Aula de 02/02/1996 – O movimento periódico e a forma vazia do tempo

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 11 (Conceitos); 14 (Literatura); 17 (Aion) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 


[…]

– o real e o sonho. Porque o real teria suas conexões lógicas, suas figuras próprias; e o sonho, como o imaginário, seria uma espécie de… [Salvador] Dalí no real ― algo como um esticamento, uma decomposição dos princípios do real. Então, no orgânico, real e imaginário se opõem, estão em relação de oposição. Por exemplo, você vai ler um romance. Você vai ler, O Amante de Lady Chatterley [de D. H. Lawrence]. Você está lendo O Amante de Lady Chatterley. Aí, o Lawrence faz uma narrativa e aquela é a narrativa real. Se por acaso em algum momento ele contar alguma coisa que estaria se passando na mente do Mellors ou da Lady, ele terá investido no imaginário, terá investido no sonho. E nós, os leitores, temos essa oposição muito clara: o sonho tem seus princípios, suas regras; e o real tem também suas próprias regras.

Quando nós passamos para o cristalino, desaparece a oposição entre o real e o imaginário. O real e o imaginário se tornam indiscerníveis.

Eu vou tentar usar um exemplo para desencadear a aula. Um bom exemplo é o cinema do Tarkovski, no qual você nunca sabe se o que está se passando é um sonho, se é real ou é imaginário. (Mas, pela reação de alguns, acho que o Tarkovski não pegou muito bem para todos…)

Quando você vai ao cinema, geralmente os diretores chamados diretores B colocam o real – uma determinada luz e uma determinada postura da câmera. E quando passam para o imaginário ou para o sonho, eles costumam desfocar; mudar, inclusive, a postura da câmera… Então, eles distinguem o real do sonho, colocando-os claramente em oposição. Inclusive eles alteram o movimento dos personagens…

Agora, quando você passa para o cristalino, o sonho e o real são indiscerníveis. Você nunca pode precisar se aquilo é um sonho ou se é uma realidade. É o que eu estou dizendo, você pode citar até o Godard onde você tem o real, o sonho, o imaginário… tudo misturado. Você não sabe exatamente o que está se processando ali.

A nossa dificuldade de aceitar essa indiscernibilidade é porque o nosso espírito está mergulhado, está enraizado na representação orgânica; é que nós raciocinamos sempre em termos de oposição, sempre em termos de opostos. Nós nunca temos essa noção de indiscernibilidade, porque o indiscernível pertence ao cristalino.

Foi o ponto de partida!

A partir de agora, nós vamos trabalhar no orgânico. Vamos dizer exatamente o que é o orgânico… tentar dizer o que é o orgânico, para poder entrar no cristalino sem que o orgânico se torne um obstáculo para isso.

Em todas essas aulas que nós já tivemos (foram cinco, esta é a sexta, me parece que é isso, não tenho nem certeza…) houve três figuras que nos acompanharam, que são as figuras principais da filosofia: o plano de imanência, a personagem conceitual e o conceito. (Tá?). Então, agora eu vou passar a falar de representação orgânica. Eu acredito que nós vamos ter uma certa facilidade nesse caminho que eu vou iniciar, porque é na representação orgânica que nós costumamos situar a nossa vida. O cristalino é sempre uma espécie de voo alto, uma fuga que alguns fazem, nós mesmos fazemos, algumas vezes.

(A aula agora começa a ser filosofia. Um pouco de filosofia, um pouco de física.)

Grécia, um pensador, filósofo, chamado Aristóteles. (Tá?). O Aristóteles vai fazer uma afirmação. A afirmação que ele faz deve-se ao ímpeto ou intuito que ele tinha de compreender e distinguir o que é movimento e o que é tempo. Movimento e tempo.

(Vou dar uma pequena esclarecida para vocês).

O tempo, por exemplo. Existe um enunciado de Santo Agostinho em que ele diz que o tempo é aquilo que nós entendemos quando não pensamos nele… e aquilo que nós não entendemos quando pensamos nele (Certo?). Por isso, evidentemente, qualquer pensador que se encontre diante de uma questão como a do movimento e do tempo vai ver-se frente a uma complicação terrível. E o Aristóteles escreve uma vastíssima obra querendo cobrir, à maneira de uma enciclopédia, todos os saberes. E entre as suas obras, uma das principais é a Física ― que, em nossa língua, no francês e no inglês está traduzida em dois volumes. E, na Física, o Aristóteles vai emitir um precioso enunciado para desencadear o que vem a ser a representação orgânica.

Essa aula é uma aula de idas e vindas, porque eu afirmo alguma coisa, vocês vão compreender aquela coisa e não vão saber aplicar. Por isso eu retorno, volto, ando… é… como o amor em Bizet ― o pássaro rebelde, que ora vem e ora foge… Então, é um estilo de aula, como o amor para o Bizet, ― logo, uma aula cristalina.

O movimento para Aristóteles é o deslocamento de um corpo de um lugar para outro. Então, movimento… é muito simples: quando esse corpo se desloca daqui para cá, isso se chama movimento. É só você observar e verificar que um corpo, quando não está em repouso, está se deslocando ― e esse deslocamento chama-se deslocamento translativo. É isso o movimento. Então, quando Aristóteles pensa o movimento (eu estou simplificando um pouquinho, mas muito pouco!) ele identifica o movimento a deslocamento de um corpo de um lugar para outro lugar (certo?). E em seguida (agora é que vai me interessar) quando ele visa a compreender o que é o tempo. Ele já disse o que é o movimento: que é o deslocamento que um corpo faz de um lugar para outro lugar. Agora, o tempo… ele vai dizer que o tempo (ninguém se assuste) é a medida do movimento. O que quer dizer isso? Ele quer dizer que o tempo é aquilo com que se mede o movimento. Lembrem-se: estou falando da representação orgânica. (Ninguém precisa ficar preocupado que eu vou explicar). Então, movimento ― deslocamento de um corpo de um lugar para outro lugar. Então, o que ele vai chamar de tempo é, segundo ele, o número do movimento. (Vamos ver o que é isso).

Por exemplo, nós conhecemos os números inteiros: 1, 2, 3, 4, 5. Aí a Sílvia vira-se para mim e diz assim: “Eu vim de Copacabana para cá”. Aí eu pergunto: “Sim, você veio de Copacabana para cá. Quanto tempo você demorou?” ­- “Duas horas”, ela responde. Olhem essa expressão: duas horas. Nessa expressão duas horas, o primeiro termo é um número inteiro, vocês concordam? Duas ou três ou quatro ou cinco, quinhentas horas… O primeiro termo é um numero inteiro e o segundo termo é um período. Ela poderia dizer: “Demorei cinco minutos.” Minuto seria a marca de um período. Hora é a marca de um período. Mês é a marca de um período. Ano é a marca de um período. Século é a marca de um período. Primavera… duas primaveras, dois outonos, duas temporadas de chuva. Então, tempo para Aristóteles é o número inteiro e o nome de um período. Isso é o tempo para ele. O tempo é o número inteiro e o nome de um período.

Por exemplo, quando você diz: Senna atravessou aquela pista em 2 horas e 26 minutos. Horas e minutos são as marcas do período.

Então o tempo é aquilo com que nós numeramos o movimento. Nós compreendemos o movimento através de um número qualquer num determinado período.

Por exemplo: aquele homem viveu 150 anos. Foi o período de vida dele.

O nome que se acrescenta ao número chama-se período. Primavera, hora, minuto, segundo… Então, quando o tempo é o número do movimento é um numero inteiro mais o nome de um período qualquer, que pode ser horas, pode ser primavera, pode ser estação, pode ser qualquer período… Qualquer período que você quiser nomear passa a ser o número do movimento. (Vocês entenderam?) Número inteiro, mais um período. Então, quando você tem o movimento x e tem o número inteiro mais um período…

Vamos dar um exemplo de um número inteiro mais um período? Dois anos, 35 meses, uma primavera, quatro estações. Tudo isso é período. É um número inteiro mais o nome de um período, qualquer período. Você pode, inclusive, inventar o período. Quanto tempo você demorou para vir da cidade até aqui? Eu demorei 55 beijos do Clark Gable na Vivien Leigh. É um período. Tanto faz como você vai nomear o período (certo?). Então, para Aristóteles, o número inteiro mais um período é o número do movimento. E ao número inteiro mais um período [Aristóteles] chama número numerado.

― O que é o número numerado? É o número inteiro mais um período. Dois anos – número numerado. Dois dias – número numerado. Dois – número inteiro. Então, o número numerado é o número inteiro mais um período.

Então, para Aristóteles, quando você quer medir um movimento, você assinala, no movimento ― um número inteiro mais um determinado período, não importando qual ― inclusive os beijos que o filho do Aristóteles dava no Teofrasto, o principal aluno do Aristóteles.

[Risos…]

(Tá?) Não importa qual. Isso se chama número numerado e o tempo passa a ser identificado a período ― tempo igual a período. Qual período? Não importa qual; é um período! E sempre que você produzir a noção de período, esse período necessariamente tem um código. Ou seja, você nomeia um determinado tipo de movimento ― o movimento das minhas mãos quando eu falo. Você nomeia um número, nomeia um período e isso se chama número numerado. Isso é o numero numerado. Então, para Aristóteles, o tempo é o número numerado do movimento.

(Querem falar?…)

E a partir daí, a compreensão que Aristóteles tem do tempo… é a identificação do tempo com um período. O tempo é um período qualquer.

(Eu vou investir muito aqui até eu verificar que vocês compreenderam bem).

O tempo é um período qualquer. Para Aristóteles, isso é o tempo. Logo, se o tempo é um período qualquer e a noção de período é um sinônimo da noção de código, o tempo é uma coisa codificada. O tempo é algo codificado. E esse código do tempo é aquilo que administra o movimento. Quer dizer, o movimento tem uma ordem, um equilíbrio, por causa do tempo, por causa do período temporal que está administrando aquele movimento. É como se o movimento e o tempo estivessem presos um ao outro. O movimento se submete a um período; e o período se submete ao movimento: um está ligado ao outro. Mas, na verdade, o que importa aqui (Atenção: apontem, se vocês tiverem dificuldades…), é que o tempo passa a ser identificado a período. Não importa qual seja o período, ele é um período. Quando eu falar em tempo, sempre que eu falar em tempo, segundo ele, eu estou falando num período qualquer. Não importa qual o período que ele vá utilizar. Ele pode usar, por exemplo, duas olimpíadas (a olimpíada na Grécia demorava 4 anos). Mas ele está dizendo isso: “olha, há duas olimpíadas que eu não te vejo”. “Eu não te vejo há duas copas do mundo”. Copa do mundo, no caso, é um período. Esse período é o tempo. Então, segundo Aristóteles, sempre que o tempo aparecer, ele estará preso a um período; ele está dentro de um período; ele é um período. Não é possível pensar-se o tempo fora de um período ― necessariamente, ele é um período. E sendo um período, o movimento fica submetido a ele. O movimento fica submetido a esse período, pelo fato de que o movimento é compreendido pelo período que se deu. Então, a nomeação do Aristóteles é: o tempo é o número do movimento. Vamos acrescentar: o tempo é o número numerado do movimento. Número numerado = período.

― O que aconteceu aqui? O tempo ficou preso no período, ele ficou preso no período ― preso! Essa prisão do tempo… Essa palavra prisão… pega, pega: preso no período ― o período é ele! Necessariamente, quando o tempo aparece, tem que ser dito por um período: porque ele se apresenta sempre periodicamente. Não há um tempo que não seja periódico: o tempo sempre aparece num período.

Aluna: O tempo seria uma unidade? Quer dizer, o tempo enquanto período é o aprisionado… E o tempo realmente, ele é uno?

Claudio: Ele é uno e múltiplo, porque ele é este período, aquele período, o outro período: ele é vários períodos. Você não pode dizer que o período “copa do mundo” é idêntico ao período “minutos” ― não é a mesma coisa! Por exemplo, tem pessoas que se equivocam muito na marcação do período. Às vezes você não sabe exatamente qual período deve ser aplicado naquele movimento que está ali. Mas isso pouco importa. O que importa para nós é o fato dele ter tornado o tempo periódico.

Aluna²: E esse tempo domina [trecho inaudível]

Claudio: Não, o senso comum é dominante; o senso comum é inteiramente dominante! Nós só sabemos trabalhar com esse tempo periódico.

Vamos tentar compreender que período é sinônimo de código,ou seja ― se alguma coisa está no interior de um período, aquele período codifica aquela coisa. Por exemplo, eu estou medindo o tempo em termos de “primavera”. Se eu estou medindo o tempo em termos de primavera, a primavera é o código do tempo; o período é o código daquele tempo que está sendo medido. Então, você tem aí o que se chama ― o tempo preso ao movimento por causa do período. O tempo fica submetido ao movimento ― porque a gente só compreende o movimento por um período dado.

Se eu perguntasse, por exemplo: ― Qual o tempo que um carro importado demora para vir do centro da cidade à Praia de Copacabana? Que tempo demora? Aí você me responderia: qual o período? O período do rush? O período da madrugada? Então, o período ― é exatamente onde o tempo vai ser incluído, onde ele vai ser incluído. E o tempo se identifica ao período. E o número que se dá ao período é um número variável ― é a variável dependente. O numero que você dá ao período é qualquer número. Por exemplo, ir até a esquina da Rua Marques de São Vicente, daqui, da Rua dos Oitis, até a esquina da Marquês de São Vicente ― se for a Silvia, são 45 minutos. (Risos… Entenderam?). Então, o período prende o movimento!

Eu vou identificar período a código. Período e código é a mesma coisa. Nessa maneira aristotélica de pensar, portanto, o movimento que o tempo mede é o movimento periódico ― o movimento é dominado pelos períodos temporais. Por isso, o movimento e o tempo são codificados, eles são codificados. (Ainda está difícil aqui?). Se o tempo é um período, o movimento é necessariamente periódico ― ele é preso às regras do período. O que há de mais importante é que isso é definitivo: o tempo é identificado ao período e o movimento se torna uma coisa inteiramente ordenada. O movimento se torna inteiramente ordenado, porque o que dá ordem ao movimento é o período. O período dá a ordem do movimento. “Esses 100 metros você tem que atravessar em 2 horas”. Então, esse é o período em que você organiza o seu movimento. O movimento recebe a codificação do período e se torna organizado.

(Eu vou dar por entendido, tá? Mais na frente eu volto…).

Esse processo aristotélico vai começar a se desfazer ainda no mundo aristotélico. O que vai começar a acontecer, de uma maneira assim extasiante, é que o tempo vai começar a se libertar do movimento. Ora, a única maneira que o tempo tem para se libertar do movimento é se ele deixar de ser período. Porque se ele deixar de ser período, não há como medir o movimento. Se ele perder a periodicidade dele, ele não pode mais medir o movimento. E se ele não puder mais medir o movimento, o movimento se torna enlouquecido. A organização, a retidão, a virtude do movimento é dada pelo tempo, é dada pela periodicidade do tempo.

O movimento ou o deslocamento de um lugar para outro lugar, conforme determinado período: duas horas, dois dias, cinco anos… (Certo?). Mas o que vai acontecer (e eu vou começar a dizer isso um pouco mais à frente para vocês) é um racha no mundo aristotélico. Que tipo de racha? O tipo de racha é que o movimento e o tempo vão começar a se separar. O movimento e o tempo vão começar a se separar quando o Aristóteles…

(Eu agora vou ter que dar uma aula de Aristóteles; e eu acredito que essa aula vá fortalecer vocês.)

O Aristóteles dividia a natureza em: debaixo da lua e acima da lua. Acima da lua, ele chamava de supralunar e no supralunar só havia um tipo de movimento, era o movimento das estrelas fixas. E o movimento das estrelas fixas é o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. E nesse movimento de rotação sobre o próprio eixo você teria o movimento uniforme e perfeito. E esse movimento é um período!

Ou seja, o que é o movimento supralunar, que, segundo Aristóteles, é o único movimento que existe acima da lua? O movimento das estrelas. O movimento das estrelas não é o movimento translativo ― porque, para os antigos, a estrela é fixa. Ela é fixa, mas tem um movimento sobre seu próprio eixo. Então, esse movimento sobre seu próprio eixo é chamado movimento perfeito e uniforme. Uniforme e perfeito. E esse movimento é um período. Quer dizer, o movimento circular que um corpo faz em torno do seu próprio eixo é um movimento perfeito e uniforme ― e é periódico. Então, para Aristóteles, no mundo supralunar, quer dizer, no mundo acima da lua, só existe um tipo de movimento ― que é o movimento das estrelas fixas. Não há contradição em dizer ‘movimento das estrelas fixas’ pelo fato de que o movimento das estrelas fixas é uma rotação sobre seu próprio eixo (Certo?). Então, a gente tem o movimento que é um movimento eternamente circular, uniforme e periódico. Você pode aplicar ali um período qualquer, que aquilo vai ser mantido eternamente ― quer dizer: o movimento supralunar das estrelas girando sobre seu próprio eixo é um movimento inteiramente periódico.

Agora, existe o mundo sublunar, que é o mundo da Terra ― o nosso mundo. E nesse mundo existem as trajetórias, os deslocamentos dos corpos; e os corpos, em seus movimentos, alteram a sua velocidade ― aumentam sua velocidade, caem, sobem… e o movimento começa a se separar do período ― o movimento começa a enlouquecer, você começa a não poder mais introduzir um período no movimento. Por quê? Por quê? O movimento vem assim ― zummm… De repente, faz assim ― zum, zumm, zummm. [Claudio traça no ar um exemplo de mudanças de movimento.]

Aluna: O movimento perde a regularidade.

Claudio: Perde a regularidade: perde a uniformidade e perde a perfeição. Você encontrava a regularidade dele, com integral perfeição, nas estrelas de movimento de rotação em torno do seu próprio eixo. Essa regularidade é igual à uniformidade e perfeição. Não é isso? Perfeito e uniforme.

Com a passagem para o mundo sublunar, que tipo de movimento vai haver? Movimentos de elipse, movimentos angulares os mais enlouquecidos, aumento de velocidade, ralentação… Então, o mesmo objeto aumenta a sua velocidade, ralenta… O que significa que, sobre ele, não se pode aplicar nenhum período ― ele se torna aperiódico. E esse movimento ― separado do período ― (não vejo como empregar um período aí dentro) vai-se chamar movimento aberrante.

Então, nós temos aqui dois movimentos: o movimento do mundo supralunar… (vocês entenderam o supralunar?) que é o movimento de rotação, chamado de movimento uniforme e perfeito; e, no mundo sublunar, sobretudo por causa das alterações de velocidade, nós vamos encontrar o movimento aberrante. Mas se vocês quiserem verificar a enormidade do movimento aberrante… por exemplo, no cinema. O cinema é capaz de reconstituir uma garrafa quebrada: é só passar o filme de trás para diante… Então, o cinema é nitidamente o lugar dos movimentos aberrantes.

O que quer dizer movimento aberrante? O movimento aberrante é quando o movimento se separa do período. Quando o movimento se separa do período, ele começa a se tornar aberrante e o tempo a se tornar aperiódico. O tempo vai se libertando do movimento, ele vai se libertando do período no qual ele estava incluído.

Enquanto o movimento estava incluído no período, enquanto nós pensávamos o tempo segundo um período ― é porque nós partíamos do movimento para entender o tempo. No momento em que aparece o que eu estou chamando de movimento aberrante, o tempo já não vai mais ser pensado pelo movimento ― ele vai ser pensado diretamente. Ao ser pensado diretamente, ele já não depende mais do movimento para explicar o tempo ― o tempo deixa de ser periódico para se tornar uma pura forma vazia. Ele se torna uma pura forma vazia.

― O que quer dizer uma pura forma vazia? Este conceito é kantiano; e é um conceito aparentemente difícil… mas não é. Não é um conceito difícil. Para se entender o que é uma pura forma vazia em relação ao tempo, é só tirar do tempo o período. Você tira a noção de período do tempo, ele se torna uma pura forma vazia. Ou seja, o tempo não é outono, não é primavera, não é ano, não é minuto… Qual é o conteúdo do tempo? Anos? Horas? Minutos? Não! Nenhum, ele não tem. Ele não é periódico. Ele não tem mais período nenhum. Quando ele perde a periodicidade dele, anos, horas, minutos, seja o que for… ele se torna o que se chama pura forma vazia. Então, a história do tempo é exatamente a que eu acabei de contar para vocês. A história do tempo (eu vou usar uma linguagem um pouco forçada) é a passagem que nós fazemos do supralunar para o sublunar, no sentido de que no sublunar o movimento começa a se separar do tempo. E nessa separação que o movimento vai fazendo do tempo dois processos vão acontecer: o tempo vai se libertar do período; e o movimento vai se tornar aberrante ou enlouquecido. Aberrante e enlouquecido, como ela colocou, o movimento perde a regularidade. Ele se desregula. É como que um relógio em que a corda afrouxou. E o tempo se separa do movimento.

Esse já não é mais o momento aristotélico; esse é o momento kantiano. O que eu estou dizendo para vocês é que quando Kant chega, no século XVIII, ele não vai encontrar o mesmo movimento e o mesmo tempo de Aristóteles ― porque o Aristóteles quando pensa o movimento, pensa o movimento como perfeito, uniforme e periódico; o período indicando tempo; e o tempo medindo o movimento. Agora, quando você passa para o sublunar, esse movimento começa imediatamente a se libertar do período. Você não tem como jogar o período ali em cima; você fica confuso: que período eu vou jogar ali em cima?

E nessa separação que começa a nascer entre movimento e tempo periódico, o movimento vai se tornando aberrante. O que quer dizer movimento aberrante? Ele se torna irregular, sem observação possível. Ele já não tem mais nenhuma regularidade. E não tendo regularidade, você não pode aplicar o período em cima dele. E a partir do momento em que o movimento começa a se tornar aberrante, começa a se tornar irregular, simultaneamente o tempo se libera do movimento.

Aluno: [trecho inaudível na fita]

Claudio: Não, não coloca isso aqui não. Não agora, senão você se perde.

O que vai acontecer agora é que o tempo vai começar a se liberar do movimento. Então, quando Kant, no século XVIII, chega para pensar, ele vai encontrar a definição de Aristóteles. Qual é a definição de Aristóteles? O tempo é o número do movimento. Ou melhor, o tempo é o número numerado do movimento. O número numerado é o número inteiro mais o período. (Não é?) É essa a definição dele. Mas quando você encontra Kant, ele diz que o tempo é uma pura forma vazia. E imediatamente, quando nós encontramos essas duas definições ― uma definição do Aristóteles e uma definição do Kant ― e, dessas definições, uma privilegia o movimento no sentido de que o movimento é a razão e a causa do tempo: o período só existe por causa do movimento; se não houvesse movimento não existiria período. Então, para Aristóteles, o tempo é o número do movimento.

Quando chega Kant, ele diz que o tempo é uma pura forma vazia e o movimento só existe porque existe o tempo como vazio. Então, há uma inversão: para Aristóteles, o tempo é subordinado ao movimento; para Kant, o movimento é subordinado ao tempo. Portanto, você tem uma inversão.

Quando nós temos um jogo invertido desses – a postura do Aristóteles e a postura do Kant -, se eu colocasse os dois como representação orgânica, qual seria a relação dos dois? Seria uma relação de oposição. Mas não é isso, não é isso: não há uma oposição entre a postura do Aristóteles e a postura do Kant. Porque a postura do Aristóteles é orgânica, e a do Kant é cristalina.

(Vamos voltar. Acho que não teve os efeitos que eu precisava…).

O que eu disse foi que o conceito de oposição, o conceito de contradição ― e eu utilizei o real e o imaginário (não foi?) ― só pertence à representação orgânica. Se eu fosse identificar as posturas do Aristóteles e do Kant no interior do orgânico, eles estariam em oposição. E estando em oposição, um seria colocado como verdadeiro e outro como falso. Um verdadeiro e outro falso. Mas não é isso que ocorre. Um está no mundo orgânico; e outro está no mundo cristalino. Então, no cristalino, o tempo não é a medida do movimento ― o tempo é uma pura forma vazia (certo?). O tempo é uma pura forma vazia.

E aqui eu acredito que a gente pode começar a aula. No sentido de que é uma coisa dificílima esse caminho que a gente está fazendo. Compreender o que é o número numerado, compreender o que é o período, compreender o que é uma passagem teórica quase que assustadora, que é você abandonar a representação orgânica e mergulhar nesse mundo cristalino.

Deleuze cita o Hamlet de Shakespeare ― e o Hamlet diz: “o tempo saiu de seus gonzos”. O tempo abandonou as suas forquilhas, as suas dobradiças. Quer dizer o tempo, no Aristóteles… (agora veja como é que é fácil…). O tempo no Aristóteles tem como modelo a estrela fixa e o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. Sabe o que é isso, uma estrela fixa em rotação sobre seu próprio eixo? É uma porta giratória… É uma porta giratória. O movimento perfeito é uma porta giratória e o tempo está preso nessa porta giratória. O tempo está preso nessa porta giratória.

Então, aparece um gênio maligno, um deus enlouquecido, retira a dobradiça da porta e a porta enlouquece. Quando a porta enlouquece, emerge o movimento aberrante ― e o tempo se liberta do movimento.

(Conseguiram, não é?).

Eu acho que o melhor modelo que vocês podem usar é a porta giratória. A porta giratória é o grande modelo do tempo aristotélico.

E quando o tempo se liberta do movimento, toda a questão do pensamento é conquistar o tempo ― na arte, na filosofia e nas ciências: conquistar esse tempo que se libertou do movimento.

Então, quando se fala em arte e em filosofia, a questão de ambas ― da arte e da filosofia ― é ir atrás dessa porta enlouquecida. Porque conquista do tempo é sinônimo de liberdade.

Então, eu vou começar a aula; (vou pedir um café para a Silvia… me dá um café aí Eliane…) E… vejam se vocês teriam alguma coisa para acrescentar ou perguntar… Gabriela conseguiu acompanhar? Você só chegou na metade da aula, não é?… Como é que vocês conseguiriam me devolver, se eu estou bem calçado para ir pra frente. Gabriela?… Alguma pergunta?

Então, vocês podem usar como modelo o sublunar e o supralunar do Aristóteles; aí é uma coisa cultural. Eu acho melhor até que vocês usem a porta giratória. O tempo em Aristóteles é a porta giratória. É o movimento perfeito. Porta giratória é o movimento perfeito! Eternamente assim. [Claudio gira uma porta.] Olha que movimento maravilhoso! Não se altera nunca: regular, uniforme, perfeito… De repente as dobradiças… blup!… aí a porta enlouquece… Então, o tempo enlouquece e o movimento enlouquece. E o tempo se liberta do movimento.

(Entenderam aqui?).

O tempo se liberta do movimento. Vai aparecer uma expressão que vocês podem traduzir em termos até literários ou em termos políticos, não sei como vocês entenderiam, é uma distinção clássica na história do pensamento entre forma e conteúdo. Durante esses séculos todos, o pensamento se constituiu com essas duas noções de forma e conteúdo. O tempo ― no mundo aristotélico ― é uma forma; e o movimento é o seu conteúdo. O movimento e o tempo têm uma relação de forma e conteúdo. O tempo não existe sem o movimento. O movimento produz um efeito ― e esse efeito é a aparição do tempo.

Numa outra linguagem: para haver movimento é necessário que haja corpos. Então, se para haver movimento é necessário que haja corpos, por conclusão: para que haja tempo é necessário que haja corpo. Quando ― no mundo aristotélico ― o tempo está associado com o movimento, nós vamos chamar essa associação de bloco de espaço-tempo. O tempo associado com o movimento = bloco de espaço-tempo. E é nesse bloco de espaço-tempo ― que é o movimento mais o período ― que se dá a figura chamada aqui e agora. Eu estou aqui e agora neste período de aula. Quer dizer, o período mais o movimento é o que dá a noção que nós chamamos de aqui e agora ou bloco de espaço-tempo. No mundo orgânico, nós estamos imersos num bloco de espaço-tempo. O mundo orgânico é exatamente esse processo chamado de bloco de espaço-tempo, onde o tempo é ou não prisioneiro do movimento? Onde o tempo é prisioneiro do movimento!

(Vamos pegar aqui que eu acho que vou conseguir.)

Então, vamos fazer uma história, uma história orgânica: o tempo está preso ao movimento. Aí, por exemplo, no século XIX e no princípio do século XX, surgem alguns pensadores com um objetivo: libertar o tempo do movimento. Pensadores, cujo único objetivo é libertar o tempo do movimento; libertar o tempo: tirar o tempo do domínio que o movimento tem sobre ele. No momento em que o tempo está dominado pelo movimento, o tempo é chamado representação indireta ― no sentido de que você só apreende o tempo se, em primeiro lugar, apreender o movimento. Quer dizer: o tempo só aparece como secundário ao movimento. Ele é um período, então ele é secundário, ele é uma representação indireta. Agora, no século XIX, aparece um movimento literário chamado naturalismo. No século XIX-XX, o grande pensador do naturalismo é o Émile Zola. E o naturalismo é alguma coisa diferente do que eu chamei de representação orgânica. Quando se dá a representação orgânica? Quando o tempo está preso ao movimento! É o que eu chamei de representação orgânica, mas vocês também podem dar a isso o nome de realismo. O realismo literário… é o tempo prisioneiro do movimento. Agora nós vamos fazer uma tentativa de compreensão, quer dizer, nossa primeira tentativa séria de compreensão ― e eu estou dizendo séria, porque vai ser uma tentativa que será definitiva para vocês. Eu vou colocar o Émile Zola (todo mundo conhece o Émile Zola, não é?), ele é um naturalista, como nos informam os manuais de literatura. Por que ele é naturalista? O naturalismo que vai reaparecer no cinema ― eu vou colocar dois cineastas bem conhecidos ― Buñuel e Losey. Será que esses dois vocês conhecem? Não?… Losey. Buñuel, que todo mundo conhece!

O Buñuel então seria o naturalista do cinema. Qual é o objetivo dos naturalistas? Quebrar o gancho realista. Qual é o gancho realista? O tempo preso ao movimento. Quer dizer, o gancho realista é o tempo preso ao movimento ― e o naturalista liberta o tempo do movimento. Ele liberta: tira do tempo o movimento. Quer dizer, sempre que o realista for pensar o tempo, ele vai pensar o movimento: o tempo é sempre secundário. Sempre. Para ele, o tempo é uma coisa secundária.

(Ninguém se preocupe de não entender isso. Vai entender! Com umas duas ou três aulas, é claro. Mas vai entender).

O tempo no realismo é subordinado ao movimento, é o número numerado, está subordinado ao movimento. Então, no mundo realista, o processo é sempre o mesmo: o tempo é uma subordinação ao movimento. O naturalismo ― centrando em Buñuel, no cinema; e em Zola, na literatura ― o que eles pretendem é libertar o tempo do domínio que o movimento tem sobre ele; tornar o tempo independente. Quer dizer, fazer com que o tempo não seja mais um número numerado. É essa a tentativa. O naturalismo vai fazer essa tentativa. No naturalismo, eu vou apontar o Zola, na literatura; e o Buñuel no cinema.

Agora, de outro lado, vão aparecer outros autores, não naturalistas, que vão ter o mesmo objetivo. Que objetivo? Libertar o tempo das cadeias do movimento. E esses autores têm o mesmo objetivo dos naturalistas, mas não são naturalistas. Eu vou apontar dois: na literatura, o chamado Nouveau Roman... Vocês conhecem o Nouveau Roman? Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet… etc. Então, o Nouveau Roman na literatura.

E o naturalismo na literatura tem o mesmo objetivo? Sim. Libertar o tempo; separar o tempo do movimento. Ele tem o mesmo objetivo. No cinema esse mesmo objetivo aparece no Buñuel, querendo libertar o tempo à maneira naturalista. Vou explicar depois para vocês o que é. E, na outra tentativa, vamos colocar o Orson Welles. Orson Welles é conhecido.

Então, Orson Welles e Robbe-Grillet estão sentados aqui à minha direita, e eu entrevisto os dois:

O que vocês pretendem?, eu pergunto.

Libertar o tempo das prisões do movimento segundo o modelo realista, respondem eles.

Aí eu venho para o outro lado. Quem são os outros dois? Émile Zola e Buñuel.

E vocês dois, o que vocês pretendem?

Nós, respondem ambos, pretendemos libertar o tempo do domínio que o movimento exerce sobre ele.

Aí, eu abandono esses dois e procuro o Balzac e o Kazan. Vocês conhecem o Elia Kazan? Ele é um grande diretor de cinema que trabalhou com grandes autores americanos, sobretudo no sul dos EUA, Tennessee Williams, John dos Passos, Erskine Caldwell… Então, se eu fizesse a mesma pergunta para o Kazan e para o Balzac, os dois me diriam assim: “O que nós queremos é manter o tempo preso ao movimento”. Eles são realistas, eles querem manter o tempo preso ao movimento. E o que essas outras duas linhas pretendem? Libertar o tempo. (Tá?)

Então, uma é o naturalismo e a outra vamos nomear como Nouveau Roman… ou outro nome qualquer. A primeira, que é o naturalismo, liberta o tempo do movimento: eles conseguem fazer isso. Mas eles vão produzir…

Não tentem avançar sem mim […].

[virada da fita]

Lado B

[Zola e Buñuel – tempo negativo; Orson Welles e Robbe-Grillet – tempo positivo]

Nós não estamos mais tratando do tempo preso ao movimento, que é o realismo. Nós agora estamos com dois pensadores: de um lado, Buñuel e Zola ― que libertaram o tempo das cadeias do movimento. E do outro, ainda os outros dois que também libertaram o tempo do movimento, que são o Robbe-Grillet e o Orson Welles. Eu coloquei os dois que fizeram o mesmo processo.

(Tomem um café para essa segunda parte. Antes de eu começar vocês podem perguntar… Não perguntem agora não, vamos só descansar um pouquinho…)

Aluno: [trecho inaudível]

(Mais alguma? Antonio, não quer perguntar nada?)

Eu estou usando as expressões positivo e negativo em sentido quase moral. Negativo como aquilo que conduz à destruição, que conduz à morte. Seria isso o que estou chamando de negativo. Então, estou dizendo, antes até de começar a exposição, que o negativo é como aquilo que conduz à morte… O Zola e o Buñuel, pelo menos numa grande parte da obra deles, estão dominados pelo que estou chamando de tempo negativo, mas que eu também posso chamar de instinto de morte (Certo?). Eu diria então que, quando nós vamos ver um filme do único autor que eu posso citar nessa aula (porque se pudesse eu citaria mais, mas nós só temos o Buñuel…), ele não se enquadra no que se chama cinema realista.

Uma ligeiríssima passagem sobre o cinema realista: cinema realista é quando o tempo está submetido ao movimento e forma o que eu chamei de bloco de espaço-tempo. O faroeste, os filmes históricos de Hollywood, Você conhecem os filmes noir? John Huston, Howard Hawks ― Scarface, por exemplo, até mesmo o do Brian De Palma… Então, esses são os filmes chamados realistas.

 

Scarface – A Vergonha de Uma Nação (1932)

 

Quando aparecem os que eu estou chamando de “libertadores do tempo”, aparecem os negativos… Os negativos vão produzir um tempo governado pelo instinto de morte. (Ainda vamos ver o que é isso). E um outro tempo… Eu vou aplicar uma coisa muito poderosa, vamos ver se dá certo, aí eu sigo com isso nas outras aulas. Do outro lado o tempo seria governado pelo eterno retorno do Nietzsche. É por aí que eu vou chegar ao James Joyce.

[Vozes confusas…]

No século XIX, todo mundo conhece o século XIX como o século da revolução industrial, todo mundo conhece assim. Scarface (1983)Conhece como o século de crescimento do capitalismo. Correta essa afirmação… política social e política industrial.

[alguns minutos de interrupção em virtude de um temporal súbito]

Aluno: [trecho inaudível]

Claudio: [trecho inaudível] a evolução do cristal.

A termodinâmica vai colocar uma questão no tempo conforme o chamado modelo dinâmico, do Newton. Quando Newton pensa o tempo, pensa-o relacionado à questão da gravidade. E o tempo para ele é um tempo reversível.

― O que quer dizer um tempo reversível, da maneira mais simples para se entender? Você mede a velocidade de um astro do sistema solar, a sua velocidade, a sua massa, vamos dizer assim ― e, a partir daí, você pode fazer previsões de onde estarão os astros daqui a um século. E também pode fazer previsões de um século para trás. Então, as previsões da dinâmica vão assim, você pode falar indiferentemente do futuro e do passado, porque o mundo gravitacional tem um tempo reversível. A termodinâmica ― um exemplo da termodinâmica são as locomotivas – é o surgimento do tempo irreversível.

― O que quer dizer tempo irreversível? Quer dizer que o mundo se encaminha para a morte térmica. O que quer dizer “morte térmica”, neste caso? Na natureza conhecida vai começar a haver um processo de desdiferenciação e as coisas vão se tornando idênticas, até que tudo se torne absolutamente idêntico ― e nada mais ocorre. Essa é a ideia de tempo termodinâmico ― e essa é a noção de entropia.

A entropia é o tempo irreversível; mas um pensador do tempo irreversível é diferente do pensador da dinâmica, porque o pensador da dinâmica está pensando o tempo segundo o movimento; ele está pensando o tempo pelo movimento: são as regras do movimento que dão a ele a noção de tempo. Enquanto que o pensador da termodinâmica está indo diretamente para o tempo e dizendo que o tempo é irreversível. E esse tempo irreversível é o tempo da morte, é o tempo da destruição. É esse o primeiro modelo de tempo negativo. Ou seja, você liberta o tempo das forças do movimento, mas você apreende do tempo apenas aquilo que é negativo. Um dos grandes exemplos desse tempo é um cineasta chamado Erich Von Stroheim ― não sei se a maioria que está aqui o conhece… O filme dele ― que em português chama-se Ouro e Maldição ― é encontrável na locadora do Júlio, a Polytheama.

Ouro e Maldição é nitidamente o cinema naturalista, porque é um filme em que as personagens vão se encaminhando para a degradação máxima. Elas vão se degradando, vão entrando num processo de irreversibilidade, até que chegam à destruição total. Eu estou dando um exemplo, um primeiro exemplo, mais ou menos compreensível para a gente não sofrer muito com a questão… É que o que estou chamando de cinema naturalista é, em primeiro lugar, um cinema que trabalha com a irreversibilidade do tempo. O tempo irreversível. Esse tempo irreversível não depende do movimento: ele próprio é irreversível; é o próprio ser do tempo que é irreversível. Ele caminha para a morte térmica. Se vocês quiserem, existe um livro do Asimov, muito conhecido, chamado Escolha a Catástrofe. Aí vocês vão conhecer exatamente o que é esse tempo, esse tempo chamado tempo entrópico, tempo da degradação. Enquanto que, do outro lado, o Robbe-Grillet e o Orson Welles, que eu citei. (Podem ser outros…) A questão deles é a mesma. É a mesma. Mas eles querem libertar o tempo, não como um tempo que caminha para a degradação, mas como tempo criativo. É um tempo como criação.

Então, esses dois procedimentos são, talvez, dos acontecimentos mais sérios ocorridos no cinema ― que é quando duas escolas e duas tendências de pensamento libertam o tempo do movimento. Mas essa libertação do tempo com relação ao movimento vai-se encaminhar em duas direções: em primeiro lugar, o tempo se encaminha para o negativo, para a degradação, é o exemplo que estou dando; e, em segundo lugar, o tempo tomado como criação.

De alguma maneira, nós entramos no problema, no sentido de que você tem o tempo preso ao movimento. O exemplo de tempo preso ao movimento, que eu dei na aula inteira, foi o número numerado e o período no Aristóteles; mas essa questão também pode se aplicar à literatura realista e ao cinema realista. Ver um filme realista é o suficiente para vocês entenderem. Um filme do John Ford, um filme do Arthur Penn, ou mesmo esses autores atuais americanos, Lawrence Kasdan… O Spielberg, por exemplo, eu apontaria como um autor naturalista. Ele seria muito mais próximo de um naturalista do que propriamente de um realista. Quer dizer, a questão do Spielberg é libertar o tempo.

― O que é o tempo libertado? É o tempo independente do movimento. Então, como os nossos elementos são pequenos… Por que são pequenos? Porque a quantidade de exemplos que eu tenho é muito pouca. Eu não posso trabalhar no cinema, eu não posso dar determinados exemplos porque a maioria não conhece os filmes… E nós vamos fazer um voo cego. Nós vamos fazer um voo cego, utilizando o exemplo que eu dei do Stroheim. No sentido de que o filme do Stroheim só tem um objetivo: degradar! O objetivo dele é fazer um filme em que as personagens estão caminhando para a degradação máxima, para a máxima degradação!

Aluno: E O Criado, do Losey?

Claudio: Perfeitamente! É naturalista, mas o pessoal aqui não conhece, então, não posso citar o Losey.

Aluno: Casa de Bonecas – vai passar sábado.

Claudio: Vai passar onde? Casa de Bonecas é um filme que pode confundir com relação ao problema da degradação, porque não é propriamente degradação. A degradação no Losey, o negativo do Losey… É diferente, o caso do Fassbinder. O Fassbinder está mais ligado ao cinema… do tempo preso ao movimento. Já é diferente…

Nós vamos tentar fazer um esforço para apreender essas duas linhas do tempo. As duas linhas do tempo: o tempo pensado como negativo… Um exemplo do tempo negativo é a termodinâmica, porque a termodinâmica quando pensa o tempo identifica o tempo à entropia. O tempo é aquilo que é irreversível; que vai encaminhar-se para a morte e acabou. Então, a termodinâmica é pensadora do tempo ― do tempo chamado tempo irreversível.

Aluno: O Anjo Exterminador [trecho inaudível]

Claudio: Totalmente naturalista. (Quem viu o Anjo Exterminador?) O Anjo Exterminador é um exemplo excepcional para isso, excepcional, porque eles estão presos dentro daquela casa… E o que eles fazem? Eles destroem a casa inteira; destroem a casa inteira! Essa destruição é a maneira de libertar-se. Porque ela é a única maneira que o pensador naturalista encontra para se libertar do domínio do movimento ― é pela destruição. Por isso, o Buñuel, no Anjo Exterminador, destrói toda a sala daquele palácio. E eles conseguem se libertar ― porque eles saem da casa. Mas depois se prendem outra vez; se prendem outra vez na igreja. Mas todo o objetivo do Buñuel ― eu agora vou usar uma linguagem inteiramente cinematográfica ― é se libertar do cinema clássico de Hollywood. Aqueles gêneros clássicos: western, cinema psicossocial, cinema histórico… É desse tipo de cinema que ele visava a se libertar porque (por enquanto, vou usar dessa maneira) o gênero clássico do cinema estaria esgotado. Teria caído num esgotamento total, já não teria mais o que fazer ali dentro…

Surgem, então, esses autores naturalistas, querendo fazer um cinema onde o tempo não estaria preso ao movimento. E a primeira ideia que aparece é a ideia desse tempo como degradação, o tempo como entropia. O tempo como alguma coisa que é o mesmo que instinto de morte, que é a pulsão destruidora. Os personagens do cinema naturalista são pulsionais, têm ideias fixas, são predadores, são animais, querem destruir, querem romper, querem arrebentar. Com o quê? Com as amarras que o tempo tem com o movimento. E a única maneira que eles conseguem fazer esse rompimento é através da destruição.

Então, nós vamos começar a fazer o trabalho, eu vou citar um autor, em primeiro lugar, o Stroheim. Quem conhece alguma coisa de cinema, por ter visto, é o que trabalha com a Gloria Swanson em Sunset Boulevard. William Holden, Gloria Swanson… Estão lembrados? Billy Wilder. Stroheim é um diretor excepcional, um dos alemães que foram para os Estados Unidos.

Eu vou usar três autores no cinema naturalista. Eu vou usar o Stroheim e vou chamar o cinema dele de tempo negativo por degradação ou entropia. É o mecanismo dele: degradação ou entropia. Eu vou usar o Joseph Losey ― vai passar um filme do Losey, Casa de Bonecas, no próximo sábado. O Losey traz uma figura de tempo negativo extraordinária, que se chama violência contida.

(Eu vou explicar para vocês o que é a violência contida).

A personagem realista… o que marca a personagem realista é a violência explosiva. Exemplo, Marlon Brando em Um Bonde Chamado Desejo. (Lembram-se desse filme? Vocês viram esse filme?) Esse é um clássico como sendo a violência explosiva. John Wayne, Gregory Peck, todos eles do cinema realista têm uma capacidade de explodir com a violência que eles têm. A personagem do filme do Losey tem a violência contida. E aí é que aparece a primeira grande questão. Como o cinema do Losey implica em que a violência não se expanda, não apareça em explosão, que a violência seja contida, o ator do Losey abandona o modelo do Actors Studio.

(Vocês estão com dificuldade aqui? Isso que eu falei agora?… Está com dificuldade? Vocês têm que me indicar a dificuldade. A minha questão, alguns eu sei que entendem, os que não entendem me perguntem, porque eu saio por outra trilha).

Aluno: Se eu posso falar Losey, eu também posso falar Peckinpah?

Claudio: Não. Porque o Peckinpah não é a mesma coisa que o Losey, sobretudo porque nele não há essa violência contida. Pelo contrário, é uma violência explícita no que recebe o tiro. Ele criou aquilo do tiro explodindo (não é?). Não é isso; o que marca a violência contida é a personagem. E aqui tem grandes atores ― Stanley Baker, não sei se vocês conhecem, é um ator clássico dos filmes do Losey, como também o Edward Fox e o Alain Delon. Três grandes atores do cinema do Losey. E esses atores trazem no rosto a violência contida. Eu vou indicar para vocês verem essa questão no filme Casa de Bonecas. (Quando vai passar? Amanhã, às 22h.) Eu peço, por favor, que vocês vejam Casa de Bonecas. É com a Jane Fonda, e com a Delphine Seyrig, que fez O Ano Passado em Marienbad. É um filme belíssimo, belíssimo, onde vão aparecer as duas questões do Losey, as duas questões do naturalismo, que são: a mulher liberada e muito na frente do homem ― a mulher pra ele era sempre uma pessoa fortíssima e liberada, uma mulher altamente moderna; e a violência contida.

Nesse filme há uma personagem, interpretada pelo Edward Fox, eu me esqueci como é o nome desse personagem. Alguém se lembra do nome da personagem? O Edward Fox faz o papel do namorado da Delphine Seyrig, um bancário que fez um desfalque. Aí vocês vão olhar o rosto dele, que vocês vão entender o que é violência contida.

Edward Fox (1937 – )

Então, Stroheim ― o naturalismo pela entropia e pela degradação. O Losey ― pela violência contida. E o Buñuel eu vou colocar com dois modelos: eterno retorno e repetição.

(Está todo mundo bem na aula? Tudo bem, não é?).

Então, aqui, eu falo eterno retorno e repetição no Buñuel ― da mesma forma que eu coloquei entropia no Stroheim, violência contida no Losey. Eu vou chamar esse eterno retorno do Buñuel de eterno retorno antigo, eterno retorno dos pré-socráticos ― que é diferente do eterno retorno do Nietzsche. Uma coisa que as pessoas não sabem, confundem muito, é essa noção de eterno retorno… Que o Nietzsche cria uma noção de eterno retorno completamente diferente da ideia de eterno retorno clássico. Eu sei que a maioria aqui não sabe o que é o eterno retorno clássico. Eu vou explicar. Então, de um lado, o naturalista, com a libertação do tempo, tira o tempo da postura de período: o tempo vai deixar de ser período, vai deixar de ser número numerado, se libertar do movimento ― aí aparecem os grandes autores do cinema naturalista. Do cinema naturalista ou da literatura naturalista.

Aluno: [trecho inaudível] o Prigogine fala na flecha do tempo

Claudio: Não é o Prigogine quem fala na flecha do tempo. Quem fala na flecha de tempo são os pensadores da termodinâmica. A noção de flecha do tempo é exatamente a noção de entropia. O tempo, pensado por eles, é como uma flecha. Essa flecha vai do presente para o futuro. É isso a flecha do tempo. Ela vai do presente para o futuro; e nesse caminho do presente para o futuro a flecha vai perdendo diferencial e vai ganhando igualdade, até que ela se torna inteiramente igual e não acontece mais nada. Então, flecha do tempo não é um conceito de Prigogine, é um conceito da termodinâmica, mas qualquer pensador da termodinâmica ― Prigogine é um pensador da termodinâmica ― pensa a flecha do tempo. Só que o Prigogine vai introduzir diferenças aí dentro.

Aluno: E ele não está falando do tempo [trecho inaudível]

Claudio: Não. Ele vai falar de bifurcação. Não adianta nós pensarmos Prigogine agora. É melhor pensar a termodinâmica, com a flecha do tempo.

(Certo?)

Então, ficaram três autores aqui. E esses três autores seriam os pensadores do tempo; mas o tempo enquanto tempo negativo. E para o tempo enquanto positivo, eu vou utilizar o filme (e acredito que eu vou dar um lance relativamente vencedor) O Ano Passado em Marienbad.

(Será que esse lance teve vitória? Mais ou menos, mais ou menos.)

(Muita gente aqui não viu O Ano Passado em Marienbad… Eu não tenho como… O que eu faço? Quem não viu? Levanta a mão quem não viu, só para eu ter uma noção. Gabriel viu? Só quem não viu. Vocês viram?)

Eu vou contar uma história para vocês. Quem viu o filme, permita-me que eu conte essa história. Eu vou contar uma falsa história do filme. Eu vou contar uma história falsa; e através dessa história falsa aqueles que não viram o filme vão saber o que ele é. Aí eu destruo a história falsa e nós entramos no tema.

Existe um escritor argentino que foi, e é, ainda que o outro esteja morto, muito amigo do Jorge Luis Borges. Ele se chama Bioy Casares. (Aliás, Bioy Casares foi aquele para quem o Borges telefonou, na véspera de morrer, e disse: “Bioy, amanhã eu entro na eternidade”. Lindo, não? E morreu…) Bioy Casares escreveu um livro chamado A Máquina Fantástica. Esse livro tem outro nome, qual é mesmo?

Aluno: A invenção de Morel

Claudio: A invenção de Morel.

Nesse livro, Bioy Casares conta a história de alguma coisa como o cientista louco. E esse cientista louco teria inventado uma máquina que, ao filmar, as imagens daqueles que eram filmados, ao serem projetadas, ganhavam terceira dimensão. Quer dizer, filmaria vocês aqui, colocaria o filme numa máquina de projeção e na hora que esse filme fosse projetado vocês apareceriam em terceira dimensão, apareceriam assim como estão aqui.

Então, o cientista louco filmou um dia inteiro, 24 horas num hotel luxuoso, ele fez esse filme num hotel luxuoso. E o cientista louco filmou e depois levou a máquina de projetar para uma ilha deserta. E lá, na ilha deserta, ele ligou a máquina. Então, na hora em que ele ligou a máquina, começou a projeção do filme. O filme é projetado de meia noite a meia noite. Aí de meia noite a meia noite acontece alguma coisa. Aí quando chega meia noite, pá! Aí, de meia noite a meia noite acontece outra coisa ― a mesma coisa. Aquilo vai se repetindo sempre, sempre a mesma coisa. E as personagens são como que de carne e osso, que é o poder da máquina de filmar e projetar como se as personagens fossem de carne e de osso.

Um dia um homem foge da prisão, de uma prisão qualquer, e de barco ou a nado, não sei o que, ele chega nessa ilha. Ele sobe na ilha, e ele se depara… Com que ele se depara? Com o castelo da máquina de Morel. O castelo está lá, as pessoas estão lá. Então, por exemplo, tem uma personagem que às cinco horas da tarde, evidentemente todos os dias pela eternidade afora, essa personagem, que é uma moça, sai vestida com uma roupa de tenista, senta na grama e vai ler um livro. E ele fica ali, em termos de delírio completo ― ele está meio delirante, porque ele fugiu da prisão, está meio enlouquecido ― ele olha para aqueles acontecimentos e não decodifica que aquilo está sempre se repetindo; e ele se apaixona pela tenista. Ele se apaixona pela tenista e chega perto dela e diz: “meu amor, eu vou te confessar, eu estou tão apaixonado por você, você é toda a minha vida, eu quero você para mim”. Mas ela não vê, ela não vê, porque ela é um filme, ela não vê. Então, todo dia ele faz esse processo, a mesma coisa. Sempre a mesma coisa.

Agora eu vou acrescentar:

Vamos dizer que esse cara fuja dessa ilha e vá exatamente para a cidade onde tem o hotel. E vai para a cidade onde tem o hotel no ano seguinte. E no ano seguinte ele encontra essa moça e diz para ela: “Meu amor, você se lembra, no ano passado?” Ela diz: “Não, não me lembro”. E ela realmente não se lembra. Então, nasce o filme O Ano Passado em Marienbad sob essa suposição de que um cientista louco filmou um dia inteiro num hotel, projetou o filme, um fugitivo da prisão viu aquilo, se apaixonou por uma moça, fugiu da ilha, foi para a cidade onde tinha um hotel ― Baden-Baden ― e nesse hotel, por coincidência, a moça e os personagens que tinham estado lá no ano passado estão lá outra vez. Então, ele vê tudo de novo. Na primeira vez, em delírio, em alucinação. Na segunda, é real. E daí, ele e a moça não conseguem se entender. Porque ele chega para a moça e diz: “você se lembra no ano passado?”. Ela diz “Não”.

Ela é a atriz Delphine Seyrig. E o processo do filme é todo esse: ele dizendo que a conheceu no ano passado e ela dizendo: “Mas eu não me lembro”. Agora, pelo que eu contei, ela não poderia se lembrar. Mas a narrativa que eu fiz é falsa. Essa narrativa é falsa.

Na verdade, O Ano Passado em Marienbad nada tem a ver com a história do Bioy Casares, mas o filme é um homem repetindo um enunciando o tempo todo para uma mulher: “você não se lembra, no ano passado em Marienbad, não se lembra o que nós fazíamos, o que eu te dizia?” O filme é todo esse. E é um filme da conquista do tempo, feito por dois autores: Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet. Eles fizeram o filme juntos. E esses dois autores ― da mesma maneira que no tempo negativo Buñuel trabalha com o eterno retorno e a repetição; o Losey trabalha com a violência contida; o Stroheim trabalha com entropia e degradação ― Robbe-Grillet e Alain Resnais vão trabalhar com as noções de pontas do presente e lençóis do passado.

Então, nós vamos entrar, vamos mergulhar no tempo de dois modos: vamos mergulhar nos lençóis do tempo e nas pontas do presente com Robbe-Grillet e com Resnais; e vamos mergulhar na entropia e no eterno retorno, no outro tipo de tempo (Certo?).

Então, esses pensadores seriam aqueles que libertaram o tempo no cinema. Aí vocês perguntam: “qual a importância que tem libertar o tempo no cinema?” Vocês vão ver que tem muita importância. Tem muita importância, não só para a história da nossa vida, como para a história das artes.

Então, acho que cheguei a um ponto final, porque eu já não aguento mais. Agora eu vou fazer um pequeno resumo para vocês… e um resumo meu é… velocidade absoluta. Nós vamos mergulhar na velocidade. Vou fazer um resumo, os gravadores estão aí… E, a partir da próxima aula, nós vamos fazer a entrada nessas duas linhas do tempo.

― Qual é o resumo?

O movimento para Aristóteles é considerado como sendo o movimento uniforme e perfeito no mundo supralunar. O exemplo são as estrelas fixas com rotação sobre si próprias. E, em seguida, o Aristóteles fala no movimento sublunar. Para o Aristóteles o tempo é o número do movimento, o número numerado. Número numerado quer dizer número inteiro mais um período. Período pode ser o que vocês quiserem (Certo?). Por exemplo, período em que esses óculos caíram. Período é qualquer um, mais o número inteiro ― isso é o número numerado. Então, para Aristóteles o tempo é submisso ao movimento, está prisioneiro do movimento. E a filosofia e arte só têm uma questão. É essa a grande questão da filosofia e da arte. Ou melhor, é essa a grande questão da vida – libertar o tempo do movimento. Então, é essa libertação do tempo do movimento que vai passar a ser já, flagrantemente, a nossa aula. Nós temos aqui já dois mecanismos que nós vamos penetrar que são as tentativas desses três filmes naturalistas. Já na próxima aula vocês vão ver A Casa de Boneca, já estão mais fortalecidos… De um lado eles dois, esses naturalistas e de outro lado as pontas e os lençóis do tempo. As pontas do presente e os lençóis do passado. O que vai acontecer aqui? O que vai acontecer, nitidamente, é que a arte e a filosofia libertam o tempo. E libertar o tempo é vencer a morte.

(Ponto final. Se vocês quiserem fazer alguma pergunta, eu estou pronto pra receber).

Aluno: Pontas do presente e lençóis do passado não têm nada a ver com a flecha do tempo?

Claudio: Nada, nada a ver. Excelente a pergunta! Excelente! A flecha do tempo está relacionada com o naturalismo, lá do lado do tempo negativo. As pontas e os lençóis nada têm a ver com isso porque, inclusive, quando nós nos depararmos com as pontas e os lençóis, o irreversível vai desaparecer. Não tem nada a ver, nada a ver. Exatamente, outro mundo. Ou melhor, ambos estão fora do mundo orgânico. (Olha o começo da aula). Ambos estão fora do mundo orgânico. Tanto o tempo negativo, quanto o tempo positivo. Tanto as pontas e os lençóis como a flecha. Estão fora do orgânico, são cristalinos. Mas um desses é negativo. É negativo. É o tempo da morte. É o tempo do instinto de morte.

(Já respondi à tua pergunta. Vamos ver se alguém tem mais alguma pergunta para fazer. Mesmo que não seja grande coisa. As perguntas servem.)

Aluno: O Spielberg [trecho inaudível]

Claudio: Eu citei o Spielberg, o Jurassic Park. Por que eu citei o Jurassic Park? Porque no Jurassic Park o que o Spielberg faz está presente na obra dele. O Spielberg costuma colocar dentro de um meio histórico ― que pode ser uma cidade americana, pode ser uma ilha americana [risos] ― alguma coisa absolutamente enlouquecida. Dinossauros pré-históricos dentro de uma ilha. E ele leva os netos lá para visitarem a personagem. Então, o que eu estou marcando com o Spielberg como naturalista é porque ele não reproduz os filmes clássicos dos realistas ― que é perseguição de automóvel, tiroteio… ele não faz isso. ET, volta ao tempo original… Exatamente… Vocês podem ver ET, Jurassic Park, (O que mais?). Tubarão. Nitidamente o Spielberg não reproduz o realismo americano.

(Embaixador, o senhor está conseguindo avançar nessa trilha?)

Aluno: Claro, com encanto!

Aluno²: O eterno retorno do Nietzsche e os pré-socráticos?

Claudio: O eterno retorno do Nietzsche e os pré-socráticos será uma aula especial, porque eu não falo isso em menos de 3 horas. Sobretudo porque vocês vão ficar de tal maneira apaixonados pelo tempo negativo que vocês vão dizer: “mas que coisa encantadora!…”

Mas chega um momento da obra do Buñuel… aí aparece uma frase do Robbe-Grillet: “porque se encontrou comigo”. E é verdade isso: o Buñuel se libera do tempo negativo e conquista o tempo positivo. É no Belle de Jour e no próprio Discreto Charme da Burguesia, ele vai conseguir isso.

Aluna: Cláudio, quando você usa o “tempo negativo” [trecho inaudível] foi um grande crescimento [trecho inaudível] da arte?

Claudio: Eu acredito que sim, eu acredito que sim, acredito que foi um momento muito bonito para a arte. Agora, esse movimento não consegue alcançar alguma coisa mais poderosa ― porque o tempo é negativo. Mas foi um movimento muito bonito, por exemplo, o Émile Zola, no naturalismo, que quebra o domínio absoluto do realismo. O Zola é uma espécie de bomba atômica no realismo. Sim, eu acredito que sem duvida nenhuma… Mas nós precisamos marcar essa distinção de tempo negativo e… eu vou usar uma linguagem do Nietzsche (ouviu?)… negativo e afirmativo. Vou usar essa linguagem. E é a linguagem justa.

Aluna: Positivo?

Claudio: Não, usem afirmativo. A linguagem nietzscheana é a linguagem justa. Usem afirmativo e negativo.

Aluna: Quando você usa o negativo, é no sentido…

Claudio: Moral. Eu fiz questão de fixar isso, na pergunta dela eu fixei isso. Eu estou usando no sentido moral, porque inclusive, quando nós passamos para o mundo cristalino, no mundo cristalino não existe moral. Não há moral! Prestem atenção! A moral pertence ao mundo orgânico ― no cristalino não tem moral…

Aluna: O Louis Malle não entra nessa classificação, [trecho inaudível] a coisa da repetição…

Claudio: Tem alguma coisa… O Malle entra, ele entra no tempo afirmativo, ele entra no tempo afirmativo. Aquele filme do Malle, aquele com o Burt Lancaster… em que ele é um gangster velho..

Atlantic City (1980)Aluno: Atlantic City.

Claudio: Atlantic City. Uma beleza de filme! (Vocês não viram? Vejam esse filme!). É uma verdadeira obra prima. E esse filme do Malle é uma nítida investida no cinema-tempo.

(Vamos mais…)

Aluno: O Zola [trecho inaudível]; e o realismo está com o Balzac e o Kazin?

Claudio: Eu usei os dois, eu poderia fazer uma…

Aluno: E o Orson Welles [trecho inaudível]

Olha, na nomenclatura do Robbe-Grillet, essa nomenclatura que você está buscando, é… Nouveau Roman, que ele chama. O Deleuze chama de cristal do tempo (certo?). Eles não são nem realistas nem naturalistas. Eles são… eu acho melhor dizer exatamente o que eu estou dizendo: eles são cristalinos. São cristalinos. São góticos, são neo-barrocos.

Aluno: E esse filme Short-Cuts, do Altman.

Claudio: Do Altman? Qual é esse?

Aluna: [trecho inaudível] tem uma prostituta que atende por telefone…

Claudio: Já peguei. É o irmão do marido da [trecho inaudível]

O Altman ainda trabalha com cinema-movimento. Ele só trabalha com cinema-movimento. Mas ele já está nos limites do rompimento. Uma das grandes marcas do Altman é a oscilação do primário e secundário. Você tem um grupo de personagens que num momento é secundário, e, no momento seguinte, essas personagens são primárias ― são as principais. Então, ele também vai alterando a estrutura realista. Porque no cinema realista as personagens são sempre as mesmas: onde já se viu o John Wayne começar mocinho e acabar bandido? Isso é impossível! Ou então ele começar como principal e acabar como secundário? Já no Altman, não; no Altman, você vê que o Altman… aquele filme famoso dele… o Nashville

Nashville (1975)Nashville é uma obra prima de passagem de primário para secundário. Uma obra prima! Aquele filme, aliás, é uma obra prima. É um filme maravilhoso! Ele ainda não está no cinema-tempo; mas já faz um despedaçamento no cinema realista. Então o Altman é realmente um dos diretores de cinema que refletem a crise do que se chama cinema-ação: o cinema-ação de Hollywood. Ele reflete essa crise no cinema dele.

(Está bom? Vamos mais?)

Aluna: E o Brecht, onde estaria?

Claudio: Brecht. O Brecht eu citei ontem… eu citei ontem a grande figura do Brecht, não citei, na quarta-feira? Gestus… Eu citei en passant, é verdade. Gestus… Eu até aconselhei para vocês lerem o Roland Barthes, um texto que o Roland Barthes tem sobre o Gestus… O gestus é um dos momentos mais brilhantes do tempo afirmativo.

Aluna: Do tempo afirmativo?

Claudio: Afirmativo! Brecht como tempo afirmativo.

Aluna: O Artaud seria tempo negativo…

Claudio: Artaud?! Altamente positivo! Chega a engasgar, de tanta positividade, de tanta afirmação! Artaud é um pensador da afirmação, Artaud é um pensador da vida. Mas não do orgânico – do cristalino!

Aluno: Mas e a degradação?…

Claudio: Quem leva o Artaud à degradação são as forças reativas. Não ele. As forças reativas que o levam à degradação. Ele não. Artaud é o mais belo dos gritos pela liberdade. É o Artaud. É um grito assim… incandescente, pela liberdade!

Aluno: Acho que ele é só um grito mesmo, não é?

Claudio: Olha, grito não. Os textos do Artaud são maravilhosos!… A questão do Artaud no cinema… Ele fez um texto para cinema, ele fez um roteiro e esse roteiro foi entregue a uma menina da década do cinema mudo, chamada Germaine Dulac. Ela fez o filme… eu me esqueci o nome… La coquille et le clergyman.

O Artaud ficou indignado! Ele disse que ela perverteu o roteiro dele. E o Artaud… a presença do Artaud no cinema está aí. Ele diz que ela perverteu o filme dele porque cinema para ele é um processo vibratório. Artaud é um pensador do sistema nervoso. Não há pensadores da alma liberada do corpo, Kardec? Não há os pensadores de todos os tipos? Artaud é um pensador do sistema nervoso. É isso que ele quer saber. Então, ele se preocupa com tudo aquilo que produz vibrações e atinge o sistema nervoso. Porque, para ele, quando as vibrações atingem o sistema nervoso, o espírito se libera. Então, ele vai dizer que o cinema são as vibrações… que quem recebe essas vibrações…, atinge-se o sistema nervoso de quem recebe essas vibrações, aquele que as recebe, é forçado a pensar. E quando você pensa, você cria a liberdade. Então, Artaud, eu reputo como um dos grandes pensadores do século… da nossa história. Se há um mártir do pensamento, Artaud é um. Artaud é um homem excepcional! Ele é um homem que luta no mais alto nível contra… Por exemplo, vocês conhecem a luta do Artaud com o surrealismo? Vocês sabiam que o surrealismo sai do dadaísmo? O surrealismo nasce… ele sai do dadaísmo, se engaja com o marxismo… Artaud que era surrealista… mas o que é isso? Isso é arte ou política? Aí ele abandona. Ele abandona. Ele começa a fazer uma frente terrível contra o surrealismo!

Alunos: [trecho inaudível] psiquiatria?

Claudio: É… a luta dele contra a psiquiatria é nas cartas. Alguns levam o Artaud como exemplo de antipsiquiatria, mas eu pediria, por favor, para vocês não fazerem isso. Não tem nada a ver. A grandeza do Artaud é altamente afirmativa. É o fato de que o Artaud é o pensador do pensamento. A questão dele é o pensamento. Então, quando o pensador do pensamento se encontra com o que ele chama de vibrações que atingem o sistema nervoso, atingem o cérebro, e, por isso, aqueles que têm seu cérebro atingido começam a pensar, é a grande questão do Artaud. Ele fez um roteiro, quando a Germaine Dulac, segundo ele, alterou o roteiro dele, quando inclusive foi feita a avant-première do filme dela, ele entrou com alguns amigos e esculhambou com aquilo lá, acabou com aquilo lá. [trecho inaudível]… Artaud. Mas a Germaine Dulac não é exatamente como Artaud dizia, ela tem suas qualidades como cineasta. Então, aí estaria… (não sei quem me perguntou sobre o Artaud, foi quem? Foi você?). Então aí estaria Artaud, Artaud não é de modo nenhum um pensador negativo, pelo contrário. Artaud, de modo nenhum é o Erich Von Stroheim. Artaud de modo nenhum é o Losey. Artaud é o Nietzsche francês, é o Nietzsche francês. É justo que a França produzisse um Nietzsche. A França tão sofrida com as invasões alemãs…

(Tudo bem, então? Deus nos abençoe.)

Aluno: Um Deus Estético, não é?

Claudio: Claro, um Deus Estético.

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Aula de 28/04/1994 – O orgânico e o cristalino ou as faculdades em seu uso comum e em seu uso transcendente

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 4 (Diferença, Alteridade, Mutiplicidade); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 8 (As Singularidades Nômades); 9 (A Imagem Moral e a Liberdade); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche); 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos); 16 (Leibniz I); 17 (Aion); 18 (Proust, o Ponto de Vista ou a Essência); 19 (Leibniz II) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

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Parte I

Na aula passada, eu falei sobre as pontas do presente. Hoje eu vou começar um pouquinho diferente. Aí, no meio da aula, eu vou ver se eu faço uma associação com a aula anterior, (certo?). Então, eu retomo a aula passada, repondo de uma forma nova, para não fatigar os que ouviram, e permitir com os que estão chegando possam ter um acompanhamento perfeito do que estou fazendo. Ninguém se assuste com os nomes que eu disser, porque às vezes eu cito determinados autores… só por rigor ― um rigor interior que eu tenho. Às vezes eu digo: Oh! Isso aconteceu, foi tal pensador que fez isso; mas não tem a menor importância, porque não tem valor para o entendimento.

Então, eu vou começar a falar para vocês sobre um tema chamado teoria das faculdades ― são as faculdades subjetivas do homem. O homem ― à diferença da pedra, por exemplo ― é dotado de imaginação, de percepção, dotado de memória, dotado de inteligência… Essas figuras que eu levantei ― inteligência, memória, etc., são chamadas em filosofia de faculdades. Então, os homens possuem uma série de faculdades. E aí vocês vão poder compreender uma definição bastante clássica ― que quando nós perguntamos o que é o homem, a tradição filosófica define o homem como sendo animal racional. Animal racional quer dizer: um ser dotado de uma faculdade chamada razão. (Entenderam?).

Isso daqui se estende muito, eu não posso me estender mais… Mas essa definição clássica grega… “O que é o homem? O homem é um animal racional” ― O que é racional? É uma faculdade chamada razão. E essa faculdade chamada razão é mais ou menos identificada como sendo o loquendus – a linguagem. O homem é um ser dotado de linguagem. E aqui a gente abre com a maior facilidade: o homem tem uma linguagem oral e uma linguagem escrita. Eu não vou usar a palavra linguagem, eu vou usar a palavra semiótica. O homem é dotado de uma semiótica oral e de uma semiótica escrita. Semiótica se origina da palavra semeion, que quer dizer signo. Então, se vocês perguntarem o que é o homem? Classicamente a resposta está dada: um animal dotado da semiótica oral e da semiótica escrita. Partindo-se do pressuposto que todo animal dotado dessas duas semióticas é, necessariamente, dotado da faculdade da razão.  Ou seja, para ter-se a expressão das duas semióticas tem-se que ter… a faculdade da razão. (Entenderam?)

Aluna: Essa afirmativa que vocês fez agora, “o homem é dotado de uma semiótica oral e escrita” realmente equivale a “o homem é um animal racional”? Mas e aí o que você faz com os homens que não são dotados de escrita?

Claudio: Têm oral, têm a semiótica oral. Mas o que você falou, quando você afirma, reproduzindo toda a tradição antropológica que começa no século XIX, que afirma que a semiótica escrita origina-se a partir do nascimento do Estado ― que é uma resposta muito coerente, mas muito curta, muito apertada… Afirma-se que o homem adquire a linguagem a partir do nascimento do Estado ― eu vou romper com isso! Eu vou dizer que mesmo os povos primitivos já possuiriam uma semiótica escrita. Isso é assustador porque em qualquer texto que se vai ler, que se lê: o povo primitivo é ágrafo.  A quer dizer negação, grafo quer dizer escrita. Ágrafo quer dizer, não tem escrita. (Você está acompanhando Cacau? Está bem, Márcia?)

Aluno: Cláudio, você se refere então, por exemplo, às gravuras ― ou não?

Claudio: Às gravuras, como escrita? Não. Ricardo, eu prefiro me referir a todas aquelas figuras, linhas e cores que os primitivos fazem em seu próprio corpo. Ou seja, os primitivos criaram a escrita no seu próprio corpo. O que o Estado faz é deslocar a escrita do corpo para o papiro. Foi isso que ele fez, nada mais do que isso. Mas a escrita já está gravada no corpo do primitivo. (Vocês entenderam, vocês duas aí? A escrita já estava… no corpo do primitivo.)

Aluna: Agora, existem estados organizados que não possuem realmente uma grafia no sentido que…

Claudio: Isso não importa. Que é isso, menina!

Aluno: Mas — os aztecas…

Claudio: Possuem sim, senhora! Sim, senhora! Sim senhora! Os aztecas… (Nós não vamos poder discutir mais isso, tá? Eu só vou falar isso…) Os aztecas fazem parte do que se chama modo de produção asiática ou modo de produção tributária, que é um conceito marxista. Quando você encontrar o modo de produção tributária, nele está inscrita necessariamente – a ata escrita. Porque ela faz parte dos grandes trabalhos. (Eu volto no final para isso, tá?). (Então, vamos embora! Eu estou um pouco sem ar…). Então, vamos lá voltar à faculdade, (tá?).

As faculdades no sujeito humano são nítidas ― nós todos possuímos. Se alguém quiser utilizar a sua faculdade chamada memória, por exemplo, o que terá que fazer? Para que serve a memória, ela serve para recuperar o quê? Cacau?

Aluna: Os antigos… presentes.

Então, a nossa memória tem uma função fácil de compreender, porque sempre que nós queremos recuperar os antigos presentes, quem é que nós chamamos?

Alunos: A memória.

E ela vai e faz o quê?

Alunos: Recupera os antigos presentes.

Agora, a imaginação só trabalha com imagens livres. A memória e a imaginação têm uma proximidade e uma diferença. Porque a memória é um recobrimento de um antigo real. E a imaginação é solta, é livre, você pode imaginar o que quiser, mas não pode memorizar o que quiser… (Entenderam?). A memória está sempre recuperando um antigo presente, enquanto a imaginação, não: a imaginação é inteiramente livre.

E o intelecto tem a função de fazer cálculos. Então, vamos ver: intelecto, memória, imaginação. E buscar os limites de cada faculdade. Há uma faculdade cujos limites são facílimos de entender. Quais são os limites da memória? Até onde uma memória pode ir, a memória humana? Ela só pode ir até o antigo presente. Chegando ao antigo presente, ela não o ultrapassa…

Aluno: E assim mesmo ainda falha, (não é?) nesse sentido…

Claudio: Falha quando não se toma aqueles “memoriois”, senão não falha, não.

Aluno: Falha por pouco fósforo, não?

Claudio: Por pouco fósforo. Exatamente, falha por pouco fósforo. O fósforo faz parte da memória.

Aluna: A memória também se confunde com a imaginação.

Claudio: Confunde-se: foi o que eu falei. Foi o que eu falei, Cacau. Falei que a diferença da memória para a imaginação… (pode-se até fazer essa experiência…) é que a memória é forte e a imaginação é fraca ― no sentido de que quando nós imaginamos, aquilo que nós imaginamos não se refere a nenhuma realidade e a memória é sempre referente a alguma coisa real.

Por exemplo, eu me lembro de ter visto ali uma fotografia da Cacau com o Alexandre. Isso é memória. Agora, eu posso imaginar um dragão comendo uma cenoura. Posso imaginar… mas isso é imaginação. A memória se refere ao real, que é o antigo presente. E o antigo presente, quando era um presente jovem, por quem era apreendido? Pela percepção. Então, a memória é uma percepção antiga. (Entenderam?)

E eu posso perguntar a vocês: quais são os limites da memória? É fácil responder: o antigo presente. A memória ultrapassa o antigo presente? Não, ela não ultrapassa. Então, aqui…

Aluna: A percepção apreende o quê?…

Claudio: A percepção apreende o presente. Por exemplo: através de que faculdade eu apreendo tudo que está aqui? Da percepção: São os cinco sentidos que eu tenho para apreender o mundo e os sentidos ― chamados cinestésicos ― que apreendem aquilo que se passa em meu próprio corpo: gases, batidas de coração, um músculo, que de repente estira… Esse poder que eu tenho de apreender meu próprio corpo e o poder de apreender o que está fora de mim ― chama-se percepção. Então, a percepção se transforma em?

Alunos: memória.

(Tá?). Agora, segundo o que eu disse, quais são os limites da memória?

Alunos: Os antigos presentes.

Então, a memória não ultrapassa os antigos presentes.

Mas agora eu vou começar a falar para vocês de uma coisa originalíssima, que se chama ― uso transcendente das faculdades. A palavra transcendente, aqui, significa ultrapassar limites. Então, uso transcendente das faculdades. (Vamos ver isso!)

Um pensador, um filósofo, talvez o primeiro e único filósofo da história, chamado Platão, distinguia entre memória e reminiscência. A memória para ele era exatamente aquilo que eu descrevi ― a potência de apreender os antigos presentes. E a reminiscência ― a potência de apreender o passado puro.

O que nós temos que entender agora é a distinção entre passado puro e antigo presente (certo?).

O passado puro é uma figura muito difícil de ser entendida, mas é através do entendimento do passado puro que nós vamos poder fazer a constituição de novas narrativas, de novas descrições, de novas dissertações, construir um novo mundo literário, um novo mundo poético, um novo mundo pictórico, etc.  Então, o que eu estou dizendo para vocês é da existência de um uso transcendente das faculdades que, no caso do Platão, seria  a reminiscência. Por quê? Porque a reminiscência, para o Platão, ultrapassa o antigo presente. (Vocês entenderam ou não?). O que a reminiscência faz? Ultrapassa os limites da memória ― porque memória apreende os antigos presentes; e a reminiscência vai apreender o passado puro. Isso é Platão ― e reminiscência em grego chama-se anamnese.

Então, aconteceu uma coisa incrível aqui. É que a memória chega ao limite, e não vai mais: ela não consegue ir mais.  O que está além da memória, significa o uso transcendente das faculdades. (Eu agora posso dar essa parte por encerrada, para poder aumentá-la? Com o exemplo que eu dei da memória, deu para vocês entenderam o que é o uso transcendente das faculdades?).

Então, o que eu fiz agora foi criar uma categoria chamada uso transcendente das faculdades. (Você entendeu, Ricardo?) O uso transcendente das faculdades… (Eu só quero que vocês entendam uma coisa, que é facílima: o uso transcendente das faculdades ultrapassa os limites do uso comum. Qual é o uso comum da memória?

Alunos: O antigo presente.

Claudio: O que faz o uso transcendente? Ultrapassa os limites.

Agora, vamos ver outra faculdade que se chama percepção. Percepção é sinônimo de sensibilidade ― e a sensibilidade apreende tudo aquilo que se chama sensível.

Qual é o objeto da sensibilidade? O sensível. O que é o sensível? O que é apreendido pelo ouvido, o que é apreendido pelos olhos, o que é apreendido pelo tato, pela temperatura, pelo olfato, pelo paladar. Isso é a faculdade chamada… sensível. Apreende a… sensibilidade. Então, os limites da faculdade do sensível são a… sensibilidade. Então, para você construir o uso transcendente da faculdade sensível, essa faculdade vai apreender o insensível. (Marquem) É chocante! É terrível!

Aluno: O que é?

Claudio: Vai apreender o insensível. (Veja bem, Cacau). A sensibilidade só apreende aquilo que os nossos cinco sentidos apreendem: ouvido, olhos, olfato, paladar, tato. Só apreende aquilo que é sensível. Agora, o uso transcendente da faculdade apreende o insensível. Não vou dizer ainda o que é. Daqui a pouco eu digo.

Aluno: Isso não é outra faculdade?

Claudio: Não. É a mesma, a mesma.

Aluno: A reminiscência não é uma outra faculdade?

Claudio: Também não é uma outra faculdade; é a mesma.

Aluno: É um desmembramento da memória?…

Claudio: É um desmembramento, é a mesma faculdade no seu uso transcendente. Nós temos aqui dois usos transcendentes: o uso transcendente da faculdade da memória ― que apreende o passado puro; e o uso transcendente da sensibilidade ― que apreende o insensível. Esse objeto da faculdade chamada memória, no seu uso transcendente, chama-se o imemorial. (Marquem! Tem que ser muito lento mesmo!)

Aluna: Agora, o mais remoto de todos seria justamente a percepção, porque para você ter uma memória você tem que apreender o objeto ou a situação. Você tem a sensibilidade, não é? Então, assim, eu não sei se estaria correto.  A percepção seria a primeira faculdade, a que viria antes, antes da memória

Claudio: Márcia, a percepção é antes da memória, mas a reminiscência não precisa da percepção. Não me pergunte ainda por que, que eu não posso responder…

Aluna 2: Ele está falando de faculdades diferentes, não é isso?

Claudio: Não, vamos usar assim: faculdades em seu uso comum. E faculdades nos seus usos… transcendentes.

Aluno: E você, no momento, está falando de três faculdades: memória, percepção…

Claudio: Falei em duas só. Percepção e sensibilidade eu identifiquei. Eu dei uma semelhança. Agora, sensibilidade ou percepção, no seu uso comum, apreende tudo o que é sensível; e a memória no seu uso comum apreende o antigo presente. Agora, a memória no seu uso transcendente chama-se reminiscência e apreende o imemorial. Olha só que coisa interessante! E a sensibilidade no seu uso transcendente apreende o insensível. Agora, o pensamento no seu uso comum apreende as estruturas lógicas. Um exemplo de estrutura lógica ― o silogismo: “Todo homem é mortal / Sócrates é homem / Logo, Sócrates é mortal”. Porque quando o intelecto diz: “Todo homem é mortal / Sócrates é homem / Logo, Sócrates é uma galinha verde” ― isso é ainda o uso comum da faculdade, mas ilógico. Ou seja, o intelecto [pensamento em seu uso comum] tem duas funções: lógicas e ilógicas. Agora, o uso transcendente do pensamento apreende o impensável. Olha que coisa linda!

Aluna: Qual é a diferença entre ilógico e impensável?

Claudio: Não pode já, não, calma! Calma!

Aluna: Você está aproximando intelecto e pensamento?

Claudio: Estou dando como sinônimos… mas vejam que o intelecto eu fiz questão de usar no uso comum ― você pode chamar de pensamento também. O uso comum do pensamento e o uso transcendente do pensamento. O uso transcendente do pensamento vai se ligar com o impensável. O uso comum do pensamento vai se ligar com o lógico ou o ilógico. Estruturas lógicas ou ilógicas. (Agora, prestem atenção! Vamos tentar aqui. Eu vou esperar a menina ausente, tá?).

O uso transcendente das faculdades. Notem que coisa interessante! No uso transcendente da memória… qual é o objeto do uso transcendente da memória, da reminiscência?

Aluna: O imemorial.

Claudio: Qual é o uso transcendente da sensibilidade?

Aluna: O insensível.

Claudio: Qual é o uso transcendente do pensamento?

Aluna: O impensável.

Apareceram partículas ou prefixos in que são prefixos negativos. Então, parece que o uso transcendente está apreendendo o negativo do pensável, o negativo do memoriável, o negativo do sensível… Mas não é isso! Esse prefixo in significa diferença. (Ficou muito difícil?). Então, o uso transcendente das faculdades vai entrar em contato com diferenças. Ou diferencial. (Atenção para o que eu vou dizer!).

Aqui é uma coisa definitiva para se aprender. Toda figura mesmo linguística que entra num esquema teórico, a figura linguística pertence a um campo qualquer. Por exemplo, se eu estiver falando para vocês de “causa e efeito” eu estou falando de física. Se eu estiver falando de “monadologia ou de mônadas”, eu estou falando de metafísica.  Se eu estiver falando de “almas que ressuscitam ou que não perdem a vida”, eu estou falando de Kardec, Allan Kardec. Se eu estiver falando, por acaso, de “diferencial” eu estou falando de matemática. Cada ser pertence a um determinado domínio. Então, quando eu falar “o diferencial das causas e efeitos” eu estou fazendo uma física-matemática. (Vocês entenderam?).

Então, na hora em que eu digo para vocês que o objeto do uso transcendente das faculdades é a diferença ― a “diferença” está se tornando uma unidade metafísica. (Vejam se entenderam).

― Por que a diferença é uma unidade metafísica? Porque o metafísico é aquilo que não pode ser apreendido pelo uso comum das faculdades. O metafísico ultrapassa o uso comum das faculdades. Então, as faculdades quando estão em contato direto com essas figuras que estou chamando de imemorial, impensável e insensível, elas estão em contato direto com o diferencial, com o diferente, que não pertence ao mundo nem da sensibilidade nem do intelecto nem da memória. Ponto. (Vamos ver os efeitos: foi bem? Menos os antigos, os mais novos ― se foi tudo bem…)

Eu vou forçar agora um pouco (tá?). Eu vou dizer o seguinte: os objetos que pertencem ao uso comum das faculdades ― como, por exemplo, o lógico e ilógico ― pertencem a quem?

Aluno: Ao uso comum das faculdades.

Claudio: O sensível?

Aluna: Ao uso comum da sensibilidade.

Claudio: Logo, ao uso comum das faculdades.

Àquilo que pertencer ao uso comum das faculdades, eu vou chamar de orgânico. Isso eu quero que vocês marquem! É praticamente o inicio da aula.

O que é o orgânico? Aquilo que é apreendido pelo uso comum das faculdades. E eu vou passar a chamar de cristalino tudo aquilo que for apreendido pelo uso transcendente das faculdades. Então nós passaríamos a ter… é como que se nós estivéssemos diante de dois mundos: o mundo orgânico e o mundo cristalino. (Foi muito bem aqui, ou mais ou menos?).

[É como se] Nós estivéssemos diante do mundo orgânico e do mundo cristalino.

Então, eu posso dizer (só para o Dudu) que o Visconti quando faz o cinema dele ele está diante de um objeto cristalino? Logo, ele está usando o pensamento? Porque está apreendendo o impensável? (Entendido?)

Então, uso o orgânico e o cristalino. O orgânico é aquilo especificamente humano. O orgânico é humano. Agora, vocês podem, por exemplo, buscar quais são os objetivos do homem, o que o homem vive em sua vida? Tudo isso, eu vou mostrar para vocês, eu vou classificar como orgânico ― originário do organismo ― literalmente isso!  E o uso transcendente das faculdades está diante do… cristalino, que é o ultrapassamento do orgânico e a entrada de uma categoria chamada Corpo-sem-Órgãos ― que pertence ao Artaud. Então, eu posso perfeitamente chamar o uso transcendente das faculdades de corpo sem órgãos, quando, então, haveria não mais o uso comum das faculdades, mas o uso transcendente das faculdades. (Como é que vocês estão na aula?)

Aluna: Você falou: o uso transcendente das faculdades ultrapassa o orgânico, mas eu tinha entendido que são coisas diferentes. Quer dizer, o uso do transcendente é uma coisa; o uso comum é outra. Agora você está dizendo que ultrapassa, como se… a ideia de ultrapassar para mim significa… engloba e passa adiante…

Claudio: Não, não engloba nada.

Aluna 2: É ir além.

Claudio: Vai além. É quebrar os limites. Vamos usar um conceito, vamos experimentar isso aqui:

― O que quer dizer audácia? “Eta cara audacioso!” O que nós estamos dizendo com a expressão “Eta cara audacioso!”? É um cara que foi além dos seus limites. Então, audácia ― o uso transcendente das faculdades é uma audácia da vida! E essa audácia é quando a vida entra em comunhão com aquilo que eu estou chamando de cristalino, à diferença do… orgânico. Esse cristalino é o tempo puro. (Acho que foi bem, não é?)

Então, o uso transcendente das faculdades é o agenciamento com o cristalino ― e esse cristalino chama-se tempo puro. Do tempo puro, nós já temos duas notícias, vindas da aula passada: que o tempo puro seria os lençóis do passado e as pontas do presente… e agora eu vou acrescentar uma terceira ― os devenires. Lençóis do passado, pontas do presente e devenires. E isso, só se vai encontrar com o uso transcendente das faculdades; senão, não vai encontrar.

A palavra devenir é uma palavra francesa que já tem tradução para o português: devir. Mas o Aurélio já dicionarizou o devenir, que afinal é muito mais bonito. Em vez de usar devires, que parece deveres, vamos usar devenires. É lindo, não é? Os meus devenires… Num outro dia eu vou pedir para vocês falarem um pouco de vocês, falarem um pouco de seus devenires.

Sempre que vocês quiserem fazer qualquer questão, podem fazer, (ouviu?) Que eu sei que a aula é muito difícil, mas eu acho que nós chegamos a um lugar e isso vai me forçar a uma coisa muito violenta agora, uma audácia, uma audácia!

Existe em filosofia uma palavra chamada extensão. Eu não vou definir extensão, daria muito trabalho e não traria nenhum lucro, como se diz no capitalismo.  A extensão ― eu vou dizer apenas que o intelecto, a memória no uso comum e a sensibilidade no uso comum pertencem à extensão. Os objetos da sensibilidade, os objetos da memória, os objetos do intelecto ― no uso comum ― são extensos; e todos os objetos do uso transcendente são intensos. A intensidade. Então, uso transcendente das faculdades, cristalino, tempo puro, intensidade (Certo?). Então, o conceito de intensidade passa a ser agora uma coisa incrível, incrível!

Nós agora vamos fazer uma pequena prática… e realmente quando terminar essa prática de pensamento que eu vou fazer, eu vou estacionar e fazer perguntas. Receber perguntas de vocês, para ver se vocês estão acompanhando.

Eu disse para vocês que o intelecto lida com o lógico, o intelecto no uso comum lida com o lógico? E quem é que lida com o ilógico?

Alunos: O intelecto.

Também o intelecto. O intelecto lida ainda com o verdadeiro e com o falso. Se eu digo que o intelecto lida com o verdadeiro e com o falso, lida com o lógico e com o ilógico, questão: o lógico e o ilógico, o verdadeiro e o falso são orgânicos?

Alunos: Sim, são.

Claudio: São orgânicos. Logo, no cristalino não existe nem lógico nem ilógico, nem verdadeiro e nem falso. (Ficou difícil! Eu paro e vamos ouvir as perguntas…)

Se vocês, por exemplo, forem ver um filme de Godard  ― o Godard é um bom exemplo! ― podem ser também os neorrealistas italianos… Pode acontecer, por exemplo, de um personagem levar um tiro e morrer: pá! E ele morre. Aí, na cena seguinte, o personagem está tomando café na esquina. Mas como é que pode?! É porque aquilo é cristalino ― está fora do verdadeiro do falso. (Risos…)

(Não sei se vocês entenderam… Ficou muito difícil?)

Agora que é a marca mais difícil do que eu vou falar. Tempo puro, sinônimo… cristalino? Precisa do uso transcendente das faculdades?

Alunos: Precisa!

E o tempo puro necessariamente é a mais alta potência do falso. O tempo puro é falso, é o lugar do falso, do falsário ―, mas quando o falso não se opõe ao… verdadeiro; porque o falso se opõe a verdadeiro no… orgânico. Então, nós vamos ter um falso totalmente original, totalmente diferente quando nós estamos no universo do cristalino. (Que aula linda!)

(Eu estou um pouco sem ar… Vou parar uns dois minutinhos.)

Eu queria que vocês agora vissem que o falso e verdadeiro, o lógico e o ilógico estão no orgânico. Agora é só para o esquema: O verdadeiro e o falso pertencem ao orgânico. No nosso mundo humano nós estamos sempre buscando o verdadeiro e afastando o falso. Já quando você penetra no mundo cristalino, o verdadeiro e o falso desaparecem.

Aluno: Então só fica o falso…

Claudio: Mas não é o mesmo falso do orgânico, porque o falso do orgânico se opõe ao verdadeiro. O falso do cristalino é inteiramente autônomo. É déspota no universo do tempo puro. Ou seja, no tempo puro não procurem verdades, porque não há.

Aluno: Mas você não vai poder também procurar falsidades… Quer dizer, falsidades no sentido do orgânico.

Claudio: Não há falsidade; não há orgânico; não há nada disso!

Aluno: Você vai ter que abstrair…

Claudio: Que abstrair os dois!

Olhem, eu queria dar exemplos. Vocês têm um bom exemplo nos filmes do Resnais, nos filmes do Godard ou num romance do Alain Robbe-Grillet ― chamado Djinn ― que vai ser o romance do nosso curso. Nele, nós vamos conhecer ― na prática literária ― o que é a mais alta potência do falso. O L. já leu o romance, então ele já sabe do que estou falando: que ele surpreende o tempo inteiro! E eu pretendo, vocês sabem disso, eu já falei, fazer um filme. Um filme de 10 a 15 minutos, com a Márcia, a Cacau e o Alexandre. […]

Aluno: Você pode ver o Godard agora no Museu da República.

[Diálogo inaudível]

Vocês viram um filme, o penúltimo filme dele, o  Nouvelle Vague? Esse filme tem em vídeo, vocês deveriam apanhar, porque com esse filme eu mostro uma porção de coisa para vocês. Eu mostro, por exemplo, um personagem que morre e na cena seguinte está vivo…

Aluna: Nesse filme de hoje o trem passa assim… voando e arranca o chapéu das pessoas. Logo depois, mostra as pessoas entrando no trem. (Risos…).

Claudio: É isso… (Agora… é quebrar… Posso fazer um ponto final aqui? Posso, não é? Ponto final, não. Ponto parágrafo, que vai ser recuperado muito na frente).

― Por que orgânico e cristalino? É a questão. Por que orgânico e cristalino? O que é exatamente isso?

(Agora, ninguém fica olhando para mim, vamos fazer um intervalo para o café, para eu entrar num novo regime de aula. Foi bem até aqui? Então, vamos tomar um café).


Parte II

[…] Mais filosófica… Por isso que eu estou dando aqui uma pausa… deixo aberto para vocês fazerem certas perguntas… porque agora eu vou começar a sustentar o cristalino, o uso transcendente das faculdades…  Como é que eu vou sustentar todos esses planos. (Entenderam?) Porque eu falei, foi uma beleza, foi magnífico, mas eu não fiz nada ainda, nada!

Aluna: Você deu os conceitos…

Claudio: De forma ainda muito fraca… foi brincadeira: eu não pude entrar em nada com violência… E o uso transcendente das faculdades é violência! Não confundam violência com o que vocês hoje veem no cinema. Aquilo é violência bastarda, aquilo é violência orgânica. “Violência” é violência do fotograma. Se vocês lerem o Tarkovski, naquele livro Esculpir o Tempo, ele explica isso com uma beleza incrível! O que é a violência? A violência não é um soco na cara, um tiro na cabeça… essa é uma violência orgânica, uma violência suja…  Eu estou falando da violência do fotograma ― é incrível, isso!

Aluno: Houve uma aula em que você falou sobre o cristalino na arquitetura, você falou do Worringer, não foi?

Claudio: Não posso colocar… O Worringer é um autor que trabalha em arte, já desde o princípio do século, fazendo a distinção entre cristalino e orgânico, ele chama a arte grega de orgânica e a arte gótica e barroca de cristalina. Mas nós vamos muito mais longe do que isso. Acho que, na aula passada, eu já coloquei a arte egípcia. A arte egípcia vai ser um chute assim em cima de vocês. Eu vou dar só um exemplo: todo mundo aqui, não sei, deve ter vivido com certa intensidade – intensidade no sentido orgânico, não no sentido cristalino – aquelas práticas de distinção entre figura e fundo da Gestalt. Vocês se lembram? Lembram-se daquelas coisinhas que a gente […]

[virada de fita]

[…] o que eu estou dizendo é desfazer o fundo. A noção de figura e fundo é muito encontrada na arte renascentista…

Aluno: Esse joguete, eu não…

Claudio: Desmanchar figura e fundo? Você pega um Francis Bacon, no século XX, você vê que nele não há fundo. É plano, aquilo ali é… [Claudio bate com as mãos espalmadas, uma sobre outra, para criar uma imagem de plano.]

Triptych August 1972 1972 Francis Bacon 1909-1992 Purchased 1980 http://www.tate.org.uk/art/work/T03073

Aluna: É coisa da perspectiva, não é? Ela desaparece?!

Claudio: Desaparece a perspectiva.

Aluna: Ele projeta, não é? A arte egípcia faz isso, ela projeta tudo em cima de um plano só, não é?

Claudio: Sim, de um plano só. E esse mecanismo da arte egípcia é retomado e renovado pelo Francis Bacon no século XX. E vocês vão verificar que isso vai entrar na questão da arte cristalina, porque ― isso é só um exemplo, eu não estou dando aula sobre isso: quando eu dou aula sobre alguma coisa, eu abro aquilo imensamente…  Um artista, geralmente, se põe à distância do objeto que ele está pintando. Não é isso? Ele é o artista, o objeto que ele está pintando está distante dele e ele vai pintando esse objeto. O artista chama-se o representante, o objeto chama-se representado, a conjunção dos dois chama-se representação. E vocês notem que nós, os espectadores, temos a mesma posição de quem? Do artista! Nós estamos numa distância com relação ao objeto pintado. O que os egípcios fazem é destruir o representante e o representado ― a distância: eles se juntam. O artista tem que estar no meio da coisa.

Aluna: Eles tiram o ponto de vista…

Claudio: Tiram o ponto de vista!

Aluna: É, mas o ponto de vista é uma invenção renascentista…

Claudio: Sim, renascentista! O Francis Bacon rompe com o perspectivismo renascentista!

Aluna: É, mas no medieval também aparece…

Claudio: Mas ele rompe com isso, filha. Ele rompe com a Renascença, com a Renascença toda. Ele vai criar uma arte que se chama… porque, veja bem:

Classicamente, em que são divididas as artes? Em artes manuais e óticas. A arte manual é a arte renascentista: você usa as mãos como modelo de compreensão daquela arte. Você usa a mão para fazer aquela arte (eu não vou explicar isso agora, porque cansaria…); e a arte ótica, eu dei o exemplo agora: o artista fica de um lado, o objeto do outro, o artista…

A arte egípcia chama-se háptica ― que vem de haptô, que é grego, e quer dizer tocar. Então, é uma arte em que o artista não se distancia do objeto, se mistura com ele. Há uma mistura do artista com o objeto ― isso é cristalino! (Foi muito difícil o que eu falei?)

Aluno: E no teatro?

Claudio: Já não se tenta isso no teatro? Nos happenings. Já não se tenta fazer isso, por exemplo, quando trazem os espectadores para dentro do palco? Já não ocorre isso? Isso já ocorre! Eu não vou dizer que isso ocorre, por exemplo, na arte do Bob Wilson ou na arte do Tadeusz Kantor… no teatro desses dois, eles não fazem isso! Por quê? Porque cada arte tem o seu próprio cristalino, o cristalino, que eu trouxe de presente aqui, foi o cristalino da arte pictórica. Se há um cristalino teatral? Há: não é esse! (Não sei se você entendeu…) Se há um cristalino do cinema? Há: não é esse! Porque nós estamos acostumados a pensar arte em termos de a arte. Isso é a maior tolice! O que nós temos que pensar é em arte musical, arte pictórica, arte da dança, etc. ― as artes são práticas e concretas. Então, sim: há um cristalino pictórico? Há. Há um cristalino teatral? Há. No século XX há as tentativas do Bob Wilson, do Kantor, de alguma maneira, esse menino aqui do Brasil, o Gerald Thomas. Dizem que ele imita muito, eu não vou discutir essa questão. Ele tenta alguma coisa diferente… Tenta alguma coisa diferente! Nós vamos ter que verificar…

Então, vai chegar um momento em que nós vamos discutir o teatro, discutir o cinema. Nós vamos ver tudo isso! Eu só quis citar o pictórico, porque o pictórico está ligado ao arquitetônico; e me parece que foi essa a questão que ela fez.

Aluno: Tem alguma coisa a ver com a arte conceitual?

Claudio: Não. Olha, eu escrevi um texto para a apresentação de um grupo de conferências que uns alunos meus estão fazendo, um texto de apresentação em que em duas frases eu mostro o que é arte conceitual. Se tivesse o texto aí? Eu mostro exatamente a diferença do que seria a arte conceitual.

(Como é seu nome? – Hailton. Você é meu aluno? – Não, essa é a primeira vez que eu venho aqui. Você vai ser meu aluno? – Espero! Então, se você vai ser meu aluno, você espera, que essa diferença eu faço na frente. Porque se eu fizer essa diferença hoje, Hailton, eu entro nisso e a gente não sai mais. É muito apaixonante… eu teria que explicar o Hume… sem o Hume vocês não compreenderiam, pois que o Hume é um filósofo duro, fechado, e só uma abertura muito poderosa desse autor levaria ao entendimento. Eu tenho a certeza que levaria ao entendimento. Então, Promessa… (Promessa, Zé Luiz… O Zé que marca as coisas para mim. Então, no começo da aula que vem eu faço a distinção entre a arte conceitual e a arte não conceitual, via Hume…)

Aluno 2: Eu queria só dar um exemplo até para você me esclarecer melhor. O Escher, que tem aquelas torres que os caras sobem e descem ao mesmo tempo, aquela escada que você sobe e desce ao mesmo tempo… aquelas coisas…

Claudio: Uma coisa você já sabe, Carlos. O Escher promove nitidamente o paradoxo nas artes figurais. Concorda? Você parte daí, filho. O paradoxo pode estar no interior do orgânico? Não, nunca! O orgânico rejeita o paradoxo. Se por acaso o Escher só tivesse como espectadores da obra dele o povo de Macaé ― a cidade onde eu nasci ― ele ia morrer de fome! Lá só tem orgânicos! É preciso que alguns, que romperam com o orgânico, aceitem o Escher. Entendeu? Por quê? Porque ele rompeu com o orgânico. Agora vamos dizer: o Escher é um autor cristalino? Eu posso falar que ele não é um autor orgânico… porque o paradoxo não pertence ao orgânico! Entenderam? Nitidamente, ele tem aquela Torre de Babel, que é um contra-plongée como eu nunca vi na minha vida! É um mergulho. Eu nunca vi daquilo na minha vida, algo tão bonito quanto aquele contra-plongée! Nenhuma vez o cinema fez aquilo. E aquilo necessita de um paradoxo… Logo, ele rompe com o orgânico.

Aluna: Só para fechar essa questão do pictórico… A arte renascentista tem essa coisa da perspectiva; a perspectiva tem a ver com o ponto de vista; o ponto de vista tem a ver com a subjetividade; e a subjetividade tem a ver com o orgânico.

Claudio: Melhor ainda: tem a ver com figura e fundo. Você parte da noção de figura e fundo, que é bastante para você começar a entender quando eu for fazer a distinção do renascentista para o barroco…

Aluna: Tá. Mas eu estou tentando ver se eu consigo inserir o conceito do subjetivo com o orgânico. Quer dizer, a presença de um ponto de vista significa que há uma subjetividade…

Claudio: Não usa subjetividade não, você deve usar psicológico…

Aluna: Tudo bem!

Claudio: Usa, aí, psicológico e orgânico. Onde há orgânico, há necessariamente o psicológico. Onde há psicológico, há necessariamente o orgânico. Usa aí. Você entendeu?

Aluna: Entendi.

Claudio: Quando eu falo orgânico, é uma espécie de economia de palavra. Realmente não é orgânico, é psico-orgânico. Onde está o orgânico, está o…

Aluna: O psicológico.

Claudio: E onde está o psicológico, está o orgânico! Agora, a palavra subjetivo… é deficiente. Por quê? Porque no uso transcendente das faculdades há uma subjetividade não-orgânica.

Aluna: Então, vamos lá. O cristalino e o orgânico.

Claudio: No século, acredito que IV ou V d.C., havia um grupo de filósofos chamados neo-platônicos, cujo chefe chamava-se Plotino, autor de uma obra chamada As Eneadas ― composta de seis livros, cada um contendo nove tratados; quer dizer, são cinqüenta e quatro tratados. Na Enéada III, tratado 8, aparece um capítulo com o título A Natureza, a Contemplação e o Uno. Não importa o Uno nem a Natureza; importa a contemplação! De repente, esse autor chamado Plotino, começa a fazer um trabalho sobre essa figura chamada contemplação e é um trabalho tão violento, que os séculos não souberam notá-lo. Ele passou quase que escondido, a não ser por filósofos notáveis, que foram seguindo aquilo que o Plotino havia dito na Enéada III, tratado 8. Esses filósofos são Hume, Nietzsche, Espinosa, etc… Eles foram atravessando essa questão.

Contemplação, em grego, quer dizer teoria. Literalmente. “Olha, o Senhor X é um teórico…” ou seja, o Sr. X é um contemplativo.

Então, Plotino pega essa noção de contemplação ― e essa noção de contemplação se origina no pai teórico dele, que se chama Platão. Então, se há essa noção de contemplação no Plotino, essa noção de contemplação se originou…  (Atenção, vocês não estão dando atenção, hein? Essas coisas informativas eu não volto nunca. Eu só volto às questões de pensamento). Então, isso se origina em Platão ― a noção de…

Alunos: Contemplação.

Eu hoje não vou dar como o Platão trabalhou em contemplação. Eu vou apenas dizer que Platão trabalhou em três tipos de contemplação: científica, religiosa e filosófica ― mas eu não vou dar importância a isso. Os três tipos de contemplação que Platão trabalha são três tipos orgânicos. Logo, humanos.

Agora, quando chega em Plotino, o que ele fala de contemplação é assustador! Olhem que coisa interessante: prestem atenção! Quem puder, olhe aquelas plantas ali ― olhar! Elas são verdes… As plantas são verdes! Vocês já viram rosas? São coloridas… As margaridas, as tulipas, as formas da tulipa, a textura do corpo da flor, a cor da flor, o aroma da flor. Não é isso?

Quando vocês pegam um pintor orgânico, o que é que ele faz? Ele se distancia da tulipa, coloca a tela dele ali e pinta a tulipa. A tulipa no quadro é o representante; a tulipa real é o representado, e o conjunto é a representação. O espectador quando entra diante de uma tulipa, torna-se o representante, que observa um representado e nasce outra vez o esquema da representação. Mas será que o importante nas tulipas, nas rosas, nas plantas verdes é o que elas são, ou as forças que as produziram? O que será? Que natureza é essa que não tem mãos, não tem pés, não tem nenhum instrumento como palanca ou qualquer instrumento arquitetônico… Como é que a natureza produziu essas plantas? É exatamente a questão de pintores do tipo Cézanne, Paul Klee, Francis Bacon… Eles não são pintores representativos: a eles não interessa a forma dos objetos. (A forma de uma rosa é a cor da rosa, o aroma da rosa, a textura da rosa… Para eles, nada disso interessa!) A eles, interessa a força que produziu essa rosa. Essa força que produziu essa rosa é apreensível pela sensibilidade? Não; logo, é preciso o uso transcendente das faculdades. Apreender as intensidades, que produzem as coisas. (entenderam? É muito bonito, mas ainda é vago, hein…). É aí que vai nascer a ideia de contemplação em Plotino.

Plotino diz que a natureza não age. Olhem o que eu estou dizendo: é quase que assustador: a natureza não age! Mas a natureza não age, então como é que existem rosas? A rosa não é o produto da ação da natureza? Diz o Plotino: não! É o produto da contemplação da natureza. A natureza só faz uma coisa: contemplar! E na hora que ela contempla, o que ela contempla? Ela contempla os elementos dos quais ela é constituída. Classicamente, água, terra, ar e luz; ou se você fizer pensamentos modernos, utilizando a física quântica, fósforo, carbono, etc. Ela contempla esses objetos e contrai. Ou seja: a natureza contempla a lama, contrai a lama, e dessa contração emergem rosas e tulipas. Em vez de a natureza agir, a natureza…

Alunos: contempla e contrai.

Claudio: Contempla; e porque contempla, contrai.

Então, eu lancei pela primeira vez a noção de contemplação, vinda de Plotino…

Aluno: Baseado em quê, o Plotino diz que ela contempla?

Claudio: Nós vamos ver: foi baseado no Plotino já fazendo uma experiência com o tempo puro. Ele foi o primeiro filósofo a fazer a grande experiência com o tempo puro. Na hora que ele faz essa experiência, o que dá energia para ele é essa noção de contemplação, que ele chega nessa Enéada III, tratado 8 e diz assim: “Tudo é contemplação!” (É o título da conferência que a S. vai dar nesse grupo de conferências dos meus alunos; logo, uma conferência plotineana). Entenderam?

O Plotino vai introduzir essa noção de contemplação e nós vamos trabalhar, mas não hoje. Essa contemplação, que vai ser assim um espetáculo para nós, é que vai permitir que nós entendamos o cristalino, o uso transcendente das faculdades, e assim por diante. Então, o que nós temos que marcar, e aqui já é uma marca… Quem estudou comigo nas Universidades (aponta dois alunos) sabe como eu trabalho. Isso daqui é uma marca que eu estou fazendo. Para se chegar à compreensão da contemplação plotineana, nós temos que compreender a contemplação platônica, e distinguir uma contemplação orgânica e uma contemplação cristalina. Então, essa questão da contemplação platônica e cristalina será trabalhada na aula que vem. Eu vou começar a montar para vocês o problema da contemplação.

Então, na aula que vem… o que foi mesmo que eu mandei marcar?

Aluno: Hume e a arte conceitual.

Claudio: Ah! Que está na mesma questão! Então, a aula que vem vai ser toda em torno da contemplação, da mesma forma que esta aula foi uma tentativa, um sobrevôo, que eu fiz, nas questões relativas ao tempo puro. (Eu vou dar mais uma paradinha porque eu estou ruim mesmo hoje – que pena, não é?)


Parte III

… Gerou-se uma possibilidade de nós pensarmos o que se chama biologia molecular. E o biólogo molecular pensa em termos de fósforo, azoto, carbono… que são elementos atômicos, formadores de molécula ― e aí, que eles pensam assim. Os antigos não tinham a física quântica, eles pensavam os quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Então, olhem que coisa interessante: joga uma semente de rosa na terra e dessa semente vai nascer uma roseira. Como essa semente vai transformar aquela lama que a cerca em textura de rosa, aroma de rosa, forma de rosa. Mas aquela semente não tem braço. Ela faz isso por contemplação.

Aluno: Não é uma linguagem?

Claudio: Não, não é uma linguagem. Se nós reduzíssemos a uma linguagem, conforme o começo desta aula, nós estaríamos reduzindo a semente a um ser racional. Não sei se vocês entenderam… Ela não é racional. Ela não tem nada a ver com a racionalidade…

Aluno: O ADN tem um código, uma linguagem…

Claudio: Certo.

Aluno: Ele não é um ser racional.

Claudio: Olha, o que muitos quiseram fazer, é que ele era. Porque os linguistas pegaram o ADN, pegaram os códigos do ADN, e tentaram transformar o ADN numa espécie de DEUS. Porque Deus é uma questão de palavra. Deus é o quê? Acabaram concluindo que Deus era ADN. Não é isso exatamente que eu estou dizendo.

Aluno: É um código…

Claudio: Não é um código, é uma força contemplativa. É evidente que essa força contemplativa da rosa gera rosas, da tulipa gera tulipas. Logo, passa um código do ADN. Mas não é esse código que gera. O código apenas limita a produção. Não sei se entenderam: limita a produção.

Olha, a força da semente, por contemplação, sintetiza a lama. Aí, o código diz: sintetiza em rosa. Aqui, ele diz: sintetiza em tulipa. Mas não é ele quem sintetiza. Entendeu?

Então, essa síntese, ou essa contemplação, de que eu estou falando para vocês, vai-se chamar síntese passiva.

Aqui, agora, já é aula de filosofia. Aula de filosofia é o seguinte: os conceitos têm que ser compreendidos e anotados, porque eu não volto a eles. Eu os uso.

Passivo quer dizer ― não age; só isso! Passivo contempla. Passivo tem como oposto ativo. Passivo não age. Então, síntese quer dizer: juntar aquilo que estava separado. Síntese passiva quer dizer que a semente, contemplativamente, junta aquilo que estava separado ― terra com água ― sintetiza esses dois elementos; e nessa síntese emergem as rosas.

Aluno: Síntese passiva é da contemplação; e a outra?

Claudio: A síntese ativa? Já é ação. Marque assim dessa maneira, Ricardo, que na frente nós vamos ver o que é.

A síntese ativa é orgânica, viu?A síntese passiva ainda é cristalina. Então, a síntese passiva é sinônimo de contemplação: onde não há, de forma alguma, nenhuma atividade. É como se fosse um Deus cansado, um Deus fatigado… que bocejasse; e, ao bocejar, nascessem as rosas. Que beleza!

Aluno: Poético, não é?

O que mostra a tese do Nietzsche. O Nietzsche tem uma tese excepcional. O Nietzsche sempre disse: esse mundo não é matemático! Esse mundo não é geométrico! Esse mundo é estético! Tudo desse mundo é estético: é poético, é pictórico, tá? (Foi bem aqui?)

Então, síntese passiva: A síntese passiva implica, como base, a contemplação. Então, vamos colocar os nomes?

Aluno: É cristalino, não é?

Claudio: É cristalino. Mas agora você não precisa da palavra cristalino. Você precisa de contemplação; que gera síntese passiva. Síntese passiva, sinônimo contração.

Aluna: Bem, contemplação gera síntese passiva.

Claudio: Toda contemplação ― aqui aparece um enunciado terrível! Toda contemplação é necessariamente contraente. (Vamos marcar isso daí.). Toda contemplação contrai. Contrai não os elementos que ela vê; mas os elementos dos quais ela é formada.

Para compreender essa contração, um pouco à frente eu vou usar Narciso. Vocês conhecem o mito do Narciso? Narciso contemplava o quê?

Alunos: A sua imagem.

Claudio: Essa outra contemplação não contempla a sua própria imagem ― contempla os elementos dos quais ela é composta; e contrai esses elementos. Mais na frente, eu vou usar dois mitos ― Acteon e Narciso ― para vocês entenderem.

Então, há uma diferença do Narciso que contempla sua própria imagem e dessa contemplação que contempla os elementos dos quais ela é formada. Então, ela contempla terra, água e luz. Aí, contrai. Aí, emerge a rosa. (Foi bem assim?)

Essa contemplação chama-se síntese passiva. Essa noção de síntese passiva já não é do Plotino. Ela pertence aos seguidores do Plotino, como Hume, por exemplo. Mas eu posso dizer, com tranquilidade, que o Bergson, no século XX, também vai usar a síntese passiva.

A síntese passiva é contraente. (Vocês estão entendendo?)

E agora, como eu disse para vocês, é um plano final de aula, que é um plano integralmente filosófico, eu vou ter que forçar os conceitos. Necessariamente eu vou forçar os conceitos.  Eu não vou precisar que… ah, eu já entendi tudo! Não, nada disso. Eu preciso que vocês tenham uma noção, para que na próxima aula eu possa fazer mais força com isso aqui.

Os primeiros elementos que vão aparecer para o pensamento são: contemplação, mas onde houver contemplação necessariamente existe um eu que contempla. Olha como as coisas começam a ficar difíceis. Onde houver contemplação existe um eu…

Aluna: que contempla!

Claudio: Que contempla.

Então, eu estou dizendo uma doutrina (que daqui a uns três ou quatro meses nós vamos ter um teórico brilhante sobre ela, porque eu vou introduzir o Alexandre nessa doutrina) chamada animismo― que vem da palavra animus, que significa alma.

Os animistas dotaram o universo de almas. Eles dizem que tudo o que existe é penetrado de múltiplas almas. Um rochedo, por exemplo, para os animistas… o que tem dentro do rochedo? Múltiplas almas. Então, para eles, esse universo é dotado de uma matéria e dentro dessa matéria, infinitas almas. E o que essas almas fazem? Contemplam! São pequeninas almas contemplando.

Para nós, para o senso comum, para o homem orgânico, isso daqui não passa! O homem orgânico se assusta com isso!

Então, os animistas começam a dizer que tudo que você encontrar estaria povoado dessas pequenas almas, que são os eus que contemplam. Essa doutrina chama-se animismo. (Marca: na próxima aula eu vou fortalecer essa doutrina do animismo)

Então, esses eus que contemplam, contemplam e… contraem. Ao contemplar e contrair, ele vão fundar o universo psico-orgânico. (Como é difícil isso, não é? Como é chocante e violento isso daqui!)

Porque em vez de você dizer que teria um Deus transcendente que produziria o psico-organismo ou o organismo, nada disso! Tudo emerge nesse mundo dentro de um plano de imanência. Ou seja, esses pequeninos eus que contemplam, contraem e constituem o universo psico-orgânico.

Se vocês quiserem saber o que é o psico-orgânico, é muito fácil! Quando você pega um organismo, você vai ver que o organismo é feito de dobras. São centenas de dobras! Se você abrir aqui o nosso estômago, quebrar as dobras que ele tem, ele é muito mais extenso que o nosso corpo, imensamente mais extenso que o nosso corpo; porque o que esse eu contemplativo faz é produzir as dobras. (Vocês entenderam?) O universo antes dessa contemplação é um universo elástico. Quando o contemplador contempla, ele se transforma num universo plástico.

Aluna: Ele vai contraindo?

Claudio: Contraindo tudo! Tudo vai-se contraindo! Vai nascendo a vida orgânica. Porque esse ‘pequenino eu’ já é uma vida; mas uma vida não-orgânica ― uma vida cristalina. O nosso grande horror é acreditar que o organismo explica a vida: não explica! Então, essa tese é terrível! A potência não-orgânica da vida: são os pequeninos eus. (Foi bem aqui?)

E marcar isso que eu estou dizendo: (isso ainda não pode ser para a próxima aula!) o organismo, que nós consideramos ser a fonte da vida… (O que eu estou dizendo sobre isso?) …o organismo prende a vida! Toda a obra do Artaud, todo o sofrimento do Artaud ― que o Rubens Corrêia não entendeu, pensava que o Artaud dava gritos Uhhhh!!!… Nada disso! ―  Os gritos do Artaud eram porque ele não podia pensar, porque ele queria mostrar, pelo pensamento, que o que devia passar era a potência não-orgânica da vida. E nós, os humanos, só damos importância ao organismo e, com isso, prendemos as forças fundamentais da vida ― que são não-orgânicas. Então, eu estou explicando para vocês que esse eu contemplativo, contraente, faz nascer o organismo. Embora ele próprio não seja orgânico. (O que vocês acharam? Certo? Olha eu acho que eu já vou terminar, que eu já estou ficando sem ar. E a aula foi muito bonita, muito rica, muito bonita!)

Esse eu contraente-contemplativo é questão pura. Tudo nele é questão! Agora, quando nasce o psico-orgânico, tudo no psico-orgânico é problema. Então, nós temos: a questão – no cristalino; o problema – no orgânico. Certo?

Aqui eu começo a mostrar para vocês o projeto matemático da vida. Da mesma forma que eu mostrei para vocês que causa e efeito é um ser físico; o problema é um ser matemático. Mas nós podemos transportar esse ser matemático para as questões existenciais. Por isso que o Sartre, por exemplo, falava em ‘problemas’ propriamente existenciais. Chama-se o deslocamento de uma entidade ou de uma potência, de um domínio ― no caso, o problema de uma potência matemática, você transforma para questões existenciais. E as questões existenciais estão marcadas de problemas! Então, a figura que eu marquei para vocês foi o eu contemplante e contraente questiona; e o orgânico problematiza. Marquem isso porque na aula que vem veremos ‘questão-problema’ x ‘necessidade’.

Ponto final!

Podem perguntar, não é? Mas a aula já chegou.

Aluna: O minimalismo tem alguma coisa a ver com o cristalino?

Claudio: Muito. Demais! Que músico, por exemplo, você chamaria de minimalista?

Aluna: Ah, Philip Glass…

Claudio: Por exemplo. Ele só trabalha com a repetição. Ele e aquele menino o Steve Reich. Mas o Philip Glass, não é? Sobretudo o Philip Glass da década de setenta, não é? que é excepcional, só trabalha com a repetição. A repetição é fundamentalmente cristalina.

Aluna: A Pina Bausch seria cristalina também?

Claudio: Olha, ela tenta, ela tenta. Ela recebeu um elogio incrível daquela bailarina-coreógrafa, que esteve aqui, a Carolyn Carlson, que deu uma relevância incrível à Pina Bausch, eu gostaria de ver os trabalhos dela, eu conheço pouco, eu conheço de vídeo. Eu não vi nada cristalino nesses vídeos; espero ainda ver, entendeu, Márcia? Eu não estou fazendo nenhuma crítica à Pina Bausch, de forma nenhuma! É que eu ainda não vi. Mas eu acredito que sim. Acredito que sim, porque, inclusive, a repercussão que ela tem, não é, junto a grandes pensadores, do tipo John Cage, e quem mais?, o Merce Cunningham, toda essa gente… Acredito que sem dúvida é cristalina, mas eu queria uma confirmação, quando eu vir um trabalho feito por ela. (Foi bem a resposta?)

Claudio: Você tinha a questão do cristal, não é, J.?

As aulas do cristal, qualquer hora dessas vocês vão ouvir o Dudu me substituindo aqui e falando sobre o cristalino. E vocês vão ficar entusiasmados e dizer: Ah! Dudu fala, eu também quero falar… e aí o negócio começa a crescer, não é Dudu?

Então, está bem. Vejam se vocês têm mais perguntas… se não têm, eu vou zerar.

Aluna: Então, o orgânico vai nascer do cristalino?

Claudio: Nasce.

Aluna: A presença desses pequenos eus…

Claudio: Na verdade, do Tempo Puro gera-se o psico-orgânico.

Eu vou lá para fora tomar ar.

Aula em vídeo: A vontade espiritual na vida humana

Claudio fala sobre três mundos: o físico (material), o empírico (orgânico e psíquico) e o transcendental, que é o mundo do espírito. Enquanto o sujeito humano é constituído pelo orgânico e pelo psíquico, e por isso se volta para a conservação, a preservação, o conforto, os valores estabelecidos, o espírito contempla, produz singularidade e arte. Ele termina a aula discorrendo sobre a vontade espiritual contra a representação orgânica, nas artes, e utiliza como exemplo alguns pintores.

Aula de 28/04/1994 – O orgânico e o cristalino ou as faculdades em seu uso comum e em seu uso transcendente

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 4 (Diferença, Alteridade, Mutiplicidade); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 8 (As Singularidades Nômades); 9 (A Imagem Moral e a Liberdade); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche); 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos); 16 (Leibniz I); 17 (Aion); 18 (Proust, o Ponto de Vista ou a Essência); 19 (Leibniz II) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Parte I

Na aula passada, eu falei sobre as pontas do presente. Hoje eu vou começar um pouquinho diferente. Aí, no meio da aula, eu vou ver se eu faço uma associação com a aula anterior, (certo?). Então, eu retomo a aula passada, repondo de uma forma nova, para não fatigar os que ouviram, e permitir com os que estão chegando possam ter um acompanhamento perfeito do que estou fazendo. Ninguém se assuste com os nomes que eu disser, porque às vezes eu cito determinados autores… só por rigor ― um rigor interior que eu tenho. Às vezes eu digo: Oh! Isso aconteceu, foi tal pensador que fez isso; mas não tem a menor importância, porque não tem valor para o entendimento.

Então, eu vou começar a falar para vocês sobre um tema chamado teoria das faculdades ― são as faculdades subjetivas do homem. O homem ― à diferença da pedra, por exemplo ― é dotado de imaginação, de percepção, dotado de memória, dotado de inteligência… Essas figuras que eu levantei ― inteligência, memória, etc., são chamadas em filosofia de faculdades. Então, os homens possuem uma série de faculdades. E aí vocês vão poder compreender uma definição bastante clássica ― que quando nós perguntamos o que é o homem, a tradição filosófica define o homem como sendo animal racional. Animal racional quer dizer: um ser dotado de uma faculdade chamada razão. (Entenderam?).

Isso daqui se estende muito, eu não posso me estender mais… Mas essa definição clássica grega… “O que é o homem? O homem é um animal racional” ― O que é racional? É uma faculdade chamada razão. E essa faculdade chamada razão é mais ou menos identificada como sendo o loquendus – a linguagem. O homem é um ser dotado de linguagem. E aqui a gente abre com a maior facilidade: o homem tem uma linguagem oral e uma linguagem escrita. Eu não vou usar a palavra linguagem, eu vou usar a palavra semiótica. O homem é dotado de uma semiótica oral e de uma semiótica escrita. Semiótica se origina da palavra semeion, que quer dizer signo. Então, se vocês perguntarem o que é o homem? Classicamente a resposta está dada: um animal dotado da semiótica oral e da semiótica escrita. Partindo-se do pressuposto que todo animal dotado dessas duas semióticas é, necessariamente, dotado da faculdade da razão.  Ou seja, para ter-se a expressão das duas semióticas tem-se que ter… a faculdade da razão. (Entenderam?)

Aluna: Essa afirmativa que vocês fez agora, “o homem é dotado de uma semiótica oral e escrita” realmente equivale a “o homem é um animal racional”? Mas e aí o que você faz com os homens que não são dotados de escrita?

Claudio: Têm oral, têm a semiótica oral. Mas o que você falou, quando você afirma, reproduzindo toda a tradição antropológica que começa no século XIX, que afirma que a semiótica escrita origina-se a partir do nascimento do Estado ― que é uma resposta muito coerente, mas muito curta, muito apertada… Afirma-se que o homem adquire a linguagem a partir do nascimento do Estado ― eu vou romper com isso! Eu vou dizer que mesmo os povos primitivos já possuiriam uma semiótica escrita. Isso é assustador porque em qualquer texto que se vai ler, que se lê: o povo primitivo é ágrafo.  A quer dizer negação, grafo quer dizer escrita. Ágrafo quer dizer, não tem escrita. (Você está acompanhando Cacau? Está bem, Márcia?)

Aluno: Cláudio, você se refere então, por exemplo, às gravuras ― ou não?

Claudio: Às gravuras, como escrita? Não. Ricardo, eu prefiro me referir a todas aquelas figuras, linhas e cores que os primitivos fazem em seu próprio corpo. Ou seja, os primitivos criaram a escrita no seu próprio corpo. O que o Estado faz é deslocar a escrita do corpo para o papiro. Foi isso que ele fez, nada mais do que isso. Mas a escrita já está gravada no corpo do primitivo. (Vocês entenderam, vocês duas aí? A escrita já estava… no corpo do primitivo.)

Aluna: Agora, existem estados organizados que não possuem realmente uma grafia no sentido que…

Claudio: Isso não importa. Que é isso, menina!

Aluno: Mas — os aztecas…

Claudio: Possuem sim, senhora! Sim, senhora! Sim senhora! Os aztecas… (Nós não vamos poder discutir mais isso, tá? Eu só vou falar isso…) Os aztecas fazem parte do que se chama modo de produção asiática ou modo de produção tributária, que é um conceito marxista. Quando você encontrar o modo de produção tributária, nele está inscrita necessariamente – a ata escrita. Porque ela faz parte dos grandes trabalhos. (Eu volto no final para isso, tá?). (Então, vamos embora! Eu estou um pouco sem ar…). Então, vamos lá voltar à faculdade, (tá?).

As faculdades no sujeito humano são nítidas ― nós todos possuímos. Se alguém quiser utilizar a sua faculdade chamada memória, por exemplo, o que terá que fazer? Para que serve a memória, ela serve para recuperar o quê? Cacau?

Aluna: Os antigos… presentes.

Então, a nossa memória tem uma função fácil de compreender, porque sempre que nós queremos recuperar os antigos presentes, quem é que nós chamamos?

Alunos: A memória.

E ela vai e faz o quê?

Alunos: Recupera os antigos presentes.

Agora, a imaginação só trabalha com imagens livres. A memória e a imaginação têm uma proximidade e uma diferença. Porque a memória é um recobrimento de um antigo real. E a imaginação é solta, é livre, você pode imaginar o que quiser, mas não pode memorizar o que quiser… (Entenderam?). A memória está sempre recuperando um antigo presente, enquanto a imaginação, não: a imaginação é inteiramente livre.

E o intelecto tem a função de fazer cálculos. Então, vamos ver: intelecto, memória, imaginação. E buscar os limites de cada faculdade. Há uma faculdade cujos limites são facílimos de entender. Quais são os limites da memória? Até onde uma memória pode ir, a memória humana? Ela só pode ir até o antigo presente. Chegando ao antigo presente, ela não o ultrapassa…

Aluno: E assim mesmo ainda falha, (não é?) nesse sentido…

Claudio: Falha quando não se toma aqueles “memoriois”, senão não falha, não.

Aluno: Falha por pouco fósforo, não?

Claudio: Por pouco fósforo. Exatamente, falha por pouco fósforo. O fósforo faz parte da memória.

Aluna: A memória também se confunde com a imaginação.

Claudio: Confunde-se: foi o que eu falei. Foi o que eu falei, Cacau. Falei que a diferença da memória para a imaginação… (pode-se até fazer essa experiência…) é que a memória é forte e a imaginação é fraca ― no sentido de que quando nós imaginamos, aquilo que nós imaginamos não se refere a nenhuma realidade e a memória é sempre referente a alguma coisa real.

Por exemplo, eu me lembro de ter visto ali uma fotografia da Cacau com o Alexandre. Isso é memória. Agora, eu posso imaginar um dragão comendo uma cenoura. Posso imaginar… mas isso é imaginação. A memória se refere ao real, que é o antigo presente. E o antigo presente, quando era um presente jovem, por quem era apreendido? Pela percepção. Então, a memória é uma percepção antiga. (Entenderam?)

E eu posso perguntar a vocês: quais são os limites da memória? É fácil responder: o antigo presente. A memória ultrapassa o antigo presente? Não, ela não ultrapassa. Então, aqui…

Aluna: A percepção apreende o quê?…

Claudio: A percepção apreende o presente. Por exemplo: através de que faculdade eu apreendo tudo que está aqui? Da percepção: São os cinco sentidos que eu tenho para apreender o mundo e os sentidos ― chamados cinestésicos ― que apreendem aquilo que se passa em meu próprio corpo: gases, batidas de coração, um músculo, que de repente estira… Esse poder que eu tenho de apreender meu próprio corpo e o poder de apreender o que está fora de mim ― chama-se percepção. Então, a percepção se transforma em?

Alunos: memória.

(Tá?). Agora, segundo o que eu disse, quais são os limites da memória?

Alunos: Os antigos presentes.

Então, a memória não ultrapassa os antigos presentes.

Mas agora eu vou começar a falar para vocês de uma coisa originalíssima, que se chama ― uso transcendente das faculdades. A palavra transcendente, aqui, significa ultrapassar limites. Então, uso transcendente das faculdades. (Vamos ver isso!)

Um pensador, um filósofo, talvez o primeiro e único filósofo da história, chamado Platão, distinguia entre memória e reminiscência. A memória para ele era exatamente aquilo que eu descrevi ― a potência de apreender os antigos presentes. E a reminiscência ― a potência de apreender o passado puro.

O que nós temos que entender agora é a distinção entre passado puro e antigo presente (certo?).

O passado puro é uma figura muito difícil de ser entendida, mas é através do entendimento do passado puro que nós vamos poder fazer a constituição de novas narrativas, de novas descrições, de novas dissertações, construir um novo mundo literário, um novo mundo poético, um novo mundo pictórico, etc.  Então, o que eu estou dizendo para vocês é da existência de um uso transcendente das faculdades que, no caso do Platão, seria  a reminiscência. Por quê? Porque a reminiscência, para o Platão, ultrapassa o antigo presente. (Vocês entenderam ou não?). O que a reminiscência faz? Ultrapassa os limites da memória ― porque memória apreende os antigos presentes; e a reminiscência vai apreender o passado puro. Isso é Platão ― e reminiscência em grego chama-se anamnese.

Então, aconteceu uma coisa incrível aqui. É que a memória chega ao limite, e não vai mais: ela não consegue ir mais.  O que está além da memória, significa o uso transcendente das faculdades. (Eu agora posso dar essa parte por encerrada, para poder aumentá-la? Com o exemplo que eu dei da memória, deu para vocês entenderam o que é o uso transcendente das faculdades?).

Então, o que eu fiz agora foi criar uma categoria chamada uso transcendente das faculdades. (Você entendeu, Ricardo?) O uso transcendente das faculdades… (Eu só quero que vocês entendam uma coisa, que é facílima: o uso transcendente das faculdades ultrapassa os limites do uso comum. Qual é o uso comum da memória?

Alunos: O antigo presente.

Claudio: O que faz o uso transcendente? Ultrapassa os limites.

Agora, vamos ver outra faculdade que se chama percepção. Percepção é sinônimo de sensibilidade ― e a sensibilidade apreende tudo aquilo que se chama sensível.

Qual é o objeto da sensibilidade? O sensível. O que é o sensível? O que é apreendido pelo ouvido, o que é apreendido pelos olhos, o que é apreendido pelo tato, pela temperatura, pelo olfato, pelo paladar. Isso é a faculdade chamada… sensível. Apreende a… sensibilidade. Então, os limites da faculdade do sensível são a… sensibilidade. Então, para você construir o uso transcendente da faculdade sensível, essa faculdade vai apreender o insensível. (Marquem) É chocante! É terrível!

Aluno: O que é?

Claudio: Vai apreender o insensível. (Veja bem, Cacau). A sensibilidade só apreende aquilo que os nossos cinco sentidos apreendem: ouvido, olhos, olfato, paladar, tato. Só apreende aquilo que é sensível. Agora, o uso transcendente da faculdade apreende o insensível. Não vou dizer ainda o que é. Daqui a pouco eu digo.

Aluno: Isso não é outra faculdade?

Claudio: Não. É a mesma, a mesma.

Aluno: A reminiscência não é uma outra faculdade?

Claudio: Também não é uma outra faculdade; é a mesma.

Aluno: É um desmembramento da memória?…

Claudio: É um desmembramento, é a mesma faculdade no seu uso transcendente. Nós temos aqui dois usos transcendentes: o uso transcendente da faculdade da memória ― que apreende o passado puro; e o uso transcendente da sensibilidade ― que apreende o insensível. Esse objeto da faculdade chamada memória, no seu uso transcendente, chama-se o IMEMORIAL. (Marquem! Tem que ser muito lento mesmo!)

Aluna: Agora, o mais remoto de todos seria justamente a percepção, porque para você ter uma memória você tem que apreender o objeto ou a situação. Você tem a sensibilidade, não é? Então, assim, eu não sei se estaria correto.  A percepção seria a primeira faculdade, a que viria antes, antes da memória

Claudio: Márcia, a percepção é antes da memória, mas a reminiscência não precisa da percepção. Não me pergunte ainda por que, que eu não posso responder…

Aluna 2: Ele está falando de faculdades diferentes, não é isso?

Claudio: Não, vamos usar assim: faculdades em seu uso comum. E faculdades nos seus usos… transcendentes.

Aluno: E você, no momento, está falando de três faculdades: memória, percepção…

Claudio: Falei em duas só. Percepção e sensibilidade eu identifiquei. Eu dei uma semelhança. Agora, sensibilidade ou percepção, no seu uso comum, apreende tudo o que é sensível; e a memória no seu uso comum apreende o antigo presente. Agora, a memória no seu uso transcendente chama-se reminiscência e apreende o imemorial. Olha só que coisa interessante! E a sensibilidade no seu uso transcendente apreende o insensível. Agora, o pensamento no seu uso comum apreende as estruturas lógicas. Um exemplo de estrutura lógica ― o silogismo: “Todo homem é mortal / Sócrates é homem / Logo, Sócrates é mortal”. Porque quando o intelecto diz: “Todo homem é mortal / Sócrates é homem / Logo, Sócrates é uma galinha verde” ― isso é ainda o uso comum da faculdade, mas ilógico. Ou seja, o intelecto [pensamento em seu uso comum] tem duas funções: lógicas e ilógicas. Agora, o uso transcendente do pensamento apreende o impensável. Olha que coisa linda!

Aluna: Qual é a diferença entre ilógico e impensável?

Claudio: Não pode já, não, calma! Calma!

Aluna: Você está aproximando intelecto e pensamento?

Claudio: Estou dando como sinônimos… mas vejam que o intelecto eu fiz questão de usar no uso comum ― você pode chamar de pensamento também. O uso comum do pensamento e o uso transcendente do pensamento. O uso transcendente do pensamento vai se ligar com o impensável. O uso comum do pensamento vai se ligar com o lógico ou o ilógico. Estruturas lógicas ou ilógicas. (Agora, prestem atenção! Vamos tentar aqui. Eu vou esperar a menina ausente, tá?).

O uso transcendente das faculdades. Notem que coisa interessante! No uso transcendente da memória… qual é o objeto do uso transcendente da memória, da reminiscência?

Aluna: O imemorial.

Claudio: Qual é o uso transcendente da sensibilidade?

Aluna: O insensível.

Claudio: Qual é o uso transcendente do pensamento?

Aluna: O impensável.

Apareceram partículas ou prefixos in que são prefixos negativos. Então, parece que o uso transcendente está apreendendo o negativo do pensável, o negativo do memoriável, o negativo do sensível… Mas não é isso! Esse prefixo in significa diferença. (Ficou muito difícil?). Então, o uso transcendente das faculdades vai entrar em contato com diferenças. Ou diferencial. (Atenção para o que eu vou dizer!).

Aqui é uma coisa definitiva para se aprender. Toda figura mesmo linguística que entra num esquema teórico, a figura linguística pertence a um campo qualquer. Por exemplo, se eu estiver falando para vocês de “causa e efeito” eu estou falando de física. Se eu estiver falando de “monadologia ou de mônadas”, eu estou falando de metafísica.  Se eu estiver falando de “almas que ressuscitam ou que não perdem a vida”, eu estou falando de Kardec, Allan Kardec. Se eu estiver falando, por acaso, de “diferencial” eu estou falando de matemática. Cada ser pertence a um determinado domínio. Então, quando eu falar “o diferencial das causas e efeitos” eu estou fazendo uma física-matemática. (Vocês entenderam?).

Então, na hora em que eu digo para vocês que o objeto do uso transcendente das faculdades é a diferença ― a “diferença” está se tornando uma unidade metafísica. (Vejam se entenderam).

― Por que a diferença é uma unidade metafísica? Porque o metafísico é aquilo que não pode ser apreendido pelo uso comum das faculdades. O metafísico ultrapassa o uso comum das faculdades. Então, as faculdades quando estão em contato direto com essas figuras que estou chamando de imemorial, impensável e insensível, elas estão em contato direto com o diferencial, com o diferente, que não pertence ao mundo nem da sensibilidade nem do intelecto nem da memória. Ponto. (Vamos ver os efeitos: foi bem? Menos os antigos, os mais novos ― se foi tudo bem…)

Eu vou forçar agora um pouco (tá?). Eu vou dizer o seguinte: os objetos que pertencem ao uso comum das faculdades ― como, por exemplo, o lógico e ilógico ― pertencem a quem?

Aluno: Ao uso comum das faculdades.

Claudio: O sensível?

Aluna: Ao uso comum da sensibilidade.

Claudio: Logo, ao uso comum das faculdades.

Àquilo que pertencer ao uso comum das faculdades, eu vou chamar de orgânico. Isso eu quero que vocês marquem! É praticamente o inicio da aula.

O que é o orgânico? Aquilo que é apreendido pelo uso comum das faculdades. E eu vou passar a chamar de cristalino tudo aquilo que for apreendido pelo uso transcendente das faculdades. Então nós passaríamos a ter… é como que se nós estivéssemos diante de dois mundos: o mundo orgânico e o mundo cristalino. (Foi muito bem aqui, ou mais ou menos?).

[É como se] Nós estivéssemos diante do mundo orgânico e do mundo cristalino.

Então, eu posso dizer (só para o Dudu) que o Visconti quando faz o cinema dele ele está diante de um objeto cristalino? Logo, ele está usando o pensamento? Porque está apreendendo o impensável? (Entendido?)

artaudEntão, uso o orgânico e o cristalino. O orgânico é aquilo especificamente humano. O orgânico é humano. Agora, vocês podem, por exemplo, buscar quais são os objetivos do homem, o que o homem vive em sua vida? Tudo isso, eu vou mostrar para vocês, eu vou classificar como orgânico ― originário do organismo ― literalmente isso!  E o uso transcendente das faculdades está diante do… cristalino, que é o ultrapassamento do orgânico e a entrada de uma categoria chamada Corpo-sem-Órgãos ― que pertence ao Artaud. Então, eu posso perfeitamente chamar o uso transcendente das faculdades de corpo sem órgãos, quando, então, haveria não mais o uso comum das faculdades, mas o uso transcendente das faculdades. (Como é que vocês estão na aula?)

Aluna: Você falou: o uso transcendente das faculdades ultrapassa o orgânico, mas eu tinha entendido que são coisas diferentes. Quer dizer, o uso do transcendente é uma coisa; o uso comum é outra. Agora você está dizendo que ultrapassa, como se… a ideia de ultrapassar para mim significa… engloba e passa adiante…

Claudio: Não, não engloba nada.

Aluna 2: É ir além.

Claudio: Vai além. É quebrar os limites. Vamos usar um conceito, vamos experimentar isso aqui:

― O que quer dizer audácia? “Eta cara audacioso!” O que nós estamos dizendo com a expressão “Eta cara audacioso!”? É um cara que foi além dos seus limites. Então, audácia ― o uso transcendente das faculdades é uma audácia da vida! E essa audácia é quando a vida entra em comunhão com aquilo que eu estou chamando de cristalino, à diferença do… orgânico. Esse cristalino é o tempo puro. (Acho que foi bem, não é?)

Então, o uso transcendente das faculdades é o agenciamento com o cristalino ― e esse cristalino chama-se tempo puro. Do tempo puro, nós já temos duas notícias, vindas da aula passada: que o tempo puro seria os lençóis do passado e as pontas do presente… e agora eu vou acrescentar uma terceira ― os devenires. Lençóis do passado, pontas do presente e devenires. E isso, só se vai encontrar com o uso transcendente das faculdades; senão, não vai encontrar.

A palavra devenir é uma palavra francesa que já tem tradução para o português: devir. Mas o Aurélio já dicionarizou o devenir, que afinal é muito mais bonito. Em vez de usar devires, que parece deveres, vamos usar devenires. É lindo, não é? Os meus devenires… Num outro dia eu vou pedir para vocês falarem um pouco de vocês, falarem um pouco de seus devenires.

Sempre que vocês quiserem fazer qualquer questão, podem fazer, (ouviu?) Que eu sei que a aula é muito difícil, mas eu acho que nós chegamos a um lugar e isso vai me forçar a uma coisa muito violenta agora, uma audácia, uma audácia!

Existe em filosofia uma palavra chamada extensão. Eu não vou definir extensão, daria muito trabalho e não traria nenhum lucro, como se diz no capitalismo.  A extensão ― eu vou dizer apenas que o intelecto, a memória no uso comum e a sensibilidade no uso comum pertencem à extensão. Os objetos da sensibilidade, os objetos da memória, os objetos do intelecto ― no uso comum ― são extensos; e todos os objetos do uso transcendente são intensos. A intensidade. Então, uso transcendente das faculdades, cristalino, tempo puro, intensidade (Certo?). Então, o conceito de intensidade passa a ser agora uma coisa incrível, incrível!

Nós agora vamos fazer uma pequena prática… e realmente quando terminar essa prática de pensamento que eu vou fazer, eu vou estacionar e fazer perguntas. Receber perguntas de vocês, para ver se vocês estão acompanhando.

Eu disse para vocês que o intelecto lida com o lógico, o intelecto no uso comum lida com o lógico? E quem é que lida com o ilógico?

Alunos: O intelecto.

Também o intelecto. O intelecto lida ainda com o verdadeiro e com o falso. Se eu digo que o intelecto lida com o verdadeiro e com o falso, lida com o lógico e com o ilógico, questão: o lógico e o ilógico, o verdadeiro e o falso são orgânicos?

Alunos: Sim, são.

Claudio: São orgânicos. Logo, no cristalino não existe nem lógico nem ilógico, nem verdadeiro e nem falso. (Ficou difícil! Eu paro e vamos ouvir as perguntas…)

Se vocês, por exemplo, forem ver um filme de Godard  ― o Godard é um bom exemplo! ― podem ser também os neorrealistas italianos… Pode acontecer, por exemplo, de um personagem levar um tiro e morrer: pá! E ele morre. Aí, na cena seguinte, o personagem está tomando café na esquina. Mas como é que pode?! É porque aquilo é cristalino ― está fora do verdadeiro do falso. (Risos…)

(Não sei se vocês entenderam… Ficou muito difícil?)

Agora que é a marca mais difícil do que eu vou falar. Tempo puro, sinônimo… cristalino? Precisa do uso transcendente das faculdades?

Alunos: Precisa!

E o tempo puro necessariamente é a mais alta potência do falso. O tempo puro é falso, é o lugar do falso, do falsário ―, mas quando o falso não se opõe ao… verdadeiro; porque o falso se opõe a verdadeiro no… orgânico Então, nós vamos ter um falso totalmente original, totalmente diferente quando nós estamos no universo do cristalino. (Que aula linda!)

(Eu estou um pouco sem ar… Vou parar uns dois minutinhos.)

Eu queria que vocês agora vissem que o falso e verdadeiro, o lógico e o ilógico estão no orgânico. Agora é só para o esquema: O verdadeiro e o falso pertencem ao orgânico. No nosso mundo humano nós estamos sempre buscando o verdadeiro e afastando o falso. Já quando você penetra no mundo cristalino, o verdadeiro e o falso desaparecem.

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Aluno: Então só fica o falso…

Claudio: Mas não é o mesmo falso do orgânico, porque o falso do orgânico se opõe ao verdadeiro. O falso do cristalino é inteiramente autônomo. É déspota no universo do tempo puro. Ou seja, no tempo puro não procurem verdades, porque não há.

Aluno: Mas você não vai poder também procurar falsidades… Quer dizer, falsidades no sentido do orgânico.

Claudio: Não há falsidade; não há orgânico; não há nada disso!

Aluno: Você vai ter que abstrair…

Claudio: Que abstrair os dois!

Olhem, eu queria dar exemplos. Vocês têm um bom exemplo nos filmes do Resnais, nos filmes do Godard ou num romance do Alain Robbe-Grillet ― chamado Djinn ― que vai ser o romance do nosso curso. Nele, nós vamos conhecer ― na prática literária ― o que é a mais alta potência do falso. O L. já leu o romance, então ele já sabe do que estou falando: que ele surpreende o tempo inteiro! E eu pretendo, vocês sabem disso, eu já falei, fazer um filme. Um filme de 10 a 15 minutos, com a Márcia, a Cacau e o Alexandre. […]

Aluno: Você pode ver o Godard agora no Museu da República.

[Diálogo inaudível]

Vocês viram um filme, o penúltimo filme dele, o  Nouvelle Vague? Esse filme tem em
vídeo, vocês deveriam apanhar, porque com esse filme eu mostro uma porção de coisa para vocês. Eu mostro, por exemplo, um personagem que morre e na cena seguinte está vivo…

Aluna: Nesse filme de hoje o trem passa assim… voando e arranca o chapéu das pessoas. Logo depois, mostra as pessoas entrando no trem. (Risos…).

Claudio: É isso… (Agora… é quebrar… Posso fazer um ponto final aqui? Posso, não é? Ponto final, não. Ponto parágrafo, que vai ser recuperado muito na frente).

― Por que orgânico e cristalino? É a questão. Por que orgânico e cristalino? O que é exatamente isso?

(Agora, ninguém fica olhando para mim, vamos fazer um intervalo para o café, para eu entrar num novo regime de aula. Foi bem até aqui? Então, vamos tomar um café).


Parte II

[…] Mais filosófica… Por isso que eu estou dando aqui uma pausa… deixo aberto para vocês fazerem certas perguntas… porque agora eu vou começar a sustentar o cristalino, o uso transcendente das faculdades…  Como é que eu vou sustentar todos esses planos. (Entenderam?) Porque eu falei, foi uma beleza, foi magnífico, mas eu não fiz nada ainda, nada!

Aluna: Você deu os conceitos…

Claudio: De forma ainda muito fraca… foi brincadeira: eu não pude entrar em nada com violência… E o uso transcendente das faculdades é violência! Não confundam violência com o que vocês hoje veem no cinema. Aquilo é violência bastarda, aquilo é violência orgânica. “Violência” é violência do fotograma. Se vocês lerem o Tarkovski, naquele livro Esculpir o Tempo, ele explica isso com uma beleza incrível! O que é a violência? A violência não é um soco na cara, um tiro na cabeça… essa é uma violência orgânica, uma violência suja…  Eu estou falando da violência do fotograma ― é incrível, isso!

Aluno: Houve uma aula em que você falou sobre o cristalino na arquitetura, você falou do Worringer, não foi?

Claudio: Não posso colocar… O Worringer é um autor que trabalha em arte, já desde o princípio do século, fazendo a distinção entre cristalino e orgânico, ele chama a arte grega de orgânica e a arte gótica e barroca de cristalina. Mas nós vamos muito mais longe do que isso. Acho que, na aula passada, eu já coloquei a arte egípcia. A arte egípcia vai ser um chute assim em cima de vocês. Eu vou dar só um exemplo: todo mundo aqui, não sei, deve ter vivido com certa intensidade – intensidade no sentido orgânico, não no sentido cristalino – aquelas práticas de distinção entre figura e fundo da Gestalt. Vocês se lembram? Lembram-se daquelas coisinhas que a gente […]

[virada de fita]

[…] o que eu estou dizendo é desfazer o fundo. A noção de figura e fundo é muito encontrada na arte renascentista…

Aluno: Esse joguete, eu não…

Claudio: Desmanchar figura e fundo? Você pega um Francis Bacon, no século XX, você vê que nele não há fundo. É plano, aquilo ali é… [Claudio bate com as mãos espalmadas, uma sobre outra, para criar uma imagem de plano.]

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Aluna: É coisa da perspectiva, não é? Ela desaparece?!

Claudio: Desaparece a perspectiva.

Aluna: Ele projeta, não é? A arte egípcia faz isso, ela projeta tudo em cima de um plano só, não é?

Claudio: Sim, de um plano só. E esse mecanismo da arte egípcia é retomado e renovado pelo Francis Bacon no século XX. E vocês vão verificar que isso vai entrar na questão da arte cristalina, porque ― isso é só um exemplo, eu não estou dando aula sobre isso: quando eu dou aula sobre alguma coisa, eu abro aquilo imensamente…  Um artista, geralmente, se põe à distância do objeto que ele está pintando. Não é isso? Ele é o artista, o objeto que ele está pintando está distante dele e ele vai pintando esse objeto. O artista chama-se o representante, o objeto chama-se representado, a conjunção dos dois chama-se representação. E vocês notem que nós, os espectadores, temos a mesma posição de quem? Do artista! Nós estamos numa distância com relação ao objeto pintado. O que os egípcios fazem é destruir o representante e o representado ― a distância: eles se juntam. O artista tem que estar no meio da coisa.

Aluna: Eles tiram o ponto de vista…

Claudio: Tiram o ponto de vista!

Aluna: É, mas o ponto de vista é uma invenção renascentista…

Claudio: Sim, renascentista! O Francis Bacon rompe com o perspectivismo renascentista!

Aluna: É, mas no medieval também aparece…

Claudio: Mas ele rompe com isso, filha. Ele rompe com a Renascença, com a Renascença toda. Ele vai criar uma arte que se chama… porque, veja bem:

Classicamente, em que são divididas as artes? Em artes manuais e óticas. A arte manual é a arte renascentista: você usa as mãos como modelo de compreensão daquela arte. Você usa a mão para fazer aquela arte (eu não vou explicar isso agora, porque cansaria…); e a arte ótica, eu dei o exemplo agora: o artista fica de um lado, o objeto do outro, o artista…

A arte egípcia chama-se háptica ― que vem de haptô, que é grego, e quer dizer tocar. Então, é uma arte em que o artista não se distancia do objeto, se mistura com ele. Há uma mistura do artista com o objeto ― isso é cristalino! (Foi muito difícil o que eu falei?)

Aluno: E no teatro?

Claudio: Já não se tenta isso no teatro? Nos happenings. Já não se tenta fazer isso, por exemplo, quando trazem os espectadores para dentro do palco? Já não ocorre isso? Isso já ocorre! Eu não vou dizer que isso ocorre, por exemplo, na arte do Bob Wilson ou na arte do Tadeusz Kantor… no teatro desses dois, eles não fazem isso! Por quê? Porque cada arte tem o seu próprio cristalino, o cristalino, que eu trouxe de presente aqui, foi o cristalino da arte pictórica. Se há um cristalino teatral? Há: não é esse! (Não sei se você entendeu…) Se há um cristalino do cinema? Há: não é esse! Porque nós estamos acostumados a pensar arte em termos de a arte. Isso é a maior tolice! O que nós temos que pensar é em arte musical, arte pictórica, arte da dança, etc. ― as artes são práticas e concretas. Então, sim: há um cristalino pictórico? Há. Há um cristalino teatral? Há. No século XX há as tentativas do Bob Wilson, do Kantor, de alguma maneira, esse menino aqui do Brasil, o Gerald Thomas. Dizem que ele imita muito, eu não vou discutir essa questão. Ele tenta alguma coisa diferente… Tenta alguma coisa diferente! Nós vamos ter que verificar…

Então, vai chegar um momento em que nós vamos discutir o teatro, discutir o cinema. Nós vamos ver tudo isso! Eu só quis citar o pictórico, porque o pictórico está ligado ao arquitetônico; e me parece que foi essa a questão que ela fez.

Aluno: Tem alguma coisa a ver com a arte conceitual?

Claudio: Não. Olha, eu escrevi um texto para a apresentação de um grupo de conferências que uns alunos meus estão fazendo, um texto de apresentação em que em duas frases eu mostro o que é arte conceitual. Se tivesse o texto aí? Eu mostro exatamente a diferença do que seria a arte conceitual.

(Como é seu nome? – Hailton. Você é meu aluno? – Não, essa é a primeira vez que eu venho aqui. Você vai ser meu aluno? – Espero! Então, se você vai ser meu aluno, você espera, que essa diferença eu faço na frente. Porque se eu fizer essa diferença hoje, Hailton, eu entro nisso e a gente não sai mais. É muito apaixonante… eu teria que explicar o Hume… sem o Hume vocês não compreenderiam, pois que o Hume é um filósofo duro, fechado, e só uma abertura muito poderosa desse autor levaria ao entendimento. Eu tenho a certeza que levaria ao entendimento. Então, Promessa… (Promessa, Zé Luiz… O Zé que marca as coisas para mim. Então, no começo da aula que vem eu faço a distinção entre a arte conceitual e a arte não conceitual, via Hume…)

Aluno 2: Eu queria só dar um exemplo até para você me esclarecer melhor. O Escher, que tem aquelas torres que os caras sobem e descem ao mesmo tempo, aquela escada que você sobe e desce ao mesmo tempo… aquelas coisas…

Claudio: Uma coisa você já sabe, Carlos. O Escher promove nitidamente o paradoxo nas artes figurais. Concorda? Você parte daí, filho. O paradoxo pode estar no interior do orgânico? Não, nunca! O orgânico rejeita o paradoxo. Se por acaso o Escher só tivesse como espectadores da obra dele o povo de Macaé ― a cidade onde eu nasci ― ele ia morrer de fome! Lá só tem orgânicos! É preciso que alguns, que romperam com o orgânico, aceitem o Escher. Entendeu? Por quê? Porque ele rompeu com o orgânico. Agora vamos dizer: o Escher é um autor cristalino? Eu posso falar que ele não é um autor orgânico… porque o paradoxo não pertence ao orgânico! Entenderam? Nitidamente, ele tem aquela Torre de Babel, que é um contra-plongée como eu nunca vi na minha vida! É um mergulho. Eu nunca vi daquilo na minha vida, algo tão bonito quanto aquele contra-plongée! Nenhuma vez o cinema fez aquilo. E aquilo necessita de um paradoxo… Logo, ele rompe com o orgânico.

Aluna: Só para fechar essa questão do pictórico… A arte renascentista tem essa coisa da perspectiva; a perspectiva tem a ver com o ponto de vista; o ponto de vista tem a ver com a subjetividade; e a subjetividade tem a ver com o orgânico.

Claudio: Melhor ainda: tem a ver com figura e fundo. Você parte da noção de figura e fundo, que é bastante para você começar a entender quando eu for fazer a distinção do renascentista para o barroco…

Aluna: Tá. Mas eu estou tentando ver se eu consigo inserir o conceito do subjetivo com o orgânico. Quer dizer, a presença de um ponto de vista significa que há uma subjetividade…

Claudio: Não usa subjetividade não, você deve usar psicológico…

Aluna: Tudo bem!

Claudio: Usa, aí, psicológico e orgânico. Onde há orgânico, há necessariamente o psicológico. Onde há psicológico, há necessariamente o orgânico. Usa aí. Você entendeu?

Aluna: Entendi.

Claudio: Quando eu falo orgânico, é uma espécie de economia de palavra. Realmente não é orgânico, é psico-orgânico. Onde está o orgânico, está o…

Aluna: O psicológico.

Claudio: E onde está o psicológico, está o orgânico! Agora, a palavra subjetivo… é deficiente. Por quê? Porque no uso transcendente das faculdades há uma subjetividade não-orgânica.

Aluna: Então, vamos lá. O cristalino e o orgânico.

No século, acredito que IV ou V d.C., havia um grupo de filósofos chamados neo-platônicos, cujo chefe chamava-se Plotino, autor de uma obra chamada As Eneadas ― composta de seis livros, cada um contendo nove tratados; quer dizer, são cinqüenta e quatro tratados. Na Enéada III, tratado 8, aparece um capítulo com o título A Natureza, a Contemplação e o Uno. Não importa o Uno nem a Natureza; importa a contemplação! De repente, esse autor chamado Plotino, começa a fazer um trabalho sobre essa figura chamada contemplação e é um trabalho tão violento, que os séculos não souberam notá-lo. Ele passou quase que escondido, a não ser por filósofos notáveis, que foram seguindo aquilo que o Plotino havia dito na Enéada III, tratado 8. Esses filósofos são Hume, Nietzsche, Espinosa, etc.. Eles foram atravessando essa questão.

Contemplação, em grego, quer dizer teoria. Literalmente. “Olha, o Senhor X é um teórico…” ou seja, o Sr. X é um contemplativo.

Então, Plotino pega essa noção de contemplação ― e essa noção de contemplação se origina no pai teórico dele, que se chama Platão. Então, se há essa noção de contemplação no Plotino, essa noção de contemplação se originou…  (Atenção, vocês não estão dando atenção, hein? Essas coisas informativas eu não volto nunca. Eu só volto às questões de pensamento. Então, isso se origina em Platão ― a noção de…

Alunos: Contemplação.

Eu hoje não vou dar como o Platão trabalhou em contemplação. Eu vou apenas dizer que Platão trabalhou em três tipos de contemplação: científica, religiosa e filosófica ― mas eu não vou dar importância a isso. Os três tipos de contemplação que Platão trabalha são três tipos orgânicos. Logo, humanos.

Agora, quando chega em Plotino, o que ele fala de contemplação é assustador! Olhem que coisa interessante: prestem atenção! Quem puder, olhe aquelas plantas ali ― olhar! Elas são verdes… As plantas são verdes! Vocês já viram rosas? São coloridas… As margaridas, as tulipas, as formas da tulipa, a textura do corpo da flor, a cor da flor, o aroma da flor. Não é isso?

Quando vocês pegam um pintor orgânico, o que é que ele faz? Ele se distancia da tulipa, coloca a tela dele ali e pinta a tulipa. A tulipa no quadro é o representante; a tulipa real é o representado, e o conjunto é a representação. O espectador quando entra diante de uma tulipa, torna-se o representante, que observa um representado e nasce outra vez o esquema da representação. Mas será que o importante nas tulipas, nas rosas, nas plantas verdes é o que elas são, ou as forças que as produziram? O que será? Que natureza é essa que não tem mãos, não tem pés, não tem nenhum instrumento como palanca ou qualquer instrumento arquitetônico… Como é que a natureza produziu essas plantas? É exatamente a questão de pintores do tipo Cézanne, Paul Klee, Francis Bacon… Eles não são pintores representativos: a eles não interessa a forma dos objetos. (A forma de uma rosa é a cor da rosa, o aroma da rosa, a textura da rosa… Para eles, nada disso interessa!) A eles, interessa a força que produziu essa rosa. Essa força que produziu essa rosa é apreensível pela sensibilidade? Não; logo, é preciso o uso transcendente das faculdades. Apreender as intensidades, que produzem as coisas. (entenderam? É muito bonito, mas ainda é vago, hein…). É aí que vai nascer a ideia de contemplação em Plotino.

Plotino diz que a natureza não age. Olhem o que eu estou dizendo: é quase que assustador: a natureza não age! Mas a natureza não age, então como é que existem rosas? A rosa não é o produto da ação da natureza? Diz o Plotino: não! É o produto da contemplação da natureza. A natureza só faz uma coisa: contemplar! E na hora que ela contempla, o que ela contempla? Ela contempla os elementos dos quais ela é constituída. Classicamente, água, terra, ar e luz; ou se você fizer pensamentos modernos, utilizando a física quântica, fósforo, carbono, etc. Ela contempla esses objetos e contrai. Ou seja: a natureza contempla a lama, contrai a lama, e dessa contração emergem rosas e tulipas. Em vez de a natureza agir, a natureza…

Alunos: contempla e contrai.

Claudio: Contempla; e porque contempla, contrai.

Então, eu lancei pela primeira vez a noção de contemplação, vinda de Plotino…

Aluno: Baseado em quê, o Plotino diz que ela contempla?

Claudio: Nós vamos ver: foi baseado no Plotino já fazendo uma experiência com o tempo puro. Ele foi o primeiro filósofo a fazer a grande experiência com o tempo puro. Na hora que ele faz essa experiência, o que dá energia para ele é essa noção de contemplação, que ele chega nessa Enéada III, tratado 8 e diz assim: “Tudo é contemplação!” (É o título da conferência que a S. vai dar nesse grupo de conferências dos meus alunos; logo, uma conferência plotineana. (Entenderam?)

O Plotino vai introduzir essa noção de contemplação e nós vamos trabalhar, mas não hoje. Essa contemplação, que vai ser assim um espetáculo para nós, é que vai permitir que nós entendamos o cristalino, o uso transcendente das faculdades, e assim por diante. Então, o que nós temos que marcar, e aqui já é uma marca… Quem estudou comigo nas Universidades (aponta dois alunos) sabe como eu trabalho. Isso daqui é uma marca que eu estou fazendo. Para se chegar à compreensão da contemplação plotineana, nós temos que compreender a contemplação platônica, e distinguir uma contemplação orgânica e uma contemplação cristalina. Então, essa questão da contemplação platônica e cristalina será trabalhada na aula que vem. Eu vou começar a montar para vocês o problema da contemplação.

Então, na aula que vem… o que foi mesmo que eu mandei marcar?

Aluno: Hume e a arte conceitual.

Claudio: Ah! Que está na mesma questão! Então, a aula que vem vai ser toda em torno da contemplação, da mesma forma que esta aula foi uma tentativa, um sobrevôo, que eu fiz, nas questões relativas ao tempo puro. (Eu vou dar mais uma paradinha porque eu estou ruim mesmo hoje – que pena, não é?)


Parte III

… Gerou-se uma possibilidade de nós pensarmos o que se chama biologia molecular. E o biólogo molecular pensa em termos de fósforo, azoto, carbono… que são elementos atômicos, formadores de molécula ― e aí, que eles pensam assim. Os antigos não tinham a física quântica, eles pensavam os quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Então, olhem que coisa interessante: joga uma semente de rosa na terra e dessa semente vai nascer uma roseira. Como essa semente vai transformar aquela lama que a cerca em textura de rosa, aroma de rosa, forma de rosa. Mas aquela semente não tem braço. Ela faz isso por contemplação.

Aluno: Não é uma linguagem?

Claudio: Não, não é uma linguagem. Se nós reduzíssemos a uma linguagem, conforme o começo desta aula, nós estaríamos reduzindo a semente a um ser racional. Não sei se vocês entenderam… Ela não é racional. Ela não tem nada a ver com a racionalidade…

Aluno: O ADN tem um código, uma linguagem…

Claudio: Certo.

Aluno: Ele não é um ser racional.

Claudio: Olha, o que muitos quiseram fazer, é que ele era. Porque os linguistas pegaram o ADN, pegaram os códigos do ADN, e tentaram transformar o ADN numa espécie de DEUS. Porque Deus é uma questão de palavra. Deus é o quê? Acabaram concluindo que Deus era ADN. Não é isso exatamente que eu estou dizendo.

Aluno: É um código…

Claudio: Não é um código, é uma força contemplativa. É evidente que essa força contemplativa da rosa gera rosas, da tulipa gera tulipas. Logo, passa um código do ADN. Mas não é esse código que gera. O código apenas limita a produção. Não sei se entenderam: limita a produção.

Olha, a força da semente, por contemplação, sintetiza a lama. Aí, o código diz: sintetiza em rosa. Aqui, ele diz: sintetiza em tulipa. Mas não é ele quem sintetiza. Entendeu?

Então, essa síntese, ou essa contemplação, de que eu estou falando para vocês, vai-se chamar síntese passiva.

Aqui, agora, já é aula de filosofia. Aula de filosofia é o seguinte: os conceitos têm que ser compreendidos e anotados, porque eu não volto a eles. Eu os uso.

Passivo quer dizer ― não age; só isso! Passivo contempla. Passivo tem como oposto ativo. Passivo não age. Então, síntese quer dizer: juntar aquilo que estava separado. Síntese passiva quer dizer que a semente, contemplativamente, junta aquilo que estava separado ― terra com água ― sintetiza esses dois elementos; e nessa síntese emergem as rosas.

Aluno: Síntese passiva é da contemplação; e a outra?

Claudio: A síntese ativa? Já é ação. Marque assim dessa maneira, Ricardo, que na frente nós vamos ver o que é.

A síntese ativa é orgânica, viu?A síntese passiva ainda é cristalina. Então, a síntese passiva é sinônimo de contemplação: onde não há, de forma alguma, nenhuma atividade. É como se fosse um Deus cansado, um Deus fatigado… que bocejasse; e, ao bocejar, nascessem as rosas. Que beleza!

Aluno: Poético, não é?

O que mostra a tese do Nietzsche. O Nietzsche tem uma tese excepcional. O Nietzsche sempre disse: esse mundo não é matemático! Esse mundo não é geométrico! Esse mundo é estético! Tudo desse mundo é estético: é poético, é pictórico, tá? (Foi bem aqui?)

Então, síntese passiva: A síntese passiva implica, como base, a contemplação. Então, vamos colocar os nomes?

Aluno: É cristalino, não é?

Claudio: É cristalino. Mas agora você não precisa da palavra cristalino. Você precisa de contemplação; que gera síntese passiva. Síntese passiva, sinônimo contração.

Aluna: Bem, contemplação gera síntese passiva.

Claudio: Toda contemplação ― aqui aparece um enunciado terrível! Toda contemplação é necessariamente contraente. (Vamos marcar isso daí.). Toda contemplação contrai. Contrai não os elementos que ela vê; mas os elementos dos quais ela é formada.

Para compreender essa contração, um pouco à frente eu vou usar Narciso. Vocês conhecem o mito do Narciso? Narciso contemplava o quê?

Alunos: A sua imagem.

Claudio: Essa outra contemplação não contempla a sua própria imagem ― contempla os elementos dos quais ela é composta; e contrai esses elementos. Mais na frente, eu vou usar dois mitos ― Acteon e Narciso ― para vocês entenderem.

Então, há uma diferença do Narciso que contempla sua própria imagem e dessa contemplação que contempla os elementos dos quais ela é formada. Então, ela contempla terra, água e luz. Aí, contrai. Aí, emerge a rosa. (Foi bem assim?)

Essa contemplação chama-se síntese passiva. Essa noção de síntese passiva já não é do Plotino. Ela pertence aos seguidores do Plotino, como Hume, por exemplo. Mas eu posso dizer, com tranquilidade, que o Bergson, no século XX, também vai usar a síntese passiva.

A síntese passiva é contraente. (Vocês estão entendendo?)

E agora, como eu disse para vocês, é um plano final de aula, que é um plano integralmente filosófico, eu vou ter que forçar os conceitos. Necessariamente eu vou forçar os conceitos.  Eu não vou precisar que… ah, eu já entendi tudo! Não, nada disso. Eu preciso que vocês tenham uma noção, para que na próxima aula eu possa fazer mais força com isso aqui.

Os primeiros elementos que vão aparecer para o pensamento são: contemplação, mas onde houver contemplação necessariamente existe um eu que contempla. Olha como as coisas começam a ficar difíceis. Onde houver contemplação existe um eu…

Aluna: que contempla!

Claudio: Que contempla.

Então, eu estou dizendo uma doutrina (que daqui a uns três ou quatro meses nós vamos ter um teórico brilhante sobre ela, porque eu vou introduzir o Alexandre nessa doutrina) chamada animismo― que vem da palavra animus, que significa alma.

Os animistas dotaram o universo de almas. Eles dizem que tudo o que existe é penetrado de múltiplas almas. Um rochedo, por exemplo, para os animistas… o que tem dentro do rochedo? Múltiplas almas. Então, para eles, esse universo é dotado de uma matéria e dentro dessa matéria, infinitas almas. E o que essas almas fazem? Contemplam! São pequeninas almas contemplando.

Para nós, para o senso comum, para o homem orgânico, isso daqui não passa! O homem orgânico se assusta com isso!

Então, os animistas começam a dizer que tudo que você encontrar estaria povoado dessas pequenas almas, que são os eus que contemplam. Essa doutrina chama-se animismo. (Marca: na próxima aula eu vou fortalecer essa doutrina do animismo)

Então, esses eus que contemplam, contemplam e… contraem. Ao contemplar e contrair, ele vão fundar o universo psico-orgânico. (Como é difícil isso, não é? Como é chocante e violento isso daqui!)

Porque em vez de você dizer que teria um Deus transcendente que produziria o psico-organismo ou o organismo, nada disso! Tudo emerge nesse mundo dentro de um plano de imanência. Ou seja, esses pequeninos eus que contemplam, contraem e constituem o universo psico-orgânico.

Se vocês quiserem saber o que é o psico-orgânico, é muito fácil! Quando você pega um organismo, você vai ver que o organismo é feito de dobras. São centenas de dobras! Se você abrir aqui o nosso estômago, quebrar as dobras que ele tem, ele é muito mais extenso que o nosso corpo, imensamente mais extenso que o nosso corpo; porque o que esse eu contemplativo faz é produzir as dobras. (Vocês entenderam?) O universo antes dessa contemplação é um universo elástico. Quando o contemplador contempla, ele se transforma num universo plástico.

Aluna: Ele vai contraindo?

Claudio: Contraindo tudo! Tudo vai-se contraindo! Vai nascendo a vida orgânica. Porque esse ‘pequenino eu’ já é uma vida; mas uma vida não-orgânica ― uma vida cristalina. O nosso grande horror é acreditar que o organismo explica a vida: não explica! Então, essa tese é terrível! A potência não-orgânica da vida: são os pequeninos eus. (Foi bem aqui?)

E marcar isso que eu estou dizendo: (isso ainda não pode ser para a próxima aula!) o organismo, que nós consideramos ser a fonte da vida… (O que eu estou dizendo sobre isso?) …o organismo prende a vida! Toda a obra do Artaud, todo o sofrimento do Artaud ― que o Rubens Corrêia não entendeu, pensava que o Artaud dava gritos Uhhhh!!!… Nada disso! ―  Os gritos do Artaud eram porque ele não podia pensar, porque ele queria mostrar, pelo pensamento, que o que devia passar era a potência não-orgânica da vida. E nós, os humanos, só damos importância ao organismo e, com isso, prendemos as forças fundamentais da vida ― que são não-orgânicas. Então, eu estou explicando para vocês que esse eu contemplativo, contraente, faz nascer o organismo. Embora ele próprio não seja orgânico. (O que vocês acharam? Certo? Olha eu acho que eu já vou terminar, que eu já estou ficando sem ar. E a aula foi muito bonita, muito rica, muito bonita!)

Esse eu contraente-contemplativo é questão pura. Tudo nele é questão! Agora, quando nasce o psico-orgânico, tudo no psico-orgânico é problema. Então, nós temos: a questão – no cristalino; o problema – no orgânico. Certo?

Aqui eu começo a mostrar para vocês o projeto matemático da vida. Da mesma forma que eu mostrei para vocês que causa e efeito é um ser físico; o problema é um ser matemático. Mas nós podemos transportar esse ser matemático para as questões existenciais. Por isso que o Sartre, por exemplo, falava em ‘problemas’ propriamente existenciais. Chama-se o deslocamento de uma entidade ou de uma potência, de um domínio ― no caso, o problema de uma potência matemática, você transforma para questões existenciais. E as questões existenciais estão marcadas de problemas! Então, a figura que eu marquei para vocês foi o eu contemplante e contraente questiona; e o orgânico problematiza. Marquem isso porque na aula que vem veremos ‘questão-problema’ x ‘necessidade’.

Ponto final!

Podem perguntar, não é? Mas a aula já chegou.

Aluna: O minimalismo tem alguma coisa a ver com o cristalino?

Claudio: Muito. Demais! Que músico, por exemplo, você chamaria de minimalista?

Aluna: Ah, Philip Glass…

Claudio: Por exemplo. Ele só trabalha com a repetição. Ele e aquele menino o Steve Reich. Mas o Philip Glass, não é? Sobretudo o Philip Glass da década de setenta, não é? que é excepcional, só trabalha com a repetição. A repetição é fundamentalmente cristalina.

Aluna: A Pina Bausch seria cristalina também?

Claudio: Olha, ela tenta, ela tenta. Ela recebeu um elogio incrível daquela bailarina-coreógrafa, que esteve aqui, a Carolyn Carlson, que deu uma relevância incrível à Pina Bausch, eu gostaria de ver os trabalhos dela, eu conheço pouco, eu conheço de vídeo. Eu não vi nada cristalino nesses vídeos; espero ainda ver, entendeu, Márcia? Eu não estou fazendo nenhuma crítica à Pina Bausch, de forma nenhuma! É que eu ainda não vi. Mas eu acredito que sim. Acredito que sim, porque, inclusive, a repercussão que ela tem, não é, junto a grandes pensadores, do tipo John Cage, e quem mais?, o Merce Cunningham, toda essa gente… Acredito que sem dúvida é cristalina, mas eu queria uma confirmação, quando eu vir um trabalho feito por ela. (Foi bem a resposta?)

Claudio: Você tinha a questão do cristal, não é, J.?

As aulas do cristal, qualquer hora dessas vocês vão ouvir o Dudu me substituindo aqui e falando sobre o cristalino. E vocês vão ficar entusiasmados e dizer: Ah! Dudu fala, eu também quero falar… e aí o negócio começa a crescer, não é Dudu?

Então, está bem. Vejam se vocês têm mais perguntas… se não têm, eu vou zerar.

Aluna: Então, o orgânico vai nascer do cristalino?

Claudio: Nasce.

Aluna: A presença desses pequenos eus…

Claudio: Na verdade, do Tempo Puro gera-se o psico-orgânico.

Eu vou lá para fora tomar ar.

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