Ulpiano disseminou à sua volta uma ética do pensamento e da existência que tem na afirmação da vida sua bússola maior

Personagem brilhante e de vasta erudição, Ulpiano dedicou sua existência à formação filosófica de várias gerações. Além de seu ensino na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, seu tempo era integralmente dedicado a uma infinidade de grupos de estudo, cujos membros provinham de vários âmbitos da cultura. Tive a oportunidade de participar de vários deles no Rio de Janeiro e, inclusive, de organizá-los em São Paulo. Tive também o privilégio de ser um dos membros da banca de exame de sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas.

Além destes grupos, que se reuniam regularmente e por vários anos, o professor tinha em torno de si inúmeros jovens estudantes, artistas, músicos, poetas, cientistas e outros que se instalavam em sua casa, varando noites com leituras e discussões. Mais do que apenas transmitir conteúdos ou uma erudição filosófica estéril, Ulpiano disseminou à sua volta uma ética do pensamento e da existência que tem na afirmação da vida sua bússola maior. A singularidade e a generosidade desse modo de funcionamento produziu no ambiente cultural da época efeitos que ainda hoje reverberam (muitos de seus alunos participam da vida cultural do país na atualidade com trabalhos expressivos nas áreas terapêuticas, artísticas e acadêmicas).

Tendo sido esse o principal modo de expressão de seu pensamento, Ulpiano deixou poucos textos escritos. Essa seria uma razão suficiente para que um arquivo de suas aulas fosse constituído. No entanto, mais do que suprir a « falta » de publicações do filósofo, é a própria forma de suas aulas que merece registro. Trata-se de manter viva a potência de convocação do exercício do pensamento a partir das demandas da vida e para (e não sobre) elas é que pulsava em suas aulas e discussões com os alunos.

Reativar tal potência certamente produzirá efeitos nas gerações presentes e futuras.

Uma última observação: um dos autores preferidos de Ulpiano era Félix Guattari que o conheceu por meu intermédio e tinha imenso apreço pela leitura que fazia de sua obra e pelo modo como a transmitia. No entanto, a biografia cruzada de Gilles Deleuze e Félix Guattari escrita por François Doss (Éditions de la Découverte), traduzida em vários idiomas (no Brasil pela Editora Artmed), não deu a Claudio Ulpiano o lugar privilegiado que Guattari lhe atribuía entre os estudiosos de sua obra, no Brasil e fora dele. Por ocasião da publicação deste livro, apontei este fato para o autor e lhe sugeri que reescrevesse o capítulo sobre Deleuze e Guattari no Brasil. O autor pediu que eu o fizesse, e utilizei meus dois meses de estada em Paris a convite do Institut National de l’Histoire de l’Art, em 2007, para fazê-lo. Dosse acabou aceitando apenas as mudanças relativas às passagens que diziam respeito à minha relação com os biografados. Assim sendo, o acervo das aulas de Ulpiano contribuirá para suprir essa grave lacuna, inserindo sua produção no cenário internacional entre os melhores pesquisadores das obras de Deleuze e Guattari.

Por essas e outras razões, impõe-se, a meu ver, a necessidade incontornável de construção de um registro deste legado.

Suely Rolnik

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