Gilles Deleuze: Carta aberta aos juízes de Negri

“Por que essas negações da justiça são doravante possíveis? Acreditamos que a imprensa, com raras exceções, desempenha e continua a desempenhar um papel enorme. Não é a primeira vez e, no entanto, talvez seja a primeira vez que ela procede dessa maneira sistemática e organizada. A justiça jamais teria podido abandonar seu princípio de identidade, o inquérito jamais teria podido abandonar seu princípio de exclusão, caso a imprensa não lhes tivesse oferecido o meio para fazer com que as faltas e o abandono das regras fossem esquecidos.”

Carta aberta aos juízes de Negri[i]

Pode haver um temor de que os atentados recentes atrapalhem um sentimento que deveio mais e mais premente no caso Negri: nada haveria nos dossiês da acusação, que conduziram à prisão de Negri e dos seus camaradas. A voz ao telefone não oferece indício algum, desaparecem os lugares em que Negri teria estado, os escritos de Negri não são mais resoluções das Brigadas Vermelhas, mas, ao contrário, análises graças às quais Negri se opõe às teses das Brigadas etc. Os juízes protelam essas provas para o dia seguinte e querem transformar o interrogatório num debate teórico de inquisição. É verdade que eles têm tempo para isso e que a lei real permite que aprisionem os acusados durante quatro anos antes do processo[ii]. Prontos para sustentar um debate teórico, parece-nos que três princípios estão em jogo, e esses três princípios implicam todos os democratas. De saída, a justiça deveria se conformar a um certo principio de identidade. Não se trata simplesmente da identidade do acusado, mas daquela identidade, ou não-contradição, mais profunda, que deve caracterizar um ato de acusação. Se outros motivos de acusação emergem, é preciso mudar o ato jurídico. Em suma, é necessário que a acusação possua, em seu conjunto, um mínimo de consistência identificável. Existindo esse tipo de identidade da acusação, é possível se defender.

Não é o caso do mandato de Roma, que começa por repassar o sequestro de Moro como se Negri estivesse envolvido, e que recorre aos escritos de Negri como se ele, porque não estava envolvido, com mais forte razão fosse ainda mais responsável. O ato de acusação pula da ação à instigação, da instigação ao pensamento, do pensamento a uma outra ação qualquer, pouco importa. Um tal ato de acusação, tão mutável e tão indeterminado, carece da mais elementar identidade jurídica. “Você será culpado de qualquer jeito”.

Em seguida, o inquérito e a instrução deveriam se conformar a um certo princípio de disjunção ou de exclusão: é isso ou então aquilo…, se não é aquilo, não é isso etc. Em contrapartida, no caso Negri, parece que se quer conservar, a cada momento, todos os termos das alternativas: se Negri não estava em Roma, ainda assim a ligação telefônica será mantida, arguindo para isso que ela foi feita em Paris, ou vice-versa; se Negri não está diretamente implicado no sequestro de Moro, ainda assim foi ele que o inspirou, se não concebeu, e é como se ele o tivesse realizado. Se Negri, em seus textos e em suas declarações, opõe-se às Brigadas Vermelha, trata-se de uma máscara que melhor prova seu acordo com elas enquanto chefe secreto. As acusações contraditórias não se anulam, elas se acrescentam.

Como diz Franco Piperno, inculpado em fuga, essa é uma maneira bastante curiosa de avaliar o alcance dos textos políticos e teóricos[iii]. Os acusadores têm tanto hábito de considerar que, num discurso político, é possível dizer qualquer coisa, que não podem absolutamente compreender a situação de um intelectual revolucionário cuja única possibilidade é escrever aquilo que pensa. Andreotti ou Berlinguer podem sempre dissimular seu pensamento, pois este, para eles, é apenas oportunismo[iv]. Em contrapartida, o próprio Gramsci, sem dúvida alguma, não seria capaz de fazê-lo. Em suma, muito longe de avançar por alternativa e por exclusão, o inquérito procede por inclusão, adicionando os termos contraditórios. Por que essas negações da justiça são doravante possíveis? Acreditamos que a imprensa, com raras exceções, desempenha e continua a desempenhar um papel enorme no caso Negri. Não é a primeira vez e, no entanto, talvez seja a primeira vez que ela procede dessa maneira sistemática e organizada (e a imprensa francesa não é menos turrona e difamatória do que a italiana). A justiça jamais teria podido abandonar seu princípio de identidade, o inquérito jamais teria podido abandonar seu princípio de exclusão, caso a imprensa não lhes tivesse oferecido o meio para fazer com que as faltas e o abandono das regras fossem esquecidos.

Com efeito, a imprensa, por sua vez, está submetida a um outro princípio particular. Quer se trate dos cotidianos ou dos semanários, dos jornais ou das rádios e das tevês, é um princípio de acumulação. Pode haver “novidades” todos os dias, e porque os desmentidos da véspera influência nenhuma têm sobre as novidades[v] do dia ou do dia seguinte, a imprensa acumula tudo o que se diz de um dia para o outro, sem temer contradição alguma. O emprego do “condicional” permite, com efeito, reunir tudo e multiplicar tudo. Pode-se apresentar Negri como estando presente, no mesmo dia, em Roma, em Paris e em Milão. Os três se acumulam. Pode-se fazer dele um membro ativo das Brigadas Vermelhas, um chefe secreto ou, muito pelo contrário, o partidário de uma estratégia outra e de um método outro: de novo, os três se acumulam.

É o resultado que Marcelle Padovani mostra num semanário francês: mesmo que Negri não pertença às Brigadas Vermelhas, é um “autônomo”, “e nós sabemos o que os autônomos italianos…”[vi]. De qualquer jeito, Negri merece aquilo que está acontecendo com ele. A imprensa se entregou a uma fantástica “acumulação de inverdades”, que permite à justiça e à polícia mascarar, num só golpe, o vazio de seus dossiês. Prometeram um espaço judiciário e policial europeu, que só pode funcionar graças a um espaço europeu da imprensa, no qual todos os jornais, da esquerda à extrema direita, suprem o fracasso do inquérito e do direito. Está se aproximando a hora em que, na Europa, nem mesmo se compreenderá mais a reprovação, dirigida noutro momento à imprensa, pela resistência que ela opunha às palavras de ordem do poder.

Que os italianos, desta vez, não nos condenem por nos misturarmos naquilo que não nos diz respeito. Franceses foram acusados desde o início (“a pista francesa…”, “a central parisiense das ‘Brigadas Vermelhas’…”)[vii]. Não seria um miserável acerto de contas em resposta aos dias de Bolonha?[viii] Negri é um teórico, um intelectual importante, tanto na França como na Itália. Italianos e franceses estão unidos pelos mesmos problemas em face da violência, mas também contra uma repressão que nem mesmo necessidade tem de se legitimar juridicamente, pois ela se faz legitimar de antemão pela imprensa, pela rádio e pela tevê.

Estamos assistindo a um verdadeiro “encarniçamento” contra homens que são aprisionados com base em provas das quais o mínimo que podemos dizer é que são vagas, sempre postergadas para o dia seguinte. Não acreditamos de modo algum nessas promessas de provas. Queríamos ao menos informações sobre as condições de detenção e isolamento. Será que vai se preciso esperar uma catástrofe para que os jornais possam falar de uma prova “definitiva”, segundo a qual Negri seria Pinelli?[ix]

 

Notas:

[i] “Lettera aperta ai giudici di Negri”, La Repubblica, 10 de maio de 1979, pp. 1-4.

Antonio Negri, filósofo italiano, nascido em 1933, então professor de Ciências Políticas e Sociais na Universidade de Pádua, refugia-se na França para escapar dos ataques da magistratura italiana. Convidado por Louis Althusser, em 1977-1978 ele ministrou um curso sobre os Grundrisse de Marx na École Normale Supérieure (que resultará na publicação Marx au-delà de Marx, Paris, C. Bourgois, 1979). Durante a sua estada parisiense, travou amizade com Félix Guattari, que manterá Deleuze informado da situação política italiana. Deleuze e Negri só se encontrarão em 1987.

O caso “Aldo Moro” explode no dia 16 de março de 1978, com o sequestro do presidente do conselho da Democracia Cristã pelo grupo terrorista armado “Brigadas Vermelhas”. Após uma longa retenção, Aldo Moro é assassinado no dia 9 de maio de 1978. Ao longo do caso, o juiz Galluci (democrata cristão), baseado em indícios sem fundamento, inculpa Negri por cumplicidade. Negri é preso no dia 7 de abril de 1979, encarcerado, depois transferido para “prisão especial” (equivalente aos quartiers de haute securité das prisões francesas). No momento em que Deleuze escreve seu artigo, o processo ainda não havia sido iniciado.

[ii] A lei real de 1975 introduz regras de exceção no sistema judiciário italiano. Ela institui, especialmente, a detenção provisória por uma duração indeterminada.

[iii] Piperno, então membro da “Autonomia Operária”, foi preso em Paris no dia 18 de setembro de 1978. As autoridades italianas tinham exigido sua extradição sob a acusação de “insurreição armada contra o Estado”.

[iv] Giulio Andreotti, várias vezes presidente do conselho italiano, era o líder dos democratas cristãos; Enrico Berlinguer era o secretário-geral do Parlamento Comunista, e foi um dos orquestradores do “compromisso histórico” entre o PCI e a Democracia Cristã.

[v] “Novidade” traduz nouvelle, mas esta palavra francesa traz uma ambiguidade interessante, pois quer dizer tanto “novidade” quanto “notícia”. As novidades (nouvelles) do dia são capturadas como notícias (nouvelles) pela imprensa.

[vi] Referência à “Autonomia Operária” de que Negri foi um dos principais responsáveis. Trata-se de um movimento de extrema esquerda, próximo do marxismo, cujas teses levam em conta as novas formas de trabalho e de luta contra o trabalho. Pode-se reportar a Deleuze e Guattari, Mille plateaux, Paris, Éditions de Minuit, pp. 585-6. As autoridades e uma parte da imprensa italiana consideravam as Brigadas Vermelhas como o “braço armado” da “Autonomia Operária”.

[vii] Essa acusação, oriunda dos políticos de esquerda e de direita, responde ao “Apelo dos intelectuais franceses contra a repressão na Itália”, assinado por Deleuze e Guattari em novembro de 1977.

[viii] Vasto movimento internacional de ajuntamento, em setembro de 1977, contra a repressão policial na Itália, do qual participaram a nova esquerda italiana, a maioria dos estudantes e os membros da “Autonomia Operária” (Guattari participou das manifestações).

[ix] Anarquista defenestrado no comissariado de Milão, em dezembro de 1969, suspeito de ligação com o atentado homicida da Piazza Fontana, que fora cometido alguns dias antes (atentado de neofascistas com a cumplicidade dos serviços secretos italianos e que marca a instauração da “estratégia da tensão”).

 

Fonte:

DELEUZE, Gilles. Dois regimes de loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). Tradução de Guilherme Ivo. São Paulo: 34, 2016.

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