Atacar a arte é atacar a vida e a vida quer continuar – por Suely Rolnik

Atacar a arte é atacar uma atividade essencial para a saúde de uma sociedade. È que a função da arte é criar um corpo visível, audível, palpável, etc.. para aquilo que a vida pede toda a vez que ela se vê sufocada em nossas formas de existir, em nosso forma de interpretar o mundo e de reagir aos acontecimentos. Neste sentido a arte está diretamente ligada à vida. A vida quer continuar e para isso ela se constitui, essencialmente, em um processo contínuo de transfiguração. Isso talvez seja mais fácil ver em outros componentes da biosfera que não o componente humano, um rio por exemplo. Ailton Krenak conta que em um trecho do Rio Doce, onde vivia e continua vivendo uma comunidade indígena, o rio secou pelos estragos da mineração pela Vale do Rio Doce. Ele parecia definitivamente morto. Algum tempo depois a comunidade descobriu que o rio encontrou uma maneira de continuar fluindo: estava fluindo caudaloso por debaixo da terra. Na existência humana essa função, ela se dá como um processo de criação. Em nossa cultura é a arte que cumpre essa função. E quando ela consegue que isso aconteça, quando ela consegue trazer a pulsação do que está pedindo passagem, ela tem um poder de contágio e ela abre esse espaço na vida social. Por isso, atacar a arte é atacar a vida. Isso é gravíssimo e nós não podemos deixar que isso aconteça.

Suelly Rolnik

Aula de 08/12/1994 – Élan Vital, Kunstwollen, Vontade de Arte

“O que acontece com o homem é que ele tem a sua vida totalmente regulada pelas forças da razão. No nível científico, ele constitui as leis científicas; no sentido moral, ele constitui as leis dos deveres; e essas duas leis comandam a nossa vida. O que faz Abraão, por incrível que pareça, é uma tentativa de escapar, pela fé e pelo absurdo, das forças da lei. A tentativa de escapar do domínio da lei, a tentativa de escapar dos  deveres, pela fé ou pelo absurdo ou, de uma maneira ainda mais drástica, pela loucura… eis a história do pensamento humano, registrada exatamente  nestas duas leis, submetida à razão especulativa e à razão moral. (…) Bergson chama a vida de élan vital. A vida para ele é uma linha que entra na matéria e encontra uma resistência da matéria. Quando ela encontra esta resistência, ela bifurca, ela começa a fazer vários traçados. É este élan vital que eu estou chamando de Kunstwollen, ou Vontade de Arte. Kunstwollen não pertence ao sujeito psicológico, mas à própria vida. A vida traz com ela uma vontade de arte. O que estou dizendo é que a arte não é uma invenção humana, é uma invenção da vida. Ou seja, se você for estudar alguma coisa fora do campo antropológico, se você for estudar a vida dos animais, já nos animais você encontrará a arte. (…) Até mesmo no animal existe um corpo orgânico e um corpo não orgânico, inteiramente expressivo.”

[gravação com ruídos, porém perfeitamente compreensível]

 

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