tão gentilmente quanto possível. Nada feito. Finalmente, propus falar-lhe exatamente dali a um ano, para saber do que se tratava. Nesse ínterim o manuscrito já estaria entregue e o livro sem dúvida publicado. Assim, ele poderia me pôr a par do assunto sem o mínimo inconveniente. Essa solução o havia divertido.

Um ano depois, de minha parte, eu havia “mudado de vida”, como se diz. Não lhe telefonei como havíamos combinado. Sem dúvida jamais saberei do que se tratava. De todo modo, isso não tem importância. É uma coisinha.

As duas linhas

Foi bem mais tarde que eu descobri o amigo. O quanto Deleuze era atencioso, com qual exatidão ele sabia ler e aconselhar, ou antes incitar, estimular, fazer cada um seguir o seu caminho – ajudar nisso sem parecer. Ou, ao contrário, tendo o ar de aí possuir longo saber. A maneira como ele me disse um dia,  no fim dos anos 80, a respeito de Schopenhauer, a quem eu começava a dedicar alguns trabalhos: “É um homem para você”, coisa que me deixava estupefato. O que ele queria dizer exatamente? Ou antes: o que ele sabia disso? Por quê? Como? Seria mais que uma palavra ao vento, um julgamento ao acaso? Seguramente não – mas ignoro sobre o que ele poderia se fundar. Antes de tudo, ele me conhecia pouco. Como ele teria percebido?

Lembro-me de um outro almoço (de 92, de 93?), bastante longo, que deve ter terminado depois de umas quatro horas, após quantidades consideráveis de salmão defumado, cigarros e conselhos inteligentes. Deleuze comentava uma frase, para mim enigmática, de uma carta que ele havia me enviado. A respeito de minhas pesquisas sobre a Índia ele me explicava que havia, a seu ver, “duas linhas” em obra no meu trabalho. Grosso modo, no que eu retive, ele queria me dizer que eu podia ou seguir trabalhos de historiador relativos à evolução das representações europeias da Índia, ou utilizar o que eu sabia das doutrinas indianas para perturbar um pouco a filosofia. Não segui senão a primeira linha.

A cada vez, com Deleuze, junto dele, no tempo de uma conversa ou de uma aula, a impressão era sempre parecida: uma aceleração da inteligência. De repente, se pôr a pensar, a compreender, a pegar linhas e segui-las, a velocidade crescente. Intensificação imediata da mobilidade. Depois, sentia-me completamente estúpido… Onde isso acontecia?

A mesma coisa lendo-o. Sempre um efeito de agitação, alguma coisa de vibrante. Um efeito feliz, uma leveza arejada, colocação em movimento de partículas de ideias-corpo. Quando leio Deleuze, eu ouço sua voz nas frases.

 O pulôver extraterrestre

Sua voz tem uma fonte alta. Era esta, a imagem: a voz descendo entre as pedras, carregando grãos de areia, poeiras de rochas – pequeninas coisas, partículas, mas provindo de uma montanha interna bastante alta e pura, sem que ela se sobreponha a nada. Pergunto-me se não era isso que escutávamos primeiro: tanto sua voz quanto o que ela dizia, como se as duas coisas avançassem juntas, próximas e paralelas, distintas apesar de tudo.

Lembrança de um grande anfiteatro, em Paris, após a morte de François Châtelet. Deleuze, ainda que quase já não saísse, tinha vindo de micro pulôver vermelho e pronunciado o que depois tornou-se Péricles e Verdi. O pequeno pulôver estava em baixo da tribuna, mas a voz das alturas tomava toda a sala sob seu fluxo hesitante. Era uma hesitação muito curiosa, pois a voz de Deleuze dava, ao mesmo tempo, a impressão de poder interromper-se no instante seguinte e a certeza de continuar. Como a vida.

Como o corpo. O corpo de Deleuze era extraterrestre? Diversos traços poderiam fazer crer que ele não era rigorosamente conforme aos hábitos mais disseminados na espécie humana. Frequentemente o corpo de padres, monges, espiritualistas e crentes atestam contra a sua própria fé. Ao contrário, com Deleuze, ateu, o corpo na imanência deixava à evidência da alma um lugar móbil e singular.

Cada vez mais livre?

Último encontro em Bizerte:

Eu quase não saio mais. Algumas vezes dou uma volta no quarteirão. Mas você sabe, desde que passei a me mexer menos, sinto-me cada vez mais livre. Assim, quanto mais meu espaço se restringia, mais a liberdade de movimento tornava-se grande.

Último apelo antes que ele fosse morar na avenida Niel:

Você mudou-se também? Eu não começaria. Não poderia refazer tudo, tecer mais uma vez, é muito difícil, estou muito velho, eu não poderia, tenho medo.

Foi a primeira vez, a única aliás, em que o ouvi parar.

As visitas que fiz a Deleuze na avenida Niel não foram numerosas. Suas cartas nesses anos finais são todas tão calorosas e belas quanto  eram difíceis os momentos de encontro, interrompidos, incertos tanto na duração quanto no tom. Na última vez ele estava ligado ao aparelho de respiração por um longo tubo verde que o permitia mexer-se, apesar de tudo. Não gostei de ver o esforço terrível que ele fez, sem conseguir chegar a colocar-se de pé.

Sem entrevista

A ideia de entrevistá-lo era para mim perfeitamente excluída. Não é muito cômodo entender porquê, mas isso fará talvez a imagem. Nenhuma interdição, evidentemente. Entrevistei muitos filósofos e entendi vários livros de Deleuze. Nada de tão impossível, factualmente. Ideia entretanto excluída, totalmente, por razões às vezes evidentes (eu sempre soube que ele não seria questão) e muito obscuras (eu não sabia ainda como formulá-las, mesmo de maneira aproximativa). Deleuze, eu poderia escrever a seu respeito, receber dele algumas linhas manuscritas, daquelas que contam em uma vida, mas a conversa não era pública.

Talvez isso tenha também a imagem produzida pela voz: não se trata de um pensamento, não é um escrito simplesmente, nem mesmo a filosofia: mas somente o desvio, o vibrato da altura, o outro nome do rir.

Roger-Pol Droit


 

Texto publicado pela primeira vez em Tombeau de Gilles Deleuze, dir. Yannick Beaubatie, Tulle, Mille Sources, 2000.

Extraído do livro Deleuze Épars. Bernold, André & Pinhas, Richard (2005): (comps.) Déleuze épars, Hermann éditeurs, Paris. 

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