O livro “Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento” chegou!

Queridos amigos do Acervo Claudio Ulpiano,

A tão esperada segunda edição do livro “Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento” acaba de chegar! Estamos enviando os pedidos efetuados na pré-venda. Hoje foram postados nos Correios as primeiras encomendas da lista.

Nesta edição – em tiragem limitada – a Ritornelo Livros trará aos compradores algumas novidades: uma resenha descritiva do trabalho de Claudio Ulpiano – que lista os autores utilizados em cada capítulo do livro, auxiliando seus estudos. E, também, uma aula inédita transcrita, “O Pensamento: a experiência da liberdade e a conquista do tempo” – primeira aula do curso completo de Claudio Ulpiano que publicaremos a seguir pela Ritornelo Livros. Os textos são apêndices nesta edição especial.

A Ritornelo Livros agradece de coração às pessoas que apoiaram essa empreitada, comprando o livro em pré-venda, possibilitando a impressão desta importante obra.

Estamos trabalhando com pequenas tiragens e ainda temos exemplares disponíveis para envio imediato (enquanto durar o nosso estoque, em seguida faremos uma nova leva de impressão).

Decidimos manter a promoção com preço fixo e frete incluso para todo o Brasil.

Aproveite para adquirir o seu exemplar!

Quem não adquiriu ainda tem a oportunidade! Confira abaixo as instruções para compra!

INSTRUÇÕES DE COMPRA:

1) Efetuar depósito de R$ 70,00 em conta corrente conforme abaixo:

Banco do Brasil

Agência: 0087-6

Conta Corrente: 40596-5

Favorecido: Renata de Aguiar Bergo Duarte

CPF: 082.236.267-80

2) Enviar foto do comprovante de depósito para o e-mail: webulpiano@gmail.com

3) Juntar ao e-mail os dados de entrega do livro conforme abaixo:

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4) Aguardar o seu exemplar que será postado logo após confirmação de pagamento.

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Século XXI

Quem aparece diante da questão: que é esta realidade: o homem. O homem com suas categorias, com seus afetos, com suas ações e paixões, com suas regras. Este mesmo, que no alvorecer do século XI convivia com perturbações no fogo, no céu, nas profundezas da terra – e se submetia às anomalias das crônicas monásticas, este mesmo que se deixava envolver pela angústia devido à aproximação do ano 1000, que assinalava os mil anos da morte de Deus. E que tornava o céu uma turbulência, um desregramento colérico. Um preparativo para o fim do mundo. Este mesmo, que se aproxima do ano 2000, convivendo com a física quântica, penetrando no silêncio em movimento das proteínas e dos ácidos nucleicos; das viagens e das crônicas marcianas; que repensa o campo social em termos de ondas de repetição que se propagam nas diferenças do inconsciente produtivo; que faz da obra literária um convívio tenso com os cristais do tempo, com as formas virtuais; que comanda o som, a luz, e que viaja com as imagens, que implanta no mundo uma ótica espetacular e um sonoro múltiplo. Este mesmo homem, submetido à fragilidade de seu corpo, de seu organismo tecido pelas combinatórias das moléculas carboníferas. Em perplexidade com a morte, conjugado com a esperança que deserta dele, em desespero com a cisão imperativa do tempo, atormentado pela dor que contamina seu corpo frágil, contaminado pela perturbação de sua alma. Perseguido por fantasmas: por simulacros que atravessam seu sistema nervoso, que arrefecem sua coragem, que o entregam ao desespero e à loucura.

Este homem, entre o divino, e que alça os ares; e os pés presos, que serpenteia na terra. De um lado, fantasmático, inocente, foragido das cavernas; de outro, potente, guerreiro para lá do bronze – no silício: fabricando, maquinando, combinando, micro-computando – depara-se com o fora absoluto, com o impensado, com o século XXI, além de seus saberes e de seus poderes, mas já entendendo que a informação é o seu princípio, o que o individua, pela operação de troca energética, atualizando suas potências, criando disponibilidade e comunicação, que o envolve e o amplifica. Ser estranho e magnífico, sucessão e ressonância no tempo, que se duplica, que se desdobra na tecnologia, está em permanente crescimento de tensão e prolongamento.

Claudio Ulpiano

Livro na gráfica! A primeira remessa sai em 30 de abril. Garanta seu exemplar!

Queridos amigos do Acervo Claudio Ulpiano,

O livro “Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento” já está em gráfica e a primeira leva será enviada até o dia 30 de abril – ainda há tempo para entrar nessa primeira remessa. Nesta edição – em tiragem limitada – a Ritornelo trará aos compradores algumas novidades: uma resenha descritiva do trabalho de Claudio Ulpiano – que lista os autores utilizados em cada capítulo do livro, auxiliando seus estudos. E, também, uma aula inédita transcrita, “O Pensamento: a experiência da liberdade e a conquista do tempo” – a primeira aula do curso completo de Claudio Ulpiano que publicaremos a seguir pela Ritornelo Livros. Os textos são apêndices nesta edição especial, encaminhada na última semana para impressão.

A Ritornelo Livros agradece de coração a cada uma das pessoas que apoiaram o nosso projeto comprando o livro em pré-venda, ainda em março, possibilitando essa impressão. Em respeito à confiança depositada em nosso trabalho e em nome da transparência deste processo de produção, informamos que a gráfica nos entregará os livros impressos em até 10 dias úteis. Com isso, seu exemplar será postado nos Correios até o dia 30 de abril, como havíamos previamente anunciado na pré-venda. A partir de então, será encaminhado a cada comprador o código de rastreamento dos Correios.

Quem não adquiriu ainda tem a oportunidade, neste mês de abril, de comprar com frete grátis!

INSTRUÇÕES DE COMPRA:

1) Efetuar depósito de R$ 70,00 em conta corrente conforme abaixo:

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Pré-venda: “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano

Prezados amigos e amigas do Acervo Claudio Ulpiano,

Em função da grande procura pelo livro, estamos prorrogando o prazo de pedidos para todo o mês abril, sem comprometer o prazo já estabelecido para remessa dos exemplares até o dia 30/04. A tão aguardada reedição do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, do professor e filósofo fluminense Claudio Ulpiano continua em pré-venda. A nova edição do livro, revista e ampliada, é fruto de cuidadoso trabalho realizado por todos nós da equipe do Acervo e está sendo lançada com nosso selo editorial, a Ritornelo Livros. Esta é a segunda edição dessa importantíssima obra filosófica, que vêm acumulando pedidos desde o final de 2016, quando esgotaram-se os exemplares da primeira edição.

A segunda edição de “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, em trabalho esmerado feito pela Ritornelo, sairá em edição limitada visando atender principalmente a demanda gerada pelas aulas de Ulpiano disponíveis neste site. Na medida em que haja confirmação de pagamento dentro dos prazos estabelecidos, asseguramos o envio da primeira remessa na data prevista: 30/04/2018. Salientamos que os pedidos deverão ser confirmados e ter comprovante e dados de entrega enviados por e-mail até o final deste mês de abril (conforme instruções abaixo).

Garanta seu exemplar desta que é uma das mais profundas e originais leituras da obra do filósofo Gilles Deleuze!

A originalidade de “Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento” começa na  própria escritura do livro, rizomática, quase literária, a literatura se compondo com a filosofia no que esta tem de vigorosa, criativa, revolucionária. Ulpiano faz com Deleuze o que este fez com Bergson, Kant, Hume, Nietzsche – não o explica, antes associa-se com ele, tornando “ato” o pensamento do filósofo, liberando ideias presentes em sua obra, mas não atualizadas por ele. Esta é a grande originalidade desse livro: é do interior mesmo da filosofia, mergulhado no seu movimento próprio, que o autor consegue expandir a nossa compreensão da obra deleuziana. Em “Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento”, a filosofia está viva. Melhor dizendo, na escrita de Ulpiano, como outrora em suas aulas, não há diferença entre a filosofia e a vida.

O livro foi cuidadosamente preparado pela Ritornelo de maneira a oferecer estreita interlocução com as aulas de Ulpiano publicadas neste site. Trata-se não apenas de uma obra já reconhecida como existencialmente transformadora, mas que visa aproximar estudiosos e leitores eventuais usando recursos da web, como a interação entre os leitores e ouvintes das aulas digitalizadas nas quais os mesmos temas do livro são desenvolvidos pela magistral pedagogia criada por Claudio Ulpiano.

Além do vasto referencial para futuras pesquisas de aprofundamento –o livro está editado com centenas de notas explicativas e referenciadas, a segunda edição trará também um texto inédito oriundo de uma belíssima aula de Ulpiano acerca da arte, especialmente selecionada para esta edição.

Reiteramos que a tiragem desta edição será limitada e a lista de pedidos é grande. Garanta logo o seu exemplar!

 

INSTRUÇÕES PARA COMPRA:

1) Efetuar depósito de R$ 70,00 em conta corrente conforme abaixo:

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Favorecido: Renata de Aguiar Bergo Duarte

CPF: 082.236.267-80

2) Enviar foto do comprovante de depósito para o e-mail: webulpiano@gmail.com

3) Juntar ao e-mail os dados de entrega do livro conforme abaixo:

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4) Aguardar o seu exemplar que será enviado em final de abril (prazo para os pedidos efetuados e confirmados até o dia 30 de abril).


“GILLES DELEUZE: A GRANDE AVENTURA DO PENSAMENTO”

Autor: Claudio Ulpiano

Editora: Ritornelo Livros

Quanto: R$ 70,00

Modalidade: Pré-venda

Remessa: Abril/2018

Frete: Grátis (para os pedidos confirmados até 30/04/2018)

Curso “O que é a filosofia?” – Aula 04

Os estoicos dizem que quando os planetas se encontram no mesmo ponto do céu, quando as estrelas refazem seus cursos de maneira idêntica, cada acontecimento do período passado se realiza de novo sem nenhuma diferença. Sócrates e Platão e cada um dos homens existirão uma vez mais com os mesmos amigos, experimentando os mesmos fatos, cometendo os mesmos atos e cada cidade, cada aldeia e cada campo se manifestará da mesma maneira. As coisas, o mundo não se dá uma vez só, mas várias vezes –infinitas. As mesmas coisas que são destruídas pelo fogo divino, retornam da mesma maneira, infinitamente, sem fim. É o infinito do eterno retorno e o limite dos corpos. É o lado dos limites e do infinito, que se congregam, para constituir o reino de Cronos. Nada será diferente do que já passou, mas tudo se passará da mesma maneira e sem nenhuma diferença, até mesmo nos detalhes mais ínfimos, por exemplo, no cruzamento de um gemido com um pequeno foco de luz, que ao se juntarem, comprometem-se pelo infinito afora, como a fogueira que um dia iria queimar, queimou, Averroes, e que Borges, o vidente, afirmou: não a acenda senão ela queimará pela eternidade. Esta teoria, a doutrina do eterno retorno, em que a conflagração queimará tudo e neste incêndio mundial, tudo desaparecerá confundindo-se no fogo original. Mas tudo retornará das cinzas, articulado e ordenado, para cumprir seu destino de infinitude e de limite: o ciclo cósmico jamais cessará: jamais começou, jamais terminará. A periodicidade apresenta uma regularidade sem variação: a tese da identidade entre todos os mundos infinitos não se romperá: e as neves e as chuvas, e as tristezas e as alegrias, serão as mesmas invariavelmente. –Só os corpos existem no espaço e só o presente no tempo. Ambos são limitados, tanto os corpos quanto o presente, por isso os estoicos falam em um presente eterno, infinito mas limitado– e não há como identificar o limitado e o infinito estóico com dois dos gêneros do Filebo, que se aplicam ao modelo platônico, mas jamais a uma terra presa à imanência, conforme o ser estóico. “Não há causas e efeitos entre os corpos: todos os corpos são causas, causas uns em relação aos outros, uns para os outros. A unidade das causas entre si se chama Destino, na extensão do presente cósmico”. Com a posição estoica, colocamo-nos diante de temas tão surpreendentes como o dos futuros contingentes, do argumento dominador, do necessário, do possível e do impossível, da simpatia universal, enfim, do destino e da liberdade: para tudo isto ser compreendido, atravessamos argumentos preguiçosos, causas adjuvantes e causas principais. É neste domínio que estão presentes e dominantes a causalidade física e o princípio de contradição, mas é também neste domínio que surgirão as compatibilidades e as incompatibilidades a-lógicas, as conseqüências não-causais.

Quando a teoria das idéias se constitui, além do fluxo heraclítico perene, de imediato se constitui uma teoria da participação, não, no caso ressaltado –participação do sensível ao inteligível–, mas das idéias entre elas, para se pôr a teoria das idéias em confronto direto com megáricos e cínicos. A filosofia cínica afirma que o que existe é o individual e não o conceito, gênero ou espécie. Antístenes, o cínico, sempre viu bem os cavalos, mas jamais a cavalidade. O princípio de identidade prevalece, e a teoria da participação platônica é inútil. O homem é homem; o Bem é Bem. Só os corpos existem, idéia central da futura escola estóica. O que se refere a Cronos, os corpos com suas tensões, ações e paixões: o presente corporal. Mas algo diferente se insere na filosofia estoica, onde está ausente o limite temporal. Os estoicos são mais megáricos e cínicos do que platônicos e aristotélicos. Eles fazem uma subversão na filosofia, com a inclusão de um extra-ser que constitui o incorporal como entidade não-existente. Sem confusões religiosas com as tolices de almas incorporais ou as confusões das questões psicológicas e lógicas de sujeitos e faculdades com o incorporal. Para ser entendida a inclusão de um extra-ser no mundo da existência, dos corpos, das ações e das paixões, logo das causas, é preciso a ruptura aparentemente impossível da relação causal: separar-se causa e efeito. É desta cisão que emerge a idéia de expressão, que rompe radicalmente com a sinonímia de singulier e de individual. O singular não é uma unidade numérica, nem várias coisas, uma série, como não é um solus distinto de toda a relação. Singularidade é rigorosamente distinta de toda a individualidade. A expressão só forma sentido quando associada ao pré-individual: terra das singularidades nômades e da convergência das séries de singularidades se estendendo sobre linhas ordinárias. A cisão causal produz tal fissura, que do lado do acontecimento, encontramos “um conjunto de correspondências não-causais, formando um conjunto de ecos, de retomadas e de ressonâncias, um sistema de signos, em suma, uma quase-causalidade expressiva, e não uma causalidade necessitante”.

Os acontecimentos-efeitos têm com suas causas físicas uma relação de causalidade, e esta relação é uma expressão; os acontecimentos-efeitos têm entre si uma quase-causa ideal, mas que não é uma relação de causalidade e sim de expressão. O que são essas relações expressivas dos acontecimentos entre si? As perguntas abandonam, seja uma tradição causal, seja a identidade e a contradição: as perguntas agora se envolvem com critérios de compatibilidades ou incompatibilidades. Trata-se do acontecimento, e este nem é lógico, nem é físico: os critérios do acontecimento não se confundem com hormônios, com forças mecânicas, nem com predicados universais e classes lógicas. Eles são, os acontecimentos, confatalia ou inconfatalia –crime de Édipo e a morte de Sócrates como acontecimentos. Conjuncta ou disjuncta.

Deleuze diz que talvez os estoicos não tenham podido conjurar a dupla tentação de retornar à simples causalidade física ou à contradição lógica. Que tenham-se deixado prender aos corpos e às representações. É evidente que tudo isto está em relação com a sobra dos textos estóicos decepcionantes e parciais para o historiador. Mas o que importa é a afirmação de que Leibniz teria sido o primeiro teórico do acontecimento. Fora das causalidades físicas, das contradições lógicas. É preciso ter uma compreensão bem clara quanto aos problemas dos corpos, das causas e das representações, para poder envolver-se com o mundo da expressão, que tem origem na emanação neoplatônica. Além disso, a leitura do anti-cartesianismo de Leibniz e de Espinosa é fundada na teoria da expressão. A insistência deste texto em falar da expressão, algo que ainda não foi exposto em aula como os demais temas, é motivado pela importância que a expressão tomará na explicação que será dada, na passagem do lado causal da cisão, para o lado do efeito. Será mesmo a expressão a mediadora do entendimento.

O universal é o gênero e a espécie, duas entidades lógicas, sujeitas a identidades e contradições; o indivíduo, ou o singular, como era do gosto medieval, sujeito às causalidades físicas, um mecanismo causal físico. Observem-se estas questões no mundo pré-medieval, de Avicena, em sua compreensão do que é essência. A essência pode ser visada sob três aspectos, nas coisas –individualizada, física; no intelecto –universalizada, lógica; e fora das relações que pode ter com as coisas ou com o intelecto: em si mesma. Um duplo enraizamento do que, quando fora do enraizamento, é em si mesma. A essência. Quando se é lógico, fala-se da essência como universal; quando se é físico, fala-se em causalidade. Mas a essência em si mesma pertence à metafísica, que parece referir-se a um mundo novo, nem lógico, nem físico – mas expressivo. O acontecimento, o a-causal, o supra-lógico. A essência metafísica é a singularidade. Duns Scot prolonga Avicena, inclusive rompendo com a individuação negativa pela matéria de Tomás de Aquino, abrindo as vias para uma filosofia da univocidade do ser. Com estes autores, a filosofia ganha em emancipação, e ao modo de um vitral gótico, ganha em beleza. Quando a expressão com Espinosa se destaca na obra de Deleuze, ao ponto de constituir uma linha que reverte inclusive o entendimento do neoplatonismo, em sua doutrina da emanação, junto com ela todo um movimento do pensamento se constitui, a tal ponto que o próprio Leibniz, apontado como filósofo do acontecimento, sobretudo por causa de sua doutrina dos compossíveis e dos incompossíveis, aplicada na Monadologia, revela-se insuficiente. Nicolau de Cusa e Proust confundem-se com as singularidades impessoais, com a metaestabilidade –abrindo um ponto de vista, ou à semelhança da experiência de Kandinsky com sua tela fazendo às vezes da anamorfose, uma nova forma de fazer filosofia, de fazer ciência, de fazer arte, de tirar da vida as tolices cada vez mais insuportáveis do homem vulgar com suas banalidades. A experiência das variedades cinzas e negras da espécie borboleta vai muito além de causalidades hormônicas, de contradições lógicas, ambas secundárias em relação às compatibilidades e as incompatibilidades do acontecimento. Este exemplo, vindo das experiências de Canguilhem e referido aos problemas das proposições hipotéticas dos estoicos, com suas negações dos conseqüentes, permite o acesso à filosofia do acontecimento, o ir além de Cronos –com o saber de que a ciência envolve o acontecimento, e que a pretensão de Deleuze, de algum modo reproduz a de Bergson, que retira a filosofia da posição de reflexão sobre as ciências, fazendo a passagem da inferência para a intuição, dando-lhe autonomia, mas também lhe dando conceitos ressonantes com os funtivos da ciência. A filosofia como ontologia: ontologia dos problemas, das singularidades nômades: quando fazer filosofia é ao mesmo tempo poder evocar as afeccões sensitivas simples componentes das experiências transcendentais, e revelar um íntimo impessoal, íntimo de heteronomia, onde a vida se dá, liberta da prisão do organismo e das funções, distante das figuras e das sub-questões do eu pessoal.


Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 4 de 5



*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

 

Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem

“Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem — em dois sentidos: adquire manchas físicas e máculas éticas. Encantador, porque entre o fogo dilacerante e enlouquecido das estrelas, à espera da morte, esmagado pelos dias e pelas noites, envolvido pelos ventos, dores, tempestades, sorrisos, lamentos, o homem é capaz de catalogar o canto dos pássaros, ornar de ouro e porcelana seus palácios, dar um cunho austero à sua tumba, construir gestos e atitudes sem marcas de história pessoal ou sofrimento com fantasmas. Compor uma música qualquer; por exemplo, as de Mozart.”

Ulpiano, um pensador na transversal do tempo – James Arêas

Poucas coisas são capazes de nos inquietar tão profundamente quanto o encontro com um pensador. Assim parece ter sido, para cada um de nós, o encontro com Claudio Ulpiano: inquietante, arrebatador, definitivo. Poucas vezes somos capazes de conceber a inquietação como um afago, como uma provocação espiritual; o arrebatamento como uma solicitação e um convite; e o definitivo como uma iniciação ou um começo. No entanto, sempre foi assim com o Professor Claudio, desde que o conheci, há cerca de vinte anos atrás.

Raros são aqueles que, dotados de uma insólita sobriedade, resistem com coragem e alegria às frivolidades e ao vasto repertório da bobagem, dita filosófica, do nosso tempo. O amigo Claudio, certamente, se encontrava entre essas raras singularidades que concebem a filosofia como uma aventura: “A grande aventura do espírito”; como ele próprio indicou no título de sua tese de doutoramento, recentemente defendida, sobre o pensamento de Gilles Deleuze.

Ulpiano, espírito incomum, sempre compreendeu a aventura do pensamento como um exercício perigoso. Uma atividade de risco onde cada um de nós arrisca alguma coisa, e vai o mais longe que pode neste risco, para retirar daí um direito imprescritível e intransferível à filosofia.

Como poucos ele soube perguntar, em suas aulas admiráveis, a quem importava correr este risco para atingir legitimamente o direito ao pensamento e à vida. Como traçar o plano que nos leva a empreender uma tal aventura espiritual, como atingir esta política de criação conceitual, esta guerrilha completa contra a opinião?

Parece-nos impossível dizer, de modo tão breve, como sua vida, devotada ao ensino da filosofia, coincidiu com as aspirações de grande parte de uma geração que com ele se encontrou durante anos; mas também com uma outra, ainda por vir, e que já não mais o encontrará.

Como Hermes, o intercessor, ele fez circular aqui os últimos trinta anos do pensamento francês e soube remeter-nos, com cautela, aos dois mil e seiscentos anos da filosofia. Entre nós partilhou, generosamente, a diversidade de seus interesses intelectuais, a doçura do convívio e sua ilimitada paixão pelos livros. Generoso, sempre generoso.

Orador brilhante, Claudio serviu-se de uma pluralidade de vozes em suas enunciações, indescritível mnemotécnica de transmissão oral e de questionamento filosófico. Memória filosófica viva e intensiva, melódica e encantadora.

A filosofia, como costumava dizer, promove um agenciamento erótico e um excedente de entendimento. Através dela rompemos as formas do hábito, os comprometimentos do orgânico e do mecânico para liberar o inorgânico, o maquínico e o intensivo do tempo. Aion. Céu vazio.

Convite, renovado a cada aula, para transpor os limites da experiência linear e sucessiva, para desatar o tempo das distribuições espaciais e sedentárias, para liberar os fluxos da vida de seus constrangimentos, linhas de interrupção e sobrecodificações.

Nenhum suporte escrito poderá ser preenchido pela atmosfera grandiosa que envolvia suas lições extraordinárias. Do mesmo modo, nenhuma memória individual, coletiva, psicológica ou histórica poderá reter, em momento algum, o puro devir, o acontecimento imemorial, o vento de bruxa que se desprendia de suas aulas.

O acontecimento complexo de “Uma vida” jamais pertence inteiramente a alguém, muito menos àqueles que permanecem distanciados, durante todo o tempo, das conveniências e facilidades de se ter um “eu”. Claudio foi muitos, constelação. Soube fazer de si um devir, uma singularidade em êxtase, fulguração.

Sua vida? “Uma vida…”.

Lucidez afetuosa, intensa, plena de imanência. Linha frágil e flexível, sempre pronta para as verdades irrespiráveis. Linha de resistência em busca da grande saúde. A insônia e a vigília permanentes, privilégios dos espíritos raros, foram-lhes úteis para a intuição dos menores afetos, das diferenças imperceptíveis nos sons e cores. Tudo contribuiu, ou foi orientado, em sua vida para a busca incansável daquilo que é grande, belo e digno de ser pensado.

Sua obra? “A dobra da vida…”.

Expandir os limites da filosofia para além dos círculos acadêmicos em que se cultivam idéias em canteiros ou estufas. Assegurar ao pensamento a distância criadora que o liberta de toda “racionalidade analítica” e das “éticas de resultados” que difundem, respectivamente, a tolice do senso comum e a bobagem premeditada do bom senso.

Seu ensino combateu, com vigor, a vigência insidiosa da opinião e das certezas consensuais, as verdades de mercado. Ensinou a rir sem pudores da besteira universal.

Todo o programa de uma geografia para a transmissão do pensamento: filosofia para não-filósofos, grupos de estudos, cursos livres, novas intercessões para a vida.

Para nós, o professor Claudio, preparou o meio, traçou o plano e a possibilidade imanente de exercermos nossa vocação para o experimentalismo. A ocasião propícia para a emergência de nosso empirismo mestiço e de nossa forma própria de afetividade: o direito a um devir-povo.

Efetivamente um novo porvir, o acontecimento único que contra-efetua e transfigura a ambiência espúria e lasciva, de nosso presente.

Nós que o evocamos, na atualidade evanescente desse instante, amigo Claudio, gostaríamos de manifestar a gratidão infinita que lhe devotamos. Cada um de nós a quem você ensinou a ir mais longe do que teríamos acreditado poder.

Até breve…

James Arêas