Uma das mais belas viagens de minha vida…

Rio, 17 de novembro de 1995

Queridos Claudio e S.,

Logo depois da apresentação de Dreyer na UERJ peguei o carro para viajar e dirigi por umas quatro horas. Foi uma das mais belas viagens de minha vida. No caminho, enquanto a estrada escura desfilava na minha frente, uma música no toca-fitas, a chuva fina fazendo brilhar a superfície das coisas, comecei a entender mais concretamente o que são os afetos, o conhecimento direto, imediato, intuitivo das coisas. Experimentar um afeto é ao mesmo tempo e necessariamente experimentar a liberdade. E o cinema é uma arte com uma incrível e extraordinária afinidade com os afetos. Esse interesse pelas coisas, esta vontade de experimentá-las de dentro, de mostrá-las, desnudá-las, descobrir-lhes a alma – operação cinematográfica por excelência – a lente como microscópio que quer filmar o invisível: a essência do cinema, essa arte da visão, ou seu uso transcendente. Fazer uma exposição de Dreyer não é só uma honra que me coube, mas, principalmente, um aprendizado de importância fundamental.

Ontem assisti a um filme do Visconti que não existia por aqui: Noites Brancas. Um filme de amor, tão bonito, mas tão bonito, que deixa um sulco no coração. A indiscernibilidade entre o passado (o amante desaparecido – Jean Marais) e o presente (o cortejador apaixonado – Mastroianni) atravessa o tempo todo a linda e adorável menina (Maria Schell, que coisa mais linda!). O filme me fez pensar muito em A filha do negociante de cavalos, sobre o problema do amor inventado. Me parece que em Noites Brancas a menina estava de fato inventando um novo amor com Mastroianni, quando então tudo desaba no final ao consumar-se, por acaso, em lugar e hora diversos do que havia sido estipulado um ano antes, o encontro dela com o amante aguardado por tanto tempo. A beleza da seqüência final, do encontro e da despedida, é um momento tão raro no cinema que devemos guardá-lo como se guarda o mais precioso dos tesouros.

Ao ver Visconti trazendo Dostoyevski para o cinema, trazendo a literatura para o cinema, como o fez ao longo de toda sua obra, penso com alegria, em belíssimos agenciamentos do cinema, meu amor inventado, com a literatura, meu amor mais antigo.

Um beijo para vocês,

Dudu

***

Conheci Claudio numa sala de aula do 9º andar da UERJ, onde fica a Faculdade de Filosofia. Naquela ocasião eu cursava o penúltimo ano de Direito, dois andares abaixo, e fui levado por um amigo para assistir uma de suas aulas. Entro na sala lotada. Lembro-me como se fosse hoje (e lá se vão 15 anos) do grande prazer que tive ao assistir aquela aula, na qual ele explanava com o rigor e a clareza do grande professor que era o primeiro capítulo de Matéria e Memória, de Henri Bergson. Lembro bem do enorme esforço e cuidado com os quais conduzia a aula, certificando-se a cada instante de que seus alunos compreendiam o pensamento que estava sendo colocado. “Perguntas, quero perguntas”, era a sua maneira de solicitar aos alunos que sinalizassem a compreensão. Passei a acompanhar seus cursos na UERJ, e entrei em mundos completamente desconhecidos para mim. Bergson, Proust, Spinoza, Deleuze, a cada aula uma nova paisagem era descortinada, e quando dei por mim a paixão pelo pensamento mudava meus rumos. Formei-me advogado, mas não cheguei a exercer. Passei a acompanhar Claudio em seus grupos de estudo, e minha inclinação para as artes tomou corpo com as aulas repletas de beleza sobre a obra que Deleuze dedicou ao cinema, os volumes A imagem movimento A imagem tempo. Estudando Deleuze com Claudio, percebi a convergência da filosofia com o cinema, a grandeza de ambos, e a possibilidade de traçar uma vida que obedecesse ao encantamento teórico que então se apossava de mim. Assim é que após três anos acompanhando seus cursos, surgiu uma necessidade imperiosa de conciliar teoria e prática, necessidade gerada pelo desejo de melhor compreender tudo que eu então estudava. Comecei a trabalhar com cinema, e lembro que minha primeira impressão ao me deparar com a prática cinematográfica foi a de que Deleuze parecia ter escrito seu estudo do cinema de dentro de um set de filmagem. Meu primeiro curta metragem foi uma adaptação de um conto trabalhado por Claudio em suas aulas, Bartleby, de Herman Melville. Ainda realizei posteriormente outros dois curtas baseados em obras deste mesmo autor.

Com Claudio aprendi o rigor, a inspiração, a alegria de pensar. Ele era um professor nato, um amigo, um visionário que via em cada aluno as questões que mais ressoavam em suas essências. Claudio era sobretudo um apaixonado pelas expressões do pensamento, e com sua paixão tocava a todos nós, seus alunos. Um Centro de Estudos levando o seu nome é uma iniciativa importante, não apenas para reunir seus antigos alunos, que são tantos e espalhados pelas mais diversas áreas de atuação na universidade, nas artes, nas ciências, mas sobretudo para as pessoas que nunca tiveram contato com suas aulas, e que através do material a ser disponibilizado poderiam também aventurar-se por tão belas regiões do pensamento.

Abril/2006

Eduardo Goldenstein é cineasta.

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