“A presença do mistério em São Bernardo”, por Aldo Zaiden

Texto publicado no Facebook em 09/04/2018

A PRESENÇA DO MISTÉRIO ONTEM EM SÃO BERNARDO. – eu que não creio

Eu não sei, foi a paixão. Foi épico. Foi tragédia diante dos olhos mesmo. Foi de bambear as pernas. De ficar tatuado.

Ele se atomizou e Implodiu a todos. Repito, a ele e a todos. A energia foi gigantesca. Imanência e emanência nuclear. E tudo vibrava mesmo, de tocar e dar choque. Eu não sou místico, mas alguma coisa muito mística, muito além do Lula, aconteceu em São Bernardo ontem.

Atravessou um trem no meio da cidade, que atravessou cada um ali. Uma locomotiva carregada de minério para virar aço e carros no corpo de todos presentes. E foi de verdade. Foi uma mistura de sentimentos, um bololô em ondas fortes, peitos batendo e vozes que não saiam da gargantas. Simplesmente não saiam. Era assim, foi assim.

Daí berros, berros cortantes e vigorosos, como de recém-nascidos. E, no fim, era ele quem estava, desde o início, ao mesmo tempo acalmando a turba e chamando pra luta, pra briga. Dali, daquele palco, descia pra cadeia, coisa de minutos. Um preso falando. Passei a entender porque algumas vozes não saiam mais, estavam presas já. Desceria a escada do caminhão, e, pêi, xilindró.

Era morte e vida. E era alí. Não tinha texto grego. Não tinha Homero, Sheakspeare, Marlowe. Até pensei no Leon Hirzman e no Gianfrancesco Guarnierri encenando o drama das greves do ABC nos palcos e no cinema. Nada dava conta. Afora a política toda, algo muito maior estava fora de qualquer máscara ou encenação. Estava acontecendo uma verdade. Era a esposa sendo chorada pelo Padre Operário, a homilia pensada pelo irmão Gilberto Carvalho e ele, Lula, querendo uma música apenas, Asa Branca, canção do casal.

Do casal??? Um hino do Brasil dos Lulas. “Quando o Verde dos teus olhos se espalhar na plantação”. Lembrei de meu pai, que destaca essa estrofe como das mais lindas, e, pensei na minha avó, pai do meu pai, Baiana de Santa Rita de Cássia, que nos deixou há 2 anos. Lembrei também que tivemos um dia um Ministro da Cultura que dizem que é um orixá, o Gilberto Gil. E eu queria cerveja. Achei.

Era ele indo pra cadeia. Eram os medíocres, eram os vermes fazendo isso. Era a mentira operando. Estávamos todos lá associados à escória. Eu, que nem batizado quando nasci fui, via a Cruz na Batina do Padre operário e os berros de recém-nascidos das pessoas pedindo pra ele resistir, com olhar temente à Deus. Olhava pro Suplicy sendo atendido por médicos, pro Mercadante e via o cenário paradoxal do apocalipse que fazia morrer e, ao mesmo tempo, nascer algo.

Acho que todos viravam Lula mesmo em São Bernardo ontem. Estamos todos indo pra cadeia, todos estamos nos sentindo mal, injustiçados. Empatia, entender o sofrimento do outro, simpatia, sofrer junto do outro. Missa-Culto-Comunhão. Mãos dadas.

Não existe parto sem dor, nem vida sem parto. Era dramático, como é um trabalho de parto. Sangue, placenta, berros e dor. Havia risco. Foi à fórceps!

Olhava pra sede, antes barracão. O Útero-sindicato estava lá. Dali nasceu algo. Dali nasceu muita coisa que foi inscrita na constituição. Dali nasceu o EU do homem mais potente que este Brasil produziu. E ele, frágil e forte, correu pro ninho, pra debaixo da asa dos amigos, pro boteco onde bebia com os amigos. Só da fonte sairia pra escuridão. E a polícia, os algozes carcomidos, os Pôncio-Moro, lá, babando, no cio.

Começo a olhar pro céu. Começo a achar que o Épico está lá mesmo. Questiono minha psicose. Questiono minha individualidade. Pergunto se estou dissociando. Deixo me ir? É possível mesmo isso estar acontecendo, assim? Não seria um palco grego? Uma tourada? Quem escreveu esse enredo? Se eu pego, vai ter que apanhar. Juro vingança. Blasfemo. Retiro. Peço perdão. Começo a entender o processo de morte e vida ali. Começo a ver algum tempo e alguma transitoriedade neste lugar.

– Corte – Hoje, domingo, São Paulo.

Sigo descerebrado. “Domingo descobri que Deus é triste. É infinita a solidão de Deus sentado ao lado de….si”. Um pai totêmico que se vai, deixando o trono vazio como um elevador quebrado hoje, no dia de domingo. É o Drummond, são vários cantores e a Mercedes Sosa cantando Valderrama desde cedo. E o Gonzaga. Assum Preto.

Uma cela em Curitiba e fogos por São Paulo.

Foguetório do desprezo.

A saudade antes trazia fogos, uma canção antiga lembra. Era assim que se comemorava quando alguém voltava em muitos lugares Brasil afora. “A barulheira que a saudade tinha”, diziam. Agora é a barulheira do desamor. Foguetório do desprezo.

– Corte – Voltamos ao Sábado, São Bernardo

Mas sim, sim, houve transe ontem… Muitos desmaios. Após falar, dizer que viraria ideia, Lula vai carregado pelos recém-nascidos até o sindicato-útero, fazendo-se carne para o banquete dos filhos. Se faz alimento e deixa vago o trono. Tragédia absoluta! Lindo e horrível! Eu tremia, não conseguia foco para as fotos que tentei deste devorar. Me preocupei em me alimentar, vejo. Ainda bem.

Findo o banquete, um berro vem de dentro ao fecharem as portas do sindicato! – MÉDICO! MÉDICO para o Presidente! Era um pico de pressão. Era o Mercadante desesperado. E foi um pico de pressão. Minha pernas não seguraram. Ajoelhei sem querer, minhas pernas bambearam mesmo. Uma mulher me ajudou a levantar. Ela estava fraca de lágrimas. Nos abraçamos muito órfãos. Somos Lula. Ele se deixou devorar.


Por Aldo Zaiden, psicanalista.

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