Félix Guattari: “Essa crise (que não é só econômica…)”

A crise mundial em que estamos mergulhados é, a meu ver, uma crise dos modos de semiotização do capitalismo, não só no nível das semióticas econômicas, mas de todas as semióticas de controle social e de modelização da produção de subjetividade.

A ascensão dessa imensa vaga reacionária que submergiu o planeta é em grande parte consequência do desenvolvimento da crise econômica que apareceu em 74. Mas, na verdade, não se trata verdadeiramente de uma crise econômica. Mais exatamente, essa crise econômica é apenas uma de toda uma série de crises. Aliás, é justamente porque os movimentos de esquerda sindicais tradicionais viveram essa situação unicamente em termos de crise econômica, que o conjunto dos movimentos de resistência social ficaram totalmente desarmados. E, na ausência de respostas, foram as formações mais reacionárias que tomaram conta da situação.

Dá para estimar que o essencial dessa crise mundial (que é, ao mesmo tempo, uma espécie de guerra social mundial) é a expressão da gigantesca ascensão de toda uma série de camadas marginalizadas, por toda a superfície do planeta. São centenas de milhares de pessoas que vivem com fome, e não só isso, mas também centenas de milhares de pessoas que não podem se reconhecer nos quadros sociais que lhes são propostos. Essa crise de modelos de vida, de modelos de sensibilidade, de modelos de relações sociais, não existe somente nos países subdesenvolvidos mais pobres. Ela existe também em amplas correntes das massas dos países desenvolvidos.

Não se trata mais daquilo que se chamava tradicionalmente de “crises cíclicas do capitalismo”. É uma crise de modos de relação entre, de um lado, os novos dados da produção, os novos dados de distribuição, as novas revoluções dos meios de comunicação de massa e, de outro lado, as estruturas sociais, que permaneceram totalmente cristalizadas, esclerosadas, em suas antigas formas. Os poderes de Estado são tanto mais reacionários quanto mais aguda é sua consciência de que estão sentados em cima de uma verdadeira panela de pressão que eles não conseguem mais controlar. Será que dá para acreditar que as concepções dos economistas neoliberais americanos vão permitir manter, por muito tempo, uma ordem mundial que encare esta imensa ascensão da miséria?, que encare esta devastação de continentes inteiros, não só do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista de uma esperança mínima de viver? Eu não tenho nenhum otimismo beato, deslumbrado, em relação a situação atual. Acho, pelo contrário, que haverá desafios absolutamente atrozes que vão se exprimir em massacres como os que aconteceram no Camboja, no Irã, no Líbano. O imperialismo, em todas suas versões, está preparando formas de intervenção de extrema violência, e seus técnicos – em todo caso, os norte-americanos – estão de fato pensando na possibilidade de utilização de armas atômicas miniaturizadas para intervir localmente nesses conflitos.

Não se pode dizer que eu esteja prevendo alguma evolução linear em direção a um novo tipo de revolução. Mas não é participar de um otimismo deslumbrado, o fato de acreditar que reviravoltas históricas consideráveis estão com encontro marcado para os próximos anos. O que coloca ainda mais na atualidade a necessidade de criação de novos instrumentos de luta, novos tipos de referências conceituais para compreender a evolução dessas situações inusitadas…

Uma das características da crise que estamos vivendo, é que ela não se situa apenas no nível das relações sociais explícitas, mas envolve formações do inconsciente, formações religiosas, míticas, estéticas. Trata-se de uma crise dos modos de subjetivação, dos modos de organização e de sociabilidade, das formas de investimento coletivo de formações do inconsciente, que escapam radicalmente às explicações universitárias tradicionais – sociológicas, marxistas ou outras. Essa crise é mundial, mas ela é apreendida, semiotizada e cartografada de diferentes maneiras, de acordo com o meio.

Costuma-se ter, grosso modo, três tipos de atitude em relação a essa crise. A primeira, que eu chamaria de desconhecimento sistemático, tem duas vertentes que conhecemos bem: de um lado o marxismo dogmático que, quando não está no poder (mas aspirando a ele), considera sempre que “as questões de subjetividade, de novas necessidades, existem, sem dúvida, mas só poderão se colocar após a tomada de poder”. E, quando eles estão no poder – o que leva a catástrofes como as que assistimos no Camboja ou nos países do Leste – ao invés de considerar o caráter específico dos problemas subjetivos coletivos, eles costumam colocá-los por conta do erro (erro do partido, manipulações do inimigo ou coisas dessa natureza). De outro lado, temos as teorizações que estão em voga por exemplo nos Estados Unidos (o neoliberalismo, os movimentos libertários, enfim, toda a corrente que se circunscreveu em torno da Escola de Chicago, de Freedman, etc.), que não consideram de modo especifico o conjunto de problemas relativos ao novo tipo de movimentos sociais. Para tais correntes esses movimentos são formas residuais, formas atrasadas de modos de subjetivação. E uma espécie de neodarwinismo social, que pensa essas formas de resistência subjetiva coletiva como arcaísmos que, exatamente por isso, devem ser esmagados, superados, recuperados, utilizados ou remanejados. Para essas teorias a salvação só pode vir de uma espécie de seleção que tem por base uma axiomática fundada na propriedade, no lucro e na segregação social.

O segundo tipo de atitude face aos movimentos sociais contemporâneos poderia se situar, grosso modo, sob a rubrica de um certo tipo de social-democracia, especialmente a francesa. Já aqui, tenta-se circunscrever o problema a dois tipos de temática: por um lado considera-se que deve haver uma reorientação das relações internacionais, do eixo leste-oeste para o eixo norte-sul (ou seja, para as relações entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos). É um pouco o cerne da temática que Jack Lang desenvolveu num congresso promovido pela UNESCO no México. Por outro lado, e desta vez no nível das relações internas, considera-se que, de fato, existe um problema especifico para toda uma série de categorias sociais que não estão inseridas nos processos capitalísticos dominantes. E isso vai desde os problemas nacionalistas ou regionalistas – por exemplo, na França, o problema corso, basco, bretão, etc. – até os problemas dos movimentos feministas, homossexuais, etc., ou os problemas de mudança de relação com a mídia, como é o caso do movimento das rádios livres. Mas o que caracteriza essa segunda atitude é considerar essas questões específicas apenas o suficiente para delimitar as problemáticas e recuperá-las. Essa já era a ideologia do kennedismo, que numa certa época tentou criar uma série de programas que pretendiam canalizar e, ao mesmo tempo, ajudar a controlar o movimento negro, o movimento porto-riquenho, o movimento hippie, etc. Através desse exemplo, poderíamos dizer que a primeira atitude (a de desconhecimento), e a segunda (a de recuperação), não se opõem, mas se complementam, e perfeitamente. Esse reconhecimento parcial pode ajeitar-se com atitudes extremamente repressivas contra os elementos que não se integram nesses processos de recuperação. Podemos constatar aí uma modulação da recuperação extremamente vigilante e precisa.

Considero o melhor exemplo disso a Alemanha Federal, onde há setores alternativos extremamente desenvolvidos e estruturados nas principais cidades, nos quais se desenvolve um processo de autonomização subjetiva coletiva, e esse processo coexiste com sistemas de controle social baseados num esquadrinhamento informático de tal porte que, atualmente, avalia-se em quatro ou cinco milhões o número de pessoas totalmente fichadas e controladas por computadores. A França oscila entre adotar uma solução do tipo alemã, com informatização geral, etc., dadas as ameaças terroristas, ou criar funções estatais – do tipo Senhor Prisão, Senhor Córsega, Senhor Mulher, Senhor Rádio Livre – para estabelecer um diálogo que permita encontrar modos de negociação e de financiamento.

O mesmo tipo de ambiguidade encontramos na Polônia, só que num contexto muito mais catastrófico. De um lado, o governo Jaruzelski gostaria de tentar inventar uma estrutura sindical que tivesse uma conexão real com o movimento social e que permitisse sair dessa espécie de greve geral permanente que existe na Polônia. Mas, de outro, ele recusa radicalmente todas as consequências políticas dessa verdadeira revolução que se deu com o Movimento Solidariedade.

Portanto, a atitude de recuperação é complementar não só à atitude de desconhecimento, mas também às formas de repressão extremamente estritas e violentas do esquadrinhamento social. Assim como são complementares, de fato, no nível das relações internacionais, a atitude das duas grandes potências dominantes – os Estados Unidos e seus aliados e a União Soviética -, como pudemos constatar em operações como a agressão das Malvinas pela Inglaterra, ou, mais recentemente, na passividade total das grandes potencias – mais do que isso, sua cumplicidade – na agressão de Israel contra os povos libanês e palestino. Seja qual for o tipo de modalidade, há uma espécie de abordagem complementar daquilo que chamei de problemática Norte-Sul, no sentido de que em cada país há eixos norte-sul: nos países desenvolvidos há zonas de Terceiro e Quarto Mundo, assim como nos países subdesenvolvidos zonas de Norte, ou seja, zonas de CMI [Capitalismo Mundial Integrado]. De tal modo que podemos dizer, esquematicamente, que há uma espécie de vetorização da problemática geral desses novos modos de subjetivação que dizem respeito tanto às relações com o Terceiro Mundo em nível internacional, quanto a essa espécie de Terceiro Mundo que se desenvolve no seio dos países desenvolvidos. Quero dizer mais concretamente que, de certo modo, e apesar de todas as diferenças das situações, a problemática que os camaradas italianos se colocaram a respeito dos não-garantidos, dos trabalhadores precários, de todas as marginalidades existentes e a problemática, que se coloca no Terceiro Mundo, da sobre-exploração e, às vezes, até da liquidação física tem, a meu ver, fronteira comum.

Voltando a meu ponto de partida, é claro que isso não elimina o fato de que a maneira como essas problemáticas se encarnam é completamente diferente, de acordo com o contexto. Por exemplo, o problema do negro no Brasil não é diretamente comparável ao dos marginatti, em Milão ou em Bolonha. No entanto, podemos talvez considerar que tanto um como o outro participam do mesmo tipo de crise geral que atravessa todas as sociedades do planeta no momento atual. O que os unifica é algo que se abate sobre eles e que vem de fora: uma certa politica do CMI de reestruturação das relações socais e das relações de produção. Podemos dizer que existe uma complementaridade entre as operações de integração e de recuperação nas diferentes situações do planeta. Daí a ótica dos dirigentes e teóricos do imperialismo, de que eu falava há pouco, que considera como operações necessárias e inevitáveis a unificação da força coletiva de trabalho, sua integração às novas mutações tecnológicas, a interiorização pelo conjunto dos indivíduos do planeta, de um certo tipo de relação com a escrita, com a técnica, com o corpo, com o desejo, etc. A crise, vista dessa perspectiva [econômica], não passa de uma crisezinha de nada, um pequeno acidente de percurso, do qual mais cedo ou mais tarde a gente acaba se safando milagrosamente.

Mas essa crise explodiu mesmo, incontestavelmente, a partir de 1974, e desde então a saída do túnel nos é anunciada a cada ano. No entanto, ao contrário, tudo leva a crer que se trata de um desafio, em escala internacional, e para todo um período da História. Crise que poderíamos chamar também de guerra – uma guerra mundial – com a diferença de que não está sendo uma guerra atômica (apesar de essa possibilidade não estar excluída), mas uma sucessão de guerras locais sempre em torno desse eixo Norte-Sul.

E, por fim, o terceiro tipo de atitude. Ao contrário das duas atitudes precedentes, nesse caso considera-se para valer as mutações subjetivas, tanto do ângulo de seu caráter específico, quanto de seu traço comum – trata-se de diferentes formas de resistência molecular, que atravessam as sociedades e os grupos sociais, contra as quais se choca essa tentativa de controle social em escala planetária.

Félix Guattari


Texto de 1983, publicado no livro Micropolítica: Cartografias do Desejo. [texto completo aqui]

A Filosofia é Violeta

Um filósofo experimenta a língua, a linguagem, construindo seus conceitos, que irão renovar os modos de pensar. Ele, o filósofo, não tem compromisso com o senso comum. E mostra a aventura de sua vida, pelas dificuldades que impõe à compreensão do que diz. E sabe disto, das fragilidades do homem; como Espinoza, que concebeu o método formal e reflexivo – para aumentar a potência de compreensão do entendimento humano. A filosofia é difícil. É como a música atonal; é como uma tela do expressionismo abstrato; é como os filmes de Alain Resnais; é como um pássaro exótico, que se faz, torna-se, ritmo e contraponto melódico, diante de um crepúsculo que acentua o violeta. A filosofia é difícil; ou seja: Mil Platôs não é impenetrável, é difícil; ou melhor: é um livro propriamente violeta, desde que Violeta seja entendido como um conceito filosófico.


Claudio Ulpiano

 

Esse texto foi escrito por Ulpiano em resposta a uma crítica, publicada na imprensa, do livro de Gilles Deleuze e Félix Guatarri – Mille Plateaux – na época do seu lançamento no Brasil. O mesmo jornal que publicou a crítica, publicou a resposta de Claudio, à qual  o jornalista deu o belo título de A FILOSOFIA É VIOLETA.


Nietzsche fazia Zaratustra dizer, Castañeda faz o índio Dom Juan dizer: há três e até quatro perigos; primeiro o Medo, depois a Clareza, depois o Poder e, enfim, o grande Desgosto, a vontade de fazer morrer e de morrer, Paixão de abolição27. O medo, podemos adivinhar o que é. Tememos, o tempo todo, perder. A segurança, a grande organização molar que nos sustenta, as arborescências onde nos agarramos, as máquinas binárias que nos dão um estatuto bem definido, as ressonâncias onde entramos, o sistema de sobrecodificação que nos domina — tudo isso nós desejamos. “Os valores, as morais, as pátrias, as religiões e as certezas privadas que nossa vaidade e autocomplacência generosamente nos outorgam, são diferentes moradas que o mundo arranja para aqueles que pensam, desta forma, manter-se de pé e em repouso entre as coisas estáveis; eles nada sabem desse imenso desarranjo no qual eles próprios se vão… fuga diante da fuga28.

Fugimos diante da fuga, endurecemos nossos segmentos, entregamo-nos à lógica binária, seremos tanto mais duros em tal segmento quanto terão sido duros conosco em tal outro segmento; reterritorializamo-nos em qualquer coisa, não conhecemos segmentaridade senão molar, tanto no nível dos grandes conjuntos aos quais pertencemos, quanto no nível dos pequenos grupos onde nos colocamos e daquilo que se passa conosco no mais íntimo ou mais privado. Tudo é concernido: a maneira de perceber, o gênero de ação, a maneira de se mover, o modo de vida, o regime semiótico. O homem que entra dizendo: “A sopa está pronta?”, a mulher que responde: “Que cara! Você está de mau humor?”, efeito de segmentos duros que se afrontam de dois em dois. Quanto mais a segmentaridade for dura, mais ela nos tranqüiliza. Eis o que é o medo, e como ele nos impele para a primeira linha.

O segundo perigo, a Clareza, parece menos evidente. É que a clareza, efetivamente, concerne o molecular. Aqui também tudo é concernido, até a percepção, a semiótica, só que na segunda linha. Castañeda mostra, por exemplo, a existência de uma percepção molecular que a droga nos abre (mas tantas coisas podem servir de droga): acedemos a uma micropercepção sonora e visual que revela espaços e vazios, como buracos na estrutura molar. É precisamente isto a clareza: essas distinções que se estabelecem naquilo que nos parecia pleno, esses buracos no compacto; e inversamente, lá onde víamos até há pouco arremates de segmentos bem definidos, o que há, sobretudo, são franjas incertas, invasões, superposições, migrações, atos de segmentação que não coincidem mais com a segmentaridade dura. Tudo se tornou flexibilidade aparente, vazios no pleno, nebulosas nas formas, tremidos nos traços. Tudo adquiriu a clareza do microscópio. Acreditamos ter entendido tudo e tirado todas as conseqüências disso. Somos os novos cavaleiros, temos até uma missão. Uma microfísica do migrante tomou o lugar da macrogeometria do sedentário. Mas essa flexibilidade e essa clareza não têm apenas seu perigo próprio, elas próprias são um perigo. Em primeiro lugar, porque a segmentaridade flexível corre o risco de reproduzir em miniatura as afecções, as afectações da dura: substitui-se a família por uma comunidade, substitui-se a conjugalidade por um regime de troca e de migração, mas é pior ainda, estabelecem-se micro-Edipos, os microfascismos ditam a lei, a mãe se acha na obrigação de embalar seu filho, o pai se torna mamãe. Obscura clareza que não cai de estrela alguma e que exala tanta tristeza: essa segmentaridade movediça decorre diretamente da mais dura, ela é sua compensação direta. Quanto mais os conjuntos tornam-se molares, mais os elementos e suas relações tornam-se moleculares: o homem molecular para uma humanidade molar. Desterritorializamo-nos, fazemo-nos massa, mas para atar e anular os movimentos de massa e de desterritorialização, para inventar todas as reterritorializações marginais piores ainda do que as outras. Mas, sobretudo, a segmentaridade flexível suscita seus próprios perigos, que não se contentam em reproduzir em miniatura os perigos da segmentaridade molar, nem em decorrer destes perigos ou compensá-los: como já vimos, os microfascismos têm sua especificidade, eles podem cristalizar num macro-fascismo, mas também flutuar por si mesmos sobre a linha flexível, banhando cada minúscula célula. Uma multidão de buracos negros pode muito bem não centralizar-se, e ser como vírus que se adaptam às mais diversas situações, cavando vazios nas percepções e nas semióticas moleculares. Interações sem ressonância. Em lugar do grande medo paranóico, encontramo-nos presos por mil monomaniazinhas, evidências e clarezas que jorram de cada buraco negro e que não fazem mais sistema e sim rumor e zumbido, luzes ofuscantes que dão a qualquer um a missão de um juiz, de um justiceiro, de um policial por conta própria, de um gauleiter, um chefete de prédio ou de casa. Vencemos o medo, abandonamos as margens da segurança, mas entramos num sistema não menos concentrado, não menos organizado, um sistema de pequenas inseguranças, que faz com que cada um encontre seu buraco negro e torne-se perigoso nesse buraco, dispondo de uma clareza sobre seu caso, seu papel e sua missão, mais inquietantes que as certezas da primeira linha.

O Poder é o terceiro perigo, porque encontra-se nas duas linhas ao mesmo tempo. Ele vai dos segmentos duros, de sua sobrecodificação e ressonância às segmentações finas, à sua difusão e interações e vice-versa. Não há homem de poder que não salte de uma linha à outra, e que não alterne um pequeno e um grande estilo, o estilo canalha e o estilo Bossuet, a demagogia de bar e o imperialismo de alto funcionário. Mas toda essa cadeia e essa trama do poder mergulham num mundo que lhes escapa, mundo de fluxos mutantes. E é precisamente sua impotência que torna o poder tão perigoso. O homem de poder não deixará de querer deter as linhas de fuga e, para isso, tomar, fixar a máquina de mutação na máquina de sobrecodificação. Mas ele só pode fazê-lo isolando a máquina de sobrecodificação, isto é, primeiro fixando-a, contendo-a no agenciamento local encarregado de efetuá-la, em suma, dando ao agenciamento as dimensões da máquina: o que se produz nas condições artificiais do totalitarismo e do “uso fechado”, do confinamento.

Mas há ainda um quarto perigo, sem dúvida aquele que mais nos interessa, porque concerne as próprias linhas de fuga. Por mais que se queira apresentar tais linhas como uma espécie de mutação, de criação, traçando-se não na imaginação mas no próprio tecido da realidade social, por mais que se queira lhes dar o movimento da flecha e a velocidade de um absoluto — seria muito simples acreditar que elas não temem nem afrontam outro risco senão o de se fazer recuperar apesar de tudo, de se fazer colmatar, atar, reatar, reterritorializar. Elas próprias desprendem um estranho desespero, como que um odor de morte e de imolação, como que um estado de guerra do qual se sai destroçado: é que elas mesmas têm seus próprios perigos, que não se confundem com os precedentes. Exatamente aquilo que faz Fitzgerald dizer: “Eu tinha um sentimento de estar de pé no crepúsculo num campo de tiro abandonado, um fuzil vazio na mão e os alvos abatidos.

Nenhum problema a ser resolvido. Simplesmente o silêncio e o barulho único de minha própria respiração (…). Minha imolação de mim mesmo era um detonador sombrio e molhado”29. Por que a linha de fuga é uma guerra na qual há tanto risco de se sair desfeito, destruído, depois de se ter destruído tudo o que se podia? Eis precisamente o quarto perigo: que a linha de fuga atravesse o muro, que ela saia dos buracos negros, mas que, ao invés de se conectar com outras linhas e aumentar suas valências a cada vez, ela se transforme em destruição, abolição pura e simples, paixão de abolição. Tal como a linha de fuga de Kleist, a estranha guerra que ele trava e o suicídio, o duplo suicídio como saída que faz da linha de fuga uma linha de morte.

 


Trecho de MIL PLATÔS: CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA. Vol. 3.  Capítulo: 9.1933 – Micropolítica e Segmentaridade

Notas:

27 Castañeda, L’herbe du diable et la petite fumée, p. 106-111.

28 Blanchof, L’amitié, Gallimard, p. 232.

29 Fitzgerald, La fêlure, Gallimard, pp. 350, 354.