Aula de 24/01/1996 – Corpo orgânico e corpo expressivo

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar-Explicar); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos);  13 (Arte e Forças) e 17 (Aion) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 


[…]

[E eu vou] passar agora para um canto de que eu não falei no Olivier Messiaen, chamado canto territorializante. Naquele momento, eu falei em dois cantos: no canto amoroso – canto de sedução, canto da primavera – que eu relacionei à representação orgânica; e no canto gratuito – que eu disse não ser, de maneira nenhuma, um canto orgânico. Seria…

(Não há nenhuma dificuldade em fazer a oposição que eu vou fazer agora:)

Eu vou colocar aquele canto – que eu chamei de canto gratuito – literalmente como um canto estético; e opor, então, estética e organismo. Ou seja: quando o pássaro faz o canto para o crepúsculo, ele tem como objetivo a beleza; o objetivo dele é a arte. Arte, no sentido de que ele não tem nenhum objetivo de colocar um órgão ou [efetuar] uma função de órgão: ele não busca a reprodução, ele não quer prazeres individuais, ele não visa a nada disso; pelo contrário – porque no canto gratuito o pássaro está correndo um risco de morte assustador, pois ele se entrega inteiramente ao crepúsculo. Então, ele abandona (atenção para essa categoria: eu estou misturando categorias, eu vou passar inclusive uma categoria do Nietzsche) a prática conservativa.

A prática conservativa [corresponde ao] que se chama corpo reativo – que é um corpo inteiramente voltado para a conservação. É isso que se dá no canto primaveril, um canto voltado inteiramente para a conservação – e foi inclusive por isso que eu usei um conceito de biologia molecular… Eu disse que quando o pássaro está exercendo esse canto orgânico, esse canto primaveril, ele está passando um sonho da vida: que é a replicação; um sonho da vida: que é a reprodução – a vida teria esse sonho! O que implica em dizer que o canto gratuito faria uma deriva no que eu chamei de corpo reativo, no que eu chamei de corpo conservativo – que é como se o corpo abandonasse o governo do organismo e se arriscasse nessa região do estético, na região da arte. Então, a partir disso, eu acho que eu posso colocar – e nada me impede de fazer isso! – que o mesmo pássaro, que eu chamei de grive musicienne [tordo musicista, em tradução literal].  Eu vou usar, um pouco diferencialmente, o Leibniz… o mesmo pássaro teria em seu corpo duas forças: uma força de conservação e uma força selvagem, violenta, conquistadora – cujo único objetivo seria a criação, a invenção e a produção. É como se fosse uma auto-poiesis: um poder auto-criativo que passaria naquele corpo.

A partir daí, eu aplico [essas categorias] a qualquer corpo: qualquer corpo vivo teria nele essas duas forças – uma força orgânica conservativa e uma força que por enquanto (eu não vou usar Nietzsche) eu vou chamar de força estética – voltada exclusivamente para a produção de alguma coisa: no caso do pássaro, para a produção dos cantos – cantos para o crepúsculo. (Tá?)

Agora, o terceiro canto – o canto que eu não enunciei: um canto que está inteiramente ligado a todos os animais, incluindo o homem. A todos os animais incluindo o homem, no sentido de que a ciência etológica, que eu chamei de biologia do comportamento, trabalha com pássaros, com moléculas e também com o homem. Então, existem determinados animais que são territorializantes; e outros, que não são territorializantes. Quer dizer: alguns animais que produzem território; e outros que não produzem território. Produzir territórios…

O território não tem que obedecer à geografia humana: o território do animal pode ser um território no ar, pode não ser nada na terra, pode ser um território temporal… Por exemplo, dizem que o gato ocupa um determinado território durante umas duas horas e depois o abandona. Outro gato vai ocupar as outras duas horas. Então, o território de um animal não é recoberto pelo modelo geográfico humano.

Vamos chamar o território animal de paisagem. É uma paisagem onde o animal, que é territorializante, vai produzir marcas; marcas que limitem o território dele: ele dá limites ao território! Quando, por exemplo, o lobo marca um território (vocês podem usar assinar), quando ele assina o seu território, o lobo marca ou assina esse território com fezes e urina. Mas o pássaro, ao marcar seu território, ele faz isso com o canto: é cantando que ele marca território. Então – e aqui está o momento chave -, na hora em que o pássaro marca o seu território, ele não está fazendo uma prática orgânica, não é uma prática orgânica. A prática orgânica no pássaro (ou mesmo em todos os animais territorializados) aparece depois de constituído o território dele. Ou seja, eu agora vou mudar de nomenclatura e dizer que os pássaros – ou qualquer ser vivo – têm dois tipos de corpo: um corpo orgânico e um corpo expressivo. Então, eu passei a usar a categoria de expressivo e vou dizer que, quando um pássaro vai marcar o seu território, o corpo dominante nele, nesse momento, é o corpo expressivo.

Esse corpo expressivo ainda não tem função orgânica: o pássaro marca o território para, a partir dele, de seu território marcado, começar a exercer suas funções orgânicas.

(Nós aqui vamos usar uma estratégia, para vocês entenderem bem).

Segundo o que eu estou dizendo, portanto, só há canto amoroso, o canto primaveril, depois do território constituído.

“O canto de pássaros: o pássaro que canta marca assim seu território… Os próprios modos gregos, os ritmos hindus são territoriais, provinciais, regionais. O ritornelo pode ganhar outras funções, amorosa, profissional ou social, litúrgica ou cósmica: ele sempre leva terra consigo, ele tem como concomitante uma terra, mesmo que espiritual, ele está em relação essencial com um Natal, um Nativo.” – Gilles Deleuze e Félix Guattari – Mil Platôs, volume 4, “Acerca do Ritornelo”.

Assim, o pássaro primeiro constrói o território dele – e quem constrói esse território não é o corpo orgânico; quem constrói o território é o corpo expressivo: o mesmo corpo que aparece no canto para o crepúsculo. O corpo que aparece no crepúsculo é o mesmo corpo que produz um território.

Então, o que me importa aqui, até este momento, é o fato de um corpo não se definir ou não se resumir ao organismo: um corpo não se resume ao organismo. O organismo não é equivalente a corpo vivo. Corpo vivo e organismo não se equivalem: o corpo vivo implica também o que eu chamei de forças expressivas. Então (atenção para o que eu vou dizer), essas forças expressivas produziriam o território. Eu vou chamar essas forças expressivas de territorializantes; e dizer que o corpo orgânico apareceria a partir do território produzido por essas forças expressivas. O corpo orgânico é um prolongamento do corpo expressivo: ele prolonga o corpo expressivo. A partir daí, nada me impede de dizer que o corpo expressivo é genético em relação ao corpo orgânico – ele é a gênese do corpo orgânico. Até que…

Se eu estiver me excedendo um pouco aqui… Não, não estou me excedendo; mas se estivesse, não teria importância, porque é esse o uso que estou fazendo, para nós penetrarmos no campo transcendental e no plano de imanência.

Então, pela explicação que eu dei, um corpo vivo teria duas forças: uma força orgânica e uma força expressiva. A força orgânica só emergiria a partir de um território produzido – produzido pela força expressiva. Então, se a força orgânica só emerge a partir de um território produzido, significa que a força expressiva – que é a força territorializante – é uma força genética: é a gênese do organismo; a partir de onde o organismo aparece.

– O que nos importa aqui? O que nos importa aqui é a ideia de gênese; e a ideia de representação orgânica como produto de uma gênese. O que eu estou colocando para vocês, sempre da maneira mais cadenciada possível, é que atrás de uma representação orgânica, atrás do organismo existe a força genética desse organismo. Essa força genética chama-se força expressiva. (Certo?)

E agora, quando você tem o organismo, ou seja, os cantos chamados cantos primaveris, os cantos amorosos, você tem um organismo em pleno funcionamento; um organismo com as suas funções – em pleno funcionamento! Então, quando você tem esse organismo territorializado, dentro de um território, o pássaro, por exemplo, que está na sua representação orgânica, na prática do canto amoroso, do canto da primavera, eu vou passar a chamá-lo simplesmente de indivíduo. Ou seja, eu estou dizendo que os seres vivos se constituem como indivíduos: todos os seres vivos são individuados.

Por exemplo, eu sou um indivíduo, ela é um indivíduo, ele é um indivíduo, uma barata que aparecer aqui é um indivíduo, uma mosca que aparecer aqui é um indivíduo…

A força plástica (eu já tinha colocado isso)… a força plástica constitui indivíduos. A força orgânica constitui indivíduos. Então, sempre que você encontrar um ser vivo, você estará diante de um indivíduo – você estará nitidamente diante de um indivíduo.

Por exemplo, aparece uma pulga, e a gente mata a pulga: matou um indivíduo. A gente mata um mosquito: matou um indivíduo.

O vivo é o indivíduo. Se você sai do vivo e vai procurar os indivíduos no mundo físico – é mais complicado.

– Por exemplo, o Pão de Açúcar. O Pão de Açúcar seria um indivíduo?

Essa é uma questão muito difícil, porque, inclusive, não se consegue dizer onde estão os limites do Pão de Açúcar; e o vivo tem seus limites precisos. Então, o indivíduo é a marca do vivo: todo vivo é individuado.

(Tem café pra mim?)

O que eu estou colocando nesta aula – de modo um pouco forçado – é que indivíduo equivale à representação orgânica – eu estou constituindo uma equivalência entre organismo e indivíduo. E não é muito forçado, porque, se eu usar as forças plásticas do Leibniz, é exatamente isso; ou seja, – o organismo é um indivíduo.

Agora, a filosofia e, junto com ela, as ciências sempre se empenharam em compreender o que é o indivíduo. Durante todos esses séculos, com pequenos cortes – que neste instante não importam – a ciência e a filosofia têm feito um empenho para entender o que é o indivíduo. (Isso daqui vai nos levar para [determinados] caminhos, que vão surgir… lá pela oitava a décima aulas). Então, quando vocês encontram uma ciência – a ciência é necessariamente empenhada em dar conta dos indivíduos que existem na realidade.

Mas eu coloquei a diferença do canto expressivo para o canto orgânico e disse que o canto expressivo é um canto territorializante. A partir de então, eu estou dizendo que o canto expressivo ainda não é a postura da individuação: o canto expressivo é anterior ao indivíduo orgânico. Esse canto expressivo, então, passaria a ser a gênese do canto orgânico, a gênese da representação orgânica. Ou melhor, e isso é final – todo vivo é um indivíduo. Todo vivo é um indivíduo, todo vivo é orgânico. Então, quando eu digo: “todo vivo é um indivíduo, todo vivo é orgânico”, eu fiz uma equivalência perigosíssima – porque eu disse que a vida equivale a indivíduo e a organismo – mas é falso: porque a vida não equivale a indivíduo e a organismo – porque indivíduo e organismo pressupõem uma gênese – e a gênese do indivíduo, a gênese do organismo, chama-se singularidade.

Então, eu estou dizendo para vocês que, quando nós pensamos a vida, quando nós formos pensar a vida, o que nos aparece para a experimentação, o que aparece no mundo empírico, para se experimentar, para se observar, para você fazer seus cálculos e sua teoria, são os indivíduos e o organismo. Mas o indivíduo e o organismo não se equivalem à vida. Não há equivalência entre o indivíduo – que é igual a organismo – e vida. Para se pensar a vida, tem-se que incluir a gênese do indivíduo. E quando você abandona o indivíduo e parte para a prática genética do indivíduo, encontra-se alguma coisa que eu vou passar a chamar de singularidade.

Então, no momento em que eu falo que existe alguma coisa no mundo da vida que não é o organismo, ou seja, que a vida não se equivale a organismo, não é sinônimo de organismo – é que existe alguma coisa que é pré-individual, alguma coisa que é pré-orgânica – que eu estou chamando de singularidade – e esta coisa é a gênese da vida. Ou seja, a vida, para se compreender a vida, tem-se que compreender os seus elementos genéticos – elementos esses que se chamam singularidades.

(Então, vamos voltar, vamos voltar. Eu vou repetir o que estou dizendo).

Eu pego um cientista, vamos ver, um biólogo, eu pego um biólogo e digo para ele fazer um estudo sobre a vida. O que esse biólogo vai encontrar? Vai encontrar o organismo – ele só vai encontrar indivíduos. Todo o trabalho dele vai ser em cima de indivíduos, porque o indivíduo é o vivo constituído. O vivo, quando ele se constitui, ele é o indivíduo, ele é o indivíduo.

Aluna: Moléculas, células? [trecho inaudível da fita]

Claudio: Seria… seriam indivíduos. Tudo isso é indivíduo: moléculas, células, vírus, átomo... isso tudo é indivíduo. Tudo o que você encontra na sua experimentação – não importa, no caso do átomo, que essa experimentação não possa ser observada a olho nu – é indivíduo. E o que eu estou colocando para vocês é a existência de uma gênese do indivíduo. Essa gênese – aqui é um momento grave – essa gênese não é individual. Ou seja, aquilo que produz o orgânico, aquilo que produz o vivo, aquilo que produz o indivíduo vivo não é individual – chama-se singularidade. É um momento difícil, mas aqui nós já temos uma marcação, uma assinatura que vai dar uma orientação para vocês. A orientação é que essa singularidade, essa gênese da vida, chama-se campo transcendental. E o indivíduo – o orgânico enquanto tal – pertence ao que estou chamando de forma empírica.

Então, quando você encontra um cientista, um observador do mundo, o que esse observador faz? Ele observa indivíduos – porque a nossa sensibilidade só pode apreender os indivíduos – a nossa sensibilidade não apreende a singularidade.

– Por que a sensibilidade não apreende a singularidade? Porque a singularidade só pode ser pensada. Só pode ser pensada. E esse aqui é um momento gravíssimo – porque eu estou constituindo para vocês a ideia de que existem duas realidades: uma realidade clara, fácil de entender (ainda que seja clara e fácil de entender eu vou dar uma orientação para vocês entenderem melhor ainda) – que se chama o indivíduo; e a outra realidade – que se chama singularidade. E aqui aparece alguma coisa como se fosse uma torção do pensamento: a singularidade é tão real quanto o indivíduo; mas ela não pertence ao mundo empírico – logo, ela não pode ser observada pela nossa sensibilidade; a singularidade é aquilo que pode ser pensada.

(Então, eu vou deixar isso de lado; e vou voltar, procurando aumentar a potência de compreensão dessa questão para vocês).

Eu disse que o indivíduo é aquilo que ocupa o que eu chamei de forma empírica; e a forma empírica é tudo aquilo que nós podemos observar e experimentar. Por exemplo, quando eu produzo um enunciado, esse enunciado é um individuo. Quando eu vejo uma molécula, quando entro em contato com uma casa, quando entro em contato com um copo… Qualquer coisa que pertença à forma empírica é chamada de indivíduo. Muito bem! Essa tese de que a forma empírica é preenchida pelos indivíduos, ou seja, de que os indivíduos são aquilo que existe na realidade… E isso é a coisa mais fácil de vocês entenderem… Olhem para esta sala: tem uma série de indivíduos homens, tem uma série de indivíduos cadeiras, tem um indivíduo mesa, tem dois indivíduos ventiladores, tem um indivíduo teto… – então, a realidade é constituída de indivíduos. E a questão do indivíduo fica muito clara, quando se passa para a vida, porque os seres vivos são precisamente demarcados. O ser vivo é precisamente demarcado – porque a vida é uma escultora, a vida é apaixonada pela variação das formas: ela é capaz de produzir uma aranha, um cavalo, uma vaca, uma flor... Então, quando a vida produz essas formas, essas formas (que a vida produz) chamam-se indivíduos. Então, o mundo da forma empírica é o mundo das formas – onde tudo tem forma. Aí, vocês podem me perguntar: tudo? Tudo? Tudo? A música tem uma forma? A sonata, a sinfonia, seja lá o que for… tudo tem uma forma!

Aluno: A alma tem forma?

Claudio: A alma… É muito fácil responder isso: ela pertence ao mundo empírico? Se pertencer, não interessa: tudo que pertence ao mundo físico tem uma forma. O Nietzsche chamava isso de apolíneo – o mundo apolíneo: é o mundo das formas. [trecho inaudível]. Tudo o que pertence ao que eu chamei de forma empírica é dotado de uma forma – não importa qual seja essa forma.

Agora, no século XIV (eu vou usar o século XIV como uma estratégia de orientação para vocês), os pensadores do século XIV, sobretudo a chamada “escola tomista” (de São Tomás de Aquino) afirmavam que a realidade – logo, a forma empírica – era constituída de duas realidades: uma, o indivíduo; e a outra, eles chamavam de universal. Então, para eles, a realidade era constituída de dois elementos: o individual e o universal. Essa palavra universal complica um pouco. Mas…

– O que quer dizer universal? Universal quer dizer a espécie à qual o indivíduo pertence. O indivíduo humano, por exemplo, pertence à espécie homem, o indivíduo cachorro à espécie cachorro, o indivíduo ‘collie’ pertence à espécie cachorro… Então, para os pensadores do século XIV, a realidade era constituída de duas formas: a forma universal, ou forma específica; e a forma individual.

O real, então, para eles, era constituído por essas duas formas: a individual e a universal ou espécie. (Vocês entenderam isso?) Era constituído pelo indivíduo e pela espécie, pela forma. Por exemplo, qual é o nome de um livro de Darwin? Evolução das… espécies. Quer dizer, evolução do universal – é isso que ele está dizendo. Ele está dizendo que a espécie é uma realidade que evolui. Então, o Darwin está inscrito nessa postura de que a realidade é constituída de indivíduos e de espécies ou universais. (Certo?)

Agora, no século XIV, quando essa teoria está colocada, aparece um pensador chamado Guilherme de Ockham; e esse pensador vai desfazer essa noção – ele desfaz essa noção. Ele vai dizer o seguinte: a realidade (aqui é um momento chave), a realidade não é constituída de duas formas. (Quais seriam as duas formas? A individual e a universal). Ele vai dizer que o universal não é real – que o universal é mental. O universal é mental. Vou dar um exemplo para vocês. Então, o que o Ockham está dizendo é que a única coisa real é o individual – e que o universal é mental. Como é que a gente compreende isso? Por exemplo, você pega um pronome-adjetivo demonstrativo e um substantivo. Pega o substantivo cadeira e antepõe ao substantivo cadeira o pronome-adjetivo esta e diz – esta cadeira. Quando você diz isto, “isto” é uma palavra que indica uma realidade no mundo. Ou seja, quando eu digo esta cadeira, esta mesa, estes óculos, este boi, este cachorro, este mosquito... eu estou indicando realidades individuais – que existem no mundo. Ou seja, esta cadeira, esta mesa, este cachorro… todos esses três enunciados têm um referente: alguma coisa que existe para lá do próprio enunciado.

Mas quando eu digo: a cadeira, a mesa, a rosa, o copo, o rádio… para lá do enunciado o rádio, a cadeira, a mesa… não existe nada. O que a escola do Guilherme de Ockham vai dizer é que os universais são apenas signos. Ou, para ficar mais fácil para vocês, são meras palavras – flatus vocis... meras palavras. A mesa… atrás da mesa, para lá da mesa… tem alguma coisa? Nada! Ou seja, não existe nenhum objeto que corresponda ao enunciado ‘a mesa’; mas existem objetos que correspondem ao enunciado ‘esta mesa’. Então, ‘esta mesa’ indica realidades individuais no mundo – e ‘a mesa’ não indica nenhuma realidade. Se não indica nenhuma realidade – ‘a mesa’ é um mero signo.

Esse é um momento belíssimo da história do pensamento – porque fica constituído o que se chama campo ontológico. Campo ontológico quer dizer aquilo que existe – aquilo que existe é o indivíduo. Então, nesse momento, foi constituído o campo ontológico e nasceu o que se chama semiótica.

Semiótica são palavras que não indicam nenhuma realidade; elas são puros signos.

Nesse momento, então, nascem dois campos: o ontológico – preenchido pelos indivíduos; e o semiótico – preenchido pelos universais. (Certo?).

Então, a semiótica nasceu no século XIV, na escola de Guilherme de Ockham – e o real ficou constituído de quantas coisas? O que é o real? O real passou a ser apenas o indivíduo: só os indivíduos são reais! E nesse século XIV, na linguagem de Guilherme de Ockham… (evidentemente em latim, não é?) o indivíduo é sinônimo de singular. Então, tanto faz você dizer singular, ou dizer indivíduo que você está dizendo a mesma coisa. Então, para ele, indivíduo e singular são a mesma coisa e se você diz: “o real, o empírico é constituído por indivíduos ou constituído por singularidades”, você diz a mesma coisa – e o universal passa a ser um objeto mental.

Depois, quando chega a linha de determinados pensadores que mais tarde eu vou explicar, vai haver uma separação ontológica entre individual e singularidade, entre indivíduo e singular. Essa linha vai dizer que o real não é constituído somente de indivíduos, é constituído de duas realidades: o indivíduo e o singular.

Enquanto, no século XIV, o singular era apenas um sinônimo de individual, e para algumas escolas o individual e o universal eram ambos reais, – Guilherme de Ockham desfaz o universal como realidade, coloca o universal ou a espécie como objeto mental e dá o singular como sinônimo de individual. Então, o que eu acabei de dizer, é que nós nunca encontraremos o universal aqui [no nosso mundo]. Não existe universal, o universal é mental!

Determinadas escolas do século XX (eu vou dizer assim, para não complicar) vão fazer a separação do individual e do singular – e dizer que o real é ocupado por duas realidades: a realidade individual e a realidade singular. Então, nós teríamos duas realidades: uma individual (agora já fica mais claro para eu dizer), essa realidade individual chama-se forma empírica. Então, a forma empírica é preenchida somente por individuais e na hora em que há o desencontro – quando acaba a sinonímia e a equivalência de individual e singular – uma nova realidade passa a existir. Uma realidade, a forma empírica – preenchida pelos individuais; a outra realidade, chamada campo transcendental – preenchida pelos singulares ou...

– Eu disse para vocês que os singulares seriam a gênese do individual? (Se alguma coisa é genética da outra, você pode chamar a coisa que é genética da outra de pré. Então o singular é o pré-individual. Então, o campo transcendental e a forma empírica passam a ser as duas realidades. Nós teríamos duas realidades: a que eu chamei de forma empírica, preenchida pelos individuais e a outra realidade, que eu chamei de campo transcendental, preenchida pelos…?

Alunos: pela singularidade, pelos singulares.

(Tá? Eu agora só vou passar por aqui!)

Há outro elemento em que vocês têm que se apoiar, antes de eu penetrar no estudo… é que os singulares são a gênese do individual. (Atenção:) a gênese do individual.

– O que é o universal? O universal é um objeto mental. Esse objeto mental tem origem na forma empírica – o que implica em dizer que na forma empírica existem os indivíduos e os sujeitos. Então, na forma empírica existem duas coisas; aliás, uma só – porque o sujeito é um indivíduo.

Então, existem indivíduos e sujeitos: por exemplo, este copo é um indivíduo, eu sou um indivíduo, mas além de ser um indivíduo eu sou um…?

Alunos: Sujeito!

Muito simples… a definição de sujeito é simplérrima! O sujeito é aquele que faz representações mentais. Então, o universal é uma…?

Alunos: Representação mental!

Então, a forma empírica é preenchida pelos indivíduos e pelos sujeitos (algum problema?). E o sujeito é aquele que faz representações mentais. Logo, o universal é uma…?

Alunos: Representação mental!

Muitos pensadores, quando se encontram com o singular, dizem: “Ah! O singular é também uma representação mental”. Eu estou dizendo: Não! O singular não é uma representação mental – o singular é uma realidade tanto quanto a forma empírica é uma realidade; só que essa realidade chamada singular não tem as mesmas estruturas da realidade chamada forma empírica. Então, nós passamos a ter os objetos mentais, que pertencem ao sujeito. Esses objetos mentais são muito fáceis de se compreender: os nossos sonhos, os nossos delírios, as palavras universalizantes – que são o artigo definido mais um substantivo: o homem, a cadeira... Então, tudo que se passa na nossa subjetividade chama-se objeto mental. O que é o sonho? Um objeto mental. O que é o delírio? Um objeto mental. O que é a tristeza? Um objeto mental. (Certo?) Então, os objetos mentais e os indivíduos preenchem o que se chama forma empírica. Eles preenchem a forma empírica.

(E, agora, começa a ficar mais difícil. Começa a ficar mais difícil para se entender).

A singularidade não é nem individual nem mental – ela é real, mas aqui aparece… apareceram… Vamos voltar ao Guilherme de Ockham:

O que o Guilherme de Ockham fez de mais magnífico? Foi ter constituído um campo ontológico – que é o campo do indivíduo; e um campo semiótico – que é o campo do universal. Foi isso que ele fez.

Agora, quando nós chegamos aqui nós temos a singularidade. A singularidade não é um campo mental; ela é uma realidade tão real quanto o individual. Só que as estruturas do individual não são semelhantes às estruturas do singular, sobretudo porque o singular não tem estrutura. Eu disse para vocês que a forma empírica, ou melhor, que o mundo empírico é constituído de indivíduos; e os indivíduos e os sujeitos são duas formas. Então, no universo, no que eu chamo de campo transcendental – onde estão as singularidades -, não existem formas. Se o Nietzsche, por exemplo, estivesse aqui, como é que ele chamaria essas singularidades? Ele as chamaria de forças. (Posso usar diversos pensadores que vão pensar dessa maneira). Então, essas singularidades…

(Eu vou repetir, para vocês compreenderem melhor).

Há um pintor do século XX, que morreu há pouco tempo, chamado Francis Bacon. Vocês conhecem o Francis Bacon?

Francis Bacon… eu vou trazer na próxima aula. Ah! Nós temos aqui? Pronto, está aqui, vejam o Francis Bacon…

Evidentemente, que aqui vocês não têm o Francis Bacon inteiro, isto aqui é apenas um rosto. (Certo?) E o Francis Bacon pinta telas, onde aparece o corpo inteiro, e ele pinta inclusive trípticos… que são três painéis que ele faz. Agora, eu vou usar o Francis Bacon da seguinte maneira: o mundo, a natureza é constituída de dois campos reais: um chamado empírico – que é o lugar das formas; e outro, chamado singularidade – que não tem formas; e eu chamei de forças. O Francis Bacon é um pintor que só tem uma questão – pintar as forças. Toda a questão dele é pintar as forças. (Não vou dar aula de Francis Bacon hoje…) Toda a questão dele é pintar as forças.

Você nota que só isso aqui já dá para notar que ele está fazendo uma destruição absoluta do rosto. O objetivo dele é desfazer a forma, é desfazer a forma do rosto. Claro que isso não fica muito evidente nesse momento, mas na frente vai ficar! Eu vou colocar o Francis Bacon como sendo um pintor a partir de duas realidades. Quais são as realidades? A empírica e a transcendental. Empírica, forma; o transcendental, singularidades ou forças (Tá?).

“Three studies for a portrait of Peter Board”. Francis Bacon, 1975.

Vamos ver, por exemplo, o Dalí. O Dalí é pintor de quê? Ele é pintor de objetos mentais.

E ele dá aos objetos mentais a forma que o objeto mental tem enquanto objeto mental: relógios desmilinguidos, campos imensos… tudo aquilo que aparece nos sonhos.

Então, eu posso dizer tranquilamente que o Dalí é um pintor dos objetos mentais, mas o Francis Bacon, não. O Francis Bacon é um pintor das forças – ele quer pintar as forças. Então, estou chamando as forças de singularidades. E essas singularidades, eu disse que elas são a gênese do indivíduo. A gênese! Nós temos um prejuízo muito grande (atenção, é um momento muito forte!), nós temos um prejuízo muito grande ao pensar gênese! E a nossa dificuldade em pensar gênese é por causa das velhas teogonias: as teogonias orientais, mesmo as teogonias gregas – Hesíodo, por exemplo, em que a gênese era separada do objeto que ela produzia. Então, nós achávamos que a gênese se dava num determinado tempo: num determinado momento, apareciam as forças genéticas; essas forças genéticas produziam o que tinham que produzir, e desapareciam; e aquilo que estava produzido passaria a existir. O que eu estou dizendo não é isso.

The Persistence of Memory (1931), de Salvador Dali.

Eu estou dizendo que a singularidade… que eu chamei de campo transcendental (O indivíduo… indivíduo e sujeito eu chamei de formas.), essa singularidade, o campo transcendental, é genética – mas, só que a gênese nunca abandona o indivíduo: estão sempre juntos! Quer dizer, o velho corte teogônico… (Vocês entenderam o que eu falei da Teogonia?). A teogonia estou dizendo, aqui, Hesíodo… As teogonias explicam a formação do mundo através de processos genéticos, mas elas separam a gênese: o criador do criado. É muito semelhante, muito semelhante ao Deus cristão: é um processo de criação em que o criador e o criado ficam separados. Aqui, nesse processo que estou dizendo para vocês, não há a separação do criador e do criado. O criador e o criado estão juntos. Então, a singularidade está o tempo inteiro presente no indivíduo. As singularidades (Atenção, já vai ficar mais fácil!) são os fluxos intensivos de um corpo. Ou seja, todo corpo tem um organismo: são o organismo e as funções dos órgãos que individuam um corpo vivo e fazem dele um sujeito; mas nesse corpo atravessam o que se chama fluxos intensivos. São esses fluxos intensivos que eu estou chamando de… campo transcendental ou de singularidade.

Aluna: Não é a força elástica?…

Claudio: Não seria a força elástica. Vocês notem que, quando eu toquei na força elástica, eu a chamei de in-orgânica. Disse que a força plástica era orgânica. Mas eu apontei para a alma e disse que ela era an-orgânica. A alma são essas forças!…

Aluno: Esses conceitos, eu talvez confunda um pouco… é a força inorgânica e a anorgânica..

Claudio: Eu distingui a plástica e a elástica. (Não é?) Sobre a elástica… não falei nada; eu disse que ela era uma força inorgânica, “molável”, com molabilidade, que produzia molas. Mola é o seguinte: você pega um elástico, distende o elástico, e ele volta, (não é?). O que significa que o elástico é constituído de molas. Porque a mola é aquilo que estica e volta para o lugar. É isso, a matéria inorgânica: ela é uma molabilidade. Então, a força inorgânica é elástica; a força orgânica é plástica; mas eu falei na existência de uma outra coisa – a alma… a alma. A alma seria uma outra coisa. Então, eu vou identificar a alma ao próprio corpo, sendo altamente nietzschiano, dizendo que a alma é corpo.

Aluna: É o cristalino…

Claudio: É o cristalino. É o cristalino. A alma é corpo, a alma é corpo – mas não o orgânico. A alma é vida – mas não é orgânica: chama-se an-orgânica. Há um grande pensador que viveu no século XX, ele não é muito considerado nos meios clássicos, mas é um pensador excepcional, chama-se Antonin Artaud. E Antonin Artaud chamava essa alma, esse campo transcendental, essa singularidade, essas forças… de corpo sem órgãos. Podem marcar: corpo sem órgãos. Então, a noção de corpo sem órgãos se aproxima… Corpo sem órgãos, CsO.

Aluna: A arte é uma singularidade?

Claudio: Olha… Não necessariamente… não necessariamente! Porque eu diria que a arte seria uma singularidade… então, se a arte fosse uma singularidade o artista estaria sempre expressando forças, expressando singularidades, expressando o anorgânico, expressando o cristalino… Mas nós conhecemos artes orgânicas. Por isso que eu vim dar a minha aula…

Aluna: Mas isso não é arte.

Claudio: Eu botaria em questão… Mas eu prefiro não fazer isso já. Mas está bem colocado! Porque a arte orgânica é a arte da representação. (Mas eu ainda não vou colocar nesta aula… Eu ainda não vou passar essa questão nesta aula. Acho que na aula que vem a gente entra nisso.)

O importante agora é a gente compreender a possibilidade do que estou chamando de corpo sem órgãos (CsO). Corpo sem órgãos, sinônimo: fluxos intensivos. Os fluxos intensivos do corpo.

Aluna: Eu não entendi, eu estava pensando nisso de hoje, mas no que você disse na última aula, sobre a questão do orgânico, dos órgãos, que o organismo… aprisiona a vida…

Claudio: É. Ainda é difícil… Você vai entender! Vai passar a fazer parte da sua vida. Pode ficar certa de que você vai entender. Porque essa questão que estou dizendo… (Só para responder a ela). Quando eu disse que o organismo aprisiona a vida, isso é o Artaud. O organismo prende a vida.

Mais tarde eu voltarei a isso para colocar para você… Na hora em que eu tiver o campo teórico suficientemente exposto, para que você possa compreender. Eu acho que o estudante compreende, quando eu compreendo. Eu sou uma espécie de imagem modelo da aula. (Viu?). Por exemplo, se eu dissesse agora, para você: Ah! Ah! Ah! O organismo não se equivale à vida, há alguma coisa a mais, eu não compreenderia! Seria um enunciado solto. (Entendeu?) A aula é um processo que expressa o pensamento daquele que a está dando. Então, quando eu obtenho a compreensão de alguma coisa, eu acredito de imediato que vocês compreenderam. Entendeu? Então, eu não posso precipitar alguma coisa descontextualizada. Se eu descontextualizo, se eu jogo aquilo, vira mera palavra, flatus vocis.

Aluno: Claudio, eu acho que o que está me dificultando é que eu estou procurando associar com o canto territorial, e ele é associado com a força elástica…

Claudio: Não! Não! O canto territorial está associado ao anorgânico.

Aluna: E o canto gratuito?

Claudio: Também. Todos dois! Todos dois! Todos dois!…

Aluna: Então, a força elástica não tem canto [trecho inaudível].

Claudio: Nada… Não tem canto nenhum. A força elástica não canta, a força elástica é mola. São molas… Depois eu vou explicar melhor a questão do que é exatamente a força elástica, do que é a força plástica…

Aluna: Eu estava pensando nos três cantos com as três forças…

Claudio: Não… O que eu estou chamando de anorgânico não é nem a força elástica nem a plástica.

Aluna: O canto territorial e o canto gratuito fazem parte do anorgânico?

Claudio: Fazem parte do cristalino… do cristalino.

(Então, vamos concluir aqui).

O que estou chamando de campo transcendental é tão real… (Atenção aqui!). Quando eu falo real é a mesma coisa que: não é mental. É a mesma coisa. Não é mental, é autônomo – independe da minha mente para existir (certo?). Então, isso é a singularidade, o campo transcendental, o que mais?… (Todos os nomes que eu dei, tá?)

(Mas, agora, atenção:)

Há uma diferença do empírico e do transcendental. O empírico é forma… é forma. Logo, se o empírico é forma e o transcendental não é forma, nada me impede de chamar o transcendental de aformal. E se eu chamar o transcendental de aformal, eu serei forçado imediatamente a dizer que o transcendental é caos.

Então, aqui emerge, então, emerge…

[Fim de fita]


Parte II

[…] o mundo empírico [que] é constituído por indivíduos; e os indivíduos têm uma forma. Se eles mudam de forma, isso se chama trans-formação – aí eles passam para outra forma. Por exemplo, vocês vão encontrar… eu acho que eu posso até dizer que, em seus relógios líquidos, o Dalí trabalharia com transformações. Ele trabalharia com transformações. Agora, quando você pega esse pintor chamado Francis Bacon, e eu disse que Francis Bacon objetivava pintar as singularidades… (Foi isso que eu disse?) Pintar as forças… as singularidades. Mas eu vou apresentar outro pintor, ou outra escola, que visaria a pintar essas singularidades. E com essa outra escola a questão vai ficar mais clara: é o expressionismo abstrato ou a pintura informal. E eu acho que o melhor exemplo é o Pollock… Todo mundo conhece o Pollock? O Pollock… é o seguinte (eu vou explicar para vocês:)

Você pega um tecido, o tecido é constituído de dois elementos entrelaçados: a trama, que é o elemento horizontal do tecido; e o urdume – que é o elemento vertical do tecido. O tecido vai fazendo assim… o fio da trama se entrelaçando ao urdume. (Não é?) Uma trama e um urdume: chama-se urdidura, a trama e o urdume… e isso é um tecido. Para produzir o tecido, o tecelão vai trabalhar com fios, que podem ser de origem animal, vegetal, artificial, plástico… não importa, ele pega esse fios e faz a urdidura – trama mais urdume.

Mas existe outro tipo de prática, utilizada pelos nômades, que é pegar um emaranhado de fibras, sem distinção de fios, ou fios emaranhados, tudo misturado, colocá-los sobre uma superfície e socá-los: pá!pá!pá!pá! – ou prensá-los. É assim que se produz uma coisa chamada feltro. O feltro não é um tecido, não é constituído por… trama e urdume. O feltro é socado e, sendo socado, os fios do feltro são um emaranhado. A pintura do Pollock são fios emaranhados. (Entenderam?)

Então, nada me impede de dizer que o Pollock é o pintor dos feltros. Nada me impede de dizer que ele pinta feltros e o Mondrian pinta tecidos. Nada me impede. (Certo?) Esses feltros são indicativo de singularidade. Por quê? Porque esses fios são caóticos, eles não têm forma, eles são caos puro, são caos puro.

Jackson Pollock

E é muito interessante, porque o feltro é a vestimenta e a casa dos nômades. As tendas nômades são feitas de feltro. O que eu estou dizendo para vocês é que existem – vou usar a palavra vestimenta – vestimentas sedentárias, produzidas a partir dos tecidos; e as vestimentas nômades, produzidas a partir desses emaranhados. Então, esse emaranhado é exatamente aquilo que o Pollock pinta. Eu vou chamar esse emaranhado de singularidade, de caos, de força. (Certo?) Caos, força e singularidade. Mas o Francis Bacon também visa a pintar as forças. (Não foi isso que eu disse?) Ele visa a pintar as forças. Mas à diferença do Pollock, o Bacon produz formas: ele produz formas.

Olha aqui: não é nitidamente uma forma? Não é inteiramente diferente do emaranhado do feltro? Completamente diferente! Só que as formas do Bacon não vão sofrer transformações – ainda que pareçam ser transformações. Elas vão sofrer deformações.

“Three Studies for a Crucifixion” (detalhe), de Francis Bacon (1962)

A deformação é um processo que o Bacon vai usar para atingir o campo transcendental. Então, o que eu estou dizendo para vocês, é o seguinte: que quando um pintor quer atingir esse campo transcendental, nós conhecemos na história das artes plásticas (mais do que isso, ouviu? Eu vou resumir, mas é mais do que isso)… Nós conhecemos dois processos: o processo da arte informal, que é o processo do Pollock, que eu estou usando como exemplo – que é liberar as forças, sem constituir nenhuma forma. É uma pintura centrada nas linhas... e não nas superfícies.

Enquanto que o Bacon, não: ele vai tentar deformar as figuras para, nessa deformação, atingir o campo transcendental, atingir as forças. Por exemplo, eu vou dar um exemplo mínimo para vocês: o Francis Bacon é capaz de pintar a câimbra, é capaz de pintar o espasmo. São exemplos mínimos! Isso também ocorre no Egon Schielle. A câimbra e o espasmo são duas forcas. Então, para tentar manifestar essas forças ele cria deformações nas imagens que ele produz. As deformações do Bacon têm como objetivo o campo transcendental.

Autorretrato, 1916. Egon Schiele

Aluno: O Bergman também é um cineasta das forças, não é? Essa coisa da câimbra e do espasmo… Eu estava assistindo o filme ontem e o tempo todo estava no primeiro plano também… o filme é todo em primeiro plano e… as sensações…

Claudio: É muito bonito você aproximar o Bergman do Bacon… E é exatamente isso, o Bergman. (Cadê o rosto? Pega o rosto!) Vocês viram o Bergman (não é?). O que o Bergman faz no filme dele é uma desformalização: ele desfaz o rosto da Liv Ulman e o rosto da Bibi Anderson, ao ponto de a Bibi fingir que é a Liv para o marido. Então, toda a prática do Bergman é… (vou usar uma linguagem francesa) é um effacement, é uma desrostificação. [Claudio mostra um rosto do Bacon] Igualzinho… O que o Bacon faz aqui… ele escova, ele varre o rosto para desfazer as formas. Ele varre o rosto para desfazer as formas. E o objetivo dele é quebrar o domínio das formas e mergulhar nas forças ou no campo transcendental.

(Que horas são, S.? Vou dar um intervalo para o café!)

(Vamos tentar agora elevar a compreensão do que eu disse… Eu estou começando, R.)

Leibniz…

Leibniz é um filósofo do século XVII. Quer dizer, ele está no fim do XVII, no centro da revolução científica.

Eu vou recolocar o que eu dei na primeira aula – e eu disse para vocês que o futuro altera o passado. Muitas coisas que eu disse na aula passada, dizendo agora, a compreensão aumenta.

Leibniz é a filosofia barroca – e o barroco são os escombros da filosofia teológica. Ou seja, o barroco é a tentativa de salvar a filosofia teológica. Então eu diria: crise da teologia… crise da razão teológica, vamos usar assim. Crise da razão teológica… Na crise da razão teológica o surgimento de uma razão barroca. (Não vou explicar ainda o que é a razão barroca, só isso).

Da mesma forma, nós estaríamos numa crise do humanismo, da razão humanista, e na emergência de uma razão neo-barroca. Deleuze é um neo-barroco. Da mesma forma que o Leibniz é um pensador barroco.

Eu vou usar o Leibniz, eu vou usar o Leibniz.

Leibniz afirma a distinção entre duas ideias: a ideia de possível e a ideia de real. Então, para o Leibniz, possível e real não são a mesma coisa; mas, segundo ele, tudo aquilo que for real, antes de ser real é possível. Então, para o Leibniz…, tudo que é real, antes de ser real é possível. Mas, segundo ele… (eu ainda não expliquei o que é o possível e nem expliquei o que é o real. Apenas disse que o real e o possível não são a mesma coisa e eles têm uma relação de antecedente e consequente. O possível é o antecedente – literalmente, em termos lógicos – o possível é o antecedente e o real é o consequente). Mas o Leibniz vai explicar que o possível é infinito. Ou melhor, segundo Leibniz, existem infinitos mundos possíveis.

Por exemplo: você pega o Judas (isso porque me perguntaram aqui sobre os condenados), você pega Judas e nesse mundo que está aqui, Judas pecou. (Certo?) Mas é possível a existência de um Judas não-pecador. Então, a ideia de um Judas não pecador impõe a presença de uma quantidade infinita de mundos. Ou seja, esse mundo que está aqui, que é o único mundo (agora vai ficar muito claro) que é o único mundo que se tornou real… esse mundo em que nós vivemos é o mundo que se tornou real, mas para o Leibniz havia e há uma quantidade infinita de mundos possíveis e somente um se tornou real.

Conclusão: o possível é muito mais amplo do que o real. Então, para ele, há – eu não estou usando a palavra existe – há uma quantidade infinita de mundos possíveis e apenas um se tornou real (Certo?). Então, quando Deus (vamos dizer assim, porque Leibniz trabalha com Deus) quando Deus delibera de criar um mundo, o que ele faz? Ele vai ao infinito dos mundos possíveis procurar aquele que é melhor. Então, ele tem um critério… Deus tem um critério do melhor, não interessa o que é agora, ele tem um critério do que é melhor. Aí, ele torna esse mundo que está aqui, ou melhor, o nosso mundo que, naquele instante, era um dos possíveis entre os infinitos outros mundos, e torna o nosso mundo real – e os outros mundos continuam apenas no campo do possível.

Ou melhor, no momento em que Deus torna esse nosso mundo – que era um mundo possível – quando ele o torna real… Ele torna real, porque o ‘nosso mundo’, é o melhor dos mundos… Ele só torna o nosso mundo – que é um mundo possível – um mundo real, porque o nosso mundo é o melhor dos mundos, os outros mundos que também eram possíveis, tornam-se impossíveis.

O que quer dizer isso? Quer dizer o seguinte: o Leibniz pode escolher entre uma infinidade de mundos para tornar um deles real. Ele escolhe um – o nosso – porque, segundo ele, o nosso é o melhor dos mundos. Então, sempre que Deus tiver que escolher um mundo para existir, qual o mundo que ele vai escolher? O nosso, o melhor. No momento em que ele só pode escolher um mundo, os outros se tornam impossíveis.

Eu só estou dando um exemplo desse processo, porque eu não vou nem prosseguir, mas só para espetar o vírus em vocês… Porque este problema do possível e do impossível vai ser trabalhado na frente, porque é a única maneira que nós temos para compreender as formas do pensamento com o campo transcendental.

Então, o que aconteceu?… Deus trabalha ou não com o infinito? No possível, Deus está diante do infinito? O infinito dos mundos possíveis. Então, quando Deus está diante dos infinitos mundos possíveis, Deus está mergulhado no caos – o caos dos infinitos mundos possíveis. Ele está mergulhado no caos. Então, ele vai retirar desse caos o melhor dos mundos e tornar, esse melhor dos mundos, real. Então, ele torna o nosso mundo real. Então, esse mundo que está aqui se tornou real. Mas cada mundo possível, ou este nosso mundo é, nele mesmo, infinito. Então, o nosso mundo, ele é infinito. Da mesma forma que antes nós tínhamos o infinito dos mundos possíveis, agora nós temos o nosso mundo que é infinito.

– O que quer dizer infinito? (Na maior simplicidade, para vocês entenderem…) Para o Leibniz, se você for dividindo a matéria num ponto cada vez menor, você vai dividir a matéria ao infinito, porque a matéria nunca acaba. Ou seja, ela vai se tornando infinitesimal, mas sempre existirá… Não vai nunca chegar o momento em que ao rasgar a matéria não haja duas metades. Vai haver sempre duas metades. E sempre que houver duas metades o outro todo também são duas metades. Então, para ele, a matéria é infinita. Se a matéria é infinita, nesse instante, lá no infinito da matéria, dois elementos se chocaram e fizeram ruído – e nós não ouvimos…

O que eu estou dizendo é que a nossa percepção é constituída para apreender do mundo um pequeno conjunto. A nossa percepção é constituída para apreender um pequeno conjunto do mundo. Então, se, por acaso, a nossa percepção se desarrumar, nós mergulhamos no infinito do mundo e passamos a ouvir o barulho daquela pequenina matéria que se chocou com a outra – e enlouquecemos. Mas [em que circunstâncias] nós enlouqueceremos? No momento em que se quebrarem os limites da nossa percepção! Os limites da nossa percepção são constituídos para impedir que nós caiamos na loucura total, no delírio total, no caos. Então, nós, os homens, somos dotados de uma força chamada percepção. E com essa força, chamada percepção, nós apreendemos uma determinada parte do mundo. Se essa força chamada percepção, que é uma força limitadora, se quebrar, nós mergulhamos no infinito do mundo – o que significa que todos nós estamos ameaçados pelo caos o tempo inteiro. O caos nos ameaça o tempo inteiro. (Entenderam?)

O caos nos ameaça o tempo inteiro. E essa ameaça do caos é muito fácil de ser compreendida, porque a qualquer instante da nossa vida, quando nós vamos centrar alguma coisa para pensar, alguma coisa para observar, esse elemento que nós centramos para observar ou para pensar, nós arrancamos do caos… nós arrancamos do caos. Porque nós somos constituídos por uma percepção clara – e essa percepção clara é uma pequena porção de realidade; mas essa percepção clara está pousada sobre um infinito de percepções sombrias e obscuras. Então, o nosso espírito, o fundo do nosso espírito é sombrio, escuro, penetrado do infinito deste mundo que está aqui. Então, nós carregamos dentro de nós o infinito da natureza. Cada um, cada ser vivo, carrega consigo o infinito de todo… (eu vou usar a palavra mundo, ouviu?) Cada um de nós carrega consigo o infinito deste mundo.

Por exemplo, nesse instante um pequeno raio cortou a superfície gasosa do planeta Júpiter – isso faz parte do meu fundo sombrio! Cada um de nós carrega consigo o seu fundo sombrio. O fundo sombrio é o infinito do mundo inteiro. E isso é uma maneira de pensar barroca. É uma maneira de pensar barroca! Por isso, as telas dos pintores barrocos (eu vou trazer na próxima aula o El Greco para vocês verem). As telas dos pintores barrocos… o fundo das telas é um fundo sombrio.

“O Assoprão”, El Greco (1575)

Aluno: Tem um Caravaggio aí…

Claudio: Me dá o Caravaggio.

É um fundo sombrio. É um momento… (Atenção! Porque isso é básico para as próximas aulas… para mim, ouviu?) Você pega o Renascimento, a pintura da Renascença e a pintura barroca… a diferença básica de uma e outra pintura é que [n]a pintura da Renascença o fundo é giz ou gesso branco, enquanto que o fundo barroco é o fundo sombrio.

Olha lá! Olha o fundo… olha o fundo sombrio: eles trabalham muito com marrom e vermelho. Então, desse fundo sombrio é que vão ser extraídos os clarões, a percepção clara. (Não sei que tela era essa… Nem vi direito. É um rosto que está ali?). Então, nessa tela, o que é claro é aquele rosto. Aquele fundo que está ali é o infinito do mundo inteiro. Esse infinito do mundo inteiro, cada ser vivo – e o nome do ser vivo é… mônada (m-ô-n-a-d-a, proparoxítona) – cada ser vivo carrega consigo o infinito do mundo inteiro. O infinito do mundo inteiro está dentro dele. Então, acontece uma das coisas… Somente uma razão barroca pode construir alguma coisa desse tipo… As mônadas são finitas, porque cada ser vivo é finito, mas carregam dentro de si o infinito do mundo inteiro. Por isso, é muito simples compreender isso… necessariamente, cada mônada tem como fundo o sombrio. Porque tem como fundo tudo que existe no mundo inteiro (está bem assim?).

“A incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio (1599)

Aluno: Eu não entendi… essa questão dos dois elementos que se chocam…

Claudio: Ah! O que eu quis dizer é o seguinte: por exemplo, você quer ver? Olha aqui: [Claudio bate numa superfície:] pá…pá..pá… Você ouviu, não ouviu? Agora, nesse instante, lá, no infinitesimal, há uma porção de objetos se chocando e tais objetos se chocando fazem parte do nosso fundo sombrio. Fazem parte do nosso fundo sombrio. (Não sei se está claro isso daqui…). Nós temos uma pequenina porção de claro… muito pequena… Eu não dei o exemplo do carrapato? Quais são os clarões do carrapato? Sangue quente, luz e… sangue quente, luz e suor. São os três clarões dele. Agora, nós estamos mergulhados num fundo sombrio onde tem infinitos elementos que nós poderíamos apreender e não apreendemos. Então, nós estamos ameaçados, o tempo inteiro, de cair no caos. Nós estamos o tempo todo ameaçados de mergulhar no caos. (Vocês entenderam aqui? Não? O fundo sombrio exatamente o que é?) O fundo sombrio é o infinito da natureza que está dentro de nós. Está dentro de uma pulga, está dentro de um cachorro… Está dentro de qualquer ser vivo. Qualquer mônada.

Aluno: Então, ao mesmo tempo em que ela equilibra, ela também reduz…

Claudio: Equilibra o quê?

Aluno: O… o ser humano. Essa percepção que ela delimita…

Claudio: Delimita… Nós delimitamos…

Aluno: Delimita, mas também reduz…

Claudio: Reduz como?

Aluno: Reduz, no sentido de não poder, não ter essa amplitude…

Claudio: Claro! Não pode ter… não pode ter! O Leibniz é muito definitivo: só uma mônada pode ter infinito – Deus. Para ele, então, cada ser vivo, cada mônada tem um clarão. Mas, prestem atenção, se vocês quiserem observar com presteza o que Leibniz está dizendo, na hora em que vocês produzem um pensamento ou uma imagem, seja o que for, vocês vão verificar claramente que aquele pensamento e aquela imagem estão subindo de um fundo sombrio.

(Vou mudar a linguagem)…

Nós vivemos mergulhados na confusão. Dessa confusão, a gente retira alguma coisa que se torna uma clareza para nós. Isso daqui que está acontecendo é porque o século XVII, com a orientação teológica do século XVII – e isso também aparece no século XX – é apaixonado pela claridade… pela claridade. E os barrocos vão inventar um novo tipo de luz, uma luz mortiça, uma luz completamente diferente. Vocês podem verificar isso no expressionismo alemão, sobretudo no cinema. Por exemplo, os filmes de Murnau – Nosferatu, O Gabinete do Doutor Calligari – as sombras e as luzes… O expressionismo alemão é produto do mundo barroco.

Cena de “Nosferatu” (1922), dir. F. W. Murnau

Então, o barroco está dizendo que não é a vitória do claro sobre o escuro. Não é nada disso: a vida não é isso! A vida é sempre alguma coisa… Requer muito esforço, é através de muito esforço que nós conseguimos tirar alguma coisa desse fundo sombrio, arrancar alguma coisa desse fundo sombrio. Mas a nossa vida é mergulhada nesse fundo sombrio. Então, aqui vai ficar muito claro: a morte é a perda do clarão – e nós mergulhamos no fundo sombrio. Então, aqui é uma das coisas mais bonitas da filosofia do Leibniz. Ele diz que nenhuma alma desaparece… nenhuma alma desaparece: elas mergulham no fundo sombrio! E, agora, ele diz outra coisa lindíssima: mas como a tendência das almas é ter clarões, elas voltam! A beleza... não religiosa; não religiosa… porque vocês vão ver aparecer pensamentos sobre a eternidade – em estética ou em arte muito mais poderosos do que os pensamentos da eternidade feitos pela teologia. Isso porque a teologia – aí quem diz isso não é o Leibniz, quem diz isso é o Proust – jamais poderá mergulhar na eternidade. A teologia não nos dá a eternidade. O que ela nos dá, é uma imagem deficiente da eternidade.

O que eu estou dizendo, então, é que os objetivos da filosofia barroca, o objetivo do Leibniz é mostrar que uma alma são os seus clarões. Os seus clarões ou os seus relevantes, os seus notáveis… Clarão, relevante, notável – são as partes claras que nós temos na nossa vida. Então, essas ‘partes claras’ emergem do ‘fundo sombrio’. Se nós perdêssemos essas partes claras, nós cairíamos no fundo sombrio – e isso é o caos. O caos não é propriamente desordem – o caos é a presença de forças que se cruzam. Façam uma experimentação na sua própria subjetividade, que vocês vão ver que a cada instante da nossa vida, determinadas inclinações se confrontam dentro de nós, querendo se tornar claras. Determinadas tendências… É isso que se chama inquietude. Nós somos seres… todo ser vivo é inquieto; e a inquietude é porque a todo instante das nossas vidas determinadas forças querem subir e se tornar clarões. Se nós não tivéssemos a inquietude nós seríamos como uma televisão com defeito, ficaríamos congelados numa só percepção. O que nos impede de ficar congelados numa só percepção é a existência, em nós, da inquietude. Essa inquietude é que nos tira de uma percepção – e nos conduz para outra. A perda da inquietude – é a morte. Perde-se a inquietude – perde-se a percepção e mergulha-se no fundo sombrio.

Então, a morte, para o Leibniz, é a mesma coisa que um aturdimento – é como se a gente tivesse mergulhado num mar de ondas violentas, produzindo trovoadas enormes e nós não fossemos capazes de discernir ou distinguir nada. Nós cairíamos no que estou chamando de aturdimento… como um homem diante do mar… e o mar…

Aluno: É o caos, não é?

Claudio: É o caos. Isso é o caos. Então, o caos é o confronto de forças, forças que estão percorrendo aquele… aquele fundo sombrio.

Aluno: A singularidade está no fundo sombrio?

Claudio: Está no fundo sombrio. Está lá… está lá, no fundo sombrio. Porque o que a gente tem que compreender é que… (aqui vai ser uma coisa muito forte, a sua pergunta foi linda, eu vou forçar por aqui). O Leibniz diz que não existe o mundo fora da gente. O mundo está dentro da gente. Cada um de nós carrega o infinito do mundo inteiro. Cada um de nós carrega o infinito do mundo inteiro. Então, o mundo que nos aparece não é nada mais que uma pequena alucinação – cada um de nós tem uma alucinação. Nós temos uma alucinação… e aparece o meu mundo, aparece o mundo dela, aparece o mundo dele… Nós estamos mergulhados em alucinações! Por isso – aí eu estou te dando essa resposta por causa disso – a diferença do homem comum para o artista é que o homem comum não pode jamais se comunicar com outro homem. Não há como um homem se comunicar com outro. Porque nós estamos fechados na nossa mônada. Não há como nós entrarmos em comunicação com ninguém. Nós vivemos numa suposta ilusão comunicativa nos processos do amor e da amizade. São dois processos ilusórios! Nós só podemos entrar em comunicação pela arte. Que é o momento em que você bota para fora, você revela alguma coisa, você traz para fora alguma coisa em que todos podem conviver. O que estou dizendo é que cada mônada carrega consigo o mundo inteiro. Isso se chama solipsismo: cada mônada carrega consigo o infinito do mundo inteiro. Então, quando eu expresso o meu mundo, a expressão do meu mundo é a minha subjetividade. Ninguém conhece essa subjetividade, ninguém conhece! Nós vivemos mergulhados na mais completa confusão, no mais completo atordoamento – os homens, ou os seres vivos são quase que totalmente atordoados: eles vivem naquele clima de atordoamento! O esforço da arte e da filosofia é vencer o atordoamento.

Aluno: O canto do pássaro estaria no caos?

Claudio: O canto do pássaro – o canto gratuito?

Aluno: É, o canto gratuito, o cristalino.

Claudio: O canto gratuito?… O canto gratuito não é um canto orgânico. O canto gratuito é o seguinte: o pássaro se encontra com o crepúsculo. O crepúsculo são as forças da natureza. No pássaro, são outras forças. No ser vivo, essas forças chamam-se sensações. Quando as sensações do pássaro se encontram com as forças da natureza – nasce o ritmo. Então, o que o pássaro faz ao cantar, é a produção de ritmo – ele inventa ritmo. Ou seja: os ritmos vêm do caos. Os ritmos vêm do caos e organizam o caos: os ritmos são como que clarões para aquele pássaro!

Aluno: [trecho inaudível] é uma abertura da mônada para o infinito?…

Claudio: Ela tenta se abrir para o infinito, ela tenta se abrir para o infinito. Tenta ir além dos seus limites – a arte e a filosofia… seriam a quebra dos limites. Como eu chamei o pensamento do Deleuze de neo-barroco e falei numa crise da razão humanista… Porque a razão humanista é aquela que quer nos deter nos nossos clarões; e a razão barroca é aquela que quer ir além dos nossos clarões: mergulhar no infinito. Por isso que o mundo barroco – por exemplo Jorge Luiz Borges – é um mundo cheio espelhos, cheio de labirintos, cheio de corredores... porque é um mundo que não tem limites. É um mergulho no que se chama labirinto, um labirinto sem linhas para você poder se conduzir ali dentro.

Hoje, a razão barroca tem que dar conta disso daqui, inclusive em termos de lógica – e aí se inventou a lógica combinatória. A lógica combinatória é exatamente para dar conta, em termos de lógica, desse infinito que está aí.

(Bom…)

O melhor dos mundos possíveis…

Leibniz diz que, dentre o infinito de mundos possíveis, Deus escolheu um – que para ele é o melhor…

(Atenção, que eu agora vou passar a falar sobre isso. Agora vai passar uma aula muito rigorosa em termos de filosofia…)

Leibniz colocou como mundo existente… o melhor dos mundos possíveis e esse melhor dos mundos possíveis é o melhor na imanência do mundo. É o enunciado mais poderoso que eu deixo aqui nessa aula, viu? O melhor é melhor na imanência do mundo! O que eu estou dizendo aqui? Eu estou dizendo que o próprio ser do mundo que é melhor. Não é porque existe alguma coisa superior que esse mundo copiaria, que ele é melhor. Ele é melhor nele mesmo. (Vou explicar para vocês.)

A filosofia, ao nascer, nasce sob o regime de dois mundos – é o modelo platônico. Ela nasce sob o regime de dois mundos: o mundo superior, que este mundo – que é o nosso – deve copiar. Então, o mundo, o nosso mundo, quando nasce, é considerado um mundo cópia. No platonismo, existe o mundo superior que o nosso mundo copia.

(Eu, agora, vou explicar isso na prática:)

Um pensador grego, chamado Sócrates – ele nunca escreveu um livro, ele passava a vida dele em conversas com as pessoas, na Grécia; ele discutia com as pessoas… ou melhor, o objetivo dele era acabar com as discussões – e acabar com as discussões constituindo algum componente que era indiscutível. Então, há no Sócrates um calor filosófico o filósofo é aquele que não discute; então, ele visava a acabar com as discussões. O filósofo não discute, a discussão é um processo opinativo e que não tem nada a ver com a filosofia. Então, o Sócrates, naquele momento, fez determinadas práticas que a cidade dele considerou como práticas criminosas. E o Sócrates, por causa disso, foi julgado; e, ao ser julgado, é condenado à morte – e essa condenação é para beber cicuta. Mas, ao ser condenado à morte, está havendo uma festa em Delfos e Atenas manda um navio para Delfos, para participar da festa. E enquanto o navio não voltar para o porto de Atenas, os condenados à morte não podem morrer. Eles não morrem (tá?).

Então, Sócrates está em Atenas, condenado à morte… Por quem? Quem condenou Sócrates à morte? Quem condenou Sócrates à morte foram as leis de Atenas. Então, Atenas é uma cidade grega, chamada cidade-estado e ela tem suas próprias leis, assim como as outras cidades da Grécia – cada uma delas possui as suas leis próprias.

Sócrates foi condenado pelas leis de Atenas, mas os amigos de Sócrates achavam que aquele julgamento que fizeram com ele tinha sido um julgamento injusto; e, por isso, aconselhvam-no a fugir: “Sócrates, foge; vai embora Sócrates. Você vai para Mégara, vai para Tebas, vai para Esparta… onde a lei é outra, aí você estará livre”. Mas Sócrates não fugiu, esperou o navio chegar… bebeu a cicuta e morreu. Então, a pergunta é: por que o Sócrates morreu? Por que ele bebeu a cicuta?

(Então vamos examinar… para vocês entenderem o que é Leibniz).

O Sócrates bebeu cicuta porque a cidade grega ou qualquer cidade grega é governada pelas leis da cidade. Então, a lei na Grécia é uma lei relativa: cada cidade tem a sua própria lei. (Nada do que eu digo é perdido, viu? Quando eu digo a lei é relativa eu tenho um objetivo.)

Então, as leis gregas são relativas, cada cidade tem a sua própria lei. Mas existe naquele momento da Grécia, o que se chama o modelo platônico da lei. E Platão coloca que existe uma entidade que ele chama de o Bem e esta entidade chamada o Bem seria a entidade que deveria governar os homens. Então, os homens não necessitariam de leis, eles deveriam entrar em contato com o Bem e se submeter a tudo aquilo que o Bem determinar que eles façam. Mas acontece que o bem está muito distante, o bem está muito indeterminado; e os homens discutem… é a discussão que nós fazemos – o que é o Bem, o que é o Mal. Nós discutimos assim: matar um homem que está condenado à morte, vamos dizer, pelo câncer, não tem mais salvação… ou matar um homem que teve morte cerebral – é bom ou mau?

E nós ficamos sem responder, não sabemos dizer exatamente. Um diz é bom outro diz é mau – não sabemos o que dizer!…

Então, o que a gente faz? Se submete à lei, aceita a lei, aceita a lei: nós não cometemos eutanásia, porque aceitamos a lei. Então, o que acontece? Por que nós não conseguimos compreender exatamente o que é o Bem, nós botamos no lugar do Bem a lei. Então, para os gregos a lei é a representante do Bem: a lei representa o Bem. Qual é o motivo de a lei representar o Bem? A lei representa o Bem porque, através do nosso pensamento, nós não conseguimos atingir o Bem. Então nós colocamos a lei no lugar do Bem e a partir da colocação da lei em lugar do Bem, aparece outra figura – a outra figura chama-se o melhor.

O melhor para aquele homem que não conhece o Bem diretamente, o melhor para ele é – obedecer à lei. O homem deve obedecer à lei porque a lei é a representante do Bem. Então, constitui-se esse modelo na Grécia: existe o Bem, o Bem não é conhecido pelos homens: no lugar do Bem entra a lei e os homens para se tornarem o que os gregos chamam de agatós (virtuosos), eles passam a obedecer à lei. O que é o melhor para o homem nesse modelo? O melhor é obedecer à lei.

Essa estrutura que está aí foi integralmente retomada pelo cristianismo. O cristianismo bota Deus no lugar do Bem – mas é a mesma coisa, a mesma coisa. Então, o Bem, a Lei e o melhor.

– O que é o melhor? Obedecer à lei. (Todo mundo entendeu?) O melhor é obedecer à lei.

Então, a partir disso, nós temos Leibniz. O que é que o Leibniz vai criar? O melhor dos mundos possíveis. Então, quando a gente ouve o Leibniz criar o melhor dos mundos possíveis, no universo cristão, o que teria que ser o melhor dos mundos possíveis? O mundo que obedecesse… à lei, por causa do… Bem. Mas acontece que a razão barroca são os escombros da razão teológica. Então, o melhor para o Leibniz não é aquilo que obedece à lei, o melhor é aquilo que pode criar e inventar. O nosso mundo é o melhor, porque nele pode haver criação.

Então, é uma das coisas mais lindas que se pode compreender no espírito humano. Foi necessário a quebra e os escombros da razão teológica para a alteração da compreensão do melhor. Porque se você fosse falar com o Sócrates, com os homens que se originam do pensamento teológico ou da filosofia grega, o melhor para eles era definitivamente… (o quê?) obedecer à lei.

Para o Leibniz, não. O melhor não é jamais obedecer à lei; o melhor é criar e inventar. Logo, os homens progridem… Os homens progridem, porque eles estão no reino do melhor. Eles podem progredir os seus modos éticos, as suas tecnologias… e aqui é que aparece a questão que ela [uma aluna] fez para mim: a questão lindíssima do Leibniz. Nós estamos no… melhor dos mundos possíveis; e esse melhor dos mundos possíveis foi criado por Deus. Deus criou o melhor dos mundos possíveis. Então, Deus para o Leibniz não reproduz o Deus teológico; já é um Deus barroco – que criou o melhor, sem Lei e sem Bem. O melhor dos mundos do Leibniz, não precisa de outro mundo! E a constituição do nosso mundo, que é o melhor dos mundos, que é o mundo em que se pode criar e que se pode inventar... logo, o homem já é, por natureza, uma tendência para o infinito, no sentido de que ele não precisa ficar limitado a nada – a tendência dele é criar e inventar e não se submeter a uma lei, não se submeter a um Bem superior: não existe nada superior… Isso que eu chamei de o melhor dos mundos possíveis se explica pela imanência, ele não precisa da transcendência do Bem, nem da transcendência do melhor. Ele se explica pela sua própria imanência. E isso é que se chama plano de imanência.

Plano de imanência. Plano de imanência é alguma coisa que para se explicar não precisa de outra. Ela própria se explica.

Vamos ver outra vez o modelo platônico. Quando é que se é melhor no mundo platônico? Quando se obedece à lei! E a lei é o quê? Representante do Bem. Então, o melhor é explicado pela transcendência do Bem. A transcendência do Bem é que explica o melhor e no Leibniz, não. No Leibniz o melhor se explica nele mesmo – esse mundo é o melhor porque nele há criação.

Aluno: [trecho inaudível]

Claudio: Exato. Isso é o modelo platônico. Não quer dizer que todo grego se dá assim, (Entendeu?). É o seguinte, a sua colocação… A polis (palavra grega – Petró-polis) cidade. A cidade grega é uma cidade que sai da cidade oriental e se constitui lá naquele Mediterrâneo (não é?). E na cidade grega, ao nascer, nasce uma coisa que não existia na cidade oriental, que se chama a palavra diálogo. A palavra diálogo… (eu acho que eu já falei para vocês) emerge na cidade grega, onde cada cidadão tem a plena potência de falar o que bem entender; ele pode falar o que ele quiser… O único problema é que se ele falar... o interlocutor pode refutar. Então, se ele falar uma besteira, os interlocutores vão rir. Assim, na hora em que o grego fala, ele se prepara.

Mas o mais importante é que as leis da cidade grega, essas leis que condenaram Sócrates, são formadas pelos cidadãos gregos. Eles é que constituem as leis. Eles próprios constituem as leis. E as leis deles, as leis dos gregos, são constituídas pelas faculdades que eles consideram superior, que é a razão. Então, esse momento é um momento muito forte do pensamento, porque nasceu…

[Fim de fita]

Anúncios

Aula de 19/01/1996 – A força imaterial da vida

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar-Explicar); 3 (A Zeroidade); 4 (Diferença, Alteridade, Mutiplicidade); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal) e 13 (Arte e Forças) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.

 


[Os trechos entre aspas correspondem à leitura de um texto escrito por Claudio Ulpiano especialmente para este curso]

Primeira Parte

[…] uma linha do Artaud, uma linha do próprio Deleuze e de outros pensadores, em que eles não apenas dirão que a vida não se equivale ao organismo; dirão uma coisa a mais: que o organismo aprisiona a vida. Esse enunciado – que o organismo aprisiona a vida – é importantíssimo, porque a vida não é orgânica. Por enquanto [trecho inaudível da fita], nós tiramos a equivalência; eu tiro a equivalência da vida com a força plástica… porque, na aula passada, eu fingi que vida e força plástica eram a mesma coisa – mas não são!

– Quantas forças estão aparecendo aqui? Duas – a força elástica e a força plástica. Mas também alguma coisa imaterial – uma força imaterial, que eu chamei – vagamente – de alma; e essa alma seria aquilo que não se equivale ao organismo. O melhor que vocês podem fazer agora é abrir as duas trilhas e não identificar; não equivaler a vida ao organismo.

(Vamos lá, hein?)

“Se for dito: uma potente vida não orgânica, então a vida não é equivalente à força plástica, embora o organismo seja equivalente à força plástica – organismo e força plástica é a mesma coisa.”

Então, eu vou voltar… parece que nem todos apreenderam com perfeição o que estou dizendo. O que eu estou colocando é que a matéria é absolutamente neutra. A matéria não tem nenhuma qualidade – ela é neutra; mas ela nunca aparece como neutra – porque ela é perpassada por duas forças: uma força elástica – que constitui as relações físico-químicas da matéria; e uma força plástica – que constitui a matéria orgânica… Em seguida, eu digo que a vida não se identifica ao organismo – não querendo dizer com isso que a vida não passe também pelo organismo.

“Enfim, vida e organismo não são a mesma coisa.”

Esse enunciado é básico para a nossa trilha: a vida e o organismo não são a mesma coisa! Eu vou passar a fazer uma oposição entre orgânico e cristalino. Eu vou usar um sinônimo: cristalino seria a vida não-orgânica.

“O gótico, aquele que através da rosácea (as rosáceas das catedrais) colhe a luz do sol, e filtra a luz do sol nos vitrais como a luz de Deus.”

Então, como se a luz de fora fosse a luz do sol, e a de dentro da catedral fosse a luz de Deus. Essa luz é cristalina: já é um processo que o gótico usou para alterar a luz – ele altera a luz… através dos vitrais.

Agora vai aparecer o enunciado principal:

“O homem gótico possui uma vontade espiritual que o coloca fora do organismo”.

Ou seja: o que está sendo dito é que há um homem orgânico, cujo destino é [integralmente] o próprio organismo – é o homem da falta, o homem da representação, um homem que não consegue suportar suas próprias inquietações. E um homem que eu estou dizendo ter uma vontade espiritual – e essa vontade espiritual faz dele um homem diferente do homem orgânico.

Então, a tese básica é de que o homem orgânico é o responsável pela arte clássica – e o modelo que eu vou utilizar da arte clássica é a estatuária grega. A estatuária grega como o modelo da arte clássica; e o gótico e o barroco como aqueles que têm uma vontade espiritual; e tendo uma ‘vontade espiritual’, eles quebram – em si próprios – o domínio do organismo.

“A espiritualidade gótica (agora vem um enunciado poderosíssimo!) desfaz o princípio de individuação do organismo.”

– O que é isso? A vida – quando aparece neste planeta – aparece como orgânica; e, aparecendo como orgânica, vai produzir em cada vivo, vai tornar cada vivo um indivíduo: cada vivo é um indivíduo. Por exemplo, você encontra quinhentas mil moscas – cada uma é um indivíduo; ou seja, a individuação é um principio que está atrelado à força plástica.

(Vamos voltar?)

O princípio de individuação está atrelado à força plástica. Logo, quando nós estávamos na força elástica, não havia princípio de individuação.

(Vamos voltar aqui?)

(Levantem o dedo a partir do instante em que vocês não compreenderem integralmente!)

Eu estou dizendo que a vida orgânica introduz um princípio de individuação: todo vivo é um individuo! Logo, a individuação aparece com a força plástica; mas – com a força elástica não existe individuação. Então, o enunciado é:

“A espiritualidade gótica desfaz o princípio de individuação do organismo”

– como no filme Persona, de Ingmar Bergman, em que o rosto perde os seus contornos:

Quem viu esse filme? É com a Liv Ulman e a Bibi Andersson [respectivamente, nos papéis de Elisabeth Vogler, e da enfermeira Alma]. O que acontece com elas [ali], é que o Bergman, em todo o processo do filme, vai retirando a individualidade das duas. Ele faz um processo de des-individuação. E esse processo de desindividuação é a mesma coisa que retirar delas o domínio do orgânico (viu?). Ou seja, o orgânico implica um principio de individuação.

Essa noção de principio de individuação é um conceito grego, é aristotélico, mas é retomado e perfeitamente formulado pelo medieval. Essa noção de princípio de individuação está associada à força plástica e ao organismo. Então, quando você pega um artista gótico ou neo-gótico; ou um artista barroco ou neo-barroco, a questão deles é fazer um processo de desindividuação… (Vocês já vão entender isso!)

(Eu os aconselho a assistirem ao filme [em cartaz na ocasião]: é uma experimentação, que eu ainda não posso mostrar perfeitamente; vamos esperar mais um pouco. Assistir a esse filme fortalece o entendimento da aula, porque vocês vão saber exatamente o que vai se processar ali; e eu posso trabalhar com o cinema, em termos de exemplo para vocês).

Eu estou dizendo, então, que o Bergman é um neo-gótico – no sentido de que ele rompe com o princípio de individuação. E ele faz esse processo através do rosto da Liv Ullman e da Bibi Andersson – duas atrizes com que ele trabalha.

“Mundo gótico, que dota as coisas de uma vida não orgânica.”

Eu agora vou citar, vou entrar com o cinema, da mesma forma que eu fiz com a música, na aula passada, e vou fazer ainda mais com o cinema. Eu vou citar um diretor de cinema chamado Joris Ivens, que fez muitos curtas inteiramente góticos – no sentido de que todo o objetivo dele era produzir uma desindividuação. Há um filme dele que se chama A Chuva (eu já passei para alguns alunos aqui). Nesse filme,

“a chuva goteja silenciosamente e hesita, em seus encontros com a vidraça, formam-se variações visuais, vertigem de águas, afetos e clarões intensivos”.

Cheguei ao ponto que eu queria: Afetos – Espinosa; Clarões – Leibniz.

O que acontece com a arte gótica e com a arte barroca, ou o que acontece com esses artistas que eu estou chamando de neo-góticos, é que eles vão produzir clarões intensos, clarões intensivos – que eu vou passar a explicar o que é. Ou seja, o artista gótico visa romper com o domínio das formas orgânicas, e como essa exposição que estou fazendo para vocês é inteiramente original, inteiramente nova, – como eu disse na primeira aula – , então, não haveria como alguém dizer que não sabia o que eu estava dizendo e que depois iria adquirir um saber inteiramente novo; não se trata disso! Eu não estou dando para vocês a explicação de alguma coisa que já existe. Essa aula é uma criação: eu estou criando alguma coisa de novo – a ideia de neo-gótico ou essa ideia de neo-barroco. Essa ideia é a produção, e por isso estou explicando continuamente para vocês o que vem a ser clarões ou relevantes em Leibniz, para vocês compreenderem o que vem a ser clarões intensivos, clarões histéricos, clarões góticos, ou seja, o mundo da arte é desvinculado do mundo orgânico da utilidade e dos interesses. Isso vai chegar a tal extremo da liberação do organismo que vai passar até nas práticas sexuais. Tentar produzir uma sexualidade não orgânica até nas práticas sexuais.

Aluna: Sexo histérico, poderia chamar assim?

Claudio: Sexo histérico, sexo histérico! Esses exemplos vão fortalecer a compreensão do que eu quero colocar, ou seja, sobretudo mostrar que nós caímos numa ilusão muito grande de que nós somos enclausurados no organismo: é falso! Nós sermos enclausurados no organismo é inteiramente falso; quer dizer: pode passar outra linha de vida, muito mais potente, sem os valores orgânicos.

Esta postura das duas linhas – a orgânica e a cristalina – levou os filósofos da Idade Média, todos eles santos, a misturarem Filosofia e Teologia. Mas os filósofos da Idade Média acusavam os filósofos gregos de pecadores – por serem pagãos; e, por serem pagãos – de não conhecerem a redenção; e, por não conhecerem a redenção – de não serem bem-aventurados. E há uma diferença, diziam esses filósofos medievais, entre o entendimento do bem-aventurado e o entendimento do pecador. O entendimento do bem-aventurado seria cristalino, o do pecador seria orgânico. Esse trabalho é feito de forma admirável pelos filósofos da Idade Média! Eu ainda não vou explicar para vocês a diferença disso aqui; estou apenas assinalando que essa diferenciação passa em todas as linhas de pensamento. De um lado, essa colocação do orgânico que os medievais chamam de pecadores…

– Por que os gregos são pecadores?

Porque eles não conheceram a redenção!

E do outro, os cristãos – que conheceram a redenção, tornaram-se bem-aventurados e, por isso, são capazes de produzir um entendimento que o pagão jamais poderia produzir. Dentre eles, ver Deus cara a cara.

O único dos professores que francamente eu tive na minha vida (Não vou nem citar o nome dele hoje, tá?), quando estava perto de morrer, me disse assim: “Eu vou ver Deus cara a cara”. Ele era um bem-aventurado (não é?), embora fosse muito pecador… [risos].

Então, é como se esse homem gótico, esse homem cristalino, esse homem bem-aventurado… homem e bem-aventurado formam um choque, uma contradição porque o homem é por natureza pecador (certo?). Mas, por enquanto, eu vou usar assim…

Esse “homem” bem-aventurado é constituído por forças invisíveis –

“Como se o artista formasse um corpo glorioso, intensivo, para erguer no céu ou no inferno do homem figuras de sensação”.

…ou seja, o artista é mais ou menos a maçã do Cézanne.

Natureza Morta com Maças e Laranjas – Paul Cézanne

Vejam bem, tudo o que eu estou citando – a maçã do Cézanne, os pecadores, os bem-aventurados – é absolutamente necessário. Esses enunciados, que estou trazendo, mesmo sem poder ainda expô-los com perfeição – porque essa segunda aula é a aula crítica, em que nós estamos fazendo a passagem para o infinito… Quer dizer, nesta aula, eu estou desencadeando todo um processo através do qual, na próxima, nós iremos penetrar no infinito.

Então, para penetrar no infinito, é preciso que não seja orgânico, é preciso que seja cristalino, é preciso que seja bem-aventurado, porque as experimentações do infinito não podem ser feitas pela razão clássica – a razão clássica tolhe a passagem do infinito!

Agora, nesta aula, eu vou marcar para vocês o fundamento de tudo que eu falo – é Deleuze. Deleuze é filósofo, é ele que percorre o infinito – como responsável pela beleza desse infinito! Então, toda a minha aula é centrada no Deleuze; e a busca da criação de conceitos.

Agora, eu paro aqui, e a aula volta ao normal! O que eu fiz – nesse esforço tremendo – foi, em menos de “15 minutos”, deixar passar para vocês a ideia de que o organismo não equivale à vida, de que o organismo não esgota a vida, ou seja, de que a força plástica não é igual à totalidade da vida. (Certo?)

Na aula passada eu coloquei: força elástica, força plástica, ou melhor, coloquei inorgânico e anorgânico. E o anorgânico, eu disse que seria a força imaterial da alma, que é a mesma coisa, que eu estou colocando, como a vontade espiritual dos góticos. A partir de agora, eu vou começar a fazer um pouco diferente. Mas o fundamento de tudo são essas duas linhas – o cristalino e o orgânico.

Será que eu posso dizer para vocês que ainda que o cristalino e o orgânico sejam duas linhas – que isso não constitui uma dualidade? Vejam bem: de um lado, o cristalino; e do outro, o orgânico – mas não formam uma dualidade, porque o conceito de dualidade, o conceito de contradição, o conceito de oposição pertencem ao mundo orgânico, ou seja: quando nós estamos mergulhados no mundo orgânico, uma série de conceitos – oposição, contradição – desencadeia-se desse mundo. Então, quando você usa esses conceitos, eles pertencem a esse mundo orgânico. Quando eu falo cristalino e orgânico, entre os dois não há uma oposição – porque a oposição pertence ao orgânico.

A base da aula (foram menos de “15 minutos” para explicar) é a distância que existe entre uma vida cristalina e uma vida orgânica.

Eu vou tentar dar exemplos, utilizando-os com o máximo de suavidade; mas não posso sustentar esses exemplos sem explicação – porque a maioria não os conhece. Por isso vou trabalhar com muita suavidade, para que vocês possam fazer – junto comigo – essa “passagem para o infinito”, que nós iremos fazer na terceira aula!

Eu agora vou citar um cineasta japonês chamado Ozu – um cineasta das décadas de 1930, 40. Pode-se dizer que o Ozu está para o cinema japonês assim como o Orson Welles está para o cinema americano; ou melhor, o que se diz do Orson Welles para o cinema enquanto tal, pode-se dizer a mesma coisa para o Ozu: esse japonês é um dos pontos mais altos do cinema. O Ozu faz do cinema dele…

Agora todos nós juntos – lentamente – sem nenhuma precipitação, para que vocês possam verificar o experimento que Ozu faz com o cinema:

O cinema – vocês sabem – é uma tela e uma imagem em movimento. Se vocês compararem o cinema a uma pintura, a pintura é a imagem parada; o cinema, a imagem em movimento. E a experiência que o Ozu faz no cinema busca tornar sensíveis duas coisas: o tempo e o pensamento.

Cena de “Era uma vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu.

– O que é tornar sensível? É fazer com que as coisas apareçam para sua experiência.

Por exemplo, quando você vai ao cinema ver esses filmes horrorosos que se costuma ver por aí, o que esses filmes tentam fazer é despertar em nós sentimentos abomináveis – tristezas insuportáveis, angustias intoleráveis. São esses “sentimentos” que o cinema comum procura despertar em nós!

O que o Ozu quer – com o cinema – é mostrar a farsa do tempo e a farsa do pensamento; ele quer tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação.

Vejam bem: quando eu digo tornar o tempo e o pensamento presentes para a nossa observação, muita gente pode pensar “mas para que tornar o tempo presente para observação… se eu tenho o relógio para olhar?” Não! O relógio não é expressão do tempo! Estamos fazendo referência à expressão pura do tempo – porque essa passagem que vamos fazer para o infinito, vamos fazê-la nas asas do tempo. Então, o que o Ozu tenta fazer com o cinema dele é absolutamente original – mostrar o tempo e mostrar o pensamento como eles são. Então, o cinema de Ozu, não é um cinema que está atrás de assassinatos, atrás de incestos…, toda a questão dele é desencadear – através da tecnologia possível do cinema – a presença do tempo e a presença do pensamento. Isso se chama experiência cristalina. Isso é uma experiência cristalina. Porque o homem orgânico – usando aqui um pleonasmo, uma tautologia, já que o homem é necessariamente orgânico – não faz essas experiências; pois ele sequer pode atingir o tempo puro, preso, que está, a uma série de componentes que o impedem de atingir aquilo que a vida cristalina pode atingir. O que estou dizendo, é que o Ozu pode ser classificado como um pensador neo-gótico.

Há um livro em português, chama-se “Ozu” (não me lembro a editora) com textos magníficos sobre ele. O Ozu, pelo o que estou dizendo para vocês, é um pensador do tempo – e os grandes pensadores do tempo não foram muitos: Santo Agostinho [século V] , no século XX, Heidegger, Bergson, Maurice Blanchot, Deleuze e alguns cineastas, alguns literatos… Então, o Ozu se inscreve entre esses grandes pensadores que colocam o tempo como objeto de demonstração, como seu objeto de mostra, ou seja: ele quer fazer com que o tempo seja um clarão.

Vejam agora: muitas das coisas que se passam nas nossas vidas, passam-se na mais completa obscuridade – nós não temos contato com muitas das coisas que se passam na nossa vida em termos de percepção clara; inclusive os mais importantes afetos de nossas vidas, como o amor, como a tristeza, como a alegria, aparecem para nós confusamente! Então, o artista cristalino é aquele que quer – numa linguagem espinosista – tornar esses “afetos” percepções absolutamente claras. É como se você entrasse num filme do Ozu ou entrasse num texto, por exemplo, do David Herbert Lawrence – The Fox – e lá você tivesse claramente, para sua observação, as forças e as formas do tempo puro. É como se você ganhasse, na vida, uma postura impensável para o homem comum, ou seja: a quebra das suas amarras orgânicas para alcançar as experiências sublimes, atingindo níveis que quebram o domínio da representação orgânica.

(Eita!, aula difícil! Sabe por quê? Porque nesta aula eu não posso senão transitar nas coisas – eu não posso mergulhar nelas – sob pena de nós nos perdermos…)

O que estou dizendo – agora numa linguagem quase que política, quase que jornalística, não que vocês precisem de uma linguagem desse tipo para compreender, mas em determinados momentos aquilo um conforto para nós! O homem entrou no século XX com a soberba de que ele teria todas as suas questões resolvidas. Ele entrou com a soberba do inconsciente freudiano e da revolução marxista (não é?). Os sinos bateram no inicio do século… e os homens acharam, então, que concluiriam o século com todas as suas questões resolvidas! Foi exatamente o contrário: foi o século dos fracassos, das decepções. Então é exatamente isso que estou apontando – é a vida! Qual é a saída da vida? Todas as saídas da vida pela representação orgânica fracassaram e fracassarão, quer dizer, a vida só tem uma saída: encontrar-se com ela própria encontrar-se com sua postura cristalina. É isso que eu estou dizendo!

A arte é contingente. Esse enunciado – a arte é contingente – está associado com o que eu disse na aula passada  – que cada um de nós tem que administrar sua própria vida – no sentido de que uma obra de arte – se ela não for produzida… ela simplesmente não foi produzida! Se o artista não a produzir, ninguém a produzirá! Se o artista recebe os meios para produzir, quer dizer, para produzir alguma coisa nova para a humanidade e não a produz – ninguém a produzirá! A arte é contingente: ela não tem que aparecer; ela aparece – se for produzida! Então, todos aqueles que têm uma potência, uma possibilidade ou um sonho, uma inquietação, uma inclinação para mergulhar nos mares do cristalino… que o faça!

– Mas o que são os clarões? São percepções claras (agora vou passar um conceito de compreensão). Quando nós temos uma percepção clara… por exemplo: vocês estão ouvindo a aula que estou dando e a aula que vocês estão ouvindo, até certo ponto, vocês estão entendendo: isso se chama percepção clara ou apercepção. Apercepção quer dizer uma percepção com consciência. Por exemplo, eu chego diante do mar e ouço o rumor do mar – aquele rumor das ondas do mar! Esse rumor das ondas do mar me aparece como aperceptivo: eu tenho percepção clara daquilo. Mas as gotas que se reúnem para formar aquela imensa trovoada e eu não tenho percepção delas – chamam-se micro-percepções inconscientes.

Então, a nossa vida se dá por esses dois processos: as micro-percepções inconscientes, que nós temos; e as apercepções. As apercepções são percepções claras. Para ficar até mais compreensível do que isso: cada homem tem a capacidade (Eu vou limitar, hein? Eu vou limitar, porque é na aula que vem que eu vou entrar no infinito!), cada um de nós aqui nesta sala tem a capacidade de perceber inclusive movimentos moleculares. Mas esses movimentos moleculares, que nós estamos percebendo, não chegam a se tornar apercepções – eles ficam como pequenas percepções inconscientes que não chegam ao limiar da consciência. Então, a nossa vida se constitui pelas apercepções e pelas infinitas micro-percepções.

Aluna: As apercepções se dão através do pensamento?

Claudio: Não. A apercepção você pode ter por um afeto ou por um clarão; por exemplo, você está aí sentada e, de repente, sem que você perceba, movimentos de falta de gordura no seu corpo, movimentos nas suas células – porque está havendo falta de gordura no seu corpo; movimento nas suas células – porque está havendo falta de sal no seu corpo; essas duas “faltas” você não percebe, mas quando elas se reúnem você tem a apercepção clara: estou com fome! Quer dizer: para você dizer “estou com fome”, é preciso que mil micro-movimentos se deem no seu corpo, ou seja, mil pequeninas fomes – que você não tem a apercepção. Então, não é preciso o pensamento; é preciso o que se chama uma relação diferencial: é preciso que esses pequenos elementos se reúnam e apareçam para nós como uma apercepção.

Outro exemplo: você está com uma pessoa no saguão de um aeroporto, aí essa pessoa sai para ir ao toalete. Digamos que você goste dessa pessoa! E quando a pessoa sai, pequenas ansiedades começam a se formar no seu corpo, mil pequenas ansiedades; e a pessoa está no toalete e você não está se dando conta de que essas mil pequenas ansiedades estão com você, você fica assim… não sabe o que está se passando! De repente – se a demora é demais – e aquelas mil pequenas ansiedades se juntam – nasce a ansiedade como uma apercepção: [então ] você tem a percepção clara de que está ansiosa. A apercepção é isso: para se constituir, ela necessita das micro-percepções; as pequenas percepções têm que se juntar para que uma apercepção se dê. As apercepções são o que se chama o relevante. Nós só temos o relevante quando as micro-percepções se juntam umas com as outras – falta de gordura, falta de sal, falta de iodo – tudo isso se junta, se relaciona, e aí eu digo – “Puxa, eu estou com fome!”.

Ou então, o meu corpo começa a se balançar nessa cadeira para lá e para cá, aí eu digo assim: “Puxa, esta cadeira está incômoda!”. Quer dizer, aquelas micro relações se juntam e tornam-se um clarão – uma percepção clara! As nossas percepções claras pressupõem as micro-percepções!

Há um texto – The Fox – que eu acabei de ler ainda agora, de um autor chamado David Herbert Lawrence (D.H. Lawrence), em que há uma personagem, uma mulher, que só tem um relevante na cabeça – uma raposa: mais nada, mais nada! É a única coisa – quer dizer, [o repertório dela] é menor do que o de um carrapato [que tem três relevantes]: é o único relevante que aparece nela, e muitos homens… – nós somos assim ao longo de nossas vidas… há determinados momentos em que uma percepção clara aparece em nós… Então, prestem atenção:

A alma humana – o que eu chamei de força plástica, força elástica e chamei de alma: orgânico, inorgânico e anorgânico... A alma – o ser da alma – é perceber; o ser do corpo – é movimentar-se. É essencial essa definição! O corpo é aquilo que se movimenta; a alma, aquilo que percebe. A alma percebe! Mas quando a alma percebe, ela tem – ao mesmo tempo – uma inquietação: a alma humana ou a de qualquer ser vivo é inquieta; e essa inquietude é o que faz com que a alma mude de percepção. Eu vou dar um exemplo para vocês, reproduzindo William Burroughs: ele diz que drogados de heroína perdem a potência da inquietude. De tal forma, que ele conhecia drogados que ficavam olhando, durante 40 horas, para o dedão do pé, sem se mover! Quebra-se a inquietude! A alma é – por essência; por naturezapercepção e inquietude; e, sendo inquietude, ela está sempre declinando para uma nova percepção. Ou seja, nós estamos integrados numa percepção, mas – pela inquietude – já tendemos a passar para outra percepção.

Então, eu vou marcar a alma como sendo esses dois elementos: percepção e inquietação. A inquietação é aquilo que permite que nós saiamos de uma percepção e entremos em outra: se não houvesse essa inquietação – nós ficaríamos congelados, como um vídeo-tape, numa percepção só.

Aluna: [trecho inaudível] tem alguma relação dessa inquietude com [trecho inaudível]

Claudio: É exatamente o oposto! Porque o Leibniz tem uma formação de filosofia oriental muito grande, ele tem até um texto sobre a filosofia zen – e o que ele está dizendo é que a natureza da alma é inquieta – ela é inquieta; ela é uma tensão. Uma tensão da vida – ela tende para essa inquietude! Por isso, o vivo está constantemente abrindo novas superfícies: ele vive abrindo novas superfícies! Quando um “ser vivo” ou “um homem” cai numa tristeza profunda – ele perde a inquietude: é a possibilidade da morte! Então, Leibniz se opõe a esse budismo que prega uma quietude impossível para a alma; impossível para a alma! A alma é como um nadador – um “nadador ” sem mar: ela quer mergulhar, ela quer conhecer as ondas! A vida é isso! A vida é isso! A vida é uma paixão pela inquietude. É uma paixão pela inquietude; é um desejo – quase permanente – de variação. Isso é vida! Quando esse processo se congela – é a crise da morte!

Cada alma, ou melhor… Nós temos apercepções (Acho que vai ficar claro o que eu vou dizer. Apercepções, vocês entenderam? Apercepção = percepção com consciência. Por exemplo, um “pequeno” animálculo me dá uma mordida – me fere! Mas ele é tão pequenininho, que eu não sinto a mordida dele – isso é uma percepção inconsciente; não é uma apercepção. A apercepção é quando a gente sente. Por exemplo:

(O que eu vou citar agora não é meu, é do Sócrates:)

– Quando nós temos uma frieira e a coçamos – nós temos a apercepção do prazer e da dor ao mesmo tempo, e ficamos inteiramente confusos – como é que pode? E não queremos curar a frieira… [risos!]

(Olha, eu vou retornar para vocês:)

A filosofia – da maneira que eu dou – ocorre uma coisa muito estranha, porque o futuro das nossas aulas vai alterar o passado. Isso que vocês estão entendendo agora – a partir da sexta ou sétima aula – quando vocês retornarem a esses textos, vocês vão entender de uma maneira diferente. É como se vocês penetrassem cada vez mais fundo – no texto.

Cada alma expressa o mundo inteiro. Cada alma expressa o mundo inteiro. (Acho que vocês poderiam tomar nota disso!) Cada alma expressa o mundo inteiro, mas essa expressão não é inteiramente aperceptiva; a expressão ela é – eu vou usar números idiotas! – 99,9% percepções inconscientes; 0,01%, uma apercepção. Mas a nossa alma – a alma de cada um de nós – expressa o mundo inteiro.

– Por quê? Porque a natureza é constituída por um principio (é só marcar!), um princípio chamado harmonia universal. A natureza é um princípio de harmonia – porque o barroco é musical… e esse princípio da harmonia universal é que todos os elementos estão ligados a todos os elementos. Se você perceber um elemento, você percebe o infinito do mundo inteiro; porque… o mundo inteiro é toda uma conjugação! Então, cada um de nós tem a capacidade de perceber o mundo inteiro – mas só uma pequena parte aparece como apercepção. (Eu queria que isso ficasse bem nítido, porque isso é um processo de compreensão do pensamento que estou passando para vocês.) Todos nós temos a capacidade de perceber, de expressar o mundo inteiro. Surpreendam-se: nós apreendemos um movimento molecular em Júpiter! Nós apreendemos tudo; nossa alma apreende tudo, mas ela só torna clara uma pequena parte – a aperceptiva.

Eu vou passar a chamar as almas – não interessa quem ou o que são essas almas – eu vou dar a elas – a essas almas – o nome de mônadas, que quer dizer unidade. Está surgindo – pela primeira vez – um conceito do Leibniz.

Eu vou chamar a mônada de alma. Cada mônada carrega consigo o mundo inteiro! Então, aparece uma coisa notável: as mônadas são finitas – mas contêm dentro delas o infinito do mundo inteiro. Portanto, cada mônada – por sua existência – expressa o mundo inteiro. Em termos de apercepção, no entanto, é apenas uma pequena parte.

A grande questão de vocês agora – nós vamos fazer isso do modo mais lento possível – é distinguir entre apercepção e pequenas percepções. A apercepção é a zona clara da consciência: é aquilo que percebemos… e que temos consciência de que estamos percebendo. Por exemplo, eu vou transformar uma pequena percepção de vocês em uma apercepção – o ventilador! Só eu falar, que vocês perceberam! Ele estava passando… e ninguém estava percebendo! Ele se torna apercepção no momento em que você joga sua atenção para ele. Por exemplo, um dos melhores processos para nós dormirmos – é dificílimo! – é a gente criar várias zonas, vários acontecimentos – um jogo de futebol, uma dança, uma música – e dividir a atenção entre todos aqueles acontecimentos que nós produzimos: a atenção jogada nos três… torna-se mortiça – e ela vai-nos dando sono. Porque a nossa atenção apreende apenas um bocado do mundo. A atenção de vocês está inteiramente dirigida para a minha fala. Estando dirigida à minha fala, vocês perdem os movimentos universais que estão passando ao lado de vocês: todos os movimentos se tornam pequenas percepções! Dizem que quem mora ao lado de um moinho a água, jamais ouve o barulho do rio… é que, exatamente, ele sai do campo da percepção. Isso daqui é para vocês compreenderem que temos uma pequena camada de apercepção e um infinito de pequenas percepções – essa noção é o primeiro mergulho no infinito […]


Lado B

[…] Nós somos seres mergulhados no infinito!

Nós já chegamos a uma hora de aula, sem praticamente entrar em nenhum mergulho difícil, e nessa uma hora de aula, o primeiro conceito do Leibniz – mônada – apareceu. Então, por enquanto, a palavra mônada – acho que isso vai ser definitivo – é sinônimo de alma. Mônada é sinônimo de alma.

Nós vamos começar uma das viagens mais bonitas do pensamento, perseguindo a mônada – que nós somos.

“Cada alma expressa o mundo inteiro, mas obscuramente, confusamente.”

– Obscuramente e confusamente é igual a? Pequenas percepções! Por exemplo, cada um de nós nesse momento está mergulhado em coisas que a ideia de infinito pode nos fazer compreender. Por exemplo, se eu beijo a mulher amada eu sinto um prazer – e é um prazer como clarão, é um prazer como percepção clara, é uma apercepção – eu sinto prazer! É uma apercepção… Ou, então, quando sinto uma dor de cabeça – eu tenho a apercepção da dor de cabeça! O prazer e a dor são aperceptivos. Mas neste instante em que estou dando aula para vocês, eu não estou sentido nem prazer nem dor. É porque eu estou mergulhado nos semi-prazeres, e nas semi-dores – nós estamos mergulhados nos semi-prazeres e nas semi-dores! Quando esses semi-prazeres se juntarem… viram um prazer; e se as semi-dores se juntarem… viram uma dor. Então, a nossa vida se dá nesse mergulho, que nós fazemos, no que estou chamando de semi-dores e semi-prazeres. Esse enunciado não é difícil de entender, porque se nós prestarmos atenção ao nosso corpo, nós não passamos com o nosso corpo, em nosso cotidiano, nem no prazer nem na dor! A gente não sente nem prazer nem dor; o prazer e a dor são momentos de clarões, são momentos aperceptivos. De repente, você está assim, sentado, aí bate um vento em cima de você e você diz: “puxa, que delícia, que prazer!”. O prazer tornou-se um clarão, mas você estava sentindo dor? Não, você estava mergulhado no que estou chamando de semi-prazer. Quando você puxa um pedaço de pau e vai bater num cachorro, na hora que você faz isso, o cachorro, que está mergulhado nos semi-prazeres e nas semi-dores, já começa a ter nele a evolução das dores, e passa para a percepção clara da dor.

“São essas percepções obscuras, confusas, que compõem nossas macro-percepções, nossas apercepções conscientes claras e distintas. Uma percepção consciente jamais aconteceria se não integrasse um infinito de pequenas percepções”.

Ou seja, você só constitui uma macro-percepção, você só constitui uma percepção consciente se você integrar  – integrar é relacionar – as pequenas percepções, as micro-percepções.

A nossa vida – e ai vocês podem fazer um exame – se dá por clarões que emergem da confusão em que nós vivemos mergulhados. Nós estamos sempre mergulhados na confusão! De repente, salta um braço assim – zuc – sobe um foco de luz e aí forma-se aquela percepção clara. Muitas vezes o mergulho nessa confusão se dá e o retorno é difícil; o retorno, muitas vezes, é difícil! São esses momentos que a gente precisa de um auxílio terapêutico – a gente não consegue fazer o retorno, sair da confusão; mas essa “confusão” é o solo comum da nossa vida.

Aluna: Existem também os micro-clarões!?

Claudio: Micro, o que você chamaria de micro-clarão, por exemplo? Por exemplo, aquilo que chamei de falta de gordura, isso seria um micro clarão, mas você não percebe! Seriam as pequenas fomes, as pequenas ansiedades – mas o clarão, eu estou chamando de apercepção.

Aluna: As pequenas… é… quase um clarão.

Claudio: É um conceito bonito, que você está dizendo… um quase clarão. É, por exemplo, quando você… no meu caso – no meu caso antigamente (não é?) – quando eu olho uma mulher bonita e… passa um quase clarão, quase um clarão. É mais ou menos isso! É bonito o que você está dizendo – quase clarão. Usa esse conceito: é teu; você criou esse conceito. “Quase clarão” é – quando a gente quase entende; quando a gente quase ama; quando a gente quase sofre… é bonito isso! É muito lindo isso! É verdade: nós vivemos mergulhados no quase sofri; no quase amei; no quase tive raiva; nós vivemos mergulhados nisso (não é?). Aquilo, de repente, se desfaz…

A nossa alma é essa confusão de micro-percepções. O que nos permite dizer que a nossa alma é constituída por um fundo sombrio. Eu queria que vocês marcassem esse conceito – fundo sombrio. É assim o fundo da nossa alma! Os barrocos diziam fuscum subnigrum. A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Ela é… os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas – isso é o fundo da nossa alma! Ela é, então, um fundo sombrio – e esse fundo sombrio é exatamente aquilo que os pintores barrocos colocavam no fundo dos seus quadros. Você pega uma tela do Caravaggio: o fundo da tela é marrom e vermelho; e marrom e vermelho é o fundo sombrio. Ou melhor, todos os pintores barrocos produziram fundos sombrios nas suas telas – porque queriam mostrar que daquele fundo sombrio se ergueriam as percepções claras. Davi segurando a cabeça de Golias, de Caravaggio. Então, fundo sombrio é um conceito definitivo e a gente saber disso – saber transformar o fundo sombrio em conceito claro – torna a nossa vida mais bonita! Nós sabemos que somos constituídos por uma noite infinita e escura; e que dessa noite infinita e escura saem pequenas luzes que formam a nossa vida consciente.

Então, todos nós nos identificamos no fundo sombrio e nos diferenciamos nas percepções claras. A partir disso, eu estou dizendo para vocês que existem infinitas mônadas, mas nenhuma mônada é igual à outra – porque elas variam nas suas percepções claras; elas diferem nas suas percepções claras!

Se você olha para um bloco de mármore, – e esse olhar é um olhar de Phídias, ou um olhar de Brancuzi, ou mesmo de Rodin -, esse olhar vai ver naquele bloco de mármore infinitas estátuas em potência; e o bloco de mármore ter infinitas estátuas em potência – é a expressão do que é a alma. A alma é isso! A alma são infinitas potencialidades. Infinitas potencialidades – é exatamente aquilo que define uma alma! Então, essa ideia, que estou passando, do bloco de mármore com infinitas… Olhem para um bloco de mármore: o bloco de mármore é cheio de veias, o mármore é cheio de veias. Aquelas veias são caminhos que as forças plásticas e as forças elásticas fazem no mármore. Mas as estátuas que estão em potência no mármore são as almas do mármore. E é exatamente isso que é a nossa alma! A nossa alma – ainda que ela seja finita contém dentro dela o infinito do mundo inteiro.

Então, ela contém esse imenso mundo todo dentro dela – todo dentro dela! Não sei como a gente não se engasga!? Aliás… a gente se engasga: dá para engasgar! A gente sente que alguma coisa grandiosa atravessa a gente… A gente sente isso!

“As pequenas percepções…” – Atenção! Acho que está clara a noção de pequenas percepções.

“As pequenas percepções são os componentes de cada percepção, elas são como que alfinetes, aguilhões, – as pequenas percepções – , que constituem o estado da alma por excelência, a inquietude.”

Nós estamos aqui dentro de uma percepção clara, mas dentro de nós estão piscando as pequenas percepções como aguilhões, estão alfinetando nosso corpo, para que a gente mude de percepção. Por isso, na nossa vida, a gente está eternamente em estado de passagem, sempre em estado de passagem, nós nunca estamos propriamente localizados, nós estamos em corredores de luz, prontos para passar para outro tipo de percepção.

Aluno: [trecho inaudível] desenvolver nessa aula a capacidade de [trecho inaudível] de aprender [trecho inaudível]

Claudio: Aí, a sua pergunta… (marque o conceito que vou colocar!)…a sua pergunta levou o Espinosa e o Leibniz a constituírem um conceito chamado autômato espiritual (marque esse conceito!), que é um conceito dificílimo para vocês compreenderem. Autômato espiritual. Sobretudo o Espinosa, porque ele produz um método para aumentar a potência do nosso entendimento, para que nós aumentemos a potência do nosso entendimento, para aumentar o poder dos nossos clarões! Isso se chama autômato espiritual – lá pela quinta aula eu volto a isso…

Essa questão do autômato espiritual são forças que vêm de fora – e que aumentam a potência do nosso entendimento. Por exemplo, vou fazer uma questão:

– Para que serve o cinema? Para enriquecer burguês? Para fazer crescer o capitalismo? Não, o cinema não nasceu para isso, o cinema se desviou pra isso! Mas o cinema seriam vibrações que viriam de fora para aumentar o poder do nosso entendimento. A arte é isso! A arte – quando você ouve uma ópera, Der Ring des Nibelungen, do Wagner, quando você ouve uma ópera, quando um filme, quando você uma tela, quando um texto – aquilo libera vibrações do seu espírito, e ai o seu espírito aumenta a capacidade intelectual e se apaixona, cada vez mais, pelos caminhos de luz!

Aluno: Em que livro o Espinosa trata dessa questão?

Resultado de imagem para ética espinosaClaudio: Na Ética, o livro principal do Espinosa é o Livro V, é o livro base do Espinosa; mas você vai encontrar o trabalho de Deleuze fazendo um longo exercício em cima do autômato espiritual, quer dizer, nenhum pensador, talvez o Darbon, que é um dos grandes comentaristas do Espinosa, e o Deleuze – que fizeram um grande trabalho no autômato espiritual. Hoje, o autômato espiritual é trabalhado pelos grandes teóricos do cinema do Cahiers de Cinema – são eles que procuram trabalhar isso daí.

Aluna: Você podia repetir o que você acabou de dizer sobre o cinema – esse conceito no cinema?

Claudio: Eu estou dizendo cinema… Eu estou praticamente reproduzindo um enunciado do Artaud… O Artaud fez um roteiro (eu estou esquecido do nome do roteiro, viu?), e o roteiro caiu nas mãos de uma menina – uma cineasta chamada Germaine Dulac – e ela deu um caminhou para o roteiro do Artaud…, encaminhou o roteiro dele para uma linha que o deixou indignado. É aí, então, que ele vai dizer que o cinema são vibrações para nos forçar a pensar. Ele via isso no cinema; embora o cinema tenha sofrido um desvio – um desvio propriamente fascista, um desvio de Hollywood. Desviou-se completamente! Mas ele, como todas as artes…

A arte não é aquilo com que se lida apenas com fins de entretenimento e para ter pequenos prazeres orgânicos. A arte é cristalina. A arte é pra entrar em composições de vibrações e fazer com que você pense. A arte é para produzir pensamento! É para produzir um homem superior! Fazer da arte um campo de entretenimento é uma ilusão, é uma tolice orgânica – uma tolice orgânica insuportável! E é isso que vocês conhecem; que vocês sabem que existe (não é?). A arte orgânica não é arte! É apenas alguma coisa que se faz antes do jantar, para ganhar fome: você vai ao teatro, vai ao cinema, vai não sei o quê… e depois vai jantar. A arte não é isso! A arte é uma das experiências mais trágicas da vida – no sentido em que a arte força o pensamento a pensar. Não há aquele que leia um aforismo de Nietzsche e não peça – “por favor, um lápis, eu quero escrever” – é imediato! É como se fosse a única saída que você encontrasse. E a arte é isso, é essa vibração. (Eu vou voltar a essa questão, viu?)

(Vamos parar uns dez minutos e distribuir os textos…)

[trecho inaudível] relaciona… eles se chamam relações diferenciais. Então, quando se constitui a relação diferencial, aparece a singularidade – que é o relevante. Então, o relevante se constitui pelos ordinários. Os ordinários são os elementos com o que o relevante se constitui – mas esses ordinários precisam entrar em relação diferencial. O melhor exemplo para vocês entenderem é o exemplo que eu dei de uma pessoa que está… por exemplo: um homem com a sua mulher amada. A mulher sai. O ato de a mulher sair, já produz nele uma inquietude – uma inquietude micro-perceptiva – que ele não tem como relevante. Se ela demorar… aquelas micro-percepções, aqueles ordinários se juntam… e formam um relevante – um clarão – e ele se torna ansioso. É o melhor exemplo para vocês entenderem! O que quer dizer que todos os relevantes são constituídos por ordinários. Os ordinários são percepções que você não percebe – não percebe!

E agora eu volto a citar aquele cineasta chamado Ozu. O Ozu diz que a nossa vida cotidiana é feita de um conjunto de séries de ordinários, uma série de ordinários; ou seja: a nossa vida cotidiana é feita da série do almoço, da série do sono, da série do descanso, da série do ouvir a música, de ouvir as notícias do rádio, de conversar com um amigo, de olhar pela janela… Cada série dessas é uma série de ordinários que nós sequer damos conta do que estamos fazendo. E o Ozu, esse cineasta japonês, diz que esse é o processo da vida cotidiana e que se os homens conseguissem fazer de suas vidas uma série de ordinários – sem tornar nenhum ordinário relevante – eles nunca sofreriam. Por quê? Porque o que nos produz sofrimento é uma determinada série de ordinários [para a qual] nós damos grande relevância: a doença, a morte – tudo isso são séries de ordinários. O cinema de Ozu é simultaneamente uma estética e uma ética – porque o que ele quer mostrar [com o cinema dele,] é que o que complica a vida do homem é que ele mistura a série de ordinários: é a hora da filha – e nós misturamos a hora da filha com a hora do dinheiro; misturamos a hora do dinheiro com a hora do amor; misturamos as séries, e aquilo produz em nós uma profunda confusão, um profundo sofrimento. Se nós fizermos do nosso cotidiano séries de ordinários – nós buscaremos relevantes em outros lugares; por exemplo, na arte.

O que estou colocando para vocês é uma coisa também do Leibniz, que diz que o homem é o único ser vivo que complica as séries – por isso o seu grande sofrimento! O homem sofre porque complica as séries: na hora da série do amor, ele atravessa com a série do dinheiro; na hora da série da tristeza, ele atravessa com a série da ansiedade – complica tudo! Não é preciso dizer isso para vocês, porque vocês sabem mais do que eu, basta vocês se olharem… (Não é?)

A questão do Ozu e a do Leibniz é a mesma – de que esses sofrimentos que nós temos na vida são por não sabermos conviver com as séries dos ordinários, e vivermos querendo tornar relevantes coisas que não são. De um lado, então… O que eu vou dizer agora é inteiramente filosófico! De um lado, nós temos os agenciamentos de afetos do Espinosa; e, de outro, as relações diferenciadas do Leibniz: afetos em Espinosa e relações diferenciadas no Leibniz.

“O carrapato, o famoso carrapato, explica-se pelo Espinosa e explica-se pelo Leibniz, no Espinosa é um mundo com três afetos, com três afetos somente, no fundo da floresta inteira (Então, o carrapato está mergulhado numa floresta imensa!) e surge para ele aquele pequenino clarão. O resto é a noite imensa e infinita da floresta. Então, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas.”

Agora, eu passei a chamar a percepção clara – a apercepção – de percepção clara e distinguida.

O que estou dizendo para vocês, por exemplo, quando um de vocês vai escrever um texto, vai fazer um trabalho intelectual, aquele trabalho pressupõe uma percepção clara e distinguida. Se você não tiver uma percepção clara e distinguida daquilo que você está fazendo, a confusão começa a se constituir ali em cima: você começa a se perder e o texto vai embora. Ou então, você já está mergulhado na confusão e o texto vira aquela balburdia de 99% dos textos que conhecemos – aquela balburdia entristecedora, não é? Ele não é nada!

As nossas percepções claras – todas elas – são referidas ao nosso organismo! Por quê? Porque o organismo… A força?

Alunos: Plástica!

O organismo tem interesses, ele tem necessidades, e ele tem que efetuar a sua existência em termos de utilidade. Então, o organismo constitui para ele um conjunto de hábitos, que é o que a gente chama de reconhecimento. Por exemplo, os homens de uma mesma sociedade, quando se encontram, se reconhecem uns aos outros – porque estão mergulhados no hábito. Ou seja, a percepção esta mergulhada no hábito. Essa percepção mergulhada no hábito chama-se – clichê. A nossa vida é uma reprodução de clichês: nós vamos reproduzindo clichês o tempo inteiro. O tempo todo nós vamos reproduzindo clichês… porque na hora que nós sairmos dos clichês, nós não somos reconhecidos pelo outro: o outro não nos reconhece. Então, até por comodidade, nós nos mantemos nesses clichês.

Agora, quando você pega um artista, um filósofo, um cientista... (Vou dar o artista como exemplo:) A questão do artista é um confronto direto com os clichês. Ou seja, o artista: um pintor – não tem uma tela em branco; um escritor – não tem um papel em branco; um músico – não tem uma partitura em branco. O que o artista tem… a tela em branco, o papel em branco, a partitura em branco – mas a alma penetrada de clichês. Então, vou citar um pintor – Francis Bacon (não sei se vocês todos conhecem…) – que faz da vida dele uma luta permanente contra os clichês. Ou seja, lutar contra os clichês, para não produzir uma arte dos hábitos – uma representação das utilidades e dos interesses. Então, através disso – Atenção: vai passar alguma coisa altamente gótica, altamente barroca – em função da “luta contra os clichês” do Francis Bacon, ele projeta o caos sobre a tela. (Eu só vou citar, não vou explicar como ele faz!) Eu não sei se algum de vocês conheceu um pintor que esteve aqui no Brasil, creio que na década se 1960, chamado Mathieu – lembram-se do Mathieu? Ele foi ali para a Cinelândia (antes do Brizola!) e fez um sucesso extremo, porque ele colocava a tela ali, pegava a tinta e – pá! – jogava a tinta na tela. Aquele povo da Cinelândia vibrava, era emoção total! Esse jogar de tintas, que ele fazia, tinha o objetivo de quebrar clichês. Ou seja, deixar que a própria tinta desse a linha da pincelada que ele iria dar (certo?) para não ser dominado pelos clichês. Isso daí chama-se tachismo – que em português quer dizer mancha. Isso tem origem no expressionismo abstrato, daquele grupo Pollock, Newman, etc.

Então, é o artista em confronto direto com os clichês – o artista ou o filósofo ou o cientista, em confronto com o clichê; ou seja, a luta que cada um de nós faz, quando quer criar alguma obra, é contra os clichês que nos dominam; clichês contra os quais não sabemos lutar, por acreditarmos que eles são a nossa proteção. Nós achamos que se sairmos dos clichês nós cairemos no caos – sair no clichê-cair no caos – e é exatamente isso! Sai do clichê, mergulha no caos. Mas sair do clichê e mergulhar no caos não é infelicidade. A infelicidade é permanecer nos clichês! O que nos faz sofrer exatamente é que nós fazermos da nossa vida uma reprodução constante dos mecanismos do hábito. É isso que causa em nós um sofrimento insuportável, porque os hábitos, os clichês trazem uma unidade de congelamento que não suportam as passagens e os processos. Então, como a vida da gente é uma permanente passagem, um permanente processo, nós nos resguardamos nos clichês, ou seja, nós nos resguardamos nesses campos do reconhecimento, como se isso trouxesse para nós uma proteção. Atenção, esse guarda-chuva dos clichês não nos protege, mesmo que em cima do guarda-chuva esteja escrito caos. A gente escreve em cima do guarda-chuva “caos”, abre o guarda-chuva e fica protegido. Não adianta! Eu estou dizendo para vocês que a única experiência possível para produzir uma libertação e uma alegria, é o confronto com o caos – que eu vou mostrar para vocês na próxima aula. Eu coloco um confronto com o infinito, ou seja, a única saída para nós é nos tornarmos criadores.

O Leibniz – eu coloquei isso na aula passada – se defrontou com um escritor da razão humanista – não falei isso, o Voltaire? Ele se confrontou com o Voltaire, porque o Leibniz dizia que esse mundo que nós vivemos é o melhor dos mundos, e o melhor dos mundos porque neste mundo aqui pode haver criação!, ou seja, todos os homens têm o poder de criar e de inventar. Agora – só há possibilidade da criação e da invenção se você quebrar as forças do clichê.

Uma percepção como a de Cézanne é semelhante à do Ozu. O que o Cézanne queria ver nas suas naturezas mortas e nas suas maçãs eram as vibrações do tempo e do pensamento: o tempo e o pensamento vibrando. Ou seja, o grande artista, o “artista enquanto tal”, não tem como questão representar aquilo que observa, mas liberar o invisível da natureza – e esse invisível são as forças do tempo e as forças do pensamento. Então, para você fazer essa experimentação, você tem que quebrar todos os clichês instalados na sua alma. Dá-se a isso o nome de percepto. Há, então, uma diferença entre percepto e percepção: a percepção é utilitária, é interessada. Eu aqui posso até citar para vocês, porque assim fica fácil para se compreender, certas experiências com drogas. As drogas tiram o homem da percepção utilitária – porque elas alteram o tempo. Só que a droga não te conduz para a arte; não conduz! Eu vou colocar para vocês… O que a prática do percepto faz, é romper com o domínio das percepções utilitárias; e no momento em que o domínio do utilitário, o domínio do clichê se rompe, você mergulha como que no caos, você mergulha no caos, e lá – no caos – você vai fazer duas coisas – erguer alguma coisa nova ou se perder nesse caos. Não sei qual dos dois é mais trágico ou mais bonito: perder-se ou erguer alguma coisa! Viver em torno dos hábitos jamais fará isso, você estará sempre achado, mas – ao mesmo tempo – sempre perdido; porque você não consegue liberar-se da sua individualidade e do sujeito que você é!

Dá-se o nome de percepto…, como John Cage, que batizava uma partida de xadrez de concerto. Para Cage, uma partida de xadrez era um concerto. Evidentemente, se você disser isso a um homem comum, ele vai dizer: “Esse cara tava pirado” – mas ele não estava pirado! É porque o John Cage tornou o silêncio um clarão na obra dele. Você ouve, por exemplo, dois temas de Beethoven: o primeiro toca… acaba! E ai você fica na expectativa do segundo tema… Essa expectativa é o silêncio entre o primeiro e o segundo tema. A questão do Cage é fazer do silêncio não uma expectativa, mas um tema! Ele faz do silêncio um tema. Então, para ele, o xadrez pode ser um concerto.

[Essa parte da aula é acompanhada pela exposição de slides com alguns trabalhos dos autores que Claudio vai citando ao longo da aula]

Ou o Duchamp – que transformava um urinol em escultura. Nesse caso do Duchamp é uma coisa muito simples: é pegar um objeto do cotidiano (por exemplo, isso daqui, um papel, uma cadeira), retirar esse objeto do contexto, e colocá-lo no museu – e ele irá receber uma qualificação nova. É isso o Duchamp: ele fazia isso – ele tirava as coisas do contexto, como o caso do mictório. Entendido Duchamp (Né?).

“A Fonte” (1917), de Marcel Duchamp.

Isso é o Cage outra vez, lindo! Olhem o Cage, (hein?) como ele é leibniziano.

“Ou melhor, o problema das micro-percepções do desejo, o desejo do Cage ouvir um dia todas as fugas do Cravo bem temperado.”

O sonho dele era ouvir todas as fugas do Cravo bem temperado. Ou seja, mergulhar no infinito do mundo inteiro e tornar tudo apercepção e percepção clara.

“Essas pequenas percepções não são partes da percepção consciente, mas requisitos ou elementos genéticos da percepção consciente, pois o que é relevante deve ser constituído de partes que não são relevantes.”

Ou seja, não são partes relevantes porque são os ordinários. Então, a nossa percepção é constituída pelos ordinários e pelos relevantes.

“As partes que não são relevantes chamam-se ordinários: a relação é de ordinário a relevante.”

Então, eu vou voltar outra vez:

O barulho desse ventilador – quando vocês não dão atenção pra ele, é um conjunto de ordinários: micro-movimentos ordinários, que você não percebe. Mas que, quando você se volta para ele, torna-se relevante. Então, a relação de ordinários e relevantes não é uma relação de parte e todo. (Deixem esse conceito, vai ficar mais difícil para vocês apreenderem agora – é na relação de ordinários e relevantes que se constitui o sistema de percepção!) O que se sabe, já: o movimento no corpo corresponde a uma percepção da alma. Então, eu vou colocar dessa maneira: a força plástica produz o corpo orgânico. E o corpo orgânico é movimento! Isso é fundamental para vocês marcarem – o corpo orgânico se define pelo movimento e a alma se define pela percepção. Uma percepção na alma, um movimento no corpo; um movimento no corpo, uma percepção na alma.

Bom. Essa aula foi uma aula de primeiro tema pra segundo tema: o objetivo dela foi abrir uma expectativa para o infinito. Qual infinito? O infinito das micro-percepções, o infinito do mundo inteiro. Abrir uma perspectiva para dizer a vocês que o pensamento – na modernidade – é necessariamente um mergulho no infinito. O infinito é o pensamento antigo. A nossa questão é o infinito – é mergulhar no infinito. A questão do pensamento moderno é mergulhar no infinito.

Cada mônada – a mônada é a alma! – tem dentro dela o infinito do mundo. Cada mônada contém, dentro dela, o infinito do mundo inteiro. E sempre que essa mônada se manifesta – ela expressa esse infinito do mundo inteiro. Mas ela expressa esse infinito do mundo inteiro em pequenas percepções e em raras percepções claras. Sempre que nós nos expressarmos, no entanto, é o mundo inteiro que está sendo expresso por nós. Então, o conceito de mônada, que é o conceito do mergulho no infinito que nós vamos fazer na próxima aula… Nós vamos começar a mergulhar no infinito; vamos fazer a primeira experiência de infinito; nós vamos encontrar aqueles que tentaram impedir esse mergulho, Platão, etc., através dessa noção de mônada que estou colocando. A mônada é alguma coisa finita que contém o infinito do mundo inteiro. Então, é o paradoxo total! Cada um de nós carrega consigo o infinito do mundo inteiro, no sentido de que as coisas presentes estão grávidas de futuro.

Aluno: [trecho inaudível da fita]

Claudio: Todas, todas! Cada mônada carrega todas as mônadas com ela. Isso se chama harmonia universal ou harmonia pré-estabelecida. Ou seja, há uma harmonia na natureza. Se você tocar numa coisa – eu toquei nessa mesa – significa que eu toquei no universo inteiro – porque todas as coisas estão conjugadas umas com as outras. Isso se chama harmonia universal. Então, cada um de nós, no seu fundo sombrio (Olha, agora são os conceitos exatos, hein!?) tem um marulho – o ruído, o rumor – do universo inteiro. Então, à noite, quando nós começamos a desocupar a nossa alma e a alma vai se abrindo, nós mergulhamos no fundo sombrio, ou seja, nós mergulhamos no universo inteiro. Um mergulho assim de uma beleza excepcional.

Então, eu vou concluir aqui, porque as micro-percepções estão aqui se juntando… e eu estou tendo a percepção clara de que estou ficando cansado! [Risos].

Eu vou concluir para vocês fazendo uma coisa muito rara que eu faço – mas eu tenho essa necessidade, apenas de fixar como percepção clara na memória de vocês, que quarta-feira nós vamos mergulhar no infinito...

Então, até quarta-feira!

Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

Capa Grande Aventura

[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar – não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser… – tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões – ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim – um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas – o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes – desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe – antes de ela se dar – o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

– O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore – por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu – Claudio – sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual – porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é – necessariamente – individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis – no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico– porque é o ser que existe – independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo – a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos – que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo – ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento – prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! – Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade – uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma – por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo – singularidade ou singular – que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade – chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

– O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo – tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade – que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas – esse singular – também vai ter o seu território. E o território do singular – ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana – chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão – que às vezes torna-se longo e difícil – a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal – que seria o território do mental;

• O individual – que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade – que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real – porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais – apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês – e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos – é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

– Por quê? Porque o individual é aquilo que existe – aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental – ainda sem explicar – com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências – ao invés de trabalharem com o individual – passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui – acredito que com uma total facilidade – três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico – por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. – chamada filosofia estoica – que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo – passado, presente e futuro – e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

– O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões – passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro – ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo – saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente – pelo menos no platonismo e no aristotelismo – o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo – porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente – o indivíduo.

Passado e Futuro – as singularidades.

Empírico – presente e indivíduo.

Transcendental – passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

– O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos – o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente – no caso desta explicação que eu estou dando – sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo nada mais pode existir!

Por exemplo:

– Deus existe? Se existir – é um corpo! (Certo?)

– O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo – que é o transcendental, seu próprio tempo – que é o passado e o futuro; a singularidade – lamentavelmente – não existe.

Está surgindo – na ordem do pensamento – uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade – que não existe, que não é um corpo – de incorporal. Então, o universo dos estoicos – eu acho que agora está ficando mais claro! – é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não – existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade…

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente – no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

– Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna – essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia – que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte – que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O “corpo histérico” seria incorporal, seria o singular – porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico – literalmente – não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como – naquela hora – falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico – é fazer uma divisão… e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso – como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional – é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

– O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente… (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular – que é o grande enigmático desta aula – ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é – simultaneamente – passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado – nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse “passado e futuro simultâneo” começam a perturbar o que nós chamamos – o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental – é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística – porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal – nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[…] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território – que é descoberto pelos estoicos – vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico – chamado Whitehead – no século XX. (Certo?)

E, então – novamente – nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade – que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento – ou aquilo que nós chamamos de pensamento – se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos… à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas – porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo – ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar – ele, o paradoxo – é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares… porque… – eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam…)

faixa-doacao

Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

empirico-transcendental

Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando…) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes – o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal – fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica – eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de – meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está – necessariamente – integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento… E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

empirico-transcendental2

Existe – na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro – algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso – logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento – e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

– Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção – já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama – em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence – não importa o quê – ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para – como se fosse um carimbo: eu vou carimbar – pah! segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

– O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome – segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal… E aqui começa a ficar tudo difícil, porque – em primeiro lugar – o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal – e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza – eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe – afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

empirico-transcendental2

Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro – o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano – que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto – a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas – e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora – espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar – de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto – qualquer rosto – é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes – os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do… – fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras – socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo – pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características – a socialização, a comunicação e a individuação – e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, – através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh…

[metaslider id=9770]

Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

01-05-van-gogh-girassol-the-history-channel

Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima – de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

– Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

– Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia – não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos – que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e – seguindo Nietzsche – o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

– De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se – tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético – passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes – a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais… com uma linha até mais nômade, mais abstrata… para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar… (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem… limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer – numa outra linguagem – que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

empirico-transcendental3

O infinito, do lado direito, na primeiridade – que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente – que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito – depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é – necessariamente – finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas – mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo – Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra – que os afetos – não são orgânicos. Eles – os afetos – independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo – uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio – Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso – é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[—] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) – no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso… eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente – é fácil de entender – que este objeto, o copo – que é um objeto técnico – tem um valor de uso. O valor de uso dele – pelo menos classicamente – é beber água, (não é?) Poderia ser “jogar na cabeça dos outros…”, não quer dizer nada – mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos…

(virada de fita)


II –

[—] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar – não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os “modelos de subjetividade” que estão por aí não são absolutamente necessários… e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

empirico-transcendental4

É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula… É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar – fortuitamente – um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado – Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição – colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei – a Lei da Descontinuidade.

– O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos – aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos – o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos… e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo… isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo – que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes – no tempo – não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade – que seria a duração – o intermédio, o ser para executar isso se chama – alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de – contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

– O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume – como eu falei para vocês – constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma – imaginação contraente

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade – por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação – para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que – na natureza – existe um processo que não é produzido pela imaginação – que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo – é muito fácil para se compreender – é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo – no universo das imagens – existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato – puh – aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente qualquer imagem se combina com qualquer imagem – livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia – que é um estado – quando nós estamos entre a vigília e o sono – em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias… exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza – a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são – por exemplo – a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável – ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes – isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões – o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito – não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele – porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem – tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque – na natureza – as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar… é… No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que – na natureza – elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza – elas são descontínuas;

No espírito – elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que – quando dois elementos se fundem – outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos – que são as impressões – estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza – são os instantes; o que estão juntos no espírito – são os instantes. Então, esses instantes – quando se juntam – chamam-se síntese.

Síntese quer dizer – juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

– Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso – ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

– Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair – é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O “elemento básico” dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina – elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas – no espírito existem as impressões transformadas em imagens interpenetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

– O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual – enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês – em outra linguagem – que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros – 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

– Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo – a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica – pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

– Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

– De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla – e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem…)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar – ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância – é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem – você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja – muito difícil o que eu vou dizer! – no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado…

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula – e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha… Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo… Ou seja, a pergunta é essa:

– Como a vida apareceu no planeta? O que é – exatamente a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence – ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica – que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

– Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra – são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo – é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro – Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna – não importa se na literatura, na pintura ou no cinema – é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós – que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico – quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio – emnós – da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material – não tem como caminhar agora… – essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

– Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo – O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei… corpo, organismo… tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo – que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e…etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

– Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se – O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico – ele abandona tudo! – e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão – o que é o cinema pulsão! – para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês…

Alunos: Não, foi bom demais!

faixa-doacao-pe-de-pagina