Curso “O que é a filosofia?” – Aula 02

A filosofia pretende também uma relação direta com as coisas. Chocam-se aqui a inferência, como instrumento da ciência e a intuição como método da filosofia.


Um grande filósofo é aquele que cria novos conceitos: estes conceitos ao mesmo tempo ultrapassam as dualidades do pensamento ordinário, dando às coisas uma nova verdade, uma distribuição nova, um recorte extraordinário. O nome de Bergson permanece ligado às noções de durée, de memória, de élan vital, de intuição. Seu gênio e sua influência avaliam-se pela maneira como tais conceitos se impuseram, são utilizados, entraram e permanecem no mundo filosófico. Mas há uma diferença entre a filosofia e a ciência, caso contrário não se justificaria a existência da filosofia, desde que a ciência se tornou adulta e integrada em seus próprios propósitos. A diferença é a intuição, que leva a filosofia além de uma postura crítica como reflexão sobre a relação que a ciência tem com as coisas. A filosofia pretende também uma relação direta com as coisas. Chocam-se aqui a inferência, como instrumento da ciência e a intuição como método da filosofia. O método de Bergson visa a eliminar os falsos problemas. Compreendemos que estamos envolvidos com um modo de pensar que não reproduz a idéia de verdade na filosofia clássica. Não se trata de encontrar, mas de criar. O falso problema envolve o pensamento, do mesmo modo que em Espinosa a superstição envolve o pensamento. Fazem-se presentes as idéias de direito e de fato. Algo semelhante a um a priori e um a posteriori. É o mais explícito confronto que a obra de Deleuze faz com a representação e seu séquito, erro, recognição, senso comum e bom senso. Junto com negativos de direito, começa a aparecer o uso transcendente das faculdades como a disjunção das faculdades. As faculdades não dependem mais do senso comum: permitindo que surjam a intensidade, como ser do sensível; o imemorial, como ser em si do passado, por exemplo, a memória involuntária em Proust, que nada tem a ver com uma síntese passiva, mas sim com o uso transcendente e disjunto das faculdades; com uma diferença absoluta para Bergson em relação ao ser em si do passado, porque a memória involuntária altera a compreensão da arte em Proust, pois esta memória ontológica resgata o ser em si do passado e o revela como fato da vida e não como algo erguido pela arte, como o fará e o faz o pensamento involuntário, movido pela força do signo, que o força, ao pensamento, pensar. Uma nova imagem do pensamento se constitui: e com ela a profusão de conceitos criados por Deleuze: estamos no melhor dos mundos.

A obra de Deleuze tem dois começos, um, no eterno retorno do presente eterno dos estoicos; outro, no fundo do espírito ou na imaginação delirante de Hume. Não são gratuitas as escolhas dessas duas filosofias. Com Hume faz-se clara a diferença subjetiva como a aparição da generalidade. Com os estóicos, a ação e a paixão. O hábito é o resultado da contemplação contraente em Hume. A vida orgânica é o resultado do presente estóico. O bom senso está na Lógica do Sentido, mas também está na Diferença e Repetição. Opõe-se ao paradoxo em ambas. Nos estóicos o que surpreende são os acontecimentos. Em Hume são os princípios da Natureza humana sucedendo a interpenetração das imagens livres. O presente no tempo, passado e futuro relativos. Mas com Bergson, conforme acima foi feita uma espécie de avant-première, o passado se torna absoluto e em si, abrindo uma nova síntese do tempo. Mas neste texto o destaque é dado não só ao soberbo pensamento estóico, mas também a Hume, para a constituição da primeira síntese do tempo.

Que se diga que há uma ontologia em Hume, e se sim, e sim, logo emerge um tipo de entidade: a percepção que apreende as impressões e as idéias, que se prolongam umas nas outras, umas pelas outras. As idéias reproduzem as impressões, com uma variação quantitativa de força e vivacidade: a repetição física e a diferença no espírito. A anterioridade da impressão e a posterioridade da idéia é um absoluto e uma banalidade em Hume, como a distinção de vivacidade e força entre as duas. Mas em que lugar estão as impressões e as idéias? Evidentemente em lugares diversos; a possível causa da diferença de força. Mas a idéia de causa tem apenas um valor metafórico, para afirmar dos lugares diferentes em que se encontram as impressões e as idéias, nada causa as idéias, elas são reproduzidas na imaginação: “a produção da idéia pela imaginação é uma reprodução da impressão na imaginação”.

Com Kant, a explícita definição de faculdade: é que nela está um princípio de atividade. A faculdade é uma possibilidade de ação. A faculdade se concebe como oposta à receptividade. Em razão desta definição, que a faculdade designa um princípio de atividade, não se emprega este nome, –faculdade–, para a sensibilidade  –que seria pura receptividade. E sem maiores questões neste texto, receptividade e passividade não são a mesma coisa. Mas é através desta idéia de passividade que poderemos encontrar algo como a imaginação em Hume, que não é uma faculdade, nem uma receptividade –e sim passiva; sem forma e sem função, sequer um lugar ou uma potência aristotélica. “Continuamente, Hume afirma a identidade do espírito, da imaginação e da idéia”, e se o espírito, a imaginação, é idêntica à idéia no espírito, logo o espírito não é uma faculdade e muito menos uma receptividade, pois para haver uma receptividade deveria pré-existir um espírito, que na verdade é inventado pelo movimento sem constância e sem uniformidade das idéias. O espírito é um determinável e não um determinante, ainda que contemplante, pois a percepção e a impressão parecem comprimir-se constituindo o espírito, e deste, do espírito, saindo as sínteses passivas que dão origem ao hábito, e isto explica o enunciado: a repetição nada muda no objeto que se repete, mas muda alguma coisa no espírito que a contempla (a repetição). Algo como a passagem do estado de coisas para o acontecimento –alguma coisa que não é físico nem psicológico, ou lógico como diziam os medievais a quem Deleuze está tão ligado. Algo como a passagem de um designado para um sentido; de Vênus para Estrela da Manhã e para Estrela da Tarde. É preciso estar claro que espírito e sujeito não são a mesma coisa: que o primeiro é a força do tempo puro e que o segundo, o sujeito, constitui-se pelos princípios da Natureza Humana, um resultado da criatividade e da produtividade da Natura Naturante. “O tempo é subjetivo, mas é a subjetividade de um sujeito passivo”. Toda obra de Alain Robbe-Grillet é atingir aquém da síntese ativa, conforme o uso comum das faculdades, o domínio das sínteses passivas –e por causa disto, seu trabalho, teórico, na literatura ou no cinema, conjuga-se convenientemente com a obra de Deleuze. Como exemplo “DJINN –uma mancha vermelha no pavimento estragado”, que servirá como exemplo de um texto que abandona o tempo linear e ideológico, para mergulhar nos múltiplos e ilimitados corredores de um labirinto sem começo nem fim, o próprio tempo, em sua expressão, força e forma puras. E este texto é uma mostra da ressonância que fazem a filosofia e a arte, que com a ciência, forçam o pensamento a produzir conceitos, afetos e proposições.

Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 2 de 5

 


*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

Curso “O que é a filosofia?” – Aula 03

 

O tempo fora do vivido psicológico e das relações físicas dos corpos é o próprio paradoxo,
a paixão do pensamento.

—–

“é a possibilidade de tratar o mundo, a vida, ou simplesmente uma vida, um episódio como único e mesmo acontecimento, que funda a implicação dos presentes. Um acidente vai acontecer, acontece, aconteceu; de modo que, devendo ocorrer, ele não ocorreu, já ocorreu, está ocorrendo”

 


 

A mônada é um espelho do universo; como um espelho, que ao ser apontado para um objeto, o reflete e o reproduz. Mais do que isso, ou diferente disso: a mônada, finita, aquela que tem limites, contém dentro de si o infinito do mundo inteiro. Ela não é um sujeito que tem à sua frente objetos, o mundo está contido nela, e ela o expressa –o mundo não existe fora das mônadas. Aprendemos que o pensador das mônadas não prolonga a razão clássica, ao contrário, a atravessa, como uma imagem diferente, como uma nova imagem do pensamento. A idéia de finitude da mônada e da infinitude do mundo, mundo incluído na mônada, concebe um fundo para a mônada, fundo sombrio. Cada mônada traz consigo o infinito do mundo inteiro e apenas uma pequena parte lhe é clara –são os relevantes, os clarões, “Na maior parte dos casos, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas: a alma do carrapato tem três percepções claras, apercepção da luz, apercepção olfativa da presa e a apercepção táctil do melhor lugar, e todo o resto na imensa Natureza, que o carrapato todavia expressa, não passa de aturdimento, poeira de pequenas percepções obscuras e não-integradas”. É preciso que duas partes heterogêneas entrem numa relação diferencial para determinar uma singularidade: dy, azul sobre dx, amarelo = verde. Sem pausa, sentimos o imenso universo dentro de nós –do mesmo modo que ouvimos o murmúrio de ondas ou o murmúrio de vozes, sem relevância. Essas relações diferenciais que tornam o verde um distinguido, é um filtro; como o fundo sombrio é um filtro no caos das trevas sem fundo, que se torna, – o caos –, uma abstração. Esta postura barroca explica o teatro de Carmelo Bene: amputando-se os elementos de poder, libera-se a potência; tornam-se distinguidos o que era apenas aturdimento. Se Romeu for amputado, um surpreendente desenvolvimento de Mercuzio se dá. Certas personagens são como que virtualidades, como são virtuais as pequenas percepções não atualizadas das mônadas. Teatro das virtualidades, e da liberdade: “Mercuzio morre rápido em Shakespeare, mas em Carmelo Bene, ele não quer morrer, ele não pode morrer, porque constitui a nova peça”.

Fazer uma aproximação: Beckett e Bene. “Samuel Beckett descreveu o inventário das propriedades a que os sujeitos larvares se entregam com fadiga e paixão”. E: “A subtração dos elementos estáveis do poder liberam uma nova potencialidade do teatro, uma força não representativa sempre em desequilíbrio”. Mas trata-se do que Deleuze chama de sub-representativo, de sínteses passivas – anteriores às formações do indivíduo e do sujeito. Trata-se de Robbe-Grillet, especificamente do texto Djinn, no qual estão presentes todas as grandes questões de Santo Agostinho sobre o tempo em As Confissões. Mergulhamos no grande tema da obra de Deleuze, o acontecimento, que não se confunde com o espaço que lhe serve de lugar nem com o atual presente que passa. O tempo fora do vivido psicológico e das relações físicas dos corpos é o próprio paradoxo, a paixão do pensamento. E o pensador sem paradoxo é como o amante sem paixão: um sujeito medíocre. O tempo sai dos seus eixos: não é mais de Deus nem dos homens, é de si próprio, ao modo da liberdade, que é sempre de si própria. Entramos nos corredores do Djinn, em que não existe mais o presente atual, em que Cronos já não governa mais. Santo Agostinho e Robbe-Grillet constróem a simultaneidade de três pontas do presente: “é a possibilidade de tratar o mundo, a vida, ou simplesmente uma vida, um episódio como único e mesmo acontecimento, que funda a implicação dos presentes. Um acidente vai acontecer, acontece, aconteceu; de modo que, devendo ocorrer, ele não ocorreu, já ocorreu, está ocorrendo”. O pensamento se separa do seu tolo adverso, o bom senso. Pode-se falar em devenires. Trata-se dos devenires; matrimônios contra-natura. Que é o “mundo” anterior ao tempo sucessivo. Devenires contra história; contra dogmas; contra doutrinas; contra a cultura: contracultura. Como exemplo da obra superior de Robbe-Grillet, um pouco da sofisticação barroca, que constrói o seu coração apaixonado e criador. A música vai ser o exemplo. A música é a unidade de vértice, a unidade de cima, é a mais alta das artes –superior a todas as artes. A música desenvolve suas linhas em extensão melódica, a melodia é horizontal; ao mesmo tempo que faz a elevação harmônica, a harmonia é vertical: mas jamais saberemos onde começa a melodia e onde acaba a harmonia. A música parece coincidir com a passagem do tempo, mas não com o tempo que o relógio marca: e sim com a intensidade do tempo que Robbe-Grillet mostra em Djinn. A música mistura, na sua preciosidade, o belo e o sublime – com seu aspecto movente, com sua perpétua ondulação. A música é um conjunto de fenômenos diversos que toma forma e sentido em regiões e níveis diferentes dos corredores inverossímeis do tempo ilimitado e paradoxal.

 

Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 3 de 5


*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.