Aula de 26/05/94 – Corpos e Incorporais: o mundo da ciência e o mundo da filosofia

Parte I

(…) [Os estóicos foram] um escândalo na filosofia, porque eles constituíram a filosofia do EXTRA-SER. (Não é isso, Chico?). Essa afirmativa tem que se transformar em ideias, em pensamento, porque para muitos (talvez até para a maioria) é apenas um conjunto de palavras. Mas não; não é assim!

O tema [da aula] é: Platão e Aristóteles faziam a filosofia do ser − e o Ocidente herdou esse modelo. Ao lado disso, passaria outro tipo de filosofia ― no caso aqui eu escolhi a dos estóicos ― que eu chamei de FILOSOFIA DO EXTRA-SER. (Certo?)

― Qual a novidade introduzida pelos estóicos?

A novidade é que os estóicos não abandonam a filosofia do ser; mas acrescentam, à filosofia do ser, a filosofia do extra-ser. Essa maneira de falar, que eu estou empregando, permite-me entrar teoricamente no Platão-Aristóteles e seus herdeiros; e nos estóicos e seus herdeiros. O tema específico que eu pretendo que vocês dominem é REPRESENTAÇÃO e EXPRESSÃO.

(Eu não posso fazer de outra maneira. Eu vou tentar minorar a força desse discurso, mas eu tenho que apresentá-lo, porque não se trata de meras palavras, é muito mais do que isso!).

A FILOSOFIA DO SER coloca o indivíduo como ONTOLÓGICO; e diz que o indivíduo é qualquer coisa que esteja aqui individuado: copo, cadeira, mesa… Para essa filosofia do ser, portanto, o indivíduo seria toda a REALIDADE − no sentido que indivíduo e real se recobririam mutuamente.

O que é REAL? O indivíduo. O que é o INDIVÍDUO? O real. Nesse mecanismo, eu constituo uma ONTOLOGIA DO INDIVÍDUO − que em linguagem filosófica chama-se ONTOLOGIA DA SUBSTÂNCIA PRIMEIRA. (Vocês vão ter necessidade dela!) Então, ontologia do indivíduo ou ontologia da substância primeira. Mas, no ser, vão aparecer também as FACULDADES.

― As faculdades aparecem no…? Ser!

(Atenção para o que estou dizendo, hein, para depois vocês não perderem:)

Nesta teoria, tudo aquilo que existe é indivíduo.

Alª: Logo, também é ser!?

Cl: Logo, é ser!

Tudo o que existe é ser, logo, o ser recobre o indivíduo.

(Vejam se entenderam…).

Alª: O indivíduo é ser; e o ser é indivíduo, é isso?

Cl: É isso!

Agora, nessa filosofia do ser (e isso é clássico em filosofia!) você sai da ontologia do ser ― que é o indivíduo; e entra nas faculdades ― que é o que se chama GNOSIOLOGIA. A função das faculdades é conhecer o ser. (Certo?).

E o ser está se apresentando de duas maneiras: platonicamente, SENSÍVEL ou INTELIGÍVEL. Então, a filosofia do ser estabelece, por exemplo, que o sujeito humano tem a capacidade de entrar em contato com os indivíduos reais. E quando o sujeito humano entra em contato com os indivíduos reais, o sujeito humano cria a REPRESENTAÇÃO SENSÍVEL e a REPRESENTAÇÃO INTELIGÍVEL. (Marquem isso!).

― Então, nesse instante, quantas representações eu coloquei? Duas: a sensível e a inteligível.

Agora, as faculdades do sujeito humano estão do lado do ser: também pertencem ao ser.

― Então, a inteligência é ser ou não-ser? Ser! Por quê? Porque as faculdades pertencem ao ser. E a função das faculdades é apreender o ser. Ela é ser e a função é apreender o ser. Então, aparece a grande divisão: representação sensível e representação racional.  Ou seja, uma faculdade sensível apreenderia o ser enquanto indivíduo vivo; e uma faculdade de inteligência, intelectual, apreenderia o ser em termos de inteligibilidade.

(Ficou muito difícil, assim? Ficou, Vera? Fala lá…).

Alª: Eu queria que você falasse de novo sobre essa representação sensível e essa representação inteligível… de onde elas…

A representação sensível vem da filosofia do ser. O que é o ser, qual o sinônimo de ser? Indivíduo! Agora, nesse ser, nesse campo do indivíduo, aparece o SUJEITO HUMANO. O sujeito humano emerge no campo dos indivíduos. E o que esse sujeito humano vai fazer? Representar o ser.

Então, o ser é representado numa faculdade? É. Em duas faculdades: na SENSIBILIDADE e na RAZÃO − porque as faculdades também são ser. Elas são ser. Então, de um lado, tem-se ser igual a indivíduo; (tá?) e também igual a existente. Só pode existir o individual − e as faculdades do sujeito têm a função de apreender esse individual.

Então, por exemplo, este copo que está aqui é um indivíduo; mas é um indivíduo físico. Quem o apreende? As minhas representações sensíveis: eu represento este ser dentro de mim.

― Por que eu estou dizendo e insistindo nisso? Porque as faculdades são tão corpos quanto o ser. As faculdades são reais, assim como o ser é real. Então, as faculdades têm a função de representar o ser dentro delas.

(Está bem assim?)

São duas as representações: SENSÍVEL e INTELECTUAL. Representação sensível e intelectual.

Vejam se está correto o que eu vou dizer:

Eu disse que quem habita a ontologia é o indivíduo, que tem a existência ― indivíduo é sinônimo de corpo. Todas as representações, ou melhor, toda a ontologia [é ontologia do corpo].

― O corpo é real? O corpo é real e pertence ao ser. Agora, vai aparecer um CORPO PRIVILEGIADO. Esse corpo privilegiado é o HOMEM ― que tem a capacidade de apreender o ser pelas representações sensíveis e pelas representações inteligíveis ou racionais. Logo, o intelecto e a sensibilidade são ou não corpos? Sim, são corpos.

(Entenderam aqui?).

Alª: Onde é que essa inteligibilidade habitaria?

Cl: Olha, aqui você teria dois processos ― que eu não estou dando a menor importância. Por exemplo, no Platão a representação racional são as idéias contempladas pela alma. No Aristóteles, essa representação intelectual é um processo que o sujeito humano faz no sensível, abstraindo do sensível o inteligível. Ele abstrai do sensível o inteligível.

(Ficou bem assim?).

O importante que eu estou dizendo aqui é que as faculdades são corpo, elas são corpo. Da mesma forma que objeto sensível e objeto inteligível são seres, ambos são seres. Quantos seres há em Platão? Dois. Duas metades. Agora, há uma faculdade, há uma série de faculdades que pertencem ao sujeito humano e a função dessas faculdades é apreender o ser. E o ser vai aparecer de duas maneiras: como sensível é inteligível. (Está certo?) Ele aparece dessas duas maneiras.

Quando nós vamos para os estóicos, eles acrescentam à filosofia do ser a filosofia do extra-ser. Nos estóicos o ser não é o suficiente, há outra metade. Essa outra metade é o extra-ser. Agora, quem apreende essa outra metade?

Alª: O pensamento.

Cl: Mas o pensamento aqui está do lado do ser. O pensamento não é um incorporal − o pensamento é tão ser quanto qualquer outra coisa.

(Ficou difícil, não é?).

Alª: Mas como é que ele vai apreender???

Nós temos que ver como! Mas o que eu estou dizendo é que as faculdades, todas elas, são necessariamente ser.

Alª: Mas aí estaria colocando o pensamento como uma faculdade? Não, não é?

Cl: Como faculdade, sim; como não? O que você entende por faculdade, Vera?  Não é Faculdade Estácio de Sá, não. Aí é outra coisa: faculdade são as forças do sujeito para apreender aquilo que está fora dele. Então, eu apreendo o ser pela sensibilidade, pela memória, pelo intelecto… apreendo-o de várias maneiras… porque eu sou dotado de faculdades! Mas essas faculdades ― isso que é o importante ― elas são corpo. As faculdades são corpo.

(Eu não tenho nenhuma pressa disso daqui. Porque a pressa vai arrebentar com vocês, e comigo também.).

Então, eu estou dizendo que do lado do ser estariam as faculdades? Que as faculdades estão do lado do ser? Claramente? E o que mais está do lado do ser? O indivíduo. Ou, numa linguagem filosófica, a substância e o acidente. Então, quando você quer falar do ser, você fala da substância, do acidente e das faculdades. (O que você achou?).

Então, toda faculdade é corpo. Toda faculdade é corpo; logo, toda faculdade é… ser.

Alº: Aí, então, ser, corpo e indivíduo no caso do Platão e Aristóteles é… sinônimos?

Cl: Se eles estão de acordo? Estão, tranquilamente!

― Agora, os estóicos não colocam o extra-ser?

(Não, Marcelo. Você não pegou bem aí?)

Alº: Eu não peguei quando que você fala que a faculdade é uma coisa para apreender o que está fora dela.

Cl: Fora dela. A faculdade é um corpo que apreende os corpos… Por exemplo, a minha faculdade de sensibilidade está te apreendendo agora. Eu estou te apreendendo e você está me apreendendo. As faculdades também são corpos.

(Esse que é o tema fundamental! Eu não posso nem abandoná-lo, enquanto vocês não entenderem!)

Porque o SER é sensível e… inteligível. Segundo quem? Segundo Platão.

Agora, tem que haver faculdades para apreender esse ser. Se não houver faculdades, como apreender o ser? Então, eu estou dizendo que as faculdades também são corpos.

― A inteligência é corpo? Sim. A memória é corpo? Sim. E o pensamento? Também. Mas acontece que nos estóicos vai acontecer uma coisa terrível: porque o pensamento ― que é corpo ― vai ter que entrar em contato com os incorporais, o extra-ser. Ou seja: o pensamento é que tem que apreender esse extra-ser; logo, o pensamento vai fazer uma viagem para o universo incorporal.

Para Aristóteles, isso é um escândalo, porque o Aristóteles só admite o… ser. Só admite o ser! Então, para Aristóteles não tem o menor problema: tudo é ser!

Agora, os estóicos estão levantando a idéia de extra-ser. Essa idéia de extra-ser, que é o… (foi bem —– a semana passada, não?) Esse extra-ser é o indivíduo? Não! É corpo? Não! Ele não é nem corpo nem indivíduo. Então, é evidente que, se no universo do ser só existe aquilo que é corpo ou que é individual, o extra-ser não cabe aí. E esse foi o grande procedimento teórico que abalou o universo aristotélico. Porque os aristotélicos só compreendiam três coisas: a substância, o acidente e as faculdades.

(Bom, o que vocês acham disso? Está uma perfeição, não está não? Fala, Lula:)

Alº: Quando você falou que as faculdades são corpos… foi no sentido literal. Então, isso me surpreendeu, porque eu sempre tive a impressão de que as faculdades são do corpo.

Cl: Mas não são corpos?

Alº: É porque eu sempre concebi as faculdades como uma atividade… do sujeito.

Cl: Atividade do sujeito: atividade corporal do sujeito!

Alº: Então, eu fico surpreso como uma atividade pode ser, em si, um corpo. Ela seria do corpo.

Cl: Não, não, ela não é do corpo: ela é corpo!

Alª: Mas ela não habita o corpo?…

Cl: Habita: um corpo que habita outro! Esse corpo, que são as faculdades, você não vai encontrar no homem da mesma maneira que você vai encontrar na formiga. Mas o mais difícil seria se você dissesse que as faculdades não seriam corpo. Descartes dizia isso; e morreu dizendo essa bobagem. As faculdades são corpo e elas vão ter como objeto delas um corpo… corpo.

Alº: Cláudio, eu poderia dizer que justamente por elas serem corpos é que elas podem apreender os outros corpos?

Cl: Exatamente! Se as faculdades não fossem corpo, elas não poderiam apreender o corpo de jeito nenhum! Porque o que está sendo dito aqui na filosofia dos estóicos ― e isso é definitivo! ― o que eles perguntam é: o que existe? E eles respondem brilhantemente: os corpos! E alguma coisa mais existe, não? Só existe o corpo.  Então, as faculdades existem? Sim, porque são… corpos. Então, é esse o universo do ser. É o ser, com as faculdades que o apreendem. Agora, quando os estóicos produziram o extra-ser, nasce uma pergunta: quem é que vai apreender esse extra-ser?

(Não sei se vocês entenderam…).

Alº: Tem que ser o extra-corpo, não é?

Cl: Não, tem que ser o corpo! Aí que vem a grandeza: tem que ser um corpo. Ou seja, os estóicos fazem a filosofia do ser, fazem a filosofia do extra-ser, mas colocam o apreensor do extra-ser como corpo. Então, nós teríamos aqui…

Alº: Isso é um desdobramento do pensamento no homem?

Cl: Não entendi, repete!

Alº: Você diz assim: até os estóicos se pensava o ser. A partir dos estóicos o homem começa a pensar com o seu pensamento, que é corpo, outra substância que é extra-ser?

Cl: Não, Não!

Alº: Precisa de uma faculdade para isso?

Cl: Precisa. O homem… as faculdades do homem estão preparadas para apreender o ser. A função delas é apreender o ser.  O que estou lançando aqui é um paradoxo: eu estou dizendo que existe uma faculdade que não vai apreender o ser, vai apreender o extra-ser ― mas é uma faculdade!

Al: Estou perguntando se teria sido desenvolvimento do pensamento…

Cl: aristotélico?

Alº: humano. Não sei se aristotélico…

Cl: Não… É esse “humano” que eu estou perdendo aí, Hailton. Eu estou perdendo a questão do humano.

Alº: Quer dizer: a produção de um pensamento de uma época… Os aristotélicos, os estóicos, os…

Cl: Não. Veja bem. Os aristotélicos dizem: o ser é sensível e inteligível, mais as faculdades. Pronto! Eles dizem isso. Os estóicos dizem: só existe… Qual a única coisa que existe para os estóicos? O corpo! Então, eles dizem: só existe o corpo! Então, o homem, assim como os outros seres vivos, está preparado para apreender esse corpo, está preparado para apreender o corpo. Agora, o fantástico, que o estóico vai dizer, é que existe alguma coisa que se chama extraser. Mas, se o extra-ser existe, o extra-ser é corpo; porque tudo que existe é corpo! Por isso, os estóicos vão dizer: o extra-ser não existe − ele não existe!

Alº: Foram eles que lançaram isso…?

Cl: Foram eles que lançaram isso!

Alº: Para negar…

Cl: Não, eles não queriam negar, negar não. Negar o quê? Eles queriam a positividade da vida deles. Você calcula um estóico, um homem de 95 anos de idade, vai querer negar alguma coisa! Não quer negar nada! Quer afirmar a vida dele! Não tem tempo pra negativo… não tem tempo pra dialética, não. A dialética fomos nós, que estávamos muito preguiçosos “aqui no século XX”, aí podemos fazer dialética. Agora, naquele tempo não havia dialética, não. Tinha que fazer comida, cuidar do dedão do pé… (risos…)

(Entendeu, Pepe? Então, veja…).

Literalmente, o ser, nos estóicos, é corpo.  É isso que vocês têm que tomar conta, se ainda não entenderam, eu recoloco: o ser nos estóicos é corpo.

Perguntem-me: é um corpo? Eu respondo: é o ser! [Perguntem-me:] É o ser? [Eu respondo:] É um corpo!

Alº: Então, os estóicos criaram alguma coisa que não existe?

Cl: Se eles criaram alguma coisa que não existe? Não acredito que eles tenham “criado”; acredito que eles tenham “encontrado”.

Alº: Encontrado alguma coisa que não existe?

Cl: Sim, encontrado alguma coisa que não existe!

Então, no caso de uma filosofia do ser, essa coisa que não-existe não interessa: [se] não existe, não interessa!

(Mas agora, vamos voltar: vamos ver se eu fortaleço vocês!)

Alº: Claudio, esse existir, o que seria esse existir, essa existência, a categoria de existência?

Cl: A categoria de existência… numa resposta, não de definição, mas numa resposta de exposição: a categoria de existência é sinônimo da categoria corpo. Só existe aquilo que for… corpo! Deus existe? Então, ele é… corpo!  Nada pode existir sem corpo: nada! Tudo que existe é corpo. Por isso que os estóicos, quando falam em filosofia do extra-ser, eles dizem: o extra-ser não-existe, INSISTE. Começam a aparecer categorias assustadoras, porque o extra-ser, o surgimento do extra-ser, é simultaneamente o surgimento de um paradoxo; e evidentemente os paradoxos são aquilo que as faculdades rejeitam.

(Entenderam?).

O maior inimigo das faculdades que foram dadas na filosofia do ser é o paradoxo: elas não aceitam, a razão não aceita o paradoxo. Mas o que eu estou colocando é que foi constituída, então, a filosofia do extra-ser. O extra-ser não existe ― ele insiste. Vou dar um exemplo:

Eu posso desenhar… se eu tivesse aqui um quadro-negro, eu poderia desenhar um quadrado? Se eu tivesse giz? Posso. Se esse quadrado aparece marcado nesse quadro-negro, significa que esse quadrado existe! Por que existe? Porque está aí, nós estamos vendo! Ninguém vai ter coragem de dizer que aqueles elementos que aparecem na tela do Mondrian não têm existência… Têm existência, claro! É corpo, pode ser desenhado.

(Entenderam?)

Então, é exatamente isso que é a filosofia do ser, é tudo aquilo que existe. Agora, você pega, vamos tentar pra vocês me responderem:

― Por essa definição que eu dei, o quadrado existe? Existe!

(Marcelo, você entendeu?)

Então, os estóicos vão colocar a seguinte questão: o círculo quadrado existe?

(Respondam como vocês quiserem. Vê se alguém acha que existe.)

Olha, ele não existe, não é? Mas eu posso dizer que as duas propriedades do círculo quadrado são o circular e o quadrado? Ou não?

(Não ficou bem? Não ficou bem? Esses dois aqui não entenderam. Vejam bem:)

― Eu posso desenhar um quadrado? Posso. Tudo que eu posso desenhar, da maneira mais fácil possível, tem um sinônimo: existência; aquilo existe!

Agora, um círculo-quadrado… Tentem desenhar no quadro um círculo quadrado… ou no papel, aí… Não pode; por quê? Porque o círculo quadrado não existe, não é corpo. Embora ele não exista, ele tem duas propriedades: o círculo e o quadrado.

(Vejam que coisa empolgante!)

Alª¹: Então, ele é um extra-ser.

Cl: Ele é um EXTRA-SER!

Alª¹: Ele não existe, mas tem propriedades.

Cl: É isso que é fantástico: ele não existe, mas tem propriedades! E tudo aquilo que tem propriedade é real. Então, está aparecendo um REAL NÃO-EXISTENCIAL.

(Ficou bem?).

O real não-existencial. Esse real não existencial (vocês marquem se quiserem) é chamado por Bergson de VIRTUALIDADE. É chamado pelo Husserl de NOEMA. Então, vários tipos de filosofias vão lidar com esse incorporal, vão lidar com ele. E a primeira coisa, a coisa mais majestosa, é saber que o círculo quadrado não-existe, mas tem propriedades.

(Então, agora, prestem atenção:)

― Eu posso dizer que o quadrado que eu desenhei no quadro é real? É real. Então, aquilo que foi desenhado no quadro é real.

― Agora, o círculo quadrado é real? Atenção!

Cl: É! Mas só que não é o real individual, é o real singular: são DOIS reais. Prestem atenção!

Alº¹: Porque.. é… o extra-ser…

Cl: Espera aí, Ricardo, pra você entender bem, pra você entender: o ser e o extra-ser marcam uma diferença. Todo filósofo vai dizer que o ser é real; e não vai dar importância a outra coisa que não seja a realidade. Os estóicos não, os estóicos dizem: o real é o corpo e também o incorporal. Mas o corpo existe, e o incorporal não existe. E o incrível, que eles vão fazer, é que eles vão dar privilegiar essa filosofia ― a filosofia do extra-ser. Fundando uma filosofia da linguagem… fundando uma teoria do tempo… porque eles estão jogando essa figura chamada extra-ser, que não tem nenhuma existência, para o universo do pensamento.

(É dificílimo, não é?)

Alº²: Mas é real.

Alº¹: Então, círculo quadrado pode ser real, mas ele não existe!

Alª: É um real não-existente.

Cl: Real não-existencial.

Alª²: Cláudio, se eu desenho um círculo é uma atualização do círculo quadrado?

Cl: Não, você não consegue atualizar o círculo quadrado de jeito nenhum!

Alª²: Não, não, não. Mas o círculo e o quadrado…

Cl: Não, não. O círculo…

(fim de fita)

Parte II –

(…)

A filosofia clássica identifica o real à existência. Mas os estóicos disseram que o real tem uma metade existencial e uma metade não existencial.

(Agora, atenção para isso. Atenção!).

Se um objeto existe no mundo independente da minha vontade; essa xícara, por exemplo, existe independente da minha vontade. Se ela existe independente da minha vontade, ela é real ― porque ela existe nela mesma: não precisa de mim para existir. Agora, aí vem a confusão do Aristóteles:

― E o círculo-quadrado, pode existir no real? Não. Não, o círculo-quadrado não existe, não tem consistência para isso.

― Mas ele pode habitar a minha representação? Pode? Não, também não. Porque a minha representação não consegue produzir um círculo quadrado. Ela não pode representá-lo. O círculo-quadrado é irrepresentável: não há como representar “montanha sem vale”, “círculo-quadrado”, “Collor inocente”… (Risos)… porque são categorias que se opõem; não entram: não é possível!

Então, é exatamente o ser dessa figura ― o exemplo é o círculo quadrado ― que vai habitar esse extra-ser. Usando uma linguagem melhor para nós: no ser está o indivíduo, a substância, o acidente e as faculdades. Isso é do ser.  No extra-ser só está o incorporal. Dois exemplos de incorporal, para nós começarmos, dois exemplos só: o tempo e o vazio.

Alº: E o incorporal?

(Foi bem assim? Foi bem, Hailton?).

Alº: Você tem outros exemplos?

Cl: Além do círculo quadrado?

Alº: Não, além do tempo e do vazio…

Cl: Tem mais, sim. Eu não posso introduzir já, mas tem mais. Tem um que é fundamental. Um dos incorporais é o SENTIDO. E isso daí abala a teoria da psicanálise, porque a psicanálise constitui a linguagem em função do significante e o significante é um… corpo. É um corpo existente, é um corpo existencial. (Está bem, Cláudia?).

Alª: O significante é corpo?…

Cl: É corpo! O significante é corpo. Olha, você é capaz de ouvir uma palavra?… Vou falar para o Pepe, [que é argentino]: Maradona. (Está certo?). (Risos). Eu produzi essa palavra [Maradona] e essa palavra é um corpo. Ela é um corpo. Por isso a teoria que Lacan adotou é tornar a linguagem um corpo e o significante é o princípio e o fundamento da significação. Está teoria que eu estou fazendo mostra que o significante não é fundamento de nada, não é fundamento de nada! Nós teríamos dois setores: o setor do ser e o setor do extra-ser.

― Quais são os dois elementos com que eu preenchi o campo do extra-ser? O tempo e o vazio.

Mas acontece que os estóicos agora vão fazer a coisa mais bela da obra deles. Eles vão pegar as três dimensões do tempo: presente, passado e futuro. Pegam essas três dimensões, passam uma linha e botam de um lado, o presente; e, de outro lado, o passado e o futuro. Ou seja, tudo aquilo que existe, existe no mundo presente.

(Tentem agora comigo, por favor!).

Tudo aquilo que existe, existe no… presente. (Certo?). O que está fora do presente não-existe: não tem existência. (Certo?)

Então, o problema começou a surgir agora, porque se nós mantivermos essa posição, com a maior tranqüilidade ― a identificação da existência com o corpo ― as coisas vão ficar muito fáceis, muito fáceis. E é a existência do corpo que vai permitir a figura chamada representação: Representação sensível e representação inteligível. São as duas representações que você faz do real.

Mas, digamos que os estóicos fossem pintores; seriam pintores enlouquecidos! Porque a pintura trabalha com o quê? Com o ser, a pintura é ser, é uma massa: se botar a mão suja, você sai todo sujo de amarelo, de vermelho… Então, qualquer coisa que aparece numa tela pictórica é ser. Qualquer coisa que aparece na música é ser. Mas os estóicos vão dizer: o ser não é recoberto pelo indivíduo. Então, está lá o extra-ser. O extra-ser está aí.

Então, é preciso pensar esse extra-ser. E é isto que nós vamos fazer. É isso que nós vamos tentar fazer no momento em que eu me sentir mais seguro de que vocês já têm bem dominado o pouco que eu dei, é claro, da filosofia do ser. Que vocês a têm dominada, sabendo-se que ser é igual a corpo, e é invariável. (Certo?). E agora, do lado do extra-ser apareceu o tempo e o vazio.

― Agora, há tempo do lado dos corpos?

Alª: Presente, passado e futuro.

Cl: Não senhora, só o presente. Vera, você imagina que lá, no passado, está o cavalo Albatroz, que ganhou o Premio Brasil, acho que em 1950, que ele está lá no extra-ser? Não, minha filha: sendo corpo só pode estar no presente. Aí você me pergunta: e se inventarem uma máquina do tempo? Tudo bem, tudo bem. Quando o seu corpo aparecer lá no futuro, futuro para ele é presente. Ou seja, a pele do presente é a pele do corpo. O corpo, necessariamente, está incluído no presente do tempo.

Alº: Passado e futuro são representações do corpo presente?

Cl: Passado e futuro… Sim e não. Sim e não. A única coisa que eu posso dizer agora é que tudo que está do lado do passado e do futuro não existe. Não existe.

(Estão indo bem? Hein?)

Alª: Eu acho que sim.

A alma, por exemplo, para o cristianismo, é incorporal. Os estóicos quando ouviam isso morriam de rir, literalmente, de tanta asneira, tanta asneira! Porque esse pensamento é pra romper com a asneira, arrebentar com a asneira.

Então, o corpo é o ser, e é exatamente o corpo ― que é o ser ― em que o pensamento tem que penetrar para fazer ciência. A ciência é sempre ciência dos corpos. (Certo?) Evidentemente que, quando a matemática vier, no século XV, século XVI, século XVII, se juntar à física para fundar a física-matemática, a matemática também é corpo, também é um corpo. Corpo que você pode, inclusive, fazer uma equação e demonstrá-la.

Alª: Claudio, só existe corpo no presente…?

Cl: Se os corpos não desaparecem?… Essa é uma pergunta quase que fundamental em todas as filosofias. Você está envolvendo o corpo na teoria da CAUSA EFICIENTE.  Como é que um corpo pode se manter existindo? Descartes teve uma dúvida terrível e produziu a seguinte solução: os corpos estão sempre existindo, porque Deus não para de criar. A cada instante Deus está criando.

Alª: Sim, mas aí existiriam corpos diferentes —–Porque… com essa teoria de Descartes ele estaria explicando o nascimento dos corpos novos, mas não a permanência dos corpos.

Cl: Não, Descartes está pensando a permanência.

Alª: Então, ele está o tempo todo produzindo esta cadeira.

Cl: Não, esta cadeira existe independente dele.

Alª: De Deus?

Cl: Ah! No caso de Deus?… No caso de Deus, sim.

Alª: A explicação que Descartes deu para isso é que Deus estaria criando o tempo todo? Não é isso?

Cl: É. Isto se chama CRIAÇÃO CONTINUADA. (Podem até marcar:) criação continuada.

Mas o importante aqui, e vocês não estão se remetendo, é o extra-ser. Saber o que é exatamente esse extra-ser. Porque pelo extra-ser é que nós vamos entrar numa filosofia diferente, não vamos ficar no regime aristotélico. Então, eu acho melhor, estou vendo que é melhor, apertar mais um pouco Platão e Aristóteles e voltar com os estóicos de maneira mais poderosa. Acho que é a melhor maneira que eu posso fazer. E aqui fica muito fácil:

― A filosofia platônica fez uma divisão do ser. Ela faz essa divisão em sensível e inteligível. E Aristóteles a retoma integralmente! Então, Aristóteles vai ser um pensador do REAL CORPORAL.

Mas os estóicos lançaram uma figura nova ― o VAZIO e o TEMPO ― chamada EXTRA-SER. Eles lançaram essa categoria. E essa categoria nova tem tempo; mas passado e futuro. O presente está do lado do lado dos corpos. Você começa a cortar: o presente do lado dos corpos; e o passado e o futuro do lado dos incorporais. (Essa passagem vai ser difícil!) E os estóicos vão começar a construir os operadores teóricos para o entendimento do incorporal: do que é, exatamente, o incorporal!

(Como é que está esta aula, hein? Você acha que está indo bem? Cláudia, Cacau, está bem aí?).

Eu coloquei dois elementos no extra-ser. Coloquei passado e futuro; e o vazio.

Alª: Tempo e vazio.

Cl: É, você pode dizer tempo e vazio. Você usou uma frase ideal: tempo vazio do lado dos incorporais; tempo cheio do lado dos corpos. O presente é cheio de corpo. Todos os corpos que existem estão no presente. Inclusive, aqueles que estão na Rússia, estão no Japão, estão em Bogotá, estão em Hollywood… Tudo está presente. (Romário está lá). [Nota: esta aula foi dada em maio de 1994]

Alª: Tempo vazio e tempo cheio…

Se nós começamos a liberar essa questão do extra-ser significa que, queiramos ou não, nós temos que entrar nele. Mas eu vou entrar muito devagar, usando meus processos pedagógicos por causa da diferença nítida de interesses desse grupo que está aqui. Tem de tudo aqui, (não é?): físico, matemático, teórica e prática das artes visuais ― a admirável Márcia. (Ela não gosta que eu fale, mas é fantástico o trabalho dela!). Tem arquiteto, tem gente de cinema aqui e todo mundo tem que dar conta disso nesse caminho. A função de ficar com tudo é minha: eu escolhi esse martírio.

Então, nós vamos entrar na filosofia do extra-ser.

(E, agora, eu peço o seguinte: sempre que alguma coisa do ser vier preocupá-los, digam para mim, que eu vou resolver).

A partir do século XIX os estudantes de filosofia fizeram uma marca ― que a filosofia começa por Platão. Então, aqui está o Platão e o que está para lá de Platão. O que está antes de Platão, chama-se pré-socrático. O que o pré-socrático é basicamente? Anterior a Platão. (Certo?) Mas quem é o fundador da filosofia é Platão. Isso é muito estranho! Eu não vou me interessar por isso já. Vou me interessar pelo fato de que, no Platão, tem o sensível e o inteligível, e as faculdades apropriadas para isso. E os estóicos lançaram a “existência” do extra-ser ou incorporal. Então, o mais problemático aqui, que eu já estou sentindo que eu vou ter que variar muito nessa aula, é que ― aquilo que apreende o incorporal é o corpo. Incrível! Quem apreende o incorporal é o corpo. Agora, perguntem aos estóicos: a alma existe? Eles vão responder: existe. Logo, é… CORPO. É corpo. E eles dão lindos exemplos:

Se você fizer um galanteio para uma moca tímida, ela vai ficar toda ruborizada. Esse rubor vem do corpo dela. (Certo?).

Agora, o que não é corpo é incorporal. E é esse incorporal com que nós vamos navegar ― não sei por quanto tempo ― para fazer uma nova teoria das artes, uma nova teoria da literatura, uma nova teoria da arquitetura, uma nova [investida] pela matemática através dos incorporais. Ou seja, a filosofia que introduz o extra-ser.

O extra-ser é aquilo que não existe. Evidentemente que vocês têm que ter uma curiosidade e a gente distinguir o que existe e o que não existe. (Certo?).

Alº: Aquilo que insiste: que não existe, mas é real.

Cl: É real. Nós vamos chegar lá… Vamos chegar! Há uma chave muito forte, porque foi dito pelos aristotélicos, platônicos ― e eles não vão abrir mão disso ― que o que existe é o individual. Só o indivíduo existe. E isso vocês deviam marcar, porque é o fundamental.

― O que existe? O indivíduo!

― Então, o gênero e a espécie existem? Não é indivíduo, não existe; e isso é radical! E é verdade mesmo, não estão brincando. O que está aqui no mundo são os indivíduos físicos e os indivíduos biológicos. Se vocês quiserem ouvir uma linda aula sobre isso, o Luiz Alberto, que é um físico quântico, pode dar.

Então, o indivíduo é real; ou melhor, é o único real. Todo corpo é… individual.  E os estóicos, então, lançam essa figura chamada extra-ser ― e no extra-ser não pode haver indivíduos.

(Como é que está, Marcelo? Olha, lá, hein? Quando estiver ruim, avisa).

Então, no extra-ser não pode existir… indivíduos. Mas o extra-ser tem alguma coisa lá dentro ― que nós vamos chamar de SINGULARIDADE, para começar o nosso trabalho. O indivíduo do lado do ser; a singularidade do lado do extra-ser.

― Com que forma do tempo mexe a singularidade? Passado e futuro.

― Com que forma de tempo mexe o indivíduo? Presente.

Então, vamos colocar assim, que vai dar uma clareada fantástica para nós: vamos dizer que o mundo dos corpos existentes é o mundo da ciência; e o mundo dos incorporais inexistentes é o mundo da filosofia.

(Não sei se foi bem aqui).

A ciência trabalharia com… corpos. Sempre com corpos! Enquanto que no extra-ser não haveria nenhum corpo, seriam as singularidades. Essas singularidades e o individual… Todo individual é… existente. Tudo que existe tem uma FORMA. (Isso é literal!). Logo, o que está do lado do extra-ser é AFORMAL.

(Está bem assim, Márcia? Eu achei que sim, não é?).

Alº: O que está do lado do extra-ser é aformal, não pode ser representado…

Cl: Não tem forma nenhuma. Não pode ser representado, é aformal, porque o que fundamenta o extra-ser (vai ser bastante difícil aqui!) é a potencialidade elevada ao grau máximo. Eu ainda não posso explicar isso.

Por que eu não posso explicar? Porque o indivíduo tem uma forma. E esse extra-ser não tem forma. Então, ele é apavorante, porque a noção de singularidade é ― literalmente ― aquilo que não existe e não tem forma.

(Eu acho que vocês deveriam marcar!)

Isso tudo vai gerar uma mutação imensa na forma do pensamento. Inclusive, se você for um literato e for mexer com esses incorporais, você vai ter que modificar o diegético e a… descrição. São dois mundos diferentes, mas são dois mundos diferentes em que um necessita do outro.

(Vocês estão preparados para entrar, vocês acham, pela explicação, que já está dando para entrar? Porque senão a gente deixa isso pra a aula que vem, melhora um pouco mais essa questão do ser. Certo?).

Uma coisa vai ser muito clara… Olha só, eu disse que o pensamento é que tem que dar conta do extra-ser. Ele que tem que dar conta, não tem jeito. O extra-ser não tem nada a ver com os corpos. Mas… esse extra-ser, é ele que vai ser a GÊNESE do indivíduo e do sujeito do conhecimento.

(Que temática dificílima que eu coloquei agora!)

― Existe uma causa para que os indivíduos estejam aí? Existe uma causa para que um sujeito humano esteja aí? Sim, as singularidades! Porque essas singularidades são GENÉTICAS, são PRODUTORAS ― mas não têm nenhuma forma.

Então, sempre para melhorar a nossa compreensão e o nosso instrumento de trabalho, vamos colocar: os corpos têm como propriedade a EXTENSÃO. A extensão é uma propriedade do corpo (Certo?). Agora, no incorporal não há extensão, mas há INTENSIDADE.  (Então, só pela maneira que eu estou dizendo, vocês estão vendo a dificuldade). Então, a categoria de intensidade e a categoria de extensão não se recobrem ― o ser intenso é o incorporal.

Alª: Então, a gênese dos seres é o extra-ser?

Cl: É o extra-ser! Que, numa linguagem mais moderna, chama-se TRANSCENDENTAL. (Marquem isso!).

Porque, então, eu estou dizendo para vocês que o mundo não se esgota no ser, não se esgota no indivíduo, implica também a presença do extra-ser. Mas o extra-ser… (O que é? Fala lá).

Alª: Onde é que entra o transcendental? O transcendental é o quê, o extra-ser?

Cl: É o extra-ser. Porque aqui vocês têm que começar a verificar uma coisa interessantíssima que estou dizendo: o real é constituído de indivíduos (certo?), mas eu posso fazer uma representação desses reais dentro de mim. Eu posso representá-los. Agora, o incorporal é IRREPRESENTÁVEL: ele não pode ser representado. É o que se chama a IMAGEM VAZIA DO PENSAMENTO. Ele é um vazio ― e você tem que dar conta dele. Tem que entrar para dar conta. Isso eu chamei de transcendental, então, eu posso dizer agora, não à maneira platônica, que existiriam dois mundos: o mundo do individual; e o mundo do transcendental. O mundo empírico e o mundo transcendental.

Vamos dizer que eu… vamos dizer a Vera. A Vera é uma literata; ela vai escrever sobre um indivíduo, um sujeito ― ela, aí, está fazendo uma literatura dos corpos. Agora, se ela quiser fazer uma literatura fora do mundo dos corpos ― ela tem que mergulhar nesse incorporal, mergulhar na intensidade. Intensidade não é uma coisa muito difícil de entender…

Alº¹: Claudio, nesse caso literário…

Alº²: Vem cá, se eu digo que o presente são os corpos, (tá?) e o tempo é incorporal, a pele do presente é a pele do corpo, não é? Então, as singularidades, nesse passado e futuro, habitando esse passado e futuro, é que fariam a intensidade do presente?

Cl: Sem dúvida, sem dúvida! Só que você colocou a “intensidade do presente”, e aí complica um pouco ― porque a intensidade não está no presente. Não está!

Alª: Você não ia dar um exemplo de intensidade?

Cl: Não, eu vou trabalhar [nessa noção]! É porque eu não tenho nenhuma pressa: quanto mais vocês dominarem, melhor pra mim.

Alº¹: Você começou a falar sobre a literatura… de não ter forma… tem um exemplo prático??

Cl: Olha só… vamos ver aqui, vamos ver. Fernando Pessoa criou uma figura que o imortalizou. Qual foi? O HETERÔNIMO. Essa figura do heterônimo imortalizou o Fernando Pessoa. O que é exatamente um heterônimo? O que é isso? O heterônimo é um conjunto de singularidades. O heterônimo é a intensidade, é a força. Há uma preocupação muito grande dos grandes leitores, dos poderosos leitores do Fernando Pessoa, para distinguir a intensidade do extenso, fazer essa distinção. Porque a intensidade está do lado do incorporal. O incorporal ou heterônimo… quando eu produzo um heterônimo, se eu fosse Fernando Pessoa e estivesse produzindo um heterônimo, esse heterônimo não existe, nenhum heterônimo existe. Mas, em compensação, o heterônimo é um conjunto de singularidades. Inteiramente autônomo em relação a mim, [ou a quem o produzir].

Então, a teoria da heteronímia, a heteronomia é um componente não corporal da vida. É só ler o Fernando Pessoa… Leiam o Livro do Desassossego ou, então, a Metafísica das Sensações do José Gil e imediatamente vocês vão compreender. Porque quando o Fernando Pessoa construía os heterônimos, ele não estava construindo pseudônimos, ele estava trabalhando com o ser; mas, você bota um binóculo, bota uma faquinha ou, então, um preparado químico para segurar o heterônimo, que você não segura! Por quê? Porque ele não existe! Não adianta você querer operar o heterônimo, você não consegue, ele não existe. Não existe! Mas nós vamos verificar que a marca brilhante da literatura inglesa, a grande literatura do universo, é que ela trabalhou em excesso com heterônimos ― que é alguma coisa completamente diferente de indivíduo existencial.

(Está indo bem?)

― Então, o indivíduo é um existente, dotado de forma? Necessariamente todo campo do individual é formal.

E, aí, quando eu digo é formal e eu vou trabalhar no campo das singularidades, as singularidades são A-FORMAIS. Mas o aformal não é o negativo, é uma POSITIVIDADE.  Ou seja, a positividade não se esgota no indivíduo. Essa foi a frase fundamental destes dez minutos finais, hein? A positividade; eu não estou falando em dialética, em tese, em antítese, em nada disso! Eu estou dizendo que existem duas positividades: a positividade do individual e a positividade do singular. O indivíduo é um sistema: sistema esse que só pode emergir em função das forças singulares.

(Vamos tentar aí. Acho que eu vou tentar… Eu vou ter coragem e vou tentar, ver se dá certo, se não der, eu volto outra vez . Tá?).

Há uma afirmação que se chama ESPIRITUALIZAÇÃO DO REAL. Isso é um enunciado do Leibniz: espiritualizar o real. Ou seja, não dizer que o real é constituído de matéria, e só! É um enunciado contra o materialismo! (Dizem os maus leitores: é um enunciado idealista. Não é nada disso!). É porque o Leibniz está construindo uma filosofia em que o pregnante é o ESPÍRITO ― não a matéria! Chama-se a “espiritualização do real”.

Agora, quando o Leibniz faz essa espiritualização do real, em seguida, ele FRAGMENTA o espírito. O real é uma espiritualização fragmentada. Logo, cada espírito que existe é uma MULTIPLICIDADE de MÔNADAS.

(Ninguém fique preocupado com mônadas, eu vou explicar tudo!…).

São as mônadas. Então, é um conjunto de mônadas, que, como sinônimo, pode ser chamado de EU LARVAR. Quem já ouviu falar em Samuel Beckett? Toda a obra de Samuel Beckett é para falar dos eus larvares.  Por isso que um homem [comum] ao assistir a uma peça do Samuel Beckett só aguenta doze minutos. Enquanto dura a pipoca, ele está no teatro. Acabou a pipoca, ele vai embora. Compra outra na rua e vai embora! Então, cuidado com os comedores de pipoca, porque eles não vão até o fim. Não têm pique para ir até o fim. (risos)

(Não sei se vocês entenderam…)

Nós temos, então, dois reais: o indivíduo e o singular. Suponhamos, como exemplo, que um literato vá tentar falar do singular. Vocês têm um exemplo, Virginia Wolff. Que ela vá falar dessa singularidade. Nós temos que ter sempre os dois quadros abertos: o do lado do indivíduo e do sujeito; e, do outro lado, essa singularidade. Então, essas singularidades… isso que você chamou a atenção foi sobre o quê, para falar sobre a singularidade?

Alª: Sobre intensidade!

Cl: Intensidade. A espiritualização do real foi feita por quem? Leibniz. E ao espiritualizar o real ele fragmentou o espírito? Ele fragmentou em quê? Em mônadas. Nós vamos ter que estudar as mônadas.

Alª: Essas mônadas têm alguma coisa a ver com os eus…

Cl: larvares? É a própria!

Alª: Sim, mas com os animistas?

Cl: AH! sim, com o animismo, claro! Claro! Olha, quando a gente começar a trabalhar no animismo, quem vai-nos ajudar muito é o Luiz Alberto. Mas, sim, o eu larvar é animismo. Então, o que está sendo dito, pelo Samuel Beckett e, muito estranhamente, esse francês, o Robbe-Grillet, também diz a mesma coisa, é que você pode fazer uma literatura do indivíduo ou uma literatura do singular. Se você quer fazer uma literatura do singular, mergulhe no tempo. Você vai ter que, necessariamente, libertar o tempo das prisões feitas por Aristóteles e Platão. Tornar o tempo livre. O que nós fizemos com o tempo? Passamos uma linha, colocamos uma dimensão de um lado e duas dimensões do outro.

(Não foi isso, Ricardo? Foi isso.)

Então, do lado da linha você tem o presente do tempo, você tem o corpo, você tem o indivíduo, você tem as tensões físicas, tem as qualidades e tem a ação e a paixão…

― Quem é que age e padece? Para agir, o que você tem que ter?

Alº: Um corpo.

Cl: E para você sofrer?

Alº: Também.

Então, as singularidades nem agem nem padecem. É quase enlouquecedor! As singularidades não agem nem padecem, porque a ação e a paixão são componentes do corpo. Vamos dizer, se daqui a um mês ou um mês e meio nós conseguirmos um desenvolvimento muito grande e passarmos a entender isso, necessariamente eu vou fazer um texto de singularidade para a Márcia dançar pra gente: a dança do singular. Será que Carolyn Carlson fazia isso? É capaz!

(Claudio trocou os nomes, corrigiu e, rindo muito, comentou que, certa vez, ao falar de Ricardo III, do Shakespeare, numa conferência. chamava-o insistentemente de Ricardo Teixeira. (Risos, risos). Depois acrescentou: porque passa… porque as palavras são arbitrárias, você está viajando no espírito, aquilo vai passar mesmo.

(Está bem assim?).

Alª: Você falou que o corpo age…

Cl: Age e padece.

Alª: Age e padece. O singular, então, vai contemplar. É isso?

Cl: Ele contempla. Olha, foi a melhor resposta que você deu. É exatamente isso!  Nós temos que fazer o quê? Eu estou acostumado com os meus alunos. Eu não vou chegar aqui e disparar uma singularidade. Se eu disparar uma singularidade, morrem vocês e morro eu. Eu vou governar o problema do indivíduo, da existência, do corpo, para depois nós sairmos disso. Vou governar, para nós termos o domínio integral disso.

Alª: O tempo estava no presente, aquilo é corpo

Cl: É corpo. Do lado oposto? Passado e futuro.

Alª: Mas aí, o que mais?

Cl: Inicialmente o incorporal… (isso eu vou explicar, vocês vão entender perfeitamente), não há presente no incorporal, só há passado e futuro. (Talvez eu já explique isso hoje!). O que mais existe no incorporal? “Existe” (entre aspas), porque lá nada existe. O VAZIO e… agora vem a bomba… O SENTIDO. Então, necessariamente, a fundamentação disso que estou dizendo vai implicar numa teoria da literatura, numa teoria da linguagem, talvez até numa teoria pictural…

Alº: O vazio e…

Cl: O vazio, o tempo, ― enquanto passado e futuro ―, e o sentido.

Alª: E o atemporal?

Cl: O atemporal é a eternidade. (Certo?) O atemporal é a eternidade.

Você quer saber se os estóicos estão mexendo com a eternidade? Não, eles estão mexendo com o TEMPO PURO e com o TEMPO PRESENTE. Quem vai mexer muito com a eternidade é Proust, etc. A questão dos estóicos é essa separação que eles fizeram: de um lado está o presente, de outro lado…?  Passado e futuro. Vou ler o texto:

Alº: O que é sentido?

Cl: Vamos entrar, vamos entrar…

Alª: Por aqui você vai dar uma entrada na questão dos passageiros e dos reféns…?

Cl: Aquilo é, mas é muito fraco! Tem que ser mais poderoso… Assim não dá!

Alguém aí tem a Lógica do Sentido?

(Vamos entrar no incorporal, não faz mal se a dificuldade for muito grande. Não liguem para isso, eu vou arrumar! Eu vou entrar no incorporal, porque senão a gente fica perdendo tempo.)

(final de fita – perdemos a leitura do texto!!!)

início fita (…)

Todo indivíduo vivo, necessariamente, pertence a uma espécie. Todo indivíduo vivo pertence a uma espécie. Por exemplo, passou um cachorro aqui, ele é um indivíduo vivo que pertence à espécie cachorro. Todo indivíduo vivo pertence a uma…? Espécie.

(Intervalo para o café: vou descansar dois minutinhos… Tive um abatimento súbito!)

Parte III –

(— esse —) na filosofia, o melhor é nós entrarmos no incorporal. Aconteça  o que acontecer, nós vamos entrar. Temos que entrar, não tem jeito! Quem não conseguir, não estiver acompanhando, é só fazer perguntas, para a gente poder organizar bem isso).

Torna-se algo demoníaco para o pensamento, a presença de alguma coisa a mais que o ser. É diabólico: o pensamento perde a sua comodidade. O pensamento tinha uma comodidade muito grande porque ele raciocinava a partir de três princípios, que ele pressupunha para compreender as coisas. O pensamento lidaria com o princípio de identidade, o princípio de não-contradição, o princípio do terceiro excluído e também com o princípio de causa eficiente. Mas… se nós vamos abandonar o corpo, não vamos abandonar o corpo, vamos partir para o incorporal, o que nós vamos ter que aprender, esse aprendizado é imediato: se um componente serve para o corpo, não serve para o incorporal.

− O “Princípio de contradição” serve para o corpo?

Alº: Serve.

Cl: Logo, não é incorporal. “Ação e paixão” ― serve pra quem?

Alª: Corpo.

Cl: Logo, não é incorporal.

Chamam-se as definições negativas, que são processos muito brilhantes para se compreender alguma coisa. Jogos de crianças: as crianças jogam muito essas coisas. Por adivinhações… fazem adivinhações, excluindo determinados elementos… Pra você compreender aqueles elementos que você não tem condição de dar definições positivas. Então, você começa a fazer definições no sentido de: não é isso, não é aquilo, não é não sei o quê…

Então, nós chegamos aqui: o incorporal não é corpo, o incorporal não existe. Isto não define o incorporal.

Alº: Por eliminação, não é?

Cl: Vamos dizer que seja. Não define, mas por eliminações você vai começando a entrar.

Então, esse incorporal contém dentro dele vazios, contém dentro dele o tempo puro (certo?). É vazio (prestem atenção! Não faz mal se vocês não compreendem completamente!…), vazio, passado e futuro chama-se ACONTECIMENTO. O acontecimento é um fenômeno corporal? É um fenômeno do corpo?Não. O acontecimento é um fenômeno incorporal. Incorporal.

Alº: Vazio, passado e futuro…

Cl: Não tem corpo.

Alº: Qual a definição que você deu?…

Cl: Eu não dei nenhuma! Eu trabalhei com a negação.

Alº: Você deu uma palavra…

Alª¹: Incorporal

Alª²: Acontecimento.

Alº É um acontecimento!

O acontecimento é uma figura do pensamento que nada tem a ver com os corpos, mas os corpos não existiriam se não fosse ele. Ele nada tem a ver com os corpos, mas ele é o fundamento dos corpos. Eu vou dar um exemplo pra vocês.

Alª: O acontecimento é a gênese?

Cl: É. É. É a gênese. O acontecimento é alguma coisa genética, sem duvida nenhuma, mas ele não é corpo.

Alª: Ele é antes do corpo…

Cl: Antes do corpo.

Al: Pré-vida, no caso. É a intenção…

Cl: Não. Intenção, não. Intensidade. Márcia, intenção (quer escrever?) escreve-se com ç. Intensidade é com s. Intenção é uma coisa; intensidade é outra. Então, essa intensidade pertence à singularidade, não pertence aos indivíduos.

Nós temos é que pegar o incorporal e povoá-lo. O que quer dizer povoar? Que elementos podem penetrar dentro desse incorporal? Eu tenho dois aqui: passado e futuro. Olha, se o tempo está do lado do incorporal, ele vai para o passado e vai para o futuro… ao mesmo tempo?

(Não entenderam?).

O tempo, segundo o modelo do presente, é a flecha do tempo. Quer dizer…

Al: Num sentido só.

Cl: Num sentido só! Por causa desse sentido só, a Márcia, tendo 21, não pode fazer 20 anos: ela só pode fazer 22. Por quê? Porque a flecha só vai pra frente. Quer dizer: não há meios de se diminuir o tempo corporal, que é o presente. Se você tem 30 anos, vai fazer 31.  Ou seja, a flecha do tempo, ou o presente do tempo, caminha numa única direção.

(Não sei se vocês entenderam… Está bem claro, hein, Tatiana? Caminha numa direção só.

Agora, no incorporal o tempo é assim. Ele é assim. [gesto apontando duas direções] Então, eu faço ao mesmo tempo trinta e trinta e dois anos. Eu tenho trinta e um, faço trinta e trinta e dois ao mesmo tempo. Por quê? Porque no incorporal o tempo são duas linhas, duas linhas infinitas.

(Entenderam aqui?).

Enquanto que o tempo, no regime dos corpos é presente; é o presente!

Al: Não é uma bifurcação não, não é?

Cl: Não entendi o que você falou…

Alª: Se o tempo no incorporal é bifurcação?

Cl: Ele é, é bifurcação. Claro, é claro! Olha, o que nós vamos fazer não vai ser muito difícil. Nós vamos dar conta do incorporal, vamos dar conta do corpo e vamos descobrir uma coisa: que nós não podemos pensar nada sem o incorporal. E ele está trazendo para nós umas figuras muito fortes que são passado e futuro… Vamos lá:

― O passado existe? Não, o passado não existe.

― O futuro existe? Não.

Mas agora, o que eu estou colocando para vocês… Vejam o paradoxo: eles não existem, mas insistem. É essa que vai ser a dificuldade para a gente passar. Porque é isso que os estóicos levantaram, que Bergson levantou, o próprio Heidegger se aproximou disso. É… as duas leituras do tempo. Nós vamos ter uma fixação obsessiva nisso, ― fazer as duas leituras do tempo ―, para dar conta.

Alguém tem aí Diferença e Repetição?

Este livro que está aqui: Diferença e Repetição é o livro mais exuberante de teoria da ciência e da filosofia que existe. Então, o elemento fundamental desse livro é o tempo. Pensar o tempo! Então, quando nós estamos pensando o tempo nós temos, de um lado o presente e do outro lado, passado e futuro.

Alguém me perguntou sobre bifurcação. Quem foi? Foi Vera? O tempo incorporal bifurca. Bifurca e ― segundo a Cacau, e eu concordo com ela ― ele é coexistente: ele não passa! Ele não passa, tem uma coexistência. O que estou dizendo aqui? É que nós sempre pensamos o tempo segundo o modelo do presente. Nós vamos sair do modelo do presente, para dar conta do tempo no passado e no futuro. E, através daí, nós vamos compreender o que é o vivo, o que é o sujeito do conhecimento, etc. Porque não se consegue entender essas questões fora do incorporal. Aqui neste livro…

― Vê se a pág.361 é o Boltzmann… Alª: É!

(Ponto, hein? Vou ter que dar uma mexida muito grande aqui! Senão, não vamos dar conta.)

Nós agora temos que falar (pouco importa se ficar vago!) sobre uma prática chamada SÍNTESE DO TEMPO.

No século XVIII, um filósofo chamado Condillac vai tentar explicar a gênese do psiquismo. O que quer dizer “gênese do psiquismo”? É explicar de que maneira aparece essa estrutura psíquica que nós temos. Quem vai fazer isso, com brilhantismo, é esse autor chamado Condillac. Ele vai construir uma estátua: “a estátua de Condillac” − o que vai se tornar um sintagma altamente repetido. Ele constrói uma estátua, vamos dizer, de mármore e dessa estátua ele vai extrair o psiquismo. Diante dessa estátua, ele vai mostrar como é que nasce o psiquismo. Ao fazer isso, ele vai colocar duas categorias fundamentais para o nascimento do indivíduo: a REPETIÇÃO e o HÁBITO.

(Vamos agora tentar um pequeno trabalho nisso aqui:)

― O que vocês entendem como hábito? Hábito é um poder de contração. Há expressões mais fáceis: contrair o quê? Contrair matrimônio. Vai contrair matrimônio, meu filho, você vai entrar num caminho de repetição. Então, hábito é aquilo que…? Contrai.

― O que o hábito contrai? Suponhamos que existem (não temos ainda como sustentar…) multidões de EUS LARVARES. A função do EU LARVAR é fazer uma SÍNTESE. Fazer uma síntese é juntar o que na realidade estava separado. (Não entenderam?). A síntese passiva é o poder que tem essa estátua de Condillac de juntar o que na realidade estava separado.

Alª: Contrair o que na realidade estava separado.

Cl: CONTRAIR. Contrair é juntar. Junta. A contração é a junção de dois elementos. Numa prática fácil: o hábito é responsável pelo nascimento do sujeito humano. É o responsável pelo nascimento do sujeito. Então, o hábito é uma prática de contração; e o sujeito humano vai aparecer no momento em que ele consegue contrair determinados elementos que no real estão separados. Então, o nascimento do psiquismo é feito pela prática chamada contração. A contração é um elemento do eu larvar.

Alª: A contração seria o acontecimento?

Cl: Não. Não é. Depois eu falo em acontecimento.

A contração é o poder que a alma tem de juntar elementos que na realidade estão separados. É essa junção que vai ser feita que vai ser o nascimento do psiquismo.

― Então, o que é o psiquismo?

Alº¹: Simbolizar?

Cl: Não!Não!

Alª: Aquela história do Raio e do Trovão? (—) associação de idéias…

Cl: É isso mesmo!

Alº¹: Duas coisas que estavam separadas, não é?

Cl: Ah! Você está dizendo, à maneira de Lacan, que o símbolo são duas metades. É isso?

Alº¹: Não sei… eu estou perguntando…

Cl: É… a teoria do símbolo é essa, são duas metades. Mas eu não estou falando do símbolo, não. (Certo?). Mas o pensador do símbolo trabalha com duas metades.

Então, eu vou fazer o seguinte: eu vou dar uma embelezada na aula, mas colocar um patamar mais fácil de botar o pé. Eu estou sentindo que vocês estão com muita dificuldade de entrar.

Uma das vias de se entrar na literatura é trabalhar naquilo que o teórico de literatura chama de estranho, maravilhoso e fantástico. Vamos ver o que é isso. A partir dessa explicação, eu volto aos eus larvares.

Você pega uma narrativa e a narrativa que você está lendo… fadas que transformam abóboras em carruagens ou… homens que caminham depois de mortos. Estas práticas literárias chamam-se práticas da MARAVILHA, práticas MARAVILHOSAS. E maravilhoso é… por exemplo, Branca de Neve, é o quê? Maravilhoso! O Maravilhoso é tudo aquilo que na narrativa de um narrador aparece como um fenômeno milagroso. (É bom anotar isso daí, porque isso é fortíssimo!). Uma fada transformando uma abóbora em carruagem é um acontecimento milagroso!

A segunda prática da literatura chama-se ESTRANHO. O estranho é a mesma coisa que maravilhoso, com uma explicação final racional.  Por exemplo, a fada madrinha não transformou a abóbora em carruagem, foi uma impressão minha! Aqueles mortos que no começo da história andavam, realmente não estavam mortos. Exemplo: Edgar Alan Poe. É a noção de estranho. A noção de estranho quer dizer: você tem impressão de que é uma coisa, mas é outra.

(Vocês entenderam o que é o estranho e o que é o maravilhoso?).

Existe um texto de uma novela do Henry James, chamada Outra Volta do Parafuso…(nesse texto… literalmente eu vou fazer um trabalho forte nisso, hein?). É a noção de FANTÁSTICO.

Cl: É… Falei do maravilhoso e falei do estranho. Agora, o fantástico, sem explicação ainda, ele não é nem maravilhoso nem estranho, é outra categoria.

Existe um conto do Henry James, chamado Outra Volta do Parafuso, que deu origem a um filme chamado Os Inocentes. (Sempre passa na Globo…). É a história de uma mulher, jovem, bonita, que vai ser governanta de um casal de crianças belíssimo, um casal de uma beleza incrível, crianças de onze anos, dez anos, os dois…  E ela vai, para servir de governanta, na Inglaterra do século XIX. Chega lá, ela ouve a narrativa de que antes dela aparecer, essas crianças eram dirigidas por um jardineiro mau caráter e uma governanta bonita. E esta mulher começa a notar que uma das crianças, que é o rapazinho, está ficando muito pálido. Então, ela fica muito preocupada em tomar conta da criança. Mas, um dia, ela junto da criança, no cair da noite, olhou para fora e viu um rosto. Ela gelou, protegeu a criança, saiu e foi perguntar à cozinheira sobre o que poderia ter sido aquilo. A cozinheira pediu a ela que descrevesse o rosto visto por ela. Ao descrever o rosto, ela descreve o rosto daquela personagem que existia antes dela: o jardineiro. (Entenderam bem?). Nesse momento aquela mulher está envolvida com o…? Maravilhoso!… Porque, se fantasma existisse, era maravilha!…Ou não entenderam? Isso é maravilha, certo? Ou não?

(Ou não entenderam?). Isso é maravilha. (Certo? Ou não?).

Alº: Não sei…

Cl: Como é que não, Ricardo?

Alº: Maravilhoso, aqui, é quando você diz que a fada vai transformar a abóbora em carruagem.

Cl: Se aparecer um fantasma na janela, o que você acha?

Alº: Eu acho estranho.

Cl: Quer dizer, você acha que aquele fantasma não era fantasma, era um homem?

Alº: É, sei lá! Ou eu não vou conseguir explicar…

Cl: Ah! Se você não conseguir explicar, se você estivesse perto de — ele te afogava. Então, você não vai pensar? Tem que pensar!…

Eu estou dizendo que maravilhoso é a presença de alguma coisa que nega a racionalidade do real. É isso! Isso que é o Maravilhoso! A fada madrinha, fazer uma carruagem de uma abóbora não nega totalmente a realidade, a racionalidade do real? Se não negasse eu tenho certeza que a Ford ia fazer uma série de carruagens de abóbora… aí, tinha que ter plantações de abóbora por tudo quanto é canto (Risos). (Tá?).

Então, o maravilhoso é; ela acreditou que era um fantasma − era… maravilhoso. Mas os americanos, que adoram uma grana, verificando esse conto do Henry James e um filme que foi feito, chamado Os Inocentes, os americanos fizeram um filme anterior à governanta indo para aquele castelo. Quer dizer, nós vamos encontrar no outro filme, o jardineiro e a governanta mau caráter. (Entenderam?). Isso daí é uma tentativa de explicar pelo estranho. É o estranho. Parece que é uma fantasmagoria, mas não é. Então, a governanta principal fica oscilando entre um e outro, entre o maravilhoso e o estranho. Até que um dia, olha pela janela, o fantasma estava lá. E ela se volta para a criança…  a criança estava morta! Parece que o maravilhoso venceu.

Mas acontece que o Henry James, provavelmente o mais brilhante dos escritores que existem por aí, não faria um trabalho no maravilhoso, ele fez um trabalho no fantástico. O fantástico não é nem o maravilhoso, nem o estranho. Aquele fantasma que aparece ali, ele está dentro do mundo dos incorporais.

(Não sei se vocês conseguiram compreender.).

O fantástico não revela a maravilha, nem revela o estranho. Nada disso. O mundo do fantástico é um mundo muito semelhante ao do extra-ser. (Vocês entenderam, essa explicação que eu dei?)

Se vocês lessem o livro a Outra Volta do Parafuso, vocês me dariam um presente de magnificência! É magnífico vocês lerem esse texto. Vocês vão compreender claramente que a governanta está no campo do fantástico. Embora, todo o tempo você fique em dúvida: é maravilhoso? É estranho? É maravilhoso? É estranho? Vocês vão ver que não. Ela está produzindo exatamente o fantástico. Esse fantástico eu vou aliá-lo ao extra-ser. O fantástico aliado ao extra-ser.

Então, é a experimentação que o Henry James fez na vida dele. O Henry James não parou de fazer experimentação no fantástico. Existe um texto dele que se chama, Os papéis de Aspern. Aquilo é fantástico, é fantástico! Aquilo não é maravilhoso. Você vê claramente que não é maravilhoso!

Eu vou dizer que a teoria dos incorporais é um fantástico.

Logo,existe uma experimentação racional e existe uma experimentação fantástica. A experimentação fantástica é penetrar no TRANSCENDENTAL.

(Eu acho que eu dei uma melhorada!)

Alº: Eu queria só esclarecer melhor a diferença entre o maravilhoso e o estranho. Eu anotei aqui: o estranho tem-se a impressão de algo que parece maravilhoso, mas você consegue explicar racionalmente.

Cl: —- faz isso: os mortos estão andando… Ah, não eram mortos eram catalépticos! Saí do maravilhoso e entrei no estranho.

Alª¹: Cortou o barato do maravilhoso.

Cl: Cortei o barato do maravilhoso: entrei no estranho… O Poe usa muito isso!

Alª¹: Mas ele não! Tem alguns contos que ele usa…

Cl: Não estou dizendo que ele usa sempre; mas que ele usa muito! Nunca mude a palavra que eu disse: isso me dá uma irritação que você não pode imaginar!

Alª¹: Não, não!

Cl: Eu acho isso um golpe de baixo nível!

Alª¹: Não, não!

Cl: Mas é! Se eu ficar quieto parece que o que você disse é que é certo. Já é a terceira vez que você faz isso. Eu não consigo entender! É a terceira vez; a quarta, eu vou dar um estouro total! Botar na minha boca o que eu não disse!

Alª¹: Não, eu disse!

Cl: Eu já começo a ficar nervoso! Eu não disse isso, entende? Você nunca bote na minha boca o que eu não disse!

Alª¹: Tá, tá.

Então, esse fantástico se aproxima do ACONTECIMENTO. Ele não é, de modo nenhum, alguma coisa que você pode fazer a experiência no mundo empírico. É uma experiência inteiramente diferente. Eu vou ligar este extra-ser a fantástico.

Cl: Foi bem, não é?

Alª²: Foi ótimo!

Esse fantástico se aproxima do acontecimento. Do acontecimento. Ele não é de modo nenhum alguma coisa que você possa fazer experiência no mundo empírico. É uma experiência inteiramente diferente. Então, eu vou ligar esse extra-ser ao fantástico.

(Fui bem, não é?).

Tempo. Tempo. O Bergson chama o tempo de DURAÇÃO. O apelido do tempo no Bergson é duração.

― O que é exatamente duração? A duração é a extensão de uma linha de tempo. Quando você tem a duração significa que nós temos uma linha… onde tem o passado, o futuro e o presente ― isso que é duração.

A duração é constituída como síntese do espírito. O espírito faz uma síntese − e emerge o que estou chamando de duração. Então, na duração você vai compreender uma coisa interessantíssima. Vamos dizer que essa aula que estou dando, que começou às nove horas e são dez e dez, essa uma hora e dez de aula é uma duração, que tem um passado e tem um futuro. Nós começamos a entender o tempo como sendo uma pequena extensão: a duração. A duração é exatamente o momento em que o tempo aparece. Então, na hora em que o tempo aparece, ele aparece como duração. Essa aula que estou dando pra vocês é uma duração, ela está vindo do passado e vai se completar no futuro. Mas eu, que estou dando essa aula, eu vou viajando nesse passado e no futuro, como se fosse uma bolinha do presente. Eu não saio do presente.

(Não sei se vocês entenderam…).

É um capítulo lindíssimo! O passado e futuro fazendo isso [Claudio faz um gesto abrindo-se em duas direções] … e eu no presente esquartejando o meu corpo: Dionisius. O corpo esquartejado de Dionisius é exatamente a experiência desse tempo. Ele é esquartejante: aquilo esquarteja. Vai um pedaço para um lado e um pedaço para o outro. Isso é o TEMPO AIÔNICO. (Ficou difícil, não é?) Isso quer dizer o quê?  Que no interior desse tempo está o presente que vai indo pra frente, vai indo pra frente. (Acho que ficou muito difícil…).

Alª: É como atravessar um rio, é isso?

Cl: É.

Alª: Algo assim encapsulado, não é?

Cl: Olha, para a gente fazer uma boa compreensão disso, aquele filme, The Nigth of the Hunter. Como é o título dele em português?

Alº: A noite do caçador.

Alª: Não, esse nome é uma tradução, em português tem outro título.

Se vocês virem esse filme… é uma obra prima. Para vocês terem uma noção, esse filme foi feito por uma ator, que nunca dirigiu filme nenhum – Charles Laughton – aquele que fez O Corcunda de Notre Dame em que a Esmeralda é aquela menina bonita de cabelo vermelho, Maureen O’Hara.

Alº: Faz o advogado no filme com a Marlene Dietrich e o Tyrone Power.

Cl: Qual o filme?

Alº: Testemunha de acusação.

Cl: Mas você sabe que o filme do Charles Laugthon provocou uma inveja eterna no Hitchcock? Perguntavam assim ao Hitchcock: E aquele filme do Charles Laughton? O Hitchcock: Porcaria! Aí ficava de noite só vendo o filme, o tempo todo. Tinha um encanto, uma coisa belíssima!…

Então, é possível que um filme desses nos dê a ideia de acontecimento, nos dê a ideia de passagem, porque há um momento, que é o momento supremo do filme, em que ele constrói um rio, acho que é rio de estúdio, não sei, e um céu estrelado e as crianças fugindo das sombras gigantescas de Robert Mitchum.

Alª: O nome em português é O Mensageiro do Diabo.

Cl: O Mensageiro do Diabo! Se vocês puderem apanhar esse filme… vocês me dariam uma alegria enorme se vocês o vissem. Ele é resplendor puro.

Alº: Tem em vídeo?

Alª: Tem, tem.

Agora, voltando ao fantástico: os americanos fizeram um filme que se passava no tempo anterior do romance do Henry James. E esse filme do tempo anterior é com Marlon Brando. (Tremendo Marlon Brando! Marlon Brando é uma coisa fascinante!) Então, ele vai fazer o papel do jardineiro. E ele e a governanta anterior só transavam sadicamente, era sado-masoquista (Isso é a maior besteira, viu? Isso não existe!): pancada pra lá, pancada pra cá! E as crianças começaram a ver aquilo e começaram a gritar… Então, esse filme está tentando transformar o maravilhoso em estranho. Mas esse filme era de uma idiotia total, porque o texto do Henri James não era nem uma coisa nem outra.

(Então, na próxima aula, eu fortaleço mais. Mantenham maravilhoso, estranho e fantástico, (viu Cacau?). Vai ser uma maneira para a gente entrar nessa questão do extra-ser. E vejam o filme!

Agora, acho que pela própria dificuldade que eu estou tendo para explicar, eu vou pedir para vocês pegarem os componentes do extra-ser sem maiores explicações.

É do extra-ser:

No extra-ser não há presente: por quê? Porque o presente é corpo. Então, no extra-ser não há presente ― só há essa distensão permanente do passado e do futuro. (Esse é o primeiro elemento que eu colocaria pra vocês…)

E agora, com certa licença do Luiz Alberto, eu vou falar de INDIVIDUAÇÃO FÍSICA e INDIVIDUAÇÃO DO VIVO. É a penetração num campo de saber poderosíssimo! A individuação do físico, o Luiz Alberto já deu diversas aulas (se for necessário a gente pede para ele dar outra vez), é a individuação do cristal: é o físico sendo individuado. Então, quando o físico é individuado, o tempo que está ali dentro é o tempo presente.

(fim de fita)

Parte IV –

(…) Ou, melhor ainda, no acontecimento… O acontecimento não é uma entidade física; não é uma entidade biológica; é uma entidade incorporal: é inteiramente do incorporal.

O vivo vai aparecer num universo onde não existia vida. Então, a pergunta é… “O vivo também tem um princípio de individuação?”

(Eu estou dizendo grosseiramente, não é Chico? Dá para perceber que eu estou passando tudo com uma facilidade extrema!)

Se há um princípio de individuação no vivo? Há. Mas os vivos só serão entendidos a partir das singularidades.

― Qual foi a definição que eu dei de singularidade? “Não existe!” isto é: “A singularidade não existe”.

Você só vai compreender o vivo se você fizer uma descrição das singularidades. Por exemplo: o ser vivo está aí, porque ele junta passado e futuro. Então, é uma explicação muito difícil, mas ela que vai nos conduzir para a compreensão de todo esse procedimento: esse procedimento em que a inclusão do incorporal vai produzir uma grande perturbação no pensamento, porque a nossa razão só sabe trabalhar com o princípio de identidade e o princípio de não contradição. E na hora em que começam a entrar os paradoxos e as violências do fantástico, a razão abandona o navio. Ela diz: “Comigo não! Comigo não vai ter esse negócio de paradoxo: eu não aceito isso!”

Então, nós tentarmos nos conduzir dentro desse incorporal, é um momento superior da história do pensamento: conduzirmo-nos dentro dele e tentar construir alguma coisa.

O conto e a novela ou mesmo o romance, por exemplo, não poderão ser explicados se nós não entendermos a teoria dos incorporais. Portanto, essa teoria dos incorporais, essa teoria do extra-ser ― que eu não entrei, não consegui! Eu tentei ― BÁ-BÁ-BÁ-BÁ  ― fui barrado o tempo todo…  Não por vocês, por mim mesmo. Porque, quando eu sinto que eu ainda não tenho campo teórico suficiente, eu não prossigo, eu não dou aquilo. Só entro nesses procedimentos quando o campo teórico está muito poderoso e todos poderão apreender o que eu estou dizendo.

A tese que eu estou fazendo é que nós vamos pensar, vamos dar conta da história do pensamento, juntando duas metades; mas não as duas metades platônicas. As duas metades platônicas são o sensível e o inteligível. E as nossas duas metades serão: o presente; e o passado e o futuro. Passado e futuro de um lado; presente de outro lado. Essas serão as duas metades que nós vamos trabalhar. Ou seja, nós vamos entrar de corpo inteiro dentro do tempo.

Existem outros textos, como o Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, que vocês podem ler. É um texto fantástico, mas a gente vai pegar todos esses ingleses magníficos: pode ser o Thomas Hardy, (Judas o Obscuro), Henry James, o mais notável de todos… para nós podermos, sem nenhuma tolice na cabeça, começar a entrar nessa questão do incorporal.

Alº: O Orlando também trabalha com o tempo, não é? Cl: Muito menos! Trabalha com o tempo de uma maneira um pouco idiota. Idiota, porque… quem vem marchando o tempo? O ser! No extra-corpo não tem ser!

Alº: Mas que também muda, não é?

Cl: Todo ser muda: um dia vem com barba, outro dia vem sem barba…

Alº: Muda de sexo, muda de…

Cl: Pode mudar de sexo, a Roberta Close mudou… Não é isso que eu estou falando!  (risos)

O que eu estou falando, é que nós vamos penetrar no que se chama A BIFURCAÇÃO. Nós vamos entrar no jorro do tempo. Nós vamos penetrar no íntimo, no coração do tempo. Penetrar no coração do tempo é fazer música, é fazer literatura, porque não se faz música, não se faz literatura se você não estiver no coração do tempo. Então, é isso que nós vamos tentar, cada vez mais poderosos!

Hoje eu falei: e o extra-ser… e o extra-ser… e o extra-ser… mas não entrei. Não há por que eu entrar! A única coisa que eu fiz, de muito válido para esta aula, foi que eu disse que o acontecimento não tem nada a ver com os corpos… Agora, então, para finalizar:

O ACONTECIMENTO está do lado dos incorporais; o FATO, do lado dos corpos.

Baqueada total, cansei! Quatro horas de aula, falei mais do que…

Eu pensei, inclusive, em falar hoje algumas coisas de dança, de arquitetura, de cinema, em termos desse incorporal, mas não deu. Não deu, porque não é brincadeira, não é? Não é brincadeira! Porque no momento em que, por exemplo, você pretende fazer música: como é que Shönberg ousou ir para a música atonal? Alguma coisa passou ali por dentro, passou ali por dentro! Nós, inclusive, pensávamos que a escala cromática, com que nós convivíamos, era invariável: não podia sair aquilo. Nós confundíamos natureza com hábito! Então, essas práticas, a entrada no incorporal vai-nos dar muitas possibilidades…

Fechando: o incorporal é o INCONSCIENTE. O famoso inconsciente. Deleuze chama de SUPERFÍCIE METAFÍSICA.

Alº: O Lacan diz que o inconsciente é estruturado feito uma linguagem, dando um corpo ao inconsciente. Como seria esse inconsciente…

Cl: Esse inconsciente sobre o qual eu estou falando?

Alº: É.

Cl: Ele é vulcânico. Ele é uma violência… porque ele é a potência dessas singularidades. Ele não tem nem aceita nenhuma estrutura. Quem tem estrutura é a consciência.

Alª: Mas Claudio, há umas aulas atrás você falou que para liberar as singularidades…

Cl: Eu não disse isso. O que eu disse é o seguinte: a regra de prudência é algo de importância vital nas nossas vidas. Regra de prudência, quer dizer, conselhos!… As pessoas não estão sempre nos aconselhando? “Ai, meu filho, não faça isso, que bobagem, não faça isso…” As regras de prudência são regras que não estão sustentadas por nenhuma racionalidade… mas estão sempre nos servindo na vida. Então, provavelmente, eu usei regra de prudência para compreender isso… Regra de prudência no sentido: “por favor, não delire!” Porque o delírio está o tempo todo nos ameaçando, não é? Ele nos ameaça, ele não para de passar dentro de nós. Então, esse pensamento que eu estou produzindo é altamente rigoroso, mas não é rigoroso no princípio de não-contradição, nem no princípio de identidade. É rigoroso lá no incorporal.

Alº: Rigoroso na sua disciplina de pensar…

Alº: Essa coisa com a palavra, não é?

Cl: É porque a questão das palavras… Eu acho que a qualquer momento eu interrompo o caminho que eu estou dando, e sigo aquele caminho da aula passada, em que eu comecei a perguntar sobre o judicativo, o conceitual, o silogismo…

Alª: Ah, sim, o judicativo…  o consciente…

Cl: Eu vou fechar a aula. Deixe-me falar uma frase…. que eu fecho.

O Hailton falou sobre símbolo… e isso gera uma confusão na gente e uma preocupação muito grande sobre o que é símbolo!

A noção de símbolo é uma noção antiqüíssima. Provavelmente ela está presente na história dos homens há mais de 40.000 anos. O símbolo é sinônimo de LEI DA HOSPITALIDADE ― que é o seguinte:

Há 30.000 anos, já havia comércio entre as nações. Não havia o kapélikè, que é o pequeno comércio. Na hora em que o pequeno comércio nasce, lá Grécia, em seguida vai haver a compra e venda de terra ― está aberta a via para o nascimento do capitalismo. Eu estou falando de um comércio em que caravanas vinham da Suméria e se dirigiam ao Egito. Então, esses mercadores, que faziam essas caravanas, necessitavam de aliados nas cidades em que eles iam, porque senão… um bando de ladrões chegava e tomava tudo! Então, eles formavam aliança com alguém das cidades que eles visitavam. Essa aliança (é a coisa mais simples do mundo:) você quebra um pedaço de pau em dois ou rasga uma carta em duas, cada um fica com a metade dela. Certo? Passam-se anos e após 200 anos um herdeiro do primeiro viajante, ao voltar a essa cidade, apresenta o pedaço de pau que ele possui. O outro apresenta a sua metade e as duas metades se juntam… Foi constituída a LEI DA HOSPITALIDADE e construído o SÍMBOLO.

Símbolo quer dizer: união de duas metades. Mas agora, para vocês compreenderem, como é fácil entender isso… no séc. IV d. C., lá na Alexandria, existia uma perseguição enlouquecida aos cristãos. Provavelmente, havia pouca comida para Leão, não é? (risos) Os cristãos, então, tinham um problema gravíssimo: tinham que se comunicar com outros cristãos, mas não deixar que a comunidade soubesse que eles eram cristãos. Então, quando havia uma reunião de muitos homens e eu, por exemplo, dizia assim: “céu azul”. Quando digo “céu azul”, qualquer um que está aqui faz uma imagem de céu azul. Qualquer homem desprevenido, você produz um enunciado: “céu azul”, “céu estrelado” e imediatamente você faz aquela imagem.

Mas os cristãos não fizeram isso: Eles tornaram certos discursos uma metade. Por exemplo, “céu azul” para eles é uma metade, que só se completa quando o outro diz lá: “terra vermelha”. Os dois discursos, “terra vermelha” e “céu azul” se juntam e aí você já sabe que aqueles dois são cristãos. Porque eles não se prenderam na imagem. Eles se prenderam no símbolo; porque o símbolo é aquilo que remete para outro símbolo.

(Entenderam?)

Alº: Os maçons usam isso.

Cl: Claro, você devia ler isso no Foucault; porque o segundo capítulo [de A verdade e as formas jurídicas] do Foucault trata disso o tempo todo.

Vocês entenderam? Entendeu Cacau? Já está caindo, não é?

O símbolo se compreende por duas metades e ele é a lei da hospitalidade.

Alº: Confirma uma identidade…

Cl: Como?

Alº: Uma coisa tem a ver com a outra.

Cl: Certo, os dois se juntam, porque… eu parto duas metades. Enquanto eu estou com uma metade separada da outra, a minha metade não vale nada: aquilo é um pedaço de pau velho. Unindo um pedaço ao outro, aí nasce a lei da hospitalidade. Chama-se SYMBOLON. Então, símbolo é um signo que não pretende produzir imagens, mas remeter-se a outros signos. Chama-se a isso Lei da Hospitalidade. [Ele era usado para produzir o reconhecimento entre os descendentes de duas famílias, garantindo hospitalidade entre seus membros, sempre que as duas metades se encontrassem].

Ponto Final. Tá?

Alº: No usual?

Cl: No usual, o símbolo ainda é pensado como substituto: uma representação. Mas eu quis mostrar para vocês que o símbolo tem um nascimento político-social.

Alº²: O poder usa o símbolo para arrebanhar as pessoas, não é?

Cl: O tempo inteiro! O símbolo é um instrumento poderosíssimo, porque ele não forma imagem.

… relativo ao que o Hailton falou, que, no Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Eu estou dizendo para vocês: o inconsciente não tem estrutura nenhuma; ele é anárquico. Ele é anárquico, potente, mas estrutura ele não tem.

Então, na próxima aula a gente prossegue, porque agora eu estou cansado.

Fim

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Aula de 21/09/1995 – O voluntário e o involuntário ou o lógico, o ilógico e o alógico

(Início: Referência à “Cortina Escarlate”, texto de Barbey d’Aurevilly, na aula anterior).

Se eu por acaso fizer umas certas referências a… a não sei o quê… é porque não tenho exatamente o ponto em que eu deixei a última aula – não tenho! Não tenho a memória do ponto da última aula. Não é o ponto físico da última aula – é o ponto do pensamento. Eu sei que eu cheguei até a “Cortina Escarlate”, eu tenho uma certa lembrança de que eu toquei na “Cortina Escarlate”. Eu não sei se eu cheguei a tocar no problema de matemática. Citar, pelo menos, alguma coisa de matemática. Acho que citei. —-??—-, não é? Não me lembro… Bom, mas eu citei a “Cortina Escarlate” – e isso daí já dá uma entrada…

(Eu não sei o que eu vou falar… Vocês me apontem se estiverem entendendo e se não estiverem entendendo também.)

Mas, como fenômeno urgente para mim – a questão do entendimento.

Onde eu for começar… é indistinto, ouviu? Não tem importância onde eu comece.

A leitura que Deleuze faz de Proust – não importa que eu esteja começando em Proust poderia estar começando em outra coisa, foi o que me veio à cabeça – tem um elemento que se destaca… um elemento que se destaca muito – é quando Deleuze coloca a existência, em Proust, de uma faculdade (a noção de faculdade eu dei muito na aula passada…) uma faculdade não psicológica. Quando a gente utiliza esse nome faculdade. .. A palavra faculdade se origina na filosofia do século XVIII, no Kant. E a faculdade ou as faculdades são consideradas, como diz F. A., – as forças no homem.

(Risos)

As faculdades são imaginação, memória, falar, sonhar, raciocinar. .. Então, essas faculdades pertencem ao sujeito humano – elas constituem a atividade do homem no mundo.

Uma surpresa na obra de Proust é ele dizer da existência de uma faculdade que estaria no homem – mas não pertenceria ao sujeito humano. O enunciado é até confuso… Ou seja, o Proust na verdade vai fazer uma distinção entre consciência e inconsciente. .. E ele diz que existem faculdades que pertencem à consciência – inteligência, linguagem, memória, imaginação. .. E uma faculdade que pertenceria ao inconsciente. Essa faculdade ele chama de – pensamento.

Essa primeira distinção – de faculdades que pertencem à consciência e uma faculdade que pertence ao inconsciente – se acrescenta de uma noção que é o fundamento da própria psicologia – que é a noção de vontade. O homem pressupõe-se um ser que exerce a sua vida segundo as determinações ou as causalidades da sua própria vontade – chama-se causalidade psicológica. A vontade seria a causalidade propriamente psicológica – determinante das atividades do homem. Quando o Proust levanta a idéia de uma faculdade que não seria da consciência, ele vai dizer que essa faculdade é involuntária. Essa faculdade, ele chama de pensamento e ela é involuntária. (Essa noção é a noção fundamental!)

Haveria alguma coisa em nós, que Proust chama de pensamento. Essa coisa em nós, chamada de pensamento, não é sinônimo de intelecto – porque o intelecto é uma faculdade que pertence à consciência e é voluntária. O pensamento é inconsciente e é involuntário.

Involuntário quer dizer o quê? Quer dizer que é alguma coisa que só funciona se for acionada por uma força exterior. Ou seja, a idéia que o Proust tem da existência de uma faculdade inconsciente, que ele chama de involuntária… essa faculdade não se exerce se não for acionada por alguma coisa que está fora dela. Essa afirmação – [de] que essa faculdade não funciona sem alguma coisa que estiver fora dela – inclui, na idéia de faculdade, a idéia de fora. Traz uma idéia totalmente original em relação às imagens do pensamento que nós temos, porque o pensamento para Proust pressupõe algo fora dele que o força a pensar. Não é muito isso… aqui não seria muita coisa… se imediatamente não fosse este fora diferenciado de exterioridade física e de interioridade psicológica.

(A aula é muito difícil!…)

Quando Proust coloca a existência de uma faculdade no homem chamada pensamento e essa faculdade só funciona se alguma coisa de fora a acionar… E, imediatamente, esse fora não é alguma coisa do mundo físico – não é a exterioridade física nem é a interioridade psicológica… nós tomamos contato com uma idéia que o Proust está trazendo, de que o mundo não se esgota em psicologia e em física. Porque quando qualquer um de nós observa toda a extensão da realidade, ela… (se vocês tiverem dificuldade, vocês coloquem para mim, basta levantar o dedo!)…quando nós observamos toda a realidade, o que nós dizemos é muito simples – existem os objetos mentais e os objetos extra-mentais. Por exemplo, eu digo assim: “tudo que não estiver dentro da minha mente – os meus sonhos, os meus delírios, as minhas alucinações – todo o resto pertence à realidade”. Aí, a História do Pensamento divide a realidade em mental e extra-mental. Essas duas noções, para a humanidade atingi-las, demorou séculos! Ou seja nada além do mental e do extra-mental. O extra-mental é o mundo físico. Quando eu falo físico é também químico, etc.

O Proust, quando afirma a existência de um fora, ele não está identificando esse fora à exterioridade física nem à interioridade psicológica. Ele abre… ele postula alguma coisa que não é da ordem física nem da ordem psicológica. Ou seja, alguma coisa que jamais foi pensada. Essa coisa chama-se – o impensado.

Por que se chama o impensado? Porque tudo aquilo que na história do homem foi pensado – é exterioridade física e interioridade psicológica. Foi sobre isso que o homem jogou as forças do seu pensamento. No momento em que eu digo da existência dessa categoria que eu estou chamando de fora – o fora – esse fora é sinônimo de o impensado. Impensado pelo fato de que só é pensável o interior e o exterior. O psicológico e o físico. As obras de praticamente todos os pensadores do século XX referem-se a esse fora. Esse fora é a grande questão do século XX. Ele recebe diversas denominações… – aberto em Heidegger, inatual em Foucault e… caos irisado no Cézanne, ponto gris no Paul Klee e, assim por diante. É como se houvesse a descoberta de um novo território. E a idéia de um novo território para a Filosofia, de [uma certa forma] é festejada da mesma maneira que se festeja um território novo no planeta. Esse território. .. não pode ter as regras do psicológico e do físico. (Estão acompanhando?…) Ele não tem as regras do psicológico e do físico. Logo, ele não traz a coerência do mundo físico nem as imprecisões ilógicas do mundo psicológico. Ele não é um sonho, ele não é um delírio, ele não é uma alucinação… Então ele não é constituído – este talvez seja o momento mais importante da aula – ele não é constituído por projetos ou planejamentos da psicologia. Esse fora… não depende da psicologia, ele não depende do campo psicológico. Numa linguagem mais atualizada – ele independe do imaginário.

Esse conceito de imaginário – que é utilizado pela história, ou mesmo pela filosofia e pela literatura – é inteiramente psicológico. E isso que eu estou chamando de fora tem uma autonomia – mas essa autonomia não é nem mental nem extra-mental. Não é uma autonomia psicológica, nem é uma autonomia física. Esse objeto, seja ele lá o que for, não está sob as regras da história. Ele não está sobre (eu vou ter que usar dessa maneira), ele não está sobre ou sob os domínios do tempo. Ele está fora do tempo – no sentido que o mental e o extra-mental são temporais. Por exemplo: quando o Robbe-Grillet diz que o cinema dele – (os que foram ouvir a conferência devem se lembrar disso; eu não ouvi, mas apenas ouvi dizer…) – quando ele diz que o cinema dele não é um cinema do tempo, é um cinema do espaço (não é isso que ele diz?), ele, de maneira nenhuma, está dizendo espaço em termos de espaço físico. O que ele chama de espaço é o que ele opõe ao tempo psicológico, ao tempo físico e ao tempo histórico. (Ficou difícil!)

Al.: Nesse caso, ele quer se opor mais à sucessão?

Cl.: Ele está inteiramente contra a sucessão!

Al.: E com esse espaço ele vai dar a simultaneidade?…

Cl.: É isso que ele quer! O que ele pretende dar, com a idéia de espaço, é exatamente a simultaneidade. É isso que ele faz. Então, ele dá o conceito de simultaneidade e retira o conceito fundamental da história – que é o conceito de sucessão. Então, para ele, o fora… – o fora do Robbe-Grillet chama-se simultaneidade. Eu acho que esse momento é grandioso, porque ele nos dá uma entrada, ele nos mostra quase que uma dupla psicologia do Robbe-Grillet – no sentido de que ele admira a simultaneidade e tem rancor pela sucessão. Ele chama os “pensadores da sucessão” de ideólogos – os seres da ideologia. .. Aqueles que não compreendem que o tempo sucessivo é feito de buracos, rupturas, quebras, brusquidões, que nos remetem sempre para a simultaneidade.

Essa idéia de fora. .. o Deleuze é o verdadeiro arauto dela. Mas um arauto… (é difícil o que eu vou dizer nesse instante… depois melhora…)…Deleuze é um arauto de textos. Um arauto de textos… – é que Deleuze percorre todos os grandes textos do Ocidente que trouxeram com eles a questão de ir além do psicológico e do físico. E esses textos – que vão além do psicológico e do físico – tornam-se a matéria prima da obra do Deleuze. Daí o Robbe-Grillet estar incluído como matéria prima da obra dele.

Essa é a apresentação. A apresentação é essa. E a partir dessa apresentação, vai-me importar, em primeiro lugar, apresentar o psicológico pra vocês. Apresentar o psicológico é ” limpar uma barra”! É dar pra vocês a condição de compreender o que se chama exatamente de psicologia, o que é exatamente a psicologia – quais são os componentes da psicologia que não vão pertencer a esse fora.

Eu vou chamar de psicológico – como melhor ponto de partida – a associação de idéias. A psicologia se regula pela associação de idéias… se regula pela associação de imagens – é o procedimento que ela tem. Essa associação de idéias psicológicas pressupõe a presença da linguagem. A linguagem… se encadeia na associação de idéias – é uma prática psicológica. Numa de suas obras principais – que é a Lógica do Sentido – o Deleuze vai dizer (e aqui acho que é a limpeza final!) que esse fora não é associação de idéias, não é associação de imagens, não é uma estrutura lógica, não é os significantes da linguagem e não é o mundo físico. De outra maneira – não é tudo aquilo que aparece no sujeito – o que aparece no sujeito são associações, lógica, linguagem, representação de conceitos… E não é o que aparece no indivíduo. Ou melhor, o que eu chamei de mundo físico e de mundo psicológico (eu sei que está ficando difícil!), o que eu chamei de mundo físico e de mundo psicológico – numa tradução mais rigorosa – o mundo físico chama-se o mundo do indivíduo. Ou seja, no mundo físico – tudo que existe é individuado. E o mundo psicológico é o mundo do sujeito.

Na obra do Deleuze, a questão dele é sair desses dois.

Vejam bem: não é dizer que esses dois não existam – mas é dizer que a questão dele é trabalhar ou antes ou depois. Esse antes e depois, então, começa a receber uma série de nomenclaturas – e pode ser chamado de singularidade, fora, etc. Todas essas nomenclaturas que os diversos autores vão utilizar. Mas o elemento principal – [que] ainda que às vezes a gente pense [ter] compreendido, ele escapa. .. é porque o mundo da psicologia e o mundo da física ou é lógico ou ilógico, necessariamente. Ou o mundo da física e da psicologia é governado por uma estrutura lógica ou ele é perpassado pelo ilogicismo. O que [leva], de imediato, à conclusão de que nesse fora não nem lógica nem ilógica. Você não está nem no mundo da lógica nem no mundo do ilógico. Isso vai dar um resultado difícil, porque eu terei que explicar pra vocês o que é lógico e o que é ilógico. Vou ter que explicar pra vocês todo um universo constituído desde o princípio da filosofia até agora, que sustenta esses sistemas… os sistemas lógicos e a presença do ilógico dentro do mundo. Esse fora não é nenhum dos dois. O Deleuze vai utilizar o nome de alógico. Alógico, contra lógico, contra ilógico.

Alógico é relativamente fácil. Lógica – numa diminuição, pra que se entenda, isto é, não usando nenhum conceito especifico – é um encadeamento racional. Lógica é um encadeamento demonstrativo. (Se ficar difícil vocês levantem o dedo, ouviu? Porque depois cai em cima de mim.) Um encadeamento demonstrativo não necessita de práticas experimentais. É uma demonstração racional. Todo A é maior do que B, todo B é maior do que C. Logo, todo A é maior do que C. Ou seja – o encadeamento lógico não tem a necessidade das provas empíricas – mas ele é a forma do empírico. (Vocês entenderam aqui?) Ele não tem a necessidade das provas empíricas, mas ele é a forma do empírico – do mundo empírico. Esse mundo empírico – que inclui a psicologia e a física – é constituído pelos encadeamentos racionais. Há um encadeamento racional.

(Vocês entenderam isso? Mais ou menos?…)

O que estou dizendo é o seguinte: a realidade chama-se mental ou extra-mental psicológica ou física. E ela é regulada pelo que se chama princípio de não-contradição. Esse princípio de não-contradição impõe um encadeamento lógico nos raciocínios: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. É esse o encadeamento do mundo lógico. Nesse universo lógico pode aparecer o ilógico. O ilógico aparece aí. O ilógico… pertence ao campo da lógica, ou seja – é aquilo que não é regulado pelo princípio de não -contradição. No mundo físico e no mundo psicológico, o lógico e o ilógico se atravessam… eles se atravessam. Muita gente confunde tudo concluindo que esse fora é ilógico jamais! O fora não é ilógico nem lógico. Vamos mostrar de uma maneira mais simples – o fora é paradoxal. O fora é a presença dos paradoxos. Então, aqui eu tenho um elemento… um elemento que acredito poderoso – o intelecto humano necessita de (eu vou usar só dois princípios pra vocês – se vocês não souberem digam. É só levantar o dedo e eu explico, senão não explico…) O intelecto humano precisa de “dois” princípios – não -contradição e princípio da identidade. Ele precisa desses dois princípios, sob pena de fracassar em tudo que faz. Então, o intelecto humano, quando não utiliza esses dois princípios, o que caiu em cima dele foi o ilógico – que quebrou os regulamentos da não -contradição e da identidade. Esse é o problema da dialética, do Hegel, por exemplo.

(Ruídos: pa…pa…pa…)

Cl.: Isso é tiro!!!

Al.:É…

Cl.: Uma loucura!… Uma loucura!…

Al.: Paradoxo!…

Cl.: Não! Ilógico!

Al.: Um delírio…

Cl.: É o delírio… é o delírio na cidade… – não tem nada a ver com o paradoxo.

O paradoxo é algo repugnante. .. (numa hora eu dou essa aula “precisa”!)…é repugnante ao intelecto. O intelecto não tem repugnância ao ilógico. Ele tem repugnância pelo paradoxo. [Diante do] ilógico ele diz – “Isso não serve para mim, isso está errado” – Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, as galinhas são verdes!?!? – é… uma idiotice! O intelecto brinca, debocha. Agora – o paradoxo… – ele tem repugnância por ele. Ele exclui o paradoxo dele. Por isso, quando eu disser ” o paradoxo” – jamais o intelecto pode lidar com ele. Não lida com ele! Então, por isso eu vou dizer que quem lida com o paradoxo é essa faculdade que o Proust chamou de… involuntária e inconsciente – o pensamento. Ou seja – o pensamento seria o elemento que lidaria com o paradoxo.

(Ponto aqui – porque agora eu clareio melhor isso!)

Eu vou utilizar Bergson – porque é um exemplo banal [de] entender. Na obra do Bergson, ele diz que o intelecto humano é o instrumento utilizado pelo homem para dar conta do mundo físico. O homem usa o intelecto para compreender o mundo físico… e em seguida vai utilizar o intelecto para compreender a psicologia. Ou seja – o intelecto é o instrumento das ciências humanas e das ciências físicas. Através do intelecto nós faríamos todas estas práticas. O Bergson, em seguida, diz que as forças da vida que produziram o intelecto – e o intelecto obteve êxito nas suas práticas junto ao físico e ao psicológico.

[Posteriormente], ele, [o intelecto], começou a se tornar barreira para a vida dar conta de si própria – a vida voltando-se sobre si própria. No momento em que a vida volta-se sobre si própria, em que a vida quer pensar a si mesma, ela não pode mais usar o intelecto, porque a vida… não tem as mesmas linhas que a psicologia e a física. Por causa disso, o Bergson vai utilizar a noção de intuição. A inteligência é incompetente para pensar a vida – é preciso a intuição. Essa noção de intuição do Bergson é o que eu estou chamando de pensamento.

Então, o pensamento, na hora que ele se efetua, ele se efetua numa matéria alógica. (Prestem bem atenção!) Quando o intelecto se depara com o ilógico. .. – o ilógico é uma falha do intelecto. O alógico não é uma falha do pensamento – é a matéria [com] que o pensamento trabalha. O pensamento, quando ele vai trabalhar, o componente que ele vai encontrar é alógico. Ele não tem nenhuma logicidade, logo ele não tem nenhuma i logicidade – ele é paradoxal.

Durante toda a história da Filosofia o paradoxo foi rejeitado como sendo a doença do pensamento. Nessa tese que eu estou colocando para vocês, inverte-se: o paradoxo torna-se a paixão do pensamento. O pensamento é apaixonado pelo paradoxo.

Al.: O paradoxo… é o impensado?

Cl.: Ele é o impensado! Ele é exatamente o impensado. É o momento mais brilhante, porque no momento em que eu declaro – como você perfeitamente compreendeu – “ele é o impensado” – claro que ele tem que ser o impensado, porque ele não é lógico, não pode ser pensado… Esse impensado é… é… uma transformação que ocorre – e é bonito, porque ocorre na filosofia, ocorre no cinema, ocorre na pintura, ocorre em quase todas as artes – é a transformação da compreensão do corpo.

O corpo que, para os sistemas lógicos, foi entendido como obstáculo da compreensão, na filosofia do pensamento vai [ser] considerado o objeto do pensamento. O corpo é o impensado. .. O corpo é o impensado! O corpo é o impensado… – porque o corpo carrega com ele as categorias da vida. O corpo carrega com ele as categorias da vida, ao contrário do que foi compreendido durante toda a história do pensamento ocidental, como aquilo que era o obstáculo do pensamento. Isso se chama a reversão da filosofia. A reversão da filosofia se dá na questão do corpo. O corpo deixa de ser um obstáculo para se tornar o impensado. Ou seja – para se tornar o objeto do pensamento. O corpo é a única coisa que tem que ser pensada. Porque o corpo é a própria vida. Isso é… é… é… difícil quando as pessoas começam a entender ou ouvir essa produção – porque a idéia de corpo se confunde com a idéia de representação orgânica. A idéia de corpo se confunde com a idéia de representação orgânica. Então, nós identificamos corpo com organismo – e não é. Corpo se identifica com organismo enquanto o corpo é o obstáculo do pensamento. Na hora em que o corpo se torna o impensado, o corpo é toda e qualquer matéria de expressão. O corpo é toda e qualquer matéria de expressão – a pedra, o sol… não importa o quê. Ou seja – a natureza é constituída por matérias de expressão. Isso que eu estou chamando de “matérias de expressão” é exatamente o que é o corpo. Então, a partir daí, sempre que um pensamento se der – esse pensamento tem que mergulhar na matéria de expressão. O pensamento se dá sob o corpo. Pensar é pensar o corpo. E aqui parece que as coisas começam a ficar mais fáceis… desde que a gente quebre a identidade de corpo e representação orgânica. Se a gente mantiver a identidade dos dois – a gente não consegue avançar. Então, a única maneira que eu tenho de… de composição com vocês… porque tudo isso que estou falando, pressupõe mil leituras que eu fiz, que vocês não fizeram… Nesse momento a única maneira que eu tenho é… uma certa… um certo vago… dizer que a gente tem que separar corpo e organismo. Ou seja: não é dizer que o organismo não é corpo… – mas é dizer que o organismo não é todo o corpo.

O organismo não seria todo o corpo. Então, eu posso falar, por exemplo: toda a natureza é corpo – mas toda a natureza não é orgânica. O organismo é uma realidade… – mas não é toda a realidade. E aqui, então, ainda que de uma maneira quase que ingênua, eu me proponho a separar a arte da filosofia.

Quando a filosofia pensa o corpo… – a filosofia produz conceitos. Quando a arte pensa o corpo… – ela produz afetos e perceptos. Seriam as diferenças… Então, o filosofo, a filosofia, pelo que eu falei para vocês, ela constitui o problema. E esse problema que ela constitui gera uma série de elementos. Essa série de elementos que o problema constituiu, avalia a qualidade da filosofia. Se a filosofia tiver constituído, tiver colocado… bem colocado… seus problemas, o mundo que esses problemas forçam a aparecer é o mundo que aquela filosofia gerou. A filosofia produz mundos! O que eu estou dizendo é que, jamais… jamais uma filosofia pode ser crítica da outra, porque cada filosofia se explica pelo problema que ela produz.

Por exemplo: uma filosofia [que] tem como questão a compreensão… – [coloca] como principal questão dela a compreensão do que é o sujeito humano. Ela levanta essa questão. Por exemplo, a filosofia inglesa… a questão dela é essa: o que é o sujeito humano. Ela faz essa questão e vai pondo problemas. Esses problemas geram um tipo de mundo. Esse mundo é que vai qualificar a filosofia. Por exemplo: se eu fizer uma questão a uma filosofia religiosa – o que é o sujeito humano? – ela me responderá de uma maneira. Se eu fizer a mesma questão aos empiristas ingleses, eles nem me responderão, porque o ponto de partida deles é o sujeito humano. Então, a filosofia é exatamente isso – ela põe o problema. E esse problema gera um mundo.

Ou seja – nós temos que quebrar a ilusão de que existe apenas um mundo. A ilusão de que nós, os bem dotados, conhecemos o verdadeiro mundo e os filósofos loucos apenas deliram por aí. Não é nada disso! Se não houvesse a filosofia e a arte – nós estaríamos encerrados no mundo que foi inventado pra nós. Então, a filosofia constitui um problema, ela põe um problema.

(Ponto, aqui; eu não vou seguir aqui!) O que importa agora é saber o que é problema.

(Vou voltar…)

A filosofia se explica pela produção de um problema. E essa noção de problema é uma idéia matemática.. . uma idéia matemática que, em sua história, se opõe a teorema. Interessante esse elemento aqui, porque o Pasolini fez um filme chamado Teorema, mas o filme na verdade teria que se chamar Problema. .. Porque problema quer dizer alguma coisa que não pode ser pensada por encadeamento lógico. Ou seja, se você quiser compreender um problema jogando sobre ele um encadeamento lógico… – você não o compreende. Pelo fato de que o problema é o fora. O problema é o fora, o problema é aquilo que está fora do encadeamento lógico da psicologia, da linguagem, do mundo físico… Então, o problema (atenção!) é o elemento constituinte da filosofia – que lida com o fora; ou da arte – que lida com o fora. Essa idéia de problema foi três vezes altamente pensada na história da filosofia. E ela vai receber o nome de autômato espiritual. (Está bem essa aula? Tá? Eu vou descansar dois minutos… Eu vou pedir ao mais jovem ou mais forte para me trazer um café –??–)

E aqui eu abro um pouquinho… se vocês quiserem perguntar… Você ia perguntar?…

Al.: —–

Cl.: Deixa só eu fazer uma pausa existencial… A Filosofia não tem compromisso com o bem-estar de ninguém, (ouviu?). A Filosofia é uma experimentação sem pátria. .. sem pátria. A filosofia talvez seja a arte dos desesperados. A arte de quem já não acredita mais na esperança. A filosofia talvez seja a arte da desvinculação com o mundo. Então, por isso, quando se faz filosofia dessa maneira que eu faço – ligada com o fora. .. é radical… radical! Ela não tem finalidade de prestar serviço a ninguém.

Pra que serve a filosofia? Para… (fim de fita)

LADO B

Cl.: Alguém foi buscar um café para mim? Eu estou sem prestígio nenhum…)

Al.: É que você começou a falar…

Cl.: Não, pode ir buscar. Vai, que eu vou parar.

Cl.: É que eu cansei… dei uma aula antes…

Ruídos…

Se alguém chegasse agora aqui e eu fizesse… começasse a fazer a apresentação da seqüência da aula, essa pessoa poderia tomar, como uma afetação desnecessária, certos componentes que eu vou passar a dar pra vocês. Mas se agente acompanhar a aula… ou o curso, desde o começo, verifica-se que não é uma afetação. Por exemplo: eu vou passar a dar uma aula para vocês – não vou fazer isso hoje, porque é um golpe duro que vocês vão receber – eu vou passar a dar para vocês a teoria das demonstrações, axiomáticas, geometrias projetivas, é… cálculos infinitesimais, é… fenomenologias… todos os sistemas de pensamento que vão conseguir nos conduzir até a compreensão desse fora, mostrando pra vocês que isso atravessa todos os campos… todos os campos. Isso é uma fonte inesgotável e a participação nisso para um brasileiro, provavelmente para um latino-americano, é muito difícil, porque nós não temos, na nossa formação, determinados elementos que o europeu recebe com a maior facilidade. Nós temos que conquistar aquilo, (não é?).

Então…a J. tinha me [feito uma] pergunta aqui, e isso provavelmente pode ter produzido em todo mundo a mesma questão. Eu fiz uma distinção rápida, sem explicar —, entre problema e teorema, (não é?) e citei o Pasolini – o que, imediatamente, também coloca a matemática como uma possibilidade de pensar o fora. Por exemplo: há uma diferença entre a geometria euclidiana, a geometria métrica e a geometria projetiva. Ou também o que se chama analisis situs ou topologia – que são dois sistemas do fora. Todos esses nomes, nesse momento, nos aparecem como difíceis, mas quando eu começar a fazer a exposição, vocês vão compreender inteiramente.

(Houve um atraso nessa aula, desse curso… Um atraso que não é de vocês, é meu. Foi toda uma… uma complexidade, uma complicação de três semanas para cá, as quartas-feiras e as quintas-feiras estão se interpenetrando. E isso produziu uma complicação nas minhas aulas…) Porque a aula de hoje seria fundamentada na leitura do texto do Barbey d’Aurevilly – que é a “Cortina Escarlate”. Esse texto é que vai desencadear a noção de fora. (Então, como eu não posso… eu não pude contar com isso hoje, na quinta-feira que vem nós vamos fazer uma coisa muito original: vai estar aqui na mesa, aqui na sala, na cadeira, os “Cortina Carmesim” de todo mundo e todo mundo vai ler, antes de eu começar a aula. Antes de começar a aula todo mundo vai ler o texto e através desse texto eu vou começar a fazer um trabalho de altíssima sofisticação e absolutamente necessário – não importa a área em que a pessoa esteja incluída, para poder entender o que vai se passar.)

(Eu estou meio sem… sem gás mais para produzir qualquer coisa… Porque não há mais o que preparar, não há mais o que apontar em termos de psicologia e de física, não há mais o que falar em representação orgânica ou em representação cristalina…, não há mais por que distinguir Robbe-Grillet de outros autores e, assim por diante, porque todos vocês, dentro de limites, já conhecem isso muito bem. Então, a minha proposta é um trabalho exaustivo a partir de quinta-feira que vem.

Al.: Quinta-feira que vem eles têm que vir mais cedo por causa do Robbe-Grillet.

Cl.: Ah! Na quinta-feira que vem vai ter o Robbe-Grillet. É isso?

Al.: É.

Cl.: Porque se nós tivermos o Robbe-Grillet… Vai ser O Homem que Mente, não é? A Cléa vai fazer uma tradução simultânea do filme, uma tradução para-simultânea, vai tentar. Agora, eu com Robbe-Grillet e com “A cortina Escarlate”, eu… entro diretamente, penetro diretamente… E talvez já na aula de quinta-feira eu já entre com matemática para vocês e aí nós vamos fazer o caminho mais lindo que vocês possam… imaginar, não; temporalizar, (não é?) Esse caminho de penetrar nesses mundos aí. Então é isso, eu não tenho mais o que dizer. Nós temos que entrar na experimentação direta e acabou… (Certo? Eu não posso contar com ninguém… Ah! Eu vou ler em casa. Eu não conto… eu não acredito mais nisso! A minha experiência… Não, eu não acredito nisso. Vão ler é aqui mesmo! Como o texto são quarenta e poucas páginas, são poucas páginas, meia hora de leitura e mais dez minutos de… impacto. A hora em que acabar de ler é um impacto… vocês vão ter um impacto, porque vocês vão entrar pela primeira vez em contato com o fora. O contato com o fora vai ser dado a vocês…

(Eu só vou [fazer] um [pequeno] término para vocês.)

Eu falei em problema e teorema e isso gerou uma questão da J. Só uma explicação muito rala. Rala é uma expressão de um músico, amigo meu, chamado Ls. Ele fala rala de dois em dois minutos…)

Existe uma figura do pensamento chamada demonstração. A demonstração é um mecanismo lógico que funciona com princípios e conseqüências. Você parte de um determinado princípio… e o que é principio? Princípio é uma proposição não demonstrada. Eu vou usar o nome hipótese. Você produz uma proposição, por exemplo: “As gaivotas comem torrada” (Certo?) Isso é uma proposição. Como eu não posso demonstrar essa proposição – ela se torna uma hipótese. Essa hipótese é que vai ser demonstrada. (Certo?) Isso é o que se chama princípios e conseqüências. E isso é a base do teorema. O teorema funciona assim. Você produz uma proposição – que é uma hipótese, que é uma proposição não demonstrada – e você vai, por conseqüências, fazendo a demonstração dessa proposição. O fora, do problema, não funciona assim. O fora. .. você vai ter contato com alguma coisa que não está no regime lógico. (Foi tudo isso que eu dei na aula pra vocês.) Está fora do regime lógico… Claro que vocês não vão compreender isso agora. Mas a idéia está dada! Sair de qualquer linha clássica da lógica. Nós saímos. Não tem hipótese, não tem proposições não demonstradas, não tem nenhuma dessas figuras que dão um conforto para o pensamento. Não é nada disso! Você entra num universo que se chama universo da ablação, universo das secções cônicas e nesse texto do Barbey d’Aurevilly vocês vão tomar contato com ele. Porque o texto é indecidível e indemonstrável por qualquer processo lógico. Vocês vão ver isso. Então vai ser uma experiência belíssima porque você não pode tornar aquele texto uma proposição não demonstrada. (Vocês entenderam o que é proposição não demonstrada?) Você não consegue… Você não vai conseguir fazer isso. Você mergulha… você mergulha num inferno e esse inferno é o fora.

Al.: É possível inventar uma linguagem para o fora?

Cl.: Claro! Você através… através do mergulho… quando você se defronta com esse fora você vai começar a produzir um pensamento pra ele. Você usou a palavra linguagem. A linguagem é uma palavra… é um nome difícil de se entender. Porque a compreensão clássica que se tem sobre a linguagem é lógica. A linguagem é… é… é regulada, segundo a tradição francesa, pelo significante. Ou seja, você compreende a linguagem pelas composições do significante. Aqui, no pensamento, não. Você compreende a linguagem pelo fora – é o sentido. O sentido é um fora.

Al.: O que eu — é se é possível inventar uma linguagem…

Cl.: Claro! No fora você pode inventar qualquer tipo de linguagem.

Al.: A agramaticalidade.

Cl.: É… você produz uma linguagem qualquer para pensar aquilo. Nada impede. O que… o que você… a dificuldade que a gente vai ter nisso daí, é que os pensadores do fora geralmente fazem uma experimentação no interior da linguagem. Não é somente a agramaticalidade. Você pode produzir ali, em cima desse fora, um discurso quase que clássico… quase que clássico! Quando você lê o Deleuze, você não vê o Deleuze produzindo uma composição sintática diferente da composição sintática clássica. Não é essa a questão. A questão é o problema e a abordagem do pensamento. Isso aqui que varia, (entende?).

A melhor reposta para essa questão que você colocou – e essas questões são poderosas – é que não se entende a linguagem pelo significante (quem não souber o que é significante diz, eu explico), não se entende pelo significante, se entende pelo sentido. E o sentido é o fora. Por exemplo: você pega uma pessoa (isso é um exemplo do Bergson) você pega uma pessoa que teve um problema de ordem cerebral e perdeu o domínio do uso da linguagem. Não tem o domínio do uso da linguagem. Ainda assim essa pessoa continua mergulhada no sentido… mergulhada no sentido. Quer dizer, não é o campo das palavras que produz o sentido. É o sentido que gera as palavras. As palavras mergulham no sentido. É a maneira que você tem para separar porque senão você cai nos logros da psicanálise, nas tolices da psicanálise e vai chegar ao cúmulo de dizer que o fora é estruturado como uma linguagem. Mas esse cúmulo, essa tolice quase que assustadora… é uma tentativa de suavizar a vida (não é?), fazer uma suavidade que a vida não quer. Ela não precisa disso.

(Eu respondi bem? Tá?)

Então seria isso… Certos elementos que a gente tem, eles são rompidos. L. usou a noção de agramaticalidade… a agramaticalidade é um instrumento do pensamento muito poderoso para romper o domínio do lógico… do lógico decerto… mas não é o único… mas não é o único. Você pode inventar quantos forem necessários! O Deleuze tem um texto belíssimo chamado Bartleby. Não sei se vocês conhecem: Bartebly. Não é do Deleuze, o texto é do Melville. Do Herman Melville… O Deleuze faz um trabalho nele. O Bartebly não é a agramaticalidade – mas é uma experiência do fora.

Então essas experiências do fora vão começar a surgir para nós…

E… eu vou dar um ultimo exemplo para vocês. Aqui esse exemplo vai ser bom porque é uma coisa que eu vou transpassar mesmo.

Eu tenho uma idéia de fazer um filme. Então, um exemplo para vocês entenderem… nesse filme… ele vai ter, vamos dizer, seis histórias… seis histórias. Seis histórias como se diz, história mesmo. Com passado, presente e futuro. Agora, ligando essas histórias vai ter um acontecimento que não faz parte dessas histórias. Esse acontecimento é o fora. O filme é o seguinte: é… são doze mulheres formando seis casais e o filme é filmado… o filme é… é… plano americano, plano médio, é sempre plano médio, nunca sai do plano médio. E… existe uma seqüência que é semelhante ao Pickpocket. (Vocês se lembram do Pickpocket?) É um plano médio para baixo, (não é?) só filma para baixo. Então, no… no… no filme, para baixo, vai haver um acontecimento que vai atravessar as seis seqüências do filme. Esse acontecimento é muito simples: é uma mulher botando a mão nas pernas de outra. Então, essa mulher botando a mão nas pernas de outra está inteiramente fora de qualquer tempo histórico. Mas vai atravessar o filme todo e vai ser o elemento constituinte do filme à semelhança do Robbe-Grillet. (Não sei se vocês entenderam? A mão do filme é da R. É ela que vai segurar nas coxas de uma mulher qualquer. —–) Pronto, é isso.

(Está bem, não é?…)

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