Curso “O que é a filosofia?” – Aula 04

Os estoicos dizem que quando os planetas se encontram no mesmo ponto do céu, quando as estrelas refazem seus cursos de maneira idêntica, cada acontecimento do período passado se realiza de novo sem nenhuma diferença. Sócrates e Platão e cada um dos homens existirão uma vez mais com os mesmos amigos, experimentando os mesmos fatos, cometendo os mesmos atos e cada cidade, cada aldeia e cada campo se manifestará da mesma maneira. As coisas, o mundo não se dá uma vez só, mas várias vezes –infinitas. As mesmas coisas que são destruídas pelo fogo divino, retornam da mesma maneira, infinitamente, sem fim. É o infinito do eterno retorno e o limite dos corpos. É o lado dos limites e do infinito, que se congregam, para constituir o reino de Cronos. Nada será diferente do que já passou, mas tudo se passará da mesma maneira e sem nenhuma diferença, até mesmo nos detalhes mais ínfimos, por exemplo, no cruzamento de um gemido com um pequeno foco de luz, que ao se juntarem, comprometem-se pelo infinito afora, como a fogueira que um dia iria queimar, queimou, Averroes, e que Borges, o vidente, afirmou: não a acenda senão ela queimará pela eternidade. Esta teoria, a doutrina do eterno retorno, em que a conflagração queimará tudo e neste incêndio mundial, tudo desaparecerá confundindo-se no fogo original. Mas tudo retornará das cinzas, articulado e ordenado, para cumprir seu destino de infinitude e de limite: o ciclo cósmico jamais cessará: jamais começou, jamais terminará. A periodicidade apresenta uma regularidade sem variação: a tese da identidade entre todos os mundos infinitos não se romperá: e as neves e as chuvas, e as tristezas e as alegrias, serão as mesmas invariavelmente. –Só os corpos existem no espaço e só o presente no tempo. Ambos são limitados, tanto os corpos quanto o presente, por isso os estoicos falam em um presente eterno, infinito mas limitado– e não há como identificar o limitado e o infinito estóico com dois dos gêneros do Filebo, que se aplicam ao modelo platônico, mas jamais a uma terra presa à imanência, conforme o ser estóico. “Não há causas e efeitos entre os corpos: todos os corpos são causas, causas uns em relação aos outros, uns para os outros. A unidade das causas entre si se chama Destino, na extensão do presente cósmico”. Com a posição estoica, colocamo-nos diante de temas tão surpreendentes como o dos futuros contingentes, do argumento dominador, do necessário, do possível e do impossível, da simpatia universal, enfim, do destino e da liberdade: para tudo isto ser compreendido, atravessamos argumentos preguiçosos, causas adjuvantes e causas principais. É neste domínio que estão presentes e dominantes a causalidade física e o princípio de contradição, mas é também neste domínio que surgirão as compatibilidades e as incompatibilidades a-lógicas, as conseqüências não-causais.

Quando a teoria das idéias se constitui, além do fluxo heraclítico perene, de imediato se constitui uma teoria da participação, não, no caso ressaltado –participação do sensível ao inteligível–, mas das idéias entre elas, para se pôr a teoria das idéias em confronto direto com megáricos e cínicos. A filosofia cínica afirma que o que existe é o individual e não o conceito, gênero ou espécie. Antístenes, o cínico, sempre viu bem os cavalos, mas jamais a cavalidade. O princípio de identidade prevalece, e a teoria da participação platônica é inútil. O homem é homem; o Bem é Bem. Só os corpos existem, idéia central da futura escola estóica. O que se refere a Cronos, os corpos com suas tensões, ações e paixões: o presente corporal. Mas algo diferente se insere na filosofia estoica, onde está ausente o limite temporal. Os estoicos são mais megáricos e cínicos do que platônicos e aristotélicos. Eles fazem uma subversão na filosofia, com a inclusão de um extra-ser que constitui o incorporal como entidade não-existente. Sem confusões religiosas com as tolices de almas incorporais ou as confusões das questões psicológicas e lógicas de sujeitos e faculdades com o incorporal. Para ser entendida a inclusão de um extra-ser no mundo da existência, dos corpos, das ações e das paixões, logo das causas, é preciso a ruptura aparentemente impossível da relação causal: separar-se causa e efeito. É desta cisão que emerge a idéia de expressão, que rompe radicalmente com a sinonímia de singulier e de individual. O singular não é uma unidade numérica, nem várias coisas, uma série, como não é um solus distinto de toda a relação. Singularidade é rigorosamente distinta de toda a individualidade. A expressão só forma sentido quando associada ao pré-individual: terra das singularidades nômades e da convergência das séries de singularidades se estendendo sobre linhas ordinárias. A cisão causal produz tal fissura, que do lado do acontecimento, encontramos “um conjunto de correspondências não-causais, formando um conjunto de ecos, de retomadas e de ressonâncias, um sistema de signos, em suma, uma quase-causalidade expressiva, e não uma causalidade necessitante”.

Os acontecimentos-efeitos têm com suas causas físicas uma relação de causalidade, e esta relação é uma expressão; os acontecimentos-efeitos têm entre si uma quase-causa ideal, mas que não é uma relação de causalidade e sim de expressão. O que são essas relações expressivas dos acontecimentos entre si? As perguntas abandonam, seja uma tradição causal, seja a identidade e a contradição: as perguntas agora se envolvem com critérios de compatibilidades ou incompatibilidades. Trata-se do acontecimento, e este nem é lógico, nem é físico: os critérios do acontecimento não se confundem com hormônios, com forças mecânicas, nem com predicados universais e classes lógicas. Eles são, os acontecimentos, confatalia ou inconfatalia –crime de Édipo e a morte de Sócrates como acontecimentos. Conjuncta ou disjuncta.

Deleuze diz que talvez os estoicos não tenham podido conjurar a dupla tentação de retornar à simples causalidade física ou à contradição lógica. Que tenham-se deixado prender aos corpos e às representações. É evidente que tudo isto está em relação com a sobra dos textos estóicos decepcionantes e parciais para o historiador. Mas o que importa é a afirmação de que Leibniz teria sido o primeiro teórico do acontecimento. Fora das causalidades físicas, das contradições lógicas. É preciso ter uma compreensão bem clara quanto aos problemas dos corpos, das causas e das representações, para poder envolver-se com o mundo da expressão, que tem origem na emanação neoplatônica. Além disso, a leitura do anti-cartesianismo de Leibniz e de Espinosa é fundada na teoria da expressão. A insistência deste texto em falar da expressão, algo que ainda não foi exposto em aula como os demais temas, é motivado pela importância que a expressão tomará na explicação que será dada, na passagem do lado causal da cisão, para o lado do efeito. Será mesmo a expressão a mediadora do entendimento.

O universal é o gênero e a espécie, duas entidades lógicas, sujeitas a identidades e contradições; o indivíduo, ou o singular, como era do gosto medieval, sujeito às causalidades físicas, um mecanismo causal físico. Observem-se estas questões no mundo pré-medieval, de Avicena, em sua compreensão do que é essência. A essência pode ser visada sob três aspectos, nas coisas –individualizada, física; no intelecto –universalizada, lógica; e fora das relações que pode ter com as coisas ou com o intelecto: em si mesma. Um duplo enraizamento do que, quando fora do enraizamento, é em si mesma. A essência. Quando se é lógico, fala-se da essência como universal; quando se é físico, fala-se em causalidade. Mas a essência em si mesma pertence à metafísica, que parece referir-se a um mundo novo, nem lógico, nem físico – mas expressivo. O acontecimento, o a-causal, o supra-lógico. A essência metafísica é a singularidade. Duns Scot prolonga Avicena, inclusive rompendo com a individuação negativa pela matéria de Tomás de Aquino, abrindo as vias para uma filosofia da univocidade do ser. Com estes autores, a filosofia ganha em emancipação, e ao modo de um vitral gótico, ganha em beleza. Quando a expressão com Espinosa se destaca na obra de Deleuze, ao ponto de constituir uma linha que reverte inclusive o entendimento do neoplatonismo, em sua doutrina da emanação, junto com ela todo um movimento do pensamento se constitui, a tal ponto que o próprio Leibniz, apontado como filósofo do acontecimento, sobretudo por causa de sua doutrina dos compossíveis e dos incompossíveis, aplicada na Monadologia, revela-se insuficiente. Nicolau de Cusa e Proust confundem-se com as singularidades impessoais, com a metaestabilidade –abrindo um ponto de vista, ou à semelhança da experiência de Kandinsky com sua tela fazendo às vezes da anamorfose, uma nova forma de fazer filosofia, de fazer ciência, de fazer arte, de tirar da vida as tolices cada vez mais insuportáveis do homem vulgar com suas banalidades. A experiência das variedades cinzas e negras da espécie borboleta vai muito além de causalidades hormônicas, de contradições lógicas, ambas secundárias em relação às compatibilidades e as incompatibilidades do acontecimento. Este exemplo, vindo das experiências de Canguilhem e referido aos problemas das proposições hipotéticas dos estoicos, com suas negações dos conseqüentes, permite o acesso à filosofia do acontecimento, o ir além de Cronos –com o saber de que a ciência envolve o acontecimento, e que a pretensão de Deleuze, de algum modo reproduz a de Bergson, que retira a filosofia da posição de reflexão sobre as ciências, fazendo a passagem da inferência para a intuição, dando-lhe autonomia, mas também lhe dando conceitos ressonantes com os funtivos da ciência. A filosofia como ontologia: ontologia dos problemas, das singularidades nômades: quando fazer filosofia é ao mesmo tempo poder evocar as afeccões sensitivas simples componentes das experiências transcendentais, e revelar um íntimo impessoal, íntimo de heteronomia, onde a vida se dá, liberta da prisão do organismo e das funções, distante das figuras e das sub-questões do eu pessoal.


Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 4 de 5



*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

 

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Curso “O que é a filosofia?” – Aula 01

A filosofia é o melhor, no melhor dos mundos, em um mundo que pode ser desenvolvida a potência de criação; e não precisa da lei, sequer para subordinar-se ao Bem, ou de outro modo, não precisa do Bem: o melhor não é imitar.


Querer o tempo e o intempestivo para atingir a verdade não é ser rival da filosofia, todavia é ser rival do que na filosofia assinala a seleção dos pretendentes, a Odisséia filosófica, a subserviência ao tríptico platônico –o Modelo, a cópia e o simulacro. Se a teoria das Idéias é um princípio para os critérios da seleção, constituindo a forma da verdade como demonstrando as qualidades do pensador que ama e quer esta verdade, não basta sobrepô-la ao fluxo heraclítico, mas dizê-la um novo tipo de transcendência, diferente da transcendência mítica, não obstante o mito do verdadeiro amor, do verdadeiro político e do verdadeiro delírio. “Toda a reação contra o platonismo é uma restauração da imanência em sua plena extensão”. É uma boa metáfora dizer que Nietzsche e Proust são rivais, porque este rivaliza com a filosofia, e aquele com os filósofos: ambos abandonam o método, que caça a verdade para ir de encontro a forças e signos, que substituem o consenso, este o frágil rival do conceito que aparentemente reequilibra a equivocidade da linguagem, na cadeia unívoca de um raciocínio –a univocidade do significado: dos termos das premissas de um silogismo– “o homem” jamais se transformará no “não-homem”, pela simples passagem proposicional ou judicativa, conforme o escândalo sofista. Não é a questão de Nietzsche e Proust, a das relações textuais dos termos, que recupera a boa vontade e o bom senso. Muito mais, é ir além dos significados e dos valores estabelecidos.

A filosofia é o melhor, no melhor dos mundos, em um mundo que pode ser desenvolvida a potência de criação; e não precisa da lei, sequer para subordinar-se ao Bem, ou de outro modo, não precisa do Bem: o melhor não é imitar. E a aliança de Nietzsche e Proust para contestar a imagem dogmática do pensamento, demonstra que a representação pode ser vencida.


Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 1 de 5



*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

A Imanência é precisamente a vertigem filosófica, inseparável do conceito de expressão – por Claudio Ulpiano

A descoberta de Nietzsche, de alguma coisa que não é o individual, tal homem, tal animal ou tal mineral, o que é um, e do que não é o abismo indiferenciado, as trevas sem fundo, um aturdimento espantoso – um universal aturdimento, um universo acentrado onde tudo reage sobre tudo, é necessária para o entendimento de uma filosofia em que o caos tem em sua imanência a presença do crivo. É o campo transcendental sem abismo, sem a forma da consciência, e desindividuado: “Este novo discurso não é mais o da forma, mas também não é o do informe: de preferência, é o do informal puro”. Do aformal, como se diz anexato e anorgânico, o a privativo como índice de campo transcendental. Rigorosamente distingue-se singularidade de individualidade. Um novo aparelho conceitual precisa ser erguido: o conceito de diferença em vez de diferença conceitual. E de modo tão radical que cabe a presença de objetos impossíveis, conforme Meinong, a montanha sem vale, de uma teoria dos objetos de extensão maior do que a metafísica, em que os princípios da metafísica não funcionam –nem a contradição nem a identidade, nem o possível nem o real: os insistentes, sem existência, sem realidade logo indesignáveis; sem possibilidade logo sem significação, enquanto significação é o mesmo que possível e que não-contradição. O estranho discurso que renova a filosofia, que explora um mundo de singularidades impessoais e pré-individuais, singularidades nômades, mundo dionisíaco ou da vontade de potência. Proust, por exemplo, recusa o ser em si do passado, por não compreendê-lo, não obstante seu esplendor e alegria. E por este motivo, busca a revelação final da arte; na verdade, privilegia a faculdade das essências, o pensamento puro, em seu exercício involuntário, ligado ao estado complicado do próprio tempo: e nada a ver com o fundo indiferenciado ou com algo formado.

Trata-se de Deleuze e de suas monografias infinitas.

Neste texto, apresento um tema deleuziano, que considerei o mais importante e o mais necessário. Acredito, inclusive, parece-me assim, o mais adequado com meu trabalho: e, por causa disto, o melhor, para dizer de forma gentil alguma coisa de Deleuze. Trata-se do plano de imanência, aquilo que pode ser endereçado aos filósofos e aos não-filósofos, uma peça delicada de seu sistema – que se destaca como capítulo em “O que é a filosofia?”, mas que na verdade está presente em toda sua obra. ” Que é um campo transcendental? Ele se distingue da experiência… não é um sujeito, não é um objeto “. Por exemplo, o que se diz do receptáculo em Platão, no Timeu, diante das formas inteligíveis e do demiurgo. Por exemplo, o que se diz do clinamen de Epicuro: o tema de uma velocidade de pensamento maior que toda velocidade dada. A instauração de um plano, de um campo. Fazer com que alguma coisa saia do caos, mesmo que essa alguma coisa difira muito pouco do caos – como na contribuição barroca, em que David e a cabeça de Golias parecem emergir de um fundo marrom e vermelho. Que difira muito pouco do caos: “implicando uma espécie de experimentação tateante, recorrendo a meios pouco confessáveis, pouco racionais e razoáveis “. A apreensão do receptáculo não procede da razão, ou mesmo da opinião, mas sim de um processo híbrido e bastardo – é ” como em um sonho “, ou como se fosse um sonho. O receptáculo, o meio espacial, está fora do mundo das coisas sensíveis e sobretudo fora do mundo das formas inteligíveis: a crença nele não depende de um ato do intelecto, nem da sensação. É uma espécie invisível e sem forma –isto significando que está excluído do mundo das idéias. Ele está entre, no meio, entre as formas inteligíveis e as coisas sensíveis– entre o sujeito e o objeto: ou melhor, antes deles –condição deles. Parece que no receptáculo habitam um pré-sujeito e uma pré-matéria. Não parece filosofia. O clinamen não é algo – mas parece comandar uma série de átomos. É razão do encontro ou da relação de um átomo com outro. Não é movimento oblíquo ou alteração de uma queda vertical. O clinamen determina impossibilidades, como determina encontros. “O clinamen é a determinação original da direção do movimento do átomo. É uma espécie de conatus: um diferencial da matéria, e por isso mesmo, um diferencial do pensamento “. O que foi dito do receptáculo e do clinamen, já pode ser entendido como uma forma diferente da forma conceitual: diferente do conceito criado, mas condição para ele: o plano de imanência. Não parece filosofia, e Espinosa é o príncipe absoluto deste reino que “não parece filosofia” mas que o torna, diz Deleuze, o príncipe da filosofia: “a imanência é precisamente a vertigem filosófica”, mas a imanência é inseparável da expressão. “A significação do espinosismo nos parece a seguinte: afirmar a imanência como princípio; e liberar a expressão”.

Deleuze é inseparável da expressão. Então, quando Deleuze diz da inspiração espinosista, é da expressão que está falando. E talvez por isto se envolva tanto com dois tipos de canto de pássaro, assinalados pela etologia. O territorializante e o canto do crepúsculo, porque revelam, estes cantos, um corpo expressivo diferente do corpo orgânico. Olivier Messiaen é espinosista –e, por que não, o pássaro exótico é espinosista– enfim, são sempre espantosas as aproximações deleuzianas. Ou melhor –expressivas. A emanação, exatamente porque a imanência se junta a ela, move Deleuze, e o aproxima da Idade Média e da Renascença: seu grande agenciamento com Etiènne Gilson e Maurice de Gandillac –Duns Scot e Nicolau de Cusa: “todas as coisas estão presentes em Deus, que as complica; Deus está presente em todas as coisas que o explicam e o implicam”. Mas Proust também está envolvido com esta tradição, como se outra linha, que não a longitudinal e histórica, forçasse seu pensamento a pensar. Ao fazer a distinção entre essência e sujeito, entre essência e objeto, ainda que a essência não exista fora do sujeito que a exprime –ela, a essência, não se reduz a um estado psicológico. A essência só pertence ao domínio da arte. É o nascimento do tempo. “O que a arte nos faz redescobrir é o tempo tal como se encontra enrolado na essência, tal como nasce no mundo envolvido da essência, idêntico à eternidade “. Um pouco mais. A paixão de Deleuze pela primeiridade de Peirce e pelas afecções sensitivas puras de Maine de Biran, “o homem sente alguma coisa de doce penetrá-lo”, o artigo indefinido designando uma singularidade, a paixão por tudo aquilo que é distinto de um estado de coisas e de uma estrutura psicológica – como a variação do sentido da palavra pragma, diferente de coisa exterior existente, para algo muito próximo do incorporal estoico, o acontecimento. É também um curta-metragem do cinema mudo, a “Chuva” de Joris Ivens, que Deleuze chama de a chuva em si. “Chuva não é uma chuva determinada, concreta, que caiu em algum lugar”. Não acredito que a idéia de percepção ideal, a consciência de direito de Bergson, fosse suficiente para que Deleuze atingisse a compreensão dos processos afetivos, – do modo que ele atinge -, é sempre a busca dos pensadores da expressão, que parece não ter fim – que o faz renovar-se incessantemente. É a inclinação da percepção que constitui a inquietude. Parece filosofia.

Joris Ivens – Regen (Rain, 1929) from Avant-Garde Cinema on Vimeo.

Neste terceiro parágrafo, depois de falar, ou mais exatamente, tentar falar, do plano de imanência e da expressão, do modo que considerei mais sólido, por exemplos, que ora foram meus, ora foram de Deleuze, principalmente, passo a utilizar um etólogo – Uexküll-, que quando Deleuze a ele se refere, o faz relacionando-o a Espinoza e a Leibniz: dois planos de imanência, ou a curvatura de um sobre o outro: “uma vez que toda coisa, sobre o plano imanente da Natureza, define-se por agenciamentos de movimentos e de afetos nos quais ela entra” ou: “no mundo gigantesco que envolve o carrapato, três estimulantes brilham como sinais luminosos nas trevas, servindo de postes indicadores, que o conduzirão à meta, sem desfalecimento “. Ficarei com essa curvatura, porque todo o resto deste texto trata de corredores de trevas, linhas microscópicas e luminosas, e luzes apagadas. O mundo não existe fora da mônada que o expressa, com obscuridade, pois o mundo é infinito, na mônada finita. O mundo são pequenas percepções, sem referente – alucinações: o mundo é um rumor; um desmaio. É um estado de adormecimento; então, no mundo enorme, na noite imensa que envolve o pequeno animal, relâmpagos estalam, servindo-lhe, ao pequeno animal, de caminho: “As pequenas percepções são, não apenas a passagem de uma percepção, como são também componentes de cada percepção “. Já pode ser dito que, com Bergson, cada imagem age sobre outras e reage a outras, em todas as suas faces, e através de suas partes elementares: é luz que se difunde e se propaga sem resistência e sem perda – o que ocorre nesse universo acentrado é que tudo reage sobre tudo. A brutal oposição do sol e da terra, de uma luz insustentável e de um abismo obscuro: a lei sumária de tudo ou nada: “minha visão da ilha está reduzida a si mesma, o que não vejo é uma incógnita absoluta, em todos os lugares onde não estou atualmente reina uma noite insondável”. Mundo cru e negro: tudo é implacável, onde os objetos se erguem ameaçadores. Trata-se de Michel Tournier.

As relações diferenciais e o relevante: atividade perceptiva que encerra em si a infinidade de pequenas percepções. As relações diferenciais desempenham um papel de filtro, só deixando passar o que vai fornecer algo para a constituição clara. Este enunciado, excluídas as micro-percepções, servem para Bergson, Leibniz e Tournier.

Bergson pode dizer, para que se entenda por percepção, não a percepção concreta e completa, aquela que as lembranças preenchem e que oferece sempre uma certa espessura de duração, mas a percepção pura, uma percepção que existe mais de direito, percepção ideal, percepção pura, absorvida no presente e capaz, pela eliminação da memória sob todas as suas formas, de obter da matéria uma visão, ao mesmo tempo, imediata e instantânea. É o famoso primeiro capítulo de Matéria e Memória, do qual Deleuze extrai a consciência de direito, difusa em toda parte, e que não se revela – translúcida. “Chegaremos a estar maduros para uma inspiração espinozista?” Pergunta e responde Deleuze: “Aconteceu com Bergson, uma vez: o princípio de Matéria e Memória traça um plano que corta o caos. Ao mesmo tempo movimento infinito de uma matéria que não pára de se propagar, e a imagem de um pensamento, que não pára de fazer proliferar por toda parte uma pura consciência de direito “. A univocidade do ser: ser e pensamento – o filtro. Um grande crivo. Um plano de imanência. Outrem não é um sujeito, nem um objeto. Mas aquilo que, em torno de cada objeto que percebo, organiza um mundo marginal. Olho um objeto, em seguida me desvio; deixo-o voltar ao fundo, ao mesmo tempo em que se destaca do fundo um novo objeto da minha atenção: um campo de potencialidade, dispondo da pré-existência do mundo. Outrem a priori, outrem puro, de direito, um conceito.

Evidentemente todo conceito tem uma história. Este conceito de Outrem remete a Leibniz, aos mundos possíveis de Leibniz e à mônada, como expressão de mundo. Mas não é o mesmo problema com Tournier, porque os possíveis de Leibniz não existem no mundo real. Outrem é um conceito como expressão de um mundo possível num campo perceptivo, que o torna, a Outrem, semelhante à consciência de direito de Bergson. Esta confrontação, pela presença da idéia de expressão em Outrem, formula com exatidão a diferença de um conceito que não é um sujeito de campo, nem um objeto no campo, mas a condição sobre a qual se redistribuem sujeitos e objetos, referência e profundidade. O conceito diz o acontecimento: uma entidade como disse do pragma e do curta-metragem de Jory Ivens. A expressão “O plano de imanência é o virtual, a consciência de direito: Enquanto os acontecimentos que o povoam, os mundos possíveis, são as virtualidades “.

De um lado a consciência de direito; de outro, a natureza e a função de outrem nos sistemas psíquicos. É esta pequena diferença entre o plano de imanência e a expressão.

Diante de Deleuze, a alma é tomada por um rumor benevolente –e, em vez de mergulhar no aturdimento, desperta, embriagada de beleza, para fazer filosofia. “Há uma grande diferença entre os virtuais que definem a imanência do campo transcendental, e as formas possíveis que os atualizam”.

Deleuze –o filósofo.


Texto publicado em Gilles Deleuze: Imagens de um Filósosfo da Imanência; Jorge Vasconcellos e Emanuel Ângelo da Rocha Fragoso, organizadores.

Curso “O que é a filosofia?” – Aula 03

 

O tempo fora do vivido psicológico e das relações físicas dos corpos é o próprio paradoxo,
a paixão do pensamento.

—–

“é a possibilidade de tratar o mundo, a vida, ou simplesmente uma vida, um episódio como único e mesmo acontecimento, que funda a implicação dos presentes. Um acidente vai acontecer, acontece, aconteceu; de modo que, devendo ocorrer, ele não ocorreu, já ocorreu, está ocorrendo”

 


 

A mônada é um espelho do universo; como um espelho, que ao ser apontado para um objeto, o reflete e o reproduz. Mais do que isso, ou diferente disso: a mônada, finita, aquela que tem limites, contém dentro de si o infinito do mundo inteiro. Ela não é um sujeito que tem à sua frente objetos, o mundo está contido nela, e ela o expressa –o mundo não existe fora das mônadas. Aprendemos que o pensador das mônadas não prolonga a razão clássica, ao contrário, a atravessa, como uma imagem diferente, como uma nova imagem do pensamento. A idéia de finitude da mônada e da infinitude do mundo, mundo incluído na mônada, concebe um fundo para a mônada, fundo sombrio. Cada mônada traz consigo o infinito do mundo inteiro e apenas uma pequena parte lhe é clara –são os relevantes, os clarões, “Na maior parte dos casos, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas: a alma do carrapato tem três percepções claras, apercepção da luz, apercepção olfativa da presa e a apercepção táctil do melhor lugar, e todo o resto na imensa Natureza, que o carrapato todavia expressa, não passa de aturdimento, poeira de pequenas percepções obscuras e não-integradas”. É preciso que duas partes heterogêneas entrem numa relação diferencial para determinar uma singularidade: dy, azul sobre dx, amarelo = verde. Sem pausa, sentimos o imenso universo dentro de nós –do mesmo modo que ouvimos o murmúrio de ondas ou o murmúrio de vozes, sem relevância. Essas relações diferenciais que tornam o verde um distinguido, é um filtro; como o fundo sombrio é um filtro no caos das trevas sem fundo, que se torna, – o caos –, uma abstração. Esta postura barroca explica o teatro de Carmelo Bene: amputando-se os elementos de poder, libera-se a potência; tornam-se distinguidos o que era apenas aturdimento. Se Romeu for amputado, um surpreendente desenvolvimento de Mercuzio se dá. Certas personagens são como que virtualidades, como são virtuais as pequenas percepções não atualizadas das mônadas. Teatro das virtualidades, e da liberdade: “Mercuzio morre rápido em Shakespeare, mas em Carmelo Bene, ele não quer morrer, ele não pode morrer, porque constitui a nova peça”.

Fazer uma aproximação: Beckett e Bene. “Samuel Beckett descreveu o inventário das propriedades a que os sujeitos larvares se entregam com fadiga e paixão”. E: “A subtração dos elementos estáveis do poder liberam uma nova potencialidade do teatro, uma força não representativa sempre em desequilíbrio”. Mas trata-se do que Deleuze chama de sub-representativo, de sínteses passivas – anteriores às formações do indivíduo e do sujeito. Trata-se de Robbe-Grillet, especificamente do texto Djinn, no qual estão presentes todas as grandes questões de Santo Agostinho sobre o tempo em As Confissões. Mergulhamos no grande tema da obra de Deleuze, o acontecimento, que não se confunde com o espaço que lhe serve de lugar nem com o atual presente que passa. O tempo fora do vivido psicológico e das relações físicas dos corpos é o próprio paradoxo, a paixão do pensamento. E o pensador sem paradoxo é como o amante sem paixão: um sujeito medíocre. O tempo sai dos seus eixos: não é mais de Deus nem dos homens, é de si próprio, ao modo da liberdade, que é sempre de si própria. Entramos nos corredores do Djinn, em que não existe mais o presente atual, em que Cronos já não governa mais. Santo Agostinho e Robbe-Grillet constróem a simultaneidade de três pontas do presente: “é a possibilidade de tratar o mundo, a vida, ou simplesmente uma vida, um episódio como único e mesmo acontecimento, que funda a implicação dos presentes. Um acidente vai acontecer, acontece, aconteceu; de modo que, devendo ocorrer, ele não ocorreu, já ocorreu, está ocorrendo”. O pensamento se separa do seu tolo adverso, o bom senso. Pode-se falar em devenires. Trata-se dos devenires; matrimônios contra-natura. Que é o “mundo” anterior ao tempo sucessivo. Devenires contra história; contra dogmas; contra doutrinas; contra a cultura: contracultura. Como exemplo da obra superior de Robbe-Grillet, um pouco da sofisticação barroca, que constrói o seu coração apaixonado e criador. A música vai ser o exemplo. A música é a unidade de vértice, a unidade de cima, é a mais alta das artes –superior a todas as artes. A música desenvolve suas linhas em extensão melódica, a melodia é horizontal; ao mesmo tempo que faz a elevação harmônica, a harmonia é vertical: mas jamais saberemos onde começa a melodia e onde acaba a harmonia. A música parece coincidir com a passagem do tempo, mas não com o tempo que o relógio marca: e sim com a intensidade do tempo que Robbe-Grillet mostra em Djinn. A música mistura, na sua preciosidade, o belo e o sublime – com seu aspecto movente, com sua perpétua ondulação. A música é um conjunto de fenômenos diversos que toma forma e sentido em regiões e níveis diferentes dos corredores inverossímeis do tempo ilimitado e paradoxal.

 

Claudio Ulpiano

 

Curso: O que é a Filosofia? – Aula 3 de 5


*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

 

Multiplicidades do eu – por Claudio Ulpiano

  • Um tema de conferência, não em geral, mas um tema como este –”Multiplicidades do eu”–, quando o conferencista se dispõe a experimentá-lo, começa por verificar que ele exerce uma pressão sobre todas as suas faculdades. Todas as faculdades começam a se agitar ao se deparar com o tema “Multiplicidades do eu“. E nessa agitação, elas como que se reúnem e solicitam da alma um auxílio: que a alma pressione o pensamento e o faça funcionar, num exercício involuntário. Em mim essa pressão da alma sobre o pensamento então emergiu; e nessa emergência, na confrontação com as “Multiplicidades do eu“, a todo instante há a verificação de que seria necessária a penetração nos mistérios e nas questões do tempo. Por causa disso, meu pensamento e não eu, no seu exercício involuntário, escolheu como vias de penetração na questão tocar, por um lado, um tema que atravessa os séculos, misturado com o maravilhoso e com o encantamento, que é o animismo; e, por outro, abordar o tema raro, só pertencente à filosofia, que é o do nascimento do tempo.

Então, a minha conferência, pelo exercício involuntário do pensamento, se bifurcou, se abriu em duas linhas. A primeira linha: as dificuldades do animismo. A segunda linha: as dificuldades do nascimento do tempo. Diante disso, eu me vi novamente forçado a transformar a oralidade em escrita para poder ser mais claro na minha apresentação. Mas, enquanto eu perseguia a exposição na escrita, cada vez mais eu mergulhava nas dificuldades. E aí, resolvi estacionar a escrita e voltar à oralidade…

É essa a experiência que nós vamos fazer juntos –meu exercício involuntário do pensamento. Mergulhando na escrita e subitamente descobrindo que seria necessário abandoná-la para fazer a exposição da questão das multiplicidades do eu: esses movimentos me mostraram nitidamente que eu estaria diante de um confronto entre o narcisismo formal e o narcisismo material, entre a síntese passiva do tempo e a síntese ativa do tempo. Só em falar nisso, sei que se começa a gerar uma série de dificuldades. Então, boa viagem para nós todos.

Nesta conferência, irei dizer o que vou fazer, como nos créditos de um filme, que o antecipam; mostro o que vou fazer. Mas logo que os créditos terminam, o filme começa. Quanto a mim, logo que estiver dizendo o que vou fazer, simultaneamente já o estarei fazendo. Esta conferência é como um frontispício de um livro que não existe, como no Livro dos Prefácios, de Jorge Luís Borges. Ou melhor, o frontispício de que lhes falei é todo um livro, é toda esta conferência.

Começar com o animismo; usando-o, ao animismo, como produto de uma costureira celestial que faz do animismo o pesponto que une os limites da eternidade e do tempo. Essa costureira celestial, em outra linguagem, chama-se Plotino. Eu acredito que chamá-lo de costureira celestial, usar a tecnologia do tecido para citá-lo, não ofenderá a meu mestre Deleuze. Tudo é animado e vivo no animismo, ainda que, neste parágrafo, reproduzindo tudo o que se diz na história da arte quando a referência é o homem clássico, o animismo seja tomado como um modelo clássico de uma projeção orgânica sobre toda a matéria como, por exemplo, a Alma do Mundo no Timeu. Estou dizendo que aqui é o animismo ainda governado pelas projeções orgânicas que o homem faz sobre a natureza. Este homem, o homem clássico, tornou-se a medida de todas as coisas, assimilando o mundo à sua pequena humanidade. Ou seja, o homem clássico –e aqui estou utilizando Wölflin na sua História das Artes– é exatamente o modelo da projeção orgânica que fazemos sobre a natureza.

A explicação platônica para a origem da Alma do Mundo é a mescla harmônica executada pelo Demiurgo; o que significa que Platão, quando teve necessidade de explicar o nascimento do tempo, precisou introduzir um deus.

É tudo diferente em Plotino. Quando digo ‘é tudo diferente em Plotino’, estou projetando uma questão teórica de altíssima dificuldade, porque o Plotino dado pelo Ocidente é um Plotino hegeliano, e Hegel fez dele nada mais do que uma colagem entre Aristóteles e Platão. Na verdade, o Plotino que vai aparecer aqui não é o de Hegel, mas o Plotino de Plotino. Ele dará ao animismo uma extensão ilimitada. Toda força ativa na natureza é uma alma ou se liga a uma alma, como as almas de Proust que povoam as matérias, as coisas, os objetos, tornando presentes neles as sensações, os afetos e os perceptos.

Não só o mundo tem uma alma, também os astros, também a Terra tem uma alma, graças à qual ela dará às plantas a potência de engendrar. O vitalismo imperante em Plotino teve seu eco na Renascença, em Giordano Bruno e Nicolau de Cusa e também em Espinosa e Leibniz. O animismo emerge com um potência extraordinária na obra de Plotino, ressoa em Giordano Bruno, ressoa em Nicolau de Cusa e, mais ainda, ressoa em Leibniz e ressoa em Espinosa (Espinosa e Leibniz, esses dois animistas!)

Mais à frente, na escola inglesa, esse desenvolvimento ecoa com a vitalidade de toda uma corrente que espiritualiza o real. Trata-se por exemplo de Samuel Butler que diz: “Nosso Senhor disse para seus discípulos considerarem os lírios dos campos que nem tecem nem trabalham, mas cuja vestimenta é mais bela até mesmo que a vestimenta mais gloriosa de Salomão.” Jamais poderemos fazer a concepção, a germinação de uma rosa, como o faz uma semente de rosa que converte a terra, o ar, o calor e a umidade em uma rosa florescente, em uma rosa no esplendor da sua vitalidade cromática, aromática e táctil. De onde sai o colorante que torna a rosa colorida? Sim, da terra, do fósforo, do carbono. Sim. Mas como? Sem mãos, sem braços, sem instrumentos, a semente da rosa contempla a matéria que a constitui.

Aqui, o animismo deixa de ser um envolvimento com as tolices da maravilha para tornar-se explicitamente traços, forças na vizinhança de um sistema físico ou de um organismo vivo, traçando uma linha abstrata, independente, nômade, vetor livre, linha selvagem, sem outro desígnio que não sua própria errância. Nela, por ela, em suas bifurcações, clinâmens e variações, encontra-se Deleuze que afirma a proximidade do animismo e da biologia, quando multiplicam-se as pequenas almas imanentes aos órgãos e às funções –com a condição de se lhes retirar qualquer papel ativo ou eficiente.

Assim, Deleuze seria como que um momento dessa tradição de pensamento que teria emergência em Plotino e que segue errante e triunfalmente pelos mais brilhantes pensadores da Humanidade. Eis quando Deleuze liga, de uma maneira notável, o animismo à biologia molecular, mostrando que todas as grandes conquistas que a biologia teria feito nesse século seriam fundamentadas na força do animismo, o que leva os biólogos a exercerem um pensamento totalmente original como se fosse um prolongamento do Erehwon, do trabalho de Samuel Butler; sua semente contemplativa encarnando-se na biologia molecular poderosa.

Alma, então, como a semente da rosa: somente focos de percepção e de afecção moleculares, contemplações, microcontemplações. Os corpos todos, quaisquer, nenhum em exceção, são povoados de pequenas almas, de mônadas. As mônadas: a idéia monadológica soberba, a espiritualização do real. E a verdade, então, será a força que não age mas que percebe e experimenta.

Nesse momento, começa despontar para vocês a grande questão da obra de Deleuze, centrada em Diferença e Repetição, onde ele vai distinguir entre a síntese passiva e as sínteses ativas, e começar a invadir e conquistar –e isso está em toda a sua obra– o tempo. É exatamente isso que está acontecendo aqui, quando se começa a falar da espiritualização do real, e o espaço torna-se penetrado por estas forças de percepção e experimentação. É o fundo invisível que Van Gogh buscava e colocava nos seus girassóis, no permanente frêmito daquilo que nasce. É como se estivéssemos nessa linha abstrata em que, de um lado, estão as forças invisíveis do tempo e, do outro, as suas conseqüências, as suas criaturas, nós, as rosas, os girassóis de Van Gogh.

O real é adicionado de intensidade –aquilo que é monadicamente fragmentado, mônadas ou moléculas metafísicas– com as variações da beleza e da individuação que emergem como pontos, como constelações brilhantes, singularidades: a meta-estabilidade com seu ser esquartejado como diferença de qualidade e de quantidade, o diferencial pré-individual, como a membrana topológica e aiônica concebida pelo futuro exterior e pelo passado interior, responsáveis pela gênese ininterrupta do vivo. (Refiro-me aqui ao trabalho que Gilbert Simondon fez sobre a topologia da membrana como uma das fontes do nascimento do vivo.) Pela gênese ininterrupta da beleza, percepção, contemplação. No coração da pop-art; nas muitas almas da pop-art, nas muitas almas de Andy Warhol, nas imagens-contemplação das vozes de Lou Reed e de Arnaldo Antunes.

Os corpos são povoados de uma infinidade de pequenas mônadas, de observadores parciais. Assim ocorre com toda a biologia molecular, em toda imunologia, com as enzimas alostéricas, com o demônio microscópico com função cognitiva (recordo aqui o demônio de Maxwell). O organismo é uma máquina que se constrói a si mesma; constitui-se de modo autônomo graças aos observadores parciais.

Espinosa parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida da Natura Naturans. Repetindo: Espinosa parte da vida de Deus e não vê na vida do homem ou dos outros seres vivos, ou seja, das criaturas, senão um caso particular, melhor dito, uma expressão da vida do próprio Deus.

Tudo tem seu começo. Apareceu na errância da linha abstrata com Plotino, na Enéada Terceira, Tratado VII, “Da Eternidade e do Tempo“; e Tratado VIII, “Da Natureza, da Contemplação do Uno“, que são antecipados no texto que exponho por aquilo que elas causaram, por aquilo que elas influenciaram: a arte bizantina.

O que eu afirmo agora é que reveríamos Plotino na arte bizantina. A arte estaria além da própria beleza, a arte que se encaminha para o sublime –Kant, Terceira Crítica“. O olhar é tornado magnificente na divindade. Questão propriamente bizantina: como pintar Deus? Pergunta angustiante: como pintar Deus em si mesmo? Em que virtualidade, na terminologia de Bergson? Pintar Deus em si mesmo e não por nós. Se ele deve ser adorado, ou melhor, se ele deve ser visível para poder ser adorado, ele enfraquece. Enfraquecer Deus? Que impiedade! Que ultraje! Mas eis a solução prodigiosa: invertendo a relação olhante/ olhado, fazendo Deus impor-se não mais como objeto a ser contemplado mas, de outro modo, como um sujeito que nos contempla do fundo do olho. Como nos contempla por todo o espaço celeste, não importando qual ângulo, não escaparíamos jamais a seus olhos. O olhar de Deus nos contempla porque existimos, pois o olhar de Deus é o tempo ou, mais belo ainda, a contemplação por ser contemplação é imediatamente tempo.

Se eu estivesse dentro das minhas universidades, eu diria: nesse instante começo a minha aula. O que eu acabei de dizer para vocês… a tese que eu estou passando e que é difícil de ser exposta… é que a emergência do tempo pressupõe a alma, e esta alma é uma alma contemplativa. Mas se seguirmos a tradição desse pensamento, vamos encontrar com uma clareza excepcional, em Bergson, essa alma contemplativa tornando-se simultaneamente contemplativa e contraente. E é exatamente nessa contração que o tempo emergiria. O olhar de Deus é uma categoria do tempo, é o nascimento do tempo. Diz Deleuze: “Os organismos se despertam com as palavras sublimes da Terceira Enéada: tudo é contemplação.” Aproximamo-nos das duas sínteses, passiva e ativa; da síntese passiva e da imagem direta do tempo; do corpo sem órgãos.

Quando a obra de Deleuze se expressa nessa questão, digamos, de múltiplos eus, ele leva essa questão longe… Se o José Gil fosse fazer um trabalho sobre o Fernando Pessoa, se ele fosse fazer um trabalho sobre os heterônimos, ele conduziria os heterônimos para o que se chama síntese passiva, onde se dariam as multiplicidades do eu. Deleuze levaria para o que chama nas suas outras obras de imagem direta do tempo, ou o que chama ao longo de toda sua obra de corpo sem órgãos. Esses múltiplos eus, então, não pertencem ao sujeito conforme sujeito em sua expressão orgânica. Esses múltiplos eus são intensidades da síntese passiva, da imagem direta do tempo e do corpo sem órgãos.

Uma expressão do tipo “o bom senso” não desempenha aqui nenhum papel capital, nenhum papel na doação de sentido. O bom senso vem sempre em segundo lugar, em sua distribuição sedentária. O que estou chamando de bom senso é o uso que fazemos das nossas faculdades; segundo a Crítica da Razão Pura, esse uso das faculdades é governado pelo entendimento, e esse governo é que se chama bom senso. Então o bom senso constrói um tipo de mundo, esse mesmo mundo que é da flecha do tempo, que parte do presente para o futuro. Mas, por baixo desse bom senso, as sínteses passivas, o corpo sem órgãos ou, numa linguagem poética, o rugido de Dionísio, as potências do inconsciente rugindo sob as formas da consciência.

A filosofia estoica –cito agora a filosofia estoica porque estou seguindo Deleuze– não consiste em adotar a direção do bom senso. Deleuze encontrou nas suas investigações –não de historiador de filosofia porque ele não é um historiador de filosofia (o que não vou explicar agora porque não nos interessa)– um tipo de pensamento, a filosofia estoica, que não estaria submetido ao domínio do bom senso, ou seja, ao domínio do entendimento como legislador das outras faculdades, conforme o modelo de Platão e de Aristóteles. Ao encontrar os estoicos –a filosofia estoica não consistindo em seguir a direção do bom senso, a direção da flecha do tempo, mas como iniciativa apaixonada– descobre que não podemos separar as duas direções do tempo.

A filosofia estoica descobre o acontecimento e com ele uma nova teoria do signo. A distinção estoica entre signo natural e signo artificial desencadeia, nessa minha exposição, o nascimento do tempo. Como foi dito, uma das grandezas do estoicismo foi ter mostrado que todo signo é signo de um presente do ponto de vista da síntese passiva, em que passado e futuro –atenção– são apenas dimensões do próprio presente. Trata-se do presente vivo, tal como o olho de Plotino: um dos extremos do raio de luz que emana do Uno, quando o passado e o futuro são dimensões do presente.

A retenção e a propensão. Quando a retenção não é uma reprodução memorativa do passado, nem a propensão concebida como esperança, não resta senão a implicação do passado e do futuro no presente, só concebível nessa síntese misteriosa. Os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes e presente dos futuros. É a bela fórmula de Santo Agostinho: há um presente do futuro, um presente do presente e um presente do passado. Todos eles implicados e enrolados no presente, simultâneos e inexplicáveis. A simultaneidade da síntese passiva: as três pontas do presente.

Se nos propusermos a aceitar a pressão que a alma exerce sobre o pensamento e deixarmos o pensamento penetrar, ele tem que destruir necessariamente as forças do bom senso para começar a trabalhar no tempo –porque o tempo é o meio dos paradoxos, e o bom senso detesta o paradoxo. Quando o pensamento penetra no tempo, quando ele penetra no ser do tempo, o que encontra é a simultaneidade do tempo, as três pontas do presente. Essas três pontas do presente é que geraram, possibilitaram, por exemplo, Ano Passado em Marienbad. Toda a obra de Deleuze se explica pela conquista do tempo, muito ao modo de Bergson, com sua imagem coalescente, quando o passado e o presente devem ser pensados como graus extremos coincidindo na duração.

Como foi dito mais atrás, não estamos no reino do bom senso ou do signo artificial que remete ao passado e ao futuro como dimensões distintas do presente. É a oposição de Áion e de Kronos. Este último é o presente fugaz, que só existe na passagem do passado ao futuro, duas dimensões, tais que vamos sempre do passado ao futuro. Áion é quando o passado e o futuro são apenas dimensões do próprio presente, é o momento da imaginação espontânea, o momento do nascimento do tempo. Trata-se do eu passivo, e que se explica fundamentalmente por não depender de sua receptividade, da recepção das partes eternas que se repetem, mas são apenas sensações; a contemplação contraente da qual emergem os organismos.

O que estou dizendo, então, seguindo Deleuze, é um plotinismo: é como se a eternidade fosse uma espécie de Sol do qual emanariam raios. As pontas que estão no Sol são eternidade; as pontas que tocam a Terra são tempo. Então, nessa ponta da Terra é que vai aparecer o tempo, a síntese passiva e, a partir daí, os organismos. É muito parecido com o que Artaud disse: “A vida não é o organismo; a vida é a síntese passiva.” O organismo é um domínio sobre a vida. A vida são as forças, os fluxos que emergem, esses fluxos paradoxais do presente simultâneo. Daí é que viria o organismo. E nós confundimos o modelo orgânico com o modelo da vida…

É isso que nos dá, por exemplo, toda a obra, de Castañeda, conforme aquela distinção famosa entre nagual e tonal. Toda a questão de Castañeda é exatamente a dominação do homem orgânico, que não é capaz de compreender nada que transborde as linhas da sua existência; tudo que transborda as linhas da sua existência, ele joga para o campo das maravilhas. Ele não é capaz de compreender que, além das linhas da sua existência, estariam exatamente as forças do pensamento e as forças genéticas da vida. Os eus passivos são sujeitos larvares, desde que se estabeleça em alguma parte uma contemplação furtiva, desde que funcione em alguma parte uma máquina de contemplação e de contração capaz de, na passividade, impor uma diferença à repetição.

O mundo moderno tem seus grandes mestres dos eus larvares, entre outros, Beckett e Lowry que, para além das sínteses ativas, atingem as sínteses passivas que nos constituem.

Por mais que um pensador pretenda tornar o seu pensamento fácil para que ele seja claramente entendido, isto jamais pode acontecer. O pensamento não é difícil por acidente, ou seja, ele é difícil agora e se tornará fácil quando eu cursar a minha universidade. Não! A essência do pensamento é a dificuldade. A essência do pensamento é o difícil. E o que eu chamo de pensamento são todas as ciências, todas as filosofias e todas as artes. Ou seja, sempre que o pensamento está fazendo o seu exercício, junto com ele emerge o difícil. Então, não há nenhum motivo para o pensador se preocupar em tornar fácil a sua exposição. O que o pensador tem que fazer quando expõe seu pensamento, ao invés de conquistar pela clareza e pela distinção do que ele expõe, é fazer uma prática de tal forma bela que ela produza rizomas, e que esse pensamento, então, se expanda por esse processo, se expanda por rizomas. É o meu procedimento nessa exposição.

Para concluir, acredito que seja melhor que prossiga o que estou dizendo, explore as dificuldades do que estou dizendo, através de perguntas que por acaso vocês venham a fazer, do que mergulhar na intensidade do corpo sem órgãos, ou das sínteses passivas, ou das imagens diretas do tempo.

Esta conferência foi um pouco como a produção do sujeito-artista de Proust que, em sua experiência fantástica, em sua experiência transcendental, rompe, põe fim ao sujeito psicológico e às suas associações de ideias. De outro modo, Proust quebra o esquema sensório-motor por dentro, faz aparecer os mundos possíveis pela aventura do pensamento involuntário e descobre a essência do tempo primordial da arte e da filosofia. Obrigado.

Pergunta: Eu quero perguntar ao filósofo Ulpiano se ele pensa que o poder do inconsciente poderia reorganizar o processo reflexivo alterado pela mídia eletrônica.

Claudio Ulpiano: Eu tenho tanta certeza disso que eu não preciso nem efetuar o cogito. Quando eu disse o exercício involuntário do pensamento, esta palavra pensamento tem como sinônimo o inconsciente; o exercício involuntário do pensamento tem como sinônimo o inconsciente. E o pensamento, da maneira que eu o penso, é exatamente para quebrar a tradição do modelo ocidental construído pela lógica platônica e aristotélica do mundo da representação. O pensamento, de maneira nenhuma, tem como questão a reforma do mundo. A questão do pensamento é permanentemente produzir mundos, produzir novos mundos. E eu acredito que nesses outros mundos a mídia enfraquece.

Acerca dessa visão plotiniana: eu diria que há uma tendência de se entender, de se compreender a questão numa formulação mística. Não existem múltiplos eus; só existe o sol. As projeções, na verdade, não passariam de aparências. Será essa a sua visão?

Para Plotino não há tempo sem a alma. A alma traz o tempo, a alma, o eu larvar, a mônada do Leibniz. Ou seja, onde não houver um eu-larvar, onde não houver uma pequena alma, não existiria o tempo. Por exemplo, esta bombinha de asma. Se ela não estiver povoada por uma multiplicidade de almas que contemplam, esta bombinha de asma estará na eternidade.

Então, o que eu acabei de falar é que o animismo com o seu povoamento, com o povoamento que ele faz na matéria de uma multiplicidade infinita de almas que são intensidades, torna esse universo uma unidade extensiva mais uma multiplicidade intensiva. É como, por exemplo, Bergson fala de multiplicidade de justaposição ou de penetração. Então as múltiplas almas, sim, seriam necessárias.

Claudio Ulpiano

 


Este texto é a transcrição de uma palestra dada por Claudio Ulpiano na Universidade Livre.  A Universidade Livre era uma associação de amigos que gostavam de conversar entre si e resolveram conversar em público. Nos anos 80 e 90, promoveram uma série de ciclos de conferências sobre temas diversos, que iam desde Cosmos e Consciência até Amazônia.  “Múltiplos Eus ” fez parte do ciclo Pontos de Fuga, realizado na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, em 1995.

Aula de 01/08/1995 – O tempo negativo e seus predicados – De que matéria é feito o espírito?

Vocês sabem o que é organismo? Organismo é a matéria viva, tá?!
 
Por exemplo: esse óculos é de vidro, o vidro não é uma matéria viva, então pro Leibiniz, o vidro é uma matéria? Elástica. A matéria é elástica.
 
Claudio pega um objeto e pergunta: Então isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Elástico.
 
Ele repete a pergunta pegando outros objetos e depois segue com a aula.
 
A vida é a matéria orgânica.
Por exemplo:
Claudio pega um objeto (uma planta) e pergunta: Isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Orgânico.
 
A vida para o Leibiniz é plástica.
 
A duas matérias no universo: A matéria elástica inorgânica e a matéria plástica orgânica.
 
Entendeu? Elástica e plástica.
 
Um aluno pergunta: O que que é a matéria plástica?
Claudio responde: A plástica é a orgânica.
O que é a matéria plástica, o que é? A matéria plástica é a síntese de dois instantes.
É quando dois instantes estão juntos um do outro, chama-se matéria plástica.
 
O que quer dizer isso? Só há vida quando houver síntese.
Só há vida quando houver síntese.
 
Vou voltar outra vez.
Ninguém precisa se preocupar, porque vocês vão entender.
 
Eu vou voltar para a natureza e retirar o espírito.
 
Claudio: O que é a natureza sem o espírito?
Alunos: Mens momentanea.
Claudio: O que é a mens momentanea?
Alunos: Tica tac…
Claudio: Tica tac…
 
Claudio: Tá. Então vê se eu posso chamar a natureza de sensações vibratórias
 
Silêncio.
 
Claudio prossegue: Vocês não entenderam… A natureza vibra. Ela é uma vibração. A natureza é um processo vibratório. Entenderam? (…)
É vibrar. Claudio gesticula e fala: Pá! Pá! É um processo de vibração.
O processo vibratório é a natureza elástica. A natureza elástica é vibratória. Ela vibra o tempo todo. E a natureza plástica, ela é contraente. Então a vida contrai a vibração. É difícil pra burro, né?!
 
A natureza é processo vibratório e a vida vai ¬Claudio tá um tapa na mão¬ e contrai aquilo.
Junta elementos que estão separados… na natureza… junta. A vida junta. E essa junção…
 
Não se preocupem, nem que com trinta aulas, mas vocês vão entender isso.
 
A vida, ela produz sínteses nos elementos vividos. (…) A vida é quando duas vibrações se juntam. Por isso a vida, ela pega a matéria elástica e dobra a matéria elástica; junta o que tá aqui com o que tá aqui (Claudio apontando de uma ponta a outra no espaço).
 
Não sei se vocês entenderam?
 
O ser vivo é constituído de mil, mil, mil e mil dobras. Nós somos como se fosse um tecido barroco. Nós somos cheios de dobras. Se você pegar o estômago e abrir ele, ele é imenso. Porque são as dobras feitas pelas contrações. Essas contrações geram a matéria plástica. A matéria plástica é o organismo.
 
Tá muito difícil isso?
Mihaela, você, eu vou cobrar muito de você, viu? Você é muito jovem e isso implica em dizer que nada te impede de entender essas coisas. (…)
 
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Então eu estou dizendo pra vocês que uma força… Vê se eu posso dizer isso e se alguém não entender, levanta o dedo… Uma força contemplativa…
 
Claudio: O que é essa força contemplativa?
Alunos: O espírito.
Claudio: O espírito.
 
Então … marca isso: força contemplativa não é ação. É contemplação. A força do espírito contempla e contrai. E quando contrai, nasce o organismo.
 
Claudio: Então o organismo é o espírito? Ou é um resultado do espírito?
Alunos: Resultado.
Claudio: Resultado.
 
O organismo é o que se chama vida orgânica. O espírito que contempla é o corpo sem órgãos.
Alunos: ?
Claudio: Corpo sem órgãos.
 
Por exemplo: pra você entender o que eu estou dizendo. O Rubens Correa, ele costuma representar o Artaud… não sei se vocês já viram, muito bem. É um Artaud muito cheio de gritos. Não tem nada a ver com o Artaud.
 
O Artaud criou uma figura na obra dele chamada corpo sem órgãos. Corpo sem órgãos é uma categoria que vai nos explicar, depois que nós entendermos ela, vai nos explicar o que é o desejo, o que é o prazer, o que é o instinto de morte, vai nos explicar tudo isso. Eu estou dizendo pra vocês que o nascimento da vida pressupõe a vibração dos instantes separados.
 
Primeiro elemento: a vibração dos instantes separados.
 
Claudio; Qual é o nome da vibração dos instantes separados?
Alunos e Claudio: Mens momentanea.
Dois: Um espírito que contempla.
 
Agora, quando eu falo espírito que contempla, eu vou abrir um parênteses:
A contemplação foi feita, na história da humanidade aparece o Mito de Narciso. Narciso é aquele que contempla a sua própria imagem. Sabia disso? Narciso contempla a sua própria imagem. O narcisimo vai ser dividido em dois: narcisismo material e narcisismo formal.
 
O narcisimo material é quando alguém contempla a sua imagem fora dele. Você contempla a sua imagem fora de você. (…)
 
Por exemplo: Narciso contemplando a imagem dele refletida nas águas. Agora é um momento magnífico, vamos ver se eu consigo explicar isso daqui pra vocês. O narcisismo formal é quando o espírito contempla e ao contemplar contrai os elementos do qual ele é feito. Os elementos com os quais ele é feito. E os elementos com os quais o espírito é feito são os instantes. Dificílimo, não é?
 
Vamos fazer alguma coisa… vou pegar um objeto aqui assim. E aqui vai ficar um pouco diferente do que eu quero dizer. Porque quando você pega a natureza. A natureza vista sob o modelo clássico, ela é constituída por quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Esse é o modelo clássico, os quatro elementos que constroem a natureza. A partir da descoberta atômica, não se fala mais nos quatro elementos, fala-se fósforo, enxofre, silício, carbonos… você fala em elementos atômicos. Mas vamos dizer que a natureza seja constituída pelos quatro elementos. Então esse instante que faz assim [Claudio gesticula com as mãos, uma dobra] são os quatro elementos. A matéria do instante são os quatro elementos.
 
A natureza, ela é constituída de quatro elementos: terra, fogo, ar, água. Um filósofo chamado Empédocles disse que existe na natureza os quatro elementos e duas forças. Uma força chama-se amor e a outra força chama-se ódio. Na hora que a força do amor prevalece , os quatro elementos se juntam. Na hora que a força do ódio prevalece, os quatro elementos se separam. Então para o Empédocles a natureza é um ciclo que oscila entre o amor e o ódio. O que eu estou dizendo é que o processo do espírito contemplativo é um processo de amor. O espírito contempla os quatro elementos. Mas o espírito quando contempla os quatro elementos, ele próprio é os quatro elementos. E ele junta os quatro elementos.
 
Eu vou agora explicar de outra maneira: você pega uma semente de vagem e joga a semente de vagem na terra. Não sei quanto tempo depois você vai naquele lugar com uma semente de jasmim… você joga na terra. Seis meses depois você volta e tem um jasmineiro. Um jasmineiro. O que é o jasmineiro? É a semente que contrai a matéria que a circunda. A matéria que circunda a semente é a lama. Ela contrai aqueles elementos que estão ali. E aqueles elementos vão se transformando em jasmins. Vocês entenderam?
 
Como é que de uma pequena semente pode nascer uma árvore imensa? É porque a árvore é constituída desses elementos que a semente juntou e contraiu e transformou em folha, fruto, casca… madeira. É uma contração que a semente faz.
 
Então o que ocorre no nascimento da vida é exatamente isso: a matéria com a qual a natureza é constituída se contrai, se junta, e na hora que ela se junta ¬usando Leibiniz¬ ela se transforma em matéria elástica e matéria plástica. E a vida é isso. A vida é orgânica. É importante que se isso for entendido, a gente distinguir o processo do nascimento do organismo e quem produz a vida não é o organismo. O produtor do organismo é o espírito que contrai. Por isso você pode dizer: a vida, ela não é orgânica, ela torna-se orgânica. Ficou difícil…
 
Até onde nós fomos? Até onde nós conseguimos ir nessa aula? E até onde nós não conseguimos ir?
 
Essa aula é uma aula que eu adiei durante umas três aulas. Eu fui impedido de dar ela. Mas agora eu vou começar a seguir nessa aula.
 
O que eu estou dizendo para vocês é que a tese que eu estou passando é que o tempo é subjetivo. Não há tempo se não houver contemplação.
 
Essa agora… num processo terminal, essa explicação que eu dei para vocês, ela teve dois conceitos básicos: o conceito de repetição da vibração e o conceito de diferença no espírito que contempla, que junta as (penetrações ? 15:15). Vocês entenderam isso? Repetição e…? Diferença. Repetição e diferença. A contemplação que o espírito faz introduz, dentro da natureza, a diferença. (…) Eu vou dar essa aula até vocês entenderem. Eu vou dar ad nauseam.
Porque com essa compreensão nós vamos poder entender todos os processos da vida. Foi bem a aula, não é?!
 
(…)
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 4:

 
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Aula de 19/12/1995 – A dobra e o barroco – Clarões orgânicos na noite escura

(…) Sempre é difícil acompanhar; então, durante algum tempo até eu dizer “agora”, não é propriamente aula: é uma fundamentação para uma aula que eu vou dar.Eu vou começar dando fundamentação e, à partir dessa fundamentação, a aula começa. Aí eu aviso “vai começar a aula agora. O que vocês podem fazer é se sustentar naquilo tudo que eu fundamentei, tá?!
 
Eu vou começar . Cada tema que eu falar, vocês dizem “já entendi”. Porque a partir desses temas é que a aula vai se desencadear.
 
No século XVII um filósofo chamado Leibiniz. Um filósofo ¬difícil se considerar o que eu vou dizer¬ um filósofo Barroco, integralmente Barroco. Ele, entre outras práticas,  constituiu um conceito que pode receber o nome de harmonia pré-estabelecida ou harmonia universal. O Leibiniz construiu um conceito chamado ¬melhor¬ de harmonia universal.
 
O que quer dizer exatamente esse conceito de harmonia universal?
Quer dizer o seguinte: que tudo o que existe na Natureza… tudo o que existe na Natureza está ligado (uma coisa à outra). Então, não existe na Natureza, nenhum elemento dentro da Natureza, que não esteja relacionado a outro elemento. Então você nunca encontrará na Natureza o que se chama “estrutura atômica”. A noção de “estrutura atômica” é uma noção de alguma coisa isolada. Na Natureza não existiria nada que fosse isolado. Tudo estaria conjugado.
 
Muito bem… o que que ele estabelece? Ele estabelece que tudo na Natureza está em relação. A Natureza é uma rede é uma cadeia de relações. Isso chama-se “rizoma”.
 
Aluna: Rizona?
Claudio: Rizoma! (Claudio soletra: R-I-Z-O-M-A)
 
O que é um rizoma?
O rizoma é que tudo o que existe está relacionado. Tudo o que existe está relacionado.
Então vamos supor aqui… vamos lá…
 
Claudio pega um biscoito e fala: Biscoito. Olha esse biscoito aqui. (Para vocês entenderem, tá?!) Aí chega o rato. O rato entra em contato com esse biscoito. O rato entrou emcontato com esse biscoito.
 
Claudio pergunta: Se ele entrou em contato com esse biscoito, ele entrou em contato com todo o universo?
Aluna: Entrou, claro.
Claudio: Por que?
Claudio e alunos: Por causa da “harmonia universal”.
 
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O que esse filósofo está dizendo é que quando nós entramos em contato com um elemento qualquer, de imediato, nós entramos em contato com o universo inteiro.
Voltando… agora eu vou complicar um pouquinho…
 
Esse biscoito entra em contato com essa xícara. Isso significa que esse biscoito entrou em contato com o universo. Isso chama-se “harmonia universal”. A noção de “harmonia universal” estabelece uma ideia que é: logo que você se encontra com um elemento, isso significa que você se encontra com (agora eu vou complicar) com o infinito. Então o contato com um elemento só, remete você para o infinito da natureza.
 
A Natureza, ela é infinita, e todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres.
 
Todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres. Então vamos voltar… vamos voltar…
 
Olha esse biscoito aqui. Vamos fingir que esse biscoito seja um rato. Olha esse rato aqui. Esse rato, ele tem limites, olha só… ele tem limites: ele tem um lado, ele tem um outro lado menor e aqui ele vai aumentando. Ele tendo limites, isso significa que este ser que está aqui, ele é finito. Finito quer dizer: tem limites. Então esse ser que está aqui, ele é um ser limitado, logo ele tem limites. Mas quando ele entra em contato com outro objeto, logo em seguida ele entra em contato com todo o universo. O que significa que os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Claudio: Ficou difícil?
Aluna: Acho que não…
Claudio: Os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Esse filósofo do século XVII chamado Leibiniz vai dizer que estes seres finitos que têm dentro de si o infinito do mundo inteiro chamam-se “mônadas”. (Claudio soletra: M-Ô-N-A-D-A)
 
A mônada é aquilo que a natureza é constituída. A natureza é constituída por uma infinidade de mônadas. Mas cada mônada conhece o infinito da natureza, tá?!
 
Então todas as mônadas, elas têm dentro delas o infinito da natureza.

Agora veja…acho que foi compreendido, né?!
 
Compreendeu Luiz?
 
A mônada tem dentro dela o infinito da natureza.
 
continua…
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

***

 
Esta é uma aula célebre. Além de ser belíssima, Claudio se aborrece no final. Irritado com o que chama de “tolices” , interrompe o que dizia, levanta-se e deixa a sala, e esta foi a única vez em que isto aconteceu. Para ele, a dificuldade de compreensão dos alunos não atrapalhava uma aula; mas o que chamava de “interrupções por conta de tolices”, era algo que o impedia de prosseguir.  Não cortamos estes minutos finais, pois eles expressam sua postura como filósofo e professor.

Na Parte II, entre os 23:36  e  27:47 minutos, há 4 minutos apenas de conversas indistintas, no intervalo para o café; mas depois a aula prossegue normalmente.
 
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