Tag: Félix Guattari

Aula de 24/07/1995 – A imagem-afecção

“O nosso rosto traz com ele três funções: produzir comunicação, produzir socialização e produzir individuação. E esse rosto tem que estar preparado para participar de uma comunidade, para participar de um campo social. Mas o afeto despersonaliza o rosto. Vejam: o filme é A Paixão de Joana D'Arc, o nome da atriz é Falconetti. É um filme mudo. Não se preocupem com o que está escrito, preocupem-se com os rostos. O rosto se despersonaliza para poder expressar somente afetos. Ele é pura expressão de afetos. Começou a aparecer uma coisa muito difícil - é a noção de afeto, que está surgindo aqui. O afeto despersonalizaria o rosto. O rosto seria apenas um porta-afetos; e esses afetos nada teriam a ver com a história pessoal. Vejam o rosto... Olhem só! Olhem que coisa! Não há preocupação de personalização, há a preocupação do afeto. São apenas os afetos que importam: a paixão, o afeto... nada mais! (...) O que eu estou falando para vocês é que, quando nós convivemos dentro de um campo social, as nossas manifestações (que são sentimentos efetuando comportamento com aquelas três características do rosto) não são manifestações do nosso espírito - são manifestações de um eu social. O que eu estou chamando de espírito - e que é a expressão desses afetos - é a nossa singularidade: é aquilo que é único, é aquilo que somos nós - independentemente do campo social, independentemente do outro, independentemente da comunicação, independentemente da socialização, independentemente da individuação. Seria, por exemplo, alguma coisa que, ao longo de quaisquer 24 horas, aparecesse algumas vezes em nós, e - de repente - nós entrássemos em contato conosco mesmo e não nos importássemos com o outro, com o campo social, com a comunicação, com o mundo da socialização; e quiséssemos expressar a nossa singularidade.”

Guattari entrevista Lula (1982)

"Eu fiquei sinceramente fascinado com a leitura de uma coletânea de tuas entrevistas e de teus discursos, por tua liberdade de tom, pelo teu modo, por exemplo, de falar de Ghandi, de Mao, de Castro ou de Hitler, sem nenhuma das costumeiras preocupações, sem clichês e mesmo se aventurando de modo, por assim dizer “imprudente” em considerações intempestivas. Você não parece se dar conta de que algumas vezes as tuas propostas poderiam ser voltadas contra você, você parece confiar a priori na boa fé dos teus interlocutores."

Félix Guattari: “Essa crise (que não é só econômica…)”

“Uma das características da crise que estamos vivendo, é que ela não se situa apenas no nível das relações sociais explícitas, mas envolve formações do inconsciente, formações religiosas, míticas, estéticas. Trata-se de uma crise dos modos de subjetivação, dos modos de organização e de sociabilidade, das formas de investimento coletivo de formações do inconsciente, que escapam radicalmente às explicações universitárias tradicionais – sociológicas, marxistas ou outras. Essa crise é mundial, mas ela é apreendida, semiotizada e cartografada de diferentes maneiras, de acordo com o meio.”

A Filosofia é Violeta

Um filósofo experimenta a língua, a linguagem, construindo seus conceitos, que irão renovar os modos de pensar. Ele, o filósofo, não tem compromisso com o senso comum. E mostra a aventura de sua vida, pelas dificuldades que impõe à compreensão do que diz. E sabe disto, das fragilidades do homem; como Espinoza, que concebeu o ...

Como trabalhamos a dois | por Gilles Deleuze

“O trabalho a dois nunca foi uma uniformização, mas antes uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma. Eu poderia dizer a quem remonta a origem desse ou daquele tema, dessa ou daquela noção: a meu ver, Félix tinha verdadeiros clarões e, quanto a mim, eu era um tipo de para-raios, enfiava aquilo na terra para que renascesse de outra maneira, mas Félix retomava etc., e assim avançávamos.”

Aula 5 – 27/01/1995 – A desumanização é a busca infinita do pensamento

“Para a arte se efetuar, ela tem que se libertar exatamente da história pessoal - porque a história pessoal é um conjunto de fantasmas, tristezas, pequenas alegrias, grandes sofrimentos, enormes emoções; e nela, na história pessoal, há sempre um herói. Quem? Nós mesmos! Por isso a literatura moderna é brutalmente invadida pelo que se chama best-seller. O best-seller é sempre a história pessoal de um autor que se diz maravilhoso. Porque qualquer narrativa de história pessoal tem que ser elogiosa para ele.”