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Aula de 02/02/1996 – O movimento periódico e a forma vazia do tempo

"Deleuze cita Hamlet de Shakespeare ― e o Hamlet diz: “o tempo saiu de seus gonzos”. O tempo abandonou as suas forquilhas, as suas dobradiças. O tempo no Aristóteles tem como modelo a estrela fixa e o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo. Sabe o que é isso, uma estrela fixa em rotação sobre seu próprio eixo? É uma porta giratória... Eu acho que o melhor modelo que vocês podem usar é a porta giratória. A porta giratória é o grande modelo do tempo aristotélico. Então, aparece um gênio maligno, um deus enlouquecido, retira a dobradiça da porta e a porta enlouquece. Quando a porta enlouquece, emerge o movimento aberrante ― e o tempo se liberta do movimento. Então, quando se fala em arte e em filosofia, a questão de ambas ― da arte e da filosofia ― é ir atrás dessa porta enlouquecida. Porque conquista do tempo é sinônimo de liberdade."

Aula de 21/09/1995 – O cinema do corpo: instante pleno e gestus

"As categorias da vida são as atitudes do corpo, as posturas do corpo - no sono, na embriaguez, nos esforços, nas resistências. Ou seja - tudo aquilo que era desconsiderado, não tinha a menor importância para um pensamento que se centrava na morte, começa a se elevar quando o pensamento se dirige para a vida. São as posturas e as atitudes que o corpo pode ter, que explicam e mostram o que é a vida. O sono, a embriaguez, a tristeza, as paixões e assim por diante. Isto daqui é uma amostra de que o cinema - talvez - esteja mais adiantado que a própria filosofia, no sentido em que ele entendeu que pensar é pensar o corpo, é pensar a vida. E, ao fazer isso, nesse mergulho que o pensamento faz no corpo, o que o pensamento descobre que o que está incluído no corpo - é o tempo. E o tempo faz parte do corpo - é essa a descoberta de Cassavetes."

Aula de 12/09/1995 – O atual e o virtual ou o objetivo, o subjetivo e o fora

"O conceito de representação orgânica: é o tempo como sucessivo e integralmente preenchido pelo presente. A representação orgânica é isso - o presente preenche todo o tempo. Você não sai do presente - não há hipótese de sair do presente - nem quando se lembra, nem quando projeta: o presente te governa. (...) O cristalino... o cristalino é a saída do governo que a força do habitus exerce sobre as nossas vidas. Você não sabe se é real, se é imaginário, se é sonho, se é lembrança... porque você não sabe mesmo! Tem acontecimentos assim, surpreendentes! O surgimento de imagens produzidas pelo seu cérebro. O seu cérebro que produz. Na verdade não é o seu cérebro que produz, quem produz é o cérebro do planeta - que é um cérebro líquido. Ele produz tudo que você deseja."

Aula de 26/07/1995 – O nascimento do tempo

“As impressões não se interpenetram. Elas são uma heterogeneidade de extinção. Aparece uma impressão, desaparece. Aparece outra. Aparece uma impressão, desaparece. Aparece, desaparece. Nas imagens, não. Nas imagens há a interpenetração. O que faz o espírito que contrai? Ele junta o que na natureza está separado”.

Aula de 19/07/1995 – Plano de imanência: esse turbilhão de luz

“Existe um pintor inglês, chamado Turner, que é um pintor de marinhas. E ele começou sua vida como pintor pintando fragatas no porto, naus no porto, nas calmarias, na brisa das primaveras... e depois, na segunda fase dele, ele evoluiu ― ou involuiu ― para pintar essas naus e fragatas no interior de uma tempestade. E na terceira fase, ele faz desaparecer todos os objetos: só existe uma tempestade de luz dourada (era a tela que eu ia mostrar para vocês!) onde não se pode distinguir nenhuma coisa, nenhum objeto, não há nenhum objeto para se distinguir... Só há aquele turbilhão de luz... um fulgor de luz dourada. Esse turbilhão de luz, esse fulgor de luz dourada chama-se Plano de Imanência ― e é a Natureza na sua origem. É um fulgor de luz dourada.”

Aula de 18/07/1995 – A filosofia e o cinema: para uma nova imagem do pensamento

“Na nossa sociedade a faculdade mais prestigiada, qual é? A inteligência! Essa é a mais... "Ele é inteligente!..." Ninguém diz: "Ele tem boa memória!..." (Risos...) Aí ele fica lá em cima porque a inteligência é uma faculdade de alto destaque no nosso mundo... - e a inteligência é um sistema lógico: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. - Mas se eu fizesse da inteligência o que ela disse, eu não diria Sócrates é mortal, eu diria - "As galinhas são verdes". Sócrates é mortal, então as galinhas são verdes. (Entendeu?) Agora, o pensamento não é sinônimo de inteligência. Então, é esse o movimento mais difícil - pensamento e inteligência não são a mesma coisa! E vocês vão conhecer no percurso da aula... porque a primeira complexidade do pensamento que eu dei para vocês foi a potência do pensamento de inventar e de criar... - então, vocês vão ver que pensamento e inteligência não são a mesma coisa. Por exemplo, ao pensamento nada impede que ele lide com aquilo que a inteligência detesta - por exemplo - a inteligência detesta os paradoxos; e o pensamento é apaixonado por eles. O pensamento é apaixonado pelos paradoxos: "Um paradoxo?... Onde?" (Risos...) A inteligência: "Um paradoxo?... Manda a polícia!"”