Tag: Aristóteles

Aula de 02/02/1996 – O movimento periódico e a forma vazia do tempo

"Deleuze cita Hamlet de Shakespeare ― e o Hamlet diz: “o tempo saiu de seus gonzos”. O tempo abandonou as suas forquilhas, as suas dobradiças. O tempo no Aristóteles tem como modelo a estrela fixa e o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. Sabe o que é isso, uma estrela fixa em rotação sobre seu próprio eixo? É uma porta giratória... Eu acho que o melhor modelo que vocês podem usar é a porta giratória. A porta giratória é o grande modelo do tempo aristotélico. Então, aparece um gênio maligno, um deus enlouquecido, retira a dobradiça da porta e a porta enlouquece. Quando a porta enlouquece, emerge o movimento aberrante ― e o tempo se liberta do movimento. Então, quando se fala em arte e em filosofia, a questão de ambas ― da arte e da filosofia ― é ir atrás dessa porta enlouquecida. Porque conquista do tempo é sinônimo de liberdade."

Aula de 08/05/1995 – O designante, o designado e o referente

“Qual é a diferença, quando eu digo: "este copo" e "o copo"? É que eu suponho que "este copo" tem um indivíduo real; e "o copo" não tem um indivíduo real. Então, se o nome universal não tem objeto real ao qual ele esteja designando, o universal não é real - é apenas um signo. Nada mais do que isso! Enquanto que, quando eu digo esta cadeira, esta mesa, quando eu produzo o que se chama designante, nós contamos que para lá da palavra exista um objeto real, que se chama, em linguística, o referente. (...) Então: ao universal, nada corresponde no real. Ao designante, corresponde o indivíduo. O terceiro termo é singularidade. Força genética! Nós ainda não sabemos o que ela é... mas sabemos que essa singularidade não é uma realidade física, individual; mas - sem ela - os indivíduos físicos não existiriam.”

Aula de 12/09/1995 – O atual e o virtual ou o objetivo, o subjetivo e o fora

"O conceito de representação orgânica: é o tempo como sucessivo e integralmente preenchido pelo presente. A representação orgânica é isso - o presente preenche todo o tempo. Você não sai do presente - não há hipótese de sair do presente - nem quando se lembra, nem quando projeta: o presente te governa. (...) O cristalino... o cristalino é a saída do governo que a força do habitus exerce sobre as nossas vidas. Você não sabe se é real, se é imaginário, se é sonho, se é lembrança... porque você não sabe mesmo! Tem acontecimentos assim, surpreendentes! O surgimento de imagens produzidas pelo seu cérebro. O seu cérebro que produz. Na verdade não é o seu cérebro que produz, quem produz é o cérebro do planeta - que é um cérebro líquido. Ele produz tudo que você deseja."

Existe uma inteligência do virtual? | por John Rajchman

"O pensamento precisa sempre do cérebro: não para tornar necessária a lógica de seu encadeamento, mas para apreender esse virtual que perturba o pensamento e o coloca em novos caminhos. A questão do cérebro torna-se, então, prática: é a questão do que ainda podemos fazer com ele. O verdadeiro problema não é mais uma indistinção entre nossos cérebros e nossos computadores, mas, antes, que “não sabemos ainda o que pode um cérebro”, mesmo quando ele se acopla a uma máquina smart em um dado agenciamento. Em lugar de dizer que “somos apenas máquinas smart dentro de um carbono pesado”, seria melhor que nos perguntássemos: “como nos tornamos outros em um mundo que inclui não apenas essas máquinas, mas também esse tipo de discurso?”. Chegamos, então, à questão foucaultiana por excelência: quando, como e com que consequências tal espécie de coisa se tornou “coisa dita”".

Aula de 24/08/1995 – A forma do falso

“Você está diante de uma personagem que é o tempo inteiro falsa. Ela quebra... quebra... Ela é falsa na forma, ela não é falsa no conteúdo. Ela não é falsa porque mente; não é falsa porque não quer ter relações sexuais com [Mateo]: ela é falsa enquanto forma - a forma da personagem é a forma da falsidade. (...) No caso de 'Esse obscuro objeto do desejo', enquanto conteúdo do filme, na verdade eu nem sei se aquela personagem mente - eu não sei...- porque ela é mentirosa na forma - não no conteúdo do filme. Então, o que quer, o Buñuel, ao colocar uma personagem falsa..., ao colocar uma narrativa falsa, ao introduzir uma narrativa falsa, ao introduzir uma personagem falsa... Ao fazer isso, ele introduz no cinema o falso - não no conteúdo, mas na forma do cinema - o cinema recebe o falso!”

Aula de 08/08/1989 – Nietzsche: O Espírito de Vingança

“As paixões humanas não suportam a passagem do tempo, não suportam o processo, ou melhor, não suportam o sofrimento ― o sofrimento que a vida traz. Não suportando esse sofrimento, geram o mundo verdadeiro. Ultrapassam o tempo; e geram o mundo verdadeiro ― Nietzsche chama isso de “recusa à vida”. O pensador da verdade recusa a vida e busca um outro mundo: abandona aquilo que é, para procurar o que deveria ser. Ou seja: abandona o ser e procura o dever. Quer dizer: o pensador da verdade é moralista.”