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Aula de 19/01/1996 – A força imaterial da vida

"A nossa alma é essa confusão de micro-percepções. O que nos permite dizer que a nossa alma é constituída por um fundo sombrio. Eu queria que vocês marcassem esse conceito - fundo sombrio. É assim o fundo da nossa alma! Os barrocos diziam fuscum subnigrum. A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Ela é... os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas - isso é o fundo da nossa alma! Ela é, então, um fundo sombrio - e esse fundo sombrio é exatamente aquilo que os pintores barrocos colocavam no fundo dos seus quadros. Você pega uma tela do Caravaggio: o fundo da tela é marrom e vermelho; e marrom e vermelho é o fundo sombrio. Ou melhor, todos os pintores barrocos produziram fundos sombrios nas suas telas - porque queriam mostrar que daquele fundo sombrio se ergueriam as percepções claras. Davi segurando a cabeça de Golias, de Caravaggio. Então, fundo sombrio é um conceito definitivo e a gente saber disso - saber transformar o fundo sombrio em conceito claro - torna a nossa vida mais bonita! Nós sabemos que somos constituídos por uma noite infinita e escura; e que dessa noite infinita e escura saem pequenas luzes que formam a nossa vida consciente. Então, todos nós nos identificamos no fundo sombrio e nos diferenciamos nas percepções claras. A alma são infinitas potencialidades. Olhem para um bloco de mármore: o bloco de mármore é cheio de veias, o mármore é cheio de veias. Aquelas veias são caminhos que as forças plásticas e as forças elásticas fazem no mármore. Mas as estátuas que estão em potência no mármore são as almas do mármore. E é exatamente isso que é a nossa alma! A nossa alma - ainda que ela seja finita - contém dentro dela o infinito do mundo inteiro."

Aula de 01/02/1996 – Kant e Bergson: o transcendental e o assubjetivo

"Em Bergson, a percepção é assubjetiva. E o Bergson vai povoar a natureza dessas percepções assubjetivas. Vão se chamar eus larvares. O processo de Bergson aqui é a consciência de direito, a percepção ideal. O melhor nome para se dar a essa 'percepção ideal' é assubjetiva ou máquina. Máquina é um conceito que se opõe a sujeito e objeto. Então, a percepção ideal, a consciência de direito - é uma máquina, porque não é sujeito: não há sujeito e objeto. Sujeito e objeto só nascem quando essa percepção se humaniza, ou melhor, se animaliza. No vivo! Aí nascem sujeito e objeto - antes não havia. A grande diferença de Deleuze para Kant é que para Kant o transcendental é uma condição de possibilidade. Para Deleuze o transcendental é genético. A grande mutação da filosofia - e que é insuportável para todo mundo... - é que o Deleuze pensa o transcendental como gênese."

Aula de 12/09/1995 – O atual e o virtual ou o objetivo, o subjetivo e o fora

"O conceito de representação orgânica: é o tempo como sucessivo e integralmente preenchido pelo presente. A representação orgânica é isso - o presente preenche todo o tempo. Você não sai do presente - não há hipótese de sair do presente - nem quando se lembra, nem quando projeta: o presente te governa. (...) O cristalino... o cristalino é a saída do governo que a força do habitus exerce sobre as nossas vidas. Você não sabe se é real, se é imaginário, se é sonho, se é lembrança... porque você não sabe mesmo! Tem acontecimentos assim, surpreendentes! O surgimento de imagens produzidas pelo seu cérebro. O seu cérebro que produz. Na verdade não é o seu cérebro que produz, quem produz é o cérebro do planeta - que é um cérebro líquido. Ele produz tudo que você deseja."

Existe uma inteligência do virtual? | por John Rajchman

"O pensamento precisa sempre do cérebro: não para tornar necessária a lógica de seu encadeamento, mas para apreender esse virtual que perturba o pensamento e o coloca em novos caminhos. A questão do cérebro torna-se, então, prática: é a questão do que ainda podemos fazer com ele. O verdadeiro problema não é mais uma indistinção entre nossos cérebros e nossos computadores, mas, antes, que “não sabemos ainda o que pode um cérebro”, mesmo quando ele se acopla a uma máquina smart em um dado agenciamento. Em lugar de dizer que “somos apenas máquinas smart dentro de um carbono pesado”, seria melhor que nos perguntássemos: “como nos tornamos outros em um mundo que inclui não apenas essas máquinas, mas também esse tipo de discurso?”. Chegamos, então, à questão foucaultiana por excelência: quando, como e com que consequências tal espécie de coisa se tornou “coisa dita”".

Aula de 05/09/1995 – Uma introdução à semiótica: Peirce, Deleuze, Maine de Biran

“O ícone é um signo natural que você apreende por semelhança: por exemplo, eu vejo um retrato da Andréa, eu me lembro da Andréa; eu vejo um retrato de uma cadeira, eu me lembro da cadeira. O signo ícone faz uma relação, por semelhança, com o que ele representa. Já o índice é um signo que de algum modo nos projeta para o futuro. Por exemplo, você vê uma quantidade de nuvens negras no horizonte e isso é índice de chuva. Como por exemplo, Robinson em Speranza vê a marca de um pé na areia e diz: “Há um índio nesta ilha” (Tá?). Isso é um signo indicial. E o símbolo é um signo linguístico, ele pertence ao campo da linguagem ― e é aqui que aparece a grande marca da distinção entre a semiótica e a semiologia: é que a semiologia só trabalha com o símbolo.”

Aula de 24/08/1995 – A forma do falso

“Você está diante de uma personagem que é o tempo inteiro falsa. Ela quebra... quebra... Ela é falsa na forma, ela não é falsa no conteúdo. Ela não é falsa porque mente; não é falsa porque não quer ter relações sexuais com [Mateo]: ela é falsa enquanto forma - a forma da personagem é a forma da falsidade. (...) No caso de 'Esse obscuro objeto do desejo', enquanto conteúdo do filme, na verdade eu nem sei se aquela personagem mente - eu não sei...- porque ela é mentirosa na forma - não no conteúdo do filme. Então, o que quer, o Buñuel, ao colocar uma personagem falsa..., ao colocar uma narrativa falsa, ao introduzir uma narrativa falsa, ao introduzir uma personagem falsa... Ao fazer isso, ele introduz no cinema o falso - não no conteúdo, mas na forma do cinema - o cinema recebe o falso!”