Ulpiano, um pensador na transversal do tempo – James Arêas

Poucas coisas são capazes de nos inquietar tão profundamente quanto o encontro com um pensador. Assim parece ter sido, para cada um de nós, o encontro com Claudio Ulpiano: inquietante, arrebatador, definitivo. Poucas vezes somos capazes de conceber a inquietação como um afago, como uma provocação espiritual; o arrebatamento como uma solicitação e um convite; e o definitivo como uma iniciação ou um começo. No entanto, sempre foi assim com o Professor Claudio, desde que o conheci, há cerca de vinte anos atrás.

Raros são aqueles que, dotados de uma insólita sobriedade, resistem com coragem e alegria às frivolidades e ao vasto repertório da bobagem, dita filosófica, do nosso tempo. O amigo Claudio, certamente, se encontrava entre essas raras singularidades que concebem a filosofia como uma aventura: “A grande aventura do espírito”; como ele próprio indicou no título de sua tese de doutoramento, recentemente defendida, sobre o pensamento de Gilles Deleuze.

Ulpiano, espírito incomum, sempre compreendeu a aventura do pensamento como um exercício perigoso. Uma atividade de risco onde cada um de nós arrisca alguma coisa, e vai o mais longe que pode neste risco, para retirar daí um direito imprescritível e intransferível à filosofia.

Como poucos ele soube perguntar, em suas aulas admiráveis, a quem importava correr este risco para atingir legitimamente o direito ao pensamento e à vida. Como traçar o plano que nos leva a empreender uma tal aventura espiritual, como atingir esta política de criação conceitual, esta guerrilha completa contra a opinião?

Parece-nos impossível dizer, de modo tão breve, como sua vida, devotada ao ensino da filosofia, coincidiu com as aspirações de grande parte de uma geração que com ele se encontrou durante anos; mas também com uma outra, ainda por vir, e que já não mais o encontrará.

Como Hermes, o intercessor, ele fez circular aqui os últimos trinta anos do pensamento francês e soube remeter-nos, com cautela, aos dois mil e seiscentos anos da filosofia. Entre nós partilhou, generosamente, a diversidade de seus interesses intelectuais, a doçura do convívio e sua ilimitada paixão pelos livros. Generoso, sempre generoso.

Orador brilhante, Claudio serviu-se de uma pluralidade de vozes em suas enunciações, indescritível mnemotécnica de transmissão oral e de questionamento filosófico. Memória filosófica viva e intensiva, melódica e encantadora.

A filosofia, como costumava dizer, promove um agenciamento erótico e um excedente de entendimento. Através dela rompemos as formas do hábito, os comprometimentos do orgânico e do mecânico para liberar o inorgânico, o maquínico e o intensivo do tempo. Aion. Céu vazio.

Convite, renovado a cada aula, para transpor os limites da experiência linear e sucessiva, para desatar o tempo das distribuições espaciais e sedentárias, para liberar os fluxos da vida de seus constrangimentos, linhas de interrupção e sobrecodificações.

Nenhum suporte escrito poderá ser preenchido pela atmosfera grandiosa que envolvia suas lições extraordinárias. Do mesmo modo, nenhuma memória individual, coletiva, psicológica ou histórica poderá reter, em momento algum, o puro devir, o acontecimento imemorial, o vento de bruxa que se desprendia de suas aulas.

O acontecimento complexo de “Uma vida” jamais pertence inteiramente a alguém, muito menos àqueles que permanecem distanciados, durante todo o tempo, das conveniências e facilidades de se ter um “eu”. Claudio foi muitos, constelação. Soube fazer de si um devir, uma singularidade em êxtase, fulguração.

Sua vida? “Uma vida…”.

Lucidez afetuosa, intensa, plena de imanência. Linha frágil e flexível, sempre pronta para as verdades irrespiráveis. Linha de resistência em busca da grande saúde. A insônia e a vigília permanentes, privilégios dos espíritos raros, foram-lhes úteis para a intuição dos menores afetos, das diferenças imperceptíveis nos sons e cores. Tudo contribuiu, ou foi orientado, em sua vida para a busca incansável daquilo que é grande, belo e digno de ser pensado.

Sua obra? “A dobra da vida…”.

Expandir os limites da filosofia para além dos círculos acadêmicos em que se cultivam idéias em canteiros ou estufas. Assegurar ao pensamento a distância criadora que o liberta de toda “racionalidade analítica” e das “éticas de resultados” que difundem, respectivamente, a tolice do senso comum e a bobagem premeditada do bom senso.

Seu ensino combateu, com vigor, a vigência insidiosa da opinião e das certezas consensuais, as verdades de mercado. Ensinou a rir sem pudores da besteira universal.

Todo o programa de uma geografia para a transmissão do pensamento: filosofia para não-filósofos, grupos de estudos, cursos livres, novas intercessões para a vida.

Para nós, o professor Claudio, preparou o meio, traçou o plano e a possibilidade imanente de exercermos nossa vocação para o experimentalismo. A ocasião propícia para a emergência de nosso empirismo mestiço e de nossa forma própria de afetividade: o direito a um devir-povo.

Efetivamente um novo porvir, o acontecimento único que contra-efetua e transfigura a ambiência espúria e lasciva, de nosso presente.

Nós que o evocamos, na atualidade evanescente desse instante, amigo Claudio, gostaríamos de manifestar a gratidão infinita que lhe devotamos. Cada um de nós a quem você ensinou a ir mais longe do que teríamos acreditado poder.

Até breve…

James Arêas

 

Ulpiano disseminou à sua volta uma ética do pensamento e da existência que tem na afirmação da vida sua bússola maior

Personagem brilhante e de vasta erudição, Ulpiano dedicou sua existência à formação filosófica de várias gerações. Além de seu ensino na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, seu tempo era integralmente dedicado a uma infinidade de grupos de estudo, cujos membros provinham de vários âmbitos da cultura. Tive a oportunidade de participar de vários deles no Rio de Janeiro e, inclusive, de organizá-los em São Paulo. Tive também o privilégio de ser um dos membros da banca de exame de sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas.

Além destes grupos, que se reuniam regularmente e por vários anos, o professor tinha em torno de si inúmeros jovens estudantes, artistas, músicos, poetas, cientistas e outros que se instalavam em sua casa, varando noites com leituras e discussões. Mais do que apenas transmitir conteúdos ou uma erudição filosófica estéril, Ulpiano disseminou à sua volta uma ética do pensamento e da existência que tem na afirmação da vida sua bússola maior. A singularidade e a generosidade desse modo de funcionamento produziu no ambiente cultural da época efeitos que ainda hoje reverberam (muitos de seus alunos participam da vida cultural do país na atualidade com trabalhos expressivos nas áreas terapêuticas, artísticas e acadêmicas).

Tendo sido esse o principal modo de expressão de seu pensamento, Ulpiano deixou poucos textos escritos. Essa seria uma razão suficiente para que um arquivo de suas aulas fosse constituído. No entanto, mais do que suprir a « falta » de publicações do filósofo, é a própria forma de suas aulas que merece registro. Trata-se de manter viva a potência de convocação do exercício do pensamento a partir das demandas da vida e para (e não sobre) elas é que pulsava em suas aulas e discussões com os alunos.

Reativar tal potência certamente produzirá efeitos nas gerações presentes e futuras.

Uma última observação: um dos autores preferidos de Ulpiano era Félix Guattari que o conheceu por meu intermédio e tinha imenso apreço pela leitura que fazia de sua obra e pelo modo como a transmitia. No entanto, a biografia cruzada de Gilles Deleuze e Félix Guattari escrita por François Doss (Éditions de la Découverte), traduzida em vários idiomas (no Brasil pela Editora Artmed), não deu a Claudio Ulpiano o lugar privilegiado que Guattari lhe atribuía entre os estudiosos de sua obra, no Brasil e fora dele. Por ocasião da publicação deste livro, apontei este fato para o autor e lhe sugeri que reescrevesse o capítulo sobre Deleuze e Guattari no Brasil. O autor pediu que eu o fizesse, e utilizei meus dois meses de estada em Paris a convite do Institut National de l’Histoire de l’Art, em 2007, para fazê-lo. Dosse acabou aceitando apenas as mudanças relativas às passagens que diziam respeito à minha relação com os biografados. Assim sendo, o acervo das aulas de Ulpiano contribuirá para suprir essa grave lacuna, inserindo sua produção no cenário internacional entre os melhores pesquisadores das obras de Deleuze e Guattari.

Por essas e outras razões, impõe-se, a meu ver, a necessidade incontornável de construção de um registro deste legado.

Suely Rolnik

CLAUDIO ULPIANO: A EXPRESSÃO DE SINGULARIDADES E ACONTECIMENTOS

Foi em uma belíssima aula de Claudio Ulpiano, há mais de 25 anos, que ouvi falar, pela primeira vez, o nome do poeta Manoel de Barros. Era um poeta sendo citado em uma aula que era um poema.  Deleuze e Guattari afirmam que faz parte da compreensão de um conceito filosófico a sua compreensão não-conceitual: os conceitos não remetem apenas a outros conceitos, “os conceitos remetem eles mesmos a uma compreensão não-conceitual. (…) O não-filosófico está talvez mais no coração da filosofia que a própria filosofia, e significa que a filosofia não pode contentar-se em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual, mas que ela se endereça também, em sua essência, aos não-filósofos” (O que é a filosofia?, Editora 34, p. 57). Para compreendermos adequadamente toda a potência que um conceito filosófico possui, é necessário que saibamos ter igualmente uma compreensão não-conceitual do conceito. Esta compreensão não-conceitual implica que saibamos compreendê-lo também politicamente, etologicamente, clinicamente, eticamente, enfim, poeticamente. Esta compreensão poética, heterogenética, não é exterior ao conceito, uma vez que faz parte da compreensão do conceito o seu devir poético, ao mesmo tempo em que o poético devém filosófico: era esse agenciamento conceito-poesia que as aulas de Claudio generosamente nos ofereciam, e que faziam de Claudio nosso intercessor. Nesse devir que vai do conceito à poesia, e da poesia ao conceito, o pensamento e o corpo se  mostram  como as duas metades de uma  vida que é Afeto.

Acerca do seu precioso livro que agora lemos, Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, o próprio Claudio se refere ao seu trabalho “como se fosse um poema”. Citamos Manoel de Barros porque é nele que podemos encontrar o seguinte verso: “O poeta é aquele que vai até à infância e volta”. E aquele que vai não é o mesmo que retorna, pois se opera no intervalo uma metamorfose, um devir, uma salut: a prática da inocência. O mesmo pode ser dito de um filósofo, como Claudio, que nos ensina que “a filosofia é a mais inocente das ocupações”. Nietzsche dizia que “só podemos destruir sendo criadores”. Destruição como crítica, criação como clínica. Crítica e clínica: as duas metades de um devir-criança.

Em um de seus últimos cursos ministrados, e publicado sob o título A coragem da verdade, Michel Foucault, que pouco se refere a Espinosa, cita o autor da Ética de uma forma que  revela a admiração que nutria por Espinosa, a despeito das poucas palavras escritas que lhe dedicou. Segundo Foucault, em Espinosa fazer filosofia é inseparável da produção de uma vida filosófica. Produzir um modo de vida filosófico, este é o principal desejo que tem na filosofia a sua causa eficiente. Em Espinosa, a vida filosófica não é uma vida à parte, ela é a vida mesma. Produzir uma vida filosófica requer não apenas amor à Verdade ou à Sabedoria, requer sobretudo coragem. E disto a própria vida de Espinosa dá o testemunho. A philia, como amizade ou amor à Sabedoria, nada é sem a coragem de viver filosoficamente esse amor, esse afeto. Decerto que não faltou amor à sabedoria em muitos filósofos, mas poucos foram além do amor, poucos exerceram esta coragem que a filosofia pede. Há uma dimensão clínica nessa coragem, pois toda cura começa na coragem. Coragem não exatamente para enfrentar a doença, mas coragem para viver de acordo com a saúde. E Claudio, como poucos, é o exemplo vivo de um filósofo brasileiro que resistiu com salut e coragem. Claudio viveu, desde sua Macaé, um modo de vida no qual não faltaram amor e amizade, mas estes foram potencializados pela coragem, coragem esta que a própria amizade e amor pedem, para que assim sejam potências do Afeto.

Segundo Deleuze (Nietzsche et la philosophie, p. 119), há um devir-verdade que não se opõe ao falso; o devir-verdade dá ao falso uma potência de criação que o liberta de ser o negativo da Verdade que não tem devir. O devir-verdade é a adequação do pensamento ao agir, e que faz da filosofia a mais necessária das práticas: a de ensinar pela conduta.

Falar ou escrever sobre Claudio Ulpiano nos põe, como diria Manoel de Barros, em “estado de rascunho”: um  “afloramento de falas” vem ocupar nossa voz. Somente como rascunho, anexatos, podemos conquistar alguma consistência, mas sem perder o infinito.  Falar sobre Claudio, só o podemos, deixando nascer em nós um sujeito coletivo de enunciação: poli-fonia – múltiplas vozes. Isto porque Claudio Ulpiano assinou seu nome para expressar singularidades e acontecimentos dos quais ele foi e é o criador. O nome de Claudio é a assinatura através da qual vemos paisagens, personagens, acontecimentos, afetos, experimentações, devires, beleza, sujeitos larvares, mundos por criar.

Segundo Espinosa (Deleuze, Spinoza: immortalité et éternité.Paris: Gallimard, 2001. 2 CDs), quando a morte leva uma criança, a morte leva a maior parte desta pequena existência, mas não leva tudo: algo da criança permanece. Isto nos mostra que o poder da morte não é absoluto. Se a criança viveu ao menos um dia de vida, a morte não tem poder para levar e apagar este um dia. A morte, na verdade, levará os dois anos da criança, ou os seus 10 anos. Ou seja, a morte só pode levar o que não foi vida. Ela só pode apagar o que não existe ou existirá: os anos que a criança não viverá. A morte só tem poder onde reina cronos, e não onde há a instauração de aion. A morte é ausência, privação. Mesmo antes de ter nascido, a criança existiu, como essência, no desejo dos seus pais, como parte da essência destes. E esse desejo também a morte não pode apagar, assim como a escuridão não pode apagar a luz, dado que a escuridão é tão somente a ausência da luz. Por mais estranho que possa parecer, a morte não leva nada, pois ela vem do exterior de nossa essência, e apenas leva o que é exterior a esta. Para Espinosa, quanto mais potência uma essência possui, mais expansão ela é capaz de conquistar, reduzindo ao mínimo o poder de subtração da morte. Quem mais na vida se multiplica, e vida se multiplica com vida, menos subtraído pode ser por aquilo que não é vida.

Espinosa diz ainda que o homem que soube fazer de sua existência uma expressão da Vida, que é potência absoluta, deste homem a morte apagará a menor parte, pois a outra parte, a maior, não pode ser apagada a não ser apagando o universo inteiro. Por isso, essa menor parte que é levada/apagada em nada diminui aquele que no infinito aprendeu a se fazer inteiro. Inteiro não como algo que aumenta com os anos, e que envolve quantidades numéricas, pois se trata de se tornar inteiro como uma quantidade não numérica, múltipla, uma potência: um “quantum de vida”, como diz belamente Claudio. A maior parte de Claudio vive em nós como aquilo que nos aumenta a Vida.

No Prefácio que escreveu para o livro de Claudio, o Prof° Luiz Orlandi se refere a Claudio como  um signo-luz. Em suas aulas, víamos e ouvíamos esse signo-luz, e então tudo se clareava e compreendíamos por onde avançar e ir – pelos livros e, sobretudo, pela vida. Hoje esse brilho está também em seu livro, como o clarão de que fala Deleuze, como o relâmpago que canta Paulinho Moska.

No conto O livro de Areia, Borges nos relata o seguinte fato: um homem encontra um livro que porta um segredo (tomo de empréstimo essa palavra do Prof° Mário Bruno ao se referir a Claudio). O homem abre o livro e lê uma de suas páginas, e depois o fecha. Abrindo novamente o livro, ele tenta voltar à página lida, porém não a encontra. A cada vez que o livro se abre, uma página nova se mostra: o livro era uma Diferença que cada página singular repetia, diferencialmente. O livro possuía somente páginas por descobrir, nas quais acontecia um sentido sempre novo, de tal modo que a recognição nada tinha a fazer ali. O livro era um encontro, sempre: e cada encontro tornava o homem também diferente, como se lhe nascessem novos olhos. O homem tentou então achar o fim do livro, o seu término. Um novo paradoxo se mostrou: o livro não possuía última página, pois novas páginas emergiam da virtualidade da obra. O homem tentou encontrar a primeira página: esta também não podia ser achada, uma vez que novas páginas surgiam redesenhando o começo. O livro não contava histórias, apenas devires. Na verdade, o homem descobriu que o tal livro possuía tão somente páginas do meio, e estas eram infinitas. Infinitas não numericamente, mas infinitas em sentido, em potência de expressão. O livro somente possuía páginas do meio, e estas eram meio para experimentações com o espírito, mais do que com a letra. Era um livro infinito, tal como o inesgotável e belíssimo livro que o signo-luz Claudio escreveu.

Elton Luiz Leite de Souza

 

 

A FILOSOFIA VIVA DE CLAUDIO ULPIANO

Conhecido pelas concorridas aulas em universidades e cursos livres que se espalharam pelo Rio nos anos 1980 e 90, o filósofo Claudio Ulpiano, que foi um dos pioneiros na difusão da obra de Gilles Deleuze no Brasil mas não deixou textos publicados, tem obra inédita lançada mais de uma década depois de sua morte. Centro dedicado à preservação do trabalho do professor prepara mais lançamentos, como livro de fragmentos e curso de cinema.

Em uma mensagem enviada a um grupo de estudantes da Austrália, em 1990, Claudio Ulpiano definiu o filósofo brasileiro como “uma espécie de buraco no fundo dos oceanos, para onde as águas de todo o planeta se dirigem”. A mensagem começava no plural, como se Ulpiano falasse em nome dos pensadores da periferia do mundo: “exatamente por sermos uma mistura nós somos estrangeiros o tempo todo”, dizia. Mas logo deslizava para o singular, deixando claro tratar-se, no fundo, de um esboço de autorretrato: “sou filósofo, mas me misturo com santos medievais, poetas malditos franceses, pintores modernistas, música da pesada, matemática (…). E no meu entender isso é um meio de produzir alguma coisa nova, e talvez muito bonita”.

Essa breve descrição, com sua ênfase na palavra “mistura”, pode ser lida como a declaração de princípios de um professor para quem a prática da filosofia não se limitava às salas de aula, nem aos livros. Personagem singular da vida intelectual brasileira dos anos 1980 e 90, Ulpiano foi pioneiro na divulgação da obra de Gilles Deleuze no país e ficou conhecido pelas concorridas aulas na Uerj e na UFF e pelos cursos livres que oferecia por toda a cidade, em casas de amigos, centros culturais, espaços públicos. A multiplicidade de seus interesses se refletia nas turmas: artistas, cientistas, psicanalistas, jovens estudantes e acadêmicos experientes eram atraídos por sua fala ao mesmo tempo rigorosa e convidativa, que aproximava a filosofia dos alunos sem vulgarizá-la. Acreditava que o diálogo era a essência de seu trabalho de filósofo, e ao morrer, em 1999, aos 66 anos, não deixou textos publicados.

Esse cenário começa a mudar com o lançamento de “Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento”, uma edição do Acervo Claudio Ulpiano, coordenado pela viúva dele, Silvia Ulpiano, sua filha, Renata Bergo Duarte, e a escritora Marici Passini. A obra, fruto da tese de doutorado de Ulpiano na Unicamp, será lançada segunda-feira, às 19h30m, no campus da PUC na Gávea (no auditório B8, ala Frings), em um evento que terá apresentações de vários acadêmicos e artistas que foram alunos do filósofo.

O livro é a realização mais recente do Centro, que desde 2005 se dedica a catalogar e divulgar a obra do filósofo. O site http://www.acervoclaudioulpiano.com reúne aulas transcritas ou em vídeo (a partir de gravações de alunos, já que o professor não se preocupava em registrá-las), manuscritos, entrevistas, notas biográficas, depoimentos e ensaios sobre Ulpiano. Em 2012, o Centro criou o selo Ritornelo Livros para publicar obras dele e de autores afins. Entre os lançamentos planejados estão a coletânea “Escritos íntimos”, com reflexões sobre vida, arte e filosofia que Ulpiano deixou anotadas em cadernos de estudo, folhas soltas, guardanapos; um curso completo dele sobre cinema; e uma série de edições de bolso de algumas de suas principais aulas.

Ulpiano escreveu “Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento” nos últimos dois anos de vida. Combalido por um enfisema, cedeu aos pedidos de Silvia para deixar um registro escrito de suas reflexões. Trabalhou entre Rio, Campinas e a cidadezinha de Faxinal do Céu, na serra paranaense, aonde ia em busca de um impossível isolamento: os alunos iam atrás e ele os recebia alegremente. Entre as aulas, empenhava as forças em um texto que desse conta de sua paixão por Deleuze: “Se me proponho um trabalho sobre ele não são as funções científicas, as figuras estéticas ou as personagens filosóficas que me fazem tremer — mas os dias de gala que irei viver”, escreveu.

— Não é um livro sobre, e sim com Deleuze. Claudio queria extrair aquilo que estava virtual no pensamento de Deleuze, assim como o próprio Deleuze havia feito com Espinosa, Nietzsche, Bergson, Leibniz e tantos outros filósofos — diz Silvia.

O resultado é uma obra de capítulos curtos e independentes, que não seguem uma estrutura linear, e exploram os conceitos deleuzianos e suas leituras de outros filósofos numa linguagem mais densa que a de suas aulas. Ulpiano o define como um texto que “se pretende poético, como se fosse um poema. (…) É um sonho e coloca em primeiro plano os sonhadores. Mas também um enfrentamento — o mais inocente, do espírito consigo próprio”.

Uma leitura ética de Deleuze
Orientador de Ulpiano no doutorado, o professor da Unicamp Luiz Orlandi diz que a abordagem “poética” não se traduz em “facilitação literária” de Deleuze. É, antes, a postura natural para um pensador que desprezava “a visão tecnicista da filosofia”. Tradutor de obras importantes do francês, como “O anti-Édipo” e “Bergsonismo” (ambas pela Editora 34), Orlandi conheceu o colega em um congresso organizado depois do suicídio de Deleuze, em 1995. Na época, Ulpiano publicou um artigo no “Jornal do Brasil” afirmando que se deixar abater pela morte do filósofo “seria não ter aprendido sua lição: que o mundo em que vivemos é o melhor dos mundos, porque nele há a potência de criar e de inventar”.

— Claudio reforçou naquele congresso sua leitura excepcionalmente ética de Deleuze. Ele o via como um pensador dos bons encontros, das relações mútuas que podem construir alternativas melhores para o mundo — diz Orlandi.

Ulpiano dizia que seu primeiro encontro decisivo foi com a biblioteca do pai. Nascido em Macaé, em 1932, veio ainda criança para o Rio e, depois da separação dos pais, morou com a mãe, que morreu jovem. Mudou-se então para a casa do pai, onde descobriu nas paredes forradas de livros a companhia ideal para as madrugadas insones da adolescência. Atravessava as noites lendo de Platão a Sartre, de Dostoiévski a romances água-com-açúcar. Mais tarde, encontrou no cinema e no jazz novas paixões.

Começou a dar aulas em Macaé, informalmente. Foi lá que Silvia o conheceu, durante um curso improvisado em um galpão, em 1977. Pouco depois, instalou-se de vez no Rio. Não tinha endereço fixo, nem trabalho estável.

O escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, na época professor de teoria psicanalítica na UFRJ, era vizinho de Silvia no Jardim Botânico. Um dia, ao sair de casa, topou com uma figura intrigante de barbas e cabelos longos e roupas em desalinho. Parecia um maltrapilho, recorda, mas a impressão se desfez quando Ulpiano se pôs a falar. Começaram ali uma conversa que duraria anos. À noite, o filósofo se acomodava no pátio do prédio do amigo, pedia uma garrafa cheia de café, e os dois ficavam até de manhã discordando sobre seus autores favoritos.

— Quando Claudio falava, não era como uma aula, era uma prática filosófica. Ele fazia questão de oferecer ao interlocutor tudo que sabia. Eu via filas de alunos atrás dele, parecia um filósofo pré-socrático andando por Atenas. Era a expressão viva da filosofia — diz Garcia-Roza, autor do prefácio de “Escritos íntimos”.

Garcia-Roza e Silvia incentivaram Ulpiano a dar aulas para se sustentar. Fez mestrado na Uerj e tornou-se professor lá e na UFF. Os alunos se empoleiravam nas janelas para ouvi-lo. Era requisitado para cursos de férias, enchendo salas em pleno verão. Começou a formar grupos de estudo fora das universidades, e essas reuniões filosóficas informais se tornaram uma inesperada moda carioca na virada dos anos 80 para os 90. O agravamento de sua saúde não interrompeu os cursos (Silvia conta que ele chegou a dar aulas deitado). Ulpiano via no ofício de professor “o melhor movimento que posso fazer na vida”, lê-se em um de seus manuscritos: “Ambiciono a solidão do meu pensamento — mas amo o convívio da aula. Esta ambiguidade, mais o caos que as pessoas que me cercam constituem, é toda a minha biografia”.

Na universidade e nos cursos livres, Ulpiano influenciou uma geração de professores de filosofia. Atraiu também muitos artistas pela mescla de conceitos filosóficos e análises de literatura, cinema, teatro e artes plásticas. O compositor Paulinho Moska tinha 23 anos e fazia sucesso com a banda Inimigos do Rei quando soube de um professor que falava de um tempo diferente do cronológico, o “tempo do artista”, no qual se confundiam passado, presente e futuro. As aulas de Ulpiano abriram seus olhos para o pensamento teórico que atravessa a arte.

— Depois de algumas aulas perguntei o que estávamos estudando e ele respondeu: “a beleza”. Disse que eu não precisava me preocupar em decorar definições, e sim em criar a partir das aulas — diz Moska, que no lançamento do livro vai cantar a música “Gotas de tempo puro”, que compôs em parceria com Ulpiano (“Choveu dentro de mim/ gotas de tempo puro/ trovoadas de passado/ relâmpagos do futuro”).

Acervo luta para preservar fitas e papeis
Ulpiano também colaborou, dessa vez para sua surpresa, com o espetáculo “A fase do pato selvagem”, do coreógrafo João Saldanha, com trilha do músico Sacha Ambak, ambos seus alunos. Eles usaram gravações das aulas para montar frases com a fala do professor. Na estreia, em 1998, Ulpiano, em cadeira de rodas na plateia, divertiu-se ao ouvir a própria voz no palco dizer: “Caminhar pelas ruas sem direção, perambulando, perambulando…”

— Claudio tinha esse hábito filosófico de circular pela cidade em busca de diálogo. Nós nos conhecemos quando ele apareceu no ensaio de “Dança de três”, um espetáculo meu que ele ficou sabendo que era inspirado em Deleuze. Para ele não existia separação entre filosofia e arte, era tudo pensamento, criação — diz Saldanha.

Com o lançamento de “Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento” e dos próximos livros, o Centro de Estudos Claudio Ulpiano espera criar condições para que o filósofo continue dialogando com novas gerações de alunos. Sem sede fixa, a equipe do Centro sonha com um espaço para abrigar os manuscritos e a biblioteca de Ulpiano, onde poderiam promover também cursos e eventos. Por ora, porém, o mais urgente é preservar as centenas de papéis e fitas cassete com gravações de suas aulas, que correm risco de deterioração.

No site do Acervo há uma farta amostra desse material, de aulas em vídeo com mais de uma hora a detalhes que iluminam a personalidade de Ulpiano, como a carta que escreveu para a filha de dois anos de um casal de amigos que o hospedou por alguns meses. De manhã, depois de mais uma noite insone de estudo, ele costumava encontrá-la na sala, vendo sempre os mesmos filmes, e sentava ao lado da menina para puxar conversa. O bilhete que deixou para ela é também uma espécie de declaração de princípios: “Julia Isabela, com seu pequenino espírito, diante de mim, quando lhe faço as ruinosas questões sobre ‘A bela adormecida’ e ‘O mágico de Oz’, torna-se hesitante: estaria à frente de um ignorante ou de um provocador? Mas, como seu coração ainda mantém o virgem tecido da inocência, ela me responde todas as vezes”.

Guilherme Freitas

O Globo – Prosa & Verso – Sábado, 6 de abril de 2013

“O filósofo brasileiro”, por Claudio Ulpiano

Por: Claudio Ulpiano


Pode ser surpreendente, mas existe filosofia no Brasil. É evidente que o filosofo brasileiro é uma espécie de buraco no fundo dos oceanos, para onde as águas de todo o planeta se dirigem. Então, nós recebemos a poesia inglesa, o rock australiano, a filosofia francesa. Nós somos uma mistura, mas exatamente por sermos uma mistura nós somos estrangeiros o tempo inteiro. Nós não temos um território delimitado.

O nosso universo de filósofos é de viagens constantes. E essas viagens fazem com que nós façamos os encontros mais insólitos; por exemplo, eu sou filósofo, mas me misturo com santos medievais, poetas malditos franceses, pintores modernistas, música da “pesada”, matemática, e todo um universo completamente diferente do que aqueles que vocês estão acostumados a conviver sendo ingleses ou europeus.

O que eu entendi, pelas informações que a Vera me deu, é que haveria alguém aí que seria um linguista, outro que seria um poeta, talvez o próprio linguista, outro que seria um biólogo e ao mesmo tempo um baterista. E eu acho que a combinação da biologia, da bateria, da linguística e da poesia, no final das contas, daria um filósofo brasileiro, uma espécie de buraco no oceano que recebe múltiplas águas. E no meu entender isso é um meio de produzir alguma coisa nova, e talvez muito bonita. Então, quando a Vera me falou de vocês, eu disse: Por que vocês não fazem essa experiência? Misturam um pouco de moléculas, metáforas, jogos de sonoridade e constroem uma arte nova!? É isso, um abraço para vocês!


P.S. No ano de 1990, uma aluna do Claudio que se mudara para a Austrália, a Vera Lima Ceccon, veio passar uns dias no Rio e aproveitou para entrevistá-lo. Ao final da entrevista, pediu-lhe que gravasse uma pequena mensagem para o pessoal do seu grupo de filosofia da Austrália, formado por jovens de vários países. O texto é a transcrição desta mensagem.