Aula de 23/09/1993 – Consciência e fluxo temporal

O tema “fundação do tempo” ou “a origem do tempo” é uma questão fundamental da filosofia de Deleuze, tratado por  Claudio Ulpiano em muitas aulas e diversos capítulos de seu livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”.

Para pedir o livro, clique aqui.

Eu vou começar com uma questão do tempo. O meu objetivo é muito mais você ganharem entendimento do que propriamente seguirem o meu percurso. Estou seguindo o meu percurso e dando uma possibilidade de vocês entenderem o que eu digo.

(…)

Presta atenção: o meu objetivo principal é vocês entenderem o problema. Quer dizer, eu não estou exatamente fazendo um percurso que eu necessariamente tenho que fazer. É pra vocês entenderem. Então vamos lá.

Vamos fazer isso com a maior clareza, sem nenhuma dificuldade, sem delírio nenhum.

A ideia de consciência, ela é sinônimo de fluxo temporal. Isso quer dizer que a consciência é sempre um fluxo, sem pausa. Ela não tem pausa. Se vocês observarem na experimentação, vocês vão ver que é assim. A consciência está sempre passando. Ela é um fluxo. Um fluxo temporal.

(…)

Vamos marcar uma figura: marcar a noção de instante como sendo um elemento do tempo, ou até mais do que isso. Os instantes seriam os pontos mínimos do tempo.

Então, a alma aparece num instante e ressurge noutro instante; e ressurge noutro instante…
O que implica em dizer  e aqui está o segredo de tudo  que entre um instante e um outro  existe um intervalo de tempo.

A minha grande via nesta aula de hoje é este intervalo de tempo.

Para vocês entenderem o que é intervalo de tempo, trabalhem com a ideia de instante:
um instante sucede outro instante, e isto é que dá a descontinuidade dos instantes. Porque se houvesse continuidade, aí não haveria intervalo. Mas como os instantes são descontínuos, entre um instante e outro, existe um intervalo.

Vê se vocês entenderam a noção de intervalo…
Esta separação entre um instante e outro, chama-se intervalo de tempo.

O que vocês acharam? Da noção de intervalo de tempo?

O que é um intervalo de tempo?
É o que existe entre um instante e outro.

E se não existisse nada?
Então o instante seria contínuo. Isso prova que o instante é descontínuo. E há um intervalo de tempo. Tá certo?

(…)

O que importa aqui é que se você faz uma teoria de instantes descontínuos, a ideia de intervalo aparece. A ideia de intervalo aparece, necessariamente.

Agora vamos colocar que nestes instantes  em cada instante desses  aparece ‘aquilo que existe’.

Então ‘as coisas que existem’ aparecem onde?
No instante, elas aparecem no instante.

No outro instante as coisas que existem aparecem outra vez, mas já modificadas. Nada permanece idêntico. Tudo vai se modificando. Tá certo?

Então agora nós vamos fazer uma coisa cartesiana.
Para Descartes o eu existe?
Existe.
Então o eu aparece aonde?
Aparece no instante.
E depois reaparece aonde?
No outro instante.

É isso que se chama eu fendido  o eu é fendido pelo intervalo.

Continua…

Fotografia: auto-retrato em múltipla exposição de Andy Warhol

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

Aula de 13/10/1994 – Uma canção pode mudar o mundo: beleza e senso comum

“Porque o homem não pode escapar do tempo orgânico.  E o homem é solipsista: ele projeta seu ser sobre o mundo. Então, ele vê um mundo orgânico. Mas há uma maneira de nós atingirmos o tempo cristalino, e é exatamente o que Proust vai nos ensinar. Nós temos que quebrar o bom senso, quebrar o senso comum. Rompendo com eles, nós entraremos na linha do tempo cristalino. Nós entraremos no que, por exemplo, Proust, Deleuze, Visconti, chamam de quarta dimensão: a beleza. Este tempo cristalino é a própria beleza. Não é qualquer homem que pode entrar na beleza; ao mesmo tempo, todos os homens poderiam. Porque todos nós temos a faculdade do pensamento puro”.

Sétima aula da série “Arte e Estética – pela via de Nietzsche”.

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

Parte 4:

 

Parte 5:

 

Na passagem da Parte 1 para a Parte 2 é possível perceber uma pequena lacuna. Uma fala de Claudio se perdeu; é como se ele retomasse a questão um pouquinho mais adiante. No entanto, isto não compromete em nada o entendimento da aula; por isso optamos por colocá-la no site.

 

Aula de 16/09/1993 – O caos é criador

[Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 8 (As Singularidades Nômades) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 

 

Acho que a ideia do gérmen… o gérmen… acredito que seja fruto da terra. Então você pode dizer ‘gérmen da terra vermelha’ – ele nasce daquela terra, gérmen-caos – ele nasce do caos, o caos o produz.

Então… eu estou trabalhando com esta ideia: eu faço uma palavra, construo uma palavra, um sintagma duplo – duas palavras – e a palavra à qual a palavra gérmen se ligar,  é a palavra de onde se originou. [por exemplo] Se eu uso caos-gérmen, eu estou dizendo que o gérmen se originou no caos. (não sei se está claro isso aqui) E tomar a ideia de gérmen como a ideia de geração de estrutura. O gérmen gera [uma] estrutura. Em uma linguagem mais clássica, o gérmen gera [uma] ordem. Então o caos gera o gérmen, que gera a ordem. Ao passar esta ideia, eu posso simultaneamente passar a ideia de que o caos é criador; que se algo gera este caos, ele [este algo] o produz. Esta ideia de caos-gérmen que eu estou colocando, é sinônimo da ideia de plano de imanência. Plano de imanência seria a mesma coisa. Se o plano de imanência seria um momento caótico, o gérmen seria o conceito – seria uma coisa já pronta, construída.

O Francis Bacon, um pouco semelhante ao Matier, ele pegava a tinta – talvez semelhante ao Pollock também – jogava a tinta na tela, a tinta ia caindo na tela; e aquele corrimento da tinta, ele analisava aquilo como um caos-gérmen. Como um gérmen saindo do caos e direcionando a obra que ele ia fazer. Então ele quebrava a matéria mutativa do espírito.

Quebrar os clichês… quebrar o bombardeamento que nós sofremos dos mecanismos de poder pra produzir uma subjetividade. O Francis Bacon quebraria esse mecanismo jogando essa tinta ali, o gérmen viria e a obra nasceria orientada pelo gérmen.

Continua…

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

 

Trilogia Lucreciana (em áudio e transcrições) – Lucrécio e a ontologia da ilusão; Lucrécio e os falsos infinitos; Pensamento: Lucrécio e Espinoza

[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude), 8 (As Singularidades Nômades), 12 (De Sade a Nietzsche), 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. 

Para pedir o livro, clique aqui.

 

Titus Lucretius Carus nasceu em Roma por volta do ano 98 antes de Cristo. Quase nada se sabe sobre ele. Os raríssimos comentários dos seus contemporâneos dizem respeito a sua obra, não a sua vida. Cícero, que provavelmente foi o editor de De rerum natura, o cita numa única frase, em uma carta ao irmão, no ano 44 a.C: “O poema de Lucrécio, como você diz, revela ao mesmo tempo imenso gênio e imensa arte”. Ovídio o enaltece também numa única frase: “Os poemas sublimes de Lucrécio só desaparecerão no dia em que o mundo inteiro for destruído” – em Amores, I, 15, 23. Tácito evoca De rerum natura sem citar o nome do autor. Segundo Constant Martha, talvez Lucrécio, profundamente fiel ao epicurismo, tenha colocado em prática um dos mais importantes preceitos de Epicuro: “esconda a sua vida” (lathe biôsas, em grego).

Nesta Trilogia Lucreciana, Ulpiano, em bela conjugação com Deleuze, nos introduz no universo “naturalista” do filósofo. (…) A quem pergunta: “para que serve a filosofia?”, é preciso responder: que outro interesse tem senão levantar a imagem de um homem livre, de denunciar todas as forças que têm necessidade do mito e da inquietação de alma para afirmar sua potência? A Natureza não se opõe ao costume, pois há costumes naturais. A Natureza não se opõe à convenção: que o direito dependa de convenções não exclui a existência de um direito natural, isto é, de uma função natural do direito que mede a ilegitimidade dos desejos à perturbação da alma de que se fazem acompanhar. A Natureza não se opõe à invenção, não sendo as invenções senão descobertas da própria Natureza. Mas a natureza se opõe ao mito. A descrever a história da humanidade, Lucrécio nos apresenta uma espécie de lei de compensação: a infelicidade do homem não provém de seus costumes,  de suas convenções, de suas invenções, nem de sua indústria, mas da parte de mito que aí se mistura e do falso infinito que se introduz em seus sentimentos como em suas obras” (Gilles Deleuze em Lógica do Sentido).

(…) No livro A gota de ouro do Michel Tournier, este conta a história de um povo árabe que tem uma narrativa, no seu interior, dizendo que os ventos do norte trazem a morte. Segundo Michel Tournier, esses ventos do norte eram, na antiguidade, os povos nômades que habitavam o norte, que cavalgavam e destruíam tudo. Esses povos do norte desapareceram e, no mito, se transformaram no próprio vento. Nada mais houve que um distanciamento da fonte. A fonte se distancia e o mito emerge. (…) Então, o mito é um produto dos fantasmas ou dos simulacros de terceira espécie. E, segundo Lucrécio, a filosofia só tem um inimigo: o MITO. O mito é inimigo da filosofia, é inimigo do pensamento. Mas aconteceu uma coisa terrível aqui. Esses mitos não são produto de um sujeito; esses mitos são absolutamente REAIS. Porque esses fantasmas de terceira espécie são absolutamente reais. Eles pertencem ao campo da Natureza. Se eu usar uma linguagem deleuziana, eles pertencem ao CAMPO DE IMANÊNCIA. Ou seja, o plano de imanência é penetrado de miragens: uma névoa que percorre esse plano. A miragem, a névoa que percorrem esse plano, são exatamente os fantasmas de terceira espécie. São penetradas nesse plano. (…)   O Lucrécio escreveu a obra dele como uma física, que é uma obra dificílima! É uma física que se pretende uma compreensão da Natureza. Compreender a Natureza. Mas toda a obra do Lucrécio não tem o objetivo físico, não tem o objetivo epistemológico. Toda a obra dele tem o objetivo prático, tem o objetivo ético. E, diz ele, se nós não afastarmos os fantasmas de terceira espécie, nós viveremos com as nossas almas perturbadas. Toda a perturbação da alma se origina nesses fantasmas de terceira espécie. A perturbação da alma atinge tal nível que, diz o Lucrécio, este livro que eu estou escrevendo ― De rerum natura – Sobre a Natureza ― tem um objetivo ― estranhíssimo ― provar que depois de mortos nós estamos mortos. Provar isso. Por que provar que depois de mortos nós estamos mortos? Porque esses fantasmas de terceira espécie vão gerar os FALSOS INFINITOS. Aqui que é o problema da nossa aula: gerar os falsos infinitos! Os falsos infinitos se originam na ilusão, que nós temos, da capacidade infinita dos prazeres do corpo; e na duração infinita da alma. Seriam os dois falsos infinitos (Claudio Ulpiano em Lucrécio e os falsos infinitos – aula em áudio e transcrita).

(…) Alguns de nós, quando instalados à mesa, segurando uma taça na mão e com a fronte ornada de coroas, exclamam com a maior seriedade do mundo: “Como é breve a alegria para os humanos! Em breve eles terão passado e nunca mais poderão voltar.” Como se na morte os infelizes devessem temer antes de tudo o queimar de uma sede ardente ou o peso de um lamento qualquer. (…) Eles não acrescentam: “Mas a falta de todos esses bens não te seguirá na morte.” Se nos penetrássemos dessa verdade, se nela se unissem palavras e pensamento, de que temor e de que angústia libertaríamos nosso espírito (Lucrécio em De rerum natura).

Aula 1 – Lucrécio e a Ontologia da Ilusão (16/06/1992):

Parte 1:

Parte 2:

 

Parte II

Aula 2 – Lucrécio e os Falsos Infinitos (17/06/1992):

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

 


Parte II


Aula 3 – Pensamento:Lucrécio e Espinosa (16/06/1994):

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

 

 

Aula de 19/05/1992 – A arte tem que lidar com a aurora do mundo

Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 13 (Arte e Forças) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 

 

 

A nossa preocupação com a matéria, ao longo da nossa existência, é permanentemente a mesma: que o presente reproduza o passado. Porque se o presente não reproduzir o passado, não reconheceremos o que estamos vendo. E o reconhecimento é o fundamento para ultrapassarmos o caos objetivo, assim como as regras da associação de ideias são o fundamento para ultrapassarmos o caos subjetivo. Esse caos objetivo e subjetivo é anterior ao homem. (…)

O homem vai nascer dotado de uma percepção, mas tudo nele –a própria percepção, a memória, o hábito, a afecção, a ação– será comandado pelas regras e pela semelhança. Veremos o mundo a partir destas regras, ou então do reconhecimento exterior. Nossa constante preocupação –terrível– é de que o passado possa não coincidir com o presente. Imaginem se amanhã o Roberto entra aqui na aula e não é mais o Roberto; se o Roberto da terça-feira passada não coincidir com o Roberto de hoje.
Estes princípios do sujeito humano o afastam do caos.

(…)

Falemos de Cézanne, agora. O ponto de partida da obra dele é definitivo: só posso fazer uma obra de arte se fizer uma prática de desumanização. O que seria esta desumanização? Seria sair dessas regras, sair do reconhecimento, voltar ao caos. Ele diz: a minha percepção de maneira alguma me dá o caos original, o caos irisado, o mundo anterior aos homens, a aurora do mundo. A arte tem que lidar com a aurora do mundo, o mundo antes de ser governado por estas regras. Para Cézanne, então, a primeira coisa que tem que ser quebrada no artista é a percepção, porque a percepção está regulada pelo princípio da semelhança.

Continua…

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

Parte 4:

Aula de 09/05/1992 – O conhecimento humano: a gênese da generalidade. Diferença e repetição

Eu não tenho nenhum projeto especial para esta aula. É mais uma aula Judas, O Obscuro, mais restauradora do que criadora, para organizar questões do curso.

Bom…

A ideia de possível que é uma ideia com a qual, nos cursos, nós vamos desencadear Leibniz. É pela ideia de possível que Leibniz vai chegar para nós. Ela se entende, inicialmente, como aquilo que é regido pelo princípio de não contradição.

(…)

POSSÍVEL = PRINCÍPIO DE NÃO CONTRADIÇÃO

O que já nos faz entender que quando a ideia de impossível aparecer, é a ausência do princípio de não contradição.  Torna-se fácil a compreensão.

Por exemplo: No séc. XIX, o Meinong, ele trás como original na obra dele, trabalhar nos objetos impossíveis. O que faz com que a obra dele seja, exatamente, um confronto com o campo dos possíveis.

Muito bem.

A noção de possível é a noção que sustenta a formação do mundo pelas teologias medievais. Porque elas pensam um Deus dotado de duas faculdades  A noção de faculdade já importa porque remete para Kant  (…) e estas duas faculdades são a vontade e o intelecto. Então, o Deus medieval, ele tem uma vontade e um intelecto. E o intelecto dele é constituído pelos possíveis. Logo, o intelecto divino é regido pelo princípio de não contradição.

Esta colocação leva os teólogos a dizerem que o rompimento com o princípio de não contradição (Veja que eu estou usando não contradição, porque se eu estivesse usando contradição, eu estaria falando em Hegel –é o princípio de não contradição enquanto aristotélico leva os teólogos a dizerem que a Deus repugna o rompimento com o princípio de não contradição.

A não contradição regendo o mundo dos possíveis leva a que a gente não precise perguntar o que é um objeto possível. Basta que ele tenha o princípio de não contradição o regendo, que ele é um objeto possível. Aí torna-se muito fácil de compreender.

Agora, esses possíveis, regidos pelo princípio de não contradição, eu vou passar a chamá-los de essências. Então são as essências que estariam no intelecto de Deus. (…) Essas essências, esses possíveis, que através da vontade de Deus, vai ser construída a realidade. O que implica em dizer que: ao real, alguma coisa o antecede. O que antecede o real é o campo das possibilidades. Tanto o intelecto, que contém os possíveis, como a vontade que os efetua, são faculdades ativas de Deus. (Eu usei faculdades ativas aqui, o que é muito fácil, porque todo mundo sabe o que é o involuntário e as faculdades passivas).

Então, as faculdades ativas de Deus e esse campo de possibilidades regido pelo princípio de não contradição, faz com que Deus, ao produzir/ao criar o universo, ele crie a partir desses possíveis que estão no seu intelecto. Então o mundo é racional. (…) O mundo é racional, a partir desses possíveis no intelecto de Deus.Agora, o que torna real a esses possíveis é a vontade de Deus.

Então o intelecto de Deus, trabalhando essas essências possíveis, ele vai dando realidade. Elas [as essências] tornadas reais, eu vou passar a chamar de coisas. Coisas ou mundo físico. Então nós teríamos aqui, nitidamente, Deus criando o mundo, que é o mundo das coisas –o mundo físico– e esse mundo físico sendo originário nessas essências possíveis que estão no seu intelecto.

Gerou-se nitidamente dois temas: gerou-se o tema da física e gerou-se o tema da lógica. Porque a lógica é exatamente esse mundo possível que está no intelecto de Deus.

Bom, o homem vai ser também originário nesse mundo possível. O homem tem origem nesse mundo possível e se torna real. Agora, quando o homem surge, ele surge reproduzindo Deus, no sentido de que ele vai ser feito à imagem e semelhança de Deus, ele trás com ele também um intelecto e uma vontade.

Então, ele trazendo com ele um intelecto e uma vontade, ele tem um poder semelhante a Deus de produzir e ele tem essas possibilidades dentro do seu intelecto. Só que a diferença do homem para Deus, utilizando uma linguagem kantiana, Deus é uma potência infinita; ou seja, Deus é sempre criador. Enquanto a prática do homem é de conhecimento.

Deus parte dos possíveis para produzir as coisas. O homem parte das coisas para conhecer os possíveis.

Continua…

________

Esta aula tem 2 horas e meia de duração (cada parte contém mais ou menos 30 minutos).

A Parte 6 dura apenas 3 minutos e meio.

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

Parte 4:

 

Parte 5:

 

Parte 6:

 

Aula de 12/06/1990 – Descartes – Três substâncias metafísicas: o eu, o mundo e Deus

Temas abordados nesta aula são tratados no capítulo 10 (Estoicos e Platônicos) e 17 (Aion) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 

 

Ele chega ao extremo da dúvida –na Terceira Meditação, se eu não me engano– e, a partir daí, ele vai querer fundar a certeza.
Daqui a pouco eu volto para explicar isso pra vocês.

(…)

Deus enganador e gênio maligno é a mesma coisa. O Deus… o malin génie ou o gênio maligno, o Deus enganador seria um Deus que praticamente nos hipnotizaria. É um Deus que nos levaria a julgar que nós estaríamos na instância da verdade, mas nós estaríamos na instância do falso. É esse o problema. Não há diferença. É a mesma coisa.

Aliás, pode até ate chamar esse Deus de um Deus louco.

Um Deus louco, né?! Porque é um Deus que produz um mundo do engano. Espinosa, por exemplo, nunca concordará com isso. Nem com essa hipótese o Espinosa concordará.
Eu volto depois pra explicar isso aqui.

Então o primeiro tema que apareceu foi o Descartes partindo da dúvida para obter a certeza. É preciso distinguir a ideia de certeza da ideia de evidência. A evidência é alguma coisa que está no mundo, na experiência. E a certeza é subjetiva. Então, a categoria de certeza, em uma linguagem melhor, diga-se: é psicológica. E a evidência é ontológica – pertence ao mundo.

A questão cartesiana então (Cartesius, em latim) a questão dele é produzir a dúvida para encontrar a certeza. E a certeza constituída. (Eu vou ter que mostrar isso a vocês) É isso que eu  estou com um certo receio e vou ter que ter muita paciência pra explicar: constituir a certeza que é a evidência de um Deus não enganador, a existência de um eu e a existência de um mundo é o ponto de partida para fundar a filosofa dele.

Continua…

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

 

_________

Esta gravação se inicia e se interrompe abruptamente. Como ela é mais curta do que o habitual, imaginamos que uma parte considerável esteja perdida. No entanto, optamos por torná-la pública, mesmo inacabada, já que a parte que resta é extremamente clara e trata de questões essenciais para o entendimento da filosofia. Além disso, como Ulpiano não trabalha de forma linear, todas as aulas acabam se complementando, e uma questão levantada numa determinada aula pode ser essencial para potencializar outra aula,  do passado ou do futuro.

Na Parte 2,   dos 16:25 minutos até o final (25:56 minutos), quando Claudio responde a perguntas, a gravação não está boa, embora seja possível ouvir suas respostas.

Aula de 11/02/1992 – O virtual ou a superfície paradoxal metafísica

Na aula a seguir – O virtual ou a superfície paradoxal metafísica – Claudio nos dá um belo exemplo de que, para ele, filosofia e vida são indiscerníveis. Para explicar o subsistente, ele chega ao PAPAI NOEL:  “Os objetos são aquilo que pertencem ao real. A teoria dos objetos, inicialmente, no Meinong, é uma ciência do real. Quando ele faz uma teoria dos objetos, está fazendo uma teoria do real, uma teoria daquilo que existe. Ao fazer esta ciência, ele verifica que existe alguma coisa  que aparece para o pensamento, mas não está dentro da teoria do real. Logo, esta coisa não é inexistente. Meinong acrescenta então aos objetos a noção de “Objectif”. O “Objectif” é exatamente o subsistente. É aquilo que pode ser pensado, mas não tem existência. O subsistente não existe, só tem sentido. Eu já dei um exemplo de subsistente numa outra aula  – é o Papai Noel. A criança não é imbecil. A criança não lida com o Papai Noel como existente, mas sim como subsistente”.

Esta aula foi gravada em três partes. Quando vocês a ouvirem, perceberão que na passagem da segunda para a terceira parte, um trecho está faltando. Claudio já começa a terceira parte da gravação usando a fonologia como exemplo; claramente, um segmento do que disse se perdeu.  Além disso, a gravação se interrompe antes que a aula termine. Por sorte, nas partes um e dois, a questão central da aula – as duas metades do ser, o virtual e o atual, a superfície metafísica e os corpos – já está brilhantemente exposta. A terceira parte, então, por conta dos trechos perdidos, paira incompleta, inacabada, por sobre a absoluta precisão, clareza e rigor com que o filósofo desenvolve sua fala. Optamos, porém, por mantê-la. É certo que, mesmo incompleta, ela continua a ser esclarecedora. Nossa intenção ao mantê-la, todavia, desta vez, vai além disso. Pois esta belíssima aula incompleta revela  também uma inusitada composição: o precioso material que temos nas mãos – patrimônio de todos, patrimônio aberto, patrimônio da humanidade -, sua fragilidade material (gravações caseiras em fita cassete), e os ainda escassos recursos do Centro de Estudos Claudio Ulpiano. Que esta aula, assim, expresse a beleza, a potência e a resistência da filosofia frente ao mundo material, com sua incongruência e temporalidade.

“O que importa nesse momento é que os estoicos fizeram uma coisa incrível! Eles dividiram o ser em dois planos – o plano metafísico, da superfície, e o plano dos corpos. E a partir de agora o objeto do pensamento passa a ter dois lados. Se você quiser pensar, pense os dois lados. Usando a linguagem do Bergson, se você quiser pensar, pense o lado virtual e pense o lado atual. Não se pensa mais um objeto como sendo apenas atual. Pensa-se os dois lados: o virtual e o atual (esse virtual é o que se chama estrutura, depois eu volto a esta questão). O virtual, agora, ainda que não seja existente, é absolutamente real, e se compõe com o objeto atual. Você vai fazer ciência, pense os dois. Vai fazer arte, vai fazer filosofia, pense os dois. Todo objeto é dividido em duas partes: o virtual e o atual, a superfície metafísica e o corpo. Esta superfície metafísica é o que se chama transcendental em filosofia.O transcendental é componente fundamental na constituição do objeto, tanto em termos de conhecimento quanto em termos reais. Neste instante, eu constituo o objeto como tendo duas partes – virtual e real – e chamo o virtual de transcendental. Este transcendental, esta parte virtual do objeto, vai se transformar, na obra de Deleuze – já era assim na obra estoica, à oposição de Husserl, de Descartes, de Kant – em genética, gênesis, transcendental genético. Esta parte virtual é a gênese dos seres. Logo, a existência dos seres implica toda esta superfície paradoxal metafísica”.

Continua…

Gravação com ruídos, porém perfeitamente compreensível.

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

 

Aula de 15/05/1990 – O universo kantiano é um obstáculo à metafísica tradicional

Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 19 (Leibniz II) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 

Eu vou bem devagar, porque é uma aula muito mais didática que outra coisa qualquer, viu?

Inclusive eu vou ver se eu consigo fazer uma interveniência com um texto que eu escrevi. Se não der com o texto, não faz mal. Mas eu vou ver se consigo, no meio da aula, colocar esse texto, que é um texto sobre Kierkegaard, né?! Mas a aula não visa o Kierkegaard, inicialmente.

Então é uma aula muito didática, tá? Muito didática.

Duas questões: de um lado Platão e de outro lado Kant.

O kant estabelece que só há conhecimento humano, que o homem só tem conhecimento, daquilo que ele experimenta. Então conhecimento para Kant pressupõe a experimentação. O que ele chama de experimentação é a prática da sensibilidade e a prática da intuição. Então o sujeito humano teria uma prática experimental e essa prática experimental é feita pela sensibilidade e por aquilo que o Kant chama de intuição e o entendimento pegaria essa matéria da intuição e constituiria o conhecimento humano. Então todo o conhecimento humano seria à partir do campo experimental. Seria a partir da intuição. E o conhecimento se daria nisso que a intuição e a sensibilidade apreendeu.

Com essa posição kantiana, e é isso que eu quero que vocês entendam, há uma nítida oposição com a prática platônica. Porque para Platão, a razão pode entrar em contato com determinadas e tais ideias diretamente, sem a intervenção ou a mediação da experiência. O Kant colocando dessa maneira significa que não pode haver para o Kant metafísica tradicional. Porque a metafísica tradicional é a relação da razão com as ideias. Como pro Kant é necessário haver primeiro a prática experimental, todo conhecimento para Kant deriva da experiência, se origina na experiência. O entendimento vai ultrapassar isso. Mas tudo vem da experiência. E isso é uma crítica que ele está fazendo na velha metafísica. A velha metafísica, que é a metafísica platônica.

Eu vou retomar isso até vocês entenderem, até vocês entenderem isso perfeitamente.

A metafísica clássica, que é a metafísica platônica, é o contato direto  -pela prática da contemplação, que a razão faz com as ideias. Então a razão para Platão, ela pode conhecer as ideias diretamente e, conhecendo as ideias diretamente, a razão está fazendo – o conhecimento humano está fazendo-  uma metafísica. No Kant isso não é possível. Não é possível porque em Kant todo o nosso conhecimento parte, tem como pressuposto, a experiência. Então, partindo da experiência, o que o conhecimento faz é conhecer o campo experimental. E no Platão não, a razão vai conhecer as ideias diretamente.

Então nós podemos dizer que Platão faz uma metafísica e o Kant impede a metafísica. Ele obstaculiza a metafísica. Vocês entenderam bem? Ele faz um obstáculo à metafísica, porque a razão -o conhecimento- para Kant não é capaz de conhecer nada em si mesmo. O conhecimento para Kant só conhece o fenômeno: aquilo que é a partir do campo experimental.

Continua…

Na Parte 1 da aula, dos 19:20 minutos até o final, a voz de Claudio está alterada, reproduzida numa velocidade maior.

 

Na Parte 2, a gravação volta ao normal.

 

Aula de 28/10/1993 – Platão e Kant: afecção da alma

Pathémata pode ser traduzido por afecção, ‘pathémata tés psychés’, afecção da alma. Então é o pathémata do psiquismo: afecção da alma. Essa idéia de afecção da alma… ela é básica, tanto no platonismo, como no kant.

A minha aula aqui [neste grupo] visa muito Kant.

(…) As afecções que a alma pode receber são os pathématas e isso aqui não só em Platão, mas fundamentalmente vai nos interessar, no Kant.  Os Pathématas do Kant, as afecções da alma.

(…) Se eu fosse trabalhar nestas afecções, nestes pathématas, nas paixões da alma em termos platônicos, eu diria que o homem teria 4 afecções: 4. Ele seria afetado pelas ilusões, pelos corpos sensíveis, pelas matemáticas e pelas idéias. [Estas] seriam as 4 afecções dele. Estas 4 afecções, com pequenas diferenças, é o mesmo que aparece no Kant.

Então, a alma humana seria afetada… afetada… (no Platão vocês vão entender isso com uma clareza incrível!) … a alma humana seria afetada por coisas exteriores. Estas coisa exteriores que afetariam a alma humana seriam: as imagens, as sombras, os reflexos na águas, as imagens no espelho… no nosso caso: as imagens na televisão, as imagens no cinema, as imagens pictóricas, as imagens sonoras, as imagens odoríferas, as imagens palatares… (Certo?) Seriam uns dos pathématas. (…)

Aluno: No Kant?

Ulpiano: Aqui estou usando Platão, para ficar mais claro, mas pode usar Kant da mesma maneira.

Aluno: Mas você antes você tinha falado em 4 afecções… como é?

Ulpiano: Sim, eu disse 4 [afecções]:  imagens [ilusões], coisas, matemáticas e idéias.

Aluno: Então, isso aqui que você está fazendo agora é um detalhamento?

Ulpiano: Sim, estou detalhando. Estou dando exemplos de imagens.

É muito fácil compreender isso. Nós somos ou não afetados pelas imagens? Somos o tempo todo! Afetados por imagens.

As imagens… que imagens nos afetam?
Olha, as imagens naturais [por exemplo]: quando uma nuvem passa, uma sombra bate aqui e nos afeta, até o calor e a temperatura do corpo muda…
Os reflexos que aparecem nas águas, nas poças d’água, nos mares, nos rios… ou as imagens de televisão, as imagens do cinema.

E essas imagens produzem afecções em que? Na nossa alma. (…)

Além disso, as coisas que existem no mundo: as cadeiras, os corpos vivos, os corpos naturais, os objetos técnicos… Também produzem afecções em nós. Nitidamente produzem afecções em nós.

Os gregos consideram que estas imagens, como as coisas, estão fora do sujeito. Estão fora do sujeito. Nenhuma está dentro dele.

E além destas que eu falei  eu falei em 4  existem os objetos matemáticos. Que são as equações, os números qualquer tipo de número , qualquer tipo de cálculo… também estariam fora do sujeito. Fora do sujeito e afeta o sujeito.

E além disso, em quarto lugar, as idéias.

Seriam as 4 afecções que o sujeito teria. Que o sujeito humano teria. Que a alma humana teria.

Continua…

Parte 1:

 

Parte 2: