Aula de 02/02/1996 – O movimento periódico e a forma vazia do tempo

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 11 (Conceitos); 14 (Literatura); 17 (Aion) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 


[…]

– o real e o sonho. Porque o real teria suas conexões lógicas, suas figuras próprias; e o sonho, como o imaginário, seria uma espécie de… [Salvador] Dalí no real ― algo como um esticamento, uma decomposição dos princípios do real. Então, no orgânico, real e imaginário se opõem, estão em relação de oposição. Por exemplo, você vai ler um romance. Você vai ler, O Amante de Lady Chatterley [de D. H. Lawrence]. Você está lendo O Amante de Lady Chatterley. Aí, o Lawrence faz uma narrativa e aquela é a narrativa real. Se por acaso em algum momento ele contar alguma coisa que estaria se passando na mente do Mellors ou da Lady, ele terá investido no imaginário, terá investido no sonho. E nós, os leitores, temos essa oposição muito clara: o sonho tem seus princípios, suas regras; e o real tem também suas próprias regras.

Quando nós passamos para o cristalino, desaparece a oposição entre o real e o imaginário. O real e o imaginário se tornam indiscerníveis.

Eu vou tentar usar um exemplo para desencadear a aula. Um bom exemplo é o cinema do Tarkovski, no qual você nunca sabe se o que está se passando é um sonho, se é real ou é imaginário. (Mas, pela reação de alguns, acho que o Tarkovski não pegou muito bem para todos…)

Quando você vai ao cinema, geralmente os diretores chamados diretores B colocam o real – uma determinada luz e uma determinada postura da câmera. E quando passam para o imaginário ou para o sonho, eles costumam desfocar; mudar, inclusive, a postura da câmera… Então, eles distinguem o real do sonho, colocando-os claramente em oposição. Inclusive eles alteram o movimento dos personagens…

Agora, quando você passa para o cristalino, o sonho e o real são indiscerníveis. Você nunca pode precisar se aquilo é um sonho ou se é uma realidade. É o que eu estou dizendo, você pode citar até o Godard onde você tem o real, o sonho, o imaginário… tudo misturado. Você não sabe exatamente o que está se processando ali.

A nossa dificuldade de aceitar essa indiscernibilidade é porque o nosso espírito está mergulhado, está enraizado na representação orgânica; é que nós raciocinamos sempre em termos de oposição, sempre em termos de opostos. Nós nunca temos essa noção de indiscernibilidade, porque o indiscernível pertence ao cristalino.

Foi o ponto de partida!

A partir de agora, nós vamos trabalhar no orgânico. Vamos dizer exatamente o que é o orgânico… tentar dizer o que é o orgânico, para poder entrar no cristalino sem que o orgânico se torne um obstáculo para isso.

Em todas essas aulas que nós já tivemos (foram cinco, esta é a sexta, me parece que é isso, não tenho nem certeza…) houve três figuras que nos acompanharam, que são as figuras principais da filosofia: o plano de imanência, a personagem conceitual e o conceito. (Tá?). Então, agora eu vou passar a falar de representação orgânica. Eu acredito que nós vamos ter uma certa facilidade nesse caminho que eu vou iniciar, porque é na representação orgânica que nós costumamos situar a nossa vida. O cristalino é sempre uma espécie de voo alto, uma fuga que alguns fazem, nós mesmos fazemos, algumas vezes.

(A aula agora começa a ser filosofia. Um pouco de filosofia, um pouco de física.)

Grécia, um pensador, filósofo, chamado Aristóteles. (Tá?). O Aristóteles vai fazer uma afirmação. A afirmação que ele faz deve-se ao ímpeto ou intuito que ele tinha de compreender e distinguir o que é movimento e o que é tempo. Movimento e tempo.

(Vou dar uma pequena esclarecida para vocês).

O tempo, por exemplo. Existe um enunciado de Santo Agostinho em que ele diz que o tempo é aquilo que nós entendemos quando não pensamos nele… e aquilo que nós não entendemos quando pensamos nele (Certo?). Por isso, evidentemente, qualquer pensador que se encontre diante de uma questão como a do movimento e do tempo vai ver-se frente a uma complicação terrível. E o Aristóteles escreve uma vastíssima obra querendo cobrir, à maneira de uma enciclopédia, todos os saberes. E entre as suas obras, uma das principais é a Física ― que, em nossa língua, no francês e no inglês está traduzida em dois volumes. E, na Física, o Aristóteles vai emitir um precioso enunciado para desencadear o que vem a ser a representação orgânica.

Essa aula é uma aula de idas e vindas, porque eu afirmo alguma coisa, vocês vão compreender aquela coisa e não vão saber aplicar. Por isso eu retorno, volto, ando… é… como o amor em Bizet ― o pássaro rebelde, que ora vem e ora foge… Então, é um estilo de aula, como o amor para o Bizet, ― logo, uma aula cristalina.

O movimento para Aristóteles é o deslocamento de um corpo de um lugar para outro. Então, movimento… é muito simples: quando esse corpo se desloca daqui para cá, isso se chama movimento. É só você observar e verificar que um corpo, quando não está em repouso, está se deslocando ― e esse deslocamento chama-se deslocamento translativo. É isso o movimento. Então, quando Aristóteles pensa o movimento (eu estou simplificando um pouquinho, mas muito pouco!) ele identifica o movimento a deslocamento de um corpo de um lugar para outro lugar (certo?). E em seguida (agora é que vai me interessar) quando ele visa a compreender o que é o tempo. Ele já disse o que é o movimento: que é o deslocamento que um corpo faz de um lugar para outro lugar. Agora, o tempo… ele vai dizer que o tempo (ninguém se assuste) é a medida do movimento. O que quer dizer isso? Ele quer dizer que o tempo é aquilo com que se mede o movimento. Lembrem-se: estou falando da representação orgânica. (Ninguém precisa ficar preocupado que eu vou explicar). Então, movimento ― deslocamento de um corpo de um lugar para outro lugar. Então, o que ele vai chamar de tempo é, segundo ele, o número do movimento. (Vamos ver o que é isso).

Por exemplo, nós conhecemos os números inteiros: 1, 2, 3, 4, 5. Aí a Sílvia vira-se para mim e diz assim: “Eu vim de Copacabana para cá”. Aí eu pergunto: “Sim, você veio de Copacabana para cá. Quanto tempo você demorou?” ­- “Duas horas”, ela responde. Olhem essa expressão: duas horas. Nessa expressão duas horas, o primeiro termo é um número inteiro, vocês concordam? Duas ou três ou quatro ou cinco, quinhentas horas… O primeiro termo é um numero inteiro e o segundo termo é um período. Ela poderia dizer: “Demorei cinco minutos.” Minuto seria a marca de um período. Hora é a marca de um período. Mês é a marca de um período. Ano é a marca de um período. Século é a marca de um período. Primavera… duas primaveras, dois outonos, duas temporadas de chuva. Então, tempo para Aristóteles é o número inteiro e o nome de um período. Isso é o tempo para ele. O tempo é o número inteiro e o nome de um período.

Por exemplo, quando você diz: Senna atravessou aquela pista em 2 horas e 26 minutos. Horas e minutos são as marcas do período.

Então o tempo é aquilo com que nós numeramos o movimento. Nós compreendemos o movimento através de um número qualquer num determinado período.

Por exemplo: aquele homem viveu 150 anos. Foi o período de vida dele.

O nome que se acrescenta ao número chama-se período. Primavera, hora, minuto, segundo… Então, quando o tempo é o número do movimento é um numero inteiro mais o nome de um período qualquer, que pode ser horas, pode ser primavera, pode ser estação, pode ser qualquer período… Qualquer período que você quiser nomear passa a ser o número do movimento. (Vocês entenderam?) Número inteiro, mais um período. Então, quando você tem o movimento x e tem o número inteiro mais um período…

Vamos dar um exemplo de um número inteiro mais um período? Dois anos, 35 meses, uma primavera, quatro estações. Tudo isso é período. É um número inteiro mais o nome de um período, qualquer período. Você pode, inclusive, inventar o período. Quanto tempo você demorou para vir da cidade até aqui? Eu demorei 55 beijos do Clark Gable na Vivien Leigh. É um período. Tanto faz como você vai nomear o período (certo?). Então, para Aristóteles, o número inteiro mais um período é o número do movimento. E ao número inteiro mais um período [Aristóteles] chama número numerado.

― O que é o número numerado? É o número inteiro mais um período. Dois anos – número numerado. Dois dias – número numerado. Dois – número inteiro. Então, o número numerado é o número inteiro mais um período.

Então, para Aristóteles, quando você quer medir um movimento, você assinala, no movimento ― um número inteiro mais um determinado período, não importando qual ― inclusive os beijos que o filho do Aristóteles dava no Teofrasto, o principal aluno do Aristóteles.

[Risos…]

(Tá?) Não importa qual. Isso se chama número numerado e o tempo passa a ser identificado a período ― tempo igual a período. Qual período? Não importa qual; é um período! E sempre que você produzir a noção de período, esse período necessariamente tem um código. Ou seja, você nomeia um determinado tipo de movimento ― o movimento das minhas mãos quando eu falo. Você nomeia um número, nomeia um período e isso se chama número numerado. Isso é o numero numerado. Então, para Aristóteles, o tempo é o número numerado do movimento.

(Querem falar?…)

E a partir daí, a compreensão que Aristóteles tem do tempo… é a identificação do tempo com um período. O tempo é um período qualquer.

(Eu vou investir muito aqui até eu verificar que vocês compreenderam bem).

O tempo é um período qualquer. Para Aristóteles, isso é o tempo. Logo, se o tempo é um período qualquer e a noção de período é um sinônimo da noção de código, o tempo é uma coisa codificada. O tempo é algo codificado. E esse código do tempo é aquilo que administra o movimento. Quer dizer, o movimento tem uma ordem, um equilíbrio, por causa do tempo, por causa do período temporal que está administrando aquele movimento. É como se o movimento e o tempo estivessem presos um ao outro. O movimento se submete a um período; e o período se submete ao movimento: um está ligado ao outro. Mas, na verdade, o que importa aqui (Atenção: apontem, se vocês tiverem dificuldades…), é que o tempo passa a ser identificado a período. Não importa qual seja o período, ele é um período. Quando eu falar em tempo, sempre que eu falar em tempo, segundo ele, eu estou falando num período qualquer. Não importa qual o período que ele vá utilizar. Ele pode usar, por exemplo, duas olimpíadas (a olimpíada na Grécia demorava 4 anos). Mas ele está dizendo isso: “olha, há duas olimpíadas que eu não te vejo”. “Eu não te vejo há duas copas do mundo”. Copa do mundo, no caso, é um período. Esse período é o tempo. Então, segundo Aristóteles, sempre que o tempo aparecer, ele estará preso a um período; ele está dentro de um período; ele é um período. Não é possível pensar-se o tempo fora de um período ― necessariamente, ele é um período. E sendo um período, o movimento fica submetido a ele. O movimento fica submetido a esse período, pelo fato de que o movimento é compreendido pelo período que se deu. Então, a nomeação do Aristóteles é: o tempo é o número do movimento. Vamos acrescentar: o tempo é o número numerado do movimento. Número numerado = período.

― O que aconteceu aqui? O tempo ficou preso no período, ele ficou preso no período ― preso! Essa prisão do tempo… Essa palavra prisão… pega, pega: preso no período ― o período é ele! Necessariamente, quando o tempo aparece, tem que ser dito por um período: porque ele se apresenta sempre periodicamente. Não há um tempo que não seja periódico: o tempo sempre aparece num período.

Aluna: O tempo seria uma unidade? Quer dizer, o tempo enquanto período é o aprisionado… E o tempo realmente, ele é uno?

Claudio: Ele é uno e múltiplo, porque ele é este período, aquele período, o outro período: ele é vários períodos. Você não pode dizer que o período “copa do mundo” é idêntico ao período “minutos” ― não é a mesma coisa! Por exemplo, tem pessoas que se equivocam muito na marcação do período. Às vezes você não sabe exatamente qual período deve ser aplicado naquele movimento que está ali. Mas isso pouco importa. O que importa para nós é o fato dele ter tornado o tempo periódico.

Aluna²: E esse tempo domina [trecho inaudível]

Claudio: Não, o senso comum é dominante; o senso comum é inteiramente dominante! Nós só sabemos trabalhar com esse tempo periódico.

Vamos tentar compreender que período é sinônimo de código,ou seja ― se alguma coisa está no interior de um período, aquele período codifica aquela coisa. Por exemplo, eu estou medindo o tempo em termos de “primavera”. Se eu estou medindo o tempo em termos de primavera, a primavera é o código do tempo; o período é o código daquele tempo que está sendo medido. Então, você tem aí o que se chama ― o tempo preso ao movimento por causa do período. O tempo fica submetido ao movimento ― porque a gente só compreende o movimento por um período dado.

Se eu perguntasse, por exemplo: ― Qual o tempo que um carro importado demora para vir do centro da cidade à Praia de Copacabana? Que tempo demora? Aí você me responderia: qual o período? O período do rush? O período da madrugada? Então, o período ― é exatamente onde o tempo vai ser incluído, onde ele vai ser incluído. E o tempo se identifica ao período. E o número que se dá ao período é um número variável ― é a variável dependente. O numero que você dá ao período é qualquer número. Por exemplo, ir até a esquina da Rua Marques de São Vicente, daqui, da Rua dos Oitis, até a esquina da Marquês de São Vicente ― se for a Silvia, são 45 minutos. (Risos… Entenderam?). Então, o período prende o movimento!

Eu vou identificar período a código. Período e código é a mesma coisa. Nessa maneira aristotélica de pensar, portanto, o movimento que o tempo mede é o movimento periódico ― o movimento é dominado pelos períodos temporais. Por isso, o movimento e o tempo são codificados, eles são codificados. (Ainda está difícil aqui?). Se o tempo é um período, o movimento é necessariamente periódico ― ele é preso às regras do período. O que há de mais importante é que isso é definitivo: o tempo é identificado ao período e o movimento se torna uma coisa inteiramente ordenada. O movimento se torna inteiramente ordenado, porque o que dá ordem ao movimento é o período. O período dá a ordem do movimento. “Esses 100 metros você tem que atravessar em 2 horas”. Então, esse é o período em que você organiza o seu movimento. O movimento recebe a codificação do período e se torna organizado.

(Eu vou dar por entendido, tá? Mais na frente eu volto…).

Esse processo aristotélico vai começar a se desfazer ainda no mundo aristotélico. O que vai começar a acontecer, de uma maneira assim extasiante, é que o tempo vai começar a se libertar do movimento. Ora, a única maneira que o tempo tem para se libertar do movimento é se ele deixar de ser período. Porque se ele deixar de ser período, não há como medir o movimento. Se ele perder a periodicidade dele, ele não pode mais medir o movimento. E se ele não puder mais medir o movimento, o movimento se torna enlouquecido. A organização, a retidão, a virtude do movimento é dada pelo tempo, é dada pela periodicidade do tempo.

O movimento ou o deslocamento de um lugar para outro lugar, conforme determinado período: duas horas, dois dias, cinco anos… (Certo?). Mas o que vai acontecer (e eu vou começar a dizer isso um pouco mais à frente para vocês) é um racha no mundo aristotélico. Que tipo de racha? O tipo de racha é que o movimento e o tempo vão começar a se separar. O movimento e o tempo vão começar a se separar quando o Aristóteles…

(Eu agora vou ter que dar uma aula de Aristóteles; e eu acredito que essa aula vá fortalecer vocês.)

O Aristóteles dividia a natureza em: debaixo da lua e acima da lua. Acima da lua, ele chamava de supralunar e no supralunar só havia um tipo de movimento, era o movimento das estrelas fixas. E o movimento das estrelas fixas é o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. E nesse movimento de rotação sobre o próprio eixo você teria o movimento uniforme e perfeito. E esse movimento é um período!

Ou seja, o que é o movimento supralunar, que, segundo Aristóteles, é o único movimento que existe acima da lua? O movimento das estrelas. O movimento das estrelas não é o movimento translativo ― porque, para os antigos, a estrela é fixa. Ela é fixa, mas tem um movimento sobre seu próprio eixo. Então, esse movimento sobre seu próprio eixo é chamado movimento perfeito e uniforme. Uniforme e perfeito. E esse movimento é um período. Quer dizer, o movimento circular que um corpo faz em torno do seu próprio eixo é um movimento perfeito e uniforme ― e é periódico. Então, para Aristóteles, no mundo supralunar, quer dizer, no mundo acima da lua, só existe um tipo de movimento ― que é o movimento das estrelas fixas. Não há contradição em dizer ‘movimento das estrelas fixas’ pelo fato de que o movimento das estrelas fixas é uma rotação sobre seu próprio eixo (Certo?). Então, a gente tem o movimento que é um movimento eternamente circular, uniforme e periódico. Você pode aplicar ali um período qualquer, que aquilo vai ser mantido eternamente ― quer dizer: o movimento supralunar das estrelas girando sobre seu próprio eixo é um movimento inteiramente periódico.

Agora, existe o mundo sublunar, que é o mundo da Terra ― o nosso mundo. E nesse mundo existem as trajetórias, os deslocamentos dos corpos; e os corpos, em seus movimentos, alteram a sua velocidade ― aumentam sua velocidade, caem, sobem… e o movimento começa a se separar do período ― o movimento começa a enlouquecer, você começa a não poder mais introduzir um período no movimento. Por quê? Por quê? O movimento vem assim ― zummm… De repente, faz assim ― zum, zumm, zummm. [Claudio traça no ar um exemplo de mudanças de movimento.]

Aluna: O movimento perde a regularidade.

Claudio: Perde a regularidade: perde a uniformidade e perde a perfeição. Você encontrava a regularidade dele, com integral perfeição, nas estrelas de movimento de rotação em torno do seu próprio eixo. Essa regularidade é igual à uniformidade e perfeição. Não é isso? Perfeito e uniforme.

Com a passagem para o mundo sublunar, que tipo de movimento vai haver? Movimentos de elipse, movimentos angulares os mais enlouquecidos, aumento de velocidade, ralentação… Então, o mesmo objeto aumenta a sua velocidade, ralenta… O que significa que, sobre ele, não se pode aplicar nenhum período ― ele se torna aperiódico. E esse movimento ― separado do período ― (não vejo como empregar um período aí dentro) vai-se chamar movimento aberrante.

Então, nós temos aqui dois movimentos: o movimento do mundo supralunar… (vocês entenderam o supralunar?) que é o movimento de rotação, chamado de movimento uniforme e perfeito; e, no mundo sublunar, sobretudo por causa das alterações de velocidade, nós vamos encontrar o movimento aberrante. Mas se vocês quiserem verificar a enormidade do movimento aberrante… por exemplo, no cinema. O cinema é capaz de reconstituir uma garrafa quebrada: é só passar o filme de trás para diante… Então, o cinema é nitidamente o lugar dos movimentos aberrantes.

O que quer dizer movimento aberrante? O movimento aberrante é quando o movimento se separa do período. Quando o movimento se separa do período, ele começa a se tornar aberrante e o tempo a se tornar aperiódico. O tempo vai se libertando do movimento, ele vai se libertando do período no qual ele estava incluído.

Enquanto o movimento estava incluído no período, enquanto nós pensávamos o tempo segundo um período ― é porque nós partíamos do movimento para entender o tempo. No momento em que aparece o que eu estou chamando de movimento aberrante, o tempo já não vai mais ser pensado pelo movimento ― ele vai ser pensado diretamente. Ao ser pensado diretamente, ele já não depende mais do movimento para explicar o tempo ― o tempo deixa de ser periódico para se tornar uma pura forma vazia. Ele se torna uma pura forma vazia.

― O que quer dizer uma pura forma vazia? Este conceito é kantiano; e é um conceito aparentemente difícil… mas não é. Não é um conceito difícil. Para se entender o que é uma pura forma vazia em relação ao tempo, é só tirar do tempo o período. Você tira a noção de período do tempo, ele se torna uma pura forma vazia. Ou seja, o tempo não é outono, não é primavera, não é ano, não é minuto… Qual é o conteúdo do tempo? Anos? Horas? Minutos? Não! Nenhum, ele não tem. Ele não é periódico. Ele não tem mais período nenhum. Quando ele perde a periodicidade dele, anos, horas, minutos, seja o que for… ele se torna o que se chama pura forma vazia. Então, a história do tempo é exatamente a que eu acabei de contar para vocês. A história do tempo (eu vou usar uma linguagem um pouco forçada) é a passagem que nós fazemos do supralunar para o sublunar, no sentido de que no sublunar o movimento começa a se separar do tempo. E nessa separação que o movimento vai fazendo do tempo dois processos vão acontecer: o tempo vai se libertar do período; e o movimento vai se tornar aberrante ou enlouquecido. Aberrante e enlouquecido, como ela colocou, o movimento perde a regularidade. Ele se desregula. É como que um relógio em que a corda afrouxou. E o tempo se separa do movimento.

Esse já não é mais o momento aristotélico; esse é o momento kantiano. O que eu estou dizendo para vocês é que quando Kant chega, no século XVIII, ele não vai encontrar o mesmo movimento e o mesmo tempo de Aristóteles ― porque o Aristóteles quando pensa o movimento, pensa o movimento como perfeito, uniforme e periódico; o período indicando tempo; e o tempo medindo o movimento. Agora, quando você passa para o sublunar, esse movimento começa imediatamente a se libertar do período. Você não tem como jogar o período ali em cima; você fica confuso: que período eu vou jogar ali em cima?

E nessa separação que começa a nascer entre movimento e tempo periódico, o movimento vai se tornando aberrante. O que quer dizer movimento aberrante? Ele se torna irregular, sem observação possível. Ele já não tem mais nenhuma regularidade. E não tendo regularidade, você não pode aplicar o período em cima dele. E a partir do momento em que o movimento começa a se tornar aberrante, começa a se tornar irregular, simultaneamente o tempo se libera do movimento.

Aluno: [trecho inaudível na fita]

Claudio: Não, não coloca isso aqui não. Não agora, senão você se perde.

O que vai acontecer agora é que o tempo vai começar a se liberar do movimento. Então, quando Kant, no século XVIII, chega para pensar, ele vai encontrar a definição de Aristóteles. Qual é a definição de Aristóteles? O tempo é o número do movimento. Ou melhor, o tempo é o número numerado do movimento. O número numerado é o número inteiro mais o período. (Não é?) É essa a definição dele. Mas quando você encontra Kant, ele diz que o tempo é uma pura forma vazia. E imediatamente, quando nós encontramos essas duas definições ― uma definição do Aristóteles e uma definição do Kant ― e, dessas definições, uma privilegia o movimento no sentido de que o movimento é a razão e a causa do tempo: o período só existe por causa do movimento; se não houvesse movimento não existiria período. Então, para Aristóteles, o tempo é o número do movimento.

Quando chega Kant, ele diz que o tempo é uma pura forma vazia e o movimento só existe porque existe o tempo como vazio. Então, há uma inversão: para Aristóteles, o tempo é subordinado ao movimento; para Kant, o movimento é subordinado ao tempo. Portanto, você tem uma inversão.

Quando nós temos um jogo invertido desses – a postura do Aristóteles e a postura do Kant -, se eu colocasse os dois como representação orgânica, qual seria a relação dos dois? Seria uma relação de oposição. Mas não é isso, não é isso: não há uma oposição entre a postura do Aristóteles e a postura do Kant. Porque a postura do Aristóteles é orgânica, e a do Kant é cristalina.

(Vamos voltar. Acho que não teve os efeitos que eu precisava…).

O que eu disse foi que o conceito de oposição, o conceito de contradição ― e eu utilizei o real e o imaginário (não foi?) ― só pertence à representação orgânica. Se eu fosse identificar as posturas do Aristóteles e do Kant no interior do orgânico, eles estariam em oposição. E estando em oposição, um seria colocado como verdadeiro e outro como falso. Um verdadeiro e outro falso. Mas não é isso que ocorre. Um está no mundo orgânico; e outro está no mundo cristalino. Então, no cristalino, o tempo não é a medida do movimento ― o tempo é uma pura forma vazia (certo?). O tempo é uma pura forma vazia.

E aqui eu acredito que a gente pode começar a aula. No sentido de que é uma coisa dificílima esse caminho que a gente está fazendo. Compreender o que é o número numerado, compreender o que é o período, compreender o que é uma passagem teórica quase que assustadora, que é você abandonar a representação orgânica e mergulhar nesse mundo cristalino.

Deleuze cita o Hamlet de Shakespeare ― e o Hamlet diz: “o tempo saiu de seus gonzos”. O tempo abandonou as suas forquilhas, as suas dobradiças. Quer dizer o tempo, no Aristóteles… (agora veja como é que é fácil…). O tempo no Aristóteles tem como modelo a estrela fixa e o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. Sabe o que é isso, uma estrela fixa em rotação sobre seu próprio eixo? É uma porta giratória… É uma porta giratória. O movimento perfeito é uma porta giratória e o tempo está preso nessa porta giratória. O tempo está preso nessa porta giratória.

Então, aparece um gênio maligno, um deus enlouquecido, retira a dobradiça da porta e a porta enlouquece. Quando a porta enlouquece, emerge o movimento aberrante ― e o tempo se liberta do movimento.

(Conseguiram, não é?).

Eu acho que o melhor modelo que vocês podem usar é a porta giratória. A porta giratória é o grande modelo do tempo aristotélico.

E quando o tempo se liberta do movimento, toda a questão do pensamento é conquistar o tempo ― na arte, na filosofia e nas ciências: conquistar esse tempo que se libertou do movimento.

Então, quando se fala em arte e em filosofia, a questão de ambas ― da arte e da filosofia ― é ir atrás dessa porta enlouquecida. Porque conquista do tempo é sinônimo de liberdade.

Então, eu vou começar a aula; (vou pedir um café para a Silvia… me dá um café aí Eliane…) E… vejam se vocês teriam alguma coisa para acrescentar ou perguntar… Gabriela conseguiu acompanhar? Você só chegou na metade da aula, não é?… Como é que vocês conseguiriam me devolver, se eu estou bem calçado para ir pra frente. Gabriela?… Alguma pergunta?

Então, vocês podem usar como modelo o sublunar e o supralunar do Aristóteles; aí é uma coisa cultural. Eu acho melhor até que vocês usem a porta giratória. O tempo em Aristóteles é a porta giratória. É o movimento perfeito. Porta giratória é o movimento perfeito! Eternamente assim. [Claudio gira uma porta.] Olha que movimento maravilhoso! Não se altera nunca: regular, uniforme, perfeito… De repente as dobradiças… blup!… aí a porta enlouquece… Então, o tempo enlouquece e o movimento enlouquece. E o tempo se liberta do movimento.

(Entenderam aqui?).

O tempo se liberta do movimento. Vai aparecer uma expressão que vocês podem traduzir em termos até literários ou em termos políticos, não sei como vocês entenderiam, é uma distinção clássica na história do pensamento entre forma e conteúdo. Durante esses séculos todos, o pensamento se constituiu com essas duas noções de forma e conteúdo. O tempo ― no mundo aristotélico ― é uma forma; e o movimento é o seu conteúdo. O movimento e o tempo têm uma relação de forma e conteúdo. O tempo não existe sem o movimento. O movimento produz um efeito ― e esse efeito é a aparição do tempo.

Numa outra linguagem: para haver movimento é necessário que haja corpos. Então, se para haver movimento é necessário que haja corpos, por conclusão: para que haja tempo é necessário que haja corpo. Quando ― no mundo aristotélico ― o tempo está associado com o movimento, nós vamos chamar essa associação de bloco de espaço-tempo. O tempo associado com o movimento = bloco de espaço-tempo. E é nesse bloco de espaço-tempo ― que é o movimento mais o período ― que se dá a figura chamada aqui e agora. Eu estou aqui e agora neste período de aula. Quer dizer, o período mais o movimento é o que dá a noção que nós chamamos de aqui e agora ou bloco de espaço-tempo. No mundo orgânico, nós estamos imersos num bloco de espaço-tempo. O mundo orgânico é exatamente esse processo chamado de bloco de espaço-tempo, onde o tempo é ou não prisioneiro do movimento? Onde o tempo é prisioneiro do movimento!

(Vamos pegar aqui que eu acho que vou conseguir.)

Então, vamos fazer uma história, uma história orgânica: o tempo está preso ao movimento. Aí, por exemplo, no século XIX e no princípio do século XX, surgem alguns pensadores com um objetivo: libertar o tempo do movimento. Pensadores, cujo único objetivo é libertar o tempo do movimento; libertar o tempo: tirar o tempo do domínio que o movimento tem sobre ele. No momento em que o tempo está dominado pelo movimento, o tempo é chamado representação indireta ― no sentido de que você só apreende o tempo se, em primeiro lugar, apreender o movimento. Quer dizer: o tempo só aparece como secundário ao movimento. Ele é um período, então ele é secundário, ele é uma representação indireta. Agora, no século XIX, aparece um movimento literário chamado naturalismo. No século XIX-XX, o grande pensador do naturalismo é o Émile Zola. E o naturalismo é alguma coisa diferente do que eu chamei de representação orgânica. Quando se dá a representação orgânica? Quando o tempo está preso ao movimento! É o que eu chamei de representação orgânica, mas vocês também podem dar a isso o nome de realismo. O realismo literário… é o tempo prisioneiro do movimento. Agora nós vamos fazer uma tentativa de compreensão, quer dizer, nossa primeira tentativa séria de compreensão ― e eu estou dizendo séria, porque vai ser uma tentativa que será definitiva para vocês. Eu vou colocar o Émile Zola (todo mundo conhece o Émile Zola, não é?), ele é um naturalista, como nos informam os manuais de literatura. Por que ele é naturalista? O naturalismo que vai reaparecer no cinema ― eu vou colocar dois cineastas bem conhecidos ― Buñuel e Losey. Será que esses dois vocês conhecem? Não?… Losey. Buñuel, que todo mundo conhece!

O Buñuel então seria o naturalista do cinema. Qual é o objetivo dos naturalistas? Quebrar o gancho realista. Qual é o gancho realista? O tempo preso ao movimento. Quer dizer, o gancho realista é o tempo preso ao movimento ― e o naturalista liberta o tempo do movimento. Ele liberta: tira do tempo o movimento. Quer dizer, sempre que o realista for pensar o tempo, ele vai pensar o movimento: o tempo é sempre secundário. Sempre. Para ele, o tempo é uma coisa secundária.

(Ninguém se preocupe de não entender isso. Vai entender! Com umas duas ou três aulas, é claro. Mas vai entender).

O tempo no realismo é subordinado ao movimento, é o número numerado, está subordinado ao movimento. Então, no mundo realista, o processo é sempre o mesmo: o tempo é uma subordinação ao movimento. O naturalismo ― centrando em Buñuel, no cinema; e em Zola, na literatura ― o que eles pretendem é libertar o tempo do domínio que o movimento tem sobre ele; tornar o tempo independente. Quer dizer, fazer com que o tempo não seja mais um número numerado. É essa a tentativa. O naturalismo vai fazer essa tentativa. No naturalismo, eu vou apontar o Zola, na literatura; e o Buñuel no cinema.

Agora, de outro lado, vão aparecer outros autores, não naturalistas, que vão ter o mesmo objetivo. Que objetivo? Libertar o tempo das cadeias do movimento. E esses autores têm o mesmo objetivo dos naturalistas, mas não são naturalistas. Eu vou apontar dois: na literatura, o chamado Nouveau Roman... Vocês conhecem o Nouveau Roman? Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet… etc. Então, o Nouveau Roman na literatura.

E o naturalismo na literatura tem o mesmo objetivo? Sim. Libertar o tempo; separar o tempo do movimento. Ele tem o mesmo objetivo. No cinema esse mesmo objetivo aparece no Buñuel, querendo libertar o tempo à maneira naturalista. Vou explicar depois para vocês o que é. E, na outra tentativa, vamos colocar o Orson Welles. Orson Welles é conhecido.

Então, Orson Welles e Robbe-Grillet estão sentados aqui à minha direita, e eu entrevisto os dois:

O que vocês pretendem?, eu pergunto.

Libertar o tempo das prisões do movimento segundo o modelo realista, respondem eles.

Aí eu venho para o outro lado. Quem são os outros dois? Émile Zola e Buñuel.

E vocês dois, o que vocês pretendem?

Nós, respondem ambos, pretendemos libertar o tempo do domínio que o movimento exerce sobre ele.

Aí, eu abandono esses dois e procuro o Balzac e o Kazan. Vocês conhecem o Elia Kazan? Ele é um grande diretor de cinema que trabalhou com grandes autores americanos, sobretudo no sul dos EUA, Tennessee Williams, John dos Passos, Erskine Caldwell… Então, se eu fizesse a mesma pergunta para o Kazan e para o Balzac, os dois me diriam assim: “O que nós queremos é manter o tempo preso ao movimento”. Eles são realistas, eles querem manter o tempo preso ao movimento. E o que essas outras duas linhas pretendem? Libertar o tempo. (Tá?)

Então, uma é o naturalismo e a outra vamos nomear como Nouveau Roman… ou outro nome qualquer. A primeira, que é o naturalismo, liberta o tempo do movimento: eles conseguem fazer isso. Mas eles vão produzir…

Não tentem avançar sem mim […].

[virada da fita]

Lado B

[Zola e Buñuel – tempo negativo; Orson Welles e Robbe-Grillet – tempo positivo]

Nós não estamos mais tratando do tempo preso ao movimento, que é o realismo. Nós agora estamos com dois pensadores: de um lado, Buñuel e Zola ― que libertaram o tempo das cadeias do movimento. E do outro, ainda os outros dois que também libertaram o tempo do movimento, que são o Robbe-Grillet e o Orson Welles. Eu coloquei os dois que fizeram o mesmo processo.

(Tomem um café para essa segunda parte. Antes de eu começar vocês podem perguntar… Não perguntem agora não, vamos só descansar um pouquinho…)

Aluno: [trecho inaudível]

(Mais alguma? Antonio, não quer perguntar nada?)

Eu estou usando as expressões positivo e negativo em sentido quase moral. Negativo como aquilo que conduz à destruição, que conduz à morte. Seria isso o que estou chamando de negativo. Então, estou dizendo, antes até de começar a exposição, que o negativo é como aquilo que conduz à morte… O Zola e o Buñuel, pelo menos numa grande parte da obra deles, estão dominados pelo que estou chamando de tempo negativo, mas que eu também posso chamar de instinto de morte (Certo?). Eu diria então que, quando nós vamos ver um filme do único autor que eu posso citar nessa aula (porque se pudesse eu citaria mais, mas nós só temos o Buñuel…), ele não se enquadra no que se chama cinema realista.

Uma ligeiríssima passagem sobre o cinema realista: cinema realista é quando o tempo está submetido ao movimento e forma o que eu chamei de bloco de espaço-tempo. O faroeste, os filmes históricos de Hollywood, Você conhecem os filmes noir? John Huston, Howard Hawks ― Scarface, por exemplo, até mesmo o do Brian De Palma… Então, esses são os filmes chamados realistas.

 

Scarface – A Vergonha de Uma Nação (1932)

 

Quando aparecem os que eu estou chamando de “libertadores do tempo”, aparecem os negativos… Os negativos vão produzir um tempo governado pelo instinto de morte. (Ainda vamos ver o que é isso). E um outro tempo… Eu vou aplicar uma coisa muito poderosa, vamos ver se dá certo, aí eu sigo com isso nas outras aulas. Do outro lado o tempo seria governado pelo eterno retorno do Nietzsche. É por aí que eu vou chegar ao James Joyce.

[Vozes confusas…]

No século XIX, todo mundo conhece o século XIX como o século da revolução industrial, todo mundo conhece assim. Scarface (1983)Conhece como o século de crescimento do capitalismo. Correta essa afirmação… política social e política industrial.

[alguns minutos de interrupção em virtude de um temporal súbito]

Aluno: [trecho inaudível]

Claudio: [trecho inaudível] a evolução do cristal.

A termodinâmica vai colocar uma questão no tempo conforme o chamado modelo dinâmico, do Newton. Quando Newton pensa o tempo, pensa-o relacionado à questão da gravidade. E o tempo para ele é um tempo reversível.

― O que quer dizer um tempo reversível, da maneira mais simples para se entender? Você mede a velocidade de um astro do sistema solar, a sua velocidade, a sua massa, vamos dizer assim ― e, a partir daí, você pode fazer previsões de onde estarão os astros daqui a um século. E também pode fazer previsões de um século para trás. Então, as previsões da dinâmica vão assim, você pode falar indiferentemente do futuro e do passado, porque o mundo gravitacional tem um tempo reversível. A termodinâmica ― um exemplo da termodinâmica são as locomotivas – é o surgimento do tempo irreversível.

― O que quer dizer tempo irreversível? Quer dizer que o mundo se encaminha para a morte térmica. O que quer dizer “morte térmica”, neste caso? Na natureza conhecida vai começar a haver um processo de desdiferenciação e as coisas vão se tornando idênticas, até que tudo se torne absolutamente idêntico ― e nada mais ocorre. Essa é a ideia de tempo termodinâmico ― e essa é a noção de entropia.

A entropia é o tempo irreversível; mas um pensador do tempo irreversível é diferente do pensador da dinâmica, porque o pensador da dinâmica está pensando o tempo segundo o movimento; ele está pensando o tempo pelo movimento: são as regras do movimento que dão a ele a noção de tempo. Enquanto que o pensador da termodinâmica está indo diretamente para o tempo e dizendo que o tempo é irreversível. E esse tempo irreversível é o tempo da morte, é o tempo da destruição. É esse o primeiro modelo de tempo negativo. Ou seja, você liberta o tempo das forças do movimento, mas você apreende do tempo apenas aquilo que é negativo. Um dos grandes exemplos desse tempo é um cineasta chamado Erich Von Stroheim ― não sei se a maioria que está aqui o conhece… O filme dele ― que em português chama-se Ouro e Maldição ― é encontrável na locadora do Júlio, a Polytheama.

Ouro e Maldição é nitidamente o cinema naturalista, porque é um filme em que as personagens vão se encaminhando para a degradação máxima. Elas vão se degradando, vão entrando num processo de irreversibilidade, até que chegam à destruição total. Eu estou dando um exemplo, um primeiro exemplo, mais ou menos compreensível para a gente não sofrer muito com a questão… É que o que estou chamando de cinema naturalista é, em primeiro lugar, um cinema que trabalha com a irreversibilidade do tempo. O tempo irreversível. Esse tempo irreversível não depende do movimento: ele próprio é irreversível; é o próprio ser do tempo que é irreversível. Ele caminha para a morte térmica. Se vocês quiserem, existe um livro do Asimov, muito conhecido, chamado Escolha a Catástrofe. Aí vocês vão conhecer exatamente o que é esse tempo, esse tempo chamado tempo entrópico, tempo da degradação. Enquanto que, do outro lado, o Robbe-Grillet e o Orson Welles, que eu citei. (Podem ser outros…) A questão deles é a mesma. É a mesma. Mas eles querem libertar o tempo, não como um tempo que caminha para a degradação, mas como tempo criativo. É um tempo como criação.

Então, esses dois procedimentos são, talvez, dos acontecimentos mais sérios ocorridos no cinema ― que é quando duas escolas e duas tendências de pensamento libertam o tempo do movimento. Mas essa libertação do tempo com relação ao movimento vai-se encaminhar em duas direções: em primeiro lugar, o tempo se encaminha para o negativo, para a degradação, é o exemplo que estou dando; e, em segundo lugar, o tempo tomado como criação.

De alguma maneira, nós entramos no problema, no sentido de que você tem o tempo preso ao movimento. O exemplo de tempo preso ao movimento, que eu dei na aula inteira, foi o número numerado e o período no Aristóteles; mas essa questão também pode se aplicar à literatura realista e ao cinema realista. Ver um filme realista é o suficiente para vocês entenderem. Um filme do John Ford, um filme do Arthur Penn, ou mesmo esses autores atuais americanos, Lawrence Kasdan… O Spielberg, por exemplo, eu apontaria como um autor naturalista. Ele seria muito mais próximo de um naturalista do que propriamente de um realista. Quer dizer, a questão do Spielberg é libertar o tempo.

― O que é o tempo libertado? É o tempo independente do movimento. Então, como os nossos elementos são pequenos… Por que são pequenos? Porque a quantidade de exemplos que eu tenho é muito pouca. Eu não posso trabalhar no cinema, eu não posso dar determinados exemplos porque a maioria não conhece os filmes… E nós vamos fazer um voo cego. Nós vamos fazer um voo cego, utilizando o exemplo que eu dei do Stroheim. No sentido de que o filme do Stroheim só tem um objetivo: degradar! O objetivo dele é fazer um filme em que as personagens estão caminhando para a degradação máxima, para a máxima degradação!

Aluno: E O Criado, do Losey?

Claudio: Perfeitamente! É naturalista, mas o pessoal aqui não conhece, então, não posso citar o Losey.

Aluno: Casa de Bonecas – vai passar sábado.

Claudio: Vai passar onde? Casa de Bonecas é um filme que pode confundir com relação ao problema da degradação, porque não é propriamente degradação. A degradação no Losey, o negativo do Losey… É diferente, o caso do Fassbinder. O Fassbinder está mais ligado ao cinema… do tempo preso ao movimento. Já é diferente…

Nós vamos tentar fazer um esforço para apreender essas duas linhas do tempo. As duas linhas do tempo: o tempo pensado como negativo… Um exemplo do tempo negativo é a termodinâmica, porque a termodinâmica quando pensa o tempo identifica o tempo à entropia. O tempo é aquilo que é irreversível; que vai encaminhar-se para a morte e acabou. Então, a termodinâmica é pensadora do tempo ― do tempo chamado tempo irreversível.

Aluno: O Anjo Exterminador [trecho inaudível]

Claudio: Totalmente naturalista. (Quem viu o Anjo Exterminador?) O Anjo Exterminador é um exemplo excepcional para isso, excepcional, porque eles estão presos dentro daquela casa… E o que eles fazem? Eles destroem a casa inteira; destroem a casa inteira! Essa destruição é a maneira de libertar-se. Porque ela é a única maneira que o pensador naturalista encontra para se libertar do domínio do movimento ― é pela destruição. Por isso, o Buñuel, no Anjo Exterminador, destrói toda a sala daquele palácio. E eles conseguem se libertar ― porque eles saem da casa. Mas depois se prendem outra vez; se prendem outra vez na igreja. Mas todo o objetivo do Buñuel ― eu agora vou usar uma linguagem inteiramente cinematográfica ― é se libertar do cinema clássico de Hollywood. Aqueles gêneros clássicos: western, cinema psicossocial, cinema histórico… É desse tipo de cinema que ele visava a se libertar porque (por enquanto, vou usar dessa maneira) o gênero clássico do cinema estaria esgotado. Teria caído num esgotamento total, já não teria mais o que fazer ali dentro…

Surgem, então, esses autores naturalistas, querendo fazer um cinema onde o tempo não estaria preso ao movimento. E a primeira ideia que aparece é a ideia desse tempo como degradação, o tempo como entropia. O tempo como alguma coisa que é o mesmo que instinto de morte, que é a pulsão destruidora. Os personagens do cinema naturalista são pulsionais, têm ideias fixas, são predadores, são animais, querem destruir, querem romper, querem arrebentar. Com o quê? Com as amarras que o tempo tem com o movimento. E a única maneira que eles conseguem fazer esse rompimento é através da destruição.

Então, nós vamos começar a fazer o trabalho, eu vou citar um autor, em primeiro lugar, o Stroheim. Quem conhece alguma coisa de cinema, por ter visto, é o que trabalha com a Gloria Swanson em Sunset Boulevard. William Holden, Gloria Swanson… Estão lembrados? Billy Wilder. Stroheim é um diretor excepcional, um dos alemães que foram para os Estados Unidos.

Eu vou usar três autores no cinema naturalista. Eu vou usar o Stroheim e vou chamar o cinema dele de tempo negativo por degradação ou entropia. É o mecanismo dele: degradação ou entropia. Eu vou usar o Joseph Losey ― vai passar um filme do Losey, Casa de Bonecas, no próximo sábado. O Losey traz uma figura de tempo negativo extraordinária, que se chama violência contida.

(Eu vou explicar para vocês o que é a violência contida).

A personagem realista… o que marca a personagem realista é a violência explosiva. Exemplo, Marlon Brando em Um Bonde Chamado Desejo. (Lembram-se desse filme? Vocês viram esse filme?) Esse é um clássico como sendo a violência explosiva. John Wayne, Gregory Peck, todos eles do cinema realista têm uma capacidade de explodir com a violência que eles têm. A personagem do filme do Losey tem a violência contida. E aí é que aparece a primeira grande questão. Como o cinema do Losey implica em que a violência não se expanda, não apareça em explosão, que a violência seja contida, o ator do Losey abandona o modelo do Actors Studio.

(Vocês estão com dificuldade aqui? Isso que eu falei agora?… Está com dificuldade? Vocês têm que me indicar a dificuldade. A minha questão, alguns eu sei que entendem, os que não entendem me perguntem, porque eu saio por outra trilha).

Aluno: Se eu posso falar Losey, eu também posso falar Peckinpah?

Claudio: Não. Porque o Peckinpah não é a mesma coisa que o Losey, sobretudo porque nele não há essa violência contida. Pelo contrário, é uma violência explícita no que recebe o tiro. Ele criou aquilo do tiro explodindo (não é?). Não é isso; o que marca a violência contida é a personagem. E aqui tem grandes atores ― Stanley Baker, não sei se vocês conhecem, é um ator clássico dos filmes do Losey, como também o Edward Fox e o Alain Delon. Três grandes atores do cinema do Losey. E esses atores trazem no rosto a violência contida. Eu vou indicar para vocês verem essa questão no filme Casa de Bonecas. (Quando vai passar? Amanhã, às 22h.) Eu peço, por favor, que vocês vejam Casa de Bonecas. É com a Jane Fonda, e com a Delphine Seyrig, que fez O Ano Passado em Marienbad. É um filme belíssimo, belíssimo, onde vão aparecer as duas questões do Losey, as duas questões do naturalismo, que são: a mulher liberada e muito na frente do homem ― a mulher pra ele era sempre uma pessoa fortíssima e liberada, uma mulher altamente moderna; e a violência contida.

Nesse filme há uma personagem, interpretada pelo Edward Fox, eu me esqueci como é o nome desse personagem. Alguém se lembra do nome da personagem? O Edward Fox faz o papel do namorado da Delphine Seyrig, um bancário que fez um desfalque. Aí vocês vão olhar o rosto dele, que vocês vão entender o que é violência contida.

Edward Fox (1937 – )

Então, Stroheim ― o naturalismo pela entropia e pela degradação. O Losey ― pela violência contida. E o Buñuel eu vou colocar com dois modelos: eterno retorno e repetição.

(Está todo mundo bem na aula? Tudo bem, não é?).

Então, aqui, eu falo eterno retorno e repetição no Buñuel ― da mesma forma que eu coloquei entropia no Stroheim, violência contida no Losey. Eu vou chamar esse eterno retorno do Buñuel de eterno retorno antigo, eterno retorno dos pré-socráticos ― que é diferente do eterno retorno do Nietzsche. Uma coisa que as pessoas não sabem, confundem muito, é essa noção de eterno retorno… Que o Nietzsche cria uma noção de eterno retorno completamente diferente da ideia de eterno retorno clássico. Eu sei que a maioria aqui não sabe o que é o eterno retorno clássico. Eu vou explicar. Então, de um lado, o naturalista, com a libertação do tempo, tira o tempo da postura de período: o tempo vai deixar de ser período, vai deixar de ser número numerado, se libertar do movimento ― aí aparecem os grandes autores do cinema naturalista. Do cinema naturalista ou da literatura naturalista.

Aluno: [trecho inaudível] o Prigogine fala na flecha do tempo

Claudio: Não é o Prigogine quem fala na flecha do tempo. Quem fala na flecha de tempo são os pensadores da termodinâmica. A noção de flecha do tempo é exatamente a noção de entropia. O tempo, pensado por eles, é como uma flecha. Essa flecha vai do presente para o futuro. É isso a flecha do tempo. Ela vai do presente para o futuro; e nesse caminho do presente para o futuro a flecha vai perdendo diferencial e vai ganhando igualdade, até que ela se torna inteiramente igual e não acontece mais nada. Então, flecha do tempo não é um conceito de Prigogine, é um conceito da termodinâmica, mas qualquer pensador da termodinâmica ― Prigogine é um pensador da termodinâmica ― pensa a flecha do tempo. Só que o Prigogine vai introduzir diferenças aí dentro.

Aluno: E ele não está falando do tempo [trecho inaudível]

Claudio: Não. Ele vai falar de bifurcação. Não adianta nós pensarmos Prigogine agora. É melhor pensar a termodinâmica, com a flecha do tempo.

(Certo?)

Então, ficaram três autores aqui. E esses três autores seriam os pensadores do tempo; mas o tempo enquanto tempo negativo. E para o tempo enquanto positivo, eu vou utilizar o filme (e acredito que eu vou dar um lance relativamente vencedor) O Ano Passado em Marienbad.

(Será que esse lance teve vitória? Mais ou menos, mais ou menos.)

(Muita gente aqui não viu O Ano Passado em Marienbad… Eu não tenho como… O que eu faço? Quem não viu? Levanta a mão quem não viu, só para eu ter uma noção. Gabriel viu? Só quem não viu. Vocês viram?)

Eu vou contar uma história para vocês. Quem viu o filme, permita-me que eu conte essa história. Eu vou contar uma falsa história do filme. Eu vou contar uma história falsa; e através dessa história falsa aqueles que não viram o filme vão saber o que ele é. Aí eu destruo a história falsa e nós entramos no tema.

Existe um escritor argentino que foi, e é, ainda que o outro esteja morto, muito amigo do Jorge Luis Borges. Ele se chama Bioy Casares. (Aliás, Bioy Casares foi aquele para quem o Borges telefonou, na véspera de morrer, e disse: “Bioy, amanhã eu entro na eternidade”. Lindo, não? E morreu…) Bioy Casares escreveu um livro chamado A Máquina Fantástica. Esse livro tem outro nome, qual é mesmo?

Aluno: A invenção de Morel

Claudio: A invenção de Morel.

Nesse livro, Bioy Casares conta a história de alguma coisa como o cientista louco. E esse cientista louco teria inventado uma máquina que, ao filmar, as imagens daqueles que eram filmados, ao serem projetadas, ganhavam terceira dimensão. Quer dizer, filmaria vocês aqui, colocaria o filme numa máquina de projeção e na hora que esse filme fosse projetado vocês apareceriam em terceira dimensão, apareceriam assim como estão aqui.

Então, o cientista louco filmou um dia inteiro, 24 horas num hotel luxuoso, ele fez esse filme num hotel luxuoso. E o cientista louco filmou e depois levou a máquina de projetar para uma ilha deserta. E lá, na ilha deserta, ele ligou a máquina. Então, na hora em que ele ligou a máquina, começou a projeção do filme. O filme é projetado de meia noite a meia noite. Aí de meia noite a meia noite acontece alguma coisa. Aí quando chega meia noite, pá! Aí, de meia noite a meia noite acontece outra coisa ― a mesma coisa. Aquilo vai se repetindo sempre, sempre a mesma coisa. E as personagens são como que de carne e osso, que é o poder da máquina de filmar e projetar como se as personagens fossem de carne e de osso.

Um dia um homem foge da prisão, de uma prisão qualquer, e de barco ou a nado, não sei o que, ele chega nessa ilha. Ele sobe na ilha, e ele se depara… Com que ele se depara? Com o castelo da máquina de Morel. O castelo está lá, as pessoas estão lá. Então, por exemplo, tem uma personagem que às cinco horas da tarde, evidentemente todos os dias pela eternidade afora, essa personagem, que é uma moça, sai vestida com uma roupa de tenista, senta na grama e vai ler um livro. E ele fica ali, em termos de delírio completo ― ele está meio delirante, porque ele fugiu da prisão, está meio enlouquecido ― ele olha para aqueles acontecimentos e não decodifica que aquilo está sempre se repetindo; e ele se apaixona pela tenista. Ele se apaixona pela tenista e chega perto dela e diz: “meu amor, eu vou te confessar, eu estou tão apaixonado por você, você é toda a minha vida, eu quero você para mim”. Mas ela não vê, ela não vê, porque ela é um filme, ela não vê. Então, todo dia ele faz esse processo, a mesma coisa. Sempre a mesma coisa.

Agora eu vou acrescentar:

Vamos dizer que esse cara fuja dessa ilha e vá exatamente para a cidade onde tem o hotel. E vai para a cidade onde tem o hotel no ano seguinte. E no ano seguinte ele encontra essa moça e diz para ela: “Meu amor, você se lembra, no ano passado?” Ela diz: “Não, não me lembro”. E ela realmente não se lembra. Então, nasce o filme O Ano Passado em Marienbad sob essa suposição de que um cientista louco filmou um dia inteiro num hotel, projetou o filme, um fugitivo da prisão viu aquilo, se apaixonou por uma moça, fugiu da ilha, foi para a cidade onde tinha um hotel ― Baden-Baden ― e nesse hotel, por coincidência, a moça e os personagens que tinham estado lá no ano passado estão lá outra vez. Então, ele vê tudo de novo. Na primeira vez, em delírio, em alucinação. Na segunda, é real. E daí, ele e a moça não conseguem se entender. Porque ele chega para a moça e diz: “você se lembra no ano passado?”. Ela diz “Não”.

Ela é a atriz Delphine Seyrig. E o processo do filme é todo esse: ele dizendo que a conheceu no ano passado e ela dizendo: “Mas eu não me lembro”. Agora, pelo que eu contei, ela não poderia se lembrar. Mas a narrativa que eu fiz é falsa. Essa narrativa é falsa.

Na verdade, O Ano Passado em Marienbad nada tem a ver com a história do Bioy Casares, mas o filme é um homem repetindo um enunciando o tempo todo para uma mulher: “você não se lembra, no ano passado em Marienbad, não se lembra o que nós fazíamos, o que eu te dizia?” O filme é todo esse. E é um filme da conquista do tempo, feito por dois autores: Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet. Eles fizeram o filme juntos. E esses dois autores ― da mesma maneira que no tempo negativo Buñuel trabalha com o eterno retorno e a repetição; o Losey trabalha com a violência contida; o Stroheim trabalha com entropia e degradação ― Robbe-Grillet e Alain Resnais vão trabalhar com as noções de pontas do presente e lençóis do passado.

Então, nós vamos entrar, vamos mergulhar no tempo de dois modos: vamos mergulhar nos lençóis do tempo e nas pontas do presente com Robbe-Grillet e com Resnais; e vamos mergulhar na entropia e no eterno retorno, no outro tipo de tempo (Certo?).

Então, esses pensadores seriam aqueles que libertaram o tempo no cinema. Aí vocês perguntam: “qual a importância que tem libertar o tempo no cinema?” Vocês vão ver que tem muita importância. Tem muita importância, não só para a história da nossa vida, como para a história das artes.

Então, acho que cheguei a um ponto final, porque eu já não aguento mais. Agora eu vou fazer um pequeno resumo para vocês… e um resumo meu é… velocidade absoluta. Nós vamos mergulhar na velocidade. Vou fazer um resumo, os gravadores estão aí… E, a partir da próxima aula, nós vamos fazer a entrada nessas duas linhas do tempo.

― Qual é o resumo?

O movimento para Aristóteles é considerado como sendo o movimento uniforme e perfeito no mundo supralunar. O exemplo são as estrelas fixas com rotação sobre si próprias. E, em seguida, o Aristóteles fala no movimento sublunar. Para o Aristóteles o tempo é o número do movimento, o número numerado. Número numerado quer dizer número inteiro mais um período. Período pode ser o que vocês quiserem (Certo?). Por exemplo, período em que esses óculos caíram. Período é qualquer um, mais o número inteiro ― isso é o número numerado. Então, para Aristóteles o tempo é submisso ao movimento, está prisioneiro do movimento. E a filosofia e arte só têm uma questão. É essa a grande questão da filosofia e da arte. Ou melhor, é essa a grande questão da vida – libertar o tempo do movimento. Então, é essa libertação do tempo do movimento que vai passar a ser já, flagrantemente, a nossa aula. Nós temos aqui já dois mecanismos que nós vamos penetrar que são as tentativas desses três filmes naturalistas. Já na próxima aula vocês vão ver A Casa de Boneca, já estão mais fortalecidos… De um lado eles dois, esses naturalistas e de outro lado as pontas e os lençóis do tempo. As pontas do presente e os lençóis do passado. O que vai acontecer aqui? O que vai acontecer, nitidamente, é que a arte e a filosofia libertam o tempo. E libertar o tempo é vencer a morte.

(Ponto final. Se vocês quiserem fazer alguma pergunta, eu estou pronto pra receber).

Aluno: Pontas do presente e lençóis do passado não têm nada a ver com a flecha do tempo?

Claudio: Nada, nada a ver. Excelente a pergunta! Excelente! A flecha do tempo está relacionada com o naturalismo, lá do lado do tempo negativo. As pontas e os lençóis nada têm a ver com isso porque, inclusive, quando nós nos depararmos com as pontas e os lençóis, o irreversível vai desaparecer. Não tem nada a ver, nada a ver. Exatamente, outro mundo. Ou melhor, ambos estão fora do mundo orgânico. (Olha o começo da aula). Ambos estão fora do mundo orgânico. Tanto o tempo negativo, quanto o tempo positivo. Tanto as pontas e os lençóis como a flecha. Estão fora do orgânico, são cristalinos. Mas um desses é negativo. É negativo. É o tempo da morte. É o tempo do instinto de morte.

(Já respondi à tua pergunta. Vamos ver se alguém tem mais alguma pergunta para fazer. Mesmo que não seja grande coisa. As perguntas servem.)

Aluno: O Spielberg [trecho inaudível]

Claudio: Eu citei o Spielberg, o Jurassic Park. Por que eu citei o Jurassic Park? Porque no Jurassic Park o que o Spielberg faz está presente na obra dele. O Spielberg costuma colocar dentro de um meio histórico ― que pode ser uma cidade americana, pode ser uma ilha americana [risos] ― alguma coisa absolutamente enlouquecida. Dinossauros pré-históricos dentro de uma ilha. E ele leva os netos lá para visitarem a personagem. Então, o que eu estou marcando com o Spielberg como naturalista é porque ele não reproduz os filmes clássicos dos realistas ― que é perseguição de automóvel, tiroteio… ele não faz isso. ET, volta ao tempo original… Exatamente… Vocês podem ver ET, Jurassic Park, (O que mais?). Tubarão. Nitidamente o Spielberg não reproduz o realismo americano.

(Embaixador, o senhor está conseguindo avançar nessa trilha?)

Aluno: Claro, com encanto!

Aluno²: O eterno retorno do Nietzsche e os pré-socráticos?

Claudio: O eterno retorno do Nietzsche e os pré-socráticos será uma aula especial, porque eu não falo isso em menos de 3 horas. Sobretudo porque vocês vão ficar de tal maneira apaixonados pelo tempo negativo que vocês vão dizer: “mas que coisa encantadora!…”

Mas chega um momento da obra do Buñuel… aí aparece uma frase do Robbe-Grillet: “porque se encontrou comigo”. E é verdade isso: o Buñuel se libera do tempo negativo e conquista o tempo positivo. É no Belle de Jour e no próprio Discreto Charme da Burguesia, ele vai conseguir isso.

Aluna: Cláudio, quando você usa o “tempo negativo” [trecho inaudível] foi um grande crescimento [trecho inaudível] da arte?

Claudio: Eu acredito que sim, eu acredito que sim, acredito que foi um momento muito bonito para a arte. Agora, esse movimento não consegue alcançar alguma coisa mais poderosa ― porque o tempo é negativo. Mas foi um movimento muito bonito, por exemplo, o Émile Zola, no naturalismo, que quebra o domínio absoluto do realismo. O Zola é uma espécie de bomba atômica no realismo. Sim, eu acredito que sem duvida nenhuma… Mas nós precisamos marcar essa distinção de tempo negativo e… eu vou usar uma linguagem do Nietzsche (ouviu?)… negativo e afirmativo. Vou usar essa linguagem. E é a linguagem justa.

Aluna: Positivo?

Claudio: Não, usem afirmativo. A linguagem nietzscheana é a linguagem justa. Usem afirmativo e negativo.

Aluna: Quando você usa o negativo, é no sentido…

Claudio: Moral. Eu fiz questão de fixar isso, na pergunta dela eu fixei isso. Eu estou usando no sentido moral, porque inclusive, quando nós passamos para o mundo cristalino, no mundo cristalino não existe moral. Não há moral! Prestem atenção! A moral pertence ao mundo orgânico ― no cristalino não tem moral…

Aluna: O Louis Malle não entra nessa classificação, [trecho inaudível] a coisa da repetição…

Claudio: Tem alguma coisa… O Malle entra, ele entra no tempo afirmativo, ele entra no tempo afirmativo. Aquele filme do Malle, aquele com o Burt Lancaster… em que ele é um gangster velho..

Atlantic City (1980)Aluno: Atlantic City.

Claudio: Atlantic City. Uma beleza de filme! (Vocês não viram? Vejam esse filme!). É uma verdadeira obra prima. E esse filme do Malle é uma nítida investida no cinema-tempo.

(Vamos mais…)

Aluno: O Zola [trecho inaudível]; e o realismo está com o Balzac e o Kazin?

Claudio: Eu usei os dois, eu poderia fazer uma…

Aluno: E o Orson Welles [trecho inaudível]

Olha, na nomenclatura do Robbe-Grillet, essa nomenclatura que você está buscando, é… Nouveau Roman, que ele chama. O Deleuze chama de cristal do tempo (certo?). Eles não são nem realistas nem naturalistas. Eles são… eu acho melhor dizer exatamente o que eu estou dizendo: eles são cristalinos. São cristalinos. São góticos, são neo-barrocos.

Aluno: E esse filme Short-Cuts, do Altman.

Claudio: Do Altman? Qual é esse?

Aluna: [trecho inaudível] tem uma prostituta que atende por telefone…

Claudio: Já peguei. É o irmão do marido da [trecho inaudível]

O Altman ainda trabalha com cinema-movimento. Ele só trabalha com cinema-movimento. Mas ele já está nos limites do rompimento. Uma das grandes marcas do Altman é a oscilação do primário e secundário. Você tem um grupo de personagens que num momento é secundário, e, no momento seguinte, essas personagens são primárias ― são as principais. Então, ele também vai alterando a estrutura realista. Porque no cinema realista as personagens são sempre as mesmas: onde já se viu o John Wayne começar mocinho e acabar bandido? Isso é impossível! Ou então ele começar como principal e acabar como secundário? Já no Altman, não; no Altman, você vê que o Altman… aquele filme famoso dele… o Nashville

Nashville (1975)Nashville é uma obra prima de passagem de primário para secundário. Uma obra prima! Aquele filme, aliás, é uma obra prima. É um filme maravilhoso! Ele ainda não está no cinema-tempo; mas já faz um despedaçamento no cinema realista. Então o Altman é realmente um dos diretores de cinema que refletem a crise do que se chama cinema-ação: o cinema-ação de Hollywood. Ele reflete essa crise no cinema dele.

(Está bom? Vamos mais?)

Aluna: E o Brecht, onde estaria?

Claudio: Brecht. O Brecht eu citei ontem… eu citei ontem a grande figura do Brecht, não citei, na quarta-feira? Gestus… Eu citei en passant, é verdade. Gestus… Eu até aconselhei para vocês lerem o Roland Barthes, um texto que o Roland Barthes tem sobre o Gestus… O gestus é um dos momentos mais brilhantes do tempo afirmativo.

Aluna: Do tempo afirmativo?

Claudio: Afirmativo! Brecht como tempo afirmativo.

Aluna: O Artaud seria tempo negativo…

Claudio: Artaud?! Altamente positivo! Chega a engasgar, de tanta positividade, de tanta afirmação! Artaud é um pensador da afirmação, Artaud é um pensador da vida. Mas não do orgânico – do cristalino!

Aluno: Mas e a degradação?…

Claudio: Quem leva o Artaud à degradação são as forças reativas. Não ele. As forças reativas que o levam à degradação. Ele não. Artaud é o mais belo dos gritos pela liberdade. É o Artaud. É um grito assim… incandescente, pela liberdade!

Aluno: Acho que ele é só um grito mesmo, não é?

Claudio: Olha, grito não. Os textos do Artaud são maravilhosos!… A questão do Artaud no cinema… Ele fez um texto para cinema, ele fez um roteiro e esse roteiro foi entregue a uma menina da década do cinema mudo, chamada Germaine Dulac. Ela fez o filme… eu me esqueci o nome… La coquille et le clergyman.

O Artaud ficou indignado! Ele disse que ela perverteu o roteiro dele. E o Artaud… a presença do Artaud no cinema está aí. Ele diz que ela perverteu o filme dele porque cinema para ele é um processo vibratório. Artaud é um pensador do sistema nervoso. Não há pensadores da alma liberada do corpo, Kardec? Não há os pensadores de todos os tipos? Artaud é um pensador do sistema nervoso. É isso que ele quer saber. Então, ele se preocupa com tudo aquilo que produz vibrações e atinge o sistema nervoso. Porque, para ele, quando as vibrações atingem o sistema nervoso, o espírito se libera. Então, ele vai dizer que o cinema são as vibrações… que quem recebe essas vibrações…, atinge-se o sistema nervoso de quem recebe essas vibrações, aquele que as recebe, é forçado a pensar. E quando você pensa, você cria a liberdade. Então, Artaud, eu reputo como um dos grandes pensadores do século… da nossa história. Se há um mártir do pensamento, Artaud é um. Artaud é um homem excepcional! Ele é um homem que luta no mais alto nível contra… Por exemplo, vocês conhecem a luta do Artaud com o surrealismo? Vocês sabiam que o surrealismo sai do dadaísmo? O surrealismo nasce… ele sai do dadaísmo, se engaja com o marxismo… Artaud que era surrealista… mas o que é isso? Isso é arte ou política? Aí ele abandona. Ele abandona. Ele começa a fazer uma frente terrível contra o surrealismo!

Alunos: [trecho inaudível] psiquiatria?

Claudio: É… a luta dele contra a psiquiatria é nas cartas. Alguns levam o Artaud como exemplo de antipsiquiatria, mas eu pediria, por favor, para vocês não fazerem isso. Não tem nada a ver. A grandeza do Artaud é altamente afirmativa. É o fato de que o Artaud é o pensador do pensamento. A questão dele é o pensamento. Então, quando o pensador do pensamento se encontra com o que ele chama de vibrações que atingem o sistema nervoso, atingem o cérebro, e, por isso, aqueles que têm seu cérebro atingido começam a pensar, é a grande questão do Artaud. Ele fez um roteiro, quando a Germaine Dulac, segundo ele, alterou o roteiro dele, quando inclusive foi feita a avant-première do filme dela, ele entrou com alguns amigos e esculhambou com aquilo lá, acabou com aquilo lá. [trecho inaudível]… Artaud. Mas a Germaine Dulac não é exatamente como Artaud dizia, ela tem suas qualidades como cineasta. Então, aí estaria… (não sei quem me perguntou sobre o Artaud, foi quem? Foi você?). Então aí estaria Artaud, Artaud não é de modo nenhum um pensador negativo, pelo contrário. Artaud, de modo nenhum é o Erich Von Stroheim. Artaud de modo nenhum é o Losey. Artaud é o Nietzsche francês, é o Nietzsche francês. É justo que a França produzisse um Nietzsche. A França tão sofrida com as invasões alemãs…

(Tudo bem, então? Deus nos abençoe.)

Aluno: Um Deus Estético, não é?

Claudio: Claro, um Deus Estético.

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Aula de 19/01/1996 – A força imaterial da vida

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar-Explicar); 3 (A Zeroidade); 4 (Diferença, Alteridade, Mutiplicidade); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal) e 13 (Arte e Forças) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 


[Os trechos entre aspas correspondem à leitura de um texto escrito por Claudio Ulpiano especialmente para este curso]

Primeira Parte

[…] uma linha do Artaud, uma linha do próprio Deleuze e de outros pensadores, em que eles não apenas dirão que a vida não se equivale ao organismo; dirão uma coisa a mais: que o organismo aprisiona a vida. Esse enunciado – que o organismo aprisiona a vida – é importantíssimo, porque a vida não é orgânica. Por enquanto [trecho inaudível da fita], nós tiramos a equivalência; eu tiro a equivalência da vida com a força plástica… porque, na aula passada, eu fingi que vida e força plástica eram a mesma coisa – mas não são!

– Quantas forças estão aparecendo aqui? Duas – a força elástica e a força plástica. Mas também alguma coisa imaterial – uma força imaterial, que eu chamei – vagamente – de alma; e essa alma seria aquilo que não se equivale ao organismo. O melhor que vocês podem fazer agora é abrir as duas trilhas e não identificar; não equivaler a vida ao organismo.

(Vamos lá, hein?)

“Se for dito: uma potente vida não orgânica, então a vida não é equivalente à força plástica, embora o organismo seja equivalente à força plástica – organismo e força plástica é a mesma coisa.”

Então, eu vou voltar… parece que nem todos apreenderam com perfeição o que estou dizendo. O que eu estou colocando é que a matéria é absolutamente neutra. A matéria não tem nenhuma qualidade – ela é neutra; mas ela nunca aparece como neutra – porque ela é perpassada por duas forças: uma força elástica – que constitui as relações físico-químicas da matéria; e uma força plástica – que constitui a matéria orgânica… Em seguida, eu digo que a vida não se identifica ao organismo – não querendo dizer com isso que a vida não passe também pelo organismo.

“Enfim, vida e organismo não são a mesma coisa.”

Esse enunciado é básico para a nossa trilha: a vida e o organismo não são a mesma coisa! Eu vou passar a fazer uma oposição entre orgânico e cristalino. Eu vou usar um sinônimo: cristalino seria a vida não-orgânica.

“O gótico, aquele que através da rosácea (as rosáceas das catedrais) colhe a luz do sol, e filtra a luz do sol nos vitrais como a luz de Deus.”

Então, como se a luz de fora fosse a luz do sol, e a de dentro da catedral fosse a luz de Deus. Essa luz é cristalina: já é um processo que o gótico usou para alterar a luz – ele altera a luz… através dos vitrais.

Agora vai aparecer o enunciado principal:

“O homem gótico possui uma vontade espiritual que o coloca fora do organismo”.

Ou seja: o que está sendo dito é que há um homem orgânico, cujo destino é [integralmente] o próprio organismo – é o homem da falta, o homem da representação, um homem que não consegue suportar suas próprias inquietações. E um homem que eu estou dizendo ter uma vontade espiritual – e essa vontade espiritual faz dele um homem diferente do homem orgânico.

Então, a tese básica é de que o homem orgânico é o responsável pela arte clássica – e o modelo que eu vou utilizar da arte clássica é a estatuária grega. A estatuária grega como o modelo da arte clássica; e o gótico e o barroco como aqueles que têm uma vontade espiritual; e tendo uma ‘vontade espiritual’, eles quebram – em si próprios – o domínio do organismo.

“A espiritualidade gótica (agora vem um enunciado poderosíssimo!) desfaz o princípio de individuação do organismo.”

– O que é isso? A vida – quando aparece neste planeta – aparece como orgânica; e, aparecendo como orgânica, vai produzir em cada vivo, vai tornar cada vivo um indivíduo: cada vivo é um indivíduo. Por exemplo, você encontra quinhentas mil moscas – cada uma é um indivíduo; ou seja, a individuação é um principio que está atrelado à força plástica.

(Vamos voltar?)

O princípio de individuação está atrelado à força plástica. Logo, quando nós estávamos na força elástica, não havia princípio de individuação.

(Vamos voltar aqui?)

(Levantem o dedo a partir do instante em que vocês não compreenderem integralmente!)

Eu estou dizendo que a vida orgânica introduz um princípio de individuação: todo vivo é um individuo! Logo, a individuação aparece com a força plástica; mas – com a força elástica não existe individuação. Então, o enunciado é:

“A espiritualidade gótica desfaz o princípio de individuação do organismo”

– como no filme Persona, de Ingmar Bergman, em que o rosto perde os seus contornos:

Quem viu esse filme? É com a Liv Ulman e a Bibi Andersson [respectivamente, nos papéis de Elisabeth Vogler, e da enfermeira Alma]. O que acontece com elas [ali], é que o Bergman, em todo o processo do filme, vai retirando a individualidade das duas. Ele faz um processo de des-individuação. E esse processo de desindividuação é a mesma coisa que retirar delas o domínio do orgânico (viu?). Ou seja, o orgânico implica um principio de individuação.

Essa noção de principio de individuação é um conceito grego, é aristotélico, mas é retomado e perfeitamente formulado pelo medieval. Essa noção de princípio de individuação está associada à força plástica e ao organismo. Então, quando você pega um artista gótico ou neo-gótico; ou um artista barroco ou neo-barroco, a questão deles é fazer um processo de desindividuação… (Vocês já vão entender isso!)

(Eu os aconselho a assistirem ao filme [em cartaz na ocasião]: é uma experimentação, que eu ainda não posso mostrar perfeitamente; vamos esperar mais um pouco. Assistir a esse filme fortalece o entendimento da aula, porque vocês vão saber exatamente o que vai se processar ali; e eu posso trabalhar com o cinema, em termos de exemplo para vocês).

Eu estou dizendo, então, que o Bergman é um neo-gótico – no sentido de que ele rompe com o princípio de individuação. E ele faz esse processo através do rosto da Liv Ullman e da Bibi Andersson – duas atrizes com que ele trabalha.

“Mundo gótico, que dota as coisas de uma vida não orgânica.”

Eu agora vou citar, vou entrar com o cinema, da mesma forma que eu fiz com a música, na aula passada, e vou fazer ainda mais com o cinema. Eu vou citar um diretor de cinema chamado Joris Ivens, que fez muitos curtas inteiramente góticos – no sentido de que todo o objetivo dele era produzir uma desindividuação. Há um filme dele que se chama A Chuva (eu já passei para alguns alunos aqui). Nesse filme,

“a chuva goteja silenciosamente e hesita, em seus encontros com a vidraça, formam-se variações visuais, vertigem de águas, afetos e clarões intensivos”.

Cheguei ao ponto que eu queria: Afetos – Espinosa; Clarões – Leibniz.

O que acontece com a arte gótica e com a arte barroca, ou o que acontece com esses artistas que eu estou chamando de neo-góticos, é que eles vão produzir clarões intensos, clarões intensivos – que eu vou passar a explicar o que é. Ou seja, o artista gótico visa romper com o domínio das formas orgânicas, e como essa exposição que estou fazendo para vocês é inteiramente original, inteiramente nova, – como eu disse na primeira aula – , então, não haveria como alguém dizer que não sabia o que eu estava dizendo e que depois iria adquirir um saber inteiramente novo; não se trata disso! Eu não estou dando para vocês a explicação de alguma coisa que já existe. Essa aula é uma criação: eu estou criando alguma coisa de novo – a ideia de neo-gótico ou essa ideia de neo-barroco. Essa ideia é a produção, e por isso estou explicando continuamente para vocês o que vem a ser clarões ou relevantes em Leibniz, para vocês compreenderem o que vem a ser clarões intensivos, clarões histéricos, clarões góticos, ou seja, o mundo da arte é desvinculado do mundo orgânico da utilidade e dos interesses. Isso vai chegar a tal extremo da liberação do organismo que vai passar até nas práticas sexuais. Tentar produzir uma sexualidade não orgânica até nas práticas sexuais.

Aluna: Sexo histérico, poderia chamar assim?

Claudio: Sexo histérico, sexo histérico! Esses exemplos vão fortalecer a compreensão do que eu quero colocar, ou seja, sobretudo mostrar que nós caímos numa ilusão muito grande de que nós somos enclausurados no organismo: é falso! Nós sermos enclausurados no organismo é inteiramente falso; quer dizer: pode passar outra linha de vida, muito mais potente, sem os valores orgânicos.

Esta postura das duas linhas – a orgânica e a cristalina – levou os filósofos da Idade Média, todos eles santos, a misturarem Filosofia e Teologia. Mas os filósofos da Idade Média acusavam os filósofos gregos de pecadores – por serem pagãos; e, por serem pagãos – de não conhecerem a redenção; e, por não conhecerem a redenção – de não serem bem-aventurados. E há uma diferença, diziam esses filósofos medievais, entre o entendimento do bem-aventurado e o entendimento do pecador. O entendimento do bem-aventurado seria cristalino, o do pecador seria orgânico. Esse trabalho é feito de forma admirável pelos filósofos da Idade Média! Eu ainda não vou explicar para vocês a diferença disso aqui; estou apenas assinalando que essa diferenciação passa em todas as linhas de pensamento. De um lado, essa colocação do orgânico que os medievais chamam de pecadores…

– Por que os gregos são pecadores?

Porque eles não conheceram a redenção!

E do outro, os cristãos – que conheceram a redenção, tornaram-se bem-aventurados e, por isso, são capazes de produzir um entendimento que o pagão jamais poderia produzir. Dentre eles, ver Deus cara a cara.

O único dos professores que francamente eu tive na minha vida (Não vou nem citar o nome dele hoje, tá?), quando estava perto de morrer, me disse assim: “Eu vou ver Deus cara a cara”. Ele era um bem-aventurado (não é?), embora fosse muito pecador… [risos].

Então, é como se esse homem gótico, esse homem cristalino, esse homem bem-aventurado… homem e bem-aventurado formam um choque, uma contradição porque o homem é por natureza pecador (certo?). Mas, por enquanto, eu vou usar assim…

Esse “homem” bem-aventurado é constituído por forças invisíveis –

“Como se o artista formasse um corpo glorioso, intensivo, para erguer no céu ou no inferno do homem figuras de sensação”.

…ou seja, o artista é mais ou menos a maçã do Cézanne.

Natureza Morta com Maças e Laranjas – Paul Cézanne

Vejam bem, tudo o que eu estou citando – a maçã do Cézanne, os pecadores, os bem-aventurados – é absolutamente necessário. Esses enunciados, que estou trazendo, mesmo sem poder ainda expô-los com perfeição – porque essa segunda aula é a aula crítica, em que nós estamos fazendo a passagem para o infinito… Quer dizer, nesta aula, eu estou desencadeando todo um processo através do qual, na próxima, nós iremos penetrar no infinito.

Então, para penetrar no infinito, é preciso que não seja orgânico, é preciso que seja cristalino, é preciso que seja bem-aventurado, porque as experimentações do infinito não podem ser feitas pela razão clássica – a razão clássica tolhe a passagem do infinito!

Agora, nesta aula, eu vou marcar para vocês o fundamento de tudo que eu falo – é Deleuze. Deleuze é filósofo, é ele que percorre o infinito – como responsável pela beleza desse infinito! Então, toda a minha aula é centrada no Deleuze; e a busca da criação de conceitos.

Agora, eu paro aqui, e a aula volta ao normal! O que eu fiz – nesse esforço tremendo – foi, em menos de “15 minutos”, deixar passar para vocês a ideia de que o organismo não equivale à vida, de que o organismo não esgota a vida, ou seja, de que a força plástica não é igual à totalidade da vida. (Certo?)

Na aula passada eu coloquei: força elástica, força plástica, ou melhor, coloquei inorgânico e anorgânico. E o anorgânico, eu disse que seria a força imaterial da alma, que é a mesma coisa, que eu estou colocando, como a vontade espiritual dos góticos. A partir de agora, eu vou começar a fazer um pouco diferente. Mas o fundamento de tudo são essas duas linhas – o cristalino e o orgânico.

Será que eu posso dizer para vocês que ainda que o cristalino e o orgânico sejam duas linhas – que isso não constitui uma dualidade? Vejam bem: de um lado, o cristalino; e do outro, o orgânico – mas não formam uma dualidade, porque o conceito de dualidade, o conceito de contradição, o conceito de oposição pertencem ao mundo orgânico, ou seja: quando nós estamos mergulhados no mundo orgânico, uma série de conceitos – oposição, contradição – desencadeia-se desse mundo. Então, quando você usa esses conceitos, eles pertencem a esse mundo orgânico. Quando eu falo cristalino e orgânico, entre os dois não há uma oposição – porque a oposição pertence ao orgânico.

A base da aula (foram menos de “15 minutos” para explicar) é a distância que existe entre uma vida cristalina e uma vida orgânica.

Eu vou tentar dar exemplos, utilizando-os com o máximo de suavidade; mas não posso sustentar esses exemplos sem explicação – porque a maioria não os conhece. Por isso vou trabalhar com muita suavidade, para que vocês possam fazer – junto comigo – essa “passagem para o infinito”, que nós iremos fazer na terceira aula!

Eu agora vou citar um cineasta japonês chamado Ozu – um cineasta das décadas de 1930, 40. Pode-se dizer que o Ozu está para o cinema japonês assim como o Orson Welles está para o cinema americano; ou melhor, o que se diz do Orson Welles para o cinema enquanto tal, pode-se dizer a mesma coisa para o Ozu: esse japonês é um dos pontos mais altos do cinema. O Ozu faz do cinema dele…

Agora todos nós juntos – lentamente – sem nenhuma precipitação, para que vocês possam verificar o experimento que Ozu faz com o cinema:

O cinema – vocês sabem – é uma tela e uma imagem em movimento. Se vocês compararem o cinema a uma pintura, a pintura é a imagem parada; o cinema, a imagem em movimento. E a experiência que o Ozu faz no cinema busca tornar sensíveis duas coisas: o tempo e o pensamento.

Cena de “Era uma vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu.

– O que é tornar sensível? É fazer com que as coisas apareçam para sua experiência.

Por exemplo, quando você vai ao cinema ver esses filmes horrorosos que se costuma ver por aí, o que esses filmes tentam fazer é despertar em nós sentimentos abomináveis – tristezas insuportáveis, angustias intoleráveis. São esses “sentimentos” que o cinema comum procura despertar em nós!

O que o Ozu quer – com o cinema – é mostrar a farsa do tempo e a farsa do pensamento; ele quer tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação.

Vejam bem: quando eu digo tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação, muita gente pode pensar “mas para que tornar o tempo presente para observação… se eu tenho o relógio para olhar?” Não! O relógio não é expressão do tempo! Estamos fazendo referência à expressão pura do tempo – porque essa passagem que vamos fazer para o infinito, vamos fazê-la nas asas do tempo. Então, o que o Ozu tenta fazer com o cinema dele é absolutamente original – mostrar o tempo e mostrar o pensamento como eles são. Então, o cinema de Ozu, não é um cinema que está atrás de assassinatos, atrás de incestos…, toda a questão dele é desencadear – através da tecnologia possível do cinema – a presença do tempo e a presença do pensamento. Isso se chama experiência cristalina. Isso é uma experiência cristalina. Porque o homem orgânico – usando aqui um pleonasmo, uma tautologia, já que o homem é necessariamente orgânico – não faz essas experiências; pois ele sequer pode atingir o tempo puro, preso, que está, a uma série de componentes que o impedem de atingir aquilo que a vida cristalina pode atingir. O que estou dizendo, é que o Ozu pode ser classificado como um pensador neo-gótico.

Há um livro em português, chama-se “Ozu” (não me lembro a editora) com textos magníficos sobre ele. O Ozu, pelo o que estou dizendo para vocês, é um pensador do tempo – e os grandes pensadores do tempo não foram muitos: Santo Agostinho [século V] , no século XX, Heidegger, Bergson, Maurice Blanchot, Deleuze e alguns cineastas, alguns literatos… Então, o Ozu se inscreve entre esses grandes pensadores que colocam o tempo como objeto de demonstração, como seu objeto de mostra, ou seja: ele quer fazer com que o tempo seja um clarão.

Vejam agora: muitas das coisas que se passam nas nossas vidas, passam-se na mais completa obscuridade – nós não temos contato com muitas das coisas que se passam na nossa vida em termos de percepção clara; inclusive os mais importantes afetos de nossas vidas, como o amor, como a tristeza, como a alegria, aparecem para nós confusamente! Então, o artista cristalino é aquele que quer – numa linguagem espinosista – tornar esses “afetos” percepções absolutamente claras. É como se você entrasse num filme do Ozu ou entrasse num texto, por exemplo, do David Herbert Lawrence – The Fox – e lá você tivesse claramente, para sua observação, as forças e as formas do tempo puro. É como se você ganhasse, na vida, uma postura impensável para o homem comum, ou seja: a quebra das suas amarras orgânicas para alcançar as experiências sublimes, atingindo níveis que quebram o domínio da representação orgânica.

(Eita!, aula difícil! Sabe por quê? Porque nesta aula eu não posso senão transitar nas coisas – eu não posso mergulhar nelas – sob pena de nós nos perdermos…)

O que estou dizendo – agora numa linguagem quase que política, quase que jornalística, não que vocês precisem de uma linguagem desse tipo para compreender, mas em determinados momentos aquilo um conforto para nós! O homem entrou no século XX com a soberba de que ele teria todas as suas questões resolvidas. Ele entrou com a soberba do inconsciente freudiano e da revolução marxista (não é?). Os sinos bateram no inicio do século… e os homens acharam, então, que concluiriam o século com todas as suas questões resolvidas! Foi exatamente o contrário: foi o século dos fracassos, das decepções. Então é exatamente isso que estou apontando – é a vida! Qual é a saída da vida? Todas as saídas da vida pela representação orgânica fracassaram e fracassarão, quer dizer, a vida só tem uma saída: encontrar-se com ela própria encontrar-se com sua postura cristalina. É isso que eu estou dizendo!

A arte é contingente. Esse enunciado – a arte é contingente – está associado com o que eu disse na aula passada  – que cada um de nós tem que administrar sua própria vida – no sentido de que uma obra de arte – se ela não for produzida… ela simplesmente não foi produzida! Se o artista não a produzir, ninguém a produzirá! Se o artista recebe os meios para produzir, quer dizer, para produzir alguma coisa nova para a humanidade e não a produz – ninguém a produzirá! A arte é contingente: ela não tem que aparecer; ela aparece – se for produzida! Então, todos aqueles que têm uma potência, uma possibilidade ou um sonho, uma inquietação, uma inclinação para mergulhar nos mares do cristalino… que o faça!

– Mas o que são os clarões? São percepções claras (agora vou passar um conceito de compreensão). Quando nós temos uma percepção clara… por exemplo: vocês estão ouvindo a aula que estou dando e a aula que vocês estão ouvindo, até certo ponto, vocês estão entendendo: isso se chama percepção clara ou apercepção. Apercepção quer dizer uma percepção com consciência. Por exemplo, eu chego diante do mar e ouço o rumor do mar – aquele rumor das ondas do mar! Esse rumor das ondas do mar me aparece como aperceptivo: eu tenho percepção clara daquilo. Mas as gotas que se reúnem para formar aquela imensa trovoada e eu não tenho percepção delas – chamam-se micro-percepções inconscientes.

Então, a nossa vida se dá por esses dois processos: as micro-percepções inconscientes, que nós temos; e as apercepções. As apercepções são percepções claras. Para ficar até mais compreensível do que isso: cada homem tem a capacidade (Eu vou limitar, hein? Eu vou limitar, porque é na aula que vem que eu vou entrar no infinito!), cada um de nós aqui nesta sala tem a capacidade de perceber inclusive movimentos moleculares. Mas esses movimentos moleculares, que nós estamos percebendo, não chegam a se tornar apercepções – eles ficam como pequenas percepções inconscientes que não chegam ao limiar da consciência. Então, a nossa vida se constitui pelas apercepções e pelas infinitas micro-percepções.

Aluna: As apercepções se dão através do pensamento?

Claudio: Não. A apercepção você pode ter por um afeto ou por um clarão; por exemplo, você está aí sentada e, de repente, sem que você perceba, movimentos de falta de gordura no seu corpo, movimentos nas suas células – porque está havendo falta de gordura no seu corpo; movimento nas suas células – porque está havendo falta de sal no seu corpo; essas duas “faltas” você não percebe, mas quando elas se reúnem você tem a apercepção clara: estou com fome! Quer dizer: para você dizer “estou com fome”, é preciso que mil micro-movimentos se deem no seu corpo, ou seja, mil pequeninas fomes – que você não tem a apercepção. Então, não é preciso o pensamento; é preciso o que se chama uma relação diferencial: é preciso que esses pequenos elementos se reúnam e apareçam para nós como uma apercepção.

Outro exemplo: você está com uma pessoa no saguão de um aeroporto, aí essa pessoa sai para ir ao toalete. Digamos que você goste dessa pessoa! E quando a pessoa sai, pequenas ansiedades começam a se formar no seu corpo, mil pequenas ansiedades; e a pessoa está no toalete e você não está se dando conta de que essas mil pequenas ansiedades estão com você, você fica assim… não sabe o que está se passando! De repente – se a demora é demais – e aquelas mil pequenas ansiedades se juntam – nasce a ansiedade como uma apercepção: [então ] você tem a percepção clara de que está ansiosa. A apercepção é isso: para se constituir, ela necessita das micro-percepções; as pequenas percepções têm que se juntar para que uma apercepção se dê. As apercepções são o que se chama o relevante. Nós só temos o relevante quando as micro-percepções se juntam umas com as outras – falta de gordura, falta de sal, falta de iodo – tudo isso se junta, se relaciona, e aí eu digo – “Puxa, eu estou com fome!”.

Ou então, o meu corpo começa a se balançar nessa cadeira para lá e para cá, aí eu digo assim: “Puxa, esta cadeira está incômoda!”. Quer dizer, aquelas micro relações se juntam e tornam-se um clarão – uma percepção clara! As nossas percepções claras pressupõem as micro-percepções!

Há um texto – The Fox – que eu acabei de ler ainda agora, de um autor chamado David Herbert Lawrence (D.H. Lawrence), em que há uma personagem, uma mulher, que só tem um relevante na cabeça – uma raposa: mais nada, mais nada! É a única coisa – quer dizer, [o repertório dela] é menor do que o de um carrapato [que tem três relevantes]: é o único relevante que aparece nela, e muitos homens… – nós somos assim ao longo de nossas vidas… há determinados momentos em que uma percepção clara aparece em nós… Então, prestem atenção:

A alma humana – o que eu chamei de força plástica, força elástica e chamei de alma: orgânico, inorgânico e anorgânico... A alma – o ser da alma – é perceber; o ser do corpo – é movimentar-se. É essencial essa definição! O corpo é aquilo que se movimenta; a alma, aquilo que percebe. A alma percebe! Mas quando a alma percebe, ela tem – ao mesmo tempo – uma inquietação: a alma humana ou a de qualquer ser vivo é inquieta; e essa inquietude é o que faz com que a alma mude de percepção. Eu vou dar um exemplo para vocês, reproduzindo William Burroughs: ele diz que drogados de heroína perdem a potência da inquietude. De tal forma, que ele conhecia drogados que ficavam olhando, durante 40 horas, para o dedão do pé, sem se mover! Quebra-se a inquietude! A alma é – por essência; por naturezapercepção e inquietude; e, sendo inquietude, ela está sempre declinando para uma nova percepção. Ou seja, nós estamos integrados numa percepção, mas – pela inquietude – já tendemos a passar para outra percepção.

Então, eu vou marcar a alma como sendo esses dois elementos: percepção e inquietação. A inquietação é aquilo que permite que nós saiamos de uma percepção e entremos em outra: se não houvesse essa inquietação – nós ficaríamos congelados, como um vídeo-tape, numa percepção só.

Aluna: [trecho inaudível] tem alguma relação dessa inquietude com [trecho inaudível]

Claudio: É exatamente o oposto! Porque o Leibniz tem uma formação de filosofia oriental muito grande, ele tem até um texto sobre a filosofia zen – e o que ele está dizendo é que a natureza da alma é inquieta – ela é inquieta; ela é uma tensão. Uma tensão da vida – ela tende para essa inquietude! Por isso, o vivo está constantemente abrindo novas superfícies: ele vive abrindo novas superfícies! Quando um “ser vivo” ou “um homem” cai numa tristeza profunda – ele perde a inquietude: é a possibilidade da morte! Então, Leibniz se opõe a esse budismo que prega uma quietude impossível para a alma; impossível para a alma! A alma é como um nadador – um “nadador ” sem mar: ela quer mergulhar, ela quer conhecer as ondas! A vida é isso! A vida é isso! A vida é uma paixão pela inquietude. É uma paixão pela inquietude; é um desejo – quase permanente – de variação. Isso é vida! Quando esse processo se congela – é a crise da morte!

Cada alma, ou melhor… Nós temos apercepções (Acho que vai ficar claro o que eu vou dizer. Apercepções, vocês entenderam? Apercepção = percepção com consciência. Por exemplo, um “pequeno” animálculo me dá uma mordida – me fere! Mas ele é tão pequenininho, que eu não sinto a mordida dele – isso é uma percepção inconsciente; não é uma apercepção. A apercepção é quando a gente sente. Por exemplo:

(O que eu vou citar agora não é meu, é do Sócrates:)

– Quando nós temos uma frieira e a coçamos – nós temos a apercepção do prazer e da dor ao mesmo tempo, e ficamos inteiramente confusos – como é que pode? E não queremos curar a frieira… [risos!]

(Olha, eu vou retornar para vocês:)

A filosofia – da maneira que eu dou – ocorre uma coisa muito estranha, porque o futuro das nossas aulas vai alterar o passado. Isso que vocês estão entendendo agora – a partir da sexta ou sétima aula – quando vocês retornarem a esses textos, vocês vão entender de uma maneira diferente. É como se vocês penetrassem cada vez mais fundo – no texto.

Cada alma expressa o mundo inteiro. Cada alma expressa o mundo inteiro. (Acho que vocês poderiam tomar nota disso!) Cada alma expressa o mundo inteiro, mas essa expressão não é inteiramente aperceptiva; a expressão ela é – eu vou usar números idiotas! – 99,9% percepções inconscientes; 0,01%, uma apercepção. Mas a nossa alma – a alma de cada um de nós – expressa o mundo inteiro.

– Por quê? Porque a natureza é constituída por um principio (é só marcar!), um princípio chamado harmonia universal. A natureza é um princípio de harmonia – porque o barroco é musical… e esse princípio da harmonia universal é que todos os elementos estão ligados a todos os elementos. Se você perceber um elemento, você percebe o infinito do mundo inteiro; porque… o mundo inteiro é toda uma conjugação! Então, cada um de nós tem a capacidade de perceber o mundo inteiro – mas só uma pequena parte aparece como apercepção. (Eu queria que isso ficasse bem nítido, porque isso é um processo de compreensão do pensamento que estou passando para vocês.) Todos nós temos a capacidade de perceber, de expressar o mundo inteiro. Surpreendam-se: nós apreendemos um movimento molecular em Júpiter! Nós apreendemos tudo; nossa alma apreende tudo, mas ela só torna clara uma pequena parte – a aperceptiva.

Eu vou passar a chamar as almas – não interessa quem ou o que são essas almas – eu vou dar a elas – a essas almas – o nome de mônadas, que quer dizer unidade. Está surgindo – pela primeira vez – um conceito do Leibniz.

Eu vou chamar a mônada de alma. Cada mônada carrega consigo o mundo inteiro! Então, aparece uma coisa notável: as mônadas são finitas – mas contêm dentro delas o infinito do mundo inteiro. Portanto, cada mônada – por sua existência – expressa o mundo inteiro. Em termos de apercepção, no entanto, é apenas uma pequena parte.

A grande questão de vocês agora – nós vamos fazer isso do modo mais lento possível – é distinguir entre apercepção e pequenas percepções. A apercepção é a zona clara da consciência: é aquilo que percebemos… e que temos consciência de que estamos percebendo. Por exemplo, eu vou transformar uma pequena percepção de vocês em uma apercepção – o ventilador! Só eu falar, que vocês perceberam! Ele estava passando… e ninguém estava percebendo! Ele se torna apercepção no momento em que você joga sua atenção para ele. Por exemplo, um dos melhores processos para nós dormirmos – é dificílimo! – é a gente criar várias zonas, vários acontecimentos – um jogo de futebol, uma dança, uma música – e dividir a atenção entre todos aqueles acontecimentos que nós produzimos: a atenção jogada nos três… torna-se mortiça – e ela vai-nos dando sono. Porque a nossa atenção apreende apenas um bocado do mundo. A atenção de vocês está inteiramente dirigida para a minha fala. Estando dirigida à minha fala, vocês perdem os movimentos universais que estão passando ao lado de vocês: todos os movimentos se tornam pequenas percepções! Dizem que quem mora ao lado de um moinho a água, jamais ouve o barulho do rio… é que, exatamente, ele sai do campo da percepção. Isso daqui é para vocês compreenderem que temos uma pequena camada de apercepção e um infinito de pequenas percepções – essa noção é o primeiro mergulho no infinito […]


Lado B

[…] Nós somos seres mergulhados no infinito!

Nós já chegamos a uma hora de aula, sem praticamente entrar em nenhum mergulho difícil, e nessa uma hora de aula, o primeiro conceito do Leibniz – mônada – apareceu. Então, por enquanto, a palavra mônada – acho que isso vai ser definitivo – é sinônimo de alma. Mônada é sinônimo de alma.

Nós vamos começar uma das viagens mais bonitas do pensamento, perseguindo a mônada – que nós somos.

“Cada alma expressa o mundo inteiro, mas obscuramente, confusamente.”

– Obscuramente e confusamente é igual a? Pequenas percepções! Por exemplo, cada um de nós nesse momento está mergulhado em coisas que a ideia de infinito pode nos fazer compreender. Por exemplo, se eu beijo a mulher amada eu sinto um prazer – e é um prazer como clarão, é um prazer como percepção clara, é uma apercepção – eu sinto prazer! É uma apercepção… Ou, então, quando sinto uma dor de cabeça – eu tenho a apercepção da dor de cabeça! O prazer e a dor são aperceptivos. Mas neste instante em que estou dando aula para vocês, eu não estou sentido nem prazer nem dor. É porque eu estou mergulhado nos semi-prazeres, e nas semi-dores – nós estamos mergulhados nos semi-prazeres e nas semi-dores! Quando esses semi-prazeres se juntarem… viram um prazer; e se as semi-dores se juntarem… viram uma dor. Então, a nossa vida se dá nesse mergulho, que nós fazemos, no que estou chamando de semi-dores e semi-prazeres. Esse enunciado não é difícil de entender, porque se nós prestarmos atenção ao nosso corpo, nós não passamos com o nosso corpo, em nosso cotidiano, nem no prazer nem na dor! A gente não sente nem prazer nem dor; o prazer e a dor são momentos de clarões, são momentos aperceptivos. De repente, você está assim, sentado, aí bate um vento em cima de você e você diz: “puxa, que delícia, que prazer!”. O prazer tornou-se um clarão, mas você estava sentindo dor? Não, você estava mergulhado no que estou chamando de semi-prazer. Quando você puxa um pedaço de pau e vai bater num cachorro, na hora que você faz isso, o cachorro, que está mergulhado nos semi-prazeres e nas semi-dores, já começa a ter nele a evolução das dores, e passa para a percepção clara da dor.

“São essas percepções obscuras, confusas, que compõem nossas macro-percepções, nossas apercepções conscientes claras e distintas. Uma percepção consciente jamais aconteceria se não integrasse um infinito de pequenas percepções”.

Ou seja, você só constitui uma macro-percepção, você só constitui uma percepção consciente se você integrar  – integrar é relacionar – as pequenas percepções, as micro-percepções.

A nossa vida – e ai vocês podem fazer um exame – se dá por clarões que emergem da confusão em que nós vivemos mergulhados. Nós estamos sempre mergulhados na confusão! De repente, salta um braço assim – zuc – sobe um foco de luz e aí forma-se aquela percepção clara. Muitas vezes o mergulho nessa confusão se dá e o retorno é difícil; o retorno, muitas vezes, é difícil! São esses momentos que a gente precisa de um auxílio terapêutico – a gente não consegue fazer o retorno, sair da confusão; mas essa “confusão” é o solo comum da nossa vida.

Aluna: Existem também os micro-clarões!?

Claudio: Micro, o que você chamaria de micro-clarão, por exemplo? Por exemplo, aquilo que chamei de falta de gordura, isso seria um micro clarão, mas você não percebe! Seriam as pequenas fomes, as pequenas ansiedades – mas o clarão, eu estou chamando de apercepção.

Aluna: As pequenas… é… quase um clarão.

Claudio: É um conceito bonito, que você está dizendo… um quase clarão. É, por exemplo, quando você… no meu caso – no meu caso antigamente (não é?) – quando eu olho uma mulher bonita e… passa um quase clarão, quase um clarão. É mais ou menos isso! É bonito o que você está dizendo – quase clarão. Usa esse conceito: é teu; você criou esse conceito. “Quase clarão” é – quando a gente quase entende; quando a gente quase ama; quando a gente quase sofre… é bonito isso! É muito lindo isso! É verdade: nós vivemos mergulhados no quase sofri; no quase amei; no quase tive raiva; nós vivemos mergulhados nisso (não é?). Aquilo, de repente, se desfaz…

A nossa alma é essa confusão de micro-percepções. O que nos permite dizer que a nossa alma é constituída por um fundo sombrio. Eu queria que vocês marcassem esse conceito – fundo sombrio. É assim o fundo da nossa alma! Os barrocos diziam fuscum subnigrum. A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Ela é… os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas – isso é o fundo da nossa alma! Ela é, então, um fundo sombrio – e esse fundo sombrio é exatamente aquilo que os pintores barrocos colocavam no fundo dos seus quadros. Você pega uma tela do Caravaggio: o fundo da tela é marrom e vermelho; e marrom e vermelho é o fundo sombrio. Ou melhor, todos os pintores barrocos produziram fundos sombrios nas suas telas – porque queriam mostrar que daquele fundo sombrio se ergueriam as percepções claras. Davi segurando a cabeça de Golias, de Caravaggio. Então, fundo sombrio é um conceito definitivo e a gente saber disso – saber transformar o fundo sombrio em conceito claro – torna a nossa vida mais bonita! Nós sabemos que somos constituídos por uma noite infinita e escura; e que dessa noite infinita e escura saem pequenas luzes que formam a nossa vida consciente.

Então, todos nós nos identificamos no fundo sombrio e nos diferenciamos nas percepções claras. A partir disso, eu estou dizendo para vocês que existem infinitas mônadas, mas nenhuma mônada é igual à outra – porque elas variam nas suas percepções claras; elas diferem nas suas percepções claras!

Se você olha para um bloco de mármore, – e esse olhar é um olhar de Phídias, ou um olhar de Brancuzi, ou mesmo de Rodin -, esse olhar vai ver naquele bloco de mármore infinitas estátuas em potência; e o bloco de mármore ter infinitas estátuas em potência – é a expressão do que é a alma. A alma é isso! A alma são infinitas potencialidades. Infinitas potencialidades – é exatamente aquilo que define uma alma! Então, essa ideia, que estou passando, do bloco de mármore com infinitas… Olhem para um bloco de mármore: o bloco de mármore é cheio de veias, o mármore é cheio de veias. Aquelas veias são caminhos que as forças plásticas e as forças elásticas fazem no mármore. Mas as estátuas que estão em potência no mármore são as almas do mármore. E é exatamente isso que é a nossa alma! A nossa alma – ainda que ela seja finita contém dentro dela o infinito do mundo inteiro.

Então, ela contém esse imenso mundo todo dentro dela – todo dentro dela! Não sei como a gente não se engasga!? Aliás… a gente se engasga: dá para engasgar! A gente sente que alguma coisa grandiosa atravessa a gente… A gente sente isso!

“As pequenas percepções…” – Atenção! Acho que está clara a noção de pequenas percepções.

“As pequenas percepções são os componentes de cada percepção, elas são como que alfinetes, aguilhões, – as pequenas percepções – , que constituem o estado da alma por excelência, a inquietude.”

Nós estamos aqui dentro de uma percepção clara, mas dentro de nós estão piscando as pequenas percepções como aguilhões, estão alfinetando nosso corpo, para que a gente mude de percepção. Por isso, na nossa vida, a gente está eternamente em estado de passagem, sempre em estado de passagem, nós nunca estamos propriamente localizados, nós estamos em corredores de luz, prontos para passar para outro tipo de percepção.

Aluno: [trecho inaudível] desenvolver nessa aula a capacidade de [trecho inaudível] de aprender [trecho inaudível]

Claudio: Aí, a sua pergunta… (marque o conceito que vou colocar!)…a sua pergunta levou o Espinosa e o Leibniz a constituírem um conceito chamado autômato espiritual (marque esse conceito!), que é um conceito dificílimo para vocês compreenderem. Autômato espiritual. Sobretudo o Espinosa, porque ele produz um método para aumentar a potência do nosso entendimento, para que nós aumentemos a potência do nosso entendimento, para aumentar o poder dos nossos clarões! Isso se chama autômato espiritual – lá pela quinta aula eu volto a isso…

Essa questão do autômato espiritual são forças que vêm de fora – e que aumentam a potência do nosso entendimento. Por exemplo, vou fazer uma questão:

– Para que serve o cinema? Para enriquecer burguês? Para fazer crescer o capitalismo? Não, o cinema não nasceu para isso, o cinema se desviou pra isso! Mas o cinema seriam vibrações que viriam de fora para aumentar o poder do nosso entendimento. A arte é isso! A arte – quando você ouve uma ópera, Der Ring des Nibelungen, do Wagner, quando você ouve uma ópera, quando um filme, quando você uma tela, quando um texto – aquilo libera vibrações do seu espírito, e ai o seu espírito aumenta a capacidade intelectual e se apaixona, cada vez mais, pelos caminhos de luz!

Aluno: Em que livro o Espinosa trata dessa questão?

Resultado de imagem para ética espinosaClaudio: Na Ética, o livro principal do Espinosa é o Livro V, é o livro base do Espinosa; mas você vai encontrar o trabalho de Deleuze fazendo um longo exercício em cima do autômato espiritual, quer dizer, nenhum pensador, talvez o Darbon, que é um dos grandes comentaristas do Espinosa, e o Deleuze – que fizeram um grande trabalho no autômato espiritual. Hoje, o autômato espiritual é trabalhado pelos grandes teóricos do cinema do Cahiers de Cinema – são eles que procuram trabalhar isso daí.

Aluna: Você podia repetir o que você acabou de dizer sobre o cinema – esse conceito no cinema?

Claudio: Eu estou dizendo cinema… Eu estou praticamente reproduzindo um enunciado do Artaud… O Artaud fez um roteiro (eu estou esquecido do nome do roteiro, viu?), e o roteiro caiu nas mãos de uma menina – uma cineasta chamada Germaine Dulac – e ela deu um caminhou para o roteiro do Artaud…, encaminhou o roteiro dele para uma linha que o deixou indignado. É aí, então, que ele vai dizer que o cinema são vibrações para nos forçar a pensar. Ele via isso no cinema; embora o cinema tenha sofrido um desvio – um desvio propriamente fascista, um desvio de Hollywood. Desviou-se completamente! Mas ele, como todas as artes…

A arte não é aquilo com que se lida apenas com fins de entretenimento e para ter pequenos prazeres orgânicos. A arte é cristalina. A arte é pra entrar em composições de vibrações e fazer com que você pense. A arte é para produzir pensamento! É para produzir um homem superior! Fazer da arte um campo de entretenimento é uma ilusão, é uma tolice orgânica – uma tolice orgânica insuportável! E é isso que vocês conhecem; que vocês sabem que existe (não é?). A arte orgânica não é arte! É apenas alguma coisa que se faz antes do jantar, para ganhar fome: você vai ao teatro, vai ao cinema, vai não sei o quê… e depois vai jantar. A arte não é isso! A arte é uma das experiências mais trágicas da vida – no sentido em que a arte força o pensamento a pensar. Não há aquele que leia um aforismo de Nietzsche e não peça – “por favor, um lápis, eu quero escrever” – é imediato! É como se fosse a única saída que você encontrasse. E a arte é isso, é essa vibração. (Eu vou voltar a essa questão, viu?)

(Vamos parar uns dez minutos e distribuir os textos…)

[trecho inaudível] relaciona… eles se chamam relações diferenciais. Então, quando se constitui a relação diferencial, aparece a singularidade – que é o relevante. Então, o relevante se constitui pelos ordinários. Os ordinários são os elementos com o que o relevante se constitui – mas esses ordinários precisam entrar em relação diferencial. O melhor exemplo para vocês entenderem é o exemplo que eu dei de uma pessoa que está… por exemplo: um homem com a sua mulher amada. A mulher sai. O ato de a mulher sair, já produz nele uma inquietude – uma inquietude micro-perceptiva – que ele não tem como relevante. Se ela demorar… aquelas micro-percepções, aqueles ordinários se juntam… e formam um relevante – um clarão – e ele se torna ansioso. É o melhor exemplo para vocês entenderem! O que quer dizer que todos os relevantes são constituídos por ordinários. Os ordinários são percepções que você não percebe – não percebe!

E agora eu volto a citar aquele cineasta chamado Ozu. O Ozu diz que a nossa vida cotidiana é feita de um conjunto de séries de ordinários, uma série de ordinários; ou seja: a nossa vida cotidiana é feita da série do almoço, da série do sono, da série do descanso, da série do ouvir a música, de ouvir as notícias do rádio, de conversar com um amigo, de olhar pela janela… Cada série dessas é uma série de ordinários que nós sequer damos conta do que estamos fazendo. E o Ozu, esse cineasta japonês, diz que esse é o processo da vida cotidiana e que se os homens conseguissem fazer de suas vidas uma série de ordinários – sem tornar nenhum ordinário relevante – eles nunca sofreriam. Por quê? Porque o que nos produz sofrimento é uma determinada série de ordinários [para a qual] nós damos grande relevância: a doença, a morte – tudo isso são séries de ordinários. O cinema de Ozu é simultaneamente uma estética e uma ética – porque o que ele quer mostrar [com o cinema dele,] é que o que complica a vida do homem é que ele mistura a série de ordinários: é a hora da filha – e nós misturamos a hora da filha com a hora do dinheiro; misturamos a hora do dinheiro com a hora do amor; misturamos as séries, e aquilo produz em nós uma profunda confusão, um profundo sofrimento. Se nós fizermos do nosso cotidiano séries de ordinários – nós buscaremos relevantes em outros lugares; por exemplo, na arte.

O que estou colocando para vocês é uma coisa também do Leibniz, que diz que o homem é o único ser vivo que complica as séries – por isso o seu grande sofrimento! O homem sofre porque complica as séries: na hora da série do amor, ele atravessa com a série do dinheiro; na hora da série da tristeza, ele atravessa com a série da ansiedade – complica tudo! Não é preciso dizer isso para vocês, porque vocês sabem mais do que eu, basta vocês se olharem… (Não é?)

A questão do Ozu e a do Leibniz é a mesma – de que esses sofrimentos que nós temos na vida são por não sabermos conviver com as séries dos ordinários, e vivermos querendo tornar relevantes coisas que não são. De um lado, então… O que eu vou dizer agora é inteiramente filosófico! De um lado, nós temos os agenciamentos de afetos do Espinosa; e, de outro, as relações diferenciadas do Leibniz: afetos em Espinosa e relações diferenciadas no Leibniz.

“O carrapato, o famoso carrapato, explica-se pelo Espinosa e explica-se pelo Leibniz, no Espinosa é um mundo com três afetos, com três afetos somente, no fundo da floresta inteira (Então, o carrapato está mergulhado numa floresta imensa!) e surge para ele aquele pequenino clarão. O resto é a noite imensa e infinita da floresta. Então, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas.”

Agora, eu passei a chamar a percepção clara – a apercepção – de percepção clara e distinguida.

O que estou dizendo para vocês, por exemplo, quando um de vocês vai escrever um texto, vai fazer um trabalho intelectual, aquele trabalho pressupõe uma percepção clara e distinguida. Se você não tiver uma percepção clara e distinguida daquilo que você está fazendo, a confusão começa a se constituir ali em cima: você começa a se perder e o texto vai embora. Ou então, você já está mergulhado na confusão e o texto vira aquela balburdia de 99% dos textos que conhecemos – aquela balburdia entristecedora, não é? Ele não é nada!

As nossas percepções claras – todas elas – são referidas ao nosso organismo! Por quê? Porque o organismo… A força?

Alunos: Plástica!

O organismo tem interesses, ele tem necessidades, e ele tem que efetuar a sua existência em termos de utilidade. Então, o organismo constitui para ele um conjunto de hábitos, que é o que a gente chama de reconhecimento. Por exemplo, os homens de uma mesma sociedade, quando se encontram, se reconhecem uns aos outros – porque estão mergulhados no hábito. Ou seja, a percepção esta mergulhada no hábito. Essa percepção mergulhada no hábito chama-se – clichê. A nossa vida é uma reprodução de clichês: nós vamos reproduzindo clichês o tempo inteiro. O tempo todo nós vamos reproduzindo clichês… porque na hora que nós sairmos dos clichês, nós não somos reconhecidos pelo outro: o outro não nos reconhece. Então, até por comodidade, nós nos mantemos nesses clichês.

Agora, quando você pega um artista, um filósofo, um cientista... (Vou dar o artista como exemplo:) A questão do artista é um confronto direto com os clichês. Ou seja, o artista: um pintor – não tem uma tela em branco; um escritor – não tem um papel em branco; um músico – não tem uma partitura em branco. O que o artista tem… a tela em branco, o papel em branco, a partitura em branco – mas a alma penetrada de clichês. Então, vou citar um pintor – Francis Bacon (não sei se vocês todos conhecem…) – que faz da vida dele uma luta permanente contra os clichês. Ou seja, lutar contra os clichês, para não produzir uma arte dos hábitos – uma representação das utilidades e dos interesses. Então, através disso – Atenção: vai passar alguma coisa altamente gótica, altamente barroca – em função da “luta contra os clichês” do Francis Bacon, ele projeta o caos sobre a tela. (Eu só vou citar, não vou explicar como ele faz!) Eu não sei se algum de vocês conheceu um pintor que esteve aqui no Brasil, creio que na década se 1960, chamado Mathieu – lembram-se do Mathieu? Ele foi ali para a Cinelândia (antes do Brizola!) e fez um sucesso extremo, porque ele colocava a tela ali, pegava a tinta e – pá! – jogava a tinta na tela. Aquele povo da Cinelândia vibrava, era emoção total! Esse jogar de tintas, que ele fazia, tinha o objetivo de quebrar clichês. Ou seja, deixar que a própria tinta desse a linha da pincelada que ele iria dar (certo?) para não ser dominado pelos clichês. Isso daí chama-se tachismo – que em português quer dizer mancha. Isso tem origem no expressionismo abstrato, daquele grupo Pollock, Newman, etc.

Então, é o artista em confronto direto com os clichês – o artista ou o filósofo ou o cientista, em confronto com o clichê; ou seja, a luta que cada um de nós faz, quando quer criar alguma obra, é contra os clichês que nos dominam; clichês contra os quais não sabemos lutar, por acreditarmos que eles são a nossa proteção. Nós achamos que se sairmos dos clichês nós cairemos no caos – sair no clichê-cair no caos – e é exatamente isso! Sai do clichê, mergulha no caos. Mas sair do clichê e mergulhar no caos não é infelicidade. A infelicidade é permanecer nos clichês! O que nos faz sofrer exatamente é que nós fazermos da nossa vida uma reprodução constante dos mecanismos do hábito. É isso que causa em nós um sofrimento insuportável, porque os hábitos, os clichês trazem uma unidade de congelamento que não suportam as passagens e os processos. Então, como a vida da gente é uma permanente passagem, um permanente processo, nós nos resguardamos nos clichês, ou seja, nós nos resguardamos nesses campos do reconhecimento, como se isso trouxesse para nós uma proteção. Atenção, esse guarda-chuva dos clichês não nos protege, mesmo que em cima do guarda-chuva esteja escrito caos. A gente escreve em cima do guarda-chuva “caos”, abre o guarda-chuva e fica protegido. Não adianta! Eu estou dizendo para vocês que a única experiência possível para produzir uma libertação e uma alegria, é o confronto com o caos – que eu vou mostrar para vocês na próxima aula. Eu coloco um confronto com o infinito, ou seja, a única saída para nós é nos tornarmos criadores.

O Leibniz – eu coloquei isso na aula passada – se defrontou com um escritor da razão humanista – não falei isso, o Voltaire? Ele se confrontou com o Voltaire, porque o Leibniz dizia que esse mundo que nós vivemos é o melhor dos mundos, e o melhor dos mundos porque neste mundo aqui pode haver criação!, ou seja, todos os homens têm o poder de criar e de inventar. Agora – só há possibilidade da criação e da invenção se você quebrar as forças do clichê.

Uma percepção como a de Cézanne é semelhante à do Ozu. O que o Cézanne queria ver nas suas naturezas mortas e nas suas maçãs eram as vibrações do tempo e do pensamento: o tempo e o pensamento vibrando. Ou seja, o grande artista, o “artista enquanto tal”, não tem como questão representar aquilo que observa, mas liberar o invisível da natureza – e esse invisível são as forças do tempo e as forças do pensamento. Então, para você fazer essa experimentação, você tem que quebrar todos os clichês instalados na sua alma. Dá-se a isso o nome de percepto. Há, então, uma diferença entre percepto e percepção: a percepção é utilitária, é interessada. Eu aqui posso até citar para vocês, porque assim fica fácil para se compreender, certas experiências com drogas. As drogas tiram o homem da percepção utilitária – porque elas alteram o tempo. Só que a droga não te conduz para a arte; não conduz! Eu vou colocar para vocês… O que a prática do percepto faz, é romper com o domínio das percepções utilitárias; e no momento em que o domínio do utilitário, o domínio do clichê se rompe, você mergulha como que no caos, você mergulha no caos, e lá – no caos – você vai fazer duas coisas – erguer alguma coisa nova ou se perder nesse caos. Não sei qual dos dois é mais trágico ou mais bonito: perder-se ou erguer alguma coisa! Viver em torno dos hábitos jamais fará isso, você estará sempre achado, mas – ao mesmo tempo – sempre perdido; porque você não consegue liberar-se da sua individualidade e do sujeito que você é!

Dá-se o nome de percepto…, como John Cage, que batizava uma partida de xadrez de concerto. Para Cage, uma partida de xadrez era um concerto. Evidentemente, se você disser isso a um homem comum, ele vai dizer: “Esse cara tava pirado” – mas ele não estava pirado! É porque o John Cage tornou o silêncio um clarão na obra dele. Você ouve, por exemplo, dois temas de Beethoven: o primeiro toca… acaba! E ai você fica na expectativa do segundo tema… Essa expectativa é o silêncio entre o primeiro e o segundo tema. A questão do Cage é fazer do silêncio não uma expectativa, mas um tema! Ele faz do silêncio um tema. Então, para ele, o xadrez pode ser um concerto.

[Essa parte da aula é acompanhada pela exposição de slides com alguns trabalhos dos autores que Claudio vai citando ao longo da aula]

Ou o Duchamp – que transformava um urinol em escultura. Nesse caso do Duchamp é uma coisa muito simples: é pegar um objeto do cotidiano (por exemplo, isso daqui, um papel, uma cadeira), retirar esse objeto do contexto, e colocá-lo no museu – e ele irá receber uma qualificação nova. É isso o Duchamp: ele fazia isso – ele tirava as coisas do contexto, como o caso do mictório. Entendido Duchamp (Né?).

“A Fonte” (1917), de Marcel Duchamp.

Isso é o Cage outra vez, lindo! Olhem o Cage, (hein?) como ele é leibniziano.

“Ou melhor, o problema das micro-percepções do desejo, o desejo do Cage ouvir um dia todas as fugas do Cravo bem temperado.”

O sonho dele era ouvir todas as fugas do Cravo bem temperado. Ou seja, mergulhar no infinito do mundo inteiro e tornar tudo apercepção e percepção clara.

“Essas pequenas percepções não são partes da percepção consciente, mas requisitos ou elementos genéticos da percepção consciente, pois o que é relevante deve ser constituído de partes que não são relevantes.”

Ou seja, não são partes relevantes porque são os ordinários. Então, a nossa percepção é constituída pelos ordinários e pelos relevantes.

“As partes que não são relevantes chamam-se ordinários: a relação é de ordinário a relevante.”

Então, eu vou voltar outra vez:

O barulho desse ventilador – quando vocês não dão atenção pra ele, é um conjunto de ordinários: micro-movimentos ordinários, que você não percebe. Mas que, quando você se volta para ele, torna-se relevante. Então, a relação de ordinários e relevantes não é uma relação de parte e todo. (Deixem esse conceito, vai ficar mais difícil para vocês apreenderem agora – é na relação de ordinários e relevantes que se constitui o sistema de percepção!) O que se sabe, já: o movimento no corpo corresponde a uma percepção da alma. Então, eu vou colocar dessa maneira: a força plástica produz o corpo orgânico. E o corpo orgânico é movimento! Isso é fundamental para vocês marcarem – o corpo orgânico se define pelo movimento e a alma se define pela percepção. Uma percepção na alma, um movimento no corpo; um movimento no corpo, uma percepção na alma.

Bom. Essa aula foi uma aula de primeiro tema pra segundo tema: o objetivo dela foi abrir uma expectativa para o infinito. Qual infinito? O infinito das micro-percepções, o infinito do mundo inteiro. Abrir uma perspectiva para dizer a vocês que o pensamento – na modernidade – é necessariamente um mergulho no infinito. O infinito é o pensamento antigo. A nossa questão é o infinito – é mergulhar no infinito. A questão do pensamento moderno é mergulhar no infinito.

Cada mônada – a mônada é a alma! – tem dentro dela o infinito do mundo. Cada mônada contém, dentro dela, o infinito do mundo inteiro. E sempre que essa mônada se manifesta – ela expressa esse infinito do mundo inteiro. Mas ela expressa esse infinito do mundo inteiro em pequenas percepções e em raras percepções claras. Sempre que nós nos expressarmos, no entanto, é o mundo inteiro que está sendo expresso por nós. Então, o conceito de mônada, que é o conceito do mergulho no infinito que nós vamos fazer na próxima aula… Nós vamos começar a mergulhar no infinito; vamos fazer a primeira experiência de infinito; nós vamos encontrar aqueles que tentaram impedir esse mergulho, Platão, etc., através dessa noção de mônada que estou colocando. A mônada é alguma coisa finita que contém o infinito do mundo inteiro. Então, é o paradoxo total! Cada um de nós carrega consigo o infinito do mundo inteiro, no sentido de que as coisas presentes estão grávidas de futuro.

Aluno: [trecho inaudível da fita]

Claudio: Todas, todas! Cada mônada carrega todas as mônadas com ela. Isso se chama harmonia universal ou harmonia pré-estabelecida. Ou seja, há uma harmonia na natureza. Se você tocar numa coisa – eu toquei nessa mesa – significa que eu toquei no universo inteiro – porque todas as coisas estão conjugadas umas com as outras. Isso se chama harmonia universal. Então, cada um de nós, no seu fundo sombrio (Olha, agora são os conceitos exatos, hein!?) tem um marulho – o ruído, o rumor – do universo inteiro. Então, à noite, quando nós começamos a desocupar a nossa alma e a alma vai se abrindo, nós mergulhamos no fundo sombrio, ou seja, nós mergulhamos no universo inteiro. Um mergulho assim de uma beleza excepcional.

Então, eu vou concluir aqui, porque as micro-percepções estão aqui se juntando… e eu estou tendo a percepção clara de que estou ficando cansado! [Risos].

Eu vou concluir para vocês fazendo uma coisa muito rara que eu faço – mas eu tenho essa necessidade, apenas de fixar como percepção clara na memória de vocês, que quarta-feira nós vamos mergulhar no infinito...

Então, até quarta-feira!

Aula de 02/06/1993 – O “tarde-demais” como dimensão do tempo

Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar), 13 (Arte e Forças), 18 (Proust, o Ponto de Vista ou a Essência) e 20 (A Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

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PARTE I

Começo com a imagem-tempo, o que eu vou fazer via Visconti… ou Proust. Via Proust é uma associação com Bergson, sempre muito difícil. Bergson não tanto, mas o tema é difícil!

O ponto de partida da aula vocês já conhecem, mas esquecem. [É que] na hora em que o pensamento se associa com o tempo, o que vai desaparecer é o bom senso: entra-se no paradoxo, aproxima-se do não-senso. O que vou fazer exatamente é a busca do tempo feita pelo Visconti. Então, pode colocar o filme e logo, logo, vai aparecer o que me importa. Quando isso ocorrer, corto o filme e começo a falar. [Tem início a projeção do filme – Morte em Veneza].

Deixa o som, não precisa abaixar… porque vai ser praticamente a música… [Ao fundo, ouve-se a 5ª Sinfonia de Mahler].

(Eu vou falar):Morte Em Veneza (1971)

A gente tem uma visão fácil de se entender para quem acompanha o cinema ou lê livros, que é, ou pode ser, uma ilusão de uma associação entre o pessimismo e a aristocracia – ou seja, o aristocrata pessimista; o otimismo seria uma herança burguesa.

O Visconti usa muito o pessimismo, que [aplica] em Burt Lancaster, o aristocrata dele. A gente pode embarcar nesse pessimismo e não compreender o que está se passando – uma espécie de jogo que o Visconti faz. Pensar que tudo se origina no pessimismo do aristocrata. Então, o que não se pode esquecer, é que há um pessimismo na Weltanschauung, ou seja, na interpretação de mundo que o aristocrata faz. Às vezes, confundimos o que vai se passar no filme com esse pessimismo do aristocrata, mas eu vou mostrar para vocês que isso não tem nada a ver. Embora muitos dos que assistem a esses filmes do Visconti pensem que a [questão dele] está fundada no pessimismo do aristocrata, não está. Então… a questão do filme é, literalmente, a busca da imagem-tempo.

Quando digo busca da imagem-tempo o processo se torna um pouco difícil, porque implica numa certa cultura, numa certa leitura – não de cinema, mas de filosofia. Mas acho que eu resolvo essa situação com facilidade!

Nós não sabemos o que vem a ser a imagem-tempo, não podemos nem mesmo saber antes do que vai ser visto e dito; mas sabemos que há uma busca dessa imagem, com a aparência de uma prática pessimista. O que ocorre é que o cinema, e o Visconti está na ponta da partida desse processo, decidiu conquistar o tempo… repetindo a história do pensamento – a conquista do tempo!

Cada autor que vai fazer essa prática – Orson Welles; de uma certa maneira, Mankiewisz; a nouvelle vague francesa – cada um deles vai utilizar uma estratégia, uma maneira de fazer essa conquista do tempo

O Ano Passado em Marienbad (1961)Por exemplo: quem viu O Ano passado em Marienbad [A. Resnais e A. Robbe-Grillet] assiste à conquista do tempo via Santo Agostinho – porque o que o Robbe-Grillet faz é introduzir [as] três idéias de presente do tempo [do Santo. Agostinho]: o presente do passado, o presente do futuro e o presente do presente. Isso não nos interessa no momento, mas ele vai fazer [a conquista do tempo pela] via do Santo Agostinho.

Já o Visconti, não! Ele [também] vai tentar conquistar o tempo, a imagem-tempo, e aquele de quem ele mais se aproxima é o Proust, literalmente Proust! Deleuze não diz bem isso aqui mas, se você assistir ao filme do Visconti, você vai ver que a aproximação da conquista do tempo é realmente Proust. E é isso que nós vamos ver daqui a pouco: como esse processo vai se dar, de uma maneira drástica, sofrida, torturante… O que mostra que a arte não tem nenhum compromisso com o otimismo nem com as tendências do homem burguês. Nada disso. Talvez aqui no começo tudo pareça terrivelmente pessimista e entristecedor para muitos, porque o que há de mais elevado no espírito humano, que é a arte, vai nos oferecer uma [visão] muito trágica – [tendo origem] aí a confusão com o pessimismo. Confusão que nós ainda vamos fazer por muito tempo, pensando que é isso o que está ocorrendo.

Quando eu falo em tempo, ainda muito mal colocado, uma coisa que tem que ser definitiva é que o tempo possui dimensões. Não podemos esquecer esse dado. As dimensões do tempo são muito fáceis de entender. Ao menos no nível cotidiano, passado, presente e futuro são as dimensões do tempo. Mas, se por acaso, encontrarmos um artista buscando conquistar o tempo, o que temos que descobrir é que, em consequência dessa busca, ele vai produzir [outras] dimensões no tempo: a arte invade o tempo e produz suas próprias dimensões.

O tempo, então, seria alguma coisa que aceitaria sobre si o ato de produção. É como se o tempo fosse o próprio caos, ou até melhor dizendo, não é o tempo que a arte conquista: o que a arte conquista é a eternidade. E ao conquistar a eternidade… gera o tempo!

Então, como princípio de aula, eu vou dizer que o Visconti vai introduzir uma [nova] dimensão no tempo! Daqui a pouco vou mostrar como ele faz essa introdução, para vocês começarem a entender.

A filosofia distingue essência e acidente. A essência é algo que pertence à estrutura de um ser. O acidente, aquilo que ocorre mas poderia não ocorrer. Então, todos nós, na nossa vida comum, o que temos como ocorrência das nossas vidas são fatos acidentais, sem a menor importância! O maior sofrimento que um homem tiver não tem a menor importância, porque todos podem ter. Ele pode ter aquele sofrimento ou pode não ter. Nenhum homem deveria ter eticamente o direito de dizer eu sofro; ele deveria ter o direito de dizer eu penso!

Então, a arte não trabalha com acidente mas com essência. E é exatamente essa a linha de busca da imagem-tempo: buscar uma dimensão essencial ao tempo – e é o que o Visconti vai tentar realizar em toda a obra dele.

Visconti teve muita dificuldade para encontrar a pureza da sua própria obra… mas nunca abandonou os componentes fundamentais dessa busca – que é a busca da imagem-tempo.

A maior dificuldade, nesta aula, é falar na imagem-tempo… que é realmente muito difícil  para quem não estuda filosofia. No momento, no entanto, vamos ficar com duas imagens: a imagem-tempo e a imagem-movimento. A imagem-movimento é a imagem clássica do cinema e o Visconti vai visar encontrar a imagem-tempo. É isso que ele diz.

[Referência ao filme em projeção]: Ainda está cedo, daqui a pouco vai aparecer o que eu quero.

Agora, entendam o que eu quero dizer: há um livro famoso no século XX, que é a Recherche do Proust. Recherche: investigação, busca. Busca do tempo perdido. Vejam esse nome: Recherche do tempo perdido… Buscar o tempo. É isso que o Proust chama de Recherche. É buscar a essência do tempo. Não é buscar, recherche não se traduz por “buscar”, porque com o que o artista lida não é o tempo; ele lida com a eternidade. Mas é nesse encontro com a eternidade que emerge o tempo. É uma emergência do tempo, a partir do encontro com a eternidade.

A noção de eternidade [aqui aplicada] é a noção de complicatio. Não vou discorrer agora sobre essa noção; apenas dizer o que alguns de vocês já conhecem.

A eternidade é uma matéria caótica, e o encontro do artista com essa eternidade gera o tempo. Para quê [o artista faz esse encontro]?

Para nada: [esse encontro] não vai trazer para o artista nenhuma vantagem no jogo do bicho, não vai garantir-lhe um melhor emprego, não vai deixá-lo mais gordo, nem fazê-lo comer melhor. Ou seja, [esse encontro] não gera nenhum valor utilitário; não acrescenta mais tempo à vida; não nos produz otimismo; não nos liga a entidades de felicidade. Nada disso! A arte não tem nada a ver com isso. Nada!

O tempo, para Visconti, é uma dimensão que ele vai criar; isto é, ele vai produzir uma dimensão, que vocês ainda não conhecem, e é surpreendente: é o tarde-demais. Essa a dimensão: é incrível!

O que é o tarde-demais? É… quando um homem diz para uma mulher: puxa, é tarde demais! Quando um revolucionário diz para os seus soldados: é tarde demais! Quando Deus provavelmente disse para a serpente: é tarde demais! Tarde demais é [quando] não há retorno, não há volta. Tarde-demais é isso: não há volta. Gravem, porque daqui a pouco ele [Aschenbach/Dick Bogard] vai falar uma frase… e nós vamos começar a entender.

Tarde demais: não há retorno no tempo! É exatamente esse, segundo Deleuze, o elemento importante da relação de Visconti com a imagem-tempo. Uma coisa que surpreende… e que a gente pensa: isso não é nada, qual a importância que isso tem? Mas vai ter: ele vai conquistar o tempo por essa figura do tarde demais.

Não sei se vocês conhecem o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e a famosa frase dele – Nunca mais (Nevermore). Deleuze diz aqui, fantasticamente: o tarde-demais do Visconti e o nunca mais do Poe têm o mesmo acento dramático, a mesma dramaticidade.

Não é a sensação de perda, não, não é nada disso! É alguma coisa que, daqui a pouco, a partir da fala do Aschenbach que supostamente é o Mahler, ou coisa que o valha, eu vou começar a falar.

(Prestem atenção!) Já fiz todos esses enunciados e agora já posso dizer alguma coisa para vocês. Essa palavra, revelação – olhem que coisa interessante o Deleuze está falando. Ele diz assim: Como revelação sensível, como revelação sensual, como revelação do professor – e ele vai usando essa palavra revelação – como revelação da moça, como revelação do velho… Ou seja, existe uma prática do homem que é rara, extraordinária, mas que em determinados momentos de sua vida revela alguma coisa – revela um amor, revela uma tristeza – e marca isso por um olhar, marca por um gesto, marca por uma palavra.

Então, a revelação está na base do nascimento do tarde-demais. Revelação e tarde-demais. Ou seja: alguma coisa é revelada, mas… tarde demais! Vejam bem, que coisa estranha – alguma coisa é revelada tarde demais – e isso seria a emergência do tempo; mas não há ali nenhum pessimismo. Então, ainda é difícil entender, porque parece uma ação de altíssimo pessimismo… Mas não, não! Não tem nada a ver com pessimismo… porque a arte não é nem pessimista nem otimista – a arte é trágica!

Aluno: É o amor, Claudio, que é revelado… mas é tarde demais?

O Leopardo (1963)Claudio: O amor, dentre outras coisas… Digamos que, por exemplo, em O Leopardo (ll Gattopardo), o que é revelado é o amor, mas tarde demais!

E aqui é muito fácil. Não sei se vocês viram O Leopardo. É muito fácil, porque é a dança da Cláudia Cardinale com o Burt Lancaster – ele é o príncipe e ela a filha de um burguês rico! Eles dançam… Ela vai se casar com o Alain Delon, que é o garoto bonito, sobrinho do Burt Lancaster. O Burt Lancaster dança com ela… e, na dança, ela se entrega apaixonada por ele, mas… é tarde demais! Deleuze diz: Enquanto o próprio sobrinho é rejeitado ao fundo, fascinado e anulado pela grandeza do casal, é tarde demais, tanto para o velho como para a moça.

O tarde-demais é nitidamente uma dimensão do tempo que aparece na arte do Visconti. É então que ele se torna um artista do tempo: porque ele produziu a dimensão tarde-demais.

O filme Morte em Veneza vai ser necessariamente marcado pela presença dos flashes-back. São flashes-back brilhantes, porque nada do tempo presente se modifica. Ele [o filme] se remete para o tempo passado… mas com o mesmo tipo de imagem [que é empregada no tempo presente]; você até se confunde – por isso [essa indistinção] recebe o nome de ponto de indiscernibilidade – às vezes nem se sabe se aquilo dali é um flash-back. Você tem que prestar uma certa atenção ao filme, porque senão você perde. Salvo equívoco, é no primeiro flash-back, não tenho certeza, nós vamos ter… [Diante de uma cena, indica um ator que aparece na tela.] Esse aí é o famoso Romolo Valli – o gerente do Hotel! Ele é um excelente ator, um ator clássico do Visconti, mas também trabalha com o Sérgio Leone. Um figuraço!

Agora… é preciso lembrar que Proust vai chegar… O Visconti é todo ligado com a obra do Proust!

Bom. Eu falei para vocês sobre a questão do tarde demais, mas há uma revelação nesse filme. Vocês vão ver, que existe [um personagem] no filme, um garoto muito bonito – belíssimo – o Tatzio.

O Aschenbach (Dick Bogard) vai ter uma surpresa incrível com a beleza do Tatzio. Vamos ver essa cena, para eu poder falar. Daqui a pouco… acho que o tarde demais vai aparecer. Daqui a pouco vai aparecer o tarde demais aí. Depois a revelação! Tarde demais primeiro, a revelação depois. Aí eu falo para vocês o que está havendo. (Pode aumentar o volume agora!) Então, quer dizer, Aschenbach não dá importância ao mundo sensível, não dá importância ao mundo da carne. Toda a arte dele é intelectual, é cerebral. Essa é a questão dele. Toda a arte que ele faz é cerebral! Não adianta entrar, porque já é tarde demais…

Nós vamos ver esse tarde-demais já, já. O Aschenbach/Dick Bogard vai descer [do quarto] do hotel agora… A questão dele é que ele é um artista, e a arte tem sempre uma questão, sempre um confronto. A arte é produto do intelecto – se for produto do intelecto é produto do trabalho humano… Ou a arte é produto da sensibilidade – se for da sensibilidade, se encontra na natureza: a natureza nos dá a arte ou o intelecto produz a arte.

Aschenbach é um artista intelectual, para ele a arte é intelectual, é platônica… e ele vai ter uma revelação: a sensualidade imbatível, a beleza de Tatzio. Aí, inicialmente, nós vamos pensar que ele está tendo processos homossexuais, o que é equivocado. Ele não está tendo nenhum processo homossexual, ele está tendo uma revelação, que é a beleza de Tatzio… a sensualidade de Tadzio. Ele vai ficar inebriado!…

Agora, eu não posso montar muito bem, vocês têm que verificar…. O filme não é um filme-ação, é um filme-contemplação – o que já é tempo. Já é tempo! Nós estamos vendo o filme pelos olhos dele [Aschenbach]: é ele vendo… e a gente vendo pelos olhos dele. Quem trabalhou muito com essa ideia foi Pasolini. Chama-se subjetiva indireta livre, vem da teoria literária, da teoria do discurso. Então, o olhar dele nos revela o filme.

Um dos momentos mais brilhantes desse filme é essa passagem do hotel… Nela, [dois elementos] vão se encontrar – o ótico e o sonoro, a transbordância da imagem visual… e uma valsa, fazendo ela eleger-se em –?? –.

É a revelação que transtorna o músico em Morte em Veneza, ao receber do garoto a visão daquilo que faltou à sua obra: a beleza sensual.  Ele nunca tinha incluído a beleza sensual em sua obra… Não tinha… e o garoto a revela. É esse o momento do tarde-demais! É essa a dimensão do tempo [criada]: a dimensão do tempo é o tarde-demais.

Prestem atenção: a revelação puxa para ele criar a imagem-tempo. A imagem tempo é uma dimensão essencial do tempo: o tempo passa a ter essa dimensão essencial. Não é um fato psicológico! Eu tenho uma aluna que diz: “sofrido, é muito sofrido…”. Não é nada disso! Tarde demais é uma dimensão do tempo, como se diz passado, presente e futuro. Pertence ao tempo! Se você quiser [operar] com o tempo saiba que isso vai acontecer: os paradoxos do tempo, as dialéticas do tempo.

É isso que o Visconti vai trazer, muito semelhante ao Proust. No meio da aula eu vou tentar passar uma associação com Proust, com o que Proust chama de tempo reencontrado. O reencontro com o tempo.

Agora o garoto vai fazer uma coisa incrível. [referência ao filme] O garoto é a exuberância da natureza… o que Aschenbach nunca tinha percebido! A natureza é exuberante, a natureza não precisa de nada, ela dá tudo. É que ele não via, porque ele considerava, ele combatia o mal da natureza. [Claudio chama a atenção para o que está se passando na tela:] Olha só… olha a revelação! Vai enlouquecê-lo, não é? Ele vai entrar num [processo de] enlouquecimento!

Ele sempre traz alguma coisa que machuca o burguês: o aristocrata chega de viagem, almoça ricamente e pede para trazer o piquenique. O burguês não entende! Isso não deixa de passar como um componente para a constituição da imagem-tempo. Figuras aristocratas. [referência ao momento da revelação, no filme] Vocês sabem que nós estamos entrando aí no invisível – só quem está vendo o Tatzio é ele: aquela força da natureza está se revelando para ele [Aschenbach], para mais ninguém! Estão todos [se relacionando] normalmente com o Tatzio. Muitos pensam que é uma prática homossexual, todo mundo confunde muito isso. Mas, no final, ele enlouqueceu totalmente, ele piorou, o encontro o degradou. Mas aí, não: aí é uma obra de arte que está… a essência da obra de arte.

Aluno: Claudio, pode fazer…. numa aula você falou de singularidade e indivíduo, não é?

Claudio: Pode fazer! Pode: ele tem um encontro com uma singularidade!

Aluno: Enquanto para os outros… eles estão em contato com um indivíduo.

Claudio: Os outros estão em contato com um indivíduo belíssimo, é. Ele, o Tadzio, é um indivíduo.

[referência ao filme] Olha o que o Tatzio vai fazer… Olha lá! Olha lá! Quer ver? Terrível, terrível! Perturbou o professor!

Deleuze: “A obra de arte é feita de uma queixa, como com as dores e os sofrimentos de que tiramos uma estátua. O tarde demais condiciona a obra de arte e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da obra de arte…”. Então, a essência da obra de arte, é o que está acontecendo aí. É o encontro que o homem faz com a singularidade natural. É a revelação, a essência, a dimensão da obra de arte. Toda a questão do Visconti…

Agora eu vou contar uma história para vocês entenderem a questão da obra de arte… qual é exatamente a questão da obra de arte:

Um poeta francês, chamado Gérard de Nerval, tinha como prática de vida, definitivamente, a compreensão do que vem a ser uma obra de arte. Em seus momentos de loucura – porque ele transitava numa loucura muito grande, loucura em tudo: loucura sexual, loucura… ele tinha todas as loucuras possíveis! – ele fazia encontros com determinadas imagens saturadas de gases, imagens densas, que não queriam dizer nada; como mais vulgarmente a gente faz com imagens do sonho, imagens hipnagógicas, imagens delirantes… E ele fazia encontros com uma imagem; colava-se a ela… e a vida dele se tornava um agenciamento com essa imagem – não dormia, não comia, não fazia mais nada! – ficava o tempo todo grudado na imagem, para extrair a beleza dela.

Então, o artista é isso: o artista é aquele que se associa ao mais surpreendente. A obra de arte é alguma coisa com a qual a gente se surpreende – inclusive de ela servir ao burguês, mas ela serve; e você fica sabendo como: ela serve como um mundo que cerca o burguês e tal. Não é a questão do artista. A questão do artista é pura e simplesmente criar essa inutilidade absoluta, que é a obra de arte.

[referência à discussão sobre a arte, que passa em flash-back no filme] A discussão é linda!

Ele está entrando no tempo através de uma imagem hipnagógica, enlouquecida… É porque o homem tem diante de si um quadro – um quadro muito nítido – que são as significações: as significações sociais, as matérias perceptivas de um tempo histórico. Porque você é educado para entrar nas significações dessa matéria perceptiva. Você entra nelas. E é onde está a marca do artista: ele não entra. Ele se arrisca em matérias vazias e, para correr esse risco em matérias vazias, ele tem que utilizar seu pensamento. E ele vai ao extremo nessa experiência. É uma experiência de vida terrível – porque é uma experiência de loucura, uma experiência de morte – é uma experiência toda original que o artista vai fazendo [ao longo de sua obra]. Ele entra nessas dimensões do tempo, rompendo com as significações clássicas, com as percepções ordinárias, com o modelo de campo social de um determinado tempo histórico.

PARTE II

“O tarde-demais condiciona a obra de arte, e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da arte, na medida em que é sua propriedade ocorrer tarde demais no que diz respeito a tudo, exceto a uma coisa: o tempo reencontrado.”

Quando Deleuze introduz aqui o tempo reencontrado, ele está introduzindo uma ideia proustiana. Visconti aqui começou a fazer uma associação com Proust. E é muito interessante, que Deleuze diz aqui uma coisa que eu nem sabia: pois parece que Visconti teria traduzido Proust, teria feito um trabalho sobre Proust.

Deleuze vai dizer assim: “Podemos listar os temas que ligam Visconti a Proust” – uma coisa muito clara, todo mundo sabe, não precisa nem ter lido Proust para saber – o mundo dos aristocratas. Proust só trabalha com aristocratas. Mas só que Deleuze fala – o mundo cristalino dos aristocratas. Quando Deleuze fala “mundo cristalino dos aristocratas”, é que ele está opondo cristalino a órgão; ao organismo do burguês. Ele vai fazer essa oposição.

Aluno: –? — Proust sempre opõe o aristocrata ao burguês –? —

Claudio: O confronto? O Barão de Charlus é um exemplo, (não é?) Sendo que o Proust leva isso ao paroxismo, porque, no mundo de Proust, vai aparecer um aristocrata, como Charlus, que inclui a loucura. Porque… uma coisa fantástica, que o Proust marca, é que todo mundo pensa que Charlus é um homem mau e tem horror dele; mas quando descobrem que ele não é mau, que é louco, é aí que as pessoas correm: ele apavora, ele enlouquece!

Bem, primeiro elemento da entrada no tempo: o mundo cristalino dos aristocratas. Segundo elemento, terrível: decomposição interna. Para gerar a imagem tempo, ele tem que puxar o mundo aristocrata e introduzir a decomposição.

Olhem, aqui vocês podem pensar assim: não há diferença para um cozinheiro que está fazendo um bife – um bife… tem-se que colocar manteiga e sal; para gerar a imagem-tempo, ele tem que entrar com o mundo aristocrata e produzir decomposição: ele tem que decompor.

(Assustou um pouco, não é? Isso ficou um pouco perdido!..)

Prestam bem atenção: ele está construindo alguma coisa – a imagem-tempo; então… é assim que ele está construindo a imagem-tempo!

Foi o que eu disse no começo da aula: há momentos em que o Visconti “fracassa” nos filmes dele, ele mesmo se esquece. Porque, se vocês lerem a Crítica da Razão Pura, Kant vai dizer com todas as letras: quando um pensador produz alguma coisa – por exemplo, quando Platão produz a teoria das Idéias – o pensamento dele está tão tomado por aquela produção que ele não tem muito domínio: o próprio Visconti não tinha muito domínio sobre o que ele fazia. Aquilo escapa: escapa ao artista. Por isso, o comentador tem muito mais potência do que o próprio gerador. Kant, quando fala nos ideais platônicos, fala com muito mais facilidade que o próprio Platão.

Deleuze vai dizer que os elementos que vão produzir a imagem-tempo são: o mundo cristalino dos aristocratas; a decomposição interna e a história; e finalmente o “tarde demais” do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo. Então, a unidade da arte vai implicar na presença do “tarde demais”, (tá?)

Creio que agora posso parar um pouco com o Visconti e dar um pouquinho de Proust, a fim de que vocês possam associar e compreender definitivamente o que é a produção da obra de arte. Por exemplo…

Greenaway pode ser considerado um artista? Se ele for um artista, ele está convivendo com o tempo – parece que é o que o Ca. quer dizer -, ele tem que ter produzido uma dimensão essencial, deve ter produzido, ali dentro, alguma coisa da essência do tempo, senão [surge] o caos. O artista vai produzir o caos? Não! Caos é o que ele recebe. Ele entra ali e produz alguma coisa. Alguma coisa emerge. O cientista produz atratores estranhos, produz balanças, produz equações. O artista também produz alguma coisa: por afeto.

“Os signos da arte e a essência” [em Proust e os signos do Deleuze] – esse capítulo parece que… (Entender uma leitura, entender, eu não gosto de criticar ninguém, perder tempo com críticas, mas… as leituras são muito mal feitas; porque, para poder entender, você tem que sobrepor uma leitura a outra. Se você quer entender um texto desses… [referência ao capítulo “Os cristais do tempo”, em Imagem-Tempo do Deleuze] sem uma leitura de “Os signos da arte e a essência”… você não entende!)

Bom, o Proust vai dizer aqui… – acho que esta frase também é muito definitiva, está entre aspas – Proust está falando:

“Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem, de seu universo que não é o nosso [é exatamente pela arte que nós estamos vendo o Visconti nos mostrar a “revelação” da beleza sensual], cujas paisagens nos seriam tão estranhas como as que porventura existem na lua. Graças à arte, em vez de se contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e dispomos de tantos mundos quantos artistas originais existem, mais diversos entre si do que os que rolam no infinito. Se não houvesse a arte, nós estaríamos prisioneiros de um mundo só.”

Nas práticas sociais, é a coisa mais fácil de vocês entenderem: o homem comum está preso a um mundo só, ele não consegue quebrar aquilo de jeito nenhum, ele vive ali em torno, supondo que aquilo é a essência da natureza. Sem saber que a natureza não tem essência: ela… cria a essência dela: a arte cria!

Então, a arte produz sistemas individuados. Ela produz, gera, e aí nos dá a possibilidade de viver em múltiplos mundos. Isso é muito fácil de entender, se vocês forem ver qualquer coisa da passagem do século XIX para o século XX.

Se vocês forem estudar o Modigliani, vocês se lembram dos olhos azuis que ele pintava, aqueles olhos que ele fazia – azuis – “aquela coisa”? A psicologia nos revelou isso. [Aqueles olhos azuis] produziram um diferencial na sensibilidade. A sensibilidade se alterou – como esses jogos que o meu neto joga alteram a sensibilidade; como a psicodelia altera a sensibilidade. Alteração de percepção! A arte está muito associada com a alteração de percepção.

Woman With Blue Eyes, 1918. Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, Paris, France.

Em outro nível, o Paul Veyne e o Foucault sempre disseram isso: o que você vê no século XVI você não vê no século XX. O seu olho não vê qualquer coisa em qualquer tempo. E quem produz essas modificações são essas singularidades que produzem novos sistemas individuados.

Então, é bobagem pensar-se que a arte é apenas para tomar o chá das cinco… Não é nada disso! A arte produz mundos. A arte é uma coisa seríssima – produz mundos!

Não sei se vocês entenderam isso. Não é só para quem vai ao Museu de Belas Artes, não – é para todos! Nela, [encontram-se] novos mundos. Sem ela… é difícil viver. Acho que é impossível. Impossível! Porque você ficaria preso a um sistema de mundo só e isso geraria uma sufocação… e você se submeteria à tirania de um ideário, geralmente totalitário, – daí a associação da arte com a política -, e se tornaria impossível a vida. A vida tem que ter essa relação com a prática artística. Aconselho a leitura deste texto: “Os signos da arte e a essência” [Capítulo IV do livro Proust e os Signos, de Gilles Deleuze]. É muito fácil esse texto. Com isso daí vocês vão começar a compreender o que é a arte.

Eu sempre disse e repito para todo mundo: a arte não vai trazer nada: nada, nada, nada. A arte é… uma experimentação. Não sei quem disse isso, talvez o Rilke, é o estilo dele, não tenho certeza: a arte é uma revelação de experiência. Mas não é experiência de você, porque… a magia é que faz mais experiência, viaja mais, vai mais a Paris, vai mais a Nova York, não! É uma experiência nessas essências!

Então quando vocês virem um poema, não pensem que um poema é apenas uma exibição de palavras: é uma experimentação de sentidos que nunca emergiram. Então, é uma coisa louca! São sentidos que nunca viriam a um sistema individuado se não houvesse o artista para extraí-lo. Em Bergson vocês encontram isso. Bergson diz que o passado é em si, que o sentido é em si, que a idéia é em si. O pensamento vai lá e gera alguma coisa. Vai produzir ali algo de fundamental para a vida.

A vida engasga. A arte é superior à vida – essa é a tese do Proust. A vida engasga. Chega a um ponto em que ela se torna suicidária. Não há mais como passá-la.

A melhor idade para se começar a lidar com arte é [aos] onze anos. Como nós estamos muito infestados pelos valores burgueses, nós nos decepcionamos com esse enunciado sobre a arte, e achamos que é muito pouco. Mas não é muito pouco. Fernando Pessoa, de quem meu aluno C. gosta muito, escrevia que ele se considerava um homem em estado de sacrifício para salvar a humanidade… fazendo poemas. Quando o Fernando Pessoa diz isso, o homem comum morre de rir, “que sujeito idiota!”, “que imbecilidade!” Realmente é uma prática que ele está fazendo, de querer dar um desvio e um caminho para a vida. E ele se dizia um sacrificado. “Eu não quero nada da vida, vou sacrificar inteiramente a minha vida a favor da humanidade” – e faz aqueles poemas dele: “O Guardador de Rebanhos

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Fernando Pessoa, in: O Guardador de Rebanhos

Eu acho que nós já entramos, não é? Podemos voltar para o filme…

Para quem faz pesquisa no Deleuze, a melhor indicação sobre o naturalismo é essa da pág. 120 – Losey e Harold Pinter [referência ao pé de pág nº 35 do capítulo 4 de A Imagem-Tempo].

 

Deleuze vai fazer uma comparação do Visconti com o cinema americano. Vamos chamar o cinema americano de cinema realista. E o cinema do Visconti de neo-realismo. O realista é o cinema da ação e da paixão. O cinema do movimento.

Deleuze cita Obsessão mostrando que no cinema neo-realista “é preciso, portanto, que não somente o espectador, mas também os protagonistas invistam os meios e os objetos pelo olhar, que vejam e ouçam as coisas e as pessoas, para que a ação e a paixão nasçam, irrompendo numa vida cotidiana preexistente”. (Deleuze, A imagem-tempo, pág. 13) É o problema do investimento do olhar nesse filme. Vocês notem que o tempo todo o filme está centrado no olhar. Não são ações, não são duelos, não são disputas, não é nada disso, é o olhar que está passando ali. Ele vai dizer que isso é uma constante na obra do Visconti.

(Se vocês conseguirem dominar esse enunciado que eu vou fazer… Perguntar fica mais fácil! Eu trabalho… se vocês fizerem perguntas laterais do próprio trabalho.)

O cinema americano – que é chamado o cinema da segundidade, o cinema da ação – é a situação se prolongando em ação. Agora, no neo-realismo é exatamente o contrário, “a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos.” (A imagem-tempo, pág. 13)

Então nós passamos do filme chamado ação e paixão para o filme chamado ótico e sonoro. É greco-judaico: o grego vê, o judeu ouve. Então, os dois estão se juntando – ótico e sonoro. Claro que o sonoro foi uma conquista recente do cinema, a partir da década de [trinta]. O cinema era mudo. Então, não é só ver, é também ouvir. Isso é o neo-realismo.

Mas agora vocês prestem atenção: é possível fazer o neo-realismo com… um rato? Ou seja, nós levarmos um rato a ver, ao invés de reagir a um movimento do mundo? Você pega um rato na mão e aí coloca um movimento em cima dele. O que é que ele faz? Devolve movimento imediatamente! Por que ele faz isso? Porque ele está dominado pelo esquema sensório-motor. A vida é governada pelo esquema sensório-motor. O nascimento dessa arte é… quebrar o esquema sensório-motor. Quebra-se esse esquema! Então, pode-se até dizer, é a “desanimização” – quebra o sistema sensório-motor. Está claríssimo aqui:

“Tanto assim que a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos, antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos. Tudo permanece real nesse neo-realismo, porém, entre a realidade do meio e a da ação, não é mais um prolongamento motor que se estabelece, é antes uma relação onírica, por intermédio dos órgãos dos sentidos…”. (IT, p. 13).

É facílimo entender isso! Se você está num lugar e recebe um movimento que vem de fora, e ao invés de você prolongar aquele movimento dando uma resposta àquele movimento, você faz como o Gérard de Nerval – você sonha aquilo que está vindo, introduz uma imagem onírica e quebra o esquema sensório-motor. A introdução de imagens-oníricas, imagens-lembranças, imagens-devaneios, quebra o esquema sensório-motor. Se um rato delirar, devanear e sonhar, acaba a espécie. Vai acabar a espécie! O homem pode fazer isso, não é?

Aluno: É essa quebra que gera a alteração de percepção, não é?

Claudio: Que gera a alteração de percepção, pois a percepção não se prolonga mais em ação. Porque, se vocês lerem a história da psicologia, a história da epistemologia, elas dizem a mesma coisa, todas elas: a percepção é considerada uma prática do conhecimento. O homem percebe para conhecer. Essa tese aqui não é fundamentada nisso. O que se diz aqui é que percebe-se para reagir, não é para conhecer. A percepção não é uma atividade do epistemológico, é uma resposta que você dá ao mundo – é a tese do Bergson. Você percebe para prolongar sua percepção em ação ou reação. Se não quebrar de dentro isso daqui, você nunca sairá do realismo. Permanecerá eternamente preso a essa situação que está aí.

[referência ao filme] O travelling, essas idas e vindas, não é, R. , travelling? Ele usa muito ali no Hotel – que ele vai muito até o garoto e volta – o tempo todo: é o olhar dele fazendo uma aproximação e um recuo, (não é?)

Aluno: Com um movimento subjetivo!

Claudio: Com um movimento subjetivo.

Então, o Deleuze vai citar aqui… exatamente a questão do travelling, para citar outro autor fantástico que introduziu a imagem-tempo – que é o Orson Welles, na profundidade de campo. Eu já estou passando isso para vocês, para vocês saberem que o uso da tecnologia está imbricado à arte. A arte se serve realmente da técnica, dos efeitos especiais, dos instrumentos – que são objetos de fundamento para ela. Isso não é dito por nenhum teórico de arte – leiam Leroi-Gourhan que vocês vão entender. O ser vivo tem a capacidade de produzir uma tecnologia. É fantástico! O caranguejo, por exemplo, produziu uma tecnologia: a presa dele é uma tecnologia do corpo. O corpo é tecnológico! A arte usa muito a tecnologia e o que nós temos que fazer, então, é a distinção entre o técnico e o artístico. Mas estão muito associados! Deleuze também vai fazer uma associação com o dinheiro.

Bom, tudo o que foi dito até agora nos deu pelo menos uma noção da “revelação” e do “tarde-demais”.

Agora, o que resta é falar da revelação e do tarde-demais, que é o que importa, – nada mais importa! -, para saber exatamente o que é a arte do Visconti: não a arte do Visconti…, mas a arte do tempo – o que é o tempo; o que é a conquista do tempo! Dificilmente vocês conseguirão reproduzir um discurso desses e ele ser aceito numa universidade, numa faculdade de arte – ali geralmente essas coisas não passam! Porque se a gente não fizer uma associação com a história do pensamento, a gente não compreende o que está se passando. Então é um esforço muito grande para o professor – mas que o artista não precisa fazer, o artista não precisa esperar que alguém venha lhe ensinar… para fazer alguma coisa! Mas aquele que vive em função do… – que é o meu caso, (não é?) – meu gozo maior é conhecer amplamente todos os movimentos do pensamento; e é isso que eu exponho para vocês: o que o pensamento tem que fazer para conquistar essas coisas.

A tese – assustadora! – é basicamente que a conquista do tempo produz uma nova subjetividade. Alguns dizem isso… Eu acho pouco! A conquista do tempo produz uma subjetividade – não existia! É isso que eu estou dizendo – é gravíssimo o que eu estou dizendo! Esse gesto que está aí, que há séculos vem se processando – conquistar o tempo, liberar o tempo do movimento – está associado à produção da subjetividade – que é a mesma coisa que produção da liberdade, produção da vida! Diz-se muita tolice por aí.

Ou seja: se a vida pudesse passar o tempo todo em torno dessa imagem-tempo, nós teríamos a presença de uma subjetividade – base do livro V da Ética do Espinosa – que é ser livre, conquistar a beatitude, conquistar a vida. Nada tem importância, se isso não acontecer! Quer dizer: sem a conquista do tempo não se tem uma subjetividade: nós nos tornamos um bando de bobões, bebendo cerveja! Um bando de bobões bebendo cerveja e… “esperando Godot“… como diz o Samuel Beckett!

E é isso mesmo! No livro 5 da Ética, descobre-se isso de imediato. Porque, quando sentimos que a nossa liberdade é tocada, nós saltamos! É isso o cinema do Fassbinder. Mas aqui é em nível excepcional! É você compreender, à maneira do Castañeda, que, na experiência mais trágica da vida, você pode ter uma subjetividade livre. Aí você começa a entender inteiramente o Deleuze: “tome conta do inconsciente”, “produza o inconsciente”, “produza uma vida” – é o exercício da arte! Então, a produção do tempo não vai produzir uma tela para o Museu de Arte Moderna, nem uma musiquinha para o Municipal, nem um filmezinho para nós assistirmos aqui, não! Produz a vida, produz a liberdade!…

Vocês podem ler o Foucault, que chegou ao extremo, quando se juntou com Baudelaire. Ele falava em arte como estética da existência. Eu acho que todo o mundo conhece isso, (não é?)… produzir sua própria vida como obra de arte!

E é exatamente isso, (não é?). Ou nós caminhamos para isso, citando um artista de teatro que foi entrevistado outro dia, o Jorge Dória… ele é muito interessante! Interessantíssimo esse Dória, eu nunca tinha ouvido ele falar. Ele é interessantíssimo! Ele é capaz de falar da morte com uma facilidade incrível. E ele diz que a vida é uma pequena brincadeira; o teatro é uma brincadeira mais séria! Interessantíssimo o que ele falou.

Mas… É mais ou menos isso: a existência é trágica! Uma matéria inerte, regida pelo princípio de inércia… as forças da vida penetrando nela… finuras espirituais, nervos, essas coisas aparecendo numa matéria… pesada, idiota, imbecilizada e… emergindo o espírito! O espírito não é nada do que tinha sido escrito pelos Salmões, pelo livro sagrado. O espírito é a finura dos nervos. E aparece essa finura, e nós conduzimos – cada um de nós conduz isso – e isso é dor profunda! Essa dor profunda (-? -) tudo o que se passa no cinema hoje. Naquele filme “Esposamante“, o Marcelo Mastroianni tem uma fala espetacular: quando sabe que a mulher dele está envolvida com Igreja, ele diz: “deixa ela ficar, porque senão ela não aguenta a tragédia da vida!”.

Nietzsche tinha a pretensão de ser um mártir – não deixar que a humanidade soubesse que tanto terror se esconde por trás de tudo – e dizia que a arte era uma pequena linha que se estendia sobre o abismo do tempo. E é realmente isso; é realmente isso, sem saída… – a vida está sobre o abismo do tempo!

A religião e a moral se tentaram terapêuticas para curar isso. Só pioraram! A arte é a nossa saída. É muito pouco, eu sei que é muito pouco… isso não desfaz o abismo do terror sobre o qual nós estamos, mas a arte é o caminho que nós temos.

Três fenômenos fundamentais na vida do homem reaparecem o tempo inteiro nesses discursos: a arte, o amor e a amizade. Sempre estão reaparecendo! Por onde a gente vai escapar, por onde? São essas as três linhas de fuga possíveis. Parece aqui que Proust vai parar no amor, mas acaba não ficando. Ele vai [ter que ir] para o espiritual, não adianta! Ele vai [ter que ir] para a arte, não tem jeito! Ou seja: segundo a massa dos artistas que estão passando por aí, nem o amor e a amizade vão trazer a liberação. E isso é terrível, não é? Não quer dizer que a gente não tenha que amar, nem ter amizades, nada disso; mas que não é o caminho para produzir novos mundos. Isso torna o nosso compromisso com a vida, como dizia Nietzsche: nos força a ser vikings rigorosos! duros! impenetráveis! insuportáveis!… para não deixar que a tolice venha a aviltar isso aqui. Porque ela vai tentar aviltar. A tolice vai tentar aviltar isso aqui. Vai tentar considerar isso aqui [a vida] de pouca importância.

Nietzsche, em Para além do bem e do mal, diz: “seja um viking, endureça o seu coração, e não ceda…” para que… a vida se torne mais bonita! É um canto à beleza, como se a essência da vida fosse a arte. A beleza como essência da arte, como se a essência da vida fosse a própria beleza. A produção da beleza seria um caminho para a vida. Muito pouco! O homem pode alcançar isso. A gente prefere se submeter…, (não é?)… os homens preferem ficar… – Eu acho que isso é uma escolha – ser medíocres, ser medíocres!…“Deixa passar… daqui a pouco eu esqueço”… Mas não tem jeito, essa minha voz vai bater em vocês até o fim da vida. Aqui assim… [Claudio dá pequenas batidas na cabeça, apontando!] Não tem jeito!

Quanto mais se aproxima (não é?) mais bate! Quanto mais vocês tomam conta de que a finitude faz parte da gente… não tem esse negócio de esconder… – isso é tolice!… – (esconder dos meus netos!?), não tem porquê esconder: a finitude está aí, vai bater mesmo, nós temos que efetuar uma prática qualquer de potencialização! Pode ser pela ciência, pela arte, pela filosofia… – o que esses [pensadores] estão dizendo é que pelo amor e pela amizade não dá: não chega a nada.

Bom, eu achava que a exposição desse texto… [referência ao capítulo “Os cristais do tempo” do livro A imagem-tempo de Gilles Deleuze] – Chega a um ponto em que cada um tem que puxar para o que interessa, para o “tarde demais” começar a aparecer… porque a arte funda uma verdadeira intersubjetividade. (A gente pode começar a falar sobre isso. Não é só ver a imagem: é a imagem e mais alguma coisa!)

“Esse mundo não é o do artista-criador, embora Morte em Veneza ponha em cena um músico, mas cuja obra, justamente, fora intelectual e cerebral demais”. (A imagem-tempo, pág. 116)

É exatamente isso que o destrói [o Aschenbach], “a obra ser intelectual e cerebral demais”: a revelação é que vai transtornar tudo. Deleuze vai dar a isso o nome de cristal do tempo. A obra de Visconti atingiu a perfeição com esses “quatro elementos fundamentais que o obcecavam” – o mundo aristocrático, a decomposição interna, a História e, no final, o tarde demais. São os elementos dele.

“O padre de O Leopardo explicará: não compreendemos esses ricos, porque criaram um mundo só deles, do qual não podemos entender as leis, e onde o que nos parece secundário ou mesmo inoportuno assume uma urgência, uma importância extraordinárias, por isso seus motivos sempre nos escapam como se fossem ritos de uma religião por nós desconhecida (é o caso do velho príncipe que retorna a sua casa de campo e encomenda um piquenique)”. (A imagem-tempo, 116)

Quer dizer: são coisas que é impossível de o homem comum entender: daí a importância de aparecer o aristocrata na obra do Visconti e de Proust. Não é uma presença acidental, é uma presença essencial. (Há alguma coisa essencial para o Ivan ver aquelas figuras em O Conquistador? É mais ou menos a mesma questão!) [referência a uma peça infantil – cujo diretor e elenco se encontravam presentes – em cartaz naquela ocasião]. Aqui vai se repetir tudo isso em Ludwig, em Os deuses malditos, nas Vagas estrelas da Ursa Maior. (–? –)

Tarde demais! (Vocês agora têm que começar a conversar comigo sobre esse tarde demais.) Eu acho que não fica claro, porque trazemos para a socialização… e para o abalo dos interesses perceptivos. Revelação-tarde demais – é o esquema dele: o esquema do tempo. Ontologia – é o tempo que se revela! Ele disse: quando eu quero pensar aquilo – o que acontece? – não posso mais, porque já acabou. Ele disse isso ali! [referência à cena da ampulheta, em Morte em Veneza]

Olha, então, está aparecendo a essência do pensamento. O que ele está dizendo sobre o pensamento… O que é o pensamento? É o fim! O pensamento é o fim; a revelação é o fim – se revela como um vazio. O pensamento é o próprio vazio. É isso o que o tempo inteiro eu explico para vocês – é a terceira síntese do tempo: é o vazio do pensamento. É a experiência mais terrível que se faz. Se você quer pensar…

Blanchot extremiza e diz: “o supremo sofrimento é o supremo pensamento“. É começar a compreender que realmente há o trágico na vida. A vida é o trágico. A vida não é um exercício a ser decantado por um otimismo!

Há um texto do Lawrence, traduzido em francês como Eros et le chien – no capítulo [intitulado] “Estes pintores” (uma coisa assim) – onde ele vai fazer uma experiência extraordinária na sexualidade, talvez do mais alto nível que eu já tenha lido em toda a minha vida! Ele diz que os ingleses não conseguem pintar, porque eles têm a sexualidade abalada… pela sífilis. Estranho (não é?), esse enunciado… parece banal… mas não é, não! Porque a sífilis é um fenômeno real, concreto, ela penetra no corpo, e abala a imaginação.

Lawrence teria mostrado Hamlet como o exemplo da sexualidade inglesa – fuga de todo o contato com qualquer corpo. É isto que eu estou mostrando para vocês. Mostrando que… talvez o que leve à dificuldade de entender a revelação e o tarde demais – que parece tão claro – seja porque nós banalizamos tudo. Nós banalizamos tudo!… Quando encontramos um Lawrence falando sobre a sexualidade dessa maneira, extraordinária, mostrando a doença que é o Hamlet e que são agenciamentos do mundo que geraram aquela doença… é o que se processa em nós: uma tendência a banalizar!

Aluno: Eu… (–? –)

Claudio: Ela não é de fato, é de direito, talvez seja isso…

Aluno: Eu estou entendendo, mas, como você sempre coloca, eu não gosto de ficar na sinonímia. (–? –) Por exemplo (–? –) O que eu não compreendo com clareza é que você falou que quando ele se revela, é tarde demais. E justamente porque isso tem uma dimensão trágica, que é confundida com o pessimismo. É essa relação tragédia/pessimismo, que pode acontecer. Mas é engraçado, quando o Proust usa a palavra tempo perdido.

Claudio: Exatamente. Nós vamos passar para o tempo reencontrado para compreender o que é “tarde demais”. Vamos começar com o tempo perdido e passar para o tempo reencontrado, para encontrar o tarde demais.

Aluno: E é engraçado que não tem que haver uma relação direta, o porquê dele ter usado essa expressão tarde demais. Eu sei, essa expressão tarde demais dá o sentido trágico do acontecimento…

Claudio: Não, A., veja bem! Nesse campo ontológico, a expressão e o acontecimento são a mesma coisa! Tarde demais é o próprio ser do acontecimento. O acontecimento é este – revelação e tarde demais. Ou seja, por exemplo, quando você quer recuperar uma pessoa que você ama, mas essa pessoa que você ama está perdida no tempo, o que você pode fazer é sentir saudade. É essencial você sentir saudade, senão você não consegue recuperar aquela pessoa. É a mesma coisa que está acontecendo, ele está dizendo que a revelação e o tarde demais são essenciais ao tempo. Eles são essenciais, não tem jeito – você vai entrar no tempo, vai encontrar isso!

Então, o ponto de partida é essencial: não pertence a uma estrutura psicológica – você quer entrar no tempo, vai encontrar isso. Você quer sair do movimento, quer passar para um novo capítulo da sua existência, entra no tempo e encontra isso: não tem jeito! Então é exatamente o que nós vamos fazer: vamos pegar o tempo perdido, vamos pegar o tempo reencontrado e tentar compreender por aí. O problema é esse – pegar o tempo perdido e o tempo reencontrado e vamos tentar compreender por [essa via].

Aluna¹: (—)Você sustentou super bem a primeira síntese, depois você sustentou super bem a segunda síntese e a reminiscência, e quando chegar na terceira síntese… você sempre dá uma beiradinha assim…

Claudio: Vocês recusam! Há uma recusa nítida da terceira síntese do tempo, na não aceitação de que, na terceira síntese, é o pensamento e o vazio. É uma fenda no pensamento, as pessoas não aceitam.

Aluna²: Eu não sei se é isso, ou se a mim me provoca… porque eu entendi perfeitamente o que você falou a respeito desses fatos. Eu sinto exatamente a mesma coisa. Não é a primeira vez que eu sinto isso. O que me ocorre é que quando chega nesse momento, você diz que você sente uma recusa. Eu me sinto completamente perplexa, eu não sei o que fazer, não sei o que dizer, não sei o que perguntar…

Claudio: Mas é exatamente isso: é uma recusa. É evidente! Se você se sente perplexa… – o que é sentir-se perplexa? Sentir-se perplexa é você não entrar. Eu não estou fazendo nenhuma teoria psicológica, não. Estou fazendo uma teoria ontológica! Se você está no mar, dentro d’água, você se molha; se você está na perplexidade você não se move. É isso que eu estou dizendo!

Aluna¹: É que a terceira síntese vai ter que ser revelada!

Aluna²: Ah, talvez seja isso!

Claudio: É muito simples! Se você diz: eu estou na perplexidade, você está na perplexidade! Você não penetra mais.

Aluna²: É verdade! Fico parada, é verdade!

Claudio: É isso que eu chamo de recusa. Não é uma recusa psicológica, não é nada disso, não! A recusa é de ordem ontológica, você se defronta com a perplexidade; é pensar ontologicamente. A perplexidade não é da ordem psicológica, é um transcendental afetivo. Você entra naquilo. E você não passa, você não atravessa mais, você paralisa ali. Ou então nós temos que fazer o que fazemos sempre: chamar as pessoas de burras???… não!!!! Isso é uma idiotice! Não tem nada disso. Você não consegue mais passar!

Quando se diz que Artaud, na década de quarenta, mandou uns poemas para Jacques Rivière (?), que retornou com os poemas…. e o Artaud disse: “não quero que você fale sobre esses poemas como você está falando, porque esse poemas estão revelando que eu não consigo pensar”. E Jacques Rivière diz: “Não, você vai acabar pensando…”. Artaud: “Não é isso o que estou dizendo!”.

O pensamento não consegue lidar senão com o vazio, é o que ele está dizendo. O pensamento é sofrimento absoluto, então é isso o que está acontecendo aqui [no filme do Visconti] – a entrada no tempo, a conquista do tempo!!! Para conquistar uma cidade, morre-se, para conquistar um bife com batata frita, morre-se – então, para conquistar o tempo… é o sofrimento absoluto! Sofrimento absoluto!!!

A vida tenta invadir o tempo! Não é tenta invadir, no sentido de que o tempo está separado dela, não. É que ela [a vida] está dentro dele [o tempo]! O que você faria, por exemplo, na casa em que você mora? Conquistar! Nós estamos dentro do tempo, nós estamos no interior do tempo. É isso que a vida descobriu, é isso que o pensamento descobriu: nós estamos no interior do tempo! O que se faz? Produz-se alguma coisa ali dentro! É o que Visconti está tentando produzir...

Mas agora…, estando no interior do tempo – a primeira frase que eu disse na aula… – entra-se no não-senso, entra-se no paradoxo, abandona-se o modelo do bom senso. Não tem mais jeito: não há mais volta para ele! Essas figuras que aparecem agora, não são figuras religiosas: são figuras dramáticas; dramáticas!!!

Deleuze associou aqui o tarde demais… (não está muito claro, não; não é?) – “o tarde demais do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo”. É difícil, mas é clariável…

O tempo perdido é que produz o tarde demais. O tempo perdido com a arte cerebral que, na revelação, já era tarde demais. “…ao mesmo tempo que isso ocorre, a unidade da arte aparece e o tempo é reencontrado”. (Vocês vão ter que fazer um esforço para entender isso!) Surge aquela revelação, decepcionante, mas ao mesmo tempo, a unidade da arte e o reencontro do tempo. Ou seja, o Visconti está nos dizendo que, na revelação, o tempo é reencontrado. É isso que ele está mostrando ali.

Aluno: O que ele quer dizer com unidade da arte, eu não entendo bem o que é isso.

Claudio: A unidade da arte ali, na revelação, é o que o professor viu – é a unidade da natureza e do homem. Por que o que o Aschenbach está dizendo o tempo todo, é que o artista tem que trabalhar e se liberar da natureza, se liberar dos sentidos; e o que Tatzio revela, é que não é nada disso: que há uma unidade! A surpresa dele foi essa – há uma unidade – e ele não precisava ficar lá em cima, trabalhando no vazio. Há uma unidade! Não interessa se é verdadeira ou não! O fato é esse, a revelação foi essa. A natureza faz uma unidade com o homem. Essa unidade da natureza com o homem é o lugar da arte e… o reencontro no tempo. O tempo estava perdido. Tentem compreender isso: o tempo estava perdido!

Aristóteles viveu o tempo perdido – todos eles [os filósofos clássicos] viveram o tempo perdido: eles não transaram o tempo, transaram o movimento. Então, [no filme] Aschembach reencontra o que tinha sido perdido. Eu citei, dizendo que, pela saudade, pode-se recuperar, no tempo, uma pessoa querida – isso não é arte, isso é amizade, é amor!

O artista não quer recuperar pessoas perdidas no tempo, ele quer recuperar o tempo – o próprio tempo. É a ontologia, é isso o que ele recupera. Então, tarde demais e revelação… é o reencontro do tempo. Visconti é atavicamente o cineasta do tempo. E ele vai e descaracteriza Losey, porque Losey era naturalista. É isso. Vou passar para Proust, mas se vocês não chegaram até aí…não sei o que eu faço!

Perdeu o tempo, reencontrou o tempo, pela unidade da natureza e do homem. (É isso! Nada mais do que isso! Se vocês não entenderam, é impossível passar. Eu não paro de dizer que há duas maneiras de se compreender esses temas: de brincadeira ou seriamente. Seriamente não tem jeito: tem que entrar.)

Vamos dizer que o artista tivesse uma obsessão – a verdade: o que é a verdade; a verdade do tempo. No caso, o que vem a ser a verdade do tempo? Como ele vai encontrar a verdade do tempo… se o tempo está perdido?

Conquistar! Conquistar o tempo, reencontrar o tempo. A primeira prática dele tem que ser essa. Ele reencontra pela revelação. Ao encontrar, “tarde-demais!” Tarde demais passa a ser o quê? Passa a ser a verdade do tempo. Já não é mais decepcionante, torna-se a verdade do tempo! A categoria… a categoria do tempo: é “tarde demais”.

Vocês não sabem o que é viver seis horas da tarde? Vão viver o “tarde demais”! Vão ver no que vai dar. A essência da arte é essa – não é a decepção psicológica, é essência, é a natureza mesmo. Encontra o tempo, e reencontra a revelação de tudo, ali vai transbordar para você. O quê? O tarde demais! Difícil uma expressão dessas: “C’est trop-tard!”

Eu acho que o melhor caminho aqui é Proust – no capítulo “Signo e Verdade”, o capítulo dois [do livro Proust e os signos do Deleuze]. (Não sei como é que está indo, não é?)

“Mas perder tempo não é o suficiente. Como vamos extrair as verdades do tempo que se perde, e mesmo as verdades do tempo perdido?” [Prout e os signos, pág. 23] O que está sendo dito é que quem quer conviver com o tempo vai encontrar nele a verdade. É nele que está a verdade. Tem-se que saber como isso vai ser feito. Recusar-se a perder tempo. Quem procuraria a verdade se não tivesse primeiro… (virada de fita)

PARTE III

(Então é melhor deixar passar o filme, não é? Aí, vocês vão ser inundados de signos. Na hora em que despertar alguma coisa…, para!)

Aluno: Engraçado que, ao que parece, ele apresenta dois tipos de revelação: uma revelação com a madeleine – ele tem uma revelação, mas está preso num objeto sensível; e uma segunda revelação, que já é o tempo puro direto…

Claudio: Olha, o Deleuze não diz bem assim. É possível ser dito como você está dizendo… o Deleuze vai mais fundo nisso. Está bem dito, mas o Deleuze aprofunda mais o que você acabou de falar quando ele diz aqui assim…

“Fórmula proustiana: um pouco de tempo em estado puro.” O que Proust quer ao dizer isso? Como é que vocês diriam? A fórmula proustiana: “um pouco de tempo em estado puro.” O que quer dizer isso? (Quem não decifrar vai morrer enforcado. Quem não se arriscar… morre enforcado!..)

“Um pouco de tempo em estado puro” – ele está dizendo que há tempo que não está em estado puro. Proust está dizendo o quê? Proust está dizendo que existe um tempo para o estado puro. Esse tempo, que está fora do estado puro, é exatamente isso que você acabou de falar: é um tempo que pode ser apreendido pela memória, pela imaginação – [enquanto que] o tempo em estado puro… só o pensamento pode apreender.

Então, ele diz aqui: “A fórmula proustiana, um pouco de tempo em estado puro, designa em primeiro lugar o ser em si do passado, isto é, a síntese erótica do tempo, mas, designa mais profundamente a forma pura e o vazio do tempo.”

Por que ele diz isso? Porque ele quer o tempo puro, o tempo puro é vazio, e todas as teses sobre o tempo, inclusive as do Bergson, misturam o tempo com Eros, misturam o tempo com Narciso, o tempo do Narciso, o tempo do erótico, e Proust quer tempo puro, tempo vazio – que é a mesma coisa de Visconti – é vazio! (Não sei se vocês entenderam!)

(Se vocês não souberem perguntar, é que a questão talvez não tenha passado bem.) [É preciso] entender isso: O rompimento, quando Deleuze aponta para Proust e critica Bergson, é [que] Bergson está prisioneiro do tempo misturado com Eros, misturado com Narciso – um tempo todo penetrado de coisas!… Para se tornar um pensador… é preciso querer o tempo puro.

Aluno: Eu acho que é aí que eu tenho dificuldade…

Claudio: É muito simples, há uma maneira de dar conta disso… – confronta pensamento e inteligência. Qual de nós aqui não é inteligente? Todos nós somos. Qual de nós não quer ser inteligente? Não ser enganado no troco, ganhar juros no “centrão”, arranjar um bom emprego, obter sucesso na vida?! – isso chama-se ter inteligência. E com que nós confundimos isso?

Aluno: Com o pensamento!?

Claudio: Com o pensamento!..- não tem nada a ver! A inteligência vive no campo social, no campo comunicativo, no campo intersubjetivo – o pensamento é aquilo que lida com o tempo puro. É a coisa mais simples!

Aluno: A imagem da ampulheta é muito forte, Claudio! É quando acaba… e ele vê: quando ele vê o vazio da ampulheta – ele fala que o pensamento quer entrar, mas que, afinal, é tarde demais…

Claudio: Mas entra!

Aluno: Mas entra!?

Claudio: O tarde demais entra! O tarde demais não é um estado do homem. É uma dimensão [do tempo]. Isso é o trágico! Tarde demais é o trágico; o transcendental! Esse enunciado que eu fiz aqui sobre a diferença entre Proust e Bergson… é que o Bergson não foi atrás do tempo puro… – quem foi atrás dele foi Artaud, foi Proust – que é o tempo sem penetração de nenhum fantasma, de nenhum deus, de nada! Por isso, Proust… eu vou ler aqui, que você vai ter a compreensão do que você citou… “A experiência proustiana tem evidentemente uma estrutura totalmente distinta das epifanias de Joyce, mas trata-se também de duas séries (olha a marcação: duas séries!), a de um antigo presente (o antigo presente é aquilo que está no nosso passado), Combray tal como foi vivida, e a de um presente atual. (duas séries!) Sem dúvida, permanecendo numa primeira dimensão da experiência, há uma semelhança entre as duas séries: a madeleine, a refeição da manhã, e mesmo a identidade e o sabor com qualidade não somente semelhante, mas idêntica nos dois momentos. Todavia não está aí o segredo. O sabor só tem poder porque ele envolve alguma coisa igual a x.”

Quer dizer: alguma coisa igual a x – para vocês que não estudam filosofia… [referência aos bailarinos e atores presentes], para eles que estudam filosofia, é matar vocês: matar! Por quê? É exatamente a experimentação que se faz nesse trabalho daqui – para se fazer um trabalho desses…, para encontrar Proust, você tem que sair do plano da identidade – que é o plano da inteligência. A inteligência só trabalha se ela tiver o princípio de identidade submetido por ela, senão ela não trabalha. A inteligência não suportaria dizer “S. está sentada e está em pé”. Ela precisa da identidade para se sustentar! O que Deleuze está dizendo aqui é que, para entrar na arte, é preciso encontrar um tal de objeto – “alguma coisa igual a x” – que não mais se define pela identidade: define-se pela sua própria diferença essencial.

É como se você fosse posto para fora de casa: “Vai embora, não fica mais aqui, você agora tem que arranjar tua comida, tem que se cobrir de noite, vai se virar, cara! Sai dessa segurança idiota que você está tendo aqui e vai se virar”. Ou seja, é rompido tudo aquilo – e se você quiser fazer a prática de arte, a prática do pensamento, tudo aquilo que você supunha que era o fundamento, não é! (Não sei se vocês estão entendendo bem…)

Aluno¹: Claudio, o Bergson chegou a definir só as duas primeiras sínteses, quem definiu a terceira, foi o Deleuze?

Claudio: Não. Não foi o Deleuze… O Deleuze é o pensador dos agenciamentos. Deleuze não para de enquadrar aqueles que se agenciaram com a terceira síntese, no caso é o Proust, no caso é o Artaud. Eu acho que se vocês lerem o Artaud, do Maurice Blanchot, vocês vão entender bem. Não é assim: entender… não é o entendimento da inteligência. A inteligência só entende se houver identidade e não-contradição. Se você disser para a inteligência que S. está sentada e está de pé, ela não vai entender… Não é justo, ela não vai entender isso! Então, não é a inteligência que entende. É o pensamento que vai… Eu posso dizer para você que o Artaud produziu os grandes enunciados sobre a terceira síntese.

Aluno¹: Mas quem deu o nome de terceira síntese. ..?

Claudio: Ahhh, sim, o Deleuze!!

Aluno²: Deleuze que organizou?

Claudio: [Deleuze] é o administrador – o pensador da administração! Deleuze é um filósofo: um filósofo do tempo!

Aluno³: Ele está tornando visível…

Claudio: Ele está trazendo essa matéria para a especulação, para o pensamento especulativo.

Aluno²: Você diz que o Deleuze administrou. Mas, talvez, mais do que o termo administrar… ele compôs alguma coisa com isso?!

Claudio: Não, Deleuze não interfere, como o historiador clássico da filosofia interfere nas obras dos filósofos, dizendo que é verdadeiro ou falso. Deleuze não faz esse tipo de coisa! Deleuze se importa se ela for sedutora e criadora. Ele não dá importância para a tolice!… Ele não faz essa clássica interferência, que o historiador da filosofia faz numa obra filosófica, chamando-a de verdadeira ou de falsa. Ele não faz isso. Ele não acrescenta ao Artaud. A leitura que ele faz é muito original! Talvez por isso as pessoas tenham dificuldade para entendê-lo. Ele não lê como os historiadores clássicos de filosofia leem. Ele não faz comentários, não faz interpretações, o que ele faz são sobretudo avaliações. Pega o Nietzsche, por exemplo: lendo Nietzsche, dificilmente você vai dizer que reconhece [ali] o que o Deleuze diz. Não! É bem diferente! Mas o Deleuze não diz como… um historiador como Bertrand Russell, por exemplo, diz, que o Nietzsche é louco, porque falou no eterno retorno. Não é nada disso! Para que serve o eterno retorno? O que eu vou fazer com isso?

Aluno²: Como funciona aquilo…

Claudio: É. Como funicona? Para que serve, como funciona? É esse o trabalho do Deleuze. Ele não é um historiador da filosofia.

Isso daí, em qualquer universidade que você for, no mundo inteiro, todo mundo vai chamar o Deleuze de “historiador da filosofia”… por sordidez! Por sordidez! Não é por epistemologia: é por sordidez!

Aluno³: Eu acho que fica muito claro se você pegar uma aula de filosofia de um professor comum… e uma aula de filosofia do Claudio. Dá para se perceber a diferença. Ele está mostrando como se pensa… como isso funciona…

Claudio: É uma máquina! Você está diante de uma máquina: como ela funciona, para que serve… serve para quê? Para entrar no tempo! Nada mais do que isso!…

Atualmente, os… – isso é (-? -) dos deleuzeanos; são muito poucos! -…eles estão procurando mostrar como o Deleuze faz com o pensamento… como é que Deleuze lê. Como é a leitura dele.

Há um engano – todo mundo se engana!. .. – [acerca] do Deleuze ou [de mim mesmo], admitindo ou iludido de que isso implica em formação de seitas, de grupos. Não! Nada disso! Na verdade isso aqui é um caminho solitário – a solidão pode ser em grupo! Mas não busca seitas, não busca solidariedade, não busca reconhecimento, nada disso. Nada disso! Não está no universo deleuzeano, de forma nenhuma. É fácil distinguir… basta ler Hegel, lendo Hegel, entendendo Hegel, você vê que ele trabalha com o reconhecimento…

Hoje, quando a Fernanda Montenegro estava falando numa propaganda na televisão… eu até ri muito… porque [essa propaganda] era toda fundada no reconhecimento. “Tudo isso só pode ser feito, porque o passado garante o futuro!” – é Hegel! Então… essa prática daí, eu não tenho nada disso: é um exercício de vida! Um exercício!…

Bom, eu não sei o que eu faço. Se vocês conseguiram entrar nessa dimensão… É o tempo, o tempo chegou.. entrou o tempo. .. e… (-? -). As minhas leituras garantem o que estou falando, (não é?) Talvez esteja aí o rigorismo que eu atravesso, admitindo que todos têm que fazer uma espécie de leitura semelhante. Mas há um exagero meu, nisso. Talvez não seja preciso! Embora o Deleuze se sustente [dessa maneira]. Ele se sustenta assim. Nas… leituras muito fortes que você tem que fazer… para conduzir a sua existência.

Bom… eu vou fechar esta aula, tá? Aí a gente passa a ver o filme…

O que difere Bergson de Proust, Proust de Robbe-Grillet, de Resnais, desses todos que estão aí, de Godard, é que cada um tira uma porção dessa criatura chamada tempo. A do Visconti é o tarde demais!

Na página 99 desse livro aqui [A Imagem-Tempo] – o texto vocês devem ler, [é sobre] a fundação do tempo (–? –). Deleuze vai falar agora no cristal do tempo – a formação do cristal, o problema da música, o cristal sonoro, estribilho, memória, tempo e até.. Olha, quando eu faço uma associação com meus alunos… – geralmente faço isso na universidade, fora dela raramente eu faço isso. Eu faço uma associação de construir um mundo neutro entre mim… que eu e os alunos habitemos aquele mundo neutro; que todo mundo se admita dentro de uma posição. Que é… que… ter excesso de vaidade, excesso de orgulho…, isso prejudica o estudo! É… o encaminhamento que o Braudel fez para mim. Ele dizia que, numa sala de aula com 500 alunos, ele encontrava dois ou três que podiam atravessar!

Muitas coisas a gente não entende, mas isso não tem problema. É isso… Você vai ler um livro de arte, como o do Wölfflin, por exemplo, e ele vai falar de uma figura chamada… profundidade de campo; ele nem usa esse nome, é um nome moderno, (não é?). A profundidade de campo… não, ele usa outro nome, não me lembro, comparando a arte clássica com arte barroca. Não é nada, não dá nem importância para isso. Mas acontece que a profundidade de campo é do barroco conquistando o tempo. É o tempo sendo conquistado!

Aluno: É plano e profundidade.

Claudio: É plano e profundidade… mas ai, sabe o que é, L., é no capítulo dois, do Wöllflin, se não me engano, (não é?) você estudar a profundidade, porque há uma diferença nos mecanismos utilizados pela pintura clássica e pela pintura barroca. As diagonais, as luzes barrocas (não é isso?) e as dimensões clássicas. Que realmente, quem vai conquistar o tempo é o barroco! O clássico se limita ao espaço. Essa noção de tempo talvez seja um bloqueio para vocês. Talvez ela bloqueie…

Eu vou levantar uma questão: existe uma figura que a matemática, por exemplo, lida muito com ela – que é a figura do infinito... O que é o infinito? Os séculos trazem um debate sobre se o infinito é real ou não… – é uma discussão entre o infinito atual e o infinito potencial. Então, essas noções, que parecem de pouca importância, elas são elementos fundamentais para se entender essas criaturas que estão aparecendo aqui: tempo, cinema, arte, pintura, teatro, filosofia, invadir essas coisas. Por isso, eu digo, que criar um espaço neutro com o aluno dentro da universidade é muito fácil para mim. Sempre muito fácil para mim. Não tem vaidade em dizer eu sei, eu sei qual o problema, nada disso! Você não tem que viver isso! Você tem que fazer agenciamentos ali, para poder… desde que se queira usar isso na vida… (não é?) Servir-se disso.

Eu acho que não tendo mais nada a dizer… que vocês não perguntam… eu não tenho mais o que falar. Chegamos na revelação/ tarde demais… vocês se viram com isso, não é? Não vai levar muito longe, hein? Porque nós vamos chegar a dimensões extraordinárias, nisso aqui. Por exemplo: o cinema do Robbe-Grillet… é assustador. Eu não poderia explicar o Robbe-Grillet para vocês com facilidade… é impossível!…

Passa o filme… O filme vai explicar tudo isso!

….Aristocracia, decomposição, história e tarde demais. Pega a aristocracia [trecho inaudível, misturado com as vozes e a música do filme]

O tarde-demais demais é que penetra… tira você da… do ordinário. Tira você daí. (…)

Eu estou dizendo desde o começo: é a insuportabilidade deste encontro que gera a obra de arte.

Aluno: A expressão é isso?

Claudio: Isso é a expressão!!! Você não tem outra saída!!! Se você não expressa, está morto!!! É isso o que eu estou dizendo desde o começo…

Aluno: É uma dobra, então, seria isso?

Claudio: Aí vira um nome, vazio…

Ou você expressa aquilo, ou você morre!!! O artista é isso. Muitas vezes você não consegue expressar: você pira, você enlouquece. É o que Proust conta no “Contra Saint-Beuve”, é isso! Basta isso: o artista não aguenta! Vocês acham que Fernando Pessoa morreu de quê? De “bife com batata frita” ou de arte? Morreu de arte!!! Mata!

(———-)

Vocês não entendem é o problema: como você entra nessa matéria… no pensamento. Para Platão – quando é que você pensa para Platão? Quando você se espanta! [Platão] Espantou, entrou! [Visconti-Proust] Revelou, entrou! Confrontem que vocês vão entender: Revelou, entrou. Espantou, entrou. É a diferença dos dois! Agora: Platão… espantou, entrou e pensou. Revelou, entrou… foi tarde-demais! Que coisa grave, hein? Porque, se é tarde demais… é o vazio!!!!!

A música é maravilhosa… Esse menino, o Mahler, foi perseguido pela mulher do Wagner. A Cosima destestava ele… Por causa disso aqui, dessa sinfonia aí…

(————-)

Se um homem sofre mais que do que outro, não tem a menor importância, porque poderia não ter sofrido. Nenhum sofrimento garante a você maior nota metafísica. É o erro de muitos pensadores! O Rubens Correia, quando foi fazer uma peça sobre Artaud, ele pensava que Artaud era importante porque sofreu muito. Eu conheço um sujeito em Macaé que sofreu muito mais do que o Artaud. Não há nada no mundo da contingência, ou seja: daquilo que acontece, mas poderia não ter acontecido, que nos dê uma posição superior ao outro. Não é por aí. Esse é o primeiro ponto da (-? -) O sofrimento é o da arte.

Aluna: Tem até uma máxima cristã, não é? Quem mais sofreu…

Claudio: (–? –) Esse é o sofrimento vulgar, mas não é isso! É uma experimentação radical… muitos não fazem… outros fazem… Há um autor, que se chama Clément Rosset, que pergunta qual a importância de se fazer ou não essa experimentação. O homem trágico tem mais valor existencial que o homem não trágico? Não! Não é por aí. É querer fazer da vida esse caminho… Acredito que quando você entra…não tem volta!… Não tem volta!… Não tem volta!… Como é que vai voltar???

Mas o enunciado básico é aquele da ampulheta…

Aula de 10/09/1995 – Uma aula trágica

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 13 (“Arte e forças”) e 15 (“Ecceidade e Espinosa, o Mais Poderoso dos Deleuzeanos”) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.


“Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Espinosa […] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar […] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.”

 [Herem – anátema – pronunciado contra Espinosa aos 23 anos de idade, em 27 de julho de 1656].

Esta é uma aula trágica. Trágico não quer dizer sofrimento – não é nada disso; mas uma aula fundada num homem que esteve neste planeta durante quarenta e cinco anos. Nesses quarenta e cinco anos de vida, ele se preocupou em compreender e em observar se há ou havia saída para o sofrimento da alma humana. Esse homem chama-se Espinosa.

Espinosa viveu no século XVII: nasceu em 1632. Ele foi injuriado e odiado durante a sua vida… e acusado de materialista e de ateu. Quando diziam que ele era materialista e ateu, ele, sim, sentia uma enorme alegria, porque ele era materialista e ateu. Mas não considerava isso uma desonra. Pelo contrário! Uma posição, para ele, a mais elevada que o homem poderia ter.

Eu usei uma expressão perigosa – “a posição mais elevada que o homem poderia ter”. Dizer: a posição mais elevada que o homem poderia ter – não tem uma significação moral. Significa que aquele que tem a posição mais elevada venceu todos os medos, todas as angústias e todos os sofrimentos. Ou seja: o homem mais elevado, no conceito de Espinosa, é aquele que, através do seu pensamento, descobriu que a vida pode se dar sem angústia ou depressão.

Então, dizer “o homem mais elevado”, não é um elogio pelos discursos que Espinosa proferiu; mas um fato, que ele teve como questão da vida dele – e os mais jovens talvez não entendam a força existencial do que eu estou dizendo -, que ele teve como questão primacial da obra dele o sofrimento da humanidade. Diante desse sofrimento – e não é o sofrimento do corpo que preocupou Espinosa – é o sofrimento da alma: a alma humana envolvida com o medo da morte, das angústias, dos terrores que a acompanham desde o nascimento.

Se nós, literalmente, não tivéssemos tido Espinosa – quer dizer, este Espinosa que eu vou começar a dar para vocês -, o homem seria um ser sem saída Ele seria um ser definitivamente mergulhado na angústia. Ou melhor: tudo aquilo que está dentro do tempo… nasce, desenvolve-se e morre. O que leva qualquer criatura dentro do tempo – se não houvesse Espinosa -, a estar condenada a um sofrimento insuportável.

Essas afirmações que estou fazendo antes de começar a apresentar Espinosa para vocês, é porque a obra dele tem como principal adversário – e aqui as palavras começam a ficar um pouco difíceis para serem entendidas -, o principal adversário da obra de Espinosa é a ignorância. Ele considera a ignorância o pior inimigo da vida.

Ignorância quer dizer ignorar. E quando você encontra um ser – atenção pela beleza e pela dificuldade do que eu vou dizer! – quando você encontra um ser que é ignorante por acidente, significa que esse ser é ignorante, mas pode deixar de ser. Ou seja: ignorância por acidente significa que esse ser, dependendo de determinadas ocorrências, deixaria de ser ignorante. A questão de Espinosa não é essa! A questão do Espinosa é com aquele ser que é ignorante por essência. E que nada, jamais nada no universo pode modificar aquela ignorância. É um ser que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância.

Espinosa diz que este ser, que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância, que este ser é o maior inimigo da vida. E ele chama esse ser do mesmo nome que nós costumamos chamar – a consciência. Essa afirmação aqui é uma afirmação inicial.

Aluna: Ele chama a ignorância…

Claudio: A consciência, para Espinosa, é um ser absolutamente ignorante e a ignorância da consciência… – não adianta mandar a consciência para um internato na Suíça, porque ela não tem cura. O Espinosa está dizendo que ela é ignorante por essência, e não por acidente.

É nesse momento que começa uma obra que dada a filosofia… [trecho inaudível] esquece para sempre a consciência. Ela é declarada a ignorante sem cura. E a partir dessa denúncia que Espinosa está fazendo para todos os homens – ele está dizendo para todos os homens: “Olhem, a consciência, ela é… a ignorância absoluta!” Evidentemente que os homens, que são governados pela consciência, não entendem o que ele diz.

A gente ouve essa afirmação que Espinosa está fazendo – que a consciência é ignorante – e, inicialmente, acha que são meras palavras ou jogos de palavras que vão aparecer para nós – como aconteceu durante toda a história do homem – que é ir se deparando com jogos de palavras. Não é essa a questão! A questão de Espinosa é… de uma radicalidade assustadora! Ele diz e afirma que a consciência jamais poderá deixar de ser ignorante. E, a partir dessa afirmação, eu vou mostrar para vocês o que é a consciência.

Em primeiro lugar, o que é algo fácil de ser entendido, o homem é constituído de duas coisas – e as palavras aqui podem ser prejudicadas pelas influências religiosas… – o homem é constituído de um corpo e de um espírito. Essa noção de espírito é a afirmação de que o homem é capaz de tentar – se ele consegue ou não é outro problema! – entender a natureza; capaz de sofrer pelo sofrimento dos outros e dos seus próprios; e é capaz de inventar novos objetos.

Inventar novos objetos, sofrer e procurar entender a natureza são índices de que o homem possui um espírito.

Possuir um espírito é o fato de que o homem avalia, julga, sente, projeta, recorda-se, lamenta, sente alegria, sente tristeza… – todos esses componentes indicam, exaustivamente, que o homem não se esgota no corpo: que ele tem um espírito!

Então, Espinosa começa por essa afirmação: o homem é corpo e espírito! Essa afirmação, pelo menos aparentemente, não é muito original, porque todas as religiões disseram a mesma coisa: o homem tem um corpo e um espírito.

A originalidade começa quando Espinosa diz que o espírito aparece no mundo por uma forma chamada consciência. Ou seja, nosso espírito – não vou dar exemplos porque vocês não iriam entender – aparece no mundo por uma forma que se chama consciência – Atenção! – e essa forma, a consciência, tem por função recolher em si tudo o que ocorre na natureza. A consciência é como que… o resultado dos acontecimentos da natureza. A consciência sofre, se angustia, tem depressões. A consciência é um órgão do espírito, ou um órgão no espírito humano que teria a função de conhecer a natureza das coisas. Teria a função de conhecer a natureza das coisas… mas ela não pode conhecer a natureza das coisas.

Atenção! Espinosa diz que a natureza das coisas são relações causais. O que são relações causais? São relações de forças que percorrem a natureza.

A natureza são as forças dos corpos, ou melhor, diz Espinosa, o infinito inteiro da natureza é constituído por dois afetos – a composição e a decomposição dos corpos.

Quando você conhece a natureza, você conhece – diz ele – que a natureza só tem dois afetos: a composição e a decomposição. Mais nada!

Então, a natureza se explicaria pelos corpos que se compõem e pelos corpos que se decompõem. Para Espinosa a natureza não tem mais nenhuma lei, só essas duas; só esses dois afetos: composição e decomposição.

A consciência – sendo um órgão do conhecimento – teria a função de conhecer as regras que organizam a composição e a decomposição. Mas ela não pode fazer isso – e esse é o momento mais difícil e mais sofisticado para vocês entenderem – porque ela, a consciência, é um efeito da composição e da decomposição [dos corpos]. Ou seja, só porque há composição e há decomposição é que há consciência. A consciência não é primária; ela é secundária – um produto das relações causais da natureza. Por isso, a natureza é toda constituída por relações causais, nas suas composições e nas suas decomposições; e ela, a natureza, só tem um efeito: esse efeito chama-se… consciência!

A consciência é um efeito; e sendo um efeito (ela é como se fosse a Comlurb*) – só recolhe os acontecimentos causais da natureza. Então, quando a consciência pertence a um corpo que está em composição com outro corpo, a natureza recolhe alegria; quando está em decomposição com outro corpo, ela recolhe tristeza. A consciência não compreende a natureza: ela sente a natureza!

[* Comlurb é a Companhia Municipal de Limpeza Urbana da cidade do Rio de Janeiro. N. do E.]

(Atenção, para o que eu estou dizendo:)

A consciência não compreende os movimentos causais que a natureza efetua. Ela não compreende, mas sente esses movimentos. Por isso, a consciência é constituída pela variação das composições e das decomposições da natureza, que dão à consciência variação de sentimentos.

A consciência é uma interminável sucessão de sentimentos. Ela passa de um sentimento para outro, em função das composições e das decomposições que existem dentro da natureza.

Aluno: Uma interminável consciência desses movimentos? É como se fosse um movimento continuado, não é?

Claudio: O que a consciência tem são sentimentos. Ela não sabe o que são as composições e as decomposições da natureza; ela tem apenas sentimentos.

Então, por exemplo, o meu corpo se compõe com outro corpo, a minha consciência sente alegria. O meu corpo e outro corpo se decompõem, ela sente tristeza. Quando a composição permanece por mais tempo, ela sente amor. Quando a decomposição demora mais tempo, ela sente ódio. Então, a consciência vai variando de sentimentos. Ela é uma variação permanente de sentimentos.

Por isso, qualquer homem está em permanente variação de sentimentos. Ele sente amor, ódio, tristeza, alegria, esperança, angústia, desventura, raiva…. Tudo isso está se dando na consciência, porque na natureza os corpos estão em composição e em decomposição. A partir daí, a definição da consciência é “aquela que recolhe os efeitos do afeto que percorre o infinito da natureza: o afeto das composições e das decomposições”. Assim, a consciência é um ser mutilado. Ela é mutilada porque ela não pode apreender, ela não apreende as causalidades. Então, todo o saber que a consciência tem é um saber mutilado, é um saber pela metade: ela não apreende as causas; ela só conhece os efeitos.

Sendo assim, imediatamente, ela, a consciência, é por essência angustiada. Ela se angustia, porque sequer pode saber quanto tempo um sentimento que está nela vai durar. Porque ela não sabe que as variações de sentimentos se dão pelas composições e pelas decomposições da natureza. Ela só recolhe os efeitos.

Aluno: Decomposição seria a separação?

Claudio: A decomposição, M.L., é quando, por exemplo, digamos: você tem uma ideia sobre o que é democracia, aí você lê um texto em que um determinado autor produz uma noção de democracia que entra em choque com a sua. Quando duas ideias não se compõem, elas se decompõem; e a decomposição de uma ideia produz em nós um sentimento de fraqueza.

Então, o que eu estou chamando de composição e decomposição é composição e decomposição de ideias e composição e decomposição de corpos. Nós temos uma série de ideias e, de repente, essas ideias entram em composição com outras ideias. Se essas duas ideias se compuserem nós sentimos alegria, porque nossa força aumenta.

Aluno: Elas somam?

Claudio: Elas somam!

E se elas entrarem em confronto, nós sentimos tristeza. Então, o que nós temos que entender… – e aqui já começou a violência de Espinosa -… que a consciência não entende: ela sente.

(É uma diferença fundamental, vou insistir até que vocês…)

Aluno: Soma ou perde, não é?

Claudio: Ela compõe e decompõe.

Ela não conhece composição nem decomposição. Ela só conhece os sentimentos. A consciência não conhece as leis da natureza. Ela só recolhe – das composições e das decomposições – os sentimentos. Então, a nossa consciência é uma variação interminável de sentimentos e esses sentimentos em variação constante geram um sobre-sentimento, que se chama angústia. A angústia apareceria não como um sentimento, mas como um sobre-sentimento, pelo fato de que a consciência não entende nada do que se passa. Nada! Ela não foi feita para entender; ela foi feita para sentir. Então ela passa toda a sua existência mudando de um sentimento para outro. Essa variação de sentimento chega a um ponto que abafa a própria consciência. Aí ela sente angústia.

A angústia é a impossibilidade de a consciência permanecer num só sentimento. Os sentimentos não param de oscilar, porque a natureza não para de compor-se e de decompor-se. Então, o ponto de partida da aula (está entendendo, R.?) é que a consciência… ela não entende; ela sente.

Aluno: Ela sente a composição e a decomposição?

Claudio: Ela pega os efeitos.

Aqui já apareceu um elemento da ignorância dela. Ela não tem capacidade para entender os movimentos da natureza. Ela não consegue entender. Não conseguindo entender, o processo dela é sentir.

Aluno: A decomposição tem a ver com perda, não é?

Claudio: Isso não tem muita importância, não, porque o importante aqui é o estado da consciência em termos de sentimento.

O que nós chamamos de consciência é que todos nós temos a capacidade de sentir um determinado estado em que a gente está. De repente, você está aqui e uma tristeza te toma, daqui a pouco uma alegria te toma, dali a pouco uma raiva, depois um ódio, dali a pouco um amor. A consciência vai passando de sentimento para sentimento. Então ela não consegue entender a natureza de maneira nenhuma, porque todo o procedimento dela é sentir.

A consciência sente, ela é o ser do sentimento. Então, envolvida em sentimento durante toda a sua existência, – toda a sua existência envolvida em sentimento -, a consciência (prestem atenção ao que eu vou dizer agora porque é o enunciado principal!) a consciência não entende a natureza, ela não pode entender a natureza. (Prestem bem atenção!) Ela não pode entender a natureza! ! Então, ela, a consciência, estaria fora do campo do entendimento.

A consciência está fora do campo do entendimento. E aquilo que está fora do campo do entendimento entra no campo da obediência. A consciência não nasceu para entender. Ela nasceu para obedecer ou desobedecer.

Não tendo como entender a natureza, a consciência acha que ela lhe dá ordens: que a natureza envia ordens para ela, a consciência. E ela responde a essas ordens obedecendo ou desobedecendo.

Quando ela obedece, espera de imediato uma recompensa. Quando desobedece, ela espera uma punição. Então a nossa consciência, obedecendo ou desobedecendo, vive infernizada pela culpa. A culpa a percorre o tempo inteiro. Ela se sente culpada. A culpa que a percorre está na própria incapacidade que ela tem de entender a natureza. Não entendendo a natureza, ela se sabe mutilada Ela é inteiramente mutilada! E em função disso emerge a culpa, que jamais poderá abandoná-la. Então, quando se diz “consciência culpada”, isso é uma afirmação essencial. Toda e qualquer consciência é necessariamente culpada.

Aluno: Como é que ela desobedece à natureza?

Claudio: Ela desobedece… Vou dar um exemplo. Um exemplo famoso em Espinosa.

Espinosa chama de Deus a própria natureza. Natureza para Espinosa é sinônimo de Deus. Então Espinosa diz:

Um dia Deus chegou para Adão – e Adão é um homem da consciência – e disse: “Adão, não coma este fruto!” Adão, quando ouviu aquilo, reagiu a esta afirmação de Deus – qual foi? – “não coma deste fruto”. Adão tomou aquilo como uma ordem: “Deus está me dando uma ordem!” – foi assim que ele entendeu, porque a consciência não entende o que é dito. Tudo o que é dito a consciência toma como uma ordem. Então, Adão recebeu essa ordem de Deus – assim que ele pensou que fosse! – e o que é que ele fez? Ele desobedeceu, isto é: ele comeu [o fruto]!

Quando ele come o fruto, ou seja, na hora em que ele desobedece a ordem de Deus, o corpo de Adão vai sofrer as consequências: ele vai sentir dor! Na hora em que sente dor, Adão pensa que Deus está se vingando dele: que Deus o está castigando, porque ele desobedeceu.

Na verdade, Deus não estava dando uma ordem. Deus estava dizendo: “Olha, meu filho, se você comer esse fruto, quando as partes do corpo desse fruto entrarem em contato com as partes do seu corpo, vai haver uma decomposição. Então, não coma esse fruto, porque você vai ficar envenenado!”. Deus estava dando a ele entendimento.

Mas Adão, regido pela consciência, não pode entender: ele só pode obedecer ou desobedecer. Porque a consciência jamais é capaz de entender!

É nesse momento que Espinosa vai dizer provavelmente um dos enunciados mais violentos da história do homem. Ele vai dizer que o homem, governado pela consciência, é – por essência, por natureza – infeliz.

E ele diz: todos os homens, quando lhes é perguntado qual o momento mais feliz da existência deles, todo homem responde a mesma coisa – “a minha infância”. Todo homem pensa, acha, que a sua infância foi seu momento mais feliz.

Diz Espinosa: ao contrário, a infância é o momento mais infeliz de qualquer homem porque, na infância, o que governa uma criança é a consciência – que só faz uma coisa: obedecer e desobedecer. Espinosa, então, diz que a infância é o momento mais triste da vida, porque [nessa etapa da vida] nós não temos capacidade de entender nada! Toda a nossa vida, na infância, se passa como uma relação de comando sobre nós – que nós obedecemos ou desobedecemos.

A partir daí Espinosa vai considerar a humanidade adâmica, ele vai identificar o homem – todos os homens – a Adão. Ou seja: ele chama “Adão, o ignorante e angustiado”; “o homem, o ignorante e angustiado”. Então, para Espinosa, o fator da perturbação que o homem tem desde que nasce até que morre é a consciência.

Aluno: E quando a criança desobedece?

Claudio: Quando ela desobedece, ela é punida: é assim que ela acha, porque a consciência não entende que a natureza é regida por leis; ela pensa que a natureza dá ordens. Então, ela obedece. E aí, quando ela obedece, [ela acredita que] a natureza dá um premio para ela; e [quando] desobedece, que a natureza a castiga. A consciência é escrava por essência.

O homem da consciência é um homem escravo. Ele é escravo do medo, da angústia, da mutilação, da impossibilidade de conhecer, das incertezas. Espinosa aponta para essas questões, mas a prática que ele está exercendo não é absolutamente original, porque muitos filósofos também viram que há um motivo para o sofrimento do homem. O motivo é a consciência, com sua incapacidade absoluta de sair do sentimento e de entender qualquer coisa: ela não entende!

Não entendendo, vivendo em torno dos sentimentos, ela se embrulha nas suas mutilações e nas suas angústias… e sofre pela passagem do tempo e com todos os efeitos que recolhe das relações causais da natureza.

Essa é a maior denúncia que já houve na história do pensamento, jamais, antes, houve uma denúncia desse tipo. Espinosa denuncia que a causa da infelicidade e da ignorância do homem é a consciência. Então, o homem é um ser “necessariamente ignorante e infeliz” – diz ele. E isso nos coloca numa posição difícil!

Aluno: “Sem saída?”.

Resultado de imagem para Ética EspinosaClaudio: Aparentemente. Mas ele vai utilizar o Livro V – que eu estou começando [a apresentar] nesse curso para vocês! – ele vai utilizar o Livro V da Ética para mostrar a saída.

Começa a surgir, aqui, um confronto com a vida, que a consciência, por sua própria essência, rejeita: a consciência rejeita o confronto com a vida! E nós temos a impressão de que essa rejeição do confronto com a vida é [algo de] bom para nós, mas não é… porque todas as práticas que a consciência faz, – que são práticas de mutilação -, forçosamente geram nela uma angústia.

Então dizer: se surgir um ser vivo em Sirius e me perguntar o que é o homem – eu responderei: é um ser angustiado, ignorante e infeliz! Eu faço essa enunciação com a maior tranquilidade.

(Já estou dando os elementos iniciais…)

A partir dessa noção – que ele vai [fazer] crescer – Espinosa vai apresentar a consciência de todas as maneiras, para o gosto de quem quiser – do cientista, do filósofo, do artista… Ele vai invadir, de maneira total, esse campo da consciência, para nos mostrar que a consciência é ignorante porque ela não pode entender nada; ela só pode sentir. E em seguida, vai dar início a uma famosa prática chamada a desvalorização da consciência.

Ele vai começar a desvalorizar tudo o que a consciência faz. E esse é um momento dramático para história da vida, porque o homem, desamparado, apostou na sua consciência – ele apostou que a consciência iria dar conta das suas questões. E Espinosa disse: “não tem jeito”!

Aluno: Consciência não tem nada a ver com razão?

Claudio: A razão seria um elemento dela, seria um elemento da consciência. (Quer dizer, no decorrer das aulas eu darei essa resposta com mais precisão).

Quando se chega a uma posição dessas, há um pessimismo, como se, então, se dissesse: o homem é a consciência, a consciência é angustiada e infeliz… então… não há saída! Espinosa diz que a consciência produz as paixões tristes e isso se distribui para toda a humanidade. Onde [quer que] você encontre o homem você encontra as paixões tristes. O homem, envolvido na tristeza das suas paixões… como se não pudesse ter outro caminho para ele!

Nesse momento… (eu estou fazendo aqui um apressamento, para vocês começarem a entender todo esse arauto da beleza que é Espinosa.) Nesse momento ele diz que o espírito e a consciência não são a mesma coisa. A consciência é como se fosse uma ponta do iceberg. Há, no espírito, uma parte muito mais ampla que Espinosa chama de inconsciente.

Prestem atenção que esse momento é um dos momentos mais ricos do espírito, porque ele não identificou o espírito à consciência. A consciência é apenas um ponto do espírito. Ele diz que existe no espírito uma parte mais poderosa que se chama inconsciente ou pensamento.

Pela primeira vez na história do saber um filósofo faz essa denúncia da consciência e uma denúncia, que eu ainda não fiz integralmente para vocês, que é uma denúncia sem saída – a consciência não tem saída! Mas ele mostra que o espírito não se resume à consciência. Que há alguma coisa a mais no espírito, que ele chama de pensamento.

Aluno: Ou inconsciente!?

Claudio: Ou inconsciente!

Muita gente pensará: ele está antecipando Freud? Não. Não, porque o inconsciente do Freud é a própria consciência. Isto aqui é muito importante de se entender: a diferença do inconsciente do Espinosa e do inconsciente do Freud. O inconsciente do Freud é um prolongamento da consciência e o inconsciente do Espinosa é uma parte separada da consciência. Então você vai encontrar no espírito humano uma força chamada inconsciente ou pensamento, que não é ignorante e não está governada pelos sentimentos.

Então, essa foi uma apresentação inicial (não é?) do que é o Espinosa, porque nós nos aproximamos cada vez mais de um mundo em que a grande revolução, a grande batalha, será do espírito. O Che Guevara do futuro é o próprio espírito! Ou seja: o esforço enorme da vida para abandonar os domínios da consciência.

Eu vou contar um caso para vocês e só vou contar esse caso para que as pessoas não fiquem confundindo que o homem – louro, de olhos azuis, adulto – do ocidente não é melhor do que ninguém. Isso é uma ilusão…

[virada fita]


Lado B

Antonin Artaud foi ao México procurar uma tribo chamada Tarahumara [Claudio soletra]. (Olhem que coisa que vocês vão ouvir!) Esses primitivos, chamados Tarahumaras, tinham uma prática, em seu cotidiano, de tomar uma beberagem chamada peyote. O peyote é uma droga psicodélica. Ela produz uma… alteração qualquer.

Aí Artaud se informou: – Por que vocês bebem peyote todos os dias? (E agora vem uma coisa para a gente ficar de joelhos!)

Os Tarahumaras responderam: – “é para impedir a dominação de ciguri”.

Aí Artaud perguntou: – “mas quem é ciguri?”

E eles responderam: – “a consciência”.

É Magnífico! A lição das mais brilhantes que eu já ouvi em toda a minha vida! Ela está nos dizendo que, em todos os instantes da nossa vida, nós corremos o risco de sermos tomados pela maldita – pela consciência! Quando ela nos domina, ela empurra desespero e angústia no nosso coração.

Então… eu vou contar para vocês um fato mais… mais erudito, porque não se trata mais de primitivos, mas de um escritor chamado Shakespeare. E, entre as obras dele, há uma chamada Ricardo III”.

Não sei se vocês conhecem o Ricardo III – ele é a pessoa mais deformada: é corcunda, tem pé chato, dedo virado, nariz bicudo, sei lá o quê… ele é horroroso! E, salvo equívoco, ele é o quinto na linhagem de herança do reinado da Santa Inglaterra (não é?). Mas, antes de se tornar rei, tem cinco antes dele. O que é que ele faz? Mata os cinco! Dentre os cinco tem criancinhas, mulheres, homens bonitos…, ele mata tudo! E toma o poder.

Há um momento, na obra, em que ele se encontra com uma princesa chamada Anne, que é mulher de um daqueles que ele matou, e esse encontro é sublime! Porque ela… no olhar dela… ela descobre que homem magnífico é Ricardo III.

O último quadro da obra é Ricardo III num campo com seus soldados. Eles vão lutar com os outros soldados que vieram vingar os cinco mortos.

A luta vai se dar de manhã. Ele dorme, tranquilamente, para acordar de manhã bem disposto. Mas de noite ele sonha; e quem aparece no sonho? Os cinco mortos, dizendo: “Assassino! Monstro! Crápula! Lesa majestade!”.

Aí ele acorda de manhã, bate as mãos aqui [mostrando a testa] e diz: “Perdes tempo, ó consciência: eu não acredito em você!”.

Ou seja: ele não acreditou em nenhuma das acusações que o sonho fez a ele, porque ele sabia que aquelas acusações vinham da consciência. E a consciência é um órgão constituído para um componente só – a angústia. Quando não está angustiada, a consciência está angustiada porque está infeliz, por não estar angustiada (Tá?).

Então, quando um homem não está angustiado… sai da frente porque ele se torna perigoso: ele precisa da angústia para viver… porque é a consciência que precisa da angústia. A obra de Espinosa é para produzir um homem que não precise da consciência. (Ponto para tomar um café.)

(Agora, esse momento de explicação desta passagem do campo teórico, vai ser um pouco difícil. Mas, talvez, seja a mais bonita…)

Espinosa vai fazer uma afirmação: a consciência funciona por julgamento, a consciência… os atos dela… são de julgamento: ela julga. E essa prática… (isso tudo é novo, viu? Não se esgota nisso!)

Julgar – o que é julgar? (Atenção! Se vocês não entenderem, me perguntem!) Julgar é afirmar ou negar. Por exemplo: “V. é bonita” – isso é um julgamento e uma afirmação. “V. não é bonita” – isso é um julgamento, uma negação e uma idiotia! [Risos….]. Então o julgamento… (marquem, para vocês saberem para o resto da vida!) Julgar é afirmar ou negar um predicado de um sujeito.

Então vamos lá, vou fazer um julgamento:

M. é dançarina” – isso é um julgamento. Dançarina é o predicado que eu afirmei do sujeito M. (Compreendeu, M.L.?) Então julgar é afirmar ou negar alguma coisa. E a consciência…

Aluno: é de novo obedecer…

Claudio: (É… vamos por aqui para você entender bem, tá?) A consciência julga, por exemplo, ela julga que V. é bonita. Mas ela não sabe que todo julgamento que ela faz… o fundamento do julgamento… é a tendência da natureza. A minha natureza tende para V., a minha consciência vai e diz: “V. é bonita”. A consciência é sempre secundária; primárias são as tendências.

É a tendência que nos leva para tudo o que nós fazemos. Mas tudo aquilo para o qual nós tendemos, a consciência julga como se fosse bom. E pensa que é o julgamento dela que nos conduz àquilo. Jamais! O que nos conduz às coisas é a tendência da natureza. A minha tendência, por exemplo, é V.. A minha consciência vai e diz: “V. é bonita”… e pensa que é ela que está determinando as minhas atividades… Mas ela não tem poder para isso! A consciência recolhe efeitos. A tendência é da tua natureza. A tua natureza tem tendência e a consciência julga! A consciência…

Aluno: [trecho inaudível]…e as emoções básicas?

Claudio: Como, emoções básicas… por exemplo…?

Aluno:…alegria, tristeza…

Claudio: Você não ouviu que o que eu disse, que o que você está chamando de emoções básicas… são os sentimentos que a consciência recolhe em função das composições e decomposições? Eu disse que a consciência tem sentimentos; e os sentimentos se originam nas composições e decomposições. Isso é que são as emoções básicas! Você sente alegria – quando você sente alegria… é porque o seu corpo se compôs com alguma coisa: aí você sente alegria. O que você está chamando de emoções básicas são efeitos de composição e decomposição… que aparecem na consciência em forma de sentimento.

Aluno: E as tendências estão aonde?

Claudio: As tendências são da natureza. A tendência é do inconsciente. A tendência é do inconsciente!

Aluno: É da natureza ou é…

Claudio: O inconsciente é a natureza! Eu não disse que o espírito tem um pontinho – a consciência; e um nó – chamado inconsciente? O inconsciente do espírito é a tendência!

Aluno: É ela que orienta a nossa vida?

Claudio: A tendência, claro!… É claro, mas o perigo que nós sofremos é essa presunção da consciência. Ela acha que é ela que faz tudo! Então Espinosa vai dizer um enunciado aqui… lindíssimo! Ele diz assim: “Nós não tendemos em direção a uma coisa porque a julgamos boa, mas ao contrário, nós julgamos que ela é boa porque nós tendemos para ela”.

Aluno: A tendência é igual ao inconsciente e o inconsciente é igual à natureza?

Claudio: É exatamente isso!

A tendência é a natureza. Então nós temos uma natureza! A nossa natureza é a nossa tendência. O que o homem não entende é que existem nele tendências que constroem o bom e o mau. A tendência é que constrói o bom e o mau. Não existe nada na natureza que seja bom ou que seja mau. Só é bom e só é mau aquilo que a tendência quer.

Aluno: A tendência é nossa?!

Claudio: É da natureza… do espírito!

Aluno: Do espírito, não da natureza!

Claudio: A natureza e o espírito… é a mesma coisa! Você não falou em animismo? Isso é animismo: a natureza e o espírito são a mesma coisa.

Aluno: Eu falei animismo da natureza… eu pensei que a pedra era natureza, o…

Claudio: Tudo tem tendência. A pedra, por exemplo, tem uma tendência. Qual é a tendência [da pedra]? Submeter-se à gravidade. Tudo tem tendência! Tudo que existe na natureza…

Aluno: E o inconsciente também é…

Claudio: É uma tendência, é a natureza.

Aluno: Só a consciência não é tendência?! É a única parte…

Claudio: Que não é natureza: é um efeito.

Aluno: Capta pelo sentimento.

Claudio: Capta pelo sentimento; pelo sentimento ela capta a natureza. Então, captando a natureza pelo sentimento… ela não entende nada!

Aluno: Ela poderia estreitar o campo das tendências?

Claudio: Estreitar como, diminuir?

Aluno: É… diminuir, comprimir…

Claudio: É, ela tenta fazer isso. O problema da consciência… Eu queria que, nessa aula, vocês mantivessem a compreensão da consciência em termos de ciguri. Lembram-se do ciguri que eu falei? Ciguri ou cigurí, que é o negócio do peyote… Mantenham por aí. A consciência é uma ameaça permanente à vida. Ela ameaça! Então, aqui que temos que partir da ideia espinosista de que nós temos uma natureza e essa natureza é uma tendência. Essa tendência vai fazer… com que seja bom tudo aquilo para o qual nós tendemos. A natureza… não existe o bem e o mal na natureza! A natureza só tem tendências. Então, tudo aquilo para o qual a sua natureza tende você considera bom. Não está entendendo bem, não, N.?

Aluno: Não, aí…

Claudio: A sua natureza… ela tende para alguma coisa. Por exemplo, a sua natureza tende para achar belo o cair da tarde.

Aluno:… Tende para a vida! Ela tende para a vida!

Claudio: Ah! A natureza é vida. Ela é uma tendência! O nosso ser é uma tendência! Então, o nosso equívoco é pensar que nós somos dirigidos pelos julgamentos da consciência… Jamais!! A consciência não tem esse poder! Porque ela julga em função da tendência. Ela diz assim “V. é bonita” porque eu tendo para V.. Jamais na natureza existiria alguma coisa em si mesma bonita ou feia. É a tendência que vai estabelecer isso.

Aluno: Pois é, essa tendência, o que é, hein?

Claudio: Essa tendência começou a aparecer como alguma coisa que seria a força que nos dirige, que dirige a vida. Então, por exemplo, se você tem determinadas tendências na sua vida, que é se compor com alguma coisa, você se compõe com alguma coisa e ao compor-se com aquela coisa você sente alegria, aquilo é tendência! Está difícil a noção de tendência?

[…vozes indistintas…]

A vida… (prestem atenção!) A vida… se você pergunta assim a um gênio: – Gênio, o que é a vida? Ele responde: – A vida são tendências, a vida se explica por tendências. Isso que é a vida!

Aluno: O que quer dizer tendência?

Claudio: Tender para alguma coisa… A vida, ela se dá… tendendo para alguma coisa. A vida não é um ser que se enclausura. Ela tende para. (Entenderam?) É como um elástico, ela tende! Ela cria…

Aluno: Mas todas as pessoas tendem cada uma para alguma coisa, não é isso?

Claudio: Não, de modo nenhum. Se você for por essa linha, você não vai entender! Nós temos que partir de uma ideia muito simples. Vida – definição: tender para. Isso é vida! A vida é isso, a vida é uma tendência. Então, você nunca vai encontrar um vivo que não tenha tendência. Ele tende. A natureza é tendência!

Agora, essa tendência avalia tudo o que está na frente dela. Porque tudo para o qual a sua tendência tende, é belo e bom. É belo e bom a tua tendência. Então, é aqui que começa a surgir o grande momento desse curso, não dessa aula, que é a diferença da natureza, que é tendência; e da consciência, que é julgamento. A consciência passa a existência dela julgando. E a vida passa a existência dela tendendo.

(Nós vamos fazer um esforço!)

Eu vou dizer que julgar é fazer uma prática chamada moral. O julgamento é sempre moral e a tendência (aqui é lindo, hein?) a tendência é sempre ética!

Então, a grande diferença entre ética e moral apareceria exatamente entre tendência e julgamento. A alma moral é uma alma governada pela consciência, dominada pela consciência; e ela julga tudo! Tudo o que cai nas malhas dela, ela julga. E o inconsciente (ou a natureza) não julga nada. Ela [a natureza] tende. Então, ética quer dizer: composição de corpos ou, numa linguagem bem explícita: modo de vida. Ética é modo de vida. Moral é julgamento da consciência. O Nietzsche é lindo! Ele entendeu Espinosa! E disse: “Diga-me como você vive e eu direi o que você pensa”. Ou seja: você não pode produzir determinados tipos de pensamento com determinados modos de vida.

Então, o modo de vida é a tendência. E a tendência é o plano ético da vida. A consciência… ela é julgamento, e o julgamento é moral. Então, nós temos que distinguir o que é moral e o que é ética. A moral é o produto da consciência. A moral é um produto da angústia, um produto do… da mutilação, a moral é um produto do sofrimento. E a ética é um produto das tendências. Então, o homem é ético quando ele avalia as suas composições e as suas decomposições. A ética é o modo de vida.

Aluno: O que é avaliar composições?

Claudio: Avaliar as composições e as decomposições. Por exemplo, é muito famoso, na história da filosofia, uma aposta que Pascal fez. Pascal apostou que Deus existia.

Pascal disse assim: “Eu aposto que Deus existe!”. E Espinosa acrescenta ao que Pascal falou: “Existem modos de vida que podem afirmar a existência de Deus… e outros não”.

(Prestem atenção ao que eu estou dizendo:)

É o modo de vida que constrói a tua vida. Tua vida é produto da tua tendência. É produto das tuas composições. Se você…

(Eu vou me dirigir um pouquinho para a M. porque ela vai entender uma pergunta que eu fiz a ela:) Se você fez determinadas composições na tua vida e de repente você desfaz aquelas composições e faz outras composições, cabe perguntar por quê. Entendeu? Por que; o que houve nessa composição; o que, nessa composição, estava te envenenando? Porque uma composição, quando ela aumenta a nossa potência, nós jogamos toda a força do nosso pensamento para que aquela composição não termine jamais.

Isso daí explica a música minimalista. A música minimalista do (não sei se vocês conhecem) Steve Reich, do Philip Glass, que fazem aquelas músicas da repetição. Repete-se, para não acabar nunca! Porque é a repetição das composições que aumenta a sua potência. (Entendeu o que eu disse?)

 

Então aqui aparece o momento superior da vida. Não é quando você julga, da maneira que a consciência faz. É quando você avalia… Atenção! Aí você entende bem: quando você avalia os seus encontros. Saber entender os encontros que aumentam a sua potência e os encontros que diminuem a sua potência. Todo encontro que é governado pela consciência diminui a nossa potência.

Aluno: Esse é o homem ético. Agora, o homem moral como é que ele age?

Claudio: O homem moral julga tudo! Tudo o que cai na mão dele…

Aluno: Ele julga a si mesmo?

Claudio: Ele julga a si próprio! Ele… se considera… Eu vou responder pelo Nietzsche:

Nietzsche diz que o homem da consciência se divide em dois. Se divide em: “A culpa é tua” e “A culpa é minha”. Que o homem da consciência começa a vida acusando os outros, dizendo (arremeda a voz):

“Eu sou feio porque papai e mamãe são feios”; “Eu sou pobre porque papai e mamãe são pobres”; “Eu sou burro porque o titio não me ensinou”; “Eu tenho esse pé feio porque o meu irmão pisou no meu pé”. Então, tem sempre um culpado para tudo o que lhe acontece. Vocês conhecem essa gente? Os chamados queixosos? Mas… tem um outro, que diz assim: “A culpa é minha!”.

Eu vou contar uma história para vocês… para vocês saberem quem inventou essa ideia de culpa é minha. Vocês conhecem o Eça de Queiroz?

Há uma personagem na obra de Eça de Queiroz chamado Raposão. Raposão era sobrinho de uma mulher podre de rica e o Raposão só pensava numa coisa: herdar aquela grana. Mas a tia dele era carola, carolona daquelas brabas. E ela tinha um altar dentro de casa. Depois do altar dela estava o quarto da empregada. E Raposão não aguentava mais de vontade de comer a empregada! [risos…]

Então, toda noite Raposão ia deslizando, ia deslizando… passava em frente ao altar da tia, entrava no quarto da empregada, trepava com ela e voltava… deslizando pelo chão. Mas o Raposão já ia nu, ele ia nu, deslizando, para chegar ao quarto da empregada. Um dia ele vai deslizando nu e a tia vê. Na hora que a tia vê ele começa a bater no peito: “Mea culpa, mea culpa, mea culpa” [risos…]

(Entenderam?)

Basta que você projete uma culpa para você mesmo, que a consciência te perdoa. Imediatamente ela te perdoa. Ah, você se sente culpado, então é bom. A consciência só sabe viver dessas duas maneiras: dizendo que os outros são culpados ou dizendo-se ela mesma culpada.

E agora aparece um momento magnífico! O momento do “a culpa é minha” – é o nascimento de Édipo.

O famoso Édipo da psicanálise aparece por volta do final do século XVIII, com o surgimento do homem dizendo “a culpa é minha”. Na hora em que o homem passa a dizer que a culpa é dele, sai da frente que o mundo virou um horror!

Não sei se vocês leram uma entrevista que fizeram com Anthony Quinn… Assustadora…! Ele está com oitenta e poucos anos, dizendo que ele se sente culpado de tudo! Assustador! O Anthony Quinn é governado pela consciência… e eu jamais suporia isso dele, depois que eu vi Zorba!

Aluno: Ele parecia o oposto disso!…

[Falas…]

Claudio: Inteiramente dominado pela consciência; inteiramente dominado!

Aluno: Se julga culpado e se vinga!

Claudio: Se sente culpado e se vinga o tempo todo: o culpado se vinga!

Bom, nós chegamos aos dois elementos principais:

Essa expressão mea culpa… – é muito importante se compreender isso. Porque surgiram dois conceitos [nessa aula], que eu não expliquei inteiramente: um, se chama julgamento – que é o exercício da consciência. A consciência julga o tempo inteiro; ela julga tudo!

Notem… (eu não posso dizer quem, hein?). Mas notem o olhar da consciência. [risos] Ela não para. Porque ela está julgando tudo. Está jogando a imundície dela em cima das coisas. Ela é imunda; imunda! E ela vai… apodrecendo tudo que passa!

Espinosa diz: “Tome cuidado… com os encontros que você faz!”.

E eu falo com uma seriedade muito grande:

A nossa vida se explica pelos encontros que nós fazemos. Se nós não soubermos compreender que um encontro é aumento ou diminuição de potência, isso pode nos levar à morte. Tá? Então, aqui nós vamos ter um confronto, lindíssimo, entre o julgamento e a tendência. A tendência é aquilo que leva um homem a fazer [por exemplo], “uma cidade em Teresópolis”. Ou seja, a tendência é o que faz com que um homem faça da vida dele coisas… tão difíceis de se compreender… como pintar girassóis!… [referência a Van Gogh]

Não sei se vocês entenderam a violência que isso é. Quer dizer, um homem recebe a vida, toma peyote e não deixa ciguri tomar conta dele (é lindo isso!) – tomar peyote para ciguri não tomar conta de mim! Ou seja: ele luta até o ultimo instante da vida dele – vou concluir por aqui – para conseguir a liberdade! Espinosa diz que nenhum homem jamais conseguirá atingir a liberdade – porque a liberdade não é uma coisa que se conquiste! A liberdade é um exercício permanente na sua vida; e esse exercício é contra a consciência.

Aluno: Você não ia falar do Édipo?

Claudio: O Édipo… (eu ia falar do Édipo?) Porque o Édipo é igual: a culpa é minha. O Édipo é a introjeção da culpa. É o seguinte: o homem, ele recebia uma punição na hora que ele praticava uma ação.

Por exemplo: eu dava um cascudo em alguém [Claudio diz o nome de um estudante de filosofia]. Aí a estrutura da filosofia [diz rindo]… “Seu canalha, você vai preso!”.

Quer dizer, o homem era julgado e castigado por suas ações!

Mas o Ocidente, a prática de poder do Ocidente, deu um golpe extraordinário (e, inclusive, produziu uma economia de “grana” – na verdade, a razão foi para economizar dinheiro!): inventaram o superego. O superego é um policial que está dentro de nós. Ele não julga as nossas ações; sabe o que ele julga? As nossas intenções! E como as nossas intenções são sempre… – vocês conhecem! -, nós somos o tempo inteiro… culpados. (Entenderam?)

O superego nos destrói: ele fica dentro da gente nos acusando de tudo! Então, nisso daí, Nietzsche foi o primeiro filósofo que viu isso. O que fizeram com a vida, disse Espinosa! Botaram o superego…

Aluno: O superego foi invenção do Freud?

Claudio: Não. O Freud não tem poder para inventar… O que a Psicanálise fez foi se tornar solidária com aquelas forças que produziram o superego. Essas forças que produziram o superego são forças históricas e sociais. Jamais a psicanálise teria poder para produzir o superego!

Aluno: O Freud que deu o sentido terapêutico?

Claudio: O Freud não, o Freud não deu o sentido terapêutico, não. Ele se associou a essas forças reacionárias que jogaram o superego para cima da gente… ele se associou para mantê-las.

[vozes… comentário inaudível]

Aluno: Coitado!

Claudio: Você tem pena dele?

[indignado!] Eu não tenho nenhuma, porque ele me fez muito mal com isso. Eu não tenho pena de nada que me fez mal. Eu não gosto de maus encontros…

Eu não tenho dúvida nenhuma, N., que na hora em você faz uma denúncia desse tipo que Espinosa está fazendo, o que aconteceu com Espinosa?! Deram uma facada nele; ele teve que fugir de Amsterdã; ele teve que não publicar os livros dele em vida! Que indignidade! Um gênio como Espinosa teve que esconder as obras dele…

Aluno: Por quê?

Claudio: Porque, se não, o matariam! [Vozes…] Por que o matariam? Não… [Vozes…)

Aluno: Por que essa reação contra ele?

Claudio: Porque ele está dizendo que a consciência é criminosa! Ele está acusando a consciência!

N., deixa eu explicar uma coisa que talvez vocês não saibam… O homem tem uma consciência. A consciência dele – foi o que acabei de explicar para vocês – ela julga. O homem inventou um Deus. E você sabe qual é o modelo de Deus? A consciência! O Deus cristão é a consciência! Ele se vinga, ele acusa, ele tem vontade, ele tem intelecto… Então foi exatamente [por] aí que o Espinosa foi perseguido! Porque se diz, ah, Espinosa não tinha um Deus? Ele tinha um Deus! Ele usava a seguinte expressão: “Deus sive natura” – Deus ou Natureza. Deus não pode ser uma pessoa, porque as pessoas são… a consciência.

Então, um filósofo que tem a coragem de dizer que essa constituição de um Deus-pessoa é contra a vida, é um homem maravilhoso! Ainda que ele esteja equivocado, ele é um homem maravilhoso! Porque todos os enunciados dele são a favor da vida.

Então, tudo aquilo que vem fortalecer a vida eu me abraço apaixonadamente e tudo que é contra, eu… denuncio. Não quero saber! Tudo que a humanidade pôde fazer de violência comigo, basta vocês olharem para o meu rosto! Então, pouco me importa o que o psicanalista vai achar ou não vai achar… Eu apenas afirmo, textualmente, que a existência da psicanálise não chega a 10 anos mais. Não aguenta mais. Os homens não suportam mais serem condenados a ser, até a morte, edipianos.

Aluno: Pois devia existir uma psicanálise que transformasse o homem de moral em ético!

Claudio: Por que não fizeram isso?

Aluno: Por ignorância?!

Claudio: Eles tiveram o século XX – ele e os marxistas – tiveram o século XX inteiro para resolver essas coisas. E o que eles fizeram? Stalin matou 50 milhões. Quantos Freud matou?

Aluno: Não sei quantos…

Claudio: E vai embora… Eles tiveram o século todo e não fizeram nada! Agora vou fazer o quê? Vou bater palmas para eles? Não! Acabou! Acabou o tempo deles. Agora vamos inventar outras coisas. Então, isso que é Espinosa!

E o Artaud, sofreu tudo aquilo por quê? Hein? O Artaud, o sofrimento de Artaud não tem nada a ver com isso não, viu? Essas ilusões que pensam que o Artaud foi sacrificado por psiquiatra é mentira. Nada disso!

O sofrimento do Artaud é muito parecido com o dos tarahumaras. Ele queria liberar o inconsciente do domínio da consciência. O Artaud é um mártir! O Artaud é um mártir! Então esse desejo de liberar a vida das forças da consciência é que produziram aquele grande sofrimento dele. Mas isso não esgota o Artaud, viu?

O Artaud é um homem que, na verdade, criou uma nova imagem do pensamento. Para explicar isso seria toda uma longuíssima aula… Ele é espinosista. Um espinosista!

Aluno: Qual linha do Espinosa?

Claudio: A linha de Espinosa é ateísta, materialista, liberdade, Deus igual a natureza…

Aluno: Tudo que é bom! Quais são os filósofos que vieram…?…

Claudio: Fundamentalmente são os pós-kantianos. São espinosistas. Alguns desses pós-kantianos, entre eles, por exemplo, Fichte foi notável. Entende? Porque, a obra de Espinosa, ela explodiu na Alemanha do século XIX. Então, no século XIX a Alemanha se torna maravilhosa, porque o pensamento de Espinosa começou a penetrar. Mas, [por outro lado], o pensamento de Kant começou a segurar. Porque o Kant, até um certo momento da obra (eu estou falando muito filosoficamente agora, viu?)… até o próprio Kant se julgava espinosista. Para você ter uma ideia, Hegel se julgava espinosista! Mas Hegel chega a doer, não é? É demais! Porque esses homens não conseguiram – e agora eu vou dizer a palavra final – é muito difícil se libertar da consciência: é muito difícil! Geralmente essa luta é uma luta em que… não se consegue uma vitória! A consciência é mesquinha demais! Porque ela é muito mesquinha, ela não para de aprisionar o que há de mais belo na vida. Ela não para de fazer esse aprisionamento.

Então, onde é que a gente vê essa beleza da vida passar? Onde você vê a beleza da vida passar? É sempre no mesmo lugar: nas artes! A beleza está sempre passando nas artes. Então, eu estou dizendo para vocês que a beleza é como um pássaro de voo, sem planejamento. Se você puder seguir com seus olhos o voo desse pássaro, duas coisas vão acontecer: a primeira é que você vai ficar zarolho, porque o pássaro não tem um planejamento. Ele é como a vida, ele não tem planejamento, ele tem tendências. Mas é a beleza, a saída da vida. A vida sai do seu engasgamento pela beleza.

Eu acho que eu vou mostrar isso para vocês na inauguração que estou fazendo do curso de Espinosa. Porque… Tudo porque eu vi a necessidade de dar Espinosa para vocês. O que vocês vão fazer com ele, não é minha questão? O Deleuze tem uma frase lindíssima – Deleuze é meu Espinosa, não é? Deleuze é tudo, é… nos cursos de Deleuze na França apareciam muitos músicos. E dificilmente um músico vai entender um conceito filosófico. E se eu fosse dar um Espinosa filosófico para vocês, apareceriam aqueles conceitos muito violentos – substância, modo, atributos, essência, existência… E Deleuze é um filosofo, ele é radical, ele não quer saber quem está ouvindo. Ele dá a filosofia dele. E esses músicos que iam assistir a aula do Deleuze, assistir Deleuze falando em Espinosa, eles não conseguiam entender aqueles conceitos espinosistas. Mas quando saiam da aula, faziam músicas espinosistas! Isso é muito curioso.

O que eu estou dizendo… é mais ou menos… é o maior espinosista da história! Chama-se David Herbert Lawrence – D.H. Lawrence – altamente espinosista! Toda a questão desses pensadores é uma exaltação da vida. Exaltar a vida!… Vocês notem que a vida… Há um texto… eu vou ler, está aqui:

Chama-se Yves Bonnefoy. Ele diz assim: “Eu dedico esse livro ao improvável – isto é, à vida”.

A vida, ela é inteiramente improvável. Porque ela é frágil. É frágil e constituída por tendências. Então ela… ela entra na matéria, a matéria pesada, quebradiça, e a vida vai-se bifurcando. Isso que é a vida! E nós, somos produtos dela. Para sermos os guardiões dela, da vida. Ser o guardião da vida! O homem começou a aprender que ele tem que se esquecer do Estado e da Igreja e se ajoelhar para a única coisa bela que existe, que é a vida. Qualquer um sabe disso! Basta liberar suas tendências, que descobre que a vida… é de uma beleza!… Olhem!… Todo aquele que sentiu uma brisa tocar no seu cabelo… tem direito à eternidade. E quem nos dá isso é a vida. É o encanto da vida que deslumbra um pensador maravilhoso!

Então, por isso eu respondi em termos da psicanálise com essa radicalidade, entende? Porque a psicanálise, nesse século, a única coisa que ela apresentou foi Édipo e castração, eu não conheço nada mais: Édipo e castração! Édipo e castração! Édipo e castração! Eu não aguento mais! Porque eu trabalhei com isso muitos anos!… Até que cheguei a um ponto que não suportava mais. Era Édipo de um lado, castração de outro, luta de classes de outro, ato falho de outro… Eu já não aguentava mais! Eram aquele jargões te machucando o tempo todo… E você sabe que a gente, quando é tomado pelo espírito, pela aventura do espírito, bate mesmo, bate forte! Aquilo bateu forte na minha vida! Eu queria fazer um caminho bonito para a minha vida. E o marxismo e a psicanálise me seguravam…

Eu não estou acusando Marx! E de alguma maneira também não estou acusando Freud! Eles tentaram alguma coisa… Mas depois, Freud fez um recuo – um recuo muito grande! -, ele não aguentou tudo aquilo que ele disse, porque a gente não aguenta… É uma… é uma prática muito difícil para o homem… ser ateu. Porque a noção de ateísmo, e isso vai aparecer na nossa aula, viu?

O ateísmo do século XX – eu queria que vocês anotassem isso! – o ateísmo do século XX é um ateísmo vulgar. Jamais o ateísmo de Espinosa é isso. Não tem nada a ver com esse ateísmo banal que vocês encontram aí na rua, não tem nada a ver com isso, esse ateísmo do morreu e acabou. Jamais! O ateísmo de Espinosa… o ateísmo de Nietzsche é excepcional! Eles produzem temas, que eu não vou dizer em final de aula porque a violência é muito grande.

Provavelmente – provavelmente! – cada um de nós é eterno, ainda que sejamos ateus!

Eu vou dizer uma coisa para vocês. Se, por acaso, a natureza for um processo de repetição e… esta cena que está se dando aqui já aconteceu infinitas vezes e vai acontecer infinitas vezes. Ou seja, que a nossa vida se repete infinitas vezes. O que nós teremos que fazer; sempre? Aquilo que for mais belo! Porque nós vamos [nos] repetir eternamente! Vejam se entenderam. Se você aplica em você a ideia de que sua vida vai se repetir, significa que tudo que você fizer vai se repetir infinitamente. Então, você procura fazer aquilo que for mais belo! Isso é uma ética do Nietzsche. Desde que você entenda que a sua vida pode se repetir pela eternidade afora…

Gilles Deleuze: O frio e o quente

Por Gilles Deleuze | Trad.: Christian Pierre Kasper


O frio e o quente[i]

O modelo do pintor é a mercadoria. Todos os tipos de mercadorias: têxteis, balneárias, nupciais, eróticas, alimentares. O pintor está sempre presente, silhueta preta: ele parece estar olhando. O pintor e o amor, o pintor e a morte, o pintor e a comida, o pintor e o carro: mas de um modelo para o outro, a medida de tudo é o único modelo Mercadoria que circula com o pintor.

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Os quadros, na construção de cada qual há uma cor dominante, formam uma série. Podemos fazer como se a série se abrisse com o quadro Rouge de cadmium,

Rouge de Cadmiun Clair
Rouge de Cadmiun Clair

e se fechasse com o Vert Veronèse,

Vert Veronèse
Vert Veronèse

representando o mesmo quadro, mas desta vez exposto na galeria do marchand, de modo que o pintor e seu quadro devêm eles próprios mercadorias. Ou podemos imaginar outros inícios e outros fins. De um quadro para o outro, de qualquer maneira, um passeio que não é apenas o do pintor através das lojas, mas uma circulação que é a do valor de troca, uma viagem que é a das cores, e em cada quadro uma viagem, uma circulação de tons.

 Nada é neutro, nem passivo. No entanto, o pintor não quer dizer nada, nem aprovação, nem ira. As cores não querem dizer nada: o verde não é esperança; nem o amarelo, tristeza; nem o vermelho, alegria. Nada senão algo quente ou algo frio, algo quente e algo frio. Do material na arte: Fromanger pinta, isto é, põem um quadro em funcionamento. Quadro-máquina de um artista mecânico. O artista mecânico de uma civilização: como ele faz o quadro funcionar?

 O pintor, acompanhado por um fotógrafo da imprensa, identificou primeiro os lugares: a rua, uma loja, pessoas. Não se trata de apreender uma atmosfera. Seria mais uma iminência sempre suspensa, a uniforme possibilidade de que surja em qualquer lugar algo como um novo assassinato de Kennedy, dentro de um sistema de indiferenças em que circula o valor de troca. O fotógrafo tira várias fotografias incolores, o pintor escolherá aquela que lhe convém. Ele terá escolhido a foto em correspondência com uma outra escolha, a de uma cor dominante única tal como ela sai de uma bisnaga (as duas escolhas se confortam). O pintor projeta a foto sobre a tela, e pinta a foto projetada. Analogia com certas técnicas de tapeçaria. O pintor pinta às escuras, durante horas. Sua atividade noturna revela uma verdade eterna da pintura: que jamais o pintor pintou sobre a superfície branca da tela, para reproduzir um objeto funcionando como modelo, mas que sempre pintou sobre uma imagem, um simulacro, uma sombra do objeto, para produzir uma tela cujo próprio funcionamento inverte a relação do modelo com a cópia, e que faz, precisamente, que não haja mais nem cópia, nem modelo. Levar a cópia, e a cópia de cópia, até o ponto em que ela se reverte e produz o modelo: Pop’Art ou pintura para um “mais de realidade”.

 Portanto, o pintor pinta com a cor escolhida que sai da bisnaga, e que ele mistura apenas com branco de zinco. Esta cor, em relação com a foto, pode ser quente como o Rouge Chine vermillonné ou o Violet de Bayeux,

fria como o Vert Aubusson ou o Violt d’Egypte.

Ele começará pelas zonas mais claras (as mais misturadas com branco), construindo seu quadro numa subida que proíbe ao mesmo tempo as voltas atrás, as manchas e as fusões. Série ascendente irreversível feita de superfícies de cor uniforme, e que sobe em direção da cor pura jorrada da bisnaga, ou a reencontra, como se o quadro devesse no final entrar na própria bisnaga.

 Mas não é ainda assim que o quadro funciona. Pois o frio ou o quente de uma cor definem apenas um potencial, que só será efetuado no conjunto das relações com outras cores. Por exemplo, uma segunda cor vem afetar um elemento preciso da foto, um personagem que passa: não somente é mais clara ou mais escura do que a dominante, mas, quente ou fria por sua vez, ela pode aquecer ou resfriar a dominante. Um circuito de troca e de comunicação começa a se estabelecer dentro do quadro, de um quadro para o outro.

Violet de Bayeux
Violet de Bayeux

Seguimos o Violet de Bayeux, com uma gama ascendente quente: um homenzinho, atrás, é constituído verde e frio, para, por oposição, aquecer mais o roxo potencialmente quente. Não é suficiente para que a vida passe. Um homem amarelo e quente, na frente, vai induzir ou re-induzir o roxo, fazê-lo passar ao ato por intermédio do verde, e por cima do verde. Mas assim o verde frio está agora sozinho, posto fora do circuito, como se tivesse esgotado sua função de um só golpe. É preciso sustentá-lo, recolocá-lo no quadro, reanimá-lo, reativá-lo no conjunto do quadro, com um terceiro personagem azul frio atrás do amarelo. Acontece, em outros casos, que essas cores secundárias e circulatórias sejam agrupadas sobre um só personagem, que elas dividem em fatias ou em arcos. Acontece também, às vezes, que a foto manifeste um ponto de resistência a sua transformação em quadro vivo. Ela deixa um resíduo, como em Violet de Bayeux, onde um último personagem no grupo da frente permanece indeterminado. É ele que será tratado em preto, como um duplo potencial atualizando-se tanto num sentido e no outro, ou que pode “fugir” em direção ao azul frio como para o quente roxo. O resíduo encontra-se reinjetado no quadro, se bem que o quadro funciona a partir do desperdício da foto não menos que a foto a partir das cores constitutivas do quadro.

 Devemos levar em conta um outro elemento, presente desde o início em todos os quadros, pulando de um quadro para o outro: o pintor preto, no primeiro plano. O pintor que pinta no escuro é ele mesmo preto: silhueta maciça, arcada saliente, queixo duro e pesado, cabelo-corda, ele observa as mercadorias. Espera. Mas o preto não existe, o pintor preto não existe. O preto não é nem um potencial, à maneira de uma cor quente ou fria. Ele é um potencial em segundo grau, porque é um e outro, frio puxado para o azul, quente puxado para o vermelho. Este preto que está aí com tanta força não tem existência, mas uma função primordial no quadro: quente ou frio, ele será o inverso da cor dominante, ou o mesmo que esta cor, para aquecer, por exemplo, o que estava frio.

Vert Aubusson
Vert Aubusson

Seja o quadro Vert Aubusson: o pintor preto olha e ama o modelo sentado, mulher verde morta e fria. Ela é bonita em sua morte. Então, para tornar esta morte quente, é preciso extrair algo do amarelo incluído neste verde, e para isso insistir no azul como complementar do amarelo, portanto resfriar esse pintor preto para aquecer a morte verde. (Ver também como, em Rouge de cadmium clair, as manequins recém-casadas são muito discretamente providas de caveiras, e, em Violet de Mars, as mortas porta-maiô são elegantes vampiros envolvidos numa relação variável com a silhueta preta.) Em suma, o pintor preto tem no quadro duas funções, seguindo dois circuitos: silhueta pesada imóvel paranoica que fixa a mercadoria tanto quanto é fixada por ela; mas também sombra esquizo móvel, em deslocamento perpétuo com relação a si mesmo, percorrendo toda a escala do frio e do quente, para aquecer o frio e resfriar o quente, viagem incessante sem sair do lugar.

 O quadro e a série dos quadros não querem dizer nada, mas funcionam. Funcionam com pelo menos esses quatro elementos (e há muitos outros): a gama ascendente irreversível da cor dominante que traça no quadro todo um sistema de conexões, marcado por pontos brancos; a rede das cores secundárias, que forma, ao contrário, as disjunções do frio e do quente, todo um jogo reversível de transformações, de reações, de inversões, de induções, aquecimentos e resfriamentos; a grande conjunção do pintor preto, que inclui em si o disjunto e distribui as conexões; e, se for preciso, o resíduo de foto que reinjeta no quadro o que ia escapar dele. Uma estranha vida circula, força vital.

faixa-doacao

 É que há dois circuitos coexistentes, imbricados um no outro. O circuito da foto, ou das fotos, que atua aqui como suporte de mercadoria, circulação do valor de troca, e cuja importância está em mobilizar alguns indiferentes. Indiferença dos três planos do quadro: indiferença da mercadoria no último plano, equivalência do amor, da morte ou do alimento, do nu e do vestido, da natureza morta e da máquina; indiferença dos transeuntes, imóveis ou fugitivos, como o homem azul e a mulher verde do Violet de Mars, ou o homem que passa comendo diante das noivas; indiferença do pintor preto no primeiro plano, sua equivalência indiferente a qualquer mercadoria e a qualquer transeunte. Mas talvez este circuito de indiferenças respectivas, refletidas uma dentro da outra, trocadas uma pela outra, introduz algo como uma verificação: o sentimento que algo não está certo, não para de romper o equilíbrio aparente, cada um conduzindo seu próprio negócio na profundidade dividida do quadro, a mercadoria com a mercadoria, os homens com os homens, o pintor com o pintor. Circuito de morte em que cada um vai para seu próprio túmulo, ou já está lá. Mas é neste ponto de ruptura, presente por toda parte, que o outro circuito se conecta, recuperando o quadro inteiro, reorganizando-o, misturando os planos distintos em anéis de uma espiral que traz o fundo para frente, que faz reagir os elementos uns sobre os outros, num sistema de induções simultâneas: circuito vital, desta vez, com seu sol negro, sua cor ascendente, seus frios e quentes radiantes. E sempre o circuito da vida se alimenta do circuito de morte, leva-o consigo para triunfar sobre ele.

 É difícil perguntar para um pintor: por que você pinta? A pergunta não tem sentido. Mas como você pinta, como o quadro funciona, e, na mesma ocasião, o que você quer ao pintar? Supomos que Fromanger responde: eu pinto no escuro, e o que eu quero é o frio e o quente, e eu o quero dentro das cores, através das cores. Um cozinheiro pode também querer o frio e o quente, um drogado pode também querer o frio e o quente. Pode ser que, para Fromanger, seus quadros sejam a cozinha dele, ou a droga dele. Hot e cool, quente e frio, eis o que se pode arrancar da cor como de outra coisa (da escrita, da dança e música, da mídia). Inversamente, pode-se arrancar outra coisa da cor, e nunca é fácil arrancar qualquer coisa que seja. Arrancar, extrair, isso quer dizer que a operação não se faz por si só. Como o mostra Mc Luhan[ii], quando o meio está quente, nada circula e comunica a não ser pelo frio que comanda qualquer participação ativa, aquela do pintor a seu modelo, aquela do espectador a seu pintor, aquela do modelo a sua cópia. O que conta são as inversões perpétuas do hot e do cool, segundo as quais acontece que o quente refresca o frio, o frio esquenta o quente: aquecer um forno amontoando bolas de neve.

 O que há de revolucionário nesta pintura? Talvez seja a ausência radical de amargura, e de trágico, e de angústia, de toda essa merda dos falsos grandes pintores ditos testemunhos de sua época. Todos esses fantasmas fascistas ou sádicos que fazem passar um pintor por crítico agudo do mundo moderno, enquanto ele goza apenas de seus próprios ressentimentos, de suas próprias complacências e daquelas de seus compradores. Às vezes é abstrato, e não é menos sujo e triste, repugnante. Como dizia o guarda-caça ao pintor: “Todos esses tubos e vibrações de chapa ondulada são mais bobos que tudo, e bastante sentimentais; eles mostram muita piedade consigo mesmo e muita vaidade nervosa”. Fromanger faz o contrário, algo vital e potente. É talvez nesse sentido que ele não é amado pelo mercado, nem pelos estetas. Seus quadros são cheios de vitrines, ele coloca sua silhueta por toda parte: não há aí, entretanto, nenhum espelho para ninguém. Contra o fantasma que mortifica a vida, que a direciona à morte, ao passado, mesmo quando ele opera com modern style: opor ao fantasma um processo de vida sempre conquistado contra a morte, sempre arrancado ao passado. Fromanger sabe da nocividade do seu modelo, da astúcia da mercadoria, da eventual tolice de um transeunte, do ódio que pode cercar um pintor assim que ele tem atividades políticas, do ódio que ele mesmo pode sentir. Mas, dessa nocividade, dessa astúcia, dessa feiura, desse ódio, ele não faz um espelho narcisístico para uma hipócrita reconciliação generalizada, imensa piedade sobre si mesmo e sobre o mundo. Do que é feio, repugnante, odiento e odioso, ele sabe extrair os frios e os quentes que formam uma vida para amanhã. Imaginemos a fria revolução como devendo aquecer o mundo superaquecido de hoje. Hiper-realismo, por que não, se se trata de arrancar do real triste e opressivo um “mais de realidade” para uma alegria, para uma detonação, para uma revolução. Fromanger gosta da mulher mercadoria, verde-morta, que ele faz viver ao azular o preto do pintor. Talvez até a dama roxa que espera, triste, não se sabe qual cliente. Ele gosta de tudo que pintou. O que não supõe abstração alguma, consentimento algum, mas muita extração, muita força extrativa. É curioso: a que ponto um revolucionário só age em função do que ele ama no próprio mundo que ele quer destruir. Só há revolucionário alegre, e só há pintura estética e politicamente revolucionária alegre. Fromanger sente e faz o que Lawrence diz: “Para mim, há alegria num quadro, ou não é um quadro. Os quadros mais sombrios de Piero della Francesca, de Sodoma ou de Goya, exprimem essa alegria indescritível que acompanha a verdadeira pintura. Os críticos modernos falam muito em feiura, mas eu nunca vi um verdadeiro quadro que me parecesse feio. O tema pode ser feio, pode ter uma qualidade aterrorizante, desesperadora, quase repugnante, como em El Greco. Mas tudo isso é estranhamente varrido pela alegria do quadro. Nenhum artista, nem o mais desesperado, pintou um quadro sem sentir essa estranha alegria que acarreta a criação da imagem”[iii] – isto é, a transformação da imagem sobre o quadro, a mudança que o quadro produz na imagem.

Gilles Deleuze 

Gérard Fromanger em seu ateliê em Paris, 2008.
Gérard Fromanger em seu ateliê em Paris, 2008.

Notas

[i] In Fromanger, le peintre et le modèle, Paris, Baudard Alvarez 1973 (catálogo de exposição). Gérard Fromanger, nascido em 1939, chamou a atenção sobre si em Maio de 68 ao expor grandes esferas de plástico nas ruas de Paris. Mas o texto de Deleuze é consagrado às composições monocromáticas para as quais Fromanger se volta no início dos anos1970.

[ii] M. Mc Luhan. Pour comprendre les médias, Paris, Mame-Seuil, 1968, p. 39-50.

[iii] D.H. Lawrence, Eros et les chiens, Paris, Christian Bourgois éd., 1969, p. 195

Aula de 02/06/1993 – O “tarde-demais” como dimensão do tempo

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar), 13 (Arte e Forças), 18 (Proust, o Ponto de Vista ou a Essência) e 20 (A Linha Reta do Tempo) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

PARTE I

Começo com a imagem-tempo, o que eu vou fazer via Visconti… ou Proust. Via Proust é uma associação com Bergson, sempre muito difícil. Bergson não tanto, mas o tema é difícil!

O ponto de partida da aula vocês já conhecem, mas esquecem. [É que] na hora em que o pensamento se associa com o tempo, o que vai desaparecer é o bom senso: entra-se no paradoxo, aproxima-se do não-senso. O que vou fazer exatamente é a busca do tempo feita pelo Visconti. Então, pode colocar o filme e logo, logo, vai aparecer o que me importa. Quando isso ocorrer, corto o filme e começo a falar. [Tem início a projeção do filme – Morte em Veneza].

Deixa o som, não precisa abaixar… porque vai ser praticamente a música… [Ao fundo, ouve-se a 5ª Sinfonia de Mahler].

(Eu vou falar):Morte Em Veneza (1971)

A gente tem uma visão fácil de se entender para quem acompanha o cinema ou lê livros, que é, ou pode ser, uma ilusão de uma associação entre o pessimismo e a aristocracia – ou seja, o aristocrata pessimista; o otimismo seria uma herança burguesa.

O Visconti usa muito o pessimismo, que [aplica] em Burt Lancaster, o aristocrata dele. A gente pode embarcar nesse pessimismo e não compreender o que está se passando – uma espécie de jogo que o Visconti faz. Pensar que tudo se origina no pessimismo do aristocrata. Então, o que não se pode esquecer, é que há um pessimismo na Weltanschauung, ou seja, na interpretação de mundo que o aristocrata faz. Às vezes, confundimos o que vai se passar no filme com esse pessimismo do aristocrata, mas eu vou mostrar para vocês que isso não tem nada a ver. Embora muitos dos que assistem a esses filmes do Visconti pensem que a [questão dele] está fundada no pessimismo do aristocrata, não está. Então… a questão do filme é, literalmente, a busca da imagem-tempo.

Quando digo busca da imagem-tempo o processo se torna um pouco difícil, porque implica numa certa cultura, numa certa leitura – não de cinema, mas de filosofia. Mas acho que eu resolvo essa situação com facilidade!

Nós não sabemos o que vem a ser a imagem-tempo, não podemos nem mesmo saber antes do que vai ser visto e dito; mas sabemos que há uma busca dessa imagem, com a aparência de uma prática pessimista. O que ocorre é que o cinema, e o Visconti está na ponta da partida desse processo,  decidiu conquistar o tempo… repetindo a história do pensamento – a conquista do tempo!

Cada autor que vai fazer essa prática – Orson Welles; de uma certa maneira, Mankiewisz; a nouvelle vague francesa – cada um deles vai utilizar uma estratégia, uma maneira de fazer essa conquista do tempo

O Ano Passado em Marienbad (1961)Por exemplo: quem viu O Ano passado em Marienbad [A. Resnais e A. Robbe-Grillet] assiste à conquista do tempo via Santo Agostinho – porque o que o Robbe-Grillet faz é introduzir [as] três idéias de presente do tempo [do Santo. Agostinho]: o presente do passado, o presente do futuro e o presente do presente. Isso não nos interessa no momento, mas ele vai fazer [a conquista do tempo pela] via do Santo Agostinho.

Já o Visconti, não! Ele [também] vai tentar conquistar o tempo, a imagem-tempo, e aquele de quem ele mais se aproxima é o Proust, literalmente Proust! Deleuze não diz bem isso aqui mas, se você assistir ao filme do Visconti, você vai ver que a aproximação da conquista do tempo é realmente Proust. E é isso que nós vamos ver daqui a pouco: como esse processo vai se dar, de uma maneira drástica, sofrida, torturante… O que mostra que a arte não tem nenhum compromisso com o otimismo nem com as tendências do homem burguês. Nada disso. Talvez aqui no começo tudo pareça terrivelmente pessimista e entristecedor para muitos, porque o que há de mais elevado no espírito humano, que é a arte, vai nos oferecer uma [visão] muito trágica – [tendo origem] aí a confusão com o pessimismo. Confusão que nós ainda vamos fazer por muito tempo, pensando que é isso o que está ocorrendo.

Quando eu falo em tempo, ainda muito mal colocado, uma coisa que tem que ser definitiva é que o tempo possui dimensões. Não podemos esquecer esse dado. As dimensões do tempo são muito fáceis de entender. Ao menos no nível cotidiano, passado, presente e futuro são as dimensões do tempo. Mas, se por acaso, encontrarmos um artista buscando conquistar o tempo, o que temos que descobrir é que, em consequência dessa busca, ele vai produzir [outras] dimensões no tempo: a arte invade o tempo e produz suas próprias dimensões.

O tempo, então, seria alguma coisa que aceitaria sobre si o ato de produção. É como se o tempo fosse o próprio caos, ou até melhor dizendo, não é o tempo que a arte conquista: o que a arte conquista é a eternidade. E ao conquistar a eternidade… gera o tempo!

Então, como princípio de aula, eu vou dizer que o Visconti vai introduzir uma [nova] dimensão no tempo! Daqui a pouco vou mostrar como ele faz essa introdução, para vocês começarem a entender.

A filosofia distingue essência e acidente. A essência é algo que pertence à estrutura de um ser. O acidente, aquilo que ocorre mas poderia não ocorrer. Então, todos nós, na nossa vida comum, o que temos como ocorrência das nossas vidas são fatos acidentais, sem a menor importância! O maior sofrimento que um homem tiver não tem a menor importância, porque todos podem ter. Ele pode ter aquele sofrimento ou pode não ter. Nenhum homem deveria ter eticamente o direito de dizer eu sofro; ele deveria ter o direito de dizer eu penso!

Então, a arte não trabalha com acidente mas com essência. E é exatamente essa a linha de busca da imagem-tempo: buscar uma dimensão essencial ao tempo – e é o que o Visconti vai tentar realizar em toda a obra dele.

Visconti teve muita dificuldade para encontrar a pureza da sua própria obra… mas nunca abandonou os componentes fundamentais dessa busca – que é a busca da imagem-tempo.

A maior dificuldade, nesta aula, é falar na imagem-tempo… que é realmente muito difícil  para quem não estuda filosofia. No momento, no entanto, vamos ficar com duas imagens: a imagem-tempo e a imagem-movimento. A imagem-movimento é a imagem clássica do cinema e o Visconti vai visar encontrar a imagem-tempo. É isso que ele diz.

[Referência ao filme em projeção]: Ainda está cedo, daqui a pouco vai aparecer o que eu quero.

Agora, entendam o que eu quero dizer: há um livro famoso no século XX, que é a Recherche do Proust. Recherche: investigação, busca. Busca do tempo perdido. Vejam esse nome: Recherche do tempo perdido… Buscar o tempo. É isso que o Proust chama de Recherche. É buscar a essência do tempo. Não é buscar, recherche não se traduz por “buscar”, porque com o que o artista lida não é o tempo; ele lida com a eternidade. Mas é nesse encontro com a eternidade que emerge o tempo. É uma emergência do tempo, a partir do encontro com a eternidade.

A noção de eternidade [aqui aplicada] é a noção de complicatio. Não vou discorrer agora sobre essa noção; apenas dizer o que alguns de vocês já conhecem.

A eternidade é uma matéria caótica, e o encontro do artista com essa eternidade gera o tempo. Para quê [o artista faz esse encontro]?

Para nada: [esse encontro] não vai trazer para o artista nenhuma vantagem no jogo do bicho, não vai garantir-lhe um melhor emprego, não vai deixá-lo mais gordo, nem fazê-lo comer melhor. Ou seja, [esse encontro] não gera nenhum valor utilitário; não acrescenta mais tempo à vida; não nos produz otimismo; não nos liga a entidades de felicidade. Nada disso! A arte não tem nada a ver com isso. Nada!

O tempo, para Visconti, é uma dimensão que ele vai criar; isto é, ele vai produzir uma dimensão, que vocês ainda não conhecem, e é surpreendente: é o tarde-demais. Essa a dimensão: é incrível!

O que é o tarde-demais? É… quando um homem diz para uma mulher: puxa, é tarde demais! Quando um revolucionário diz para os seus soldados: é tarde demais! Quando Deus provavelmente disse para a serpente: é tarde demais! Tarde demais é [quando] não há retorno, não há volta. Tarde-demais é isso: não há volta. Gravem, porque daqui a pouco ele [Aschenbach/Dick Bogard] vai falar uma frase… e nós vamos começar a entender.

Tarde demais: não há retorno no tempo! É exatamente esse, segundo Deleuze, o elemento importante da relação de Visconti com a imagem-tempo. Uma coisa que surpreende… e que a gente pensa: isso não é nada, qual a importância que isso tem? Mas vai ter: ele vai conquistar o tempo por essa figura do tarde demais.

Não sei se vocês conhecem o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e a famosa frase dele – Nunca mais (Nevermore). Deleuze diz aqui, fantasticamente: o tarde-demais do Visconti e o nunca mais do Poe têm o mesmo acento dramático, a mesma dramaticidade.

Não é a sensação de perda, não, não é nada disso! É alguma coisa que, daqui a pouco, a partir da fala do Aschenbach que supostamente é o Mahler, ou coisa que o valha, eu vou começar a falar.

(Prestem atenção!) Já fiz todos esses enunciados e agora já posso dizer alguma coisa para vocês. Essa palavra, revelação – olhem que coisa interessante o Deleuze está falando. Ele diz assim: Como revelação sensível, como revelação sensual, como revelação do professor – e ele vai usando essa palavra revelação – como revelação da moça, como revelação do velho… Ou seja, existe uma prática do homem que é rara, extraordinária, mas que em determinados momentos de sua vida revela alguma coisa – revela um amor, revela uma tristeza – e marca isso por um olhar, marca por um gesto, marca por uma palavra.

Então, a revelação está na base do nascimento do tarde-demais. Revelação e tarde-demais. Ou seja: alguma coisa é revelada, mas… tarde demais! Vejam bem, que coisa estranha – alguma coisa é revelada tarde demais – e isso seria a emergência do tempo; mas não há ali nenhum pessimismo. Então, ainda é difícil entender, porque parece uma ação de altíssimo pessimismo… Mas não, não! Não tem nada a ver com pessimismo… porque a arte não é nem pessimista nem otimista – a arte é trágica!

Aluno: É o amor, Claudio, que é revelado… mas é tarde demais?

O Leopardo (1963)Claudio: O amor, dentre outras coisas… Digamos que, por exemplo, em O Leopardo (ll Gattopardo), o que é revelado é o amor, mas tarde demais!

E aqui é muito fácil. Não sei se vocês viram O Leopardo. É muito fácil, porque é a dança da Cláudia Cardinale com o Burt Lancaster – ele é o príncipe e ela a filha de um burguês rico! Eles dançam… Ela vai se casar com o Alain Delon, que é o garoto bonito, sobrinho do Burt Lancaster. O Burt Lancaster dança com ela… e, na dança, ela se entrega apaixonada por ele, mas… é tarde demais! Deleuze diz: Enquanto o próprio sobrinho é rejeitado ao fundo, fascinado e anulado pela grandeza do casal, é tarde demais, tanto para o velho como para a moça.

O tarde-demais é nitidamente uma dimensão do tempo que aparece na arte do Visconti. É então que ele se torna um artista do tempo: porque ele produziu a dimensão tarde-demais.

O filme Morte em Veneza vai ser necessariamente marcado pela presença dos flashes-back. São flashes-back brilhantes, porque nada do tempo presente se modifica. Ele [o filme] se remete para o tempo passado… mas com o mesmo tipo de imagem [que é empregada no tempo presente]; você até se confunde – por isso [essa indistinção] recebe o nome de ponto de indiscernibilidade – às vezes nem se sabe se aquilo dali é um flash-back. Você tem que prestar uma certa atenção ao filme, porque senão você perde. Salvo equívoco, é no primeiro flash-back, não tenho certeza, nós vamos ter… [Diante de uma cena, indica um ator que aparece na tela.] Esse aí é o famoso Romolo Valli – o gerente do Hotel! Ele é um excelente ator, um ator clássico do Visconti, mas também trabalha com o Sérgio Leone. Um figuraço!

Agora… é preciso lembrar que Proust vai chegar… O Visconti é todo ligado com a obra do Proust!

Bom. Eu falei para vocês sobre a questão do tarde demais, mas há uma revelação nesse filme. Vocês vão ver, que existe [um personagem] no filme, um garoto muito bonito – belíssimo – o Tatzio.

O Aschenbach (Dick Bogard) vai ter uma surpresa incrível com a beleza do Tatzio. Vamos ver essa cena, para eu poder falar. Daqui a pouco… acho que o tarde demais vai aparecer. Daqui a pouco vai aparecer o tarde demais aí. Depois a revelação! Tarde demais primeiro, a revelação depois. Aí eu falo para vocês o que está havendo. (Pode aumentar o volume agora!) Então, quer dizer, Aschenbach não dá importância ao mundo sensível, não dá importância ao mundo da carne. Toda a arte dele é intelectual, é cerebral. Essa é a questão dele. Toda a arte que ele faz é cerebral! Não adianta entrar, porque já é tarde demais…

Nós vamos ver esse tarde-demais já, já. O Aschenbach/Dick Bogard vai descer [do quarto] do hotel agora… A questão dele é que ele é um artista, e a arte tem sempre uma questão, sempre um confronto. A arte é produto do intelecto – se for produto do intelecto é produto do trabalho humano… Ou a arte é produto da sensibilidade – se for da sensibilidade, se encontra na natureza: a natureza nos dá a arte ou o intelecto produz a arte.

Aschenbach é um artista intelectual, para ele a arte é intelectual, é platônica… e ele vai ter uma revelação: a sensualidade imbatível, a beleza de Tatzio. Aí, inicialmente, nós vamos pensar que ele está tendo processos homossexuais, o que é equivocado. Ele não está tendo nenhum processo homossexual, ele está tendo uma revelação, que é a beleza de Tatzio… a sensualidade de Tadzio. Ele vai ficar inebriado!…

Agora, eu não posso montar muito bem, vocês têm que verificar…. O filme não é um filme-ação, é um filme-contemplação – o que já é tempo. Já é tempo! Nós estamos vendo o filme pelos olhos dele [Aschenbach]: é ele vendo… e a gente vendo pelos olhos dele. Quem trabalhou muito com essa ideia foi Pasolini. Chama-se subjetiva indireta livre, vem da teoria literária, da teoria do discurso. Então, o olhar dele nos revela o filme.

Um dos momentos mais brilhantes desse filme é essa passagem do hotel… Nela, [dois elementos] vão se encontrar – o ótico e o sonoro, a transbordância da imagem visual… e uma valsa, fazendo ela eleger-se em –?? –.

É a revelação que transtorna o músico em Morte em Veneza, ao receber do garoto a visão daquilo que faltou à sua obra: a beleza sensual.  Ele nunca tinha incluído a beleza sensual em sua obra… Não tinha… e o garoto a revela. É esse o momento do tarde-demais! É essa a dimensão do tempo [criada]: a dimensão do tempo é o tarde-demais.

Prestem atenção: a revelação puxa para ele criar a imagem-tempo. A imagem tempo é uma dimensão essencial do tempo: o tempo passa a ter essa dimensão essencial. Não é um fato psicológico! Eu tenho uma aluna que diz: “sofrido, é muito sofrido…”. Não é nada disso! Tarde demais é uma dimensão do tempo, como se diz passado, presente e futuro. Pertence ao tempo! Se você quiser [operar] com o tempo saiba que isso vai acontecer: os paradoxos do tempo, as dialéticas do tempo.

É isso que o Visconti vai trazer, muito semelhante ao Proust. No meio da aula eu vou tentar passar uma associação com Proust, com o que Proust chama de tempo reencontrado. O reencontro com o tempo.

Agora o garoto vai fazer uma coisa incrível. [referência ao filme] O garoto é a exuberância da natureza… o que Aschenbach nunca tinha percebido! A natureza é exuberante, a natureza não precisa de nada, ela dá tudo. É que ele não via, porque ele considerava, ele combatia o mal da natureza. [Claudio chama a atenção para o que está se passando na tela:] Olha só… olha a revelação! Vai enlouquecê-lo, não é? Ele vai entrar num [processo de] enlouquecimento!

Ele sempre traz alguma coisa que machuca o burguês: o aristocrata chega de viagem, almoça ricamente e pede para trazer o piquenique. O burguês não entende! Isso não deixa de passar como um componente para a constituição da imagem-tempo. Figuras aristocratas. [referência ao momento da revelação, no filme] Vocês sabem que nós estamos entrando aí no invisível – só quem está vendo o Tatzio é ele: aquela força da natureza está se revelando para ele [Aschenbach], para mais ninguém! Estão todos [se relacionando] normalmente com o Tatzio. Muitos pensam que é uma prática homossexual, todo mundo confunde muito isso. Mas, no final, ele enlouqueceu totalmente, ele piorou, o encontro o degradou. Mas aí, não: aí é uma obra de arte que está… a essência da obra de arte.

Aluno: Claudio, pode fazer…. numa aula você falou de singularidade e indivíduo, não é?

Claudio: Pode fazer! Pode: ele tem um encontro com uma singularidade!

Aluno: Enquanto para os outros… eles estão em contato com um indivíduo.

Claudio: Os outros estão em contato com um indivíduo belíssimo, é. Ele, o Tadzio, é um indivíduo.

[referência ao filme] Olha o que o Tatzio vai fazer… Olha lá! Olha lá! Quer ver? Terrível, terrível! Perturbou o professor!

Deleuze: “A obra de arte é feita de uma queixa, como com as dores e os sofrimentos de que tiramos uma estátua. O tarde demais condiciona a obra de arte e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da obra de arte…”. Então, a essência da obra de arte, é o que está acontecendo aí. É o encontro que o homem faz com a singularidade natural. É a revelação, a essência, a dimensão da obra de arte. Toda a questão do Visconti…

Agora eu vou contar uma história para vocês entenderem a questão da obra de arte… qual é exatamente a questão da obra de arte:

Um poeta francês, chamado Gérard de Nerval, tinha como prática de vida, definitivamente, a compreensão do que vem a ser uma obra de arte. Em seus momentos de loucura – porque ele transitava numa loucura muito grande, loucura em tudo: loucura sexual, loucura… ele tinha todas as loucuras possíveis! – ele fazia encontros com determinadas imagens saturadas de gases, imagens densas, que não queriam dizer nada; como mais vulgarmente a gente faz com imagens do sonho, imagens hipnagógicas, imagens delirantes… E ele fazia encontros com uma imagem; colava-se a ela… e a vida dele se tornava um agenciamento com essa imagem – não dormia, não comia, não fazia mais nada! – ficava o tempo todo grudado na imagem, para extrair a beleza dela.

Então, o artista é isso: o artista é aquele que se associa ao mais surpreendente. A obra de arte é alguma coisa com a qual a gente se surpreende – inclusive de ela servir ao burguês, mas ela serve; e você fica sabendo como: ela serve como um mundo que cerca o burguês e tal. Não é a questão do artista. A questão do artista é pura e simplesmente criar essa inutilidade absoluta, que é a obra de arte.

[referência à discussão sobre a arte, que passa em flash-back no filme] A discussão é linda!

Ele está entrando no tempo através de uma imagem hipnagógica, enlouquecida… É porque o homem tem diante de si um quadro – um quadro muito nítido – que são as significações: as significações sociais, as matérias perceptivas de um tempo histórico. Porque você é educado para entrar nas significações dessa matéria perceptiva. Você entra nelas. E é onde está a marca do artista: ele não entra. Ele se arrisca em matérias vazias e, para correr esse risco em matérias vazias, ele tem que utilizar seu pensamento. E ele vai ao extremo nessa experiência. É uma experiência de vida terrível – porque é uma experiência de loucura, uma experiência de morte – é uma experiência toda original que o artista vai fazendo [ao longo de sua obra]. Ele entra nessas dimensões do tempo, rompendo com as significações clássicas, com as percepções ordinárias, com o modelo de campo social de um determinado tempo histórico.

PARTE II

“O tarde-demais condiciona a obra de arte, e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da arte, na medida em que é sua propriedade ocorrer tarde demais no que diz respeito a tudo, exceto a uma coisa: o tempo reencontrado.”

Quando Deleuze introduz aqui o tempo reencontrado, ele está introduzindo uma ideia proustiana. Visconti aqui começou a fazer uma associação com Proust. E é muito interessante, que Deleuze diz aqui uma coisa que eu nem sabia: pois parece que Visconti teria traduzido Proust, teria feito um trabalho sobre Proust.

Deleuze vai dizer assim: “Podemos listar os temas que ligam Visconti a Proust” – uma coisa muito clara, todo mundo sabe, não precisa nem ter lido Proust para saber – o mundo dos aristocratas. Proust só trabalha com aristocratas. Mas só que Deleuze fala – o mundo cristalino dos aristocratas. Quando Deleuze fala “mundo cristalino dos aristocratas”, é que ele está opondo cristalino a órgão; ao organismo do burguês. Ele vai fazer essa oposição.

Aluno: –? — Proust sempre opõe o aristocrata ao burguês –? —

Claudio: O confronto? O Barão de Charlus é um exemplo, (não é?) Sendo que o Proust leva isso ao paroxismo, porque, no mundo de Proust, vai aparecer um aristocrata, como Charlus, que inclui a loucura. Porque… uma coisa fantástica, que o Proust marca, é que todo mundo pensa que Charlus é um homem mau e tem horror dele; mas quando descobrem que ele não é mau, que é louco, é aí que as pessoas correm: ele apavora, ele enlouquece!

Bem, primeiro elemento da entrada no tempo: o mundo cristalino dos aristocratas. Segundo elemento, terrível: decomposição interna. Para gerar a imagem tempo, ele tem que puxar o mundo aristocrata e introduzir a decomposição.

Olhem, aqui vocês podem pensar assim: não há diferença para um cozinheiro que está fazendo um bife – um bife… tem-se que colocar manteiga e sal; para gerar a imagem-tempo, ele tem que entrar com o mundo aristocrata e produzir decomposição: ele tem que decompor.

(Assustou um pouco, não é? Isso ficou um pouco perdido!..)

Prestam bem atenção: ele está construindo alguma coisa – a imagem-tempo; então… é assim que ele está construindo a imagem-tempo!

Foi o que eu disse no começo da aula: há momentos em que o Visconti “fracassa” nos filmes dele, ele mesmo se esquece. Porque, se vocês lerem a Crítica da Razão Pura, Kant vai dizer com todas as letras: quando um pensador produz alguma coisa – por exemplo, quando Platão produz a teoria das Idéias – o pensamento dele está tão tomado por aquela produção que ele não tem muito domínio: o próprio Visconti não tinha muito domínio sobre o que ele fazia. Aquilo escapa: escapa ao artista. Por isso, o comentador tem muito mais potência do que o próprio gerador. Kant, quando fala nos ideais platônicos, fala com muito mais facilidade que o próprio Platão.

Deleuze vai dizer que os elementos que vão produzir a imagem-tempo são: o mundo cristalino dos aristocratas; a decomposição interna e a história; e finalmente o “tarde demais” do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo. Então, a unidade da arte vai implicar na presença do “tarde demais”, (tá?)

Creio que agora posso parar um pouco com o Visconti e dar um pouquinho de Proust, a fim de que vocês possam associar e compreender definitivamente o que é a produção da obra de arte. Por exemplo…

Greenaway pode ser considerado um artista? Se ele for um artista, ele está convivendo com o tempo – parece que é o que o Ca. quer dizer -, ele tem que ter produzido uma dimensão essencial, deve ter produzido, ali dentro, alguma coisa da essência do tempo, senão [surge] o caos. O artista vai produzir o caos? Não! Caos é o que ele recebe. Ele entra ali e produz alguma coisa. Alguma coisa emerge. O cientista produz atratores estranhos, produz balanças, produz equações. O artista também produz alguma coisa: por afeto.

“Os signos da arte e a essência” [em Proust e os signos do Deleuze] – esse capítulo parece que… (Entender uma leitura, entender, eu não gosto de criticar ninguém, perder tempo com críticas, mas… as leituras são muito mal feitas; porque, para poder entender, você tem que sobrepor uma leitura a outra. Se você quer entender um texto desses… [referência ao capítulo “Os cristais do tempo”, em Imagem-Tempo do Deleuze] sem uma leitura de “Os signos da arte e a essência”… você não entende!)

Bom, o Proust vai dizer aqui… – acho que esta frase também é muito definitiva, está entre aspas – Proust está falando:

“Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem, de seu universo que não é o nosso (é exatamente pela arte que nós estamos vendo o Visconti nos mostrar a “revelação” da beleza sensual), cujas paisagens nos seriam tão estranhas como as que porventura existem na lua. Graças à arte, em vez de se contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e dispomos de tantos mundos quantos artistas originais existem, mais diversos entre si do que os que rolam no infinito. Se não houvesse a arte, nós estaríamos prisioneiros de um mundo só.”

Nas práticas sociais, é a coisa mais fácil de vocês entenderem: o homem comum está preso a um mundo só, ele não consegue quebrar aquilo de jeito nenhum, ele vive ali em torno, supondo que aquilo é a essência da natureza. Sem saber que a natureza não tem essência: ela… cria a essência dela: a arte cria!

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Então, a arte produz sistemas individuados. Ela produz, gera, e aí nos dá a possibilidade de viver em múltiplos mundos. Isso é muito fácil de entender, se vocês forem ver qualquer coisa da passagem do século XIX para o século XX.

Se vocês forem estudar o Modigliani, vocês se lembram dos olhos azuis que ele pintava, aqueles olhos que ele fazia – azuis – “aquela coisa”? A psicologia nos revelou isso. [Aqueles olhos azuis] produziram um diferencial na sensibilidade. A sensibilidade se alterou – como esses jogos que o meu neto joga alteram a sensibilidade; como a psicodelia altera a sensibilidade. Alteração de percepção! A arte está muito associada com a alteração de percepção.

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Woman With Blue Eyes, 1918. Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, Paris, France

Em outro nível, o Paul Veyne e o Foucault sempre disseram isso: o que você vê no século XVI você não vê no século XX. O seu olho não vê qualquer coisa em qualquer tempo. E quem produz essas modificações são essas singularidades que produzem novos sistemas individuados.

Então, é bobagem pensar-se que a arte é apenas para tomar o chá das cinco… Não é nada disso! A arte produz mundos. A arte é uma coisa seríssima – produz mundos!

Não sei se vocês entenderam isso. Não é só para quem vai ao Museu de Belas Artes, não – é para todos! Nela, [encontram-se] novos mundos. Sem ela… é difícil viver. Acho que é impossível. Impossível! Porque você ficaria preso a um sistema de mundo só e isso geraria uma sufocação… e você se submeteria à tirania de um ideário, geralmente totalitário, – daí a associação da arte com a política -, e se tornaria impossível a vida. A vida tem que ter essa relação com a prática artística. Aconselho a leitura deste texto: “Os signos da arte e a essência” [Capítulo IV do livro Proust e os Signos, de Gilles Deleuze]. É muito fácil esse texto. Com isso daí vocês vão começar a compreender o que é a arte.

Eu sempre disse e repito para todo mundo: a arte não vai trazer nada: nada, nada, nada. A arte é… uma experimentação. Não sei quem disse isso, talvez o Rilke, é o estilo dele, não tenho certeza: a arte é uma revelação de experiência. Mas não é experiência de você, porque… a magia é que faz mais experiência, viaja mais, vai mais a Paris, vai mais a Nova York, não! É uma experiência nessas essências!

Então quando vocês virem um poema, não pensem que um poema é apenas uma exibição de palavras: é uma experimentação de sentidos que nunca emergiram. Então, é uma coisa louca! São sentidos que nunca viriam a um sistema individuado se não houvesse o artista para extraí-lo. Em Bergson vocês encontram isso. Bergson diz que o passado é em si, que o sentido é em si, que a idéia é em si. O pensamento vai lá e gera alguma coisa. Vai produzir ali algo de fundamental para a vida.

A vida engasga. A arte é superior à vida – essa é a tese do Proust. A vida engasga. Chega a um ponto em que ela se torna suicidária. Não há mais como passá-la.

A melhor idade para se começar a lidar com arte é [aos] onze anos. Como nós estamos muito infestados pelos valores burgueses, nós nos decepcionamos com esse enunciado sobre a arte, e achamos que é muito pouco. Mas não é muito pouco. Fernando Pessoa, de quem meu aluno C. gosta muito, escrevia que ele se considerava um homem em estado de sacrifício para salvar a humanidade… fazendo poemas. Quando o Fernando Pessoa diz isso, o homem comum morre de rir, “que sujeito idiota!”, “que imbecilidade!” Realmente é uma prática que ele está fazendo, de querer dar um desvio e um caminho para a vida. E ele se dizia um sacrificado. “Eu não quero nada da vida, vou sacrificar inteiramente a minha vida a favor da humanidade” – e faz aqueles poemas dele: “O Guardador de Rebanhos

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Fernando Pessoa, in: O Guardador de Rebanhos

Eu acho que nós já entramos, não é? Podemos voltar para o filme…

Para quem faz pesquisa no Deleuze, a melhor indicação sobre o naturalismo é essa da pág. 120 – Losey e Harold Pinter [referência ao pé de pág nº 35 do capítulo 4 de A Imagem-Tempo].

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Deleuze vai fazer uma comparação do Visconti com o cinema americano. Vamos chamar o cinema americano de cinema realista. E o cinema do Visconti de neo-realismo. O realista é o cinema da ação e da paixão. O cinema do movimento.

Deleuze cita Obsessão mostrando que no cinema neo-realista “é preciso, portanto, que não somente o espectador, mas também os protagonistas invistam os meios e os objetos pelo olhar, que vejam e ouçam as coisas e as pessoas, para que a ação e a paixão nasçam, irrompendo numa vida cotidiana preexistente”. (Deleuze, A imagem-tempo, pág. 13) É o problema do investimento do olhar nesse filme. Vocês notem que o tempo todo o filme está centrado no olhar. Não são ações, não são duelos, não são disputas, não é nada disso, é o olhar que está passando ali. Ele vai dizer que isso é uma constante na obra do Visconti.

(Se vocês conseguirem dominar esse enunciado que eu vou fazer… Perguntar fica mais fácil! Eu trabalho… se vocês fizerem perguntas laterais do próprio trabalho.)

O cinema americano – que é chamado o cinema da segundidade, o cinema da ação – é a situação se prolongando em ação. Agora, no neo-realismo é exatamente o contrário, “a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos.” (A imagem-tempo, pág. 13)

Então nós passamos do filme chamado ação e paixão para o filme chamado ótico e sonoro. É greco-judaico: o grego vê, o judeu ouve. Então, os dois estão se juntando – ótico e sonoro. Claro que o sonoro foi uma conquista recente do cinema, a partir da década de [trinta]. O cinema era mudo. Então, não é só ver, é também ouvir. Isso é o neo-realismo.

Mas agora vocês prestem atenção: é possível fazer o neo-realismo com… um rato? Ou seja, nós levarmos um rato a ver, ao invés de reagir a um movimento do mundo? Você pega um rato na mão e aí coloca um movimento em cima dele. O que é que ele faz? Devolve movimento imediatamente! Por que ele faz isso? Porque ele está dominado pelo esquema sensório-motor. A vida é governada pelo esquema sensório-motor. O nascimento dessa arte é… quebrar o esquema sensório-motor. Quebra-se esse esquema! Então, pode-se até dizer, é a “desanimização” – quebra o sistema sensório-motor. Está claríssimo aqui:

“Tanto assim que a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos, antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos. Tudo permanece real nesse neo-realismo, porém, entre a realidade do meio e a da ação, não é mais um prolongamento motor que se estabelece, é antes uma relação onírica, por intermédio dos órgãos dos sentidos…”. (IT, p. 13).

É facílimo entender isso! Se você está num lugar e recebe um movimento que vem de fora, e ao invés de você prolongar aquele movimento dando uma resposta àquele movimento, você faz como o Gérard de Nerval – você sonha aquilo que está vindo, introduz uma imagem onírica e quebra o esquema sensório-motor. A introdução de imagens-oníricas, imagens-lembranças, imagens-devaneios, quebra o esquema sensório-motor. Se um rato delirar, devanear e sonhar, acaba a espécie. Vai acabar a espécie! O homem pode fazer isso, não é?

Aluno: É essa quebra que gera a alteração de percepção, não é?

Claudio: Que gera a alteração de percepção, pois a percepção não se prolonga mais em ação. Porque, se vocês lerem a história da psicologia, a história da epistemologia, elas dizem a mesma coisa, todas elas: a percepção é considerada uma prática do conhecimento. O homem percebe para conhecer. Essa tese aqui não é fundamentada nisso. O que se diz aqui é que percebe-se para reagir, não é para conhecer. A percepção não é uma atividade do epistemológico, é uma resposta que você dá ao mundo – é a tese do Bergson. Você percebe para prolongar sua percepção em ação ou reação. Se não quebrar de dentro isso daqui, você nunca sairá do realismo. Permanecerá eternamente preso a essa situação que está aí.

[referência ao filme] O travelling, essas idas e vindas, não é, R. , travelling? Ele usa muito ali no Hotel – que ele vai muito até o garoto e volta – o tempo todo: é o olhar dele fazendo uma aproximação e um recuo, (não é?)

Aluno: Com um movimento subjetivo!

Claudio: Com um movimento subjetivo.

Então, o Deleuze vai citar aqui… exatamente a questão do travelling, para citar outro autor fantástico que introduziu a imagem-tempo – que é o Orson Welles, na profundidade de campo. Eu já estou passando isso para vocês, para vocês saberem que o uso da tecnologia está imbricado à arte. A arte se serve realmente da técnica, dos efeitos especiais, dos instrumentos – que são objetos de fundamento para ela. Isso não é dito por nenhum teórico de arte – leiam Leroi-Gourhan que vocês vão entender. O ser vivo tem a capacidade de produzir uma tecnologia. É fantástico! O caranguejo, por exemplo, produziu uma tecnologia: a presa dele é uma tecnologia do corpo. O corpo é tecnológico! A arte usa muito a tecnologia e o que nós temos que fazer, então, é a distinção entre o técnico e o artístico. Mas estão muito associados! Deleuze também vai fazer uma associação com o dinheiro.

Bom, tudo o que foi dito até agora nos deu pelo menos uma noção da “revelação” e do “tarde-demais”.

Agora, o que resta é falar da revelação e do tarde-demais, que é o que importa, – nada mais importa! -, para saber exatamente o que é a arte do Visconti: não a arte do Visconti…, mas a arte do tempo – o que é o tempo; o que é a conquista do tempo! Dificilmente vocês conseguirão reproduzir um discurso desses e ele ser aceito numa universidade, numa faculdade de arte – ali geralmente essas coisas não passam! Porque se a gente não fizer uma associação com a história do pensamento, a gente não compreende o que está se passando. Então é um esforço muito grande para o professor – mas que o artista não precisa fazer, o artista não precisa esperar que alguém venha lhe ensinar… para fazer alguma coisa! Mas aquele que vive em função do… – que é o meu caso, (não é?) – meu gozo maior é conhecer amplamente todos os movimentos do pensamento; e é isso que eu exponho para vocês: o que o pensamento tem que fazer para conquistar essas coisas.

A tese – assustadora! – é basicamente que a conquista do tempo produz uma nova subjetividade. Alguns dizem isso… Eu acho pouco! A conquista do tempo produz uma subjetividade – não existia! É isso que eu estou dizendo – é gravíssimo o que eu estou dizendo! Esse gesto que está aí, que há séculos vem se processando – conquistar o tempo, liberar o tempo do movimento – está associado à produção da subjetividade – que é a mesma coisa que produção da liberdade, produção da vida! Diz-se muita tolice por aí.

Ou seja: se a vida pudesse passar o tempo todo em torno dessa imagem-tempo, nós teríamos a presença de uma subjetividade – base do livro V da Ética do Espinosa – que é ser livre, conquistar a beatitude, conquistar a vida. Nada tem importância, se isso não acontecer! Quer dizer: sem a conquista do tempo não se tem uma subjetividade: nós nos tornamos um bando de bobões, bebendo cerveja! Um bando de bobões bebendo cerveja e… “esperando Godot“… como diz o Samuel Beckett!

E é isso mesmo! No livro 5 da Ética, descobre-se isso de imediato. Porque, quando sentimos que a nossa liberdade é tocada, nós saltamos! É isso o cinema do Fassbinder. Mas aqui é em nível excepcional! É você compreender, à maneira do Castañeda, que, na experiência mais trágica da vida, você pode ter uma subjetividade livre. Aí você começa a entender inteiramente o Deleuze: “tome conta do inconsciente”, “produza o inconsciente”, “produza uma vida” – é o exercício da arte! Então, a produção do tempo não vai produzir uma tela para o Museu de Arte Moderna, nem uma musiquinha para o Municipal, nem um filmezinho para nós assistirmos aqui, não! Produz a vida, produz a liberdade!…

Vocês podem ler o Foucault, que chegou ao extremo, quando se juntou com Baudelaire. Ele falava em arte como estética da existência. Eu acho que todo o mundo conhece isso, (não é?)… produzir sua própria vida como obra de arte!

E é exatamente isso, (não é?). Ou nós caminhamos para isso, citando um artista de teatro que foi entrevistado outro dia, o Jorge Dória… ele é muito interessante! Interessantíssimo esse Dória, eu nunca tinha ouvido ele falar. Ele é interessantíssimo! Ele é capaz de falar da morte com uma facilidade incrível. E ele diz que a vida é uma pequena brincadeira; o teatro é uma brincadeira mais séria! Interessantíssimo o que ele falou.

Mas… É mais ou menos isso: a existência é trágica! Uma matéria inerte, regida pelo princípio de inércia… as forças da vida penetrando nela… finuras espirituais, nervos, essas coisas aparecendo numa matéria…pesada, idiota, imbecilizada e… emergindo o espírito! O espírito não é nada do que tinha sido escrito pelos Salmões, pelo livro sagrado. O espírito é a finura dos nervos. E aparece essa finura, e nós conduzimos – cada um de nós conduz isso – e isso é dor profunda! Essa dor profunda (-? -) tudo o que se passa no cinema hoje. Naquele filme “Esposamante“, o Marcelo Mastroianni tem uma fala espetacular: quando sabe que a mulher dele está envolvida com Igreja, ele diz: “deixa ela ficar, porque senão ela não aguenta a tragédia da vida!”.

Nietzsche tinha a pretensão de ser um mártir – não deixar que a humanidade soubesse que tanto terror se esconde por trás de tudo – e dizia que a arte era uma pequena linha que se estendia sobre o abismo do tempo. E é realmente isso; é realmente isso, sem saída… – a vida está sobre o abismo do tempo!

A religião e a moral se tentaram terapêuticas para curar isso. Só pioraram! A arte é a nossa saída. É muito pouco, eu sei que é muito pouco… isso não desfaz o abismo do terror sobre o qual nós estamos, mas a arte é o caminho que nós temos.

Três fenômenos fundamentais na vida do homem reaparecem o tempo inteiro nesses discursos: a arte, o amor e a amizade. Sempre estão reaparecendo! Por onde a gente vai escapar, por onde? São essas as três linhas de fuga possíveis. Parece aqui que Proust vai parar no amor, mas acaba não ficando. Ele vai [ter que ir] para o espiritual, não adianta! Ele vai [ter que ir] para a arte, não tem jeito! Ou seja: segundo a massa dos artistas que estão passando por aí, nem o amor e a amizade vão trazer a liberação. E isso é terrível, não é? Não quer dizer que a gente não tenha que amar, nem ter amizades, nada disso; mas que não é o caminho para produzir novos mundos. Isso torna o nosso compromisso com a vida, como dizia Nietzsche: nos força a ser vikings rigorosos! duros! impenetráveis! insuportáveis!… para não deixar que a tolice venha a aviltar isso aqui. Porque ela vai tentar aviltar. A tolice vai tentar aviltar isso aqui. Vai tentar considerar isso aqui [a vida] de pouca importância.

Nietzsche, em Para além do bem e do mal, diz: “seja um viking, endureça o seu coração, e não ceda…” para que… a vida se torne mais bonita! É um canto à beleza, como se a essência da vida fosse a arte. A beleza como essência da arte, como se a essência da vida fosse a própria beleza. A produção da beleza seria um caminho para a vida. Muito pouco! O homem pode alcançar isso. A gente prefere se submeter…, (não é?)… os homens preferem ficar… – Eu acho que isso é uma escolha – ser medíocres, ser medíocres!…“Deixa passar… daqui a pouco eu esqueço”… Mas não tem jeito, essa minha voz vai bater em vocês até o fim da vida. Aqui assim… [Claudio dá pequenas batidas na cabeça, apontando!] Não tem jeito!

Quanto mais se aproxima (não é?) mais bate! Quanto mais vocês tomam conta de que a finitude faz parte da gente… não tem esse negócio de esconder… – isso é tolice!… – (esconder dos meus netos!?), não tem porquê esconder: a finitude está aí, vai bater mesmo, nós temos que efetuar uma prática qualquer de potencialização! Pode ser pela ciência, pela arte, pela filosofia… – o que esses [pensadores] estão dizendo é que pelo amor e pela amizade não dá: não chega a nada.

Bom, eu achava que a exposição desse texto… [referência ao capítulo “Os cristais do tempo” do livro A imagem-tempo de Gilles Deleuze] – Chega a um ponto em que cada um tem que puxar para o que interessa, para o “tarde demais” começar a aparecer… porque a arte funda uma verdadeira intersubjetividade. (A gente pode começar a falar sobre isso. Não é só ver a imagem: é a imagem e mais alguma coisa!)

“Esse mundo não é o do artista-criador, embora Morte em Veneza ponha em cena um músico, mas cuja obra, justamente, fora intelectual e cerebral demais”. (A imagem-tempo, pág. 116)

É exatamente isso que o destrói [o Aschenbach], “a obra ser intelectual e cerebral demais”: a revelação é que vai transtornar tudo. Deleuze vai dar a isso o nome de cristal do tempo. A obra de Visconti atingiu a perfeição com esses “quatro elementos fundamentais que o obcecavam” – o mundo aristocrático, a decomposição interna, a História e, no final, o tarde demais. São os elementos dele.

“O padre de O Leopardo explicará: não compreendemos esses ricos, porque criaram um mundo só deles, do qual não podemos entender as leis, e onde o que nos parece secundário ou mesmo inoportuno assume uma urgência, uma importância extraordinárias, por isso seus motivos sempre nos escapam como se fossem ritos de uma religião por nós desconhecida (é o caso do velho príncipe que retorna a sua casa de campo e encomenda um piquenique)”. (A imagem-tempo, 116)

Quer dizer: são coisas que é impossível de o homem comum entender: daí a importância de aparecer o aristocrata na obra do Visconti e de Proust. Não é uma presença acidental, é uma presença essencial. (Há alguma coisa essencial para o Ivan ver aquelas figuras em O Conquistador? É mais ou menos a mesma questão!) [referência a uma peça infantil – cujo diretor e elenco se encontravam presentes – em cartaz naquela ocasião]. Aqui vai se repetir tudo isso em Ludwig, em Os deuses malditos, nas Vagas estrelas da Ursa Maior. (–? –)

Tarde demais! (Vocês agora têm que começar a conversar comigo sobre esse tarde demais.) Eu acho que não fica claro, porque trazemos para a socialização… e para o abalo dos interesses perceptivos. Revelação-tarde demais – é o esquema dele: o esquema do tempo. Ontologia – é o tempo que se revela! Ele disse: quando eu quero pensar aquilo – o que acontece? – não posso mais, porque já acabou. Ele disse isso ali! [referência à cena da ampulheta, em Morte em Veneza]

Olha, então, está aparecendo a essência do pensamento. O que ele está dizendo sobre o pensamento… O que é o pensamento? É o fim! O pensamento é o fim; a revelação é o fim – se revela como um vazio. O pensamento é o próprio vazio. É isso o que o tempo inteiro eu explico para vocês – é a terceira síntese do tempo: é o vazio do pensamento. É a experiência mais terrível que se faz. Se você quer pensar…

Blanchot extremiza e diz: “o supremo sofrimento é o supremo pensamento“. É começar a compreender que realmente há o trágico na vida. A vida é o trágico. A vida não é um exercício a ser decantado por um otimismo!

Há um texto do Lawrence, traduzido em francês como Eros et le chien – no capítulo [intitulado] “Estes pintores” (uma coisa assim) – onde ele vai fazer uma experiência extraordinária na sexualidade, talvez do mais alto nível que eu já tenha lido em toda a minha vida! Ele diz que os ingleses não conseguem pintar, porque eles têm a sexualidade abalada… pela sífilis. Estranho (não é?), esse enunciado… parece banal… mas não é, não! Porque a sífilis é um fenômeno real, concreto, ela penetra no corpo, e abala a imaginação.

Lawrence teria mostrado Hamlet como o exemplo da sexualidade inglesa – fuga de todo o contato com qualquer corpo. É isto que eu estou mostrando para vocês. Mostrando que… talvez o que leve à dificuldade de entender a revelação e o tarde demais – que parece tão claro – seja porque nós banalizamos tudo. Nós banalizamos tudo!… Quando encontramos um Lawrence falando sobre a sexualidade dessa maneira, extraordinária, mostrando a doença que é o Hamlet e que são agenciamentos do mundo que geraram aquela doença… é o que se processa em nós: uma tendência a banalizar!

Aluno: Eu… (–? –)

Claudio: Ela não é de fato, é de direito, talvez seja isso…

Aluno: Eu estou entendendo, mas, como você sempre coloca, eu não gosto de ficar na sinonímia. (–? –) Por exemplo (–? –) O que eu não compreendo com clareza é que você falou que quando ele se revela, é tarde demais. E justamente porque isso tem uma dimensão trágica, que é confundida com o pessimismo. É essa relação tragédia/pessimismo, que pode acontecer. Mas é engraçado, quando o Proust usa a palavra tempo perdido.

Claudio: Exatamente. Nós vamos passar para o tempo reencontrado para compreender o que é “tarde demais”. Vamos começar com o tempo perdido e passar para o tempo reencontrado, para encontrar o tarde demais.

Aluno: E é engraçado que não tem que haver uma relação direta, o porquê dele ter usado essa expressão tarde demais. Eu sei, essa expressão tarde demais dá o sentido trágico do acontecimento…

Claudio: Não, A., veja bem! Nesse campo ontológico, a expressão e o acontecimento são a mesma coisa! Tarde demais é o próprio ser do acontecimento. O acontecimento é este – revelação e tarde demais. Ou seja, por exemplo, quando você quer recuperar uma pessoa que você ama, mas essa pessoa que você ama está perdida no tempo, o que você pode fazer é sentir saudade. É essencial você sentir saudade, senão você não consegue recuperar aquela pessoa. É a mesma coisa que está acontecendo, ele está dizendo que a revelação e o tarde demais são essenciais ao tempo. Eles são essenciais, não tem jeito – você vai entrar no tempo, vai encontrar isso!

Então, o ponto de partida é essencial: não pertence a uma estrutura psicológica – você quer entrar no tempo, vai encontrar isso. Você quer sair do movimento, quer passar para um novo capítulo da sua existência, entra no tempo e encontra isso: não tem jeito! Então é exatamente o que nós vamos fazer: vamos pegar o tempo perdido, vamos pegar o tempo reencontrado e tentar compreender por aí. O problema é esse – pegar o tempo perdido e o tempo reencontrado e vamos tentar compreender por [essa via].

Aluna¹: (—)Você sustentou super bem a primeira síntese, depois você sustentou super bem a segunda síntese e a reminiscência, e quando chegar na terceira síntese… você sempre dá uma beiradinha assim…

Claudio: Vocês recusam! Há uma recusa nítida da terceira síntese do tempo, na não aceitação de que, na terceira síntese, é o pensamento e o vazio. É uma fenda no pensamento, as pessoas não aceitam.

Aluna²: Eu não sei se é isso, ou se a mim me provoca… porque eu entendi perfeitamente o que você falou a respeito desses fatos. Eu sinto exatamente a mesma coisa. Não é a primeira vez que eu sinto isso. O que me ocorre é que quando chega nesse momento, você diz que você sente uma recusa. Eu me sinto completamente perplexa, eu não sei o que fazer, não sei o que dizer, não sei o que perguntar…

Claudio: Mas é exatamente isso: é uma recusa. É evidente! Se você se sente perplexa… – o que é sentir-se perplexa? Sentir-se perplexa é você não entrar. Eu não estou fazendo nenhuma teoria psicológica, não. Estou fazendo uma teoria ontológica! Se você está no mar, dentro d’água, você se molha; se você está na perplexidade você não se move. É isso que eu estou dizendo!

Aluna¹: É que a terceira síntese vai ter que ser revelada!

Aluna²: Ah, talvez seja isso!

Claudio: É muito simples! Se você diz: eu estou na perplexidade, você está na perplexidade! Você não penetra mais.

Aluna²: É verdade! Fico parada, é verdade!

Claudio: É isso que eu chamo de recusa. Não é uma recusa psicológica, não é nada disso, não! A recusa é de ordem ontológica, você se defronta com a perplexidade; é pensar ontologicamente. A perplexidade não é da ordem psicológica, é um transcendental afetivo. Você entra naquilo. E você não passa, você não atravessa mais, você paralisa ali. Ou então nós temos que fazer o que fazemos sempre: chamar as pessoas de burras???… não!!!! Isso é uma idiotice! Não tem nada disso. Você não consegue mais passar!

Quando se diz que Artaud, na década de quarenta, mandou uns poemas para Jacques Rivière (?), que retornou com os poemas…. e o Artaud disse: “não quero que você fale sobre esses poemas como você está falando, porque esse poemas estão revelando que eu não consigo pensar”. E Jacques Rivière diz: “Não, você vai acabar pensando…”. Artaud: “Não é isso o que estou dizendo!”.

O pensamento não consegue lidar senão com o vazio, é o que ele está dizendo. O pensamento é sofrimento absoluto, então é isso o que está acontecendo aqui [no filme do Visconti] – a entrada no tempo, a conquista do tempo!!! Para conquistar uma cidade, morre-se, para conquistar um bife com batata frita, morre-se – então, para conquistar o tempo… é o sofrimento absoluto! Sofrimento absoluto!!!

A vida tenta invadir o tempo! Não é tenta invadir, no sentido de que o tempo está separado dela, não. É que ela [a vida] está dentro dele [o tempo]! O que você faria, por exemplo, na casa em que você mora? Conquistar! Nós estamos dentro do tempo, nós estamos no interior do tempo. É isso que a vida descobriu, é isso que o pensamento descobriu: nós estamos no interior do tempo! O que se faz? Produz-se alguma coisa ali dentro! É o que Visconti está tentando produzir. ..

Mas agora…, estando no interior do tempo – a primeira frase que eu disse na aula… – entra-se no não-senso, entra-se no paradoxo, abandona-se o modelo do bom senso. Não tem mais jeito: não há mais volta para ele! Essas figuras que aparecem agora, não são figuras religiosas: são figuras dramáticas; dramáticas!!!

Deleuze associou aqui o tarde demais… (não está muito claro, não; não é?) – “o tarde demais do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo”. É difícil, mas é clariável…

O tempo perdido é que produz o tarde demais. O tempo perdido com a arte cerebral que, na revelação, já era tarde demais. “…ao mesmo tempo que isso ocorre, a unidade da arte aparece e o tempo é reencontrado”. (Vocês vão ter que fazer um esforço para entender isso!) Surge aquela revelação, decepcionante, mas ao mesmo tempo, a unidade da arte e o reencontro do tempo. Ou seja, o Visconti está nos dizendo que, na revelação, o tempo é reencontrado. É isso que ele está mostrando ali.

Aluno: O que ele quer dizer com unidade da arte, eu não entendo bem o que é isso.

Claudio: A unidade da arte ali, na revelação, é o que o professor viu – é a unidade da natureza e do homem. Por que o que o Aschenbach está dizendo o tempo todo, é que o artista tem que trabalhar e se liberar da natureza, se liberar dos sentidos; e o que Tatzio revela, é que não é nada disso: que há uma unidade! A surpresa dele foi essa – há uma unidade – e ele não precisava ficar lá em cima, trabalhando no vazio. Há uma unidade! Não interessa se é verdadeira ou não! O fato é esse, a revelação foi essa. A natureza faz uma unidade com o homem. Essa unidade da natureza com o homem é o lugar da arte e… o reencontro no tempo. O tempo estava perdido. Tentem compreender isso: o tempo estava perdido!

Aristóteles viveu o tempo perdido – todos eles [os filósofos clássicos] viveram o tempo perdido: eles não transaram o tempo, transaram o movimento. Então, [no filme] Aschembach reencontra o que tinha sido perdido. Eu citei, dizendo que, pela saudade, pode-se recuperar, no tempo, uma pessoa querida – isso não é arte, isso é amizade, é amor!

O artista não quer recuperar pessoas perdidas no tempo, ele quer recuperar o tempo – o próprio tempo. É a ontologia, é isso o que ele recupera. Então, tarde demais e revelação… é o reencontro do tempo. Visconti é atavicamente o cineasta do tempo. E ele vai e descaracteriza Losey, porque Losey era naturalista. É isso. Vou passar para Proust, mas se vocês não chegaram até aí…não sei o que eu faço!

Perdeu o tempo, reencontrou o tempo, pela unidade da natureza e do homem. (É isso! Nada mais do que isso! Se vocês não entenderam, é impossível passar. Eu não paro de dizer que há duas maneiras de se compreender esses temas: de brincadeira ou seriamente. Seriamente não tem jeito: tem que entrar.)

Vamos dizer que o artista tivesse uma obsessão – a verdade: o que é a verdade; a verdade do tempo. No caso, o que vem a ser a verdade do tempo? Como ele vai encontrar a verdade do tempo… se o tempo está perdido?

Conquistar! Conquistar o tempo, reencontrar o tempo. A primeira prática dele tem que ser essa. Ele reencontra pela revelação. Ao encontrar, “tarde-demais!” Tarde demais passa a ser o quê? Passa a ser a verdade do tempo. Já não é mais decepcionante, torna-se a verdade do tempo! A categoria… a categoria do tempo: é “tarde demais”.

Vocês não sabem o que é viver seis horas da tarde? Vão viver o “tarde demais”! Vão ver no que vai dar. A essência da arte é essa – não é a decepção psicológica, é essência, é a natureza mesmo. Encontra o tempo, e reencontra a revelação de tudo, ali vai transbordar para você. O quê? O tarde demais! Difícil uma expressão dessas: “C’est trop-tard!”

Eu acho que o melhor caminho aqui é Proust – no capítulo “Signo e Verdade”, o capítulo dois [do livro Proust e os signos do Deleuze]. (Não sei como é que está indo, não é?)

“Mas perder tempo não é o suficiente. Como vamos extrair as verdades do tempo que se perde, e mesmo as verdades do tempo perdido?” [Prout e os signos, pág. 23] O que está sendo dito é que quem quer conviver com o tempo vai encontrar nele a verdade. É nele que está a verdade. Tem-se que saber como isso vai ser feito. Recusar-se a perder tempo. Quem procuraria a verdade se não tivesse primeiro… (virada de fita)

PARTE III

(Então é melhor deixar passar o filme, não é? Aí, vocês vão ser inundados de signos. Na hora em que despertar alguma coisa…, pára!)

Aluno: Engraçado que, ao que parece, ele apresenta dois tipos de revelação: uma revelação com a madeleine – ele tem uma revelação, mas está preso num objeto sensível; e uma segunda revelação, que já é o tempo puro direto…

Claudio: Olha, o Deleuze não diz bem assim. É possível ser dito como você está dizendo… o Deleuze vai mais fundo nisso. Está bem dito, mas o Deleuze aprofunda mais o que você acabou de falar quando ele diz aqui assim…

“Fórmula proustiana: um pouco de tempo em estado puro.” O que Proust quer ao dizer isso? Como é que vocês diriam? A fórmula proustiana: “um pouco de tempo em estado puro.” O que quer dizer isso? (Quem não decifrar vai morrer enforcado. Quem não se arriscar… morre enforcado!..)

“Um pouco de tempo em estado puro” – ele está dizendo que há tempo que não está em estado puro. Proust está dizendo o quê? Proust está dizendo que existe um tempo para o estado puro. Esse tempo, que está fora do estado puro, é exatamente isso que você acabou de falar: é um tempo que pode ser apreendido pela memória, pela imaginação – [enquanto que] o tempo em estado puro… só o pensamento pode apreender.

Então, ele diz aqui: “A fórmula proustiana, um pouco de tempo em estado puro, designa em primeiro lugar o ser em si do passado, isto é, a síntese erótica do tempo, mas, designa mais profundamente a forma pura e o vazio do tempo.”

Por que ele diz isso? Porque ele quer o tempo puro, o tempo puro é vazio, e todas as teses sobre o tempo, inclusive as do Bergson, misturam o tempo com Eros, misturam o tempo com Narciso, o tempo do Narciso, o tempo do erótico, e Proust quer tempo puro, tempo vazio – que é a mesma coisa de Visconti – é vazio! (Não sei se vocês entenderam!)

(Se vocês não souberem perguntar, é que a questão talvez não tenha passado bem.) [É preciso] entender isso: O rompimento, quando Deleuze aponta para Proust e critica Bergson, é [que] Bergson está prisioneiro do tempo misturado com Eros, misturado com Narciso – um tempo todo penetrado de coisas!… Para se tornar um pensador… é preciso querer o tempo puro.

Aluno: Eu acho que é aí que eu tenho dificuldade…

Claudio: É muito simples, há uma maneira de dar conta disso… – confronta pensamento e inteligência. Qual de nós aqui não é inteligente? Todos nós somos. Qual de nós não quer ser inteligente? Não ser enganado no troco, ganhar juros no “centrão”, arranjar um bom emprego, obter sucesso na vida?! – isso chama-se ter inteligência. E com que nós confundimos isso?

Aluno: Com o pensamento!?

Claudio: Com o pensamento!..- não tem nada a ver! A inteligência vive no campo social, no campo comunicativo, no campo intersubjetivo – o pensamento é aquilo que lida com o tempo puro. É a coisa mais simples!

Aluno: A imagem da ampulheta é muito forte, Claudio! É quando acaba… e ele vê: quando ele vê o vazio da ampulheta – ele fala que o pensamento quer entrar, mas que, afinal, é tarde demais…

Claudio: Mas entra!

Aluno: Mas entra!?

Claudio: O tarde demais entra! O tarde demais não é um estado do homem. É uma dimensão [do tempo]. Isso é o trágico! Tarde demais é o trágico; o transcendental! Esse enunciado que eu fiz aqui sobre a diferença entre Proust e Bergson… é que o Bergson não foi atrás do tempo puro… – quem foi atrás dele foi Artaud, foi Proust – que é o tempo sem penetração de nenhum fantasma, de nenhum deus, de nada! Por isso, Proust… eu vou ler aqui, que você vai ter a compreensão do que você citou… “A experiência proustiana tem evidentemente uma estrutura totalmente distinta das epifanias de Joyce, mas trata-se também de duas séries (olha a marcação: duas séries!), a de um antigo presente (o antigo presente é aquilo que está no nosso passado), Combray tal como foi vivida, e a de um presente atual. (duas séries!) Sem dúvida, permanecendo numa primeira dimensão da experiência, há uma semelhança entre as duas séries: a madeleine, a refeição da manhã, e mesmo a identidade e o sabor com qualidade não somente semelhante, mas idêntica nos dois momentos. Todavia não está aí o segredo. O sabor só tem poder porque ele envolve alguma coisa igual a x.”

Quer dizer: alguma coisa igual a x – para vocês que não estudam filosofia… [referência aos bailarinos e atores presentes], para eles que estudam filosofia, é matar vocês: matar! Por quê? É exatamente a experimentação que se faz nesse trabalho daqui – para se fazer um trabalho desses…, para encontrar Proust, você tem que sair do plano da identidade – que é o plano da inteligência. A inteligência só trabalha se ela tiver o princípio de identidade submetido por ela, senão ela não trabalha. A inteligência não suportaria dizer “S. está sentada e está em pé”. Ela precisa da identidade para se sustentar! O que Deleuze está dizendo aqui é que, para entrar na arte, é preciso encontrar um tal de objeto – “alguma coisa igual a x” – que não mais se define pela identidade: define-se pela sua própria diferença essencial.

É como se você fosse posto para fora de casa: “Vai embora, não fica mais aqui, você agora tem que arranjar tua comida, tem que se cobrir de noite, vai se virar, cara! Sai dessa segurança idiota que você está tendo aqui e vai se virar”. Ou seja, é rompido tudo aquilo – e se você quiser fazer a prática de arte, a prática do pensamento, tudo aquilo que você supunha que era o fundamento, não é! (Não sei se vocês estão entendendo bem…)

Aluno¹: Claudio, o Bergson chegou a definir só as duas primeiras sínteses, quem definiu a terceira, foi o Deleuze?

Claudio: Não. Não foi o Deleuze… O Deleuze é o pensador dos agenciamentos. Deleuze não para de enquadrar aqueles que se agenciaram com a terceira síntese, no caso é o Proust, no caso é o Artaud. Eu acho que se vocês lerem o Artaud, do Maurice Blanchot, vocês vão entender bem. Não é assim: entender… não é o entendimento da inteligência. A inteligência só entende se houver identidade e não-contradição. Se você disser para a inteligência que S. está sentada e está de pé, ela não vai entender… Não é justo, ela não vai entender isso! Então, não é a inteligência que entende. É o pensamento que vai… Eu posso dizer para você que o Artaud produziu os grandes enunciados sobre a terceira síntese.

Aluno¹: Mas quem deu o nome de terceira síntese. ..?

Claudio: Ahhh, sim, o Deleuze!!

Aluno²: Deleuze que organizou?

Claudio: [Deleuze] é o administrador – o pensador da administração! Deleuze é um filósofo: um filósofo do tempo!

Aluno³: Ele está tornando visível…

Claudio: Ele está trazendo essa matéria para a especulação, para o pensamento especulativo.

Aluno²: Você diz que o Deleuze administrou. Mas, talvez, mais do que o termo administrar… ele compôs alguma coisa com isso?!

Claudio: Não, Deleuze não interfere, como o historiador clássico da filosofia interfere nas obras dos filósofos, dizendo que é verdadeiro ou falso. Deleuze não faz esse tipo de coisa! Deleuze se importa se ela for sedutora e criadora. Ele não dá importância para a tolice!… Ele não faz essa clássica interferência, que o historiador da filosofia faz numa obra filosófica, chamando-a de verdadeira ou de falsa. Ele não faz isso. Ele não acrescenta ao Artaud. A leitura que ele faz é muito original! Talvez por isso as pessoas tenham dificuldade para entendê-lo. Ele não lê como os historiadores clássicos de filosofia leem. Ele não faz comentários, não faz interpretações, o que ele faz são sobretudo avaliações. Pega o Nietzsche, por exemplo: lendo Nietzsche, dificilmente você vai dizer que reconhece [ali] o que o Deleuze diz. Não! É bem diferente! Mas o Deleuze não diz como… um historiador como Bertrand Russell, por exemplo, diz, que o Nietzsche é louco, porque falou no eterno retorno. Não é nada disso! Para que serve o eterno retorno? O que eu vou fazer com isso?

Aluno²: Como funciona aquilo…

Claudio: É. Como funicona? Para que serve, como funciona? É esse o trabalho do Deleuze. Ele não é um historiador da filosofia.

Isso daí, em qualquer universidade que você for, no mundo inteiro, todo mundo vai chamar o Deleuze de “historiador da filosofia”… por sordidez! Por sordidez! Não é por epistemologia: é por sordidez!

Aluno³: Eu acho que fica muito claro se você pegar uma aula de filosofia de um professor comum… e uma aula de filosofia do Claudio. Dá para se perceber a diferença. Ele está mostrando como se pensa… como isso funciona…

Claudio: É uma máquina! Você está diante de uma máquina: como ela funciona, para que serve… serve para quê? Para entrar no tempo! Nada mais do que isso!…

Atualmente, os… – isso é (-? -) dos deleuzeanos; são muito poucos! -…eles estão procurando mostrar como o Deleuze faz com o pensamento… como é que Deleuze lê. Como é a leitura dele.

Há um engano – todo mundo se engana!. .. – [acerca] do Deleuze ou [de mim mesmo], admitindo ou iludido de que isso implica em formação de seitas, de grupos. Não! Nada disso! Na verdade isso aqui é um caminho solitário – a solidão pode ser em grupo! Mas não busca seitas, não busca solidariedade, não busca reconhecimento, nada disso. Nada disso! Não está no universo deleuzeano, de forma nenhuma. É fácil distinguir… basta ler Hegel, lendo Hegel, entendendo Hegel, você vê que ele trabalha com o reconhecimento…

Hoje, quando a Fernanda Montenegro estava falando numa propaganda na televisão… eu até ri muito… porque [essa propaganda] era toda fundada no reconhecimento. “Tudo isso só pode ser feito, porque o passado garante o futuro!” – é Hegel! Então… essa prática daí, eu não tenho nada disso: é um exercício de vida! Um exercício!…

Bom, eu não sei o que eu faço. Se vocês conseguiram entrar nessa dimensão… É o tempo, o tempo chegou.. entrou o tempo. .. e… (-? -). As minhas leituras garantem o que estou falando, (não é?) Talvez esteja aí o rigorismo que eu atravesso, admitindo que todos têm que fazer uma espécie de leitura semelhante. Mas há um exagero meu, nisso. Talvez não seja preciso! Embora o Deleuze se sustente [dessa maneira]. Ele se sustenta assim. Nas… leituras muito fortes que você tem que fazer… para conduzir a sua existência.

Bom… eu vou fechar esta aula, tá? Aí a gente passa a ver o filme…

O que difere Bergson de Proust, Proust de Robbe-Grillet, de Resnais, desses todos que estão aí, de Godard, é que cada um tira uma porção dessa criatura chamada tempo. A do Visconti é o tarde demais!

Na página 99 desse livro aqui [A Imagem-Tempo] – o texto vocês devem ler, [é sobre] a fundação do tempo (–? –). Deleuze vai falar agora no cristal do tempo – a formação do cristal, o problema da música, o cristal sonoro, estribilho, memória, tempo e até.. Olha, quando eu faço uma associação com meus alunos… – geralmente faço isso na universidade, fora dela raramente eu faço isso. Eu faço uma associação de construir um mundo neutro entre mim… que eu e os alunos habitemos aquele mundo neutro; que todo mundo se admita dentro de uma posição. Que é… que… ter excesso de vaidade, excesso de orgulho…, isso prejudica o estudo! É… o encaminhamento que o Braudel fez para mim. Ele dizia que, numa sala de aula com 500 alunos, ele encontrava dois ou três que podiam atravessar!

Muitas coisas a gente não entende, mas isso não tem problema. É isso… Você vai ler um livro de arte, como o do Wölfflin, por exemplo, e ele vai falar de uma figura chamada… profundidade de campo; ele nem usa esse nome, é um nome moderno, (não é?). A profundidade de campo… não, ele usa outro nome, não me lembro, comparando a arte clássica com arte barroca. Não é nada, não dá nem importância para isso. Mas acontece que a profundidade de campo é do barroco conquistando o tempo. É o tempo sendo conquistado!

Aluno: É plano e profundidade.

Claudio: É plano e profundidade… mas ai, sabe o que é, L, é no capítulo dois, do Wöllflin, se não me engano, (não é?) você estudar a profundidade, porque há uma diferença nos mecanismos utilizados pela pintura clássica e pela pintura barroca. As diagonais, as luzes barrocas (não é isso?) e as dimensões clássicas. Que realmente, quem vai conquistar o tempo é o barroco! O clássico se limita ao espaço. Essa noção de tempo talvez seja um bloqueio para vocês. Talvez ela bloqueie…

Eu vou levantar uma questão: existe uma figura que a matemática, por exemplo, lida muito com ela – que é a figura do infinito... O que é o infinito? Os séculos trazem um debate sobre se o infinito é real ou não… – é uma discussão entre o infinito atual e o infinito potencial. Então, essas noções, que parecem de pouca importância, elas são elementos fundamentais para se entender essas criaturas que estão aparecendo aqui: tempo, cinema, arte, pintura, teatro, filosofia, invadir essas coisas. Por isso, eu digo, que criar um espaço neutro com o aluno dentro da universidade é muito fácil para mim. Sempre muito fácil para mim. Não tem vaidade em dizer eu sei, eu sei qual o problema, nada disso! Você não tem que viver isso! Você tem que fazer agenciamentos ali, para poder… desde que se queira usar isso na vida… (não é?) Servir-se disso.

Eu acho que não tendo mais nada a dizer… que vocês não perguntam… eu não tenho mais o que falar. Chegamos na revelação/ tarde demais… vocês se viram com isso, não é? Não vai levar muito longe, hein? Porque nós vamos chegar a dimensões extraordinárias, nisso aqui. Por exemplo: o cinema do Robbe-Grillet… é assustador. Eu não poderia explicar o Robbe-Grillet para vocês com facilidade… é impossível!…

Passa o filme… O filme vai explicar tudo isso!

….Aristocracia, decomposição, história e tarde demais. Pega a aristocracia [trecho inaudível, misturado com as vozes e a música do filme]

O tarde-demais demais é que penetra… tira você da… do ordinário. Tira você daí. (…)

Eu estou dizendo desde o começo: é a insuportabilidade deste encontro que gera a obra de arte.

Aluno: A expressão é isso?

Claudio: Isso é a expressão!!! Você não tem outra saída!!! Se você não expressa, está morto!!! É isso o que eu estou dizendo desde o começo…

Aluno: É uma dobra, então, seria isso?

Claudio: Aí vira um nome, vazio…

Ou você expressa aquilo, ou você morre!!! O artista é isso. Muitas vezes você não consegue expressar: você pira, você enlouquece. É o que Proust conta no “Contra Saint-Beuve”, é isso! Basta isso: o artista não aguenta! Vocês acham que Fernando Pessoa morreu de quê? De “bife com batata frita” ou de arte? Morreu de arte!!! Mata!

(———-)

Vocês não entendem é o problema: como você entra nessa matéria… no pensamento. Para Platão – quando é que você pensa para Platão? Quando você se espanta! [Platão] Espantou, entrou! [Visconti-Proust] Revelou, entrou! Confrontem que vocês vão entender: Revelou, entrou. Espantou, entrou. É a diferença dos dois! Agora: Platão… espantou, entrou e pensou. Revelou, entrou… foi tarde-demais! Que coisa grave, hein? Porque, se é tarde demais… é o vazio!!!!!

A música é maravilhosa… Esse menino, o Mahler, foi perseguido pela mulher do Wagner. A Cosima destestava ele… Por causa disso aqui, dessa sinfonia aí…

(————-)

Se um homem sofre mais que do que outro, não tem a menor importância, porque poderia não ter sofrido. Nenhum sofrimento garante a você maior nota metafísica. É o erro de muitos pensadores! O Rubens Correia, quando foi fazer uma peça sobre Artaud, ele pensava que Artaud era importante porque sofreu muito. Eu conheço um sujeito em Macaé que sofreu muito mais do que o Artaud. Não há nada no mundo da contingência, ou seja: daquilo que acontece, mas poderia não ter acontecido, que nos dê uma posição superior ao outro. Não é por aí. Esse é o primeiro ponto da (-? -) O sofrimento é o da arte.

Aluna: Tem até uma máxima cristã, não é? Quem mais sofreu…

Claudio: (–? –) Esse é o sofrimento vulgar, mas não é isso! É uma experimentação radical… muitos não fazem… outros fazem… Há um autor, que se chama Clément Rosset, que pergunta qual a importância de se fazer ou não essa experimentação. O homem trágico tem mais valor existencial que o homem não trágico? Não! Não é por aí. É querer fazer da vida esse caminho… Acredito que quando você entra…não tem volta!… Não tem volta!… Não tem volta!… Como é que vai voltar???

Mas o enunciado básico é aquele da ampulheta…

Fim

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Aula de 10/09/1995 – Uma aula trágica

capa_aventura_do_pensamento_FB[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 13 (“Arte e forças”) e 15 (“Ecceidade e Espinosa, o Mais Poderoso dos Deleuzeanos”) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

“Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Espinosa […] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar […] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.”

 [Herem – anátema – pronunciado contra Espinosa aos 23 anos de idade, em 27 de julho de 1656].

Esta é uma aula trágica. Trágico não quer dizer sofrimento – não é nada disso; mas uma aula fundada num homem que esteve neste planeta durante quarenta e cinco anos. Nesses quarenta e cinco anos de vida, ele se preocupou em compreender e em observar se há ou havia saída para o sofrimento da alma humana. Esse homem chama-se Espinosa.

Espinosa viveu no século XVII: nasceu em 1632. Ele foi injuriado e odiado durante a sua vida… e acusado de materialista e de ateu. Quando diziam que ele era materialista e ateu, ele, sim, sentia uma enorme alegria, porque ele era materialista e ateu. Mas não considerava isso uma desonra. Pelo contrário! Uma posição, para ele, a mais elevada que o homem poderia ter.

Eu usei uma expressão perigosa – “a posição mais elevada que o homem poderia ter”. Dizer: a posição mais elevada que o homem poderia ter – não tem uma significação moral. Significa que aquele que tem a posição mais elevada venceu todos os medos, todas as angústias e todos os sofrimentos. Ou seja: o homem mais elevado, no conceito de Espinosa, é aquele que, através do seu pensamento, descobriu que a vida pode se dar sem angústia ou depressão.

Então, dizer “o homem mais elevado”, não é um elogio pelos discursos que Espinosa proferiu; mas um fato, que ele teve como questão da vida dele – e os mais jovens talvez não entendam a força existencial do que eu estou dizendo -, que ele teve como questão primacial da obra dele o sofrimento da humanidade. Diante desse sofrimento – e não é o sofrimento do corpo que preocupou Espinosa – é o sofrimento da alma: a alma humana envolvida com o medo da morte, das angústias, dos terrores que a acompanham desde o nascimento.

Se nós, literalmente, não tivéssemos tido Espinosa – quer dizer, este Espinosa que eu vou começar a dar pra vocês -, o homem seria um ser sem saída Ele seria um ser definitivamente mergulhado na angústia. Ou melhor: tudo aquilo que está dentro do tempo… nasce, desenvolve-se e morre. O que leva qualquer criatura dentro do tempo – se não houvesse Espinosa -, a estar condenada a um sofrimento insuportável.

Essas afirmações que estou fazendo antes de começar a apresentar Espinosa pra vocês, é porque a obra dele tem como principal adversário – e aqui as palavras começam a ficar um pouco difíceis para serem entendidas -, o principal adversário da obra de Espinosa é a ignorância. Ele considera a ignorância o pior inimigo da vida.

Ignorância quer dizer ignorar. E quando você encontra um ser – atenção pela beleza e pela dificuldade do que eu vou dizer! – quando você encontra um ser que é ignorante por acidente, significa que esse ser é ignorante, mas pode deixar de ser. Ou seja: ignorância por acidente significa que esse ser, dependendo de determinadas ocorrências, deixaria de ser ignorante. A questão de Espinosa não é essa! A questão do Espinosa é com aquele ser que é ignorante por essência. E que nada, jamais nada no universo pode modificar aquela ignorância. É um ser que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância.

Espinosa diz que este ser, que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância, que este ser é o maior inimigo da vida. E ele chama esse ser do mesmo nome que nós costumamos chamar – a consciência. Essa afirmação aqui é uma afirmação inicial.

Aluna: Ele chama a ignorância…

Claudio: A consciência, para Espinosa, é um ser absolutamente ignorante e a ignorância da consciência… – não adianta mandar a consciência para um internato na Suíça, porque ela não tem cura. O Espinosa está dizendo que ela é ignorante por essência, e não por acidente.

É nesse momento que começa uma obra que dada a filosofia… […] esquece para sempre a consciência. Ela é declarada a ignorante sem cura. E a partir dessa denúncia que Espinosa está fazendo para todos os homens – ele está dizendo para todos os homens: “Olhem, a consciência, ela é… a ignorância absoluta!” Evidentemente que os homens, que são governados pela consciência, não entendem o que ele diz.

A gente ouve essa afirmação que Espinosa está fazendo – que a consciência é ignorante – e, inicialmente, acha que são meras palavras ou jogos de palavras que vão aparecer para nós – como aconteceu durante toda a história do homem – que é ir se deparando com jogos de palavras. Não é essa a questão! A questão de Espinosa é… de uma radicalidade assustadora! Ele diz e afirma que a consciência jamais poderá deixar de ser ignorante. E, a partir dessa afirmação, eu vou mostrar pra vocês o que é a consciência.

Em primeiro lugar, o que é algo fácil de ser entendido, o homem é constituído de duas coisas – e as palavras aqui podem ser prejudicadas pelas influências religiosas… – o homem é constituído de um corpo e de um espírito. Essa noção de espírito é a afirmação de que o homem é capaz de tentar – se ele consegue ou não é outro problema! – entender a natureza; capaz de sofrer pelo sofrimento dos outros e dos seus próprios; e é capaz de inventar novos objetos.

Inventar novos objetos, sofrer e procurar entender a natureza são índices de que o homem possui um espírito.

Possuir um espírito é o fato de que o homem avalia, julga, sente, projeta, recorda-se, lamenta, sente alegria, sente tristeza… – todos esses componentes indicam, exaustivamente, que o homem não se esgota no corpo: que ele tem um espírito!

Então, Espinosa começa por essa afirmação: o homem é corpo e espírito! Essa afirmação, pelo menos aparentemente, não é muito original, porque todas as religiões disseram a mesma coisa: o homem tem um corpo e um espírito.

A originalidade começa quando Espinosa diz que o espírito aparece no mundo por uma forma chamada consciência. Ou seja, nosso espírito – não vou dar exemplos porque vocês não iriam entender – aparece no mundo por uma forma que se chama consciência – Atenção! – e essa forma, a consciência, tem por função recolher em si tudo o que ocorre na natureza. A consciência é como que… o resultado dos acontecimentos da natureza. A consciência sofre, se angustia, tem depressões. A consciência é um órgão do espírito, ou um órgão no espírito humano que teria a função de conhecer a natureza das coisas. Teria a função de conhecer a natureza das coisas… mas ela não pode conhecer a natureza das coisas.

Atenção! Espinosa diz que a natureza das coisas são relações causais. O que são relações causais? São relações de forças que percorrem a natureza.

A natureza são as forças dos corpos, ou melhor, diz Espinosa, o infinito inteiro da natureza é constituído por dois afetos – a composição e a decomposição dos corpos.

Quando você conhece a natureza, você conhece – diz ele – que a natureza só tem dois afetos: a composição e a decomposição. Mais nada!

Então, a natureza se explicaria pelos corpos que se compõem e pelos corpos que se decompõem. Para Espinosa a natureza não tem mais nenhuma lei, só essas duas; só esses dois afetos: composição e decomposição.

A consciência – sendo um órgão do conhecimento – teria a função de conhecer as regras que organizam a composição e a decomposição. Mas ela não pode fazer isso – e esse é o momento mais difícil e mais sofisticado para vocês entenderem – porque ela, a consciência, é um efeito da composição e da decomposição [dos corpos]. Ou seja, só porque há composição e há decomposição é que há consciência. A consciência não é primária; ela é secundária – um produto das relações causais da natureza. Por isso, a natureza é toda constituída por relações causais, nas suas composições e nas suas decomposições; e ela, a natureza, só tem um efeito: esse efeito chama-se… consciência!

A consciência é um efeito; e sendo um efeito (ela é como se fosse a Comlurb) – só recolhe os acontecimentos causais da natureza. Então, quando a consciência pertence a um corpo que está em composição com outro corpo, a natureza recolhe alegria; quando está em decomposição com outro corpo, ela recolhe tristeza. A consciência não compreende a natureza: ela sente a natureza!

(Atenção, para o que eu estou dizendo:)

A consciência não compreende os movimentos causais que a natureza efetua. Ela não compreende, mas sente esses movimentos. Por isso, a consciência é constituída pela variação das composições e das decomposições da natureza, que dão à consciência variação de sentimentos.

A consciência é uma interminável sucessão de sentimentos. Ela passa de um sentimento para outro, em função das composições e das decomposições que existem dentro da natureza.

Aluno: Uma interminável consciência desses movimentos? É como se fosse um movimento continuado, não é?

Claudio: O que a consciência tem são sentimentos. Ela não sabe o que são as composições e as decomposições da natureza; ela tem apenas sentimentos.

Então, por exemplo, o meu corpo se compõe com outro corpo, a minha consciência sente alegria. O meu corpo e outro corpo se decompõem, ela sente tristeza. Quando a composição permanece por mais tempo, ela sente amor. Quando a decomposição demora mais tempo, ela sente ódio. Então, a consciência vai variando de sentimentos. Ela é uma variação permanente de sentimentos.

Por isso, qualquer homem está em permanente variação de sentimentos. Ele sente amor, ódio, tristeza, alegria, esperança, angústia, desventura, raiva…. Tudo isso está se dando na consciência, porque na natureza os corpos estão em composição e em decomposição. A partir daí, a definição da consciência é “aquela que recolhe os efeitos do afeto que percorre o infinito da natureza: o afeto das composições e das decomposições”. Assim, a consciência é um ser mutilado. Ela é mutilada porque ela não pode apreender, ela não apreende as causalidades. Então, todo o saber que a consciência tem é um saber mutilado, é um saber pela metade: ela não apreende as causas; ela só conhece os efeitos.

Sendo assim, imediatamente, ela, a consciência, é por essência angustiada. Ela se angustia, porque sequer pode saber quanto tempo um sentimento que está nela vai durar. Porque ela não sabe que as variações de sentimentos se dão pelas composições e pelas decomposições da natureza. Ela só recolhe os efeitos.

Aluno: Decomposição seria a separação?

Claudio: A decomposição, M.L., é quando, por exemplo, digamos: você tem uma ideia sobre o que é democracia, aí você lê um texto em que um determinado autor produz uma noção de democracia que entra em choque com a sua. Quando duas ideias não se compõem, elas se decompõem; e a decomposição de uma ideia produz em nós um sentimento de fraqueza.

Então, o que eu estou chamando de composição e decomposição é composição e decomposição de ideias e composição e decomposição de corpos. Nós temos uma série de ideias e, de repente, essas ideias entram em composição com outras ideias. Se essas duas ideias se compuserem nós sentimos alegria, porque nossa força aumenta.

Aluno: Elas somam?

Claudio: Elas somam!

E se elas entrarem em confronto, nós sentimos tristeza. Então, o que nós temos que entender… – e aqui já começou a violência de Espinosa -… que a consciência não entende: ela sente.

(É uma diferença fundamental, vou insistir até que vocês…)

Aluno: Soma ou perde, não é?

Claudio: Ela compõe e decompõe.

Ela não conhece composição nem decomposição. Ela só conhece os sentimentos. A consciência não conhece as leis da natureza. Ela só recolhe – das composições e das decomposições – os sentimentos. Então, a nossa consciência é uma variação interminável de sentimentos e esses sentimentos em variação constante geram um sobre-sentimento, que se chama angústia. A angústia apareceria não como um sentimento, mas como um sobre-sentimento, pelo fato de que a consciência não entende nada do que se passa. Nada! Ela não foi feita para entender; ela foi feita para sentir. Então ela passa toda a sua existência mudando de um sentimento para outro. Essa variação de sentimento chega a um ponto que abafa a própria consciência. Aí ela sente angústia.

A angústia é a impossibilidade de a consciência permanecer num só sentimento. Os sentimentos não param de oscilar, porque a natureza não para de compor-se e de decompor-se. Então, o ponto de partida da aula (está entendendo, R?) é que a consciência… ela não entende; ela sente.

Aluno: Ela sente a composição e a decomposição?

Claudio: Ela pega os efeitos.

Aqui já apareceu um elemento da ignorância dela. Ela não tem capacidade para entender os movimentos da natureza. Ela não consegue entender. Não conseguindo entender, o processo dela é sentir.

Aluno: A decomposição tem a ver com perda, não é?

Claudio: Isso não tem muita importância, não, porque o importante aqui é o estado da consciência em termos de sentimento.

O que nós chamamos de consciência é que todos nós temos a capacidade de sentir um determinado estado em que a gente está. De repente, você está aqui e uma tristeza te toma, daqui a pouco uma alegria te toma, dali a pouco uma raiva, depois um ódio, dali a pouco um amor. A consciência vai passando de sentimento para sentimento. Então ela não consegue entender a natureza de maneira nenhuma, porque todo o procedimento dela é sentir.

A consciência sente, ela é o ser do sentimento. Então, envolvida em sentimento durante toda a sua existência, – toda a sua existência envolvida em sentimento -, a consciência (prestem atenção ao que eu vou dizer agora porque é o enunciado principal!) a consciência não entende a natureza, ela não pode entender a natureza. (Prestem bem atenção!) Ela não pode entender a natureza! ! Então, ela, a consciência, estaria fora do campo do entendimento.

A consciência está fora do campo do entendimento. E aquilo que está fora do campo do entendimento entra no campo da obediência. A consciência não nasceu para entender. Ela nasceu para obedecer ou desobedecer.

Não tendo como entender a natureza, a consciência acha que ela lhe dá ordens: que a natureza envia ordens para ela, a consciência. E ela responde a essas ordens obedecendo ou desobedecendo.

Quando ela obedece, espera de imediato uma recompensa. Quando desobedece, ela espera uma punição. Então a nossa consciência, obedecendo ou desobedecendo, vive infernizada pela culpa. A culpa a percorre o tempo inteiro. Ela se sente culpada. A culpa que a percorre está na própria incapacidade que ela tem de entender a natureza. Não entendendo a natureza, ela se sabe mutilada Ela é inteiramente mutilada! E em função disso emerge a culpa, que jamais poderá abandoná-la. Então, quando se diz “consciência culpada”, isso é uma afirmação essencial. Toda e qualquer consciência é necessariamente culpada.

Aluno: Como é que ela desobedece à natureza?

Claudio: Ela desobedece… Vou dar um exemplo. Um exemplo famoso em Espinosa.

Espinosa chama de Deus a própria natureza. Natureza para Espinosa é sinônimo de Deus. Então Espinosa diz:

Um dia Deus chegou para Adão – e Adão é um homem da consciência – e disse: “Adão, não coma este fruto!” Adão, quando ouviu aquilo, reagiu a esta afirmação de Deus – qual foi? – “não coma deste fruto”. Adão tomou aquilo como uma ordem: “Deus está me dando uma ordem!” – foi assim que ele entendeu, porque a consciência não entende o que é dito. Tudo o que é dito a consciência toma como uma ordem. Então, Adão recebeu essa ordem de Deus – assim que ele pensou que fosse! – e o que é que ele fez? Ele desobedeceu, isto é: ele comeu [o fruto]!

Quando ele come o fruto, ou seja, na hora em que ele desobedece a ordem de Deus, o corpo de Adão vai sofrer as consequências: ele vai sentir dor! Na hora em que sente dor, Adão pensa que Deus está se vingando dele: que Deus o está castigando, porque ele desobedeceu.

Na verdade, Deus não estava dando uma ordem. Deus estava dizendo: “Olha, meu filho, se você comer esse fruto, quando as partes do corpo desse fruto entrarem em contato com as partes do seu corpo, vai haver uma decomposição. Então, não coma esse fruto, porque você vai ficar envenenado!”. Deus estava dando a ele entendimento.

Mas Adão, regido pela consciência, não pode entender: ele só pode obedecer ou desobedecer. Porque a consciência jamais é capaz de entender!

É nesse momento que Espinosa vai dizer provavelmente um dos enunciados mais violentos da história do homem. Ele vai dizer que o homem, governado pela consciência, é – por essência, por natureza – infeliz.

E ele diz: todos os homens, quando lhes é perguntado qual o momento mais feliz da existência deles, todo homem responde a mesma coisa – “a minha infância”. Todo homem pensa, acha, que a sua infância foi seu momento mais feliz.

Diz Espinosa: ao contrário, a infância é o momento mais infeliz de qualquer homem porque, na infância, o que governa uma criança é a consciência – que só faz uma coisa: obedecer e desobedecer. Espinosa, então, diz que a infância é o momento mais triste da vida, porque [nessa etapa da vida] nós não temos capacidade de entender nada! Toda a nossa vida, na infância, se passa como uma relação de comando sobre nós – que nós obedecemos ou desobedecemos.

A partir daí Espinosa vai considerar a humanidade adâmica, ele vai identificar o homem – todos os homens – a Adão. Ou seja: ele chama “Adão, o ignorante e angustiado”; “o homem, o ignorante e angustiado”. Então, para Espinosa, o fator da perturbação que o homem tem desde que nasce até que morre é a consciência.

Aluno: E quando a criança desobedece?

Claudio: Quando ela desobedece, ela é punida: é assim que ela acha, porque a consciência não entende que a natureza é regida por leis; ela pensa que a natureza dá ordens. Então, ela obedece. E aí, quando ela obedece, [ela acredita que] a natureza dá um premio para ela; e [quando] desobedece, que a natureza a castiga. A consciência é escrava por essência.

O homem da consciência é um homem escravo. Ele é escravo do medo, da angústia, da mutilação, da impossibilidade de conhecer, das incertezas. Espinosa aponta para essas questões, mas a prática que ele está exercendo não é absolutamente original, porque muitos filósofos também viram que há um motivo para o sofrimento do homem. O motivo é a consciência, com sua incapacidade absoluta de sair do sentimento e de entender qualquer coisa: ela não entende!

Não entendendo, vivendo em torno dos sentimentos, ela se embrulha nas suas mutilações e nas suas angústias… e sofre pela passagem do tempo e com todos os efeitos que recolhe das relações causais da natureza.

Essa é a maior denúncia que já houve na história do pensamento, jamais, antes, houve uma denúncia desse tipo. Espinosa denuncia que a causa da infelicidade e da ignorância do homem é a consciência. Então, o homem é um ser “necessariamente ignorante e infeliz” – diz ele. E isso nos coloca numa posição difícil!

Aluno: “Sem saída?”.

Claudio: Aparentemente. Mas ele vai utilizar o Livro V – que eu estou começando [a apresentar] nesse curso para vocês! – ele vai utilizar o Livro V da Ética para mostrar a saída.

Começa a surgir, aqui, um confronto com a vida, que a consciência, por sua própria essência, rejeita: a consciência rejeita o confronto com a vida! E nós temos a impressão de que essa rejeição do confronto com a vida é [algo de] bom pra nós, mas não é… porque todas as práticas que a consciência faz, – que são práticas de mutilação -, forçosamente geram nela uma angústia.

Então dizer: se surgir um ser vivo em Sirius e me perguntar o que é o homem – eu responderei: é um ser angustiado, ignorante e infeliz! Eu faço essa enunciação com a maior tranquilidade.

(Já estou dando os elementos iniciais…)

A partir dessa noção – que ele vai [fazer] crescer – Espinosa vai apresentar a consciência de todas as maneiras, para o gosto de quem quiser – do cientista, do filósofo, do artista… Ele vai invadir, de maneira total, esse campo da consciência, para nos mostrar que a consciência é ignorante porque ela não pode entender nada; ela só pode sentir. E em seguida, vai dar início a uma famosa prática chamada a desvalorização da consciência.

Ele vai começar a desvalorizar tudo o que a consciência faz. E esse é um momento dramático para história da vida, porque o homem, desamparado, apostou na sua consciência – ele apostou que a consciência iria dar conta das suas questões. E Espinosa disse: “não tem jeito”!

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Aluno: Consciência não tem nada a ver com razão?

Claudio: A razão seria um elemento dela, seria um elemento da consciência. (Quer dizer, no decorrer das aulas eu darei essa resposta com mais precisão.)

Quando se chega a uma posição dessas, há um pessimismo, como se, então, se dissesse: o homem é a consciência, a consciência é angustiada e infeliz… então… não há saída! Espinosa diz que a consciência produz as paixões tristes e isso se distribui para toda a humanidade. Onde [quer que] você encontre o homem você encontra as paixões tristes. O homem, envolvido na tristeza das suas paixões… como se não pudesse ter outro caminho para ele!

Nesse momento… (eu estou fazendo aqui um apressamento, para vocês começarem a entender todo esse arauto da beleza que é Espinosa.) Nesse momento ele diz que o espírito e a consciência não são a mesma coisa. A consciência é como se fosse uma ponta do iceberg. Há, no espírito, uma parte muito mais ampla que Espinosa chama de inconsciente.

Prestem atenção que esse momento é um dos momentos mais ricos do espírito, porque ele não identificou o espírito à consciência. A consciência é apenas um ponto do espírito. Ele diz que existe no espírito uma parte mais poderosa que se chama inconsciente ou pensamento.

Pela primeira vez na história do saber um filósofo faz essa denúncia da consciência e uma denúncia, que eu ainda não fiz integralmente pra vocês, que é uma denúncia sem saída – a consciência não tem saída! Mas ele mostra que o espírito não se resume à consciência. Que há alguma coisa a mais no espírito, que ele chama de pensamento.

Aluno: Ou inconsciente!?

Claudio: Ou inconsciente!

Muita gente pensará: ele está antecipando Freud? Não. Não, porque o inconsciente do Freud é a própria consciência. Isto aqui é muito importante de se entender: a diferença do inconsciente do Espinosa e do inconsciente do Freud. O inconsciente do Freud é um prolongamento da consciência e o inconsciente do Espinosa é uma parte separada da consciência. Então você vai encontrar no espírito humano uma força chamada inconsciente ou pensamento, que não é ignorante e não está governada pelos sentimentos.

Então, essa foi uma apresentação inicial (não é?) do que é o Espinosa, porque nós nos aproximamos cada vez mais de um mundo em que a grande revolução, a grande batalha, será do espírito. O Che Guevara do futuro é o próprio espírito! Ou seja: o esforço enorme da vida para abandonar os domínios da consciência.

Eu vou contar um caso pra vocês e só vou contar esse caso para que as pessoas não fiquem confundindo que o homem – louro, de olhos azuis, adulto – do ocidente não é melhor do que ninguém. Isso é uma ilusão… [fim de fita]

LADO B

Antonin Artaud foi ao México procurar uma tribo chamada Tarahumara (soletra). (Olhem que coisa que vocês vão ouvir!) Esses primitivos, chamados Tarahumaras, tinham uma prática, em seu cotidiano, de tomar uma beberagem chamada peyote. O peyote é uma droga psicodélica. Ela produz uma… alteração qualquer.

Aí Artaud se informou: – Por que vocês bebem peyote todos os dias? (E agora vem uma coisa pra gente ficar de joelhos!)

Os Tarahumaras responderam: – “é para impedir a dominação de ciguri”.

Aí Artaud perguntou: – “mas quem é ciguri?”

E eles responderam: – “a consciência”.

É Magnífico! A lição das mais brilhantes que eu já ouvi em toda a minha vida! Ela está nos dizendo que, em todos os instantes da nossa vida, nós corremos o risco de sermos tomados pela maldita – pela consciência! Quando ela nos domina, ela empurra desespero e angústia no nosso coração.

Então… eu vou contar pra vocês um fato mais… mais erudito, porque não se trata mais de primitivos, mas de um escritor chamado Shakespeare. E, entre as obras dele, há uma chamada Ricardo III”.

Não sei se vocês conhecem o Ricardo III – ele é a pessoa mais deformada: é corcunda, tem pé chato, dedo virado, nariz bicudo, sei lá o quê… ele é horroroso! E, salvo equívoco, ele é o quinto na linhagem de herança do reinado da Santa Inglaterra, (não é?) Mas, antes de se tornar rei, tem cinco antes dele. O que é que ele faz? Mata os cinco! Dentre os cinco tem criancinhas, mulheres, homens bonitos, ele… mata tudo! E toma o poder.

Há um momento, na obra, em que ele se encontra com uma princesa chamada Anne, que é mulher de um daqueles que ele matou, e esse encontro é sublime! Porque ela… no olhar dela… ela descobre que homem magnífico é Ricardo III.

O último quadro da obra é Ricardo III num campo com seus soldados. Eles vão lutar com os outros soldados que vieram vingar os cinco mortos.

A luta vai se dar de manhã. Ele dorme, tranquilamente, para acordar de manhã bem disposto. Mas de noite ele sonha; e quem aparece no sonho? Os cinco mortos, dizendo: “Assassino! Monstro! Crápula! Lesa majestade!”.

Aí ele acorda de manhã, bate as mãos aqui [mostrando a testa] e diz: “Perdes tempo, ó consciência: eu não acredito em você!”.

Ou seja: ele não acreditou em nenhuma das acusações que o sonho fez a ele, porque ele sabia que aquelas acusações vinham da consciência. E a consciência é um órgão constituído para um componente só – a angústia. Quando não está angustiada, a consciência está angustiada porque está infeliz, por não estar angustiada. (Tá?)

Então, quando um homem não está angustiado… sai da frente porque ele se torna perigoso: ele precisa da angústia pra viver… porque é a consciência que precisa da angústia. A obra de Espinosa é para produzir um homem que não precise da consciência. (Ponto para tomar um café.)

(Agora, esse momento de explicação desta passagem do campo teórico, vai ser um pouco difícil. Mas, talvez, seja a mais bonita…)

Espinosa vai fazer uma afirmação: a consciência funciona por julgamento, a consciência… os atos dela… são de julgamento: ela julga. E essa prática… (isso tudo é novo, viu? Não se esgota nisso!)

Julgar – o que é julgar? (Atenção! Se vocês não entenderem, me perguntem!) Julgar é afirmar ou negar. Por exemplo: “V. é bonita” – isso é um julgamento e uma afirmação. “V. não é bonita” – isso é um julgamento, uma negação e uma idiotia! (Risos….) Então o julgamento… (marquem, para vocês saberem para o resto da vida!) Julgar é afirmar ou negar um predicado de um sujeito.

Então vamos lá, vou fazer um julgamento:

“M. é dançarina” – isso é um julgamento. Dançarina é o predicado que eu afirmei do sujeito M. (Compreendeu, ML?) Então julgar é afirmar ou negar alguma coisa. E a consciência…

Aluno: é de novo obedecer…

Claudio: (É… vamos por aqui pra você entender bem, tá?) A consciência julga, por exemplo, ela julga que V. é bonita. Mas ela não sabe que todo julgamento que ela faz… o fundamento do julgamento… é a tendência da natureza. A minha natureza tende pra V., a minha consciência vai e diz: “V. é bonita”. A consciência é sempre secundária; primárias são as tendências.

É a tendência que nos leva para tudo o que nós fazemos. Mas tudo aquilo para o qual nós tendemos, a consciência julga como se fosse bom. E pensa que é o julgamento dela que nos conduz àquilo. Jamais! O que nos conduz às coisas é a tendência da natureza. A minha tendência, por exemplo, é V. A minha consciência vai e diz: “V é bonita”… e pensa que é ela que está determinando as minhas atividades… Mas ela não tem poder para isso! A consciência recolhe efeitos. A tendência é da tua natureza. A tua natureza tem tendência e a consciência julga! A consciência…

Aluno:…e as emoções básicas?

Claudio: Como, emoções básicas… por exemplo…?

Aluno:…alegria, tristeza…

Claudio: Você não ouviu que o que eu disse, que o que você está chamando de emoções básicas… são os sentimentos que a consciência recolhe em função das composições e decomposições? Eu disse que a consciência tem sentimentos; e os sentimentos se originam nas composições e decomposições. Isso é que são as emoções básicas! Você sente alegria – quando você sente alegria… é porque o seu corpo se compôs com alguma coisa: aí você sente alegria. O que você está chamando de emoções básicas são efeitos de composição e decomposição… que aparecem na consciência em forma de sentimento.

Aluno: E as tendências estão aonde?

Claudio: As tendências são da natureza. A tendência é do inconsciente. A tendência é do inconsciente!

Aluno: É da natureza ou é…

Claudio: O inconsciente é a natureza! Eu não disse que o espírito tem um pontinho – a consciência; e um nó – chamado inconsciente? O inconsciente do espírito é a tendência!

Aluno: É ela que orienta a nossa vida?

Claudio: A tendência, claro!… É claro, mas o perigo que nós sofremos é essa presunção da consciência. Ela acha que é ela que faz tudo! Então Espinosa vai dizer um enunciado aqui… lindíssimo! Ele diz assim: “Nós não tendemos em direção a uma coisa porque a julgamos boa, mas ao contrário, nós julgamos que ela é boa porque nós tendemos para ela”.

Aluno: A tendência é igual ao inconsciente e o inconsciente é igual à natureza?

Claudio: É exatamente isso!

A tendência é a natureza. Então nós temos uma natureza! A nossa natureza é a nossa tendência. O que o homem não entende é que existem nele tendências que constroem o bom e o mau. A tendência é que constrói o bom e o mau. Não existe nada na natureza que seja bom ou que seja mau. Só é bom e só é mau aquilo que a tendência quer.

Aluno: A tendência é nossa?!

Claudio: É da natureza… do espírito!

Aluno: Do espírito, não da natureza!

Claudio: A natureza e o espírito… é a mesma coisa! Você não falou em animismo? Isso é animismo: a natureza e o espírito são a mesma coisa.

Aluno: Eu falei animismo da natureza… eu pensei que a pedra era natureza, o…

Claudio: Tudo tem tendência. A pedra, por exemplo, tem uma tendência. Qual é a tendência [da pedra]? Submeter-se à gravidade. Tudo tem tendência! Tudo que existe na natureza…

Aluno: E o inconsciente também é…

Claudio: É uma tendência, é a natureza.

Aluno: Só a consciência não é tendência?! É a única parte…

Claudio: Que não é natureza: é um efeito.

Aluno: Capta pelo sentimento.

Claudio: Capta pelo sentimento; pelo sentimento ela capta a natureza. Então, captando a natureza pelo sentimento… ela não entende nada!

Aluno: Ela poderia estreitar o campo das tendências?

Claudio: Estreitar como, diminuir?

Aluno: É… diminuir, comprimir…

Claudio: É, ela tenta fazer isso. O problema da consciência… Eu queria que, nessa aula, vocês mantivessem a compreensão da consciência em termos de ciguri. Lembram-se do ciguri que eu falei? Ciguri ou cigurí, que é o negócio do peyote… Mantenham por aí. A consciência é uma ameaça permanente à vida. Ela ameaça! Então, aqui que temos que partir da ideia espinosista de que nós temos uma natureza e essa natureza é uma tendência. Essa tendência vai fazer… com que seja bom tudo aquilo para o qual nós tendemos. A natureza… não existe o bem e o mal na natureza! A natureza só tem tendências. Então, tudo aquilo para o qual a sua natureza tende você considera bom. Não está entendendo bem, não, N.?

Aluno: Não, aí…

Claudio: A sua natureza… ela tende para alguma coisa. Por exemplo, a sua natureza tende para achar belo o cair da tarde.

Aluno:… Tende para a vida! Ela tende pra vida!

Claudio: Ah! A natureza é vida. Ela é uma tendência! O nosso ser é uma tendência! Então, o nosso equívoco é pensar que nós somos dirigidos pelos julgamentos da consciência… Jamais!! A consciência não tem esse poder! Porque ela julga em função da tendência. Ela diz assim “V. é bonita” porque eu tendo pra V. Jamais na natureza existiria alguma coisa em si mesma bonita ou feia. É a tendência que vai estabelecer isso.

Aluno: Pois é, essa tendência, o que é, hein?

Claudio: Essa tendência começou a aparecer como alguma coisa que seria a força que nos dirige, que dirige a vida. Então, por exemplo, se você tem determinadas tendências na sua vida, que é se compor com alguma coisa, você se compõe com alguma coisa e ao compor-se com aquela coisa você sente alegria, aquilo é tendência! Está difícil a noção de tendência?

(…vozes indistintas…)

A vida… (prestem atenção!) A vida… se você pergunta assim a um gênio: – Gênio, o que é a vida? Ele responde: – A vida são tendências, a vida se explica por tendências. Isso que é a vida!

Aluno: O que quer dizer tendência?

Claudio: Tender para alguma coisa… A vida, ela se dá… tendendo para alguma coisa. A vida não é um ser que se enclausura. Ela tende para. (Entenderam?) É como um elástico, ela tende! Ela cria…

Aluno: Mas todas as pessoas tendem cada uma para alguma coisa, não é isso?

Claudio: Não, de modo nenhum. Se você for por essa linha, você não vai entender! Nós temos que partir de uma ideia muito simples. Vida – definição: tender para. Isso é vida! A vida é isso, a vida é uma tendência. Então, você nunca vai encontrar um vivo que não tenha tendência. Ele tende. A natureza é tendência!

Agora, essa tendência avalia tudo o que está na frente dela. Porque tudo para o qual a sua tendência tende, é belo e bom. É belo e bom a tua tendência. Então, é aqui que começa a surgir o grande momento desse curso, não dessa aula, que é a diferença da natureza, que é tendência; e da consciência, que é julgamento. A consciência passa a existência dela julgando. E a vida passa a existência dela tendendo.

(Nós vamos fazer um esforço!)

Eu vou dizer que julgar é fazer uma prática chamada moral. O julgamento é sempre moral e a tendência (aqui é lindo, heim?) a tendência é sempre ética!

Então, a grande diferença entre ética e moral apareceria exatamente entre tendência e julgamento. A alma moral é uma alma governada pela consciência, dominada pela consciência; e ela julga tudo! Tudo o que cai nas malhas dela, ela julga. E, o inconsciente (ou a natureza) não julga nada. Ela [a natureza] tende. Então, ética quer dizer: composição de corpos ou, numa linguagem bem explícita: modo de vida. Ética é modo de vida. Moral é julgamento da consciência. O Nietzsche é lindo! Ele entendeu Espinosa! E disse: “Diga-me como você vive e eu direi o que você pensa”. Ou seja: você não pode produzir determinados tipos de pensamento com determinados modos de vida.

Então, o modo de vida é a tendência. E a tendência é o plano ético da vida. A consciência… ela é julgamento, e o julgamento é moral. Então, nós temos que distinguir o que é moral e o que é ética. A moral é o produto da consciência. A moral é um produto da angústia, um produto do… da mutilação, a moral é um produto do sofrimento. E a ética é um produto das tendências. Então, o homem é ético quando ele avalia as suas composições e as suas decomposições. A ética é o modo de vida.

Aluno: O que é avaliar composições?

Claudio: Avaliar as composições e as decomposições. Por exemplo, é muito famoso, na história da filosofia, uma aposta que Pascal fez. Pascal apostou que Deus existia.

Pascal disse assim: “Eu aposto que Deus existe!”. E Espinosa acrescenta ao que Pascal falou: “Existem modos de vida que podem afirmar a existência de Deus… e outros não”.

(Prestem atenção ao que eu estou dizendo:)

É o modo de vida que constrói a tua vida. Tua vida é produto da tua tendência. É produto das tuas composições. Se você…

(Eu vou me dirigir um pouquinho para a M. porque ela vai entender uma pergunta que eu fiz a ela:) Se você fez determinadas composições na tua vida e de repente você desfaz aquelas composições e faz outras composições, cabe perguntar por quê. Entendeu? Por que; o que houve nessa composição; o que, nessa composição, estava te envenenando? Porque uma composição, quando ela aumenta a nossa potência, nós jogamos toda a força do nosso pensamento pra que aquela composição não termine jamais.

Isso daí explica a música minimalista. A música minimalista do (não sei se vocês conhecem) Steve Reich, do Philip Glass, que fazem aquelas músicas da repetição. Repete-se, para não acabar nunca! Porque é a repetição das composições que aumenta a sua potência. (Entendeu o que eu disse?)

Então aqui aparece o momento superior da vida. Não é quando você julga, da maneira que a consciência faz. É quando você avalia… Atenção! Aí você entende bem: quando você avalia os seus encontros. Saber entender os encontros que aumentam a sua potência e os encontros que diminuem a sua potência. Todo encontro que é governado pela consciência diminui a nossa potência.

Aluno: Esse é o homem ético. Agora, o homem moral como é que ele age?

Claudio: O homem moral julga tudo! Tudo o que cai na mão dele…

Aluno: Ele julga a si mesmo?

Claudio: Ele julga a si próprio! Ele… se considera… Eu vou responder pelo Nietzsche:

Nietzsche diz que o homem da consciência se divide em dois. Se divide em: “A culpa é tua” e “A culpa é minha”. Que o homem da consciência começa a vida acusando os outros, dizendo (arremeda a voz):

“Eu sou feio porque papai e mamãe são feios”; “Eu sou pobre porque papai e mamãe são pobres”; “Eu sou burro porque o titio não me ensinou”; “Eu tenho esse pé feio porque o meu irmão pisou no meu pé”. Então, tem sempre um culpado pra tudo o que lhe acontece. Vocês conhecem essa gente? Os chamados queixosos? Mas… tem um outro, que diz assim: “A culpa é minha!”.

Eu vou contar uma história pra vocês… para vocês saberem quem inventou essa ideia de culpa é minha. Vocês conhecem o Eça de Queiroz?

Há uma personagem na obra de Eça de Queiroz chamado Raposão. Raposão era sobrinho de uma mulher podre de rica e o Raposão só pensava numa coisa: herdar aquela grana. Mas a tia dele era carola, carolona daquelas brabas. E ela tinha um altar dentro de casa. Depois do altar dela estava o quarto da empregada. E Raposão não aguentava mais de vontade de comer a empregada! (risos…)

Então, toda noite Raposão ia deslizando, ia deslizando… passava em frente ao altar da tia, entrava no quarto da empregada, trepava com ela e voltava… deslizando pelo chão. Mas o Raposão já ia nu, ele ia nu, deslizando, pra chegar ao quarto da empregada. Um dia ele vai deslizando nu e a tia vê. Na hora que a tia vê ele começa a bater no peito: “Mea culpa, mea culpa, mea culpa” (Risos…)

(Entenderam?)

Basta que você projete uma culpa para você mesmo, que a consciência te perdoa. Imediatamente ela te perdoa. Ah, você se sente culpado, então é bom. A consciência só sabe viver dessas duas maneiras: dizendo que os outros são culpados ou dizendo-se ela mesma culpada.

E agora aparece um momento magnífico! O momento do “a culpa é minha” – é o nascimento de Édipo.

O famoso Édipo da psicanálise aparece por volta do final do século XVIII, com o surgimento do homem dizendo “a culpa é minha”. Na hora em que o homem passa a dizer que a culpa é dele, sai da frente que o mundo virou um horror!

Não sei se vocês leram uma entrevista que fizeram com Anthony Quinn… Assustadora…! Ele está com oitenta e poucos anos, dizendo que ele se sente culpado de tudo! Assustador! O Anthony Quinn é governado pela consciência… e eu jamais suporia isso dele, depois que eu vi Zorba!

Aluno: Ele parecia o oposto disso!…

(Falas…)

Claudio: Inteiramente dominado pela consciência; inteiramente dominado!

Aluno: Se julga culpado e se vinga!

Claudio: Se sente culpado e se vinga o tempo todo: o culpado se vinga!

Bom, nós chegamos aos dois elementos principais:

Essa expressão mea culpa. .. – é muito importante se compreender isso. Porque surgiram dois conceitos [nessa aula], que eu não expliquei inteiramente: um, se chama julgamento – que é o exercício da consciência. A consciência julga o tempo inteiro; ela julga tudo!

Notem… (eu não posso dizer quem, heim?). Mas notem o olhar da consciência. (risos). Ela não para. Porque ela está julgando tudo. Está jogando a imundície dela em cima das coisas. Ela é imunda; imunda! E ela vai… apodrecendo tudo que passa!

Espinosa diz: “Tome cuidado. .. com os encontros que você faz!”.

E eu falo com uma seriedade muito grande:

A nossa vida se explica pelos encontros que nós fazemos. Se nós não soubermos compreender que um encontro é aumento ou diminuição de potência, isso pode nos levar à morte. Tá? Então, aqui nós vamos ter um confronto, lindíssimo, entre o julgamento e a tendência. A tendência é aquilo que leva um homem a fazer [por exemplo], “uma cidade em Teresópolis”. Ou seja, a tendência é o que faz com que um homem faça da vida dele coisas… tão difíceis de se compreender… como pintar girassóis!… [referência a Van Gogh]

Não sei se vocês entenderam a violência que isso é. Quer dizer, um homem recebe a vida, toma peyote e não deixa ciguri tomar conta dele (é lindo isso!) – tomar peyote para ciguri não tomar conta de mim! Ou seja: ele luta até o ultimo instante da vida dele – vou concluir por aqui – pra conseguir a liberdade! Espinosa diz que nenhum homem jamais conseguirá atingir a liberdade – porque a liberdade não é uma coisa que se conquiste! A liberdade é um exercício permanente na sua vida; e esse exercício é contra a consciência.

Aluno: Você não ia falar do Édipo?

Claudio: O Édipo… (eu ia falar do Édipo?) Porque o Édipo é igual: a culpa é minha. O Édipo é a introjeção da culpa. É o seguinte: o homem, ele recebia uma punição na hora que ele praticava uma ação.

Por exemplo: eu dava um cascudo em alguém (diz o nome de um estudante de filosofia). Aí a estrutura da filosofia [diz rindo]… “Seu canalha, você vai preso!”.

Quer dizer, o homem era julgado e castigado por suas ações!

Mas o Ocidente, a prática de poder do Ocidente, deu um golpe extraordinário (e, inclusive, produziu uma economia de “grana” – na verdade, a razão foi pra economizar dinheiro!): inventaram o superego. O superego é um policial que está dentro de nós. Ele não julga as nossas ações; sabe o que ele julga? As nossas intenções! E como as nossas intenções são sempre… – vocês conhecem! -, nós somos o tempo inteiro… culpados. (Entenderam?)

O superego nos destrói: ele fica dentro da gente nos acusando de tudo! Então, nisso daí, Nietzsche foi o primeiro filósofo que viu isso. O que fizeram com a vida, disse Espinosa! Botaram o superego…

Aluno: O superego foi invenção do Freud?

Claudio: Não. O Freud não tem poder para inventar… O que a Psicanálise fez foi se tornar solidária com aquelas forças que produziram o superego. Essas forças que produziram o superego são forças históricas e sociais. Jamais a psicanálise teria poder para produzir o superego!

Aluno: O Freud que deu o sentido terapêutico?

Claudio: O Freud não, o Freud não deu o sentido terapêutico, não. Ele se associou a essas forças reacionárias que jogaram o superego pra cima da gente… ele se associou pra mantê-las.

(vozes…) (Comentário inaudível) Coitado!!!

Claudio: Você tem pena dele?

[indignado!] Eu não tenho nenhuma, porque ele me fez muito mal com isso. Eu não tenho pena de nada que me fez mal. Eu não gosto de maus encontros…

Eu não tenho dúvida nenhuma, N, que na hora em você faz uma denúncia desse tipo que Espinosa está fazendo, o que aconteceu com Espinosa?! Deram uma facada nele; ele teve que fugir de Amsterdã; ele teve que não publicar os livros dele em vida! Que indignidade! Um gênio como Espinosa teve que esconder as obras dele…

Aluno: Por quê?

Claudio: Porque, se não, o matariam! (Vozes…) Por que o matariam? (Não… Vozes…)

Aluno: Por que essa reação contra ele?

Claudio: Porque ele está dizendo que a consciência é criminosa! Ele está acusando a consciência!

N, deixa eu explicar uma coisa que talvez vocês não saibam… O homem tem uma consciência. A consciência dele – foi o que acabei de explicar pra vocês – ela julga. O homem inventou um Deus. E você sabe qual é o modelo de Deus? A consciência! O Deus cristão é a consciência! Ele se vinga, ele acusa, ele tem vontade, ele tem intelecto… Então foi exatamente [por] aí que o Espinosa foi perseguido! Porque se diz, ah, Espinosa não tinha um Deus? Ele tinha um Deus! Ele usava a seguinte expressão: “Deus sive natura” – Deus ou Natureza. Deus não pode ser uma pessoa, porque as pessoas são… a consciência.

Então, um filósofo que tem a coragem de dizer que essa constituição de um Deus-pessoa é contra a vida, é um homem maravilhoso! Ainda que ele esteja equivocado, ele é um homem maravilhoso! Porque todos os enunciados dele são a favor da vida.

Então, tudo aquilo que vem fortalecer a vida eu me abraço apaixonadamente e tudo que é contra, eu… denuncio. Não quero saber! Tudo que a humanidade pôde fazer de violência comigo, basta vocês olharem pro meu rosto! Então, pouco me importa o que o psicanalista vai achar ou não vai achar… Eu apenas afirmo, textualmente, que a existência da psicanálise não chega a 10 anos mais. Não aguenta mais. Os homens não suportam mais serem condenados a ser, até a morte, edipianos.

Aluno: Pois devia existir uma psicanálise que transformasse o homem de moral em ético!

Claudio: Por que não fizeram isso?

Aluno: Por ignorância?!

Claudio: Eles tiveram o século XX – ele e os marxistas – tiveram o século XX inteiro pra resolver essas coisas. E o que eles fizeram? Stalin matou 50 milhões. Quantos Freud matou?

Aluno: Não sei quantos…

Claudio: E vai embora… Eles tiveram o século todo e não fizeram nada! Agora vou fazer o quê? Vou bater palmas pra eles? Não! Acabou! Acabou o tempo deles. Agora vamos inventar outras coisas. Então, isso que é Espinosa!

E o Artaud, sofreu tudo aquilo por quê? Heim? O Artaud, o sofrimento de Artaud não tem nada a ver com isso não, viu? Essas ilusões que pensam que o Artaud foi sacrificado por psiquiatra é mentira. Nada disso!

O sofrimento do Artaud é muito parecido com o dos tarahumaras. Ele queria liberar o inconsciente do domínio da consciência. O Artaud é um mártir! O Artaud é um mártir! Então esse desejo de liberar a vida das forças da consciência é que produziram aquele grande sofrimento dele. Mas isso não esgota o Artaud, viu?

O Artaud é um homem que, na verdade, criou uma nova imagem do pensamento. Pra explicar isso seria toda uma longuíssima aula… Ele é espinosista. Um espinosista!

Aluno: Qual linha do Espinosa?

Claudio: A linha de Espinosa é ateísta, materialista, liberdade, Deus igual a natureza…

Aluno: Tudo que é bom! Quais são os filósofos que vieram…?…

Claudio: Fundamentalmente são os pós-kantianos. São espinosistas. Alguns desses pós-kantianos, entre eles, por exemplo, Fichte foi notável. Entende? Porque, a obra de Espinosa, ela explodiu na Alemanha do século XIX. Então, no século XIX a Alemanha se torna maravilhosa, porque o pensamento de Espinosa começou a penetrar. Mas, [por outro lado], o pensamento de Kant começou a segurar. Porque o Kant, até um certo momento da obra (eu estou falando muito filosoficamente agora, viu?)… até o próprio Kant se julgava espinosista. Para você ter uma ideia, Hegel se julgava espinosista! Mas Hegel chega a doer, não é? É demais! Porque esses homens não conseguiram – e agora eu vou dizer a palavra final – é muito difícil se libertar da consciência: é muito difícil! Geralmente essa luta é uma luta em que… não se consegue uma vitória! A consciência é mesquinha demais! Porque ela é muito mesquinha, ela não para de aprisionar o que há de mais belo na vida. Ela não para de fazer esse aprisionamento.

Então, onde é que a gente vê essa beleza da vida passar? Onde você vê a beleza da vida passar? É sempre no mesmo lugar: nas artes! A beleza está sempre passando nas artes. Então, eu estou dizendo pra vocês que a beleza é como um pássaro de voo, sem planejamento. Se você puder seguir com seus olhos o voo desse pássaro, duas coisas vão acontecer: a primeira é que você vai ficar zarolho, porque o pássaro não tem um planejamento. Ele é como a vida, ele não tem planejamento, ele tem tendências. Mas é a beleza, a saída da vida. A vida sai do seu engasgamento pela beleza.

Eu acho que eu vou mostrar isso pra vocês na inauguração que estou fazendo do curso de Espinosa. Porque… Tudo porque eu vi a necessidade de dar Espinosa pra vocês. O que vocês vão fazer com ele, não é minha questão? O Deleuze tem uma frase lindíssima – Deleuze é meu Espinosa, não é? Deleuze é tudo, é… nos cursos de Deleuze na França apareciam muitos músicos. E dificilmente um músico vai entender um conceito filosófico. E se eu fosse dar um Espinosa filosófico pra vocês, apareceriam aqueles conceitos muito violentos – substância, modo, atributos, essência, existência… E Deleuze é um filosofo, ele é radical, ele não quer saber quem está ouvindo. Ele dá a filosofia dele. E esses músicos que iam assistir a aula do Deleuze, assistir Deleuze falando em Espinosa, eles não conseguiam entender aqueles conceitos espinosistas. Mas quando saiam da aula, faziam músicas espinosistas! Isso é muito curioso.

O que eu estou dizendo… é mais ou menos… é o maior espinosista da história! Chama-se David Herbert Lawrence – D.H. Lawrence – altamente espinosista! Toda a questão desses pensadores é uma exaltação da vida. Exaltar a vida!… Vocês notem que a vida… Há um texto… eu vou ler, está aqui:

Chama-se Yves Bonnefoy. Ele diz assim: “Eu dedico esse livro ao improvável – isto é, à vida”.

A vida, ela é inteiramente improvável. Porque ela é frágil. É frágil e constituída por tendências. Então ela… ela entra na matéria, a matéria pesada, quebradiça, e a vida vai-se bifurcando. Isso que é a vida! E nós, somos produtos dela. Pra sermos os guardiões dela, da vida. Ser o guardião da vida! O homem começou a aprender que ele tem que se esquecer do Estado e da Igreja e se ajoelhar para a única coisa bela que existe, que é a vida. Qualquer um sabe disso! Basta liberar suas tendências, que descobre que a vida… é de uma beleza!!!… Olhem!… Todo aquele que sentiu uma brisa tocar no seu cabelo… tem direito à eternidade. E quem nos dá isso é a vida. É o encanto da vida que deslumbra um pensador maravilhoso!

Então, por isso eu respondi em termos da psicanálise com essa radicalidade, entende? Porque a psicanálise, nesse século, a única coisa que ela apresentou foi Édipo e castração, eu não conheço nada mais: Édipo e castração! Édipo e castração! Édipo e castração! Eu não aguento mais! Porque eu trabalhei com isso muitos anos!… Até que cheguei a um ponto que não suportava mais. Era Édipo de um lado, castração de outro, luta de classes de outro, ato falho de outro… Eu já não aguentava mais! Eram aquele jargões te machucando o tempo todo… E você sabe que a gente, quando é tomado pelo espírito, pela aventura do espírito, bate mesmo, bate forte! Aquilo bateu forte na minha vida! Eu queria fazer um caminho bonito pra minha vida. E o marxismo e a psicanálise me seguravam…

Eu não estou acusando Marx! E de alguma maneira também não estou acusando Freud! Eles tentaram alguma coisa… Mas depois, Freud fez um recuo – um recuo muito grande! -, ele não aguentou tudo aquilo que ele disse, porque a gente não aguenta… É uma… é uma prática muito difícil pro homem… ser ateu. Porque a noção de ateísmo, e isso vai aparecer na nossa aula, viu?

O ateísmo do século XX – eu queria que vocês anotassem isso! – o ateísmo do século XX é um ateísmo vulgar. Jamais o ateísmo de Espinosa é isso. Não tem nada a ver com esse ateísmo banal que vocês encontram aí na rua, não tem nada a ver com isso, esse ateísmo do morreu e acabou. Jamais! O ateísmo de Espinosa… o ateísmo de Nietzsche é excepcional! Eles produzem temas, que eu não vou dizer em final de aula porque a violência é muito grande.

Provavelmente – provavelmente! – cada um de nós é eterno, ainda que sejamos ateus!

Eu vou dizer uma coisa pra vocês. Se, por acaso, a natureza for um processo de repetição e… esta cena que está se dando aqui já aconteceu infinitas vezes e vai acontecer infinitas vezes. Ou seja, que a nossa vida se repete infinitas vezes. O que nós teremos que fazer; sempre? Aquilo que for mais belo! Porque nós vamos [nos] repetir eternamente! Vejam se entenderam? Se você aplica em você a ideia de que sua vida vai se repetir, significa que tudo que você fizer vai se repetir infinitamente. Então, você procura fazer aquilo que for mais belo! Isso é uma ética do Nietzsche. Desde que você entenda que a sua vida pode se repetir pela eternidade afora…

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