Aula de 09/05/1992 – O conhecimento humano: a gênese da generalidade. Diferença e repetição

Eu não tenho nenhum projeto especial para esta aula. É mais uma aula Judas, O Obscuro, mais restauradora do que criadora, para organizar questões do curso.

Bom…

A ideia de possível que é uma ideia com a qual, nos cursos, nós vamos desencadear Leibniz. É pela ideia de possível que Leibniz vai chegar para nós. Ela se entende, inicialmente, como aquilo que é regido pelo princípio de não contradição.

(…)

POSSÍVEL = PRINCÍPIO DE NÃO CONTRADIÇÃO

O que já nos faz entender que quando a ideia de impossível aparecer, é a ausência do princípio de não contradição.  Torna-se fácil a compreensão.

Por exemplo: No séc. XIX, o Meinong, ele trás como original na obra dele, trabalhar nos objetos impossíveis. O que faz com que a obra dele seja, exatamente, um confronto com o campo dos possíveis.

Muito bem.

A noção de possível é a noção que sustenta a formação do mundo pelas teologias medievais. Porque elas pensam um Deus dotado de duas faculdades  A noção de faculdade já importa porque remete para Kant  (…) e estas duas faculdades são a vontade e o intelecto. Então, o Deus medieval, ele tem uma vontade e um intelecto. E o intelecto dele é constituído pelos possíveis. Logo, o intelecto divino é regido pelo princípio de não contradição.

Esta colocação leva os teólogos a dizerem que o rompimento com o princípio de não contradição (Veja que eu estou usando não contradição, porque se eu estivesse usando contradição, eu estaria falando em Hegel –é o princípio de não contradição enquanto aristotélico leva os teólogos a dizerem que a Deus repugna o rompimento com o princípio de não contradição.

A não contradição regendo o mundo dos possíveis leva a que a gente não precise perguntar o que é um objeto possível. Basta que ele tenha o princípio de não contradição o regendo, que ele é um objeto possível. Aí torna-se muito fácil de compreender.

Agora, esses possíveis, regidos pelo princípio de não contradição, eu vou passar a chamá-los de essências. Então são as essências que estariam no intelecto de Deus. (…) Essas essências, esses possíveis, que através da vontade de Deus, vai ser construída a realidade. O que implica em dizer que: ao real, alguma coisa o antecede. O que antecede o real é o campo das possibilidades. Tanto o intelecto, que contém os possíveis, como a vontade que os efetua, são faculdades ativas de Deus. (Eu usei faculdades ativas aqui, o que é muito fácil, porque todo mundo sabe o que é o involuntário e as faculdades passivas).

Então, as faculdades ativas de Deus e esse campo de possibilidades regido pelo princípio de não contradição, faz com que Deus, ao produzir/ao criar o universo, ele crie a partir desses possíveis que estão no seu intelecto. Então o mundo é racional. (…) O mundo é racional, a partir desses possíveis no intelecto de Deus.Agora, o que torna real a esses possíveis é a vontade de Deus.

Então o intelecto de Deus, trabalhando essas essências possíveis, ele vai dando realidade. Elas [as essências] tornadas reais, eu vou passar a chamar de coisas. Coisas ou mundo físico. Então nós teríamos aqui, nitidamente, Deus criando o mundo, que é o mundo das coisas –o mundo físico– e esse mundo físico sendo originário nessas essências possíveis que estão no seu intelecto.

Gerou-se nitidamente dois temas: gerou-se o tema da física e gerou-se o tema da lógica. Porque a lógica é exatamente esse mundo possível que está no intelecto de Deus.

Bom, o homem vai ser também originário nesse mundo possível. O homem tem origem nesse mundo possível e se torna real. Agora, quando o homem surge, ele surge reproduzindo Deus, no sentido de que ele vai ser feito à imagem e semelhança de Deus, ele trás com ele também um intelecto e uma vontade.

Então, ele trazendo com ele um intelecto e uma vontade, ele tem um poder semelhante a Deus de produzir e ele tem essas possibilidades dentro do seu intelecto. Só que a diferença do homem para Deus, utilizando uma linguagem kantiana, Deus é uma potência infinita; ou seja, Deus é sempre criador. Enquanto a prática do homem é de conhecimento.

Deus parte dos possíveis para produzir as coisas. O homem parte das coisas para conhecer os possíveis.

Continua…

________

Esta aula tem 2 horas e meia de duração (cada parte contém mais ou menos 30 minutos).

A Parte 6 dura apenas 3 minutos e meio.

 

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

Parte 4:

 

Parte 5:

 

Parte 6:

 

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Aula de 29/05/1990 – Kant e Espinosa: moral e ética – Sobre os modos de existência

Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 9 (A Imagem Moral e a Liberdade) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 

O Deleuze faz… (Isto é espinosista, sem dúvida nenhuma espinosista!) …ele faz uma distinção de ética e moral. Ética não é a mesma coisa que moral. A base da distinção, e esta base da distinção é importante para se entender, é que moral vai pressupor valores transcendentes. Daqui a pouco eu explico o que é isso… aliás, a nomenclatura é exatamente essa:

moral > implicação > valores transcendentes

ética > implicação > modo de existência imanente

É essa a distinção. E eu montei essa distinção para a nossa compreensão.

Bom, eu vou misturar. Eu poderia fazer de uma forma ou de outra. Eu vou misturar a aula para ela ficar melhor, ficar mais agradável.

Há um fenômeno social, inteiramente social –da ordem social– que é o fato de que o ‘estar dentro de uma sociedade’ pressupõe a obediência dos societários. Onde há uma sociedade, emerge a ideia de obediência ou a ideia de obrigação. A ideia de obrigação, ela é presente dentro de um campo social, onde aparecem  vindas também de campo social  as duas ideias consequentes de recompensa e punição. O campo social pressupõe obrigações e as recompensas e punições, em torno destas obrigações, emergem necessariamente. A partir daí nós sabemos que dentro de um campo social, usando uma linguagem marxista  pouco importa qual seja a formação social  vai aparecer a ideia de autoridade. Em todo e qualquer campo social aparece, de imediato, essa ideia de autoridade, que é exatamente aquilo que pressupõe a obrigação e gera a recompensa e a punição.

É essa tese geral, como eu estou colocando, que motiva o Freud, no capítulo VII do Mal Estar na Civilização a escrever um texto. Texto esse que está inteiramente ligado às práticas, às investigações que nós estamos fazendo. É onde o Freud coloca a ideia, e é perfeitamente compreensível –não precisa ser psicanalítica. Essa ideia , a ideia de uma autoridade externa, a qual os membros de um campo social devem um respeito, devem obrigações. E o Freud, acionando esta ideia de autoridade externa –sem precisar exatamente– ele admite que, em determinados campos sociais, vai surgir a ideia de internalização da autoridade. Então, seria esta dupla posição: autoridade externa e autoridade internalizada. A ideia de autoridade internalizada é a ideia de superego. Uma ideia de que haveria, em determinados campos sociais, essa hipótese de uma autoridade internalizada.

A ideia de autoridade, ela podendo punir ou recompensar. Evidentemente, a autoridade pune ou recompensa as ações que são cometidas pelos membros da sociedade. Então, a autoridade externa, ela lida diretamente com atividades. As atividades dos membros dessa sociedade são atividades que recebem punições ou recompensas dessa autoridade.

Mas, quando se coloca essa ideia de autoridade internalizada. (É essa ideia que é muito difícil, né?! A ideia de internalização de uma autoridade. Eu liguei à ideia de superego, é a melhor maneira de se fazer) Essa autoridade internalizada, ela não trabalha diretamente com ações. Ela só trabalha com intenções. Ou seja: não é necessário que haja uma ação para que haja uma punição. Porque, se a autoridade está internalizada, se a autoridade faz parte do nosso ego, (né?!) se a autoridade está inscrita no nosso ego, ela poderia punir ou penalizar as próprias intenções daquele sujeito sem a necessidade das ações. É… com essa noção de autoridade internalizada a posição do sujeito humano já se torna bem mais difícil, porque não é preciso que ele haja para ser punido. Basta que ele intencione, basta que ele tenha uma intenção.

Mas, até aqui, o poder da autoridade internalizada seria punir as más intenções. Ele não precisaria punir as ações, ele iria às más intenções. As más intenções seriam punidas. Mas, sem que haja muita clareza no texto do Freud. Mas é isso o que exatamente está passando: é essa internalização da autoridade e as punições não nas más intenções, mas em qualquer intenção.

Eu não sei se ficou claro… basta ter intenção para que uma punição emerja. Como é que a gente pode pensar isso? Como é que a gente pode pensar a internalização da autoridade. Figura estranha a internalização da autoridade, que é exatamente o que eu estou chamando de superego. Ou seja, uma extensão do ego. Alguma coisa que aumenta o poder do ego. E essa autoridade podendo punir, não as más intenções, mas qualquer tipo de intenção vindo a ser punida.

A única maneira que a gente pode pensar; é a maneira inclusive como o Lacan coloca, é que esse superego, essa autoridade internalizada, ela só pode existir através das energias do ego. Ou seja, o superego é alguma coisa que só tem existência através da energia do ego. E a energia do ego é o desejo. É o desejo. Eu não sei se o axioma vai ficar bem. É o próprio desejo. Então, basta desejar para produzir energia; basta produzir energia para constituir o superego; basta constituir o superego para haver punição.

Então a ideia de autoridade internalizada põe como consequência que qualquer desejo gera a ideia de desejo reprimido. (…)

Eu não sei se foi bem.

Porque o superego seria exatamente a repressão do desejo (…) E ele se constituiria pela energia do desejo. Então o simples fato de se desejar já é o suficiente para se constituir o superego.

Então, a partir dessa ideia de autoridade internalizada, não haveria a possibilidade de nós nos libertarmos de nossas culpas. Nós imediatamente seriamos culpados, porque desejar implica desejo reprimido.

Entenderam bem?

Continua…

Parte 1

 

Parte 2

 

Aula de 22/08/1995 – Ícone e simulacro (ENKRATEIA – Estética da existência)

A humanidade se constitui pelo processo de imitação. Dentro de uma sociedade, sempre o processo de imitação vai ser o modelo. Se você introduz o simulacro, você rompe com o modelo. Eu vou chegar lá na polícia e vou dizer: – A quem que eu imito?
Mas, nesse momento, aparece uma das coisas mais bonitas aqui:
No momento em que você não sabe o que faz, é o momento em que você tem que se constituir. É a experimentação da liberdade sua. Ou seja, você já não tem mais nada pra copiar, você próprio tem que se tornar o seu próprio modelo. Você próprio tem que constituir… produzir um novo ser.
 
Claudio Ulpiano
 
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Parte 1: 
Parte 2: 
Parte 3: 

 
Esta aula está em Aulas Transcritas como ENKRATEIA – Estética da existência
 
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Aula de 01/11/1994 – Nietzsche: forças ativas e forças reativas

“Além do indivíduo há outra coisa. Essa outra coisa chama-se singular.
 
Entenderam? Não?
 
O singular seria um elemento que junto, quando você juntasse um conjunto de singulares, o que apareceria? O indivíduo. O indivíduo é um conjunto de singulares.
 
Isso eu estou falando de uma maneira até bruta, como se fosse um diamante, para vocês poderem entender. São são dois elementos que reagem. São duas realidades: a realidade do individual e… qual é a outra realidade? Do singular.
 
(…)
 
O Nietzsche, quando ele vai falar em singular, ele não usa a palavra singular. Ele utiliza a palavra força.
 
Mas Nietzsche diz que uma força nunca vai aparecer isolada. Uma força sempre aparece em relação com outra força. E quando duas forças estão com relação você tem um corpo.
 
(…)
 
Então um corpo é a relação de duas forças. Isso é definitivo na obra de Nietzsche, é o ponto de partida. Você não tem um corpo se você não tiver as forças.
 
Essas forças são a singularidade. São elas que são as intensidades. Todas as forças são singulares e intensas.
 
Segundo Nietzsche essas forças seriam ativas ou reativas. Isso é definitivo na obra dele.
 
‑  Então um corpo é constituído por duas forças, quais?
 
‑  Ativas e reativas.
 
Isso é definitivo. É facílimo entender o que ele está dizendo. Em seguida ele diz uma coisa também de uma facilidade incrível: a força ativa, ela comanda. A força reativa obedece.
 
‑ Então o ser da força ativa é?
 
‑ Comandar.
 
‑ E o ser da força reativa é?
 
‑ Obedecer.
 
Mas isso não implica em que não possa haver um corpo no qual a força reativa domina.
 
faixa-doacaoNo momento em que você tem um corpo, você tem as duas forças; mas pode acontecer que neste corpo a força reativa (a força da obediência) esteja dominando. É o que se chama “rebelião dos escravos”. Vocês entenderam?
 
‑ O corpo pode ter a força reativa dominando dentro dele ou não?
 
‑ Pode.
 
Este corpo quando tiver a força reativa dominando dentro dele, isso não significa que a força ativa deixou de existir. Porque se a força ativa deixa de existir, desaparece o corpo. [Isso quer dizer que] pode haver uma situação em que a força reativa domine; mas nem por isso a força ativa deixa de existir. Entendido?
 
Então, no homem, isso que nós chamamos homem, há um domínio das forças reativas. Aquela força que nasceu pra obedecer, que nasceu pra ser escrava, ela passou a dominar a força que nasceu para dominar e ser ativa.
 
No homem o que domina é a força reativa. Entenderam?
 
Então quando você encontra um indivíduo onde a força reativa domina, você usa essa expressão: neste ser há uma vida reativa. Ou seja, o homem é um ser que tem uma vida reativa. Por que essa vida é reativa? Porque as forças reativas, que são as forças feitas para obedecer, elas passaram a comandar. Então o homem passou a ser um ser que tem a vida reativa.”
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

 
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Aula de 01/08/1995 – O tempo negativo e seus predicados – De que matéria é feito o espírito?

Vocês sabem o que é organismo? Organismo é a matéria viva, tá?!
 
Por exemplo: esse óculos é de vidro, o vidro não é uma matéria viva, então pro Leibiniz, o vidro é uma matéria? Elástica. A matéria é elástica.
 
Claudio pega um objeto e pergunta: Então isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Elástico.
 
Ele repete a pergunta pegando outros objetos e depois segue com a aula.
 
A vida é a matéria orgânica.
Por exemplo:
Claudio pega um objeto (uma planta) e pergunta: Isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Orgânico.
 
A vida para o Leibiniz é plástica.
 
A duas matérias no universo: A matéria elástica inorgânica e a matéria plástica orgânica.
 
Entendeu? Elástica e plástica.
 
Um aluno pergunta: O que que é a matéria plástica?
Claudio responde: A plástica é a orgânica.
O que é a matéria plástica, o que é? A matéria plástica é a síntese de dois instantes.
É quando dois instantes estão juntos um do outro, chama-se matéria plástica.
 
O que quer dizer isso? Só há vida quando houver síntese.
Só há vida quando houver síntese.
 
Vou voltar outra vez.
Ninguém precisa se preocupar, porque vocês vão entender.
 
Eu vou voltar para a natureza e retirar o espírito.
 
Claudio: O que é a natureza sem o espírito?
Alunos: Mens momentanea.
Claudio: O que é a mens momentanea?
Alunos: Tica tac…
Claudio: Tica tac…
 
Claudio: Tá. Então vê se eu posso chamar a natureza de sensações vibratórias
 
Silêncio.
 
Claudio prossegue: Vocês não entenderam… A natureza vibra. Ela é uma vibração. A natureza é um processo vibratório. Entenderam? (…)
É vibrar. Claudio gesticula e fala: Pá! Pá! É um processo de vibração.
O processo vibratório é a natureza elástica. A natureza elástica é vibratória. Ela vibra o tempo todo. E a natureza plástica, ela é contraente. Então a vida contrai a vibração. É difícil pra burro, né?!
 
A natureza é processo vibratório e a vida vai ¬Claudio tá um tapa na mão¬ e contrai aquilo.
Junta elementos que estão separados… na natureza… junta. A vida junta. E essa junção…
 
Não se preocupem, nem que com trinta aulas, mas vocês vão entender isso.
 
A vida, ela produz sínteses nos elementos vividos. (…) A vida é quando duas vibrações se juntam. Por isso a vida, ela pega a matéria elástica e dobra a matéria elástica; junta o que tá aqui com o que tá aqui (Claudio apontando de uma ponta a outra no espaço).
 
Não sei se vocês entenderam?
 
O ser vivo é constituído de mil, mil, mil e mil dobras. Nós somos como se fosse um tecido barroco. Nós somos cheios de dobras. Se você pegar o estômago e abrir ele, ele é imenso. Porque são as dobras feitas pelas contrações. Essas contrações geram a matéria plástica. A matéria plástica é o organismo.
 
Tá muito difícil isso?
Mihaela, você, eu vou cobrar muito de você, viu? Você é muito jovem e isso implica em dizer que nada te impede de entender essas coisas. (…)
 
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Então eu estou dizendo pra vocês que uma força… Vê se eu posso dizer isso e se alguém não entender, levanta o dedo… Uma força contemplativa…
 
Claudio: O que é essa força contemplativa?
Alunos: O espírito.
Claudio: O espírito.
 
Então … marca isso: força contemplativa não é ação. É contemplação. A força do espírito contempla e contrai. E quando contrai, nasce o organismo.
 
Claudio: Então o organismo é o espírito? Ou é um resultado do espírito?
Alunos: Resultado.
Claudio: Resultado.
 
O organismo é o que se chama vida orgânica. O espírito que contempla é o corpo sem órgãos.
Alunos: ?
Claudio: Corpo sem órgãos.
 
Por exemplo: pra você entender o que eu estou dizendo. O Rubens Correa, ele costuma representar o Artaud… não sei se vocês já viram, muito bem. É um Artaud muito cheio de gritos. Não tem nada a ver com o Artaud.
 
O Artaud criou uma figura na obra dele chamada corpo sem órgãos. Corpo sem órgãos é uma categoria que vai nos explicar, depois que nós entendermos ela, vai nos explicar o que é o desejo, o que é o prazer, o que é o instinto de morte, vai nos explicar tudo isso. Eu estou dizendo pra vocês que o nascimento da vida pressupõe a vibração dos instantes separados.
 
Primeiro elemento: a vibração dos instantes separados.
 
Claudio; Qual é o nome da vibração dos instantes separados?
Alunos e Claudio: Mens momentanea.
Dois: Um espírito que contempla.
 
Agora, quando eu falo espírito que contempla, eu vou abrir um parênteses:
A contemplação foi feita, na história da humanidade aparece o Mito de Narciso. Narciso é aquele que contempla a sua própria imagem. Sabia disso? Narciso contempla a sua própria imagem. O narcisimo vai ser dividido em dois: narcisismo material e narcisismo formal.
 
O narcisimo material é quando alguém contempla a sua imagem fora dele. Você contempla a sua imagem fora de você. (…)
 
Por exemplo: Narciso contemplando a imagem dele refletida nas águas. Agora é um momento magnífico, vamos ver se eu consigo explicar isso daqui pra vocês. O narcisismo formal é quando o espírito contempla e ao contemplar contrai os elementos do qual ele é feito. Os elementos com os quais ele é feito. E os elementos com os quais o espírito é feito são os instantes. Dificílimo, não é?
 
Vamos fazer alguma coisa… vou pegar um objeto aqui assim. E aqui vai ficar um pouco diferente do que eu quero dizer. Porque quando você pega a natureza. A natureza vista sob o modelo clássico, ela é constituída por quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Esse é o modelo clássico, os quatro elementos que constroem a natureza. A partir da descoberta atômica, não se fala mais nos quatro elementos, fala-se fósforo, enxofre, silício, carbonos… você fala em elementos atômicos. Mas vamos dizer que a natureza seja constituída pelos quatro elementos. Então esse instante que faz assim [Claudio gesticula com as mãos, uma dobra] são os quatro elementos. A matéria do instante são os quatro elementos.
 
A natureza, ela é constituída de quatro elementos: terra, fogo, ar, água. Um filósofo chamado Empédocles disse que existe na natureza os quatro elementos e duas forças. Uma força chama-se amor e a outra força chama-se ódio. Na hora que a força do amor prevalece , os quatro elementos se juntam. Na hora que a força do ódio prevalece, os quatro elementos se separam. Então para o Empédocles a natureza é um ciclo que oscila entre o amor e o ódio. O que eu estou dizendo é que o processo do espírito contemplativo é um processo de amor. O espírito contempla os quatro elementos. Mas o espírito quando contempla os quatro elementos, ele próprio é os quatro elementos. E ele junta os quatro elementos.
 
Eu vou agora explicar de outra maneira: você pega uma semente de vagem e joga a semente de vagem na terra. Não sei quanto tempo depois você vai naquele lugar com uma semente de jasmim… você joga na terra. Seis meses depois você volta e tem um jasmineiro. Um jasmineiro. O que é o jasmineiro? É a semente que contrai a matéria que a circunda. A matéria que circunda a semente é a lama. Ela contrai aqueles elementos que estão ali. E aqueles elementos vão se transformando em jasmins. Vocês entenderam?
 
Como é que de uma pequena semente pode nascer uma árvore imensa? É porque a árvore é constituída desses elementos que a semente juntou e contraiu e transformou em folha, fruto, casca… madeira. É uma contração que a semente faz.
 
Então o que ocorre no nascimento da vida é exatamente isso: a matéria com a qual a natureza é constituída se contrai, se junta, e na hora que ela se junta ¬usando Leibiniz¬ ela se transforma em matéria elástica e matéria plástica. E a vida é isso. A vida é orgânica. É importante que se isso for entendido, a gente distinguir o processo do nascimento do organismo e quem produz a vida não é o organismo. O produtor do organismo é o espírito que contrai. Por isso você pode dizer: a vida, ela não é orgânica, ela torna-se orgânica. Ficou difícil…
 
Até onde nós fomos? Até onde nós conseguimos ir nessa aula? E até onde nós não conseguimos ir?
 
Essa aula é uma aula que eu adiei durante umas três aulas. Eu fui impedido de dar ela. Mas agora eu vou começar a seguir nessa aula.
 
O que eu estou dizendo para vocês é que a tese que eu estou passando é que o tempo é subjetivo. Não há tempo se não houver contemplação.
 
Essa agora… num processo terminal, essa explicação que eu dei para vocês, ela teve dois conceitos básicos: o conceito de repetição da vibração e o conceito de diferença no espírito que contempla, que junta as (penetrações ? 15:15). Vocês entenderam isso? Repetição e…? Diferença. Repetição e diferença. A contemplação que o espírito faz introduz, dentro da natureza, a diferença. (…) Eu vou dar essa aula até vocês entenderem. Eu vou dar ad nauseam.
Porque com essa compreensão nós vamos poder entender todos os processos da vida. Foi bem a aula, não é?!
 
(…)
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 4:

 
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Aula de 09/05/1992 – O conhecimento humano: a gênese da generalidade. Diferença e repetição

“Eu não tenho nenhum projeto especial para esta aula. É mais uma aula Judas, O Obscuro; restauradora do que criadora, para organizar questões do curso.

Bom…

A ideia de possível que é uma ideia com a qual, nos cursos, nós vamos desencadear Leibniz. É pela ideia de possível que Leibniz vai chegar para nós. Ela se entende, inicialmente, como aquilo que é regido pelo princípio de não contradição.

(…)

POSSÍVEL = PRINCÍPIO DE NÃO CONTRADIÇÃO

O que já nos faz entender que quando a ideia de impossível aparecer, é a ausência do princípio de não contradição.  Torna-se fácil a compreensão.

Por exemplo: No séc. XIX, o Meinong, ele trás como original na obra dele, trabalhar nos objetos impossíveis. O que faz com que a obra dele seja, exatamente, um confronto com o campo dos possíveis.

Muito bem.

A noção de possível é a noção que sustenta a formação do mundo pelas teologias medievais. Porque elas pensam um Deus dotado de duas faculdades  A noção de faculdade já importa porque remete para Kant  (…) e estas duas faculdades são a vontade e o intelecto. Então, o Deus medieval, ele tem uma vontade e um intelecto. E o intelecto dele é constituído pelos possíveis. Logo, o intelecto divino é regido pelo princípio de não contradição.

Esta colocação leva os teólogos a dizerem que o rompimento com o princípio de não contradição (Veja que eu estou usando não contradição, porque se eu estivesse usando contradição, eu estaria falando em Hegel – é o princípio de não contradição enquanto aristotélico1) leva os teólogos a dizerem que a Deus repugna o rompimento com o princípio de não contradição.

A não contradição regendo o mundo dos possíveis leva a que a gente não precise perguntar o que é um objeto possível. Basta que ele tenha o princípio de não contradição o regendo, que ele é um objeto possível. Aí torna-se muito fácil de compreender.

Agora, esses POSSÍVEIS, regidos pelo princípio de não contradição, eu vou passar a chamá-los de ESSÊNCIAS. Então são as essências que estariam no intelecto de Deus. (…) Essas essências, esses possíveis, que através da vontade de Deus, vai ser construída a realidade. O que implica em dizer que: ao real, alguma coisa o antecede. O que antecede o real é o campo das possibilidades. Tanto o intelecto, que contém os possíveis, como a vontade que os efetua, são faculdades ativas de Deus. (Eu usei faculdades ativas aqui, o que é muito fácil, porque todo mundo sabe o que é o involuntário e as faculdades passivas).

Então, as faculdades ativas de Deu e esse campo de possibilidades regido pelo princípio de não contradição, faz com que Deus, ao produzir/ao criar o universo, ele crie a partir desses possíveis que estão no seu intelecto. Então o mundo é racional. (…)

O mundo é racional, a partir desses possíveis no intelecto de Deus.

Agora, o que torna real a esses possíveis é a vontade de Deus.

Então o intelecto de Deus, trabalhando essas essências possíveis, ele vai dando realidade.

Elas tornadas reais, eu vou passar a chamar de coisas. Coisas ou mundo físico.

Então nós teríamos aqui, nitidamente, Deus criando o mundo, que é o mundo das coisas, o mundo físico; e esse mundo físico sendo originário nessas essências possíveis que estão no seu intelecto.

Gerou-se nitidamente dois temas: gerou-se o tema da Física e gerou-se o tema da Lógica.

Porque a Lógica é exatamente esse mundo possível que está no intelecto de Deus.

Bom, o homem vai ser também originário nesse mundo possível. O homem tem origem nesse mundo possível e se torna real. Agora, quando o homem surge, ele surge reproduzindo Deus, no sentido de que ele vai ser feito ‘à imagem e semelhança de Deus’, ele trás com ele também um intelecto e uma vontade.

Então, ele trazendo com ele um intelecto e uma vontade, ele tem um poder semelhante a Deus de produzir e ele tem essas possibilidades dentro do seu intelecto. Só que a diferença do homem para Deus, utilizando uma linguagem kantiana, Deus é uma potência infinita; ou seja, Deus é sempre criador. Enquanto a prática do homem é de conhecimento.

Deus parte dos possíveis para produzir as coisas. O homem parte das coisas para conhecer os possíveis.”

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:


Parte 4:


Parte 5:


Parte 6:


Esta aula tem 2 horas e meia de duração (cada parte contém mais ou menos 30 minutos).  A Parte 6 dura apenas 3 minutos e meio.

Aula de 19/12/1995 – A dobra e o barroco – Clarões orgânicos na noite escura

(…) Sempre é difícil acompanhar; então, durante algum tempo até eu dizer “agora”, não é propriamente aula: é uma fundamentação para uma aula que eu vou dar.Eu vou começar dando fundamentação e, à partir dessa fundamentação, a aula começa. Aí eu aviso “vai começar a aula agora. O que vocês podem fazer é se sustentar naquilo tudo que eu fundamentei, tá?!
 
Eu vou começar . Cada tema que eu falar, vocês dizem “já entendi”. Porque a partir desses temas é que a aula vai se desencadear.
 
No século XVII um filósofo chamado Leibiniz. Um filósofo ¬difícil se considerar o que eu vou dizer¬ um filósofo Barroco, integralmente Barroco. Ele, entre outras práticas,  constituiu um conceito que pode receber o nome de harmonia pré-estabelecida ou harmonia universal. O Leibiniz construiu um conceito chamado ¬melhor¬ de harmonia universal.
 
O que quer dizer exatamente esse conceito de harmonia universal?
Quer dizer o seguinte: que tudo o que existe na Natureza… tudo o que existe na Natureza está ligado (uma coisa à outra). Então, não existe na Natureza, nenhum elemento dentro da Natureza, que não esteja relacionado a outro elemento. Então você nunca encontrará na Natureza o que se chama “estrutura atômica”. A noção de “estrutura atômica” é uma noção de alguma coisa isolada. Na Natureza não existiria nada que fosse isolado. Tudo estaria conjugado.
 
Muito bem… o que que ele estabelece? Ele estabelece que tudo na Natureza está em relação. A Natureza é uma rede é uma cadeia de relações. Isso chama-se “rizoma”.
 
Aluna: Rizona?
Claudio: Rizoma! (Claudio soletra: R-I-Z-O-M-A)
 
O que é um rizoma?
O rizoma é que tudo o que existe está relacionado. Tudo o que existe está relacionado.
Então vamos supor aqui… vamos lá…
 
Claudio pega um biscoito e fala: Biscoito. Olha esse biscoito aqui. (Para vocês entenderem, tá?!) Aí chega o rato. O rato entra em contato com esse biscoito. O rato entrou emcontato com esse biscoito.
 
Claudio pergunta: Se ele entrou em contato com esse biscoito, ele entrou em contato com todo o universo?
Aluna: Entrou, claro.
Claudio: Por que?
Claudio e alunos: Por causa da “harmonia universal”.
 
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O que esse filósofo está dizendo é que quando nós entramos em contato com um elemento qualquer, de imediato, nós entramos em contato com o universo inteiro.
Voltando… agora eu vou complicar um pouquinho…
 
Esse biscoito entra em contato com essa xícara. Isso significa que esse biscoito entrou em contato com o universo. Isso chama-se “harmonia universal”. A noção de “harmonia universal” estabelece uma ideia que é: logo que você se encontra com um elemento, isso significa que você se encontra com (agora eu vou complicar) com o infinito. Então o contato com um elemento só, remete você para o infinito da natureza.
 
A Natureza, ela é infinita, e todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres.
 
Todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres. Então vamos voltar… vamos voltar…
 
Olha esse biscoito aqui. Vamos fingir que esse biscoito seja um rato. Olha esse rato aqui. Esse rato, ele tem limites, olha só… ele tem limites: ele tem um lado, ele tem um outro lado menor e aqui ele vai aumentando. Ele tendo limites, isso significa que este ser que está aqui, ele é finito. Finito quer dizer: tem limites. Então esse ser que está aqui, ele é um ser limitado, logo ele tem limites. Mas quando ele entra em contato com outro objeto, logo em seguida ele entra em contato com todo o universo. O que significa que os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Claudio: Ficou difícil?
Aluna: Acho que não…
Claudio: Os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Esse filósofo do século XVII chamado Leibiniz vai dizer que estes seres finitos que têm dentro de si o infinito do mundo inteiro chamam-se “mônadas”. (Claudio soletra: M-Ô-N-A-D-A)
 
A mônada é aquilo que a natureza é constituída. A natureza é constituída por uma infinidade de mônadas. Mas cada mônada conhece o infinito da natureza, tá?!
 
Então todas as mônadas, elas têm dentro delas o infinito da natureza.

Agora veja…acho que foi compreendido, né?!
 
Compreendeu Luiz?
 
A mônada tem dentro dela o infinito da natureza.
 
continua…
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

***

 
Esta é uma aula célebre. Além de ser belíssima, Claudio se aborrece no final. Irritado com o que chama de “tolices” , interrompe o que dizia, levanta-se e deixa a sala, e esta foi a única vez em que isto aconteceu. Para ele, a dificuldade de compreensão dos alunos não atrapalhava uma aula; mas o que chamava de “interrupções por conta de tolices”, era algo que o impedia de prosseguir.  Não cortamos estes minutos finais, pois eles expressam sua postura como filósofo e professor.

Na Parte II, entre os 23:36  e  27:47 minutos, há 4 minutos apenas de conversas indistintas, no intervalo para o café; mas depois a aula prossegue normalmente.
 
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