Aula de 29/05/1990 – Kant e Espinosa: moral e ética – Sobre os modos de existência

Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 9 (A Imagem Moral e a Liberdade) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 

O Deleuze faz… (Isto é espinosista, sem dúvida nenhuma espinosista!) …ele faz uma distinção de ética e moral. Ética não é a mesma coisa que moral. A base da distinção, e esta base da distinção é importante para se entender, é que moral vai pressupor valores transcendentes. Daqui a pouco eu explico o que é isso… aliás, a nomenclatura é exatamente essa:

moral > implicação > valores transcendentes

ética > implicação > modo de existência imanente

É essa a distinção. E eu montei essa distinção para a nossa compreensão.

Bom, eu vou misturar. Eu poderia fazer de uma forma ou de outra. Eu vou misturar a aula para ela ficar melhor, ficar mais agradável.

Há um fenômeno social, inteiramente social –da ordem social– que é o fato de que o ‘estar dentro de uma sociedade’ pressupõe a obediência dos societários. Onde há uma sociedade, emerge a ideia de obediência ou a ideia de obrigação. A ideia de obrigação, ela é presente dentro de um campo social, onde aparecem  vindas também de campo social  as duas ideias consequentes de recompensa e punição. O campo social pressupõe obrigações e as recompensas e punições, em torno destas obrigações, emergem necessariamente. A partir daí nós sabemos que dentro de um campo social, usando uma linguagem marxista  pouco importa qual seja a formação social  vai aparecer a ideia de autoridade. Em todo e qualquer campo social aparece, de imediato, essa ideia de autoridade, que é exatamente aquilo que pressupõe a obrigação e gera a recompensa e a punição.

É essa tese geral, como eu estou colocando, que motiva o Freud, no capítulo VII do Mal Estar na Civilização a escrever um texto. Texto esse que está inteiramente ligado às práticas, às investigações que nós estamos fazendo. É onde o Freud coloca a ideia, e é perfeitamente compreensível –não precisa ser psicanalítica. Essa ideia , a ideia de uma autoridade externa, a qual os membros de um campo social devem um respeito, devem obrigações. E o Freud, acionando esta ideia de autoridade externa –sem precisar exatamente– ele admite que, em determinados campos sociais, vai surgir a ideia de internalização da autoridade. Então, seria esta dupla posição: autoridade externa e autoridade internalizada. A ideia de autoridade internalizada é a ideia de superego. Uma ideia de que haveria, em determinados campos sociais, essa hipótese de uma autoridade internalizada.

A ideia de autoridade, ela podendo punir ou recompensar. Evidentemente, a autoridade pune ou recompensa as ações que são cometidas pelos membros da sociedade. Então, a autoridade externa, ela lida diretamente com atividades. As atividades dos membros dessa sociedade são atividades que recebem punições ou recompensas dessa autoridade.

Mas, quando se coloca essa ideia de autoridade internalizada. (É essa ideia que é muito difícil, né?! A ideia de internalização de uma autoridade. Eu liguei à ideia de superego, é a melhor maneira de se fazer) Essa autoridade internalizada, ela não trabalha diretamente com ações. Ela só trabalha com intenções. Ou seja: não é necessário que haja uma ação para que haja uma punição. Porque, se a autoridade está internalizada, se a autoridade faz parte do nosso ego, (né?!) se a autoridade está inscrita no nosso ego, ela poderia punir ou penalizar as próprias intenções daquele sujeito sem a necessidade das ações. É… com essa noção de autoridade internalizada a posição do sujeito humano já se torna bem mais difícil, porque não é preciso que ele haja para ser punido. Basta que ele intencione, basta que ele tenha uma intenção.

Mas, até aqui, o poder da autoridade internalizada seria punir as más intenções. Ele não precisaria punir as ações, ele iria às más intenções. As más intenções seriam punidas. Mas, sem que haja muita clareza no texto do Freud. Mas é isso o que exatamente está passando: é essa internalização da autoridade e as punições não nas más intenções, mas em qualquer intenção.

Eu não sei se ficou claro… basta ter intenção para que uma punição emerja. Como é que a gente pode pensar isso? Como é que a gente pode pensar a internalização da autoridade. Figura estranha a internalização da autoridade, que é exatamente o que eu estou chamando de superego. Ou seja, uma extensão do ego. Alguma coisa que aumenta o poder do ego. E essa autoridade podendo punir, não as más intenções, mas qualquer tipo de intenção vindo a ser punida.

A única maneira que a gente pode pensar; é a maneira inclusive como o Lacan coloca, é que esse superego, essa autoridade internalizada, ela só pode existir através das energias do ego. Ou seja, o superego é alguma coisa que só tem existência através da energia do ego. E a energia do ego é o desejo. É o desejo. Eu não sei se o axioma vai ficar bem. É o próprio desejo. Então, basta desejar para produzir energia; basta produzir energia para constituir o superego; basta constituir o superego para haver punição.

Então a ideia de autoridade internalizada põe como consequência que qualquer desejo gera a ideia de desejo reprimido. (…)

Eu não sei se foi bem.

Porque o superego seria exatamente a repressão do desejo (…) E ele se constituiria pela energia do desejo. Então o simples fato de se desejar já é o suficiente para se constituir o superego.

Então, a partir dessa ideia de autoridade internalizada, não haveria a possibilidade de nós nos libertarmos de nossas culpas. Nós imediatamente seriamos culpados, porque desejar implica desejo reprimido.

Entenderam bem?

Continua…

Parte 1

 

Parte 2

 

Aula de 29/05/1990 – Kant e Espinoza: moral e ética – Sobre os modos de existência

“O Deleuze faz… (Isto é espinozista, sem dúvida nenhuma espinozista!) …ele faz uma distinção de ‘Ética’ e ‘Moral’. ‘Ética’ não é a mesma coisa que ‘Moral’. A base da distinção, e esta base da distinção é importante para se entender, é que ‘Moral’ vai pressupor ‘Valores Transcendentes’. Daqui a pouco eu explico o que é isso… aliás, a nomenclatura é exatamente essa:

Moral > implicação > Valores Transcendentes

Ética > implicação > Modo de Existência Imanente

É essa a distinção. E eu montei essa distinção para a nossa compreensão.

Bom, eu vou misturar. Eu poderia fazer de uma forma ou de outra. Eu vou misturar a aula para ela ficar melhor, ficar mais agradável.

Há um fenômeno social (inteiramente social, da ordem social) que é o fato de que o estar dentro de uma sociedade pressupõe a obediência dos societários. Onde há uma sociedade, emerge a ideia de obediência ou a ideia de obrigação. A ideia de obrigação, ela é presente dentro de um campo social, onde aparecem  vindas também de campo social  as duas ideias consequentes de recompensa e punição. O campo social pressupõe obrigações e as recompensas e punições, em torno destas obrigações, emergem necessariamente. A partir daí nós sabemos que dentro de um campo social, usando uma linguagem marxista  pouco importa qual seja a formação social  vai aparecer a ideia de autoridade. Em todo e qualquer campo social aparece, de imediato, essa ideia de autoridade, que é exatamente aquilo que pressupõe a obrigação e gera a recompensa e a punição.

É essa tese geral, como eu estou colocando, que motiva o Freud, no capítulo VII do ‘Mal estar na Civilização’ a escrever um texto. Texto esse que está inteiramente ligado às práticas, às investigações que nós estamos fazendo. É onde o Freud coloca a ideia, e é perfeitamente compreensível  não precisa ser psicanalítica essa ideia , a ideia de uma autoridade externa, a qual os membros de um campo social devem um respeito, devem obrigações. E o Freud, acionando esta ideia de autoridade externa, sem precisar exatamente, ele admite que, em determinados campos sociais, vai surgir a ideia de internalização da autoridade. Então, seria esta dupla posição: autoridade externa e autoridade internalizada. A ideia de autoridade internalizada é a ideia de superego. Uma ideia de que haveria, em determinados campos sociais, essa hipótese de uma autoridade internalizada.

A ideia de autoridade, ela podendo punir ou recompensar. Evidentemente, a autoridade pune ou recompensa as ações que são cometidas pelos membros da sociedade. Então, a autoridade externa, ela lida diretamente com atividades   as atividades dos membros dessa sociedade são atividades que recebem punições ou recompensas dessa autoridade.

Mas, quando se coloca essa ideia de autoridade internalizada. (É essa ideia que é muito difícil, né?! A ideia de internalização de uma autoridade. Eu liguei à ideia de superego, é a melhor maneira de se fazer.) Essa autoridade internalizada, ela não trabalha diretamente com ações. Ela só trabalha com intenções. Ou seja: não é necessário que haja uma ação para que haja uma punição. Porque, se a autoridade está internalizada, se a autoridade faz parte do nosso ego, (né?!) se a autoridade está inscrita no nosso ego, ela poderia punir ou penalizar as próprias intenções daquele sujeito sem a necessidade das ações. É… com essa noção de autoridade internalizada a posição do sujeito humano já se torna bem mais difícil, porque não é preciso que ele haja para ser punido. Basta que ele intencione, basta que ele tenha uma intenção.

Mas, até aqui, o poder da autoridade internalizada seria punir as más intenções. Ele não precisaria punir as ações, ele iria às más intenções. As más intenções seriam punidas. Mas, sem que haja muita clareza no texto do Freud. Mas é isso o que exatamente está passando: é essa internalização da autoridade e as punições não nas más intenções, mas em qualquer intenção.

Eu não sei se ficou claro… basta ter intenção para que uma punição emerja. Como é que a gente pode pensar isso? Como é que a gente pode pensar a internalização da autoridade. Figura estranha a internalização da autoridade, que é exatamente o que eu estou chamando de superego. Ou seja, uma extensão do ego. Alguma coisa que aumenta o poder do ego. E essa autoridade podendo punir, não as más intenções, mas qualquer tipo de intenção vindo a ser punida.

A única maneira que a gente pode pensar; é a maneira inclusive como o Lacan coloca, é que esse superego, essa autoridade internalizada, ela só pode existir através das energias do ego. Ou seja, o superego é alguma coisa que só tem existência através da energia do ego. E a energia do ego é o desejo. É o desejo. Eu não sei se o axioma vai ficar bem. É o próprio desejo. Então, basta desejar para produzir energia; basta produzir energia para constituir o superego; basta constituir o superego para haver punição.

Então a ideia de autoridade internalizada põe como consequência que qualquer desejo gera a ideia de desejo reprimido. (…)

Eu não sei se foi bem.

Porque o superego seria exatamente a repressão do desejo (…) E ele se constituiria pela energia do desejo. Então o simples fato de se desejar já é o suficiente para se constituir o superego.

Então, a partir dessa ideia de autoridade internalizada, não haveria a possibilidade de nós nos libertarmos de nossas culpas. Nós imediatamente seriamos culpados, porque desejar implica desejo reprimido.

Entenderam bem?”

Moral e ética: Parte 1
Moral e ética: Parte 2