Multiplicidades do eu – por Claudio Ulpiano

  • Um tema de conferência, não em geral, mas um tema como este –”Multiplicidades do eu”–, quando o conferencista se dispõe a experimentá-lo, começa por verificar que ele exerce uma pressão sobre todas as suas faculdades. Todas as faculdades começam a se agitar ao se deparar com o tema “Multiplicidades do eu“. E nessa agitação, elas como que se reúnem e solicitam da alma um auxílio: que a alma pressione o pensamento e o faça funcionar, num exercício involuntário. Em mim essa pressão da alma sobre o pensamento então emergiu; e nessa emergência, na confrontação com as “Multiplicidades do eu“, a todo instante há a verificação de que seria necessária a penetração nos mistérios e nas questões do tempo. Por causa disso, meu pensamento e não eu, no seu exercício involuntário, escolheu como vias de penetração na questão tocar, por um lado, um tema que atravessa os séculos, misturado com o maravilhoso e com o encantamento, que é o animismo; e, por outro, abordar o tema raro, só pertencente à filosofia, que é o do nascimento do tempo.

Então, a minha conferência, pelo exercício involuntário do pensamento, se bifurcou, se abriu em duas linhas. A primeira linha: as dificuldades do animismo. A segunda linha: as dificuldades do nascimento do tempo. Diante disso, eu me vi novamente forçado a transformar a oralidade em escrita para poder ser mais claro na minha apresentação. Mas, enquanto eu perseguia a exposição na escrita, cada vez mais eu mergulhava nas dificuldades. E aí, resolvi estacionar a escrita e voltar à oralidade…

É essa a experiência que nós vamos fazer juntos –meu exercício involuntário do pensamento. Mergulhando na escrita e subitamente descobrindo que seria necessário abandoná-la para fazer a exposição da questão das multiplicidades do eu: esses movimentos me mostraram nitidamente que eu estaria diante de um confronto entre o narcisismo formal e o narcisismo material, entre a síntese passiva do tempo e a síntese ativa do tempo. Só em falar nisso, sei que se começa a gerar uma série de dificuldades. Então, boa viagem para nós todos.

Nesta conferência, irei dizer o que vou fazer, como nos créditos de um filme, que o antecipam; mostro o que vou fazer. Mas logo que os créditos terminam, o filme começa. Quanto a mim, logo que estiver dizendo o que vou fazer, simultaneamente já o estarei fazendo. Esta conferência é como um frontispício de um livro que não existe, como no Livro dos Prefácios, de Jorge Luís Borges. Ou melhor, o frontispício de que lhes falei é todo um livro, é toda esta conferência.

Começar com o animismo; usando-o, ao animismo, como produto de uma costureira celestial que faz do animismo o pesponto que une os limites da eternidade e do tempo. Essa costureira celestial, em outra linguagem, chama-se Plotino. Eu acredito que chamá-lo de costureira celestial, usar a tecnologia do tecido para citá-lo, não ofenderá a meu mestre Deleuze. Tudo é animado e vivo no animismo, ainda que, neste parágrafo, reproduzindo tudo o que se diz na história da arte quando a referência é o homem clássico, o animismo seja tomado como um modelo clássico de uma projeção orgânica sobre toda a matéria como, por exemplo, a Alma do Mundo no Timeu. Estou dizendo que aqui é o animismo ainda governado pelas projeções orgânicas que o homem faz sobre a natureza. Este homem, o homem clássico, tornou-se a medida de todas as coisas, assimilando o mundo à sua pequena humanidade. Ou seja, o homem clássico –e aqui estou utilizando Wölflin na sua História das Artes– é exatamente o modelo da projeção orgânica que fazemos sobre a natureza.

A explicação platônica para a origem da Alma do Mundo é a mescla harmônica executada pelo Demiurgo; o que significa que Platão, quando teve necessidade de explicar o nascimento do tempo, precisou introduzir um deus.

É tudo diferente em Plotino. Quando digo ‘é tudo diferente em Plotino’, estou projetando uma questão teórica de altíssima dificuldade, porque o Plotino dado pelo Ocidente é um Plotino hegeliano, e Hegel fez dele nada mais do que uma colagem entre Aristóteles e Platão. Na verdade, o Plotino que vai aparecer aqui não é o de Hegel, mas o Plotino de Plotino. Ele dará ao animismo uma extensão ilimitada. Toda força ativa na natureza é uma alma ou se liga a uma alma, como as almas de Proust que povoam as matérias, as coisas, os objetos, tornando presentes neles as sensações, os afetos e os perceptos.

Não só o mundo tem uma alma, também os astros, também a Terra tem uma alma, graças à qual ela dará às plantas a potência de engendrar. O vitalismo imperante em Plotino teve seu eco na Renascença, em Giordano Bruno e Nicolau de Cusa e também em Espinosa e Leibniz. O animismo emerge com um potência extraordinária na obra de Plotino, ressoa em Giordano Bruno, ressoa em Nicolau de Cusa e, mais ainda, ressoa em Leibniz e ressoa em Espinosa (Espinosa e Leibniz, esses dois animistas!)

Mais à frente, na escola inglesa, esse desenvolvimento ecoa com a vitalidade de toda uma corrente que espiritualiza o real. Trata-se por exemplo de Samuel Butler que diz: “Nosso Senhor disse para seus discípulos considerarem os lírios dos campos que nem tecem nem trabalham, mas cuja vestimenta é mais bela até mesmo que a vestimenta mais gloriosa de Salomão.” Jamais poderemos fazer a concepção, a germinação de uma rosa, como o faz uma semente de rosa que converte a terra, o ar, o calor e a umidade em uma rosa florescente, em uma rosa no esplendor da sua vitalidade cromática, aromática e táctil. De onde sai o colorante que torna a rosa colorida? Sim, da terra, do fósforo, do carbono. Sim. Mas como? Sem mãos, sem braços, sem instrumentos, a semente da rosa contempla a matéria que a constitui.

Aqui, o animismo deixa de ser um envolvimento com as tolices da maravilha para tornar-se explicitamente traços, forças na vizinhança de um sistema físico ou de um organismo vivo, traçando uma linha abstrata, independente, nômade, vetor livre, linha selvagem, sem outro desígnio que não sua própria errância. Nela, por ela, em suas bifurcações, clinâmens e variações, encontra-se Deleuze que afirma a proximidade do animismo e da biologia, quando multiplicam-se as pequenas almas imanentes aos órgãos e às funções –com a condição de se lhes retirar qualquer papel ativo ou eficiente.

Assim, Deleuze seria como que um momento dessa tradição de pensamento que teria emergência em Plotino e que segue errante e triunfalmente pelos mais brilhantes pensadores da Humanidade. Eis quando Deleuze liga, de uma maneira notável, o animismo à biologia molecular, mostrando que todas as grandes conquistas que a biologia teria feito nesse século seriam fundamentadas na força do animismo, o que leva os biólogos a exercerem um pensamento totalmente original como se fosse um prolongamento do Erehwon, do trabalho de Samuel Butler; sua semente contemplativa encarnando-se na biologia molecular poderosa.

Alma, então, como a semente da rosa: somente focos de percepção e de afecção moleculares, contemplações, microcontemplações. Os corpos todos, quaisquer, nenhum em exceção, são povoados de pequenas almas, de mônadas. As mônadas: a idéia monadológica soberba, a espiritualização do real. E a verdade, então, será a força que não age mas que percebe e experimenta.

Nesse momento, começa despontar para vocês a grande questão da obra de Deleuze, centrada em Diferença e Repetição, onde ele vai distinguir entre a síntese passiva e as sínteses ativas, e começar a invadir e conquistar –e isso está em toda a sua obra– o tempo. É exatamente isso que está acontecendo aqui, quando se começa a falar da espiritualização do real, e o espaço torna-se penetrado por estas forças de percepção e experimentação. É o fundo invisível que Van Gogh buscava e colocava nos seus girassóis, no permanente frêmito daquilo que nasce. É como se estivéssemos nessa linha abstrata em que, de um lado, estão as forças invisíveis do tempo e, do outro, as suas conseqüências, as suas criaturas, nós, as rosas, os girassóis de Van Gogh.

O real é adicionado de intensidade –aquilo que é monadicamente fragmentado, mônadas ou moléculas metafísicas– com as variações da beleza e da individuação que emergem como pontos, como constelações brilhantes, singularidades: a meta-estabilidade com seu ser esquartejado como diferença de qualidade e de quantidade, o diferencial pré-individual, como a membrana topológica e aiônica concebida pelo futuro exterior e pelo passado interior, responsáveis pela gênese ininterrupta do vivo. (Refiro-me aqui ao trabalho que Gilbert Simondon fez sobre a topologia da membrana como uma das fontes do nascimento do vivo.) Pela gênese ininterrupta da beleza, percepção, contemplação. No coração da pop-art; nas muitas almas da pop-art, nas muitas almas de Andy Warhol, nas imagens-contemplação das vozes de Lou Reed e de Arnaldo Antunes.

Os corpos são povoados de uma infinidade de pequenas mônadas, de observadores parciais. Assim ocorre com toda a biologia molecular, em toda imunologia, com as enzimas alostéricas, com o demônio microscópico com função cognitiva (recordo aqui o demônio de Maxwell). O organismo é uma máquina que se constrói a si mesma; constitui-se de modo autônomo graças aos observadores parciais.

Espinosa parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida da Natura Naturans. Repetindo: Espinosa parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos, ou seja, das criaturas, senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida do próprio Deus.

Tudo tem seu começo. Apareceu na errância da linha abstrata com Plotino, na Enéada Terceira, Tratado VII, “Da Eternidade e do Tempo“; e Tratado VIII, “Da Natureza, da Contemplação do Uno“, que são antecipados no texto que exponho por aquilo que elas causaram, por aquilo que elas influenciaram: a arte bizantina.

O que eu afirmo agora é que reveríamos Plotino na arte bizantina. A arte estaria além da própria beleza, a arte que se encaminha para o sublime –Kant, Terceira Crítica“. O olhar é tornado magnificente na divindade. Questão propriamente bizantina: como pintar Deus? Pergunta angustiante: como pintar Deus em si mesmo? Em que virtualidade, na terminologia de Bergson? Pintar Deus em si mesmo e não por nós. Se ele deve ser adorado, ou melhor, se ele deve ser visível para poder ser adorado, ele enfraquece. Enfraquecer Deus? Que impiedade! Que ultraje! Mas eis a solução prodigiosa: invertendo a relação olhante/ olhado, fazendo Deus impor-se não mais como objeto a ser contemplado mas, de outro modo, como um sujeito que nos contempla do fundo do olho. Como nos contempla por todo o espaço celeste, não importando qual ângulo, não escaparíamos jamais a seus olhos. O olhar de Deus nos contempla porque existimos, pois o olhar de Deus é o tempo ou, mais belo ainda, a contemplação por ser contemplação é imediatamente tempo.

Se eu estivesse dentro das minhas universidades, eu diria: nesse instante começo a minha aula. O que eu acabei de dizer para vocês… a tese que eu estou passando e que é difícil de ser exposta… é que a emergência do tempo pressupõe a alma, e esta alma é uma alma contemplativa. Mas se seguirmos a tradição desse pensamento, vamos encontrar com uma clareza excepcional, em Bergson, essa alma contemplativa tornando-se simultaneamente contemplativa e contraente. E é exatamente nessa contração que o tempo emergiria. O olhar de Deus é uma categoria do tempo, é o nascimento do tempo. Diz Deleuze: “Os organismos se despertam com as palavras sublimes da Terceira Enéada: tudo é contemplação.” Aproximamo-nos das duas sínteses, passiva e ativa; da síntese passiva e da imagem direta do tempo; do corpo sem órgãos.

Quando a obra de Deleuze se expressa nessa questão, digamos, de múltiplos eus, ele leva essa questão longe… Se o José Gil fosse fazer um trabalho sobre o Fernando Pessoa, se ele fosse fazer um trabalho sobre os heterônimos, ele conduziria os heterônimos para o que se chama síntese passiva, onde se dariam as multiplicidades do eu. Deleuze levaria para o que chama nas suas outras obras de imagem direta do tempo, ou o que chama ao longo de toda sua obra de corpo sem órgãos. Esses múltiplos eus, então, não pertencem ao sujeito conforme sujeito em sua expressão orgânica. Esses múltiplos eus são intensidades da síntese passiva, da imagem direta do tempo e do corpo sem órgãos.

Uma expressão do tipo “o bom senso” não desempenha aqui nenhum papel capital, nenhum papel na doação de sentido. O bom senso vem sempre em segundo lugar, em sua distribuição sedentária. O que estou chamando de bom senso é o uso que fazemos das nossas faculdades; segundo a Crítica da Razão Pura, esse uso das faculdades é governado pelo entendimento, e esse governo é que se chama bom senso. Então o bom senso constrói um tipo de mundo, esse mesmo mundo que é da flecha do tempo, que parte do presente para o futuro. Mas, por baixo desse bom senso, as sínteses passivas, o corpo sem órgãos ou, numa linguagem poética, o rugido de Dionísio, as potências do inconsciente rugindo sob as formas da consciência.

A filosofia estoica –cito agora a filosofia estoica porque estou seguindo Deleuze– não consiste em adotar a direção do bom senso. Deleuze encontrou nas suas investigações –não de historiador de filosofia porque ele não é um historiador de filosofia (o que não vou explicar agora porque não nos interessa)– um tipo de pensamento, a filosofia estoica, que não estaria submetido ao domínio do bom senso, ou seja, ao domínio do entendimento como legislador das outras faculdades, conforme o modelo de Platão e de Aristóteles. Ao encontrar os estoicos –a filosofia estoica não consistindo em seguir a direção do bom senso, a direção da flecha do tempo, mas como iniciativa apaixonada– descobre que não podemos separar as duas direções do tempo.

A filosofia estoica descobre o acontecimento e com ele uma nova teoria do signo. A distinção estoica entre signo natural e signo artificial desencadeia, nessa minha exposição, o nascimento do tempo. Como foi dito, uma das grandezas do estoicismo foi ter mostrado que todo signo é signo de um presente do ponto de vista da síntese passiva, em que passado e futuro –atenção– são apenas dimensões do próprio presente. Trata-se do presente vivo, tal como o olho de Plotino: um dos extremos do raio de luz que emana do Uno, quando o passado e o futuro são dimensões do presente.

A retenção e a propensão. Quando a retenção não é uma reprodução memorativa do passado, nem a propensão concebida como esperança, não resta senão a implicação do passado e do futuro no presente, só concebível nessa síntese misteriosa. Os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes e presente dos futuros. É a bela fórmula de Santo Agostinho: há um presente do futuro, um presente do presente e um presente do passado. Todos eles implicados e enrolados no presente, simultâneos e inexplicáveis. A simultaneidade da síntese passiva: as três pontas do presente.

Se nos propusermos a aceitar a pressão que a alma exerce sobre o pensamento e deixarmos o pensamento penetrar, ele tem que destruir necessariamente as forças do bom senso para começar a trabalhar no tempo –porque o tempo é o meio dos paradoxos, e o bom senso detesta o paradoxo. Quando o pensamento penetra no tempo, quando ele penetra no ser do tempo, o que encontra é a simultaneidade do tempo, as três pontas do presente. Essas três pontas do presente é que geraram, possibilitaram, por exemplo, Ano Passado em Marienbad. Toda a obra de Deleuze se explica pela conquista do tempo, muito ao modo de Bergson, com sua imagem coalescente, quando o passado e o presente devem ser pensados como graus extremos coincidindo na duração.

Como foi dito mais atrás, não estamos no reino do bom senso ou do signo artificial que remete ao passado e ao futuro como dimensões distintas do presente. É a oposição de Áion e de Kronos. Este último é o presente fugaz, que só existe na passagem do passado ao futuro, duas dimensões, tais que vamos sempre do passado ao futuro. Áion é quando o passado e o futuro são apenas dimensões do próprio presente, é o momento da imaginação espontânea, o momento do nascimento do tempo. Trata-se do eu passivo, e que se explica fundamentalmente por não depender de sua receptividade, da recepção das partes eternas que se repetem, mas são apenas sensações; a contemplação contraente da qual emergem os organismos.

O que estou dizendo, então, seguindo Deleuze, é um plotinismo: é como se a eternidade fosse uma espécie de Sol do qual emanariam raios. As pontas que estão no Sol são eternidade; as pontas que tocam a Terra são tempo. Então, nessa ponta da Terra é que vai aparecer o tempo, a síntese passiva e, a partir daí, os organismos. É muito parecido com o que Artaud disse: “A vida não é o organismo; a vida é a síntese passiva.” O organismo é um domínio sobre a vida. A vida são as forças, os fluxos que emergem, esses fluxos paradoxais do presente simultâneo. Daí é que viria o organismo. E nós confundimos o modelo orgânico com o modelo da vida…

É isso que nos dá, por exemplo, toda a obra, de Castañeda, conforme aquela distinção famosa entre nagual e tonal. Toda a questão de Castañeda é exatamente a dominação do homem orgânico, que não é capaz de compreender nada que transborde as linhas da sua existência; tudo que transborda as linhas da sua existência, ele joga para o campo das maravilhas. Ele não é capaz de compreender que, além das linhas da sua existência, estariam exatamente as forças do pensamento e as forças genéticas da vida. Os eus passivos são sujeitos larvares, desde que se estabeleça em alguma parte uma contemplação furtiva, desde que funcione em alguma parte uma máquina de contemplação e de contração capaz de, na passividade, impor uma diferença à repetição.

O mundo moderno tem seus grandes mestres dos eus larvares, entre outros, Beckett e Lowry que, para além das sínteses ativas, atingem as sínteses passivas que nos constituem.

Por mais que um pensador pretenda tornar o seu pensamento fácil para que ele seja claramente entendido, isto jamais pode acontecer. O pensamento não é difícil por acidente, ou seja, ele é difícil agora e se tornará fácil quando eu cursar a minha universidade. Não! A essência do pensamento é a dificuldade. A essência do pensamento é o difícil. E o que eu chamo de pensamento são todas as ciências, todas as filosofias e todas as artes. Ou seja, sempre que o pensamento está fazendo o seu exercício, junto com ele emerge o difícil. Então, não há nenhum motivo para o pensador se preocupar em tornar fácil a sua exposição. O que o pensador tem que fazer quando expõe seu pensamento, ao invés de conquistar pela clareza e pela distinção do que ele expõe, é fazer uma prática de tal forma bela que ela produza rizomas, e que esse pensamento, então, se expanda por esse processo, se expanda por rizomas. É o meu procedimento nessa exposição.

Para concluir, acredito que seja melhor que prossiga o que estou dizendo, explore as dificuldades do que estou dizendo, através de perguntas que por acaso vocês venham a fazer, do que mergulhar na intensidade do corpo sem órgãos, ou das sínteses passivas, ou das imagens diretas do tempo.

Esta conferência foi um pouco como a produção do sujeito-artista de Proust que, em sua experiência fantástica, em sua experiência transcendental, rompe, põe fim ao sujeito psicológico e às suas associações de ideias. De outro modo, Proust quebra o esquema sensório-motor por dentro, faz aparecer os mundos possíveis pela aventura do pensamento involuntário e descobre a essência do tempo primordial da arte e da filosofia. Obrigado.

Pergunta: Eu quero perguntar ao filósofo Ulpiano se ele pensa que o poder do inconsciente poderia reorganizar o processo reflexivo alterado pela mídia eletrônica.

Claudio Ulpiano: Eu tenho tanta certeza disso que eu não preciso nem efetuar o cogito. Quando eu disse o exercício involuntário do pensamento, esta palavra pensamento tem como sinônimo o inconsciente; o exercício involuntário do pensamento tem como sinônimo o inconsciente. E o pensamento, da maneira que eu o penso, é exatamente para quebrar a tradição do modelo ocidental construído pela lógica platônica e aristotélica do mundo da representação. O pensamento, de maneira nenhuma, tem como questão a reforma do mundo. A questão do pensamento é permanentemente produzir mundos, produzir novos mundos. E eu acredito que nesses outros mundos a mídia enfraquece.

Acerca dessa visão plotiniana: eu diria que há uma tendência de se entender, de se compreender a questão numa formulação mística. Não existem múltiplos eus; só existe o sol. As projeções, na verdade, não passariam de aparências. Será essa a sua visão?

Para Plotino não há tempo sem a alma. A alma traz o tempo, a alma, o eu larvar, a mônada do Leibniz. Ou seja, onde não houver um eu-larvar, onde não houver uma pequena alma, não existiria o tempo. Por exemplo, esta bombinha de asma. Se ela não estiver povoada por uma multiplicidade de almas que contemplam, esta bombinha de asma estará na eternidade.

Então, o que eu acabei de falar é que o animismo com o seu povoamento, com o povoamento que ele faz na matéria de uma multiplicidade infinita de almas que são intensidades, torna esse universo uma unidade extensiva mais uma multiplicidade intensiva. É como, por exemplo, Bergson fala de multiplicidade de justaposição ou de penetração. Então as múltiplas almas, sim, seriam necessárias.

Claudio Ulpiano

 


Este texto é a transcrição de uma palestra dada por Claudio Ulpiano na Universidade Livre.  A Universidade Livre era uma associação de amigos que gostavam de conversar entre si e resolveram conversar em público. Nos anos 80 e 90, promoveram uma série de ciclos de conferências sobre temas diversos, que iam desde Cosmos e Consciência até Amazônia.  “Múltiplos Eus ” fez parte do ciclo Pontos de Fuga, realizado na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, em 1995.

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Aula de 16/06/1992 – Lucrécio e a ontologia da ilusão

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 8 (As Singularidades Nômades) e 12 (De Sade a Nietzsche) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para:webulpiano@gmail.com]

 

 

“Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem…). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos.”

Os corpos são constituídos de átomos e vazio: são dois infinitos. Quando esses átomos se agregam, quando eles se juntam, formam os corpos. (Já começam a aparecer as questões) Ou seja, um corpo, o que se chama de corpo, não é, de modo algum, um átomo. Um corpo é sempre um conjunto de átomos. O que também nos leva a uma conclusão imediata: os corpos, à diferença dos átomos, são duração. Os corpos duram, enquanto que os átomos são eternos.

Por que os corpos duram? Esses agregados de átomos, essas combinações de átomos, fazem-se e se desfazem. O que de imediato nos leva a dizer que não existe nenhum corpo eterno. Não é possível encontrar um corpo eterno. Todos os corpos estão necessariamente na duração. Pode ser até mesmo um corpo com dois átomos. Na verdade, um átomo da Física Quântica é um corpo. (O físico quântico ficaria muito contente com isso, não é?) O átomo deles é um corpo, porque é constituído de partes. O que o atomista grego diria é que o átomo da física quântica é constituído de… átomos, não é? Então, nós aqui temos que, de imediato, opor a eternidade dos átomos à duração dos corpos. (Entenderam?) Todos os corpos estão necessariamente na duração. Não há outra hipótese para se pensar o corpo. Então, o que nós passamos a saber, é que os corpos se fazem e se desfazem. Se a física atual pensasse assim, talvez abandonasse a teoria do Big Bang.

(Nosso amigo, Mário Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, está abandonando a teoria do Big Bang, não é? (Aluno: É!) Há já alguns anos, não é agora no Jornal do Brasil, não. Já faz alguns anos ele vem abandonando essa teoria).

Agora, se esses átomos juntos constroem os corpos, são esses corpos que vão passar a se chamar objetos sensíveis. São os corpos que nós chamamos de objetos sensíveis; não os átomos. O que nós chamamos de objeto sensível são os corpos. Então, é nítido que neste Universo existe o que se chama o sensível.

― O que é o sensível? O sensível é o corpo. Todo corpo é da ordem do sensível ― isso é definitivo! Os átomos percorrem [atenção que eu só vou voltar aqui nas outras aulas…] esse Universo numa velocidade infinita. Difícil falar sobre as velocidades dos átomos neste instante! Mas eles percorrem este Universo numa velocidade infinita. Então, seria um elemento que estaria incluído na lei atômica (vejam bem, eu disse lei atômica, eu não disse lei dos corpos, eu disse lei atômica! – é sempre preciso ter em mente que ao falar em átomo e falar em corpo eu não estou falando a mesma coisa. Átomo é uma coisa, corpo é outra. Então, os átomos que estariam nessa velocidade infinita.

Colocada a ideia de corpo e o corpo identificado como o sensível, numa linguagem não-lucreciana, não-atomística, surge algo que eu posso chamar de fenômeno ― aquilo que aparece: o corpo é aquilo que aparece. O universo é povoado de aparições. Há coisas que aparecem neste universo. As coisas que aparecem neste universo são justamente os corpos, (tá?).

Os atomistas, então, vão dizer que se esse universo é constituído de corpos, logo, de elementos sensíveis, esses corpos podem tocar uns nos outros; podem se encontrar… Os corpos podem se encontrar, da mesma forma que os átomos também podem se encontrar. Na verdade, se os corpos se encontram, os átomos também se encontram. E se por acaso, neste universo sensível, existisse algum ser que tivesse o poder de apreender os outros seres, digamos, um ser que fosse dotado de percepção… Um ser dotado de percepção é um ser que tem o poder de apreender os outros seres. A percepção é exatamente isso: uma potência de apreensão. Se houvesse um ser que pudesse aprender os outros seres, esse ser só faria isso se os outros seres tocassem nele. /, porque isso daqui está parecendo uma teoria da percepção de altíssima dificuldade. O que eles estão dizendo é que se nós percebemos, nós os humanos, ou os seres vivos percebem alguma coisa, é porque, esta alguma coisa que é percebida, emite átomos.

Nós só podemos perceber se os átomos que constroem um determinado ser sensível nos tocarem. Eles estão construindo uma teoria da percepção altamente sensual, ou seja, nós percebemos o mundo pela percepção, olhamos, ouvimos, sentimos temperatura, tato, gosto, palato ― tudo isso porque os átomos nos tocam. Se houvesse um ser sensível qualquer que não emitisse átomos, nós não entraríamos em contato com ele. Ou seja, isso faz com que todo objeto sensível emita átomos. E é uma coisa muito difícil de entender. Todos os objetos sentidos emitem átomos. Eles estão…

Aluno: Emitir, no sentido da palavra?

Claudio: Emitir, no sentido radical; porque eu sempre digo, James, que eu não trabalho com metáfora, é sempre no sentido literal: sempre aquilo que está sendo dito. Então, o que eles estão falando é uma teoria muito bonita e muito difícil, que é a teoria da emissão. O que está sendo colocado aqui é que um corpo é constituído por um conjunto de átomos; e esse corpo, que é constituído por um conjunto de átomos, emite átomos. Por exemplo, nós vamos num jardim e sentimos o cheiro de uma flor. O que é o cheiro dessa flor? É a flor emitindo átomos. Logo alguém pergunta: “e por que essa flor não emagrece? Se ela emite átomos, ela deveria emagrecer!” A teoria atomista se explica não só pela constituição dos indivíduos; ela se explica também pelo meio: todos os seres estão num meio onde há um infinito de átomos. Eles são banhados por átomos. Banhados! Por isso, os átomos se desprendem do corpo deles, mas outros átomos entram para substituir. Ou seja: essa substituição de átomos é permanente.

Se vocês lerem a explicação do que é uma célula, ou do que é uma molécula, vocês vão entender perfeitamente essa questão. Porque se uma molécula viver dez anos, ela vai ter uma permanente troca de moléculas dentro dela. É incrível: o que se mantém é apenas a estrutura. É só uma leitura ligeira e vocês vão se aproximar perfeitamente dessa ideia, porque o que eles estão dizendo é de alta modernidade. Então, não existiria sequer um ser que não fizesse essa emissão de átomos. Essa emissão de átomos vai ser chamada por eles de simulacros. Os átomos emitem simulacros. Esses simulacros são exatamente aquilo dos seres sensíveis com que nós tomamos contato. Neste instante, o Leão está sendo visto por mim e por vocês, porque ele está fazendo emissões de átomos. Nossos corpos, ou todos os corpos, não param de fazer essas emissões ao infinito: sempre emitindo átomos. E eles então…

Aluno: O sensível é o corpo ou é o átomo?

Claudio: O sensível é o corpo.

Aluno: O átomo não é sensível?

Claudio: Não. O átomo, eu ainda não falei; foi a mesma pergunta da Ângela. Eu ainda não falei sobre o átomo. Eu agora estou preocupado com o corpo. Para ficar mais claro, chamem o átomo de simples e o corpo de composto. (Entendeu?) O corpo é um composto de átomos. Então, na hora que eu vejo o Leão, é porque o Leão está emitindo compostos. Todos os corpos emitem compostos.

Aluno: Eles emitem compostos ou simples?

Claudio: Compostos!!! Mas todo composto é constituído de quê? De simples; mas o que ele emite são compostos.

Aluno: Ah, tá! Ele não emite um átomo, eu pensei que…

Claudio: Ele não emite um átomo! Ele emite composto!

Alunos: Ele emite simulacros, é o composto!

Aluna: É a organização desses átomos…

Claudio: Exatamente! Ele emite a estrutura, porque, senão, como é que eu ia ver o Leão? Eu ia confundir o Leão com você… Esses simulacros são compostos.

Lucrécio fala em dois tipos de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície. Isso vai nos dar muito trabalho na frente. Não, hoje; que é uma exposição genérica! Ele fala na emissão de átomos de profundidade e átomos de superfície. Então, ao colocar isso, eles estão colocando uma teoria muito difícil, que é a das duas espécies de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que é por onde eu acredito que eu vá fazer uma teoria física para vocês. E talvez também uma teoria estética. Mas certamente eu farei uma teoria física.

Agora, pelo que eu estou dizendo, nós temos dois processos de emissões feitas pelos corpos: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que são as duas primeiras espécies do simulacro. E aí eles introduzem uma coisa terrível… a terceira espécie de simulacro, que eles chamam de fantasmas.

Então, vejam bem hein? Neste instante, se os corpos emitem, eu vou passar a dar um novo nome ao corpo: o corpo é uma fonte. Fonte de quê? Fonte de átomos, fonte de emissões. Todo corpo é uma fonte. Uma fonte em renovação perpétua. Essa fonte não para de se renovar. Então, não há sequer um corpo que não seja uma fonte de emissão de átomos. Essa fonte emite átomos de profundidade e átomos de superfície ― que eu estou deixando um pouco para o lado. E, em seguida, eles vão colocar a terceira espécie de simulacros, que eles chamam de fantasmas. Essa terceira espécie de simulacros ― que são os fantasmas ― eles dividem em teológicos, oníricos e eróticos: Fantasmas teológicos, oníricos e eróticos. Atenção!, a dificuldade aqui é terrível! Então, apareceria um tipo de emissão que é a terceira espécie ― que eles chamam de terceira espécie! ― que são os fantasmas ― onde aparece o erótico, o onírico e o teológico. São os fantasmas.

Vejam: esses fantasmas não são criados por um sujeito. Não são fantasmas criados por uma ficção, são absolutamente reais! Absolutamente reais, esses fantasmas fazem parte da emissão de um corpo: originam-se numa fonte. Agora, o que define a fantasmática, o que define o fantasma do Lucrécio é que o fantasma é o simulacro distanciado da fonte. Enunciado um pouco difícil!

O que eu estou dizendo, é que quando o Leão emite os seus simulacros, os seus compostos, e eu vejo o Leão, esses simulacros ― que o Leão está emitindo ― prosseguem: eles prosseguem; eles vão embora… vão embora toda a vida! Ou seja: os simulacros vão se distanciando da fonte. O que eu estou chamando de fantasma é um simulacro distanciado da fonte.

Aluna: Claudio, não é uma escolha dirigida, então, para um percepto, para uma percepção…

Claudio: Não.

Aluna: …eles se espalham o tempo todo?

Claudio: Os simulacros não nasceram ― isso aqui é para acabar com qualquer modelo religioso: os simulacros não nasceram para serem apreendidos por uma percepção. São apreendidos por uma percepção; mas não nasceram para isso. É a lei dos corpos. A lei dos corpos é a renovação permanente. Então, a emissão é constante. Mas, esses fantasmas se distanciam da fonte. E ao se distanciarem da fonte, aí eles parecem (a palavra parecer, aqui, é um pouco equívoca) ganhar uma autonomia.

Ganhar uma autonomia é: eles parecem independer das fontes que os emitiram. Não sei se ficou bem aqui, certo? Ao parecer independer das fontes que os emitiram, evidentemente, eles passam a ter, mais ou menos, uma autonomia… E mais: quanto mais distantes das fontes eles ficam, mais perdem suas conformações.

Aluno: Aí, eles podem ser interpenetrados por outros simulacros?

Claudio: Podem! É isso que eu estou dizendo. Mais eles se distanciam das fontes, eles vão perdendo as suas conformações, e vai aparecendo uma coisa estranhíssima, que é a interpenetração. Eles começam a ser penetrados por outros simulacros.

Aluna: Claudio, essa ideia de deformação tem alguma coisa a ver com o conceito de simulacro do Platão?

Claudio: Tem! Eu vou juntar depois, viu?

Aluna: O Lucrécio é contemporâneo do Platão?

Claudio: I a.C.. Morreu aos quarenta e poucos anos, completamente louco… as crianças jogavam pedras nele… Não tinha outro jeito, não é? Esses simulacros se distanciam, não é? Separam-se das fontes. Mas eles podem ser apreendidos pela percepção, da mesma maneira que os simulacros que têm fonte. Então a nossa percepção pode apreender ― eu posso apreender ― tanto o Leão, quanto o simulacro. Tá? Eles têm a mesma característica das práticas emissoras. Eles são seres sensíveis… apreensíveis! Apreensíveis!!

Aluno: E eles são sempre corpos!

Claudio: São corpos, são corpos! São reais, concretos. Inteiramente reais e concretos. Tá?

Então, aqui começa a aparecer uma teoria, cuja importância eu ainda não posso sustentar, mas são esses simulacros, esses fantasmas, que vão ser a origem dos mitos.

Eu tenho que trabalhar muito devagar, porque é dificílima a teoria dele ― é de uma beleza excepcional, mas é dificílima! Origem dos mitos, eu aqui vou usar um autor chamado Michel Tournier, que literalmente é um romancista que, sem dizer, usa muito Lucrécio.  O Michel Tournier conta que uma determinada tribo no deserto africano tinha um mito ― que o vento que vem do norte traz a morte. Então, sempre que soprava o vento do norte, essa tribo admitia que a morte estivesse chegando. E aí ele vai e narra que séculos antes as tribos nômades vinham do norte, e passavam como uma ventania, e devastavam as cidades. Como as tribos nômades do norte desapareceram, desapareceu a fonte, mas ficou o simulacro, ficou o fantasma. Certo? O Mito é produto do distanciamento das fontes.

(Que beleza, não é?) Produto do distanciamento das fontes!

Então, esses fantasmas, como dizem eles, são teológicos, eróticos… (Eu não vou falar no erótico hoje, porque eu tenho certeza que quando eu for falar vai dar um problema terrível, certo?)…e oníricos. O que me faz agora dizer, ― e vocês prestem atenção ao que eu vou dizer! ―, que os nossos sonhos, de modo algum, estão associados às nossas memórias. Estranhíssimo isso que eu estou dizendo. Porque, para ele, o sonho é um enfraquecimento ou uma modificação do corpo ― o nosso corpo se modifica ― fica mais fraco, ou coisa que o valha, perde a potência ascensional, e esses simulacros penetram nele com muita facilidade. O sonho nada mais é do que a apreensão desses fantasmas de terceira espécie. Por isso, nós sonhamos as coisas mais incríveis… que se nós ligarmos com a nossa biografia pessoal, nós não entendemos, é isso que ele está dizendo. Como esses fantasmas estão sempre se misturando, começa a aparecer para nós, cérberos, centauros, dragões de fogo, cavalos alados… E isso tudo que está aí não é, em nada, produzido por um sujeito. É absolutamente real! Isto é absolutamente real, vocês estão entendendo?

Aluno: Uma espécie de ontologia do fantasma?

Claudio: Uma ontologia do fantasma!… Uma ontologia do fantasma! Eles não estão precisando produzir nada fora da natureza. Tudo está no interior da natureza: tanto os átomos, como o vazio, como os compostos, como os fantasmas de terceira espécie. Tudo está na natureza. A natureza é constituída por átomos, pelo vazio, pela composição do átomo e do vazio, pelos excessos… e, por causa das emissões, começa a surgir o teológico, o onírico e o erótico.

O teológico, o onírico e o erótico seriam os responsáveis pelas superstições e pelos terrores. Os grandes terrores e as grandes superstições viriam exatamente dos fantasmas de terceira espécie.

Agora, vamos parar aqui um pouquinho.

O Lucrécio é um físico. Físico. Por que físico? Fácil: é uma teoria atômica. Ele faz uma teoria atômica. Mas ele vai explicar ― eu vou usar uma linguagem moderna! ― que o trabalho dele é especulativo.

― O que quer dizer especulativo? São sínteses do pensamento. Isso é o especulativo! Mas, o objetivo do especulativo é o prático. O que quer dizer isso?

A questão dele não é epistemológica ― a questão dele é ética. Por quê? Por quê? Toda a obra dele é para provar que nós, depois de mortos, estamos mortos. É a única questão que ele tem. Só essa questão: provar que depois de mortos nós estaríamos mortos. Por que isso? Porque, esses fantasmas de terceira espécie ameaçam de tal forma, que nós vamos chegar a admitir estar vivos depois de mortos. E diz ele: nesse momento aparece a coisa mais terrível: o surgimento de mais dois infinitos.

― Quantos infinitos nós tínhamos? Três. Tem mais, mas eu só dei três. Os átomos, o vazio e a composição. Agora, ele vai dizer que esses três infinitos são os verdadeiros infinitos. E vão aparecer agora dois falsos infinitos. Esses dois falsos infinitos, que vão aparecer em função dos fantasmas de terceira espécie, é o poder do corpo para o infinito de prazeres; e o poder da alma para a infinita duração. Estranho! Terrível! O corpo, com o infinito poder de ter prazeres e a alma com o infinito poder de durar. Então, ele coloca que esses dois infinitos ― que o corpo poderia ter prazeres ao infinito ― nos leva a desejar a eternidade. Olha como é que a gente começa a entender as questões!

Aluna: E a eternidade seria um falso infinito?

Claudio: Falso! Porque eternos só são…

Alunos: Os átomos.

Claudio: Os átomos! Então, todo o objetivo de fazer com que os nossos corpos existam eternamente estaria nesse falso infinito da capacidade infinita dos prazeres, diz ele. O outro aspecto do falso infinito é a duração infinita da alma. Mas quando aparece a infinita duração da alma, surgem as dores eternas. Porque se a alma pode durar eternamente, ela também pode sofrer dores eternas. É exatamente isso que vai gerar a aparição do campo social do homem religioso ― que é o criminoso. O criminoso, que é o homem religioso, só pode existir através da tristeza dos outros. Por isso, o religioso só trabalha com falsos infinitos.

Aluno: Por que você fala “criminoso”?

Claudio: Criminoso porque ele é o produtor das tristezas ― que é o maior crime que pode haver para o Lucrécio. Por quê? O Lucrécio diz que se nós fizermos uma panorâmica do homem, o que nós vamos encontrar no homem ― em todos os homens ― é a perturbação das suas almas. O homem tem sua alma inteiramente perturbada. A tal ponto, ele diz, que o grande temor dos homens não é a dor física; o grande temor dos homens é a perturbação da alma. Um exemplo aqui é a AIDS, a AIDS… Porque ele dá exemplo de pestes. Então, para ele, é a alma perturbada ― e essa alma é perturbada exatamente por causa dos fantasmas de terceira espécie ― que provoca a nossa infelicidade.

Aluno¹: A alma também é composta de átomos?

Claudio: Claro! É só átomos e vazio.

Aluno²: A alma também seria um corpo, não?

Claudio: Sim, corpo, corpo! Não há nada que não possa ser corpo.

Aluno¹: Pois é, mas aí você teria o corpo e a alma como dois corpos.

Claudio: Tudo é corpo! Tudo é corpo!

Aluno²: Independentes?

Claudio: Quando se está vivo, não são independentes, não é?

Aluno²: Então, o que são?

Claudio: Um composto, um composto!

Aluno¹: Então, Claudio em que o corpo se diferencia da alma?

Claudio: Provavelmente pelos átomos da alma serem mais finos. Isso tudo eu vou falar na próxima aula que é ― a lei do átomo. O importante aqui é começar a entender que o negativo (eu posso traduzir a palavra “negativo” por ilusão: negativo-ilusão), a ilusão de modo nenhum é uma invenção ― a ilusão é real.  Uma ontologia da ilusão. A ilusão é real, (entenderam?) A ilusão pertence ao campo ontológico. Numa outra linguagem, a ilusão pertence ao plano de imanência. (Ficou muito difícil aqui? Hein, Silvia?) A ilusão pertence ao plano de imanência. (atenção para isso, hein?) A ilusão pertence ao plano de imanência. Eu poderia até dizer mais: que muitas filosofias que nós encontramos são produtos de fantasmas de terceira espécie. Ele vai dizer coisas desse tipo para Platão. A obra de Platão se originaria nos fantasmas de terceira espécie. Não sei se ficou bem aqui. Ou seja: tudo aquilo que nos leva a construir objetos transcendentes ― objetos que não estão no plano de imanência ― são originários no fantasma de terceira espécie. Para ele, só existe o plano de imanência, ― mas é preciso saber que esse plano de imanência é constituído só por positividades. A ilusão também é uma positividade. Nós passamos a descobrir que há um negativo que percorre a natureza. Um negativo que percorre a natureza.

(Não sei se ficou bem aqui).

Aluno: Que negativo é esse?

Claudio: O negativo são os fantasmas de terceira espécie. Ele é real, ele está aí. E é exatamente em cima desses fantasmas de terceira espécie que vai aparecer o homem religioso. O religioso aparece em cima dele para nos dizer que nós somos pecadores, somos não sei o quê, não sei o quê… em função desses fantasmas de terceira espécie. Como a experiência dos fantasmas de terceira espécie é absolutamente real, esse fato de ser real garante o enunciado do homem religioso.  O que vai ser dito agora é que o homem religioso faz uma espécie de composição ― avidez e cupidez, e constrói crimes incessantes: ele vive em função da tristeza dos homens.

A partir daí nós já temos uma entrada no campo político. A entrada no campo político será que é exatamente o medo da morte, ― mas, agora, a noção de medo da morte tomou um cunho muito grande: porque é medo de morrer, [quando ainda não estamos mortos; e de depois de mortos estarmos ainda vivos…  ]

(final de fita)

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Parte 2:

Aluna: De alguma maneira… Os átomos não são eternos? Quer dizer, então, de alguma maneira, o corpo também não seria eterno?

Claudio: Não! O corpo se desmancha, porque o corpo é um conjunto de átomos ― ele se desmancha!… Não há eternidade possível para o corpo.

Aluno: Agora, vamos supor, você morrendo, que o corpo desmancha e os átomos que formavam aquele corpo são eternos?!

Claudio: Eternos, eternos! Ele está trazendo uma coisa muito bonita, ele está constituindo uma eternidade na matéria ― é um materialismo excepcional! A eternidade está na matéria. E, nessa tese dele, ele não vai precisar sequer uma vez de um Deus. Eles não vão precisar de deuses. Ainda assim, ele trabalha com deuses.

Aluna: Isso me lembra aquele negócio do “tu és pó e ao pó retornarás”. Se você substi…

Claudio: Não retorna ao pó, retorna ao átomo.

Aluna: Pois é, mas se você substituir pó por átomo…

Claudio: É. Só que o átomo não é o pó, é a coisa mais ilustre que existe, não é? A coisa mais ilustre que existe!…

Vejam que a apresentação que eu estou fazendo pra vocês é muito simplória, nós não temos ainda idéia do que vai acontecer aqui! Ah, e antes de entrar aqui no Deleuze ― eu vou começar a colocar as questões que o Deleuze vai citar ― para vocês dominarem mais amplamente, eu quero fazer uma colocação para vocês. Colocação difícil e terrível! Que é: isto se chama plano de imanência. Por quê? Porque eu constituí a física e a ilusão no mesmo plano. Dentro da Natureza. Não tem nada fora da Natureza ― tudo vem da Natureza. A própria natureza nos envolve numa miragem. A miragem são os fantasmas de terceira espécie.

Por exemplo: de alguma maneira, o Espinosa reproduz o Lucrécio. Por isso, o Espinosa constrói, na obra dele, um método chamado método reflexivo ou formal ― e nesse método, o objetivo do Espinosa é fortalecer o pensamento. Ou seja, o fortalecimento do pensamento nos livraria da dominação dos fantasmas de terceira espécie. Mas gravem esses fantasmas de terceira espécie, hein? Porque eu vou trabalhar excessivamente neles e possivelmente será a partir deles que eu vou construir o mundo estético, hein? Esses fantasmas terríveis talvez venham me permitir a construção do mundo estético.

Porque ― aqui não fica muito difícil de falar ― vocês sabem que os objetos da obra de arte são pura ficção, são pura ilusão: eles são fantasmas de terceira espécie!

(Foi bem assim?)

Aluno: Claudio, a função fabuladora é parente desse…

Claudio: Aparenta aí. Se eu usasse o Bergson, seria sim. Se eu usasse a função fabuladora, apareceria aí, exatamente. Depois eu explico, está corretíssimo! Corretíssimo!

Bom. Antes de entrar aqui em Deleuze, só mais uma explicação para vocês:

Esses átomos se movimentam: eles têm movimento. E o Lucrécio fez uma teoria das emissões e distribuiu em três: profundidade, superfície e os fantasmas de terceira espécie ― simulacros teológicos, etc. A velocidade desses três é uma velocidade diferente: eles não têm a mesma velocidade. Os emitidos têm velocidade diferente. Então, a velocidade dos simulacros de profundidade é uma, a velocidade dos fantasmas de superfície é outra, a velocidade dos fantasmas de terceira espécie é outra. Se são três velocidades, nós temos três tempos. Os tempos se encaixam um no outro, mas são três tempos diferentes. Nós aí já saímos da tolice de pensar que o tempo é Uno ― o tempo é múltiplo.

(Não sei se vocês entenderam…)

Porque, no começo da aula, eu coloquei que o tempo é dependente dos corpos, o tempo é dependente do movimento. Se você tem movimentos diferentes, você tem tempos diferentes. Essa é a notável teoria que ele está elaborando. Esse vai ser um dos temas difíceis para nós.

E o outro tema difícil, é a exploração desse fantasma da terceira espécie. Que até agora eu coloquei como sendo o homem religioso, não é? Isso vai ser terrível para nós. Vai-nos dar muito trabalho, como também vai dar trabalho a questão do erótico. Porque eles vão fazer uma condenação radical a Eros; uma condenação radical ao amor. E vão fazer o cântico de Vênus Voluptas. Cântico de Vênus.

“Ao descrever a história da humanidade, Lucrécio nos apresenta uma espécie de Lei de Compensação”. Bom, não é isso o que interessa, não.

Ele diz aqui. A questão do Lucrécio eu vou dar umas três ou quatro aulas, viu? Eu não posso dar menos: é impossível!

Eu disse pra vocês a distinção do especulativo e do prático. O especulativo é epistemológico. O prático, ética. Tá? Toda a filosofia lucreciana objetiva a prática. Então, o fim ou o objeto da prática é o prazer. Fantástico o que ele está dizendo: a questão da prática, a questão da ética é o prazer. O prazer se opõe à dor. Então, todo o objeto da prática é o prazer. “Ora, a prática nesse sentido nos recomenda apenas todos os meios de suprimir e de evitar a dor”. Isso como fundamento prático: suprimir e evitar a dor. E aqui vai começar a aparecer a teoria belíssima dele: “Mas nossos prazeres têm obstáculos mais fortes que as próprias dores”. Esses obstáculos são “os fantasmas, as superstições, os terrores, o medo de morrer, tudo o que forma a inquietação da alma.” (Deleuze, Lógica do Sentido – Apêndice 2, p.279, editora Perspectiva, 1975). O grande obstáculo para o prazer não é a dor física. São exatamente as inquietações da alma. “O quadro da humanidade é um quadro da humanidade inquieta, aterrorizada mais que dolorida (mesmo a peste se define não penas pelas dores que transmite, mas pela inquietação generalizada que institui.” (idem).

Então, nós temos que sempre levar em conta essa figura chamada inquietação da alma. Vocês perceberem que ele está conduzindo tudo para uma ética, mas essa ética do Lucrécio se sustenta na Natureza. Se ela se sustenta na Natureza, o fundamento para se chegar a essa ética é que o pensamento possa dominar os fantasmas de terceira espécie para atingir e compreender as leis da natureza. Se o pensamento atingir e compreender as leis da natureza, as inquietações da alma vão ser vencidas. Porque toda a questão do homem está centrada na inquietação da alma. Inquietação da alma em que todos aqui somos mestres, não é? Temos pós-graduação disso. O homem tem pós-graduação em inquietação da alma.

“É a inquietação da alma que multiplica a dor”; (a alma tem esse poder: multiplicar a dor.) “é ela que a torna invencível, mas sua origem é profunda. Ela se compõe de dois elementos: uma ilusão vinda do corpo, que é uma ilusão de uma capacidade infinita de prazeres; depois uma segunda ilusão projetada na alma, ilusão de uma duração infinita da própria alma, que nos entrega indefesos à ideia de uma infinidade de dores possíveis depois da morte”. (ibidem)

Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem…). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos. Foi a questão que o André me perguntou… a questão da função fabuladora: você deslocar o governo. O governo desse fantasma de terceira espécie. Não deixar que ele seja governado pelo religioso. Passar a ser governado por homens que entendem dele, homens que o pensam e, que entrem no campo de pensamento.

Os fantasmas de terceira espécie têm grande independência em relação aos objetos que são suas fontes: eles têm independência em relação às fontes. E são de uma extrema inconstância De uma inconstância terrível. E aqui novamente aparece uma coisa muito difícil. Esses fantasmas são inconstantes, mas sob um céu permanente. Nós os encontramos o tempo inteiro ― uma inconstância terrível! Mas há um céu permanente que eles sobrevoam. (Não entenderam aqui, não?) Esses fantasmas percorrem o universo. Percorrem! Quando você me perguntar o que é o cérbero ― o cão que é porteiro do inferno; o que é o centauro? Não é nada mais do que esses fantasmas, nada mais do que isso. E nós não paramos de ter contato com eles. Nós encontramos uma coisa incrível. É que esses fantasmas de terceira espécie são caóticos. Eles são o caos, o caos integral, e não são produzidos pelo sujeito. Eles são encontrados pelo sujeito. O encontro que o sujeito faz com esse caos é originário em modificações no sistema tensional do sujeito. Modificação no sistema tensional é o sono, é o amor, é a superstição. Modificado o sistema tensional, você começa a fazer a apreensão desses fantasmas. É importante que a gente entenda que há um caos nítido na natureza, e que esse caos se origina nesses fantasmas da terceira espécie. Esse caos não é produzido pelo sujeito, mas é apreendido por ele. Ele se identifica, literalmente, à imaginação do Hume, que eu venho dando pra vocês. É absolutamente a mesma coisa. Vocês se lembrarem que a imaginação do Hume não é uma faculdade ativa. É um poder que as imagens têm de se misturar livremente. Então, o que nós temos agora que aceitar, aceitando Lucrécio, é que nós somos banhados por esse caos de terceira espécie. Banhados por ele.

(Não sei se ficou bem aqui.)

O Lucrécio vê uma única saída para isso. Suprimir esses fantasmas. A supressão deles não é fazer com que eles desapareçam. É ter um outro tipo de relação com eles. É o entendimento das leis da Natureza. Quando ele diz entender as leis da Natureza é a maneira de suprimir a ameaça que esses fantasmas de terceira espécie nos fazem, ele está dizendo que nós temos que levar o pensamento às últimas consequências. E a função do pensamento passa a ser confrontar-se com o caos. (Eu nunca vi coisa tão nítida, tão nítida!) O confrontamento com o caos. Vejam bem, talvez ainda não esteja claro: o caos é sinônimo de velocidade infinita. Isso que é o caos. Caos não é desordem ― é velocidade infinita.

Fala, Jimmy:

Aluno: Vem cá, nesse caso, o pensamento suprimiria o teológico, ou…

Claudio: E o erótico e o onírico. Não quer dizer que ele suprimiria a existência. No momento que você entende as leis da Natureza, você passa a entender o funcionamento desses fantasmas de terceira espécie. Entender o funcionamento dele. Toda questão é o pensamento entender como eles funcionam. Como o caos funciona. No momento em que você passa a entender como ele funciona, ao invés de se submeter a ele, você passa a criar ali dentro. Alguma coisa ficou terrível aqui: é que o pensamento tem como matéria o caos. Isso daqui que é importante. A matéria do pensamento é o caos. Caos = velocidade infinita. O pensamento tem que se defrontar com a velocidade do átomo, com a velocidade das emissões, com a velocidade dos fantasmas de terceira espécie. Ele tem que se defrontar com esse CAOS o tempo inteiro.

Aluna: Agora, o pensamento seria alguma coisa interna à subjetividade, ou seria externa?

Claudio: Nós temos que ver ainda o que é o pensamento, porque seja lá o que for, o pensamento tem que ser o quê? Átomos, não tem jeito. Não tem jeito, porque tudo nesse universo são átomos e vazio. Nós não temos como sair disso daqui. Inclusive, para se compreender melhor, o Lucrécio e o Epicuro combatem ao extremo o homem religioso ― é o criminoso. Esse é o criminoso: produtor das paixões tristes.  Mas eles dizem que existem deuses. Existem deuses. E depois nós vamos ver por que existem deuses. Os deuses deles existem nos intermundos, e são constituídos de átomos muito finos, tão finos são os átomos dos deuses, que eles não tocam nos átomos da matéria. São finíssimos! Então, eles vivem nos intermundos, numa felicidade eterna. Nós devemos fazer hinos para eles, mas sabendo que eles são inteiramente indiferentes a nós. É de uma beleza excepcional. Isso inicialmente… vão aparecer coisas muito maiores!

Aluno: No mundo dele, então, o pensamento seria um corpo.

Claudio: Sim, Corpo! Corpo!

Aluno: Com emissão e tudo. Corpo emissor.

Claudio: Corpo emissor!

Está indo bem? Eu vou dar uma entradinha.

Olhem, vocês vão ver, que esse nosso caminho vai me permitir fazer uma nova teoria da narrativa, viu? Nós vamos mexer com literatura, vamos mexer com física, vamos mexer com uma porção de coisas, com estética, tá? Eu agora estou precisando entrar um pouquinho, um pouquinho de nada, no tempo, tá? Porque, no princípio da aula, eu disse para vocês que o tempo na antiguidade depende do…?

Aluna: Movimento.

Claudio: Movimento. Então, eu quero até fixar isso com vocês, que o tempo depende do movimento, porque se eles são pensadores antigos, eles pensam o tempo, mas o tempo depende do movimento. Aristóteles é um pensador antigo, logo, o tempo depende do movimento. Os estoicos são pensadores antigos, logo, o tempo depende do movimento. Se nós formos para Kant? Nós já sabemos, é o contrário: é o movimento que vai depender do tempo. Então, é muito importante esse curso do Lucrécio e do Espinosa que nós vamos dar umas quatro aulas. É muito importante para mim.  Você podem até me achar um pouco irritante, eu repetir o tempo inteiro, porque eu tenho necessidade. O tempo aqui, literalmente, depende do movimento. (Tá?) Isso vai ser fundamental para o entendimento do que vai se passar. “O tempo se manifesta com relação ao movimento” (Deleuze, LS, p. 283) Enunciado já definitivo pra nós. O tempo se manifesta com relação ao movimento. “É por isso que falamos de um tempo do pensamento com relação ao movimento do átomo no vazio e de um tempo sensível, etc. etc” (idem). Agora começa a aparecer a sua questão; —- a questão mais difícil que existe. Que é a seguinte:

É clássico, na história do conhecimento… (Atenção aqui, marquem isso:) Na obra do Kant, por exemplo, conhecimento e pensamento são nitidamente distintos; conhecimento e pensamento não é a mesma coisa. (Certo?). É clássico, na história do conhecimento, que há uma distinção das duas maneiras como nós podemos conhecer: pelos órgãos sensíveis ― pelos órgãos sensíveis nós conhecemos os corpos, que são os mecanismos perceptivos, chamados por Kant de intuição finita. Eu já expliquei isso pra vocês, nós apreendemos os corpos pela sensibilidade; e outra forma do nosso conhecimento é o conhecimento intelectual. Duas maneiras de conhecer ― que em Kant gera a estética transcendental e a analítica transcendental: conhecimento pela sensibilidade e conhecimento pelo intelecto. Então, a sensibilidade conhece os corpos e o intelecto conheceria pelo processo de abstração.

A abstração do intelecto (isso é o conhecimento clássico, ouviu?) é que o intelecto abstrairia dos corpos a diferença, e ficaria com a semelhança. Por exemplo: aqui, nesta sala, tem uma série de indivíduos. O intelecto não teria questão do conhecimento do indivíduo. O intelecto quereria conhecer a espécie. Então, o intelecto, ao invés de querer conhecer (e nem poderia conhecer) Leão, Jimmy, Ângela, Zé Luiz, o intelecto quer conhecer “o homem”. E “o homem” é abstrato; não tem realidade concreta. (Certo?). É um processo que o intelecto faz de abstrair as semelhanças dos indivíduos. Então, a abstração é um processo intelectual. (Certo?). O que o Lucrécio vai colocar é que o abstrato não está no intelecto, está no real. O abstrato é o átomo. O átomo é abstrato. Logo, o átomo nunca poderá ser apreendido pela sensibilidade. Ele só pode ser apreendido pelo pensamento. (Não sei se vocês entenderam…)

O que a sensibilidade apreende são os compostos. Quem apreende o átomo é o pensamento. (Viu?) Então, o átomo, apareceu algo excepcional. Esse algo excepcional, com outra linguagem, vai ser retomado no Medieval e na Modernidade: o real não é só o concreto; existe também um abstrato real.

Claudio: Quem é esse abstrato real?

Alunos: O átomo.

Claudio: O átomo. Só quem o apreende é o pensamento. Incrível!

Aluno: Hoje, também, o átomo só é percebido pelo pensamento, não, não é?

Claudio: Ah, sim, sim, claro! O átomo do atomista é uma equação matemática! O pensamento quântico é equação. Esse sucesso da física só pode ocorrer a partir da Revolução Científica, no século XVII, em que se fez a introdução da matemática como aquilo que pode recobrir o real. Então, o matemático pode fazer suas equações e seus sistemas e esses sistemas reproduzirem a realidade. É inteiramente abstrato, inteiramente abstrato! Não é do campo experimental. Aí, é uma coisa muito crítica, porque nós pensamos que a ciência se constitui a partir da experiência. De modo algum! Isso é a maior idiotice. A ciência não é da experiência. A ciência pressupõe o abstrato e a construção. Aí, eu aponto pra vocês a obra do Koyré. A obra do Koyré é magnífica sobre isso.

Há, pra terminar a exposição dele aqui,uma figura que é inclusive é retomada pelo Freud. Freud na teoria do apoio. É o clinamen. Essa teoria do apoio é sensacional, incrível, muito bem colocada, muito bem exposta pelo Laplanche. Excepcional! Excepcional! Então, eu ainda vou falar nas próximas aulas a questão do clinamen em Freud, viu?

Então, o clinamen é um poder que o átomo ― o átomo, hein, não os corpos. O átomo se inclina; ele faz uma pequena inclinação. Essa pequena inclinação, que ele faz, torna-o indeterminado.

(Não sei se deu para entender…)

Prestem atenção: vamos dizer que esse átomo percorre o vazio. Se ele percorre o vazio, eu vou aplicar nele o princípio de inércia. Aplicando nele o princípio de inércia, esse átomo vai percorrer o vazio ao infinito. Vai embora, vai embora… nada vai acontecer! Agora, vamos dizer: ele se encontra com outro átomo. Bate noutro átomo, e volta. Basta eu entender a lei dos choques dos corpos que eu sei quais os movimentos e quais os lugares que esse átomo pode ir. Mas, no momento em que eu incluo no átomo o clinamen ― que é a inclinação ― eu torno a Natureza indeterminada.

(Entenderam?)

O indeterminismo penetrando pela Natureza. Não lembra —-, eu volto a ele,viu?

Então, essa noção de clinamen não é um acidente do átomo: é da essência dele. É da essência dele esse clinamen. Isso vai gerar muitos problemas para nós ― problemas inclusive atuais, na questão da liberdade. Nesse instante, o que parece é que esse átomo é livre; não está regido por nenhum determinismo, por nenhuma necessidade. Ele pode fazer novos caminhos, (certo?) Por exemplo, você encontra um mundo, um mundo constituído, um composto constituído ― esse maço de cigarro ou essa enorme Galáxia. Um átomo faz o clinamen, escapa, atrai os outros ― e a Galáxia se desfaz. Como se fosse um novelo de lã. Ela se desfaz. No puro acaso. E outros mundos vão ser constituídos. Então, ao introduzir essa teoria, eles introduzem o indeterminismo dentro da Natureza.

Aluno: Sem isso não seria possível a existência do caos, não é?

Claudio: Não seria possível. O caos estaria vencido.

Aqui, está sendo vencido o Laplace, viu? É o Laplace que sempre admitiu que se houvesse uma inteligência altamente poderosa, essa inteligência daria conta de tudo o que existe no Universo. Não há como!

Bom, agora eu vou tomar um café e voltar, tá? Foi muito bem a exposição, não foi?

Nós já sabemos alguma coisa do Lucrécio, se vocês quiserem ler o texto do Deleuze, vocês já podem.

Aluna: Qual o texto?

Claudio: Lucrécio e o Simulacro, na Lógica do Sentido. O texto é aparentemente fácil, viu? Aparentemente fácil. É um texto dificílimo, se vocês quiserem pegar, peguem, mas daqui a quatro aulas vocês vão poder pegar realmente porque nós vamos trabalhar no Plano de Imanência. Então, essa ideia de plano de imanência…

Aluna: Ainda está muito confusa essa ideia de plano de imanência.

Claudio: Eu ainda não expliquei sobre o Plano de Imanência.

(Foi bem? É uma beleza, não é?)

[Outros desenvolvimentos da filosofia de Lucrécio nas aulas Pensamento: Lucrécio e Espinosa e Lucrécio e os falsos infinitos]

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