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Aula de 19/01/1996 – A força imaterial da vida

"A nossa alma é essa confusão de micro-percepções. O que nos permite dizer que a nossa alma é constituída por um fundo sombrio. Eu queria que vocês marcassem esse conceito - fundo sombrio. É assim o fundo da nossa alma! Os barrocos diziam fuscum subnigrum. A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Ela é... os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas - isso é o fundo da nossa alma! Ela é, então, um fundo sombrio - e esse fundo sombrio é exatamente aquilo que os pintores barrocos colocavam no fundo dos seus quadros. Você pega uma tela do Caravaggio: o fundo da tela é marrom e vermelho; e marrom e vermelho é o fundo sombrio. Ou melhor, todos os pintores barrocos produziram fundos sombrios nas suas telas - porque queriam mostrar que daquele fundo sombrio se ergueriam as percepções claras. Davi segurando a cabeça de Golias, de Caravaggio. Então, fundo sombrio é um conceito definitivo e a gente saber disso - saber transformar o fundo sombrio em conceito claro - torna a nossa vida mais bonita! Nós sabemos que somos constituídos por uma noite infinita e escura; e que dessa noite infinita e escura saem pequenas luzes que formam a nossa vida consciente. Então, todos nós nos identificamos no fundo sombrio e nos diferenciamos nas percepções claras. A alma são infinitas potencialidades. Olhem para um bloco de mármore: o bloco de mármore é cheio de veias, o mármore é cheio de veias. Aquelas veias são caminhos que as forças plásticas e as forças elásticas fazem no mármore. Mas as estátuas que estão em potência no mármore são as almas do mármore. E é exatamente isso que é a nossa alma! A nossa alma - ainda que ela seja finita - contém dentro dela o infinito do mundo inteiro."

Aula de 18/07/1995 – A filosofia e o cinema: para uma nova imagem do pensamento

“Na nossa sociedade a faculdade mais prestigiada, qual é? A inteligência! Essa é a mais... "Ele é inteligente!..." Ninguém diz: "Ele tem boa memória!..." (Risos...) Aí ele fica lá em cima porque a inteligência é uma faculdade de alto destaque no nosso mundo... - e a inteligência é um sistema lógico: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. - Mas se eu fizesse da inteligência o que ela disse, eu não diria Sócrates é mortal, eu diria - "As galinhas são verdes". Sócrates é mortal, então as galinhas são verdes. (Entendeu?) Agora, o pensamento não é sinônimo de inteligência. Então, é esse o movimento mais difícil - pensamento e inteligência não são a mesma coisa! E vocês vão conhecer no percurso da aula... porque a primeira complexidade do pensamento que eu dei para vocês foi a potência do pensamento de inventar e de criar... - então, vocês vão ver que pensamento e inteligência não são a mesma coisa. Por exemplo, ao pensamento nada impede que ele lide com aquilo que a inteligência detesta - por exemplo - a inteligência detesta os paradoxos; e o pensamento é apaixonado por eles. O pensamento é apaixonado pelos paradoxos: "Um paradoxo?... Onde?" (Risos...) A inteligência: "Um paradoxo?... Manda a polícia!"”

A pintura inflama a escrita, por Gilles Deleuze

"A tela não é uma superfície branca. Ela toda já está atulhada de clichês, mesmo que não sejam vistos. O trabalho do pintor consiste em destruí-los: o pintor deve passar por um momento em que não vê mais nada, por um desmoronamento das coordenadas visuais. É por isso que digo que a pintura integra uma catástrofe".

Aula 6 – 31/01/1995 – Tornar visível o invisível

"A diferença do movimento intenso para o movimento extenso é que o movimento extenso é o movimento da matéria, é o movimento feito pelos corpos, que saem de um lugar para outro lugar. O movimento intenso é o movimento da alma. É o movimento da alma. Esse movimento intenso não se atualiza no corpo ― ele se expressa. - O que quer dizer expressão? Expressão quer dizer a existência de alguma coisa que está escondida, algo que está escondido e que, por algum sintoma, torna-se visível. Expressão é tornar visível o invisível."

Aula de 28/04/1994 – O orgânico e o cristalino ou as faculdades em seu uso comum e em seu uso transcendente

28/04/1994 “A percepção, no seu uso comum, apreende tudo o que é sensível; e a memória no seu uso comum apreende o antigo presente. Agora, a memória no seu uso transcendente chama-se reminiscência e apreende o imemorial. Olha só que coisa interessante! E a sensibilidade no seu uso transcendente apreende o insensível. Agora, o pensamento no seu uso comum apreende as estruturas lógicas. O uso transcendente do pensamento apreende o impensável. Olha que coisa linda!”

Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

"O espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente. Ora, esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não há diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes - isso é o espírito. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões - o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza."