Velocidade e Acidente Integral – entrevista de Paul Virilio

A velocidade é um imperialismo tirânico, dominadora da organização social e do controle político. Uma nova democracia virtual, cibernética, ameaça a liberdade por meio do reflexo condicionado. As sondagens substituirão a eleição. O homem-prótese se alimentará de comida energética e criará um novo gênero humano. A bomba atômica, a bomba informática e a bomba genética, vaticinadas por Einstein, estão no meio de nós. É imperativo estabelecer uma inteligência política do tempo. O acidente integral é a nova arma fatal, global, ambicionada pela grande potência – os Estados Unidos. Os alertas, quase infindáveis, provêm do francês Paul Virilio, urbanista de formação e, sem dúvida, um dos pensadores mais originais, ousados e corajosos da paisagem intelectual francesa. Autor do ruidoso livro Velocidade e Política, de 1977, Virilio tem, desde esse tempo, desenvolvido seus estudos sobre o que denominou de “dromologia” (ciência da velocidade) e suas variantes, em inúmeras obras (Estratégia da decepção, A máquina da visão, A bomba informática, ou O espaço crítico e as perspectivas do tempo real).

Habituado à catilinária de seus opositores, que o acusam de “apocalíptico e fatalista” ou reduzem seu inimitável currículo intelectual às alcunhas de “pensamento-óvni” ou “teólogo da Idade da Mídia”, Virilio não desarma sua vigilância diante de nenhuma provocação. Sua missão no campo das ideias se impõe também como estratégia quase militar. “Sou um resistente”, diz, com a determinação de quem conhece a iniquidade da guerra, as preferências da mídia e as intemperanças do pensamento único. Em uma longa conversa, assentado num de seus bistrôs favoritos no Boulevard Raspail, em Paris, Paul Virilio fez a retrospectiva e a predição de suas inquietantes teses. Ao término do encontro, após nossas despedidas na calçada, enquanto já caminhava distante alguns passos, ele virou o corpo repentinamente para pronunciar uma derradeira frase, gravada pela fina chuva que caía com a noite: “Sejamos resistentes!”.

Fernando Eichenberg: O senhor se refere constantemente ao imperialismo da velocidade. Diz que lutamos contra a tirania do tempo real. Como foi que chegamos a esse estágio ou a esse fim?

Paul Virilio: O mundo todo é consciente de que há uma economia política da riqueza. O poder está ligado à riqueza. Mas se esquece de dizer que a riqueza está ligada à velocidade. Na época greco-latina, os banqueiros eram cavaleiros ou navegadores. A mais-valia estava ligada à velocidade dos navios no Mediterrâneo – reler Fernand Braudel – ou à velocidade dos cavaleiros, aqueles que levavam as mensagens, transportavam as ordens. Quando se diz que tempo é dinheiro, quer-se dizer que a velocidade é poder. Desde os anos 1960, interesso-me por essa ciência – ainda não é ciência, mas poderá se tornar uma -, a que chamei de dromologia. Dromos vem do grego e significa “corrida”. Durante 25 anos tentei mostrar como, por meio da velocidade dos transportes, a velocidade fez história da mesma maneira que riqueza. Não se pode separar as duas. Evidentemente, há também a velocidade de transmissão: o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fio, enfim, o rádio, a televisão e, hoje, a Internet. A velocidade dos transportes foi ultrapassada por uma velocidade absoluta, de ondas eletromagnéticas, que possibilitam a telecomunicação, o teletrabalho, a teleatividade e também a estratégia.

Fernando Eichenberg: Estratégia em que sentido?

Paul Virilio: Minha consciência da velocidade é devida ao fato de eu ser o que se chama na França de um “intelectual de defesa”. É uma denominação bem francesa para dizer que há civis que têm um conhecimento e uma cultura militar que lhes permitem dialogar de igual para igual com generais e almirantes. Minha compreensão da velocidade se fez também porque sou um warchild, um filho da guerra. Vivi as blitzkriege [velozes ataques aéreos nazistas]. Era criança na Segunda Guerra Mundial, mas consciente da rapidez da ameaça da ocupação. Dei-me conta de que não se podia compreender a história econômica nem a história estratégica sem a força da velocidade. A velocidade da cavalaria fez história desde Gengis Khan. Sem esquecer “meu reino por um cavalo”, de Ricardo III, de Shakespeare. O preço de um cavalo de corrida na Idade Média, de um cavalo de guerra, equivalia ao preço de uma província. Por quê? Porque a velocidade é o poder. A cavalaria representou esse poder antes da chegada dos tanques soviéticos ou dos aviões de combate da Segunda Guerra. A dromologia se dá entre a economia política – não somente da riqueza, mas também da velocidade -, a geoestratégia e a geopolítica. Não se possui um território se não se é capaz de percorrê-lo o mais rápido possível.

Fernando Eichenberg: O senhor diz que atingimos o limite, a barreira da velocidade.

Paul Virilio: Conquistamos a velocidade da luz, a velocidade absoluta. Todas as revoluções anteriores trataram da velocidade relativa. As velocidades do cavalo, do trem, do avião e mesmo a do supersônico são relativas. Com as transmissões eletrônicas ao vivo alcançamos o muro da velocidade, o muro da luz. Lembre-se de que há três barreiras: a do som – ultrapassada nos anos 1950 -, a do calor – a velocidade de liberação, ultrapassada pelos foguetes a 28 mil km/h, e a velocidade de escape, a 40 mil km/h, que permite ir à Lua -, e, por fim, a barreira da luz, as ondas eletromagnéticas. A única coisa que ainda não atingiu a velocidade das ondas eletromagnéticas é o cálculo do computador. Os computadores eletrônicos ainda são muito lentos. Por isso que se tenta inventar computadores quânticos. A velocidade de cálculo não está à altura da velocidade de transmissão. No dia que tivermos um computador que calculará à velocidade da luz, sua potência será infinita. A revolução não é apenas industrial, mas também dromológica, revolução da velocidade.

Fernando Eichenberg: Qual é o limite?

Paul Virilio: Atingimos o limite num planeta reduzido; o planeta Terra é pequenino. A velocidade da luz no universo não é nada: são necessários muitos anos, mesmo à velocidade da luz, para ir ao fim do universo. Mas o mundo nós reduzimos. A globalização é uma clausura. Somos hoje como peixes numa redoma, numa terra extremamente pequena. Para as telecomunicações, a Terra é muito pequena. Tudo vai muito rápido. Hoje há duas ecologias: a ecologia verde, que se interessa pela poluição das substâncias – do ar, da água, da fauna e da flora -, e a ecologia cinza, que se preocupa com a poluição das distâncias, a redução a nada das distâncias no mundo. Ora, o homem não vive somente de ar puro, de água, de carne; nós vivemos também de distâncias. Temos necessidade de distância, senão é o encarceramento, o sentimento de aprisionamento. Michel Foucault disse que o século XVIII era o século do grande aprisionamento. Não é, pois ele ainda está diante de nós. Amanhã, a humanidade vai se sentir aprisionada numa Terra infinitamente pequena, sabendo que não há nenhum planeta habitável à volta. Esse sentimento corre o risco de ser um dos dramas do futuro, um tipo de claustrofobia da humanidade. Não somos apenas animal, mas também geometral. Somos proporções. As proporções fazem parte da vida, tanto geográficas quanto humanas, fisiológicas. O fato de ter atingido a velocidade da luz nos coloca numa situação do peixe contra o vidro da redoma.

Fernando Eichenberg: Com essa revolução da velocidade, como fica o tempo da História?

Paul Virilio: A partir do momento em que atingimos a velocidade da luz, o live [ao vivo] se torna o tempo de referência da história, o tempo real. O live, a instantaneidade, o imediatismo, a ubiquidade se tornam o espaço-tempo da História. Não vivemos mais o tempo local. A história do Brasil não é a história de Paris. A História se escreve no tempo local, no tempo das regiões, a dos países. No entanto, hoje, conta o tempo global, o tempo mundial, aquilo a que os astrônomos chamam de tempo astronômico. Existe um tempo astronômico da Terra que não é o mesmo da Lua ou de Marte. Hoje, por causa do tempo real, o tempo astronômico passou a dominar todos os tempos locais. Estamos à beira de um novo tempo. Não é o fim da história, como disse o historiador norte-americano Francis Fukuyama; isso é totalmente idiota. É o fim de um tempo histórico. O tempo histórico de Fernand Braudel, de grandes historiadores, era o tempo local. Hoje o tempo é global. Não se pode entender a globalização, o mercado único, sem pensar que há um tempo único. Quando se diz que há um pensamento único, um mercado único, é porque há um tempo único.

Há aquela frase em Hamlet, de Shakespeare: “O tempo está fora de lugar”. A Terra gira. Há o dia, a noite, e um outro dia. Esse é o tempo local, o tempo dos fusos horários. O próprio do tempo astronômico, do tempo mundial, é que ele não tem nada a ver com o eixo do tempo e dos dias. Ele está no imediatismo, na ubiquidade e na instantaneidade. O que acontece nos bancos? Sete dias sobre sete, 24 horas sobre 24 horas, live. As cotações são automáticas em todas as bolsas do mundo, instantâneas. Não há mais dia e noite, há um tempo único. Antes, as bolsas estavam ligadas ao tempo local. Hoje, temos os satélites. O primeiro satélite civil foi lançado pelo Citibank, para poder interligar seus bancos.

Fernando Eichenberg: A teoria diz que o progresso da velocidade técnica deveria ser acompanhado pelo progresso da democracia. Como é, na prática?

Paul Virilio: Não há democracia automática. Mesmo a democracia direta, nos cantões suíços, é uma democracia feita por meio da reflexão comum. Depois da reflexão, as pessoas se reúnem numa praça de aldeia e levantam a mão para votar a favor ou contra. Hoje, tenta-se implantar uma democracia virtual, equivalente às sondagens da televisão: o voto será substituído pelas pesquisas. A reflexão em comum será substituída pelo reflexo condicionado. Chegaremos a uma democracia ultrarrápida, de resultado imediato, mas não será uma democracia. Será uma democracia cibernética. O reflexo é algo que condiciona a opinião. Vê-se isso muito bem nas pesquisas de opinião, que não têm nada a ver com a sofisticação da inteligência democrática; é um fenômeno publicitário, televangelista. Como nos programas de auditório: “Vocês são a favor de Milesovic? A favor do genocídio? Não?”. Isso é uma negação da democracia.

Há, hoje, a ameaça da substituição da democracia por uma democracia virtual, isto é, uma democracia de reflexos condicionados. A palavra grega kybernos quer dizer “comandar”; a cibernética é a ciência da máquina da interface homem-máquina. Isso é maravilhoso, como provam o piloto automático e tudo o mais. Mas o inventor da primeira cibernética, Norbert Wiener, nos anos 1940 e 50, dizia que seu uso na política seria um horror. Hoje, por meio da Internet, estamos dizendo que será bom. Sei, como Norbert Wiener, que será uma tirania cibernética.

Fernando Eichenberg: O senhor denuncia as bombas atômicas, informática e genética, a que Albert Einstein chamou de demográfica.

Paul Virilio: Pouco antes de sua morte, Einstein disse que existem três bombas. A primeira é a bomba atômica. É a discussão nuclear, a política de blocos, o equilíbrio do terror, o complexo de destruição mútua assegurado. Vivemos durante trinta anos sob a ameaça da destruição pela bomba atômica. A segunda, diz Einstein, é a bomba da informação. A palavra “informática” não existia na época. Einstein diz: “Quando todo mundo souber tudo, será terrível”. Não podemos saber o que isso significa: a possibilidade de uma informação mundial, e não simplesmente de uma informação local, ligada a uma classe política, a uma nação, a uma elite, religiosa ou civil. E Por fim, ele diz que a terceira será a bomba demográfica. Ora, estamos entrando na era da terceira bomba. A bomba informática está explodindo por meio da Internet, em particular, e por meio da globalização. Quando o computador foi inventado, ele serviu às pesquisas militares sobre a bomba atômica. Bomba atômica e bomba informática reforçam-se mutuamente.

Por que hoje, à parte Índia e Paquistão, não se fazem mais explosões atômicas? Porque podemos simular num computador o resultado de uma explosão nuclear. Ao mesmo tempo, a bomba informática prepara a terceira bomba, a bomba genética. Einstein via a possibilidade de uma demografia galopante. O que vejo é a ameaça de decodificação de milhares de genes que integram a árvore da vida, o DNA, e a possibilidade de uma biotecnologia do ser vivo. A bomba informática permitirá, no futuro, a industrialização, a programação do ser vivo. As três bombas de Einstein já estão entre nós.

Fernando Eichenberg: Como se desenvolverá a terceira bomba, a genética?

Paul Virilio: É muito simples. A ameaça demográfica é uma realidade. Não se pode entender a seleção genética sem a vontade de haver uma eugenia que permita eliminar os menos bons. A seleção natural é Darwin, e a seleção artificial é Galton [Francis Galton, cientista e explorador inglês cujos trabalhos sobre hereditariedade conduziram ao desenvolvimento da eugenia]. Não podemos interpretar as pesquisas genéticas, as experiências transgênicas a não ser como uma forma de eugenia artificial, de seleção. Chegamos a um ponto no qual, diante de um aumento demográfico, da bomba demográfica, a possibilidade de uma seleção dos melhores e da eliminação, entre aspas, dos ruins está de novo em pauta. É um novo tipo de seleção. Não mais racista, no sentido de raça, mas no sentido do gênero humano.

Se continuarmos com a bomba genética teremos diferentes gêneros humanos. No momento, temos várias raças, mas um só gênero humano. Nenhum racista diria que um negro não é um homem. Ele pode dizer que ele é ruim, ele é negro, mas é um homem. Quando tivermos seres originados da mulher e seres fabricados em laboratório, teremos dois gêneros humanos.

Estamos bem no meio das três bombas de Einstein, e a informática foi o meio para tudo isso. Referi-me à potência de um computador. Um computador é a sua potência de cálculo, e, dito de outra forma, sua velocidade. Estamos entrando num novo século inquietante, porque depois da industrialização dos objetos, no século XIX, prepara-se a sucessão para a industrialização da vida. Conheço o doutor Jacques Testard, um dos pioneiros nas pesquisas com bebês de proveta, in vitro. O primeiro bebê de proveta foi feito para ajudar a procriação de casais que não podiam ter filhos. Mas um dia ele vou chegar jovens saudáveis que disseram: “Queremos um bebê”. Ele respondeu: “Mas vocês não têm nenhum problema. Basta uma cama, e pronto”. “Mas não é a moda?”, retrucaram os jovens. Ele parou de fazer pesquisas genéticas.

Fernando Eichenberg: Será a revolução do homem-prótese?

Paul Virilio: Depois da revolução industrial e da revolução de transmissão, prepara-se a revolução de transplantação – a possibilidade de anexar próteses ao corpo do homem por meio de transplantes de órgãos animais, mas também outros, como estimuladores cardíacos. E logo virão aceleradores, memórias adicionais e computadores implantados atrás da orelha. O estimulador cardíaco foi feito para os doentes, e agora preparamos estimuladores para ser mais forte, mais Rambo, rápido e mais interativo com a máquina. No futuro, o homem também será alimentado pela comida energética ou eletrônica. Estamos nesse caminho. É uma ameaça para o ser, o homem de carne e osso, o homem, entre aspas, natural, em proveito do mito do super-homem, mito fascista por excelência. Cada vez que falamos de um homem superior, o fascismo   retorna. O fascismo está ligado à vontade de poder do Ocidente, à performance e à potência puras. Não enxergamos o que há de profundamente contemporâneo no fascismo. Não tem nada a ver com Hitler e a cruz gamada. É pior, pois vem de todo lado, por meio da performance técnica. É o que se vê hoje na engenharia genética, nessa ideia de uma humanidade superior melhorada pela ciência, o retorno do eugenismo. É uma das ameaças do século XXI.

Fernando Eichenberg: O que é “o acidente integral, geral”, que o senhor considera outra grande ameaça para o ser humano desse novo milênio?

Paul Virilio: A interatividade está para a informação como a radioatividade está para a energia na bomba atômica. O feedback da informação em escala mundial é um potencial comparável à radioatividade da arma atômica. Uma energia colossal. É por isso que Einstein tem razão ao usar o termo “bomba”. Com relação ao acidente, é preciso dizer que não há ganho sem perda. Cada vez que se inventa um objeto técnico, inventa-se um acidente. Quando inventamos o navio, inventamos o naufrágio. Todos os navios são passíveis de afundar, porque flutuam. É o Titanic. Os aviões comportam a potencialidade de cair. É inevitável. Inventar hoje um avião de mil lugares é inventar um acidente de mil mortos. Não sou pessimista, é uma realidade. Se amanhã inventássemos um avião que pudesse transportar seis bilhões de passageiros, a população da Terra, o acidente seria o acidente da humanidade. Quando inventamos o trem, inventamos o descarrilamento. Se houve um progresso do trem, é porque criamos uma lógica do trajeto, a engenharia de tráfego. No século XIX, os trens descarrilavam seguidamente. Em 1890, foram reunidos em Bruxelas os responsáveis das companhias ferroviárias europeias, e eles inventam o bloc system, o sistema de sinais que organiza a circulação dos trens. Com isso foi possível desenvolver a velocidade dos trens e construir uma rede ferroviária. Inventou-se algo extraordinário: o tráfego.

Até então, o tráfego não existia. Só existiam viagens. Viajava-se de trem. Mas o trem não é uma viagem. Se você vai a Santiago de Compostela à pé, com seu bastão, é uma viagem. Se você entra num vagão de trem, você não está em viagem, está no tráfego. Se caminho na calçada e esbarro numa mulher, não é um tráfego, é um acidente de circulação, não é perigoso. Mas, se estamos cada um num carro, são duas mortes. Veja até que ponto a velocidade modifica o que não era nada. A velocidade dá uma força dramática ao transporte. Antes tínhamos acidentes locais. O trem descarrilava em determinado lugar, um navio afundava em outro. Nossa época inventou o acidente global. O acidente pode se produzir de uma só vez, no mesmo instante. O bug, por exemplo, é um erro de programação. Fixamos a data do acidente, e, mesmo que não tenham ocorrido maiores estragos, gastaram bilhões de dólares para evitar uma catástrofe.

Hoje, no século XXI, entramos na possibilidade de acidentes cibernéticos, que dirão respeito ao mundo inteiro, acidente integrais. O crack da bolsa é a imagem desse tipo de acidente. Com a recente crise na Ásia, passou-se a falar de risco sistêmico, o efeito de reação em cadeia, interatividade-radioatividade. Não digo isso porque sou apocalíptico ou triste. Digo apenas que os navios afundam, os aviões caem – é de sua natureza. Será preciso efetivar uma inteligência do acidente, que será uma inteligência da velocidade. A velocidade está na base de todos os acidentes.

Fernando Eichenberg: Como deverá ser essa inteligência da velocidade?

Paul Virilio: Será preciso entrar numa inteligência política do tempo. O tempo está na base da História, mas o tempo cronológico, não o tempo da aceleração. O live, o tempo real, é a aceleração da realidade histórica. Não é mais a história do passado, do presente e do futuro que é acelerada, mas a própria realidade. Atingimos o estágio de necessidade de uma economia política da velocidade. Essa inteligência é um trabalho a ser feito no espaço-tempo. A relatividade de Einstein, que era uma visão astronômica, terá de ser estudada em nível físico, da vida cotidiana. Como uma ciência política da aceleração. Aprendi a dirigir no serviço militar, num caminhão. Comecei com 30 km/h e, pouco a pouco, aprendi a velocidade. E evitava os acidentes. Conduzir, pilotar, nada mais é do que evitar acidentes. Como evitar acidentes? Aprendendo a conduzir não apenas carros e caminhões, mas também relações sociais. Mais um exemplo: a revolução industrial promoveu a estandardização dos produtos e também das opiniões. À revolução informacional, vemos acrescentada a sincronização: o tempo foi estandardizado, industrializado, por meio da sincronização. O tempo das relações foi estandardizado.

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Fernando Eichenberg: O senhor não trata do sujeito ou do objeto, mas do trajeto.

Paul Virilio: Há dois aspectos importantes na filosofia: o sujeito e o objeto, objetividade e subjetividade. Nenhum dos dois é completo sem o trajeto. O trem e a via férrea não são tudo: o essencial é o trajeto. Ser humano é ser trajeto. Ao lado da subjetividade e da objetividade deve emergir o que chamo de trajetividade. Nesse momento, poderemos ter uma inteligência do ser vivo, que será uma inteligência dromológica. Um cavalo em si não é um trajeto. Quando Ricardo III diz “Meu reino por um cavalo!”, não é o animal que ele quer, mas o trajeto; um cavalo que corra, um cavalo de guerra. Somos vivos e somos velocidade. Nosso trajeto se liga à nossa vida, nossa vivacidade.

Fernando Eichenberg: O mundo virtual não acabou com o trajeto?

Paul Virilio: A realidade é composta dos dois, do virtual e do real. Não se pode colocá-los em oposição. Há uma virtualidade nos meus sonhos, no meu pensamento, que faz parte da minha realidade. A oposição é entre o real e o atual. O atual é a passagem ao ato. A novidade, hoje, é que tentamos construir um mundo virtual, uma realidade virtual, ao lado da realidade atual. A realidade, até o presente, falava de sonhos, da virtualidade, mas o essencial da vida ocorria na atualidade, na passagem ao ato.

Hoje, a indústria cibernética inventou instrumentos que fazem com que o virtual se desenvolva em concorrência com o atual. Vamos em direção a uma “estéreo-realidade”. Temos os graves e agudos, o hi-fi, a alta fidelidade. De um lado, o mundo atual dos graves, que continua a existir, é o mundo da geografia, da política, da vida. E, de outro, o mundo dos agudos, a realidade virtual. Algumas pessoas são capazes de viver no equilíbrio dos dois, estão no eixo entre os graves e agudos. Outras são completamente atraídas pelo virtual e adoecem de IAD, Internet Addiction Disorder [Transtorno do Vício da Internet]. Esse mundo da realidade virtual não vai desaparecer. Será necessário pilotá-lo, criar um tipo de equilíbrio entre os graves e os agudos.

Fernando Eichenberg: O senhor diz que os poetas, artistas, cineastas souberam ser homens de divergência e que a dúvida hoje é se os cientistas também saberão ser críticos.

Paul Virilio: Se não há ganho sem perda, não há progresso sem crítica. Aquele que critica é, na verdade, um inovador, um homem que favorece o progresso. É o caso do bloc system. Se os engenheiros não tivessem feito a crítica do tráfego, não teríamos o trem a grande velocidade, o TGV. Não sou pessimista, como muitos dizem, sou um adorador da técnica. Nunca disse que deveríamos retornar ao carrinho de mão.

Fernando Eichenberg: Mas o senhor diz que devemos tomar a escada, em vez de usar o elevador.

Paul Virilio: Disse simplesmente que há uma perda, algo grave. Quando se inventa o elevador, perde-se a escada. A escada continua a existir, mas as pessoas não a utilizam mais. É a lei da menor ação, do menor esforço. Diante de uma escada que vai ao segundo andar, ou mesmo ao primeiro, as pessoas tomam o elevador para não se cansar. A escada não é mais um elemento determinante da arquitetura. No passado, a escada era um dos elementos mais belos. Com o elevador, tornou-se escada de emergência, algo sem interesse, que ninguém utiliza, exceto quando há pane de eletricidade. A escada é desqualificada, desacreditada, considerada primitiva. Quando se inventa o jato que atravessa o Atlântico, perde-se o paquete, que se torna um navio de transporte de contêineres. Perde-se o navio e, com ele, o Atlântico, que se torna uma área de brinquedo – que as pessoas atravessam a remo, ou em pedalinho – e um lugar de riscos de poluição pelos grandes cargueiros. Antes, era o Oceano fabuloso; hoje é um gadget, perdeu sua qualidade. Se continuarmos assim, o mundo se tornará um mundo de emergência, um mundo desqualificado em prol de domínios virtuais, domínios de alta velocidade. Teremos perdido o mundo, teremos perdido a nós mesmos. Precisamos do trajeto, do percurso.

Fernando Eichenberg: Como o senhor, um urbanista, vê o futuro das grandes cidades, como São Paulo, por exemplo?

Paul Virilio: Vemos um fenômeno de metropolização nos países, de atração sobre algumas cidades. Havia na França doze metrópoles em equilíbrio. Hoje não há mais do que três. Algumas cidades, como Paris e Lyon, são lugares de atração em detrimento de outras cidades. Atração em termos de emprego, qualidade de vida. Assistimos a um movimento metropolitano em todos os países. É a metropolarização, ou metropolização. E o campo está sendo desqualificado, se tornando, como a escada, um campo de emergência: não mais do que um resto, usado somente para as férias, para o lazer. E antes era maravilhoso. São Paulo, Tóquio, Cidade do México, Londres, Bombaim, Calcutá são cidades que não são mais cidades: são catástrofes humanas. A socialização funciona ao inverso. Na cidade dissocializa-se, não se reproduz.

Mais o lugar de povoamento se estendeu, mais a unidade de povoamento, a família, se dissolveu. As sociedades antigas, nas aldeias, eram tribos. Depois chegamos ao burgo, com famílias maiores. Com a revolução industrial tivemos a família nuclear, pai-mãe-filhos. A revolução do século XX criou a família monoparental. Casal não coabitante faz amor e se separa. E as crianças são, como digo, peças desprendidas do amor. Não são mais descendentes. Na tribo se faz descendência: quanto mais se tem filhos, mais se é forte, maior será o poder de ocupação de um território, se poderá fazer cultura. Hoje é o contrário, atingimos a solidão. As crianças são abandonadas e se tornam animais selvagens. Quanto mais a cidade se desenvolveu, mais a família se dissolveu. Não por razões morais, mas de sobrevivência.

Fernando Eichenberg: Que sequelas causará a família monoparental?

Paul Virilio: O pior de tudo é o divórcio da copulação. Temos o divórcio do casal, a vida monoparental. De um lado, temos a sexualidade física, tradicional, feita sem nenhuma referência à descendência, à procriação. De outro lado, a Aids. O preservativo se torna uma questão de vida e morte. Não é mais um problema de sexo, de não geração, mas de sobrevivência. Entrevê-se a ideia de um preservativo universal, que impediria definitivamente a procriação. Há a bomba demográfica por trás disso. Agora, se inventa a cibersexualidade: viver sensações sexuais à distância. Isso é o divórcio da copulação. Se no futuro alcançarmos uma cibersexualidade muito sofisticada – e os japoneses trabalham nisso -, ela poderá ser superior à sensação física alcançada diretamente entre a mulher e o homem. A partir daí, é o fim. Chegaremos ao dia em que o gozo sexual será infinitamente superior na máquina do que no sexo do outro. Sem o prazer do sexo não há geração, não há demografia. Entra aqui de novo a engenharia genética. O prazer será com a máquina. Isso também é uma bomba.

Fernando Eichenberg: Qual é o efeito da velocidade e da bomba informática nas cidades?

Paul Virilio: É um outro fenômeno: o surgimento de cidades-mundo, um hipercentro no qual o centro está por toda parte e a periferia em lugar nenhum. Toda cidade possui um centro e uma periferia, no espaço real. Mas caminhamos para a constituição de uma cidade virtual. Um hipercentro do tempo real, criado por meio de satélites, cotações, velocidade da luz e tudo a que já me referi. Todas as metrópoles, megalópoles do mundo se tornam bairros residenciais de um hipercentro virtual, que está em todo lugar e em lugar nenhum. Isso é a urbanização do tempo real. Antes, a geografia urbanizava. Hoje, a geografia é urbanizada por meio das megalópoles e, além do mais, se urbaniza o tempo. O hipercentro virtual condiciona a qualidade da cidade. Singapura tem um satélite bem acima dela, que a torna uma cidade-mundo por meio das telecomunicações. Ela participa do hipercentro e, no plano geográfico, não é nada.

Fernando Eichenberg: Há ainda uma enorme distância de velocidade entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, entre o Norte e o Sul.

Paul Virilio: O fenômeno migratório sul-norte, por exemplo, tem uma explicação simples. Nos países pobres, as pessoas estão morrendo. Vivemos a eliminação do homem como produtor. O homem/mulher era útil por três razões. Primeiro, como procriador – a força da tribo é a força de homens que fazem filhos. Segundo, como força de trabalho – o produtor, o operário. Terceiro, como soldado – o destruidor, o grande guerreiro. A história do homem se desenvolve nesses três tipos. Hoje, o procriador está misturado à engenharia genética. Com o automatismo não se precisa mais do operário – o desemprego não é mais conjuntural, mas estrutural. E do guerreiro, vide a guerra do Kosovo: não se viu uma só vítima dos aliados.

Resumindo, o homem não serve mais como procriador, produtor ou guerreiro. Não serve para mais nada, pode ser eliminado: é simples. E há quem pense nisso. Isso é o fascismo, também. No passado éramos o centro do mundo. O homem era a medida do universo, a imagem de Deus. E hoje? Os habitantes de países pobres morrem de fome, não têm mais nada. Foram explorados pelos ricos e são conscientes de que diante deles não há futuro. Tentam sobreviver. Atravessam o estreito de Gibraltar em botes e morrem afogados. Embarcam agarrados nos trens de aterrissagem de aviões e morrem congelados. Meu pai era um imigrante italiano. Sou membro de associações que se ocupam dos sem-teto. Passei o natal com eles. Sei que é uma mutação, como a mutação industrial. Só que esta última transformava o camponês em proletariado. Necessitava-se de operários. As três utilidades do homem ainda estavam intactas. No fim do século XX, elas se acabaram. É uma constatação. Se não estivermos convictos disso, teremos o mesmo destino do que se passa na África e em outros lugares: populações inúteis.

Fernando Eichenberg: O senhor coloca o homem hoje entre duas escolhas: o integrismo técnico ou o Deus da transcendência.

Paul Virilio: Uma das questões da atualidade é o integrismo místico [apego demasiado à fórmula da religião]. Ressalto que sou cristão, convertido, sério. Meu pai era comunista, eu sou um homem de esquerda. Mas o integrismo místico é temeroso. Por meio do islã, do judaísmo e do catolicismo-cristianismo há possibilidade de guerras de religião, que são as piores: são guerras sem perdão. É uma grave ameaça. Vide a Argélia. Mas há também um integrismo da técnica, a crença num deus ex machina. Isso é o fascismo: crer num poder pelo poder, divinizar o poder, a tecnociência, a máquina. Não há ateus hoje. Há aqueles que creem em Deus e os que creem no deus-máquina, por meio da ciência. Não se pode idealizar a ciência. Do contrário, ela não será uma sabedoria, mas um delírio místico, deus ex machina.

Fernando Eichenberg:  O senhor alerta para a ameaça de uma retomada do complexo militar-industrial.

Paul Virilio: Ele foi relançado. Havia sido abandonado com a decomposição da União Soviética e o fim da política de blocos, mas foi retomado pelos Estados Unidos e vai deflagrar complexos militares-industriais em muitos outros países, como na China ou mesmo na Rússia. A guerra da Chechênia, de algum modo, é herdeira da guerra de Kosovo. As técnicas empregadas pelos russos são muito semelhantes às da Otan. A guerra do Kosovo não passou de uma guerra de enganos – todo mundo saiu perdendo, não somente os sérvios, mas também os kosovares. O único beneficiado foi o Pentágono, que fez o que se chama em termos militares de uma “manobra de armamento”. Puderam experimentar, testar tecnologias. Puderam também agir sem uma verdadeira direção política. Foi uma guerra sem chefes de guerra. Bill Clinton não foi o chefe. O caso Monicagate [a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky] o desacreditou como chefe de guerra. Foi uma guerra quase como um putsch, que escapa ao poder político. Foi iniciado um combate a uma purificação étnica feita pelo lado dos albaneses. Em resumo, o resultado é absolutamente nada. Isso é que é terrível.

Fernando Eichenberg: Como o senhor analisa a questão da informação na guerra do Kosovo?

Paul Virilio: A revolução da informação é também a revolução da desinformação. A censura, como nessa guerra, não se faz mais pelo menos, mas pelo mais. Nas sociedades antigas, a censura era a tesoura. Isso foi verdade até a época do império soviético. Hoje, censura-se pelo excesso de informação. Nos vemos diante de um tipo de confusão. Quando vemos como se desenrolou essa guerra, em relação à guerra do Golfo, percebemos que houve um certo televangelismo. Jamie Shea, o porta-voz da Otan, era um pouco o grande padre, como Billy Graham [pastor televangélico norte-americano]. Assistimos a algo como um televangelismo da guerra humanitária, que de algum modo mascarava o que estava em jogo. Vimos o começo da extrapolação da guerra clausewitziana [referência a Karl von Clausewitz, general prussiano que escreveu o tratado Da Guerra].

Fernando Eichenberg: Em que termos se dá essa extrapolação?

Paul Virilio: Clausewitz diz que a guerra é a prolongação da política por outros meios. Os norte-americanos experimentaram uma fórmula pós-clausewitziana: o acidente geral pode ser a prolongação da política por outros meios. A guerra total é uma forma de guerra integral que pode ocasionar até o fim do mundo. A guerra se torna exterminadora do mundo. Estivemos quase lá, primeiro com a guerra hitleriana, e, depois, com a dissuasão nuclear. Hoje, o acidente integral pode ser uma ameaça comparável à guerra total, atômica ou outra. A guerra do Kosovo utilizou armamentos que não têm nada a ver com os armamentos tradicionais. Vimos a destruição de centros de comunicação, da televisão de Belgrado, desligamento de satélites e, sobretudo, a bomba de grafite, que corta a eletricidade numa cidade.

Pode-se provocar um acidente integral simplesmente cortando a eletricidade num país. Os aviões caem, os trens se chocam, as pessoas morrem de frio, as fábricas param; é a morte. Isso foi testado com a bomba de grafite. É a militarização do acidente. Um acidente cibernético, um ataque às raízes energéticas de um país, aos seus meios de comunicação. Caminhamos rumo à dissuasão cibernética, que, de algum modo, recriaria para os Estados Unidos uma situação comparável aos anos pós-1945, em que os norte-americanos eram os únicos a possuir a bomba atômica.

Fernando Eichenberg: Não há mais conceitos de guerra justa e injusta?

Paul Virilio: Diz-se que essa guerra [contra a Iugoslávia] é a primeira na História na qual foram utilizadas em profusão armas de alta precisão. Parece uma afirmação banal, mas não é. Os norte-americanos querem apregoar que uma guerra é justa quando se mira justo, quando se pode colocar a bomba no olho de Milosevic, e no instante desejado. Veja a que ponto isso altera a noção de guerra justa e injusta. Quer dizer que a guerra justa é uma guerra de armas de alta precisão, ou seja, dos países mais sofisticados. É a invenção de um novo tipo de guerra justa, na qual a justiça dependeria da ciência dos armamentos. Isso é um evento considerável. Chegamos além de Clausewitz, da política. Atingimos a arrogância da época desenvolvida.

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Fonte da entrevista:

EICHENBERG, Fernando. Entre aspas: volume I. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

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