A Filosofia é Violeta

Um filósofo experimenta a língua, a linguagem, construindo seus conceitos, que irão renovar os modos de pensar. Ele, o filósofo, não tem compromisso com o senso comum. E mostra a aventura de sua vida, pelas dificuldades que impõe à compreensão do que diz. E sabe disto, das fragilidades do homem; como Espinoza, que concebeu o método formal e reflexivo – para aumentar a potência de compreensão do entendimento humano. A filosofia é difícil. É como a música atonal; é como uma tela do expressionismo abstrato; é como os filmes de Alain Resnais; é como um pássaro exótico, que se faz, torna-se, ritmo e contraponto melódico, diante de um crepúsculo que acentua o violeta. A filosofia é difícil; ou seja: Mil Platôs não é impenetrável, é difícil; ou melhor: é um livro propriamente violeta, desde que Violeta seja entendido como um conceito filosófico.


Claudio Ulpiano

 

Esse texto foi escrito por Ulpiano em resposta a uma crítica, publicada na imprensa, do livro de Gilles Deleuze e Félix Guatarri – Mille Plateaux – na época do seu lançamento no Brasil. O mesmo jornal que publicou a crítica, publicou a resposta de Claudio, à qual  o jornalista deu o belo título de A FILOSOFIA É VIOLETA.


Nietzsche fazia Zaratustra dizer, Castañeda faz o índio Dom Juan dizer: há três e até quatro perigos; primeiro o Medo, depois a Clareza, depois o Poder e, enfim, o grande Desgosto, a vontade de fazer morrer e de morrer, Paixão de abolição27. O medo, podemos adivinhar o que é. Tememos, o tempo todo, perder. A segurança, a grande organização molar que nos sustenta, as arborescências onde nos agarramos, as máquinas binárias que nos dão um estatuto bem definido, as ressonâncias onde entramos, o sistema de sobrecodificação que nos domina — tudo isso nós desejamos. “Os valores, as morais, as pátrias, as religiões e as certezas privadas que nossa vaidade e autocomplacência generosamente nos outorgam, são diferentes moradas que o mundo arranja para aqueles que pensam, desta forma, manter-se de pé e em repouso entre as coisas estáveis; eles nada sabem desse imenso desarranjo no qual eles próprios se vão… fuga diante da fuga28.

Fugimos diante da fuga, endurecemos nossos segmentos, entregamo-nos à lógica binária, seremos tanto mais duros em tal segmento quanto terão sido duros conosco em tal outro segmento; reterritorializamo-nos em qualquer coisa, não conhecemos segmentaridade senão molar, tanto no nível dos grandes conjuntos aos quais pertencemos, quanto no nível dos pequenos grupos onde nos colocamos e daquilo que se passa conosco no mais íntimo ou mais privado. Tudo é concernido: a maneira de perceber, o gênero de ação, a maneira de se mover, o modo de vida, o regime semiótico. O homem que entra dizendo: “A sopa está pronta?”, a mulher que responde: “Que cara! Você está de mau humor?”, efeito de segmentos duros que se afrontam de dois em dois. Quanto mais a segmentaridade for dura, mais ela nos tranqüiliza. Eis o que é o medo, e como ele nos impele para a primeira linha.

O segundo perigo, a Clareza, parece menos evidente. É que a clareza, efetivamente, concerne o molecular. Aqui também tudo é concernido, até a percepção, a semiótica, só que na segunda linha. Castañeda mostra, por exemplo, a existência de uma percepção molecular que a droga nos abre (mas tantas coisas podem servir de droga): acedemos a uma micropercepção sonora e visual que revela espaços e vazios, como buracos na estrutura molar. É precisamente isto a clareza: essas distinções que se estabelecem naquilo que nos parecia pleno, esses buracos no compacto; e inversamente, lá onde víamos até há pouco arremates de segmentos bem definidos, o que há, sobretudo, são franjas incertas, invasões, superposições, migrações, atos de segmentação que não coincidem mais com a segmentaridade dura. Tudo se tornou flexibilidade aparente, vazios no pleno, nebulosas nas formas, tremidos nos traços. Tudo adquiriu a clareza do microscópio. Acreditamos ter entendido tudo e tirado todas as conseqüências disso. Somos os novos cavaleiros, temos até uma missão. Uma microfísica do migrante tomou o lugar da macrogeometria do sedentário. Mas essa flexibilidade e essa clareza não têm apenas seu perigo próprio, elas próprias são um perigo. Em primeiro lugar, porque a segmentaridade flexível corre o risco de reproduzir em miniatura as afecções, as afectações da dura: substitui-se a família por uma comunidade, substitui-se a conjugalidade por um regime de troca e de migração, mas é pior ainda, estabelecem-se micro-Edipos, os microfascismos ditam a lei, a mãe se acha na obrigação de embalar seu filho, o pai se torna mamãe. Obscura clareza que não cai de estrela alguma e que exala tanta tristeza: essa segmentaridade movediça decorre diretamente da mais dura, ela é sua compensação direta. Quanto mais os conjuntos tornam-se molares, mais os elementos e suas relações tornam-se moleculares: o homem molecular para uma humanidade molar. Desterritorializamo-nos, fazemo-nos massa, mas para atar e anular os movimentos de massa e de desterritorialização, para inventar todas as reterritorializações marginais piores ainda do que as outras. Mas, sobretudo, a segmentaridade flexível suscita seus próprios perigos, que não se contentam em reproduzir em miniatura os perigos da segmentaridade molar, nem em decorrer destes perigos ou compensá-los: como já vimos, os microfascismos têm sua especificidade, eles podem cristalizar num macro-fascismo, mas também flutuar por si mesmos sobre a linha flexível, banhando cada minúscula célula. Uma multidão de buracos negros pode muito bem não centralizar-se, e ser como vírus que se adaptam às mais diversas situações, cavando vazios nas percepções e nas semióticas moleculares. Interações sem ressonância. Em lugar do grande medo paranóico, encontramo-nos presos por mil monomaniazinhas, evidências e clarezas que jorram de cada buraco negro e que não fazem mais sistema e sim rumor e zumbido, luzes ofuscantes que dão a qualquer um a missão de um juiz, de um justiceiro, de um policial por conta própria, de um gauleiter, um chefete de prédio ou de casa. Vencemos o medo, abandonamos as margens da segurança, mas entramos num sistema não menos concentrado, não menos organizado, um sistema de pequenas inseguranças, que faz com que cada um encontre seu buraco negro e torne-se perigoso nesse buraco, dispondo de uma clareza sobre seu caso, seu papel e sua missão, mais inquietantes que as certezas da primeira linha.

O Poder é o terceiro perigo, porque encontra-se nas duas linhas ao mesmo tempo. Ele vai dos segmentos duros, de sua sobrecodificação e ressonância às segmentações finas, à sua difusão e interações e vice-versa. Não há homem de poder que não salte de uma linha à outra, e que não alterne um pequeno e um grande estilo, o estilo canalha e o estilo Bossuet, a demagogia de bar e o imperialismo de alto funcionário. Mas toda essa cadeia e essa trama do poder mergulham num mundo que lhes escapa, mundo de fluxos mutantes. E é precisamente sua impotência que torna o poder tão perigoso. O homem de poder não deixará de querer deter as linhas de fuga e, para isso, tomar, fixar a máquina de mutação na máquina de sobrecodificação. Mas ele só pode fazê-lo isolando a máquina de sobrecodificação, isto é, primeiro fixando-a, contendo-a no agenciamento local encarregado de efetuá-la, em suma, dando ao agenciamento as dimensões da máquina: o que se produz nas condições artificiais do totalitarismo e do “uso fechado”, do confinamento.

Mas há ainda um quarto perigo, sem dúvida aquele que mais nos interessa, porque concerne as próprias linhas de fuga. Por mais que se queira apresentar tais linhas como uma espécie de mutação, de criação, traçando-se não na imaginação mas no próprio tecido da realidade social, por mais que se queira lhes dar o movimento da flecha e a velocidade de um absoluto — seria muito simples acreditar que elas não temem nem afrontam outro risco senão o de se fazer recuperar apesar de tudo, de se fazer colmatar, atar, reatar, reterritorializar. Elas próprias desprendem um estranho desespero, como que um odor de morte e de imolação, como que um estado de guerra do qual se sai destroçado: é que elas mesmas têm seus próprios perigos, que não se confundem com os precedentes. Exatamente aquilo que faz Fitzgerald dizer: “Eu tinha um sentimento de estar de pé no crepúsculo num campo de tiro abandonado, um fuzil vazio na mão e os alvos abatidos.

Nenhum problema a ser resolvido. Simplesmente o silêncio e o barulho único de minha própria respiração (…). Minha imolação de mim mesmo era um detonador sombrio e molhado”29. Por que a linha de fuga é uma guerra na qual há tanto risco de se sair desfeito, destruído, depois de se ter destruído tudo o que se podia? Eis precisamente o quarto perigo: que a linha de fuga atravesse o muro, que ela saia dos buracos negros, mas que, ao invés de se conectar com outras linhas e aumentar suas valências a cada vez, ela se transforme em destruição, abolição pura e simples, paixão de abolição. Tal como a linha de fuga de Kleist, a estranha guerra que ele trava e o suicídio, o duplo suicídio como saída que faz da linha de fuga uma linha de morte.

 


Trecho de MIL PLATÔS: CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA. Vol. 3.  Capítulo: 9.1933 – Micropolítica e Segmentaridade

Notas:

27 Castañeda, L’herbe du diable et la petite fumée, p. 106-111.

28 Blanchof, L’amitié, Gallimard, p. 232.

29 Fitzgerald, La fêlure, Gallimard, pp. 350, 354.

Como trabalhamos a dois | por Gilles Deleuze

Por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo


Carta a Uno: Como trabalhamos a dois*

Caro Kuniichi Uno,

Você me pergunta como Félix Guattari e eu nos encontramos e como trabalhamos juntos. Posso te dar apenas o meu ponto de vista, o de Félix seria talvez diferente. O certo é que não existe receita ou fórmula geral para trabalhar junto.

Foi logo depois de 1968, na França. Não nos conhecíamos, mas um amigo em comum queria que nos conhecêssemos. Contudo, à primeira vista, não havia nada que nos pusesse de acordo. Félix sempre teve muitas dimensões, muitas atividades – psiquiátricas, políticas, trabalho de grupo. É uma “estrela” de grupo. Ou antes seria preciso compará-lo a um mar: sempre móvel em aparência, com brilhos de luz o tempo todo. Ele pode pular de uma atividade a outra, dorme pouco, viaja, não para. Ele nunca cessa. E tem velocidades extraordinárias. Quanto a mim, eu seria antes como uma colina: mexo-me muito pouco, sou incapaz de levar duas empreitadas, minhas ideias são ideias fixas e os raros movimentos que tenho são interiores. Gosto de escrever sozinho, mas não gosto muito de falar, exceto nas aulas, quando a palavra é submetida a outra coisa. Nós dois, Félix e eu, daríamos um bom lutador japonês.

Entretanto, olhando Félix mais de perto, percebe-se que ele é muito só. Entre duas atividades, ou no meio de muita gente, ele pode mergulhar numa grande solidão. Ele desaparece, para tocar piano, para ler, para escrever. Poucas vezes encontrei um homem que fosse tão criativo e produzisse tantas ideias. E ele não cessa de modificar suas ideias, de revirá-las, mudar seus feitios. Ele é também totalmente capaz de se desinteressar delas, e até mesmo esquecê-las, para melhor remanejá-las, redistribuí-las. Suas ideias são desenhos, ou até mesmo diagramas. O que me interessa são os conceitos. Parece-me que os conceitos têm uma existência própria, eles são animados, são criaturas invisíveis. Justamente, porém, eles têm necessidade de ser criados. Para mim, a filosofia é uma arte de criação, tanto quanto a pintura e a música: ela cria conceitos. Não são generalidades, nem mesmo verdades. São antes da ordem do Singular, do Importante, do Novo. Os conceitos são inseparáveis dos afetos, ou seja, dos potentes efeitos que eles têm sobre as nossas vidas, e dos perceptos, ou seja, de novas maneiras de ver ou de perceber que eles nos inspiram.

Entre os diagramas de Félix e os meus conceitos, articulados, tivemos vontade de trabalhar juntos, mas não sabíamos bem como. Líamos muito – etnologia, economia, linguística. Eram materiais, eu ficava fascinado por aquilo que Félix tirava deles, e ele, interessado pelas injeções de filosofia que eu tentava aplicar neles. Para O anti-Édipo, rapidamente já sabíamos o que queríamos dizer: uma nova apresentação do inconsciente como máquina, como fábrica, uma nova concepção do delírio ajustado ao mundo histórico, político e social. Mas como fazer isso? Começamos por longas cartas em desordem, intermináveis. Depois, reuniões a dois, de vários dias ou de várias semanas. Compreenda você que era, de uma vez só, um trabalho muito cansativo e que ríamos o tempo todo. E cada um no seu canto desenvolvia este ou aquele ponto, em direções diferentes; misturávamos as escritas, criando palavras cada vez que sentíamos necessidade. Às vezes, o livro ganhava uma forte coerência que não mais se explicava nem por um nem pelo outro.

É que nossas diferenças trabalhavam contra nós, porém ainda mais a nosso favor. Jamais tivemos o mesmo ritmo. Félix me censurava de não reagir às cartas que ele me enviava: é que eu não estava à altura, naquele momento. Eu faria uso delas somente mais tarde, um ou dois meses depois, quando Félix já estava em outra. E, em nossas reuniões, jamais ficávamos falando junto: um falava e o outro escutava. Eu não largava do Félix, mesmo quando ele estava cheio; mas Félix me perseguia, mesmo quando eu não podia mais. Pouco a pouco, um conceito ganhava uma existência autônoma, que às vezes continuávamos a entender de maneira diferente (por exemplo, jamais entendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”). O trabalho a dois nunca foi uma uniformização, mas antes uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma. Eu poderia dizer a quem remonta a origem desse ou daquele tema, dessa ou daquela noção: a meu ver, Félix tinha verdadeiros clarões e, quanto a mim, eu era um tipo de para-raios, enfiava aquilo na terra para que renascesse de outra maneira, mas Félix retomava etc., e assim avançávamos.

Com Mil platôs foi ainda diferente. A composição desse livro é muito mais complexa, os domínios tratados, muito mais variados, mas havíamos adquirido hábitos tais que um podia adivinhar para onde o outro ia. Nossas conversas comportavam elipses cada vez mais numerosas e podíamos estabelecer ressonâncias de toda sorte, não mais entre nós, mas entre domínios que atravessávamos. Os melhores momentos desse livro, quando o estávamos fazendo, foram: o ritornelo e a música; a máquina de guerra e os nômades; o devir-animal. Lá, sob o impulso de Félix, eu tinha a impressão de territórios desconhecidos onde viviam estranhos conceitos. É um livro que me deixou feliz e que nunca chego a esgotar. Não veja nisso nenhuma vaidade, eu falo por mim, e não pelo leitor. Em seguida, foi realmente necessário que cada um de nós, Félix e eu, voltasse a seu próprio trabalho, para recuperar fôlego. Mas de uma coisa estou convencido: trabalharemos juntos novamente.

Aí está, caro Uno. Espero ter respondido a uma parte de suas questões. Fique bem.

Gilles Deleuze


* Carta de 25/07/84 e publicada em japonês na Gendai Shiso (A Revista do Pensamento de Hoje), Tóquio, nº 9, 1984, pp.8-11. Tradução para o japonês de Kuniichi Uno.

Gilles Deleuze: Como trabalhamos a dois

Por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo


Carta a Uno: Como trabalhamos a dois*

Caro Kuniichi Uno,

Você me pergunta como Félix Guattari e eu nos encontramos e como trabalhamos juntos. Posso te dar apenas o meu ponto de vista, o de Félix seria talvez diferente. O certo é que não existe receita ou fórmula geral para trabalhar junto.

Foi logo depois de 1968, na França. Não nos conhecíamos, mas um amigo em comum queria que nos conhecêssemos. Contudo, à primeira vista, não havia nada que nos pusesse de acordo. Félix sempre teve muitas dimensões, muitas atividades – psiquiátricas, políticas, trabalho de grupo. É uma “estrela” de grupo. Ou antes seria preciso compará-lo a um mar: sempre móvel em aparência, com brilhos de luz o tempo todo. Ele pode pular de uma atividade a outra, dorme pouco, viaja, não para. Ele nunca cessa. E tem velocidades extraordinárias. Quanto a mim, eu seria antes como uma colina: mexo-me muito pouco, sou incapaz de levar duas empreitadas, minhas ideias são ideias fixas e os raros movimentos que tenho são interiores. Gosto de escrever sozinho, mas não gosto muito de falar, exceto nas aulas, quando a palavra é submetida a outra coisa. Nós dois, Félix e eu, daríamos um bom lutador japonês.

Entretanto, olhando Félix mais de perto, percebe-se que ele é muito só. Entre duas atividades, ou no meio de muita gente, ele pode mergulhar numa grande solidão. Ele desaparece, para tocar piano, para ler, para escrever. Poucas vezes encontrei um homem que fosse tão criativo e produzisse tantas ideias. E ele não cessa de modificar suas ideias, de revirá-las, mudar seus feitios. Ele é também totalmente capaz de se desinteressar delas, e até mesmo esquecê-las, para melhor remanejá-las, redistribuí-las. Suas ideias são desenhos, ou até mesmo diagramas. O que me interessa são os conceitos. Parece-me que os conceitos têm uma existência própria, eles são animados, são criaturas invisíveis. Justamente, porém, eles têm necessidade de ser criados. Para mim, a filosofia é uma arte de criação, tanto quanto a pintura e a música: ela cria conceitos. Não são generalidades, nem mesmo verdades. São antes da ordem do Singular, do Importante, do Novo. Os conceitos são inseparáveis dos afetos, ou seja, dos potentes efeitos que eles têm sobre as nossas vidas, e dos perceptos, ou seja, de novas maneiras de ver ou de perceber que eles nos inspiram.

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Entre os diagramas de Félix e os meus conceitos, articulados, tivemos vontade de trabalhar juntos, mas não sabíamos bem como. Líamos muito – etnologia, economia, linguística. Eram materiais, eu ficava fascinado por aquilo que Félix tirava deles, e ele, interessado pelas injeções de filosofia que eu tentava aplicar neles. Para O anti-Édipo, rapidamente já sabíamos o que queríamos dizer: uma nova apresentação do inconsciente como máquina, como fábrica, uma nova concepção do delírio ajustado ao mundo histórico, político e social. Mas como fazer isso? Começamos por longas cartas em desordem, intermináveis. Depois, reuniões a dois, de vários dias ou de várias semanas. Compreenda você que era, de uma vez só, um trabalho muito cansativo e que ríamos o tempo todo. E cada um no seu canto desenvolvia este ou aquele ponto, em direções diferentes; misturávamos as escritas, criando palavras cada vez que sentíamos necessidade. Às vezes, o livro ganhava uma forte coerência que não mais se explicava nem por um nem pelo outro.

É que nossas diferenças trabalhavam contra nós, porém ainda mais a nosso favor. Jamais tivemos o mesmo ritmo. Félix me censurava de não reagir às cartas que ele me enviava: é que eu não estava à altura, naquele momento. Eu faria uso delas somente mais tarde, um ou dois meses depois, quando Félix já estava em outra. E, em nossas reuniões, jamais ficávamos falando junto: um falava e o outro escutava. Eu não largava do Félix, mesmo quando ele estava cheio; mas Félix me perseguia, mesmo quando eu não podia mais. Pouco a pouco, um conceito ganhava uma existência autônoma, que às vezes continuávamos a entender de maneira diferente (por exemplo, jamais entendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”). O trabalho a dois nunca foi uma uniformização, mas antes uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma. Eu poderia dizer a quem remonta a origem desse ou daquele tema, dessa ou daquela noção: a meu ver, Félix tinha verdadeiros clarões e, quanto a mim, eu era um tipo de para-raios, enfiava aquilo na terra para que renascesse de outra maneira, mas Félix retomava etc., e assim avançávamos.

Com Mil platôs foi ainda diferente. A composição desse livro é muito mais complexa, os domínios tratados, muito mais variados, mas havíamos adquirido hábitos tais que um podia adivinhar para onde o outro ia. Nossas conversas comportavam elipses cada vez mais numerosas e podíamos estabelecer ressonâncias de toda sorte, não mais entre nós, mas entre domínios que atravessávamos. Os melhores momentos desse livro, quando o estávamos fazendo, foram: o ritornelo e a música; a máquina de guerra e os nômades; o devir-animal. Lá, sob o impulso de Félix, eu tinha a impressão de territórios desconhecidos onde viviam estranhos conceitos. É um livro que me deixou feliz e que nunca chego a esgotar. Não veja nisso nenhuma vaidade, eu falo por mim, e não pelo leitor. Em seguida, foi realmente necessário que cada um de nós, Félix e eu, voltasse a seu próprio trabalho, para recuperar fôlego. Mas de uma coisa estou convencido: trabalharemos juntos novamente.

Aí está, caro Uno. Espero ter respondido a uma parte de suas questões. Fique bem.

Gilles Deleuze


* Carta de 25/07/84 e publicada em japonês na Gendai Shiso (A Revista do Pensamento de Hoje), Tóquio, nº 9, 1984, pp.8-11. Tradução para o japonês de Kuniichi Uno.