Aula de 09/05/1992 – O conhecimento humano: a gênese da generalidade. Diferença e repetição

“Eu não tenho nenhum projeto especial para esta aula. É mais uma aula Judas, O Obscuro; restauradora do que criadora, para organizar questões do curso.

Bom…

A ideia de possível que é uma ideia com a qual, nos cursos, nós vamos desencadear Leibniz. É pela ideia de possível que Leibniz vai chegar para nós. Ela se entende, inicialmente, como aquilo que é regido pelo princípio de não contradição.

(…)

POSSÍVEL = PRINCÍPIO DE NÃO CONTRADIÇÃO

O que já nos faz entender que quando a ideia de impossível aparecer, é a ausência do princípio de não contradição.  Torna-se fácil a compreensão.

Por exemplo: No séc. XIX, o Meinong, ele trás como original na obra dele, trabalhar nos objetos impossíveis. O que faz com que a obra dele seja, exatamente, um confronto com o campo dos possíveis.

Muito bem.

A noção de possível é a noção que sustenta a formação do mundo pelas teologias medievais. Porque elas pensam um Deus dotado de duas faculdades  A noção de faculdade já importa porque remete para Kant  (…) e estas duas faculdades são a vontade e o intelecto. Então, o Deus medieval, ele tem uma vontade e um intelecto. E o intelecto dele é constituído pelos possíveis. Logo, o intelecto divino é regido pelo princípio de não contradição.

Esta colocação leva os teólogos a dizerem que o rompimento com o princípio de não contradição (Veja que eu estou usando não contradição, porque se eu estivesse usando contradição, eu estaria falando em Hegel – é o princípio de não contradição enquanto aristotélico1) leva os teólogos a dizerem que a Deus repugna o rompimento com o princípio de não contradição.

A não contradição regendo o mundo dos possíveis leva a que a gente não precise perguntar o que é um objeto possível. Basta que ele tenha o princípio de não contradição o regendo, que ele é um objeto possível. Aí torna-se muito fácil de compreender.

Agora, esses POSSÍVEIS, regidos pelo princípio de não contradição, eu vou passar a chamá-los de ESSÊNCIAS. Então são as essências que estariam no intelecto de Deus. (…) Essas essências, esses possíveis, que através da vontade de Deus, vai ser construída a realidade. O que implica em dizer que: ao real, alguma coisa o antecede. O que antecede o real é o campo das possibilidades. Tanto o intelecto, que contém os possíveis, como a vontade que os efetua, são faculdades ativas de Deus. (Eu usei faculdades ativas aqui, o que é muito fácil, porque todo mundo sabe o que é o involuntário e as faculdades passivas).

Então, as faculdades ativas de Deu e esse campo de possibilidades regido pelo princípio de não contradição, faz com que Deus, ao produzir/ao criar o universo, ele crie a partir desses possíveis que estão no seu intelecto. Então o mundo é racional. (…)

O mundo é racional, a partir desses possíveis no intelecto de Deus.

Agora, o que torna real a esses possíveis é a vontade de Deus.

Então o intelecto de Deus, trabalhando essas essências possíveis, ele vai dando realidade.

Elas tornadas reais, eu vou passar a chamar de coisas. Coisas ou mundo físico.

Então nós teríamos aqui, nitidamente, Deus criando o mundo, que é o mundo das coisas, o mundo físico; e esse mundo físico sendo originário nessas essências possíveis que estão no seu intelecto.

Gerou-se nitidamente dois temas: gerou-se o tema da Física e gerou-se o tema da Lógica.

Porque a Lógica é exatamente esse mundo possível que está no intelecto de Deus.

Bom, o homem vai ser também originário nesse mundo possível. O homem tem origem nesse mundo possível e se torna real. Agora, quando o homem surge, ele surge reproduzindo Deus, no sentido de que ele vai ser feito ‘à imagem e semelhança de Deus’, ele trás com ele também um intelecto e uma vontade.

Então, ele trazendo com ele um intelecto e uma vontade, ele tem um poder semelhante a Deus de produzir e ele tem essas possibilidades dentro do seu intelecto. Só que a diferença do homem para Deus, utilizando uma linguagem kantiana, Deus é uma potência infinita; ou seja, Deus é sempre criador. Enquanto a prática do homem é de conhecimento.

Deus parte dos possíveis para produzir as coisas. O homem parte das coisas para conhecer os possíveis.”

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:


Parte 4:


Parte 5:


Parte 6:


Esta aula tem 2 horas e meia de duração (cada parte contém mais ou menos 30 minutos).  A Parte 6 dura apenas 3 minutos e meio.

Aula de 19/12/1995 – A dobra e o barroco – Clarões orgânicos na noite escura

(…) Sempre é difícil acompanhar; então, durante algum tempo até eu dizer “agora”, não é propriamente aula: é uma fundamentação para uma aula que eu vou dar.Eu vou começar dando fundamentação e, à partir dessa fundamentação, a aula começa. Aí eu aviso “vai começar a aula agora. O que vocês podem fazer é se sustentar naquilo tudo que eu fundamentei, tá?!
 
Eu vou começar . Cada tema que eu falar, vocês dizem “já entendi”. Porque a partir desses temas é que a aula vai se desencadear.
 
No século XVII um filósofo chamado Leibiniz. Um filósofo ¬difícil se considerar o que eu vou dizer¬ um filósofo Barroco, integralmente Barroco. Ele, entre outras práticas,  constituiu um conceito que pode receber o nome de harmonia pré-estabelecida ou harmonia universal. O Leibiniz construiu um conceito chamado ¬melhor¬ de harmonia universal.
 
O que quer dizer exatamente esse conceito de harmonia universal?
Quer dizer o seguinte: que tudo o que existe na Natureza… tudo o que existe na Natureza está ligado (uma coisa à outra). Então, não existe na Natureza, nenhum elemento dentro da Natureza, que não esteja relacionado a outro elemento. Então você nunca encontrará na Natureza o que se chama “estrutura atômica”. A noção de “estrutura atômica” é uma noção de alguma coisa isolada. Na Natureza não existiria nada que fosse isolado. Tudo estaria conjugado.
 
Muito bem… o que que ele estabelece? Ele estabelece que tudo na Natureza está em relação. A Natureza é uma rede é uma cadeia de relações. Isso chama-se “rizoma”.
 
Aluna: Rizona?
Claudio: Rizoma! (Claudio soletra: R-I-Z-O-M-A)
 
O que é um rizoma?
O rizoma é que tudo o que existe está relacionado. Tudo o que existe está relacionado.
Então vamos supor aqui… vamos lá…
 
Claudio pega um biscoito e fala: Biscoito. Olha esse biscoito aqui. (Para vocês entenderem, tá?!) Aí chega o rato. O rato entra em contato com esse biscoito. O rato entrou emcontato com esse biscoito.
 
Claudio pergunta: Se ele entrou em contato com esse biscoito, ele entrou em contato com todo o universo?
Aluna: Entrou, claro.
Claudio: Por que?
Claudio e alunos: Por causa da “harmonia universal”.
 
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O que esse filósofo está dizendo é que quando nós entramos em contato com um elemento qualquer, de imediato, nós entramos em contato com o universo inteiro.
Voltando… agora eu vou complicar um pouquinho…
 
Esse biscoito entra em contato com essa xícara. Isso significa que esse biscoito entrou em contato com o universo. Isso chama-se “harmonia universal”. A noção de “harmonia universal” estabelece uma ideia que é: logo que você se encontra com um elemento, isso significa que você se encontra com (agora eu vou complicar) com o infinito. Então o contato com um elemento só, remete você para o infinito da natureza.
 
A Natureza, ela é infinita, e todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres.
 
Todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres. Então vamos voltar… vamos voltar…
 
Olha esse biscoito aqui. Vamos fingir que esse biscoito seja um rato. Olha esse rato aqui. Esse rato, ele tem limites, olha só… ele tem limites: ele tem um lado, ele tem um outro lado menor e aqui ele vai aumentando. Ele tendo limites, isso significa que este ser que está aqui, ele é finito. Finito quer dizer: tem limites. Então esse ser que está aqui, ele é um ser limitado, logo ele tem limites. Mas quando ele entra em contato com outro objeto, logo em seguida ele entra em contato com todo o universo. O que significa que os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Claudio: Ficou difícil?
Aluna: Acho que não…
Claudio: Os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Esse filósofo do século XVII chamado Leibiniz vai dizer que estes seres finitos que têm dentro de si o infinito do mundo inteiro chamam-se “mônadas”. (Claudio soletra: M-Ô-N-A-D-A)
 
A mônada é aquilo que a natureza é constituída. A natureza é constituída por uma infinidade de mônadas. Mas cada mônada conhece o infinito da natureza, tá?!
 
Então todas as mônadas, elas têm dentro delas o infinito da natureza.

Agora veja…acho que foi compreendido, né?!
 
Compreendeu Luiz?
 
A mônada tem dentro dela o infinito da natureza.
 
continua…
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

***

 
Esta é uma aula célebre. Além de ser belíssima, Claudio se aborrece no final. Irritado com o que chama de “tolices” , interrompe o que dizia, levanta-se e deixa a sala, e esta foi a única vez em que isto aconteceu. Para ele, a dificuldade de compreensão dos alunos não atrapalhava uma aula; mas o que chamava de “interrupções por conta de tolices”, era algo que o impedia de prosseguir.  Não cortamos estes minutos finais, pois eles expressam sua postura como filósofo e professor.

Na Parte II, entre os 23:36  e  27:47 minutos, há 4 minutos apenas de conversas indistintas, no intervalo para o café; mas depois a aula prossegue normalmente.
 
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Aula de 03/05/1995 – O caos e o crivo – O conjunto dos possíveis

(…) O meu objetivo [nesta aula] é, como eu disse pra vocês, a Teoria do Acontecimento, que o Deleuze aponta como sendo originária nos Estoicos, em Leibniz e em Whitehead. (Certo?) Então, o meu objetivo em torno do Whitehead é atingir a Teoria do Acontecimento. E essa Teoria do Acontecimento vai gerar quatro conceitos. E nós temos que lidar com esses quatro conceitos do Whitehead (que são de extremada dificuldade de compreensão!), que são: Extensão, Intensidade, Indivíduo e Objeto Eterno. Então, de alguma forma, nós temos que nos inteirar deles [desses quatro conceitos].
 
(…)
 
Então eu vou indicar um livro para vocês, um livro chamado “A Dobra” [A Dobra: Leibiniz e o Barroco] , um livro do Deleuze que trata do Whitehead, trata do Leibniz e trata do Barroco.
 
(…)
 
O Deleuze, em um capítulo que ele trata do Acontecimento, no livro “A Dobra”, ele introduz dois conceitos em inglês: “Many” e “One”. [Quando] ele introduz esse dois conceitos. Normalmente, um leitor de filosofia exulta, todo de peito erguido:  É comigo mesmo! –diz o leitor de filosofia, “Many” quer dizer “Mútiplo” e “One” quer dizer “Um”. Então “Um” e “Múltiplo”. É um hábito que todo estudante tem… desde que nasce ele está estudando estas duas coisas: , o “Um” e o “Múltiplo”… mas quando ele vai se aprofundar, [ele vê que] não tem nada a ver. Não tem nada a ver… Estes dois conceitos [em Whitehead] estão próximos a uma questão bergsoniana não interessa neste momento.
 
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Mas o Deleuze vai liberar estes dois conceitos, com o objetivo de falar em outros dois conceitos, que são o conceito de “Caos” e o conceito de “Crivo”. (…) Ele usa esses dois conceitos e coloca que o conceito de “Caos” é uma abstração, no sentido de que o “Caos” não aparece sem a presença do “Crivo”. Então, quando eu digo que “A” não aparece sem “B”, eu digo que “A”  isolado  é uma abstração. É isso que ele está dizendo.
 
Então o conceito de “Caos” para ele seria uma abstração, como eu disse. Em seguida, o Deleuze vai apontar – para entender o que ele está dizendo em termos de “Caos” e de “Crivo”– (…) ele aponta para uma questão Física [para você ver qual a dificuldade do texto!], a Eletromagnética; ele aponta uma questão da Biologia, que é a membrana polarizada – Ninguém nem sabe o que é isso…– ; e, em terceiro lugar, ele aponta Platão (…).
 
Então, o que eu vou fazer nessa aula é um trabalho em Platão, mas um trabalho de uma dificuldade e de uma originalidade muito grande; no sentido de que, nas escolas de filosofia, vocês não encontrarão uma leitura deste tipo que eu vou fazer.
 
continua
 

Parte 1:
Parte 2:

 
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