Manuscrito 9 – Há textos que são difíceis

“Platão

Estado do mundo e objetividades vistas

Há textos que são difíceis, inacreditavelmente difíceis – e nos desafiam de suas distâncias aparentemente inalcançáveis. Dar importância à essência é ressaltar o platonismo, mas também fazer Proust presente. Bem, pelo menos assim faz Deleuze. Aproxima e depois agencia-se com o menos destacado, pois deste tira a renovação. Então a ideia de essência é renovada em Proust? Sem dúvida, é assim que aparece: mas tão relacionado a tudo, à obra de Deleuze, que ir ao Proust, é ir à obra toda de Deleuze.”

Manuscrito 8 – Acreditemos no lugar que estamos

“Este enunciado, não me importa muito a que lugar ele irá levar-me: a que lugar o Aqueronte me leva, a que lugar meus sonhos me levam, a que lugar uma amizade me leva, a que lugar o amor me leva… e ao lugar que somos conduzidos, é isto que importa a um ser que irá morrer? Não. Podemos “errar” desde que queiramos segurança em excesso no meio de transporte, porém acreditemos no lugar em que estamos e no lugar para onde vamos.”

Manuscrito 7 – É delicioso estudar

“É delicioso estudar. Nada é tão delicioso como estar só. É delicioso pensar. Como é delicioso produzir. Tudo isto tem que ser levado em conta para aquele que vê suas delícias serem constantemente esmagadas pela sofreguidão dos próximos. Sou um homem do deserto, apaixonado por estalidos e estrelas confusas, envolvido pela solidariedade humana. Não seria bom uma grande mortandade para lá de minha vida, – meu estômago é civilizado -, para enfim uma vida em torno de brisas frescas e justas reflexões? Quem pensa assim hoje já não surpreende ninguém e, [ainda] por cima, é mal visto. Que assim seja para o bem da vida.”

Manuscrito 6 – Fazer de uma mulher un violoncelle

“Fazer de uma mulher un violoncelle, colocando-a entre as pernas, sem olhá-la, tocando com os joelhos – o duro e o macio: os acordes serão táteis. Fazer do corpo de uma mulher o que é ela em essência, no corpo, no som, no grave, un violoncelle. É uma vontade espiritual de fazer a vontade da mulher ser um sonho musical – vontades espirituais como em The Fox de D. H. Lawrence e como em Worringer. Dobrar uma vontade, não para destruir um ser, como é o caso da caça – mas para fazer este ser deparar-se com sua própria essência: sua beleza, que este ser não sabe conter em suas obscuridades cotidianas. A mulher se esconde para poder viver.”

Manuscrito 5 – Compromisso e adiamento

“Tenho compromissos com as instituições que, segundo um biógrafo, me sustentam. Tenho compromisso com meu sexo – que sempre se exalta diante de uma mulher bonita. Tenho compromisso com os meus credores morais. Tenho compromisso em me manter em suspensão até a morte. Tenho compromissos. Mas não os amo, nem mesmo os mais intensos ou belos, se isto é possível. É. Não gostaria de tê-los, sabendo que só os tenho porque reservo para mim, não sei para quando – após alguma doença degenerativa da velhice? Uma obra suprema para a humanidade… e com um único fim – redimir-me; ao modo como os cristãos usam o verbo ressuscitar.”

Manuscrito 4 – Futuro possível e real atual

Estava tão pálido e tão magro. Não me importava mais viver. Quando X construiu a armadilha, não me incomodei – aceitei a morte. Bastava seguir o que ele disse. Foi o que fiz. Se não morri, não tenho dúvidas que mudei de opinião no último instante. E agora sei o motivo pelo qual decidi viver. O motivo é o mesmo que me faz…

 

…escrever este pequeno texto. O futuro possível pressionou o real atual: e mesmo que este eu que agora escreve, afinal não tivesse aparecido, foi ele que ordenou a permanência na vida. Outras situações, talvez menos drásticas, talvez tenham tido o mesmo fundamento, sem que o eu possível afinal tenha se atualizado como se atualiza este hoje – e por isto eu não…

…compreenda. Talvez nossas decisões às quais chamamos involuntárias expliquem-se deste modo: o futuro, às vezes um futuro que nunca se realiza, decidindo no passado. A diferença é quando se realiza – os acontecimentos deixam de ser gratuitos. A vida faz sentido. É apenas um eu distante, vago, que quer viver.

Manuscrito 3 – Genitalidade e luta de classes

“É o paradoxo, que os marxistas não confundem com contradição, encontrando no genital os germes da luta de classe; é o ser duplo – que simultaneamente exibe: sou o ativo puro que é passivo exatamente por ser ativo puro. É um genital que quer se assemelhar ao seio e talvez seja a analogia fundamental: é o seio entre as pernas e não o órgão genital reprodutor. O bicho faz mais uma humilhação ao homem: que não tem mais a terra como centro do universo, que não é mais o centro da criação, e agora já não tem os genitais como representante do puro conceito de visibilidade.”

Manuscrito 2 – Um conceito, vários nomes

“Um ponto comum, para qualquer estudante de filosofia, é não buscar o sentido dos conceitos de uma obra filosófica nas definições descontextualizadas de um dicionário. Em Deleuze, esta postura atinge o paroxismo – pois nele um conceito pode ter vários sentidos; ou de outro modo, ter vários nomes.”

Manuscrito 1 – paradoxo do mentiroso

“O paradoxo do mentiroso ocupou os lógicos – ainda ocupa. Tarsky foi longe nele. Há o argumento dominador e o conjunto dos conjuntos. Esta é uma das partes. Os tigres de Jorge Luis Borges, ou os sonhos, também os filmes que são refilmados, com pequenas variações. As sentenças absurdas – que foram pronunciadas pela santa inquisição. Agora as teorias da biologia molecular. O aidético. Tudo isto perturba o conforto da razão.”