Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder e a política da identidade.

— Você sugere em seus livros que a liberação sexual não é tanto o colocar em jogo as verdades secretas sobre si mesmo ou sobre seu desejo quanto um elemento do processo de definição e construção do desejo. Quais são as implicações práticas desta distinção?

Foucault — O que eu gostaria de dizer é que, em minha opinião, o movimento homossexual tem mais necessidade hoje de uma arte de viver do que de uma ciência ou um conhecimento científico (ou pseudocientífico) do que é a sexualidade. A sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. A liberdade é algo que nós mesmos criamos — ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, por meio deles, instauram-se novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de ascender a uma vida criativa.

 — No fundo, é a conclusão à qual você chega quando diz que devemos experimentar tornar-nos gays e não nos contentar em reafirmar nossa identidade de homossexual.

Foucault — Sim, é isto. Nós não devemos descobrir que somos homossexuais.

— Nem descobrir o que isto queira dizer?

Foucault — Exatamente, nós devemos, antes, criar um modo de vida gay. Um tornar-se gay.

— E é algo sem limites?

Foucault — Sim, claramente. Quando examinamos as diferentes maneiras pelas quais as pessoas têm vivenciado sua liberdade sexual — a maneira que elas têm criado suas obras de arte, forçosamente constatamos que a sexualidade tal qual a conhecemos hoje torna-se uma das fontes mais produtivas de nossa sociedade e de nosso ser. Eu penso que deveríamos compreender a sexualidade num outro sentido: o mundo considera que a sexualidade constitui o segredo da vida cultural criadora; ela é mais um processo que se inscreve na necessidade, para nós hoje, de criar uma nova vida cultural, sob a condução de nossas escolhas sexuais.

— Na prática, uma das conseqüências dessa tentativa de colocar em jogo o segredo é que o movimento homossexual não foi mais longe do que a reivindicação de direitos civis ou humanos relativos à sexualidade. Isso quer dizer que a liberação sexual tem se limitado ao nível de uma exigência de tolerância sexual.

Foucault — Sim, mas é um aspecto que é preciso afirmar, de início, para um indivíduo ter a possibilidade — e o direito — de escolher a sua sexualidade. Os direitos do indivíduo no que diz respeito à sexualidade são importantes, e mais ainda os lugares onde não são respeitados. É preciso, neste momento, não considerar como resolvidos estes problemas. Desde o início dos anos sessenta, produziu-se um verdadeiro processo de liberação. Este processo foi muito benéfico no que diz respeito às mentalidades, ainda que a situação não esteja definitivamente estabilizada. Nós devemos ainda dar um passo adiante, penso eu. Eu acredito que um dos fatores de estabilização será a criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais, éticas e políticas. Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.

— Muitas das coisas que você diz lembram, por exemplo, as tentativas do movimento feminista, que deseja criar sua própria linguagem e sua própria cultura.

Foucault — Sim, mas eu não estou seguro de que nós devamos criar nossa própria cultura. Nós devemos criar uma cultura. Devemos realizar criações culturais. Mas aí, devemos nos embater com o problema da identidade. Desconheço o que faríamos para produzir essas criações e desconheço quais formas tomam essas criações. Por exemplo, eu não estou de todo certo de que a melhor forma de criação literária que possa atingir aos homossexuais sejam os romances homossexuais.

— De fato, nós mesmos não concordaríamos em dizer isso. Seria partir de um essencialismo que nós devemos precisamente evitar.

Foucault — É verdade. O que se entende, por exemplo, por “pintura gay”? E, entretanto, eu estou certo que a partir de nossas escolhas sexuais, a partir de nossas escolhas éticas podemos criar algo que tenha uma certa relação com a homossexualidade. Mas esta coisa não deve ser uma tradução da homossexualidade no domínio da música, da pintura — o que sei eu, novamente? — não penso que isso seja possível.

— Como você vê a extraordinária proliferação, depois dos dez ou quinze últimos anos, das práticas homossexuais masculinas, a sensualização, se você prefere, de certas partes até então negligenciadas do corpo e a expressão de novos desejos? Eu penso, é claro, nas características mais surpreendentes daquilo que chamamos filmes gueto-pornôs, os clubes de S/M [sadomasoquismo] ou de fistfucking. É isto uma simples extensão, em uma outra esfera, da proliferação geral dos discursos sexuais depois do séc. XIX, ou antes, tratam-se de desenvolvimentos de outro tipo, próprios do contexto histórico atual?

Foucault — De fato, o que gostaríamos de falar aqui é precisamente, penso eu, das inovações que implicam essas práticas. Consideremos, por exemplo, a “sub-cultura S/M”, para retomar uma expressão cara à nossa amiga Gayle Rubin[i]. Eu não penso que o movimento das práticas sexuais tenha a ver com colocar em jogo a descoberta de tendências sado-masoquistas profundamente escondidas em nosso inconsciente. Eu penso que o S/M é mais que isso, é a criação real de novas possibilidades de prazer, que não se tinha imaginado anteriormente. A ideia de que o S/M é ligado com uma violência profunda e que essa prática é um meio de liberar essa violência, de dar vazão à agressão é uma ideia estúpida. Nós sabemos muito bem que essas pessoas não são agressivas entre elas; que elas inventam novas possibilidades de prazer utilizando certas partes estranhas do corpo — erotizando o corpo. Eu acredito que temos uma forma de criação, de depósito de criatividade, dos quais a principal característica é o que chamo de dessexualização do prazer. A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis, tem, penso eu, verdadeiramente algo de falso. O que essas práticas de S/M nos mostram é que nós podemos produzir prazer a partir dos objetos mais estranhos, utilizando certas partes estranhas do corpo, nas situações mais inabituais, etc.

— A assimilação do prazer ao sexo é, então, ultrapassada.

Foucault — É exatamente isso. A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É aí que se limita, penso eu, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. Frustra-me, por exemplo, que se examine sempre o problema das drogas exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. Eu penso que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura.

— Enquanto fonte de prazer?

Foucault — Enquanto fonte de prazer. Devemos estudar as drogas. Devemos experimentar as drogas. Devemos fabricar boas drogas — suscetíveis de produzir um prazer muito intenso. O puritanismo, que coloca o problema das drogas — um puritanismo que implica que se deve estar contra ou a favor — é uma atitude equivocada. As drogas já fazem parte de nossa cultura. Da mesma forma que há boa música e má música, há boas e más drogas. E, então, da mesma forma que não podemos dizer somos “contra” a música, não podemos dizer que somos “contra” as drogas.

 — O objetivo é testar o prazer e suas possibilidades.

Foucault — Sim. O prazer também deve fazer parte de nossa cultura. É muito interessante notar, por exemplo, que, depois de séculos as pessoas em geral — mas também os médicos, os psiquiatras e mesmo os movimentos de liberação — têm sempre falado do desejo e nunca do prazer. “Nós devemos liberar o nosso desejo”, dizem eles. Não! Devemos criar prazeres novos. Então, pode ser que surja o desejo.

— É significativo que certas identidades se constituam em torno de novas práticas sexuais tais quais o S/M? Essas identidades favorecem a exploração dessas práticas; elas contribuem também para o direito do indivíduo de entregar-se. Mas elas também não restringem as possibilidades do indivíduo?

Foucault — Veja bem, se a identidade é apenas um jogo, apenas um procedimento para favorecer relações, relações sociais e as relações de prazer sexual que criem novas amizades, então ela é útil. Mas se a identidade se torna o problema mais importante da existência sexual, se as pessoas pensam que elas devem “desvendar” sua “identidade própria” e que esta identidade deva tornar-se a lei, o princípio, o código de sua existência, se a questão que se coloca continuamente é: “Isso está de acordo com minha identidade?”, então eu penso que fizeram um retorno a uma forma de ética muito próxima à da heterossexualidade tradicional. Se devemos nos posicionar em relação à questão da identidade, temos que partir do fato de que somos seres únicos. Mas as relações que devemos estabelecer conosco mesmos não são relações de identidade, elas devem ser antes relações de diferenciação, de criação, de inovação. É muito chato ser sempre o mesmo. Nós não devemos excluir a identidade se é pelo viés da identidade que as pessoas encontram seu prazer, mas não devemos considerar essa identidade como uma regra ética universal.

— Mas até agora a identidade sexual tem sido muito útil politicamente.

Foucault — Sim, ela é muito útil, mas é uma identidade que nos limita e, penso eu que temos (e devemos ter) o direito de ser livres.

— Queremos que algumas de nossas práticas sexuais sejam práticas de resistência no sentido político ou social. Como isso é possível, sendo que a estimulação do prazer pode servir para exercer um controle? Podemos estar seguros de que não haverá exploração desses novos prazeres? Estou pensando na maneira pela qual a publicidade utiliza a estimulação do prazer como um instrumento de controle social.

Foucault — Não se pode nunca estar seguro de que não haverá exploração. De fato podemos estar seguros de que haverá uma, e que tudo o que se tem criado ou adquirido, todo o terreno que se tem ganho será, em um momento ou outro, utilizado desta maneira. Parece ser assim na vida, na luta e na história dos homens. E eu não penso que isso seja uma objeção a todos esses movimentos ou a todas essas situações. Porém, você tem razão em assinalar que devemos ser prudentes e conscientes do fato de que devemos seguir adiante, ter também outras necessidades. O gueto S/M de São Francisco é um bom exemplo de uma comunidade que tem a experiência do prazer e que se constitui em torno deste prazer. Esta segregação, esta identificação, este processo de exclusão produz efeitos de retorno. Eu não ousaria usar a palavra “dialética”, mas não está muito longe disso.

— Você escreve que o poder não é somente uma força negativa, mas também produtiva; que o poder está sempre presente; e que onde há poder, há resistência, e que a resistência não é nunca uma posição de exterioridade em relação ao poder. Mas como não chegarmos à conclusão de que estamos presos no interior dessa relação e de que não podemos, de uma certa maneira, escapar?

Foucault — Na realidade, eu não penso que a palavra “presos” seja uma boa palavra. Trata-se de uma luta, mas o que quero dizer quando falo de relações de poder é que estamos, uns em relação aos outros, em uma situação estratégica. Por sermos homossexuais, por exemplo, estamos em luta com o governo e o governo em luta conosco. Quando temos negócios com o governo a luta, é claro, não é simétrica, a situação de poder não é a mesma, mas participamos ao mesmo tempo dessa luta. Basta que qualquer um de nós se eleve sobre o outro, e o prolongamento dessa situação pode determinar a conduta a seguir, influenciar a conduta ou a não-conduta de outro. Não somos presos, então. Acontece que estamos sempre de acordo com a situação. O que quero dizer é que temos a possibilidade de mudar a situação, que esta possibilidade existe sempre. Não podemos nos colocar fora da situação, em nenhum lugar estamos livres de toda relação de poder. Eu não quis dizer que somos sempre presos, pelo contrário, que somos sempre livres. Enfim, em poucas palavras, há sempre a possibilidade de mudar as coisas.

— A resistência está, então, no interior dessa dinâmica da qual se pode retirá-la?

Foucault — Sim. Veja que se não há resistência, não há relações de poder. Porque tudo seria simplesmente uma questão de obediência. A partir do momento que o indivíduo está em uma situação de não fazer o que quer, ele deve utilizar as relações de poder. A resistência vem em primeiro lugar, e ela permanece superior a todas as forças do processo, seu efeito obriga a mudarem as relações de poder. Eu penso que o termo “resistência” é a palavra mais importante, a palavra-chave dessa dinâmica.

— Politicamente falando, o elemento mais importante pode ser, quando se examina o poder, o fato de que, segundo certas concepções anteriores, “resistir” significa simplesmente dizer não. É somente em termo de negação que se tem conceitualizado a resistência. Tal como você a compreende, entretanto, a resistência não é unicamente uma negação. Ela é um processo de criação. Criar e recriar, transformar a situação, participar ativamente do processo, isso é resistir.

Foucault — Sim, assim eu definiria as coisas. Dizer não constitui a forma mínima de resistência. Mas, naturalmente, em alguns momentos é muito importante. É preciso dizer não e fazer deste não uma forma decisiva de resistência.

— Isso suscita a questão de saber de qual maneira, e em qual medida, um sujeito — ou uma subjetividade — dominado pode criar seu próprio discurso. Na análise tradicional do poder, o elemento onipresente sobre o qual se funda a análise é o discurso dominante, as reações a este discurso ou, no interior desse discurso, apenas os elementos subsidiários. Entretanto, se por “resistência” no seio das relações de poder entendemos mais que uma simples negação, não se pode dizer que certas práticas — o S/M lesbiano, por exemplo — são verdadeiramente a maneira na qual sujeitos dominados formulam sua própria linguagem.

Foucault — De fato. Eu penso que a resistência é um elemento das relações estratégicas nas quais se constitui o poder. A resistência se apoia, na realidade, sobre a situação à qual combate. No movimento homossexual, por exemplo, a definição médica de homossexualidade constituiu-se em um instrumento muito importante para combater a opressão da qual era vítima a homossexualidade no fim do século XIX e início do XX. Esta medicalização, que foi um meio de opressão, tem sido também um instrumento de resistência, já que as pessoas podem dizer: “se somos doentes, então por que nos condenam, nos menosprezam?”, etc. É claro que este discurso nos parece hoje bastante ingênuo, mas para a época ele foi muito importante.

Eu diria também, no que diz respeito ao movimento lésbico, em minha perspectiva, que o fato de que as mulheres tenham sido por séculos e séculos isoladas na sociedade, frustradas, desprezadas de várias maneiras lhes proporcionou uma possibilidade real de constituir uma sociedade, de criar um certo tipo de relação social entre elas, fora de um mundo dominado pelos homens. O livro de Lillian Faderman, Surpassing the love of men[ii], é, a este respeito, muito interessante. Ele levanta uma questão: Que tipo de experiência emocional, quais tipos de relações podem ser estabelecidas num mundo onde as mulheres não têm poder social, legal ou político? E Faderman afirma que as mulheres utilizaram esse isolamento e essa ausência de poder.

— Se a resistência é o processo que consiste em liberar as práticas discursivas, parece que o S/M lesbiano seja uma das práticas que, a uma primeira vista, pode-se declarar mais legitimamente práticas de resistência. Em que medida essa práticas e essas identidades podem ser percebidas como uma contestação ao discurso dominante?

Foucault — O que me parece interessante, no que diz respeito ao S/M lesbiano é que ele permite se liberar de um certo número de estereótipos da feminilidade que são utilizados no movimento lesbiano — essa estratégia se funda sobre a opressão de que foram vítimas as lésbicas, e o movimento a utilizou para lutar contra essa opressão. Mas é possível que hoje essas ferramentas, essas armas estejam ultrapassadas. É claro que o S/M lesbiano tenta se liberar de todos os velhos estereótipos da feminilidade, das atitudes de rejeição dos homens, etc.

— Em sua opinião, o que se pode aprender a respeito do poder — e além do mais também, do prazer — com a prática do S/M que é no fundo uma erotização explicita do poder?

Foucault — Pode-se dizer que o S/M é a erotização do poder, a erotização das relações estratégicas. O que me choca no S/M é a maneira como difere do poder social. O poder se caracteriza pelo fato de que ele constitui uma relação estratégica que se estabeleceu nas instituições. No seio das relações de poder, a mobilidade é o que limita, e certas fortalezas são muito difíceis de derrubar por terem sido institucionalizadas, porque sua influência é sensível no curso da justiça, nos códigos. Isso significa que as relações estratégicas entre os indivíduos se caracterizam pela rigidez.

Dessa maneira, o jogo do S/M é muito interessante porque, enquanto relação estratégica, é sempre fluida. Há papéis, é claro, mas qualquer um sabe bem que esses papéis podem ser invertidos. Às vezes, quando o jogo começa, um é o mestre e, no fim, este que é escravo pode tornar-se mestre. Ou mesmo quando os papéis são estáveis, os protagonistas sabem muito bem que isso se trata de um jogo: ou as regras são transgredidas ou há um acordo, explícito ou tácito, que definem certas fronteiras. Este jogo é muito interessante enquanto fonte de prazer físico. Mas eu não diria que ele reproduz, no interior de uma relação erótica, a estrutura de uma relação de poder. É uma encenação de estruturas do poder em um jogo estratégico, capaz de procurar um prazer sexual ou físico.

— Em que esse jogo estratégico é diferente na sexualidade e nas relações de poder?

Foucault — A prática do S/M desencadeia sobre a criação do prazer e existe uma identidade entre o que acontece e essa criação. É a razão pela qual o S/M é verdadeiramente uma subcultura. É um processo de invenção. O S/M é a utilização de uma relação estratégica como fonte de prazer (de prazer físico). Esta não é a primeira vez que as pessoas utilizam as relações estratégicas como fonte de prazer. Havia, na Idade Média, por exemplo, a tradição do amor cortesão, com o trovador, a maneira que se instauram as relações amorosas entre uma dama e seu amante, etc. Tratava-se, também, de um jogo estratégico. Este jogo é retomado, hoje, entre os garotos e garotas que vão dançar sábado à noite. Eles colocam em cena relações estratégicas. O que é interessante é que, na vida heterossexual, essas relações estratégicas precedem o sexo. Elas existem seguindo a finalidade de obter o sexo. No S/M, por outro lado, essas relações estratégicas fazem parte do sexo, como uma convenção de prazer no interior de uma relação particular.

Em um dos casos, as relações estratégicas são puramente sociais e é o ser social que é objetivado; enquanto que no outro caso, o corpo é o implicado. E é essa transferência de relações estratégicas que passam do ritual da corte ao plano sexual, o que é particularmente interessante.

— Em uma entrevista concedida há um ou dois anos à revista Gay Pied, você dizia que o que mais perturbava às pessoas nas relações homossexuais não é tanto o ato sexual em si, mas a perspectiva de ver as relações afetivas se desenvolverem fora dos quadros normativos.[iii] Os lugares e as amizades que se atam imprevisíveis. Você acha que é esse potencial desconhecido que as relações homossexuais portam, ou você diria que essas relações são percebidas como uma ameaça direta em oposição às instituições sociais?

Foucault — Se há uma coisa que me interessa hoje é o problema da amizade. No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais — o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, foi desaparecendo esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI, encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso.

O exército, a burocracia, a administração, as universidades, as escolas, etc. — no sentido que assumem essas palavras nos dias de hoje — não podiam funcionar diante de amizades tão intensas. Podemos ver em instituições um esforço considerável por diminuir ou minimizar as relações afetivas. Neste caso, em particular, nas escolas. Quando se inauguraram as escolas secundárias que acolheram alguns jovens rapazes, um dos problemas foi o de saber como se podia não somente impedir as relações sexuais, claramente, mas também impedir as amizades. Sobre o tema da amizade, pode-se estudar, por exemplo, as estratégias das instituições jesuítas — eles estavam cientes da impossibilidade de supressão da amizade, eles tentaram então utilizar o papel que tinha o sexo, o amor, a amizade e de limitá-los. Deveríamos agora, depois de estudar a história da sexualidade, tentar compreender a história da amizade. É uma história extremamente interessante.

E uma de minhas hipóteses — a qual não apresentaria, se eu tentasse prová-la, nenhuma dificuldade — é que a homossexualidade (pelo que eu entendo a existência de relações sexuais entre homens), torna-se um problema a partir do séc. XIX. A vemos tornar-se um problema com a polícia, com o sistema jurídico. Penso que se ela tornou-se um problema, um problema social, nessa época, é porque a amizade desapareceu. Enquanto a amizade representou algo de importante, enquanto ela era socialmente aceita, não era importante que os homens mantivessem entre eles relações sexuais. Não se pode simplesmente dizer que eles não as tinham, mas que elas não tinham importância. Isso não tinha nenhuma implicação social, as coisas eram culturalmente aceitas. Que eles fizessem amor ou que eles se abraçassem não tinha a menor importância. Absolutamente nenhuma. Uma vez desaparecida a amizade enquanto relação culturalmente aceita, a questão é colocada: “o que fazem, então, dois homens juntos?” Neste momento o problema apareceu. Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou têm relações sexuais, isso é percebido como um problema. A este respeito penso que a desaparição da amizade enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser declarada como problema social, político e médico fazem parte do mesmo processo.

— Se o que importa hoje é explorar as novas possibilidades da amizade, é preciso frisar que em um sentido amplo, todas as instituições sociais são feitas para favorecer as amizades e as estruturas heterossexuais, com o menosprezo às amizades e estruturas homossexuais. O verdadeiro trabalho não é instaurar novas relações sociais, novos modelos de valores, novas estruturas familiares etc.? Todas as estruturas e as instituições que caminham juntas com a monogamia e com a família tradicional são uma das coisas que os homossexuais não tem facilmente acesso. Que tipo de instituições devemos começar a instaurar com a finalidade não somente de defender-nos, mas também de criar novas formas sociais que constituirão uma solução efetiva?

Foucault — Quais instituições? Não tenho uma ideia precisa. Claramente, penso que seja totalmente contraditório aplicar para esse fim e esse tipo de amizade o modelo da vida familiar ou as instituições que caminham junto com a família. Mas é verdade que, em função de algumas relações que existem na sociedade serem formas protegidas de vida familiar, constata-se que algumas variantes não são protegidas, são ao mesmo tempo, mais ricas, mais interessantes e mais criativas do que essas relações. Mas, naturalmente, elas são também bem mais frágeis e vulneráveis. A questão de saber quais tipos de instituições devemos criar é uma questão capital, mas eu não posso trazer a resposta. Nosso trabalho, penso eu, é tentar elaborar uma solução.

— Em que medida queremos ou temos necessidade de que o projeto de liberação dos homossexuais seja um projeto que, longe de se contentar em propor um percurso, pretenda abrir caminhos? Dito de outra forma, sua concepção de política sexual recusa a necessidade de um programa a ser seguido, em função de preconizar a experimentação de novos tipos de relação?

Foucault — Penso que uma das grandes constatações que temos feito desde a Primeira Guerra é essa do fracasso de todos os programas sociais e políticos. Percebemos que as coisas não se produzem nunca como os programas políticos querem descrever; e que os programas são sempre, ou quase sempre, conduzidos seja a abusos, seja a uma dominação política por parte de um grupo, quer sejam técnicos, burocratas ou outros. Mas uma das realizações dos anos sessenta e setenta — que considero como realizações benéficas — é que certos modelos institucionais têm sido experimentados sem programas. Sem programa não quer dizer cego — enquanto cegueira de pensamento. Na França, por exemplo, nos últimos tempos, tem-se criticado bastante o fato de que os diferentes movimentos políticos em favor da liberdade sexual, das prisões, da ecologia, etc., não têm um programa. Mas, penso, não ter programa pode ser ao mesmo tempo, muito útil, muito original e muito criativo, se isso não quer dizer não ter reflexão real sobre o que acontece ou não se preocupar com o que é impossível.

Depois do século XIX, as grandes instituições políticas e os grandes partidos políticos confiscaram o processo de criação política, quero dizer com isso que eles têm tentado dar à criação política a forma de um programa político, com a finalidade de se apoderar do poder. Penso que é necessário preservar o que se produziu nos anos sessenta e no início dos anos setenta. Uma das coisas que é preciso preservar, em meu ponto de vista, é a existência, fora dos grandes partidos políticos, e fora do programa normal e comum, uma certa forma de inovação política. É um fato que a vida cotidiana das pessoas tem mudado entre o início dos anos sessenta e agora; minha própria vida é testemunho disso. Essas mudanças, evidentemente, não as devemos aos partidos políticos, mas aos numerosos movimentos. Esses movimentos têm verdadeiramente transformado nossas vidas, nossa mentalidade e nossas atitudes, assim como as atitudes e a mentalidade de outras pessoas — as pessoas que não pertencem a esses movimentos. E isso é algo de muito importante e muito positivo. Eu repito, não são essas velhas organizações políticas tradicionais e normais que permitem esse exame.

 


A versão do presente texto foi publicado em: FOUCAULT, Michel. Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder e a política da identidade. Entrevista com B. Gallagher e A. Wilson. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento. Revista Verve, Nº20, 2011.

Notas

[i] Gayle Rubin. “The Leather Menace: Comments on Politics and S/M”, in Samois (ed.), Coming to power. writings and graphics on lesbian S/M. Berkeley, 1981, p. 195.

[ii] L. Faderman. Surpassing the love of  men. New York, William Morrow, 1981.

[iii] Ver “De l’amitié comme mode de vie” [Da amizade como modo de vida]. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux, publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39.

Aula de 20/08/1989 – Nietzsche: A Individuação e a identidade ou A conquista da diferença

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 11 (Conceitos) e 14 (Literatura) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

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LADO A

[…] Então, eu tenho que fazer uma montagem, e vocês precisam de um pouco de paciência para, aos poucos, irem compreendendo essas idéias e poderem utilizá-las. Se, por exemplo, eu começasse essa aula dizendo assim: “Nietzsche é o pensador do poder” ― vocês pensariam que tinham compreendido, mas não teriam, (viu?). Então, o que eu vou fazer nesta aula é exatamente dar os fundamentos para que vocês possam passar por esse filósofo bastante difícil de ser pensado. (Muito bem!).

Eu vou começar colocando uma ideia um pouco vaga, um pouco precisa ― é a ideia de força. Ela vai passar inicialmente com certa imprecisão, porque neste instante não há como dominá-la. (Viu?). Eu vou colocar essa ideia: a ideia de força… Aqueles que sabem alguma coisa de física, podem utilizar as quatro forças da física; mas, inicialmente, essa ideia de força irá passar um pouco vaga. E em seguida, na obra de Nietzsche, aparece a ideia de poder. Logo, a ideia de força e a ideia de poder não são sinônimas, não fazem uma sinonímia. Força é uma coisa, poder é outra. E o que Nietzsche chama de poder é exatamente isso: uma relação entre as forças. É como se fosse uma consequência, a ideia de poder.

Para vocês entenderem melhor: nós costumamos pensar que a ideia de poder é alguma coisa que nós possuímos. (Eu estou explicando por Foucault!) Nós costumamos confundir a ideia de poder com a ideia de riqueza, porque riqueza é algo que se possui. E nós costumamos pensar que poder também seria algo que nós possuímos. E o Foucault está dizendo que poder não é isso; que poder é uma consequência das relações entre forças. O que torna a ideia de poder uma ideia relacional. De maneira nenhuma o poder é uma unidade: o poder é uma relação de forças. Se nós encontrarmos duas forças que se encontraram, essas forças produzem como consequência o poder. (Eu acho que ficou mais ou menos claro, não é?).

A ideia de poder: a grande dificuldade que nós temos para entender essa ideia é que o modelo de ideia de poder que nós temos é o modelo marxista. E esse modelo é a pressuposição de que poder é algo que se tem. E o que Nietzsche está dizendo não é isso; ele está dizendo que o poder é uma consequência das relações entre forças. (Entenderam, não é? Muito bem!)

Se o poder é consequência de relações entre forças, a ideia de poder só aparece a partir das relações de forças. Não se poderia pensar poder se não houvesse uma relação de forças. (O que você achou, Márcia? Vocês acharam que essa ideia ficou bem?).

Essa ideia é muito rigorosa. Ou seja, não vai variar daí. Sempre que eu utilizar a ideia de poder eu estarei chamando poder de relação de forças. Sempre; sempre!

Através disso, vocês passam a verificar que a clássica ideia que nós temos de que o poder é alguma coisa que o Estado possui, ou até melhor, alguma coisa que alguns possuem e muitos querem, está rompida. Poder não é isso. Poder é sempre a relação entre, pelo menos, duas forças. (Foi bem assim? Muito bem!).

A primeira hipótese que vocês têm que fazer, (novamente eu tenho que explicar para vocês), é que poder para Nietzsche não é uma substância, é uma relação. Então, onde houver relação e forças sempre emerge o poder. O poder não é uma unidade, não é uma coisa em si mesma. Não há o poder como unidade, só há poder como relação ― como essa relação de forças. (Eu fico em dúvida se correu bem, ouviu? Se vocês já conseguiram entender a ideia que estou colocando. Como é que você foi?).

Esse modelo que eu estou colocando ― de que o poder é uma relação entre forças ― é do Nietzsche. Nietzsche nunca vai pensar de outra maneira.  Ele só pensa dessa maneira. E é exatamente isso daí que serve de instrumento para a obra de Michel Foucault. Foucault também vai pensar assim: o poder como uma relação entre, pelo menos, duas forças. (Pronto!).

Agora, o Nietzsche considera que o poder é o fundamento da Natureza. A natureza ― qualquer coisa que exista ― se explica pelo poder. Se qualquer coisa se explica pelo poder, qualquer coisa pressupõe relações de forças. As relações de forças são os movimentos originários da natureza. Seriam esses movimentos das forças que a natureza tem que produziriam o campo de poder. Então, para Nietzsche, por exemplo, o meu corpo ― esse corpo que eu tenho ― é constituído por relações de forças. Logo, meu corpo é dotado de poder. (Entenderam?).

Todo e qualquer corpo para ele, não importa o tipo de corpo (eu já vou acrescentar a essa ideia de corpo), sempre que nós pensarmos um corpo, um corpo é produto de relações de força. Então, para a tese do Nietzsche, não há sequer um corpo que não tenha poder. E, em seguida, ele diz que tudo aquilo que existe na natureza é um corpo. Se tudo aquilo que existe na natureza é um corpo, tudo que existe na natureza tem poder. (Eu não sei se foi bem…).

Tudo que existe na natureza tem poder. Por exemplo, o Estado é um corpo. A Igreja é um corpo. Um átomo é um corpo. O discurso é um corpo. Então, tudo isso que está aí é constituído por relações de forças. E se é constituído por relações de forças, todos os corpos que nós encontrarmos são dotados desta característica: dotados de poder.

(Eu ainda tenho dúvida se eu fui bem, hein? Porque a entrada nessas conceituações novas ― e eu sempre tenho muito cuidado quando eu entro em conceituações novas, inclusive insistindo se vocês gostariam de falar, se as coisas se passaram bem, para eu poder prosseguir…).

Porque, a partir de agora, sempre que eu utilizar a ideia de poder vai ser essa: o poder é uma relação de forças. O que implica em dizer que não haveria sequer um corpo sem poder. Isso marca uma diferença muito grande no entendimento da prática do poder. Porque nós sempre pensamos exatamente o contrário, que há alguma coisa que tem poder e outra que não tem. Ele aqui está dizendo que não: que tudo que existe tem poder, porque tudo que existe é um corpo e todos os corpos são constituídos por relações de forças. (Quer falar alguma coisa?)

Aluno: Você falou que o poder não é alguma coisa que se possui, mas não é uma [inaudível] social também?

Cláudio: Ele é uma relação. Uma relação. Eu então vou explicar essa diferença para vocês, ouviu? Há uma diferença entre um objeto relacional e um objeto substancial. Um objeto substancial é aquilo que é em si mesmo e o objeto relacional depende de dois relatas, de duas coisas que se relacionam. O poder para ele [Nietzsche] não é uma substância, é uma relação. Se houver relação há o poder, se não houver não há o poder. Mas ele acrescenta essa ideia difícil que estou colocando para vocês, que todo corpo é produto de uma relação de forças. Logo, todo corpo possui o poder. A dificuldade de se entender isso é que o modelo de ciência política que nós temos é um modelo que não pensa o poder assim. No modelo de política que nós temos, o poder é pensado como uma substância, é alguma coisa. Em Nietzsche o poder não é alguma coisa, é sempre uma relação, uma relação de forças. (Certo? Eu vou dar por entendido… Viu?).

Aluna: E aí como é que fica a questão do domínio?

Claudio: Depois eu explico a questão do domínio, (certo?).

O que vocês verificaram agora é que eu coloquei que todos os corpos que existem precisam e dependem das relações de forças. Não existe sequer um corpo que não seja produto de uma relação de forças. (Entenderam?). Todo e qualquer corpo é uma relação de forças. Então nós teríamos aqui uma questão já muito clara: o mundo é constituído de corpos e esses corpos são produzidos pelas relações de forças. (Eu ainda estou com critérios de dificuldades aqui para haver entendimento…). Por exemplo, aqui está esse corpo. Quem produziu esse corpo? Relações de forças. Todo e qualquer corpo que emergir emerge das relações de forças, o que coloca no corpo o poder. O corpo tem poder. Todo e qualquer corpo tem poder. Mas o originário não são os corpos, o originário são as relações de forças. São essas relações de forças que vão fundar os corpos que existem. (Como é que você achou? Não está bem, não é?).

Aluno: Não. É difícil o corpo, porque você também colocou o discurso… [inaudível]

Claudio: Porque eu coloquei para vocês que tudo aquilo que existe, sem exceção, é um corpo. Então, o discurso é o quê? Corpo? O Estado é o quê? Corpo?  Qualquer coisa que existir, um átomo, é um corpo? Qualquer coisa que existir é um corpo. Mas o corpo não é originário, é secundário. Ele depende das relações de forças. Essas forças que, provavelmente, são ainda enigmáticas para nós, elementos de compreensão ainda difícil, seriam o fundamento da aparição dos corpos na natureza. (Vamos fazer uma coisa, vamos fazer um esforço por aqui. Talvez esse esforço melhore a gente).

Vamos pensar um pensamento religioso. Um pensamento religioso pressupõe que a existência de corpos é a criação de Deus. Deus criaria os corpos. O Nietzsche abandona Deus e diz que os corpos emergem por relações de forças. Então, ele está dizendo que a natureza tem como fundamento dela as forças. Existiriam forças. Essas forças não têm nome. São apenas forças que existem na natureza e através dessas forças os corpos vão aparecendo. (Eu vou dar uma seguida para melhorar, vou dar uma seguida). Vão aparecendo os corpos. Eu vou dar um sinônimo relativo: corpo é sinônimo de forma. Corpo é uma forma. Por exemplo, isto é um corpo, logo isto é uma forma. Os corpos ou as formas são a estrutura do mundo ― o mundo é constituído de corpos. O mundo é constituído de formas. Mas essas formas são produzidas por relações de forças. O que implica em dizer ― e aí já começa a ficar claro ― que essas formas só se mantêm se a mesma relação de forças se mantiver. Mudou a relação de forças, as formas desaparecem. As formas precisam, para existir, dessas relações de forças, mostrando que todas as formas que emergem na natureza são precárias. Elas emergem e desaparecem através da mudança das relações de forças. Ou seja, não haveria forma como origem, a forma é uma consequência. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo, meu corpo, esta mesa, do Estado, do campo social, do campo político, do discurso… tudo que emerge no mundo é originário dessa relação de forças. Pelo que o Nietzsche está dizendo, o que nós vamos deduzir daí é que na natureza não existe nenhuma unidade eterna, porque essas formas são sempre precárias; elas dependem das relações de forças. (Acho que ficou difícil).

Aluna: Por que não o contrário? Por que as relações de forças, para serem expressadas, dependem exatamente disso? Por que as relações de forças precisariam de um corpo para se expressar?

Claudio: Não!… Não. O que ele está fazendo… inicialmente, com base no que nós temos, é que ele está constituindo um mundo fragmentário, ele está construindo um mundo de elementos micros. Ele está dizendo que tudo que existe no mundo são os corpos ― e esses corpos não são originários, eles são produtos de forças que se encontram. Os corpos emergem a partir da relação de forças. Isso daqui é um rompimento com a metafísica clássica, porque a metafísica clássica pressupõe que o primário são as formas. Ele está invertendo…ele está dizendo que qualquer forma que exista na realidade, qualquer forma pressupõe essa relação de forças. Ele jogou o campo das formas para a precariedade. Ou seja, (ainda está difícil, não é?) ele negou a ideia de que há uma natureza, não existe natureza, o que nós chamamos de natureza são essas formas precárias. Porque o que tem no fundo da natureza são as forças, sem nenhuma forma. Mas são essas forças que vão produzir as formas do mundo: uma árvore, uma montanha, o Estado, a sociedade, o discurso… Todas essas formas, que vão emergindo no mundo, são originárias nessas forças. E essas forças, elas mesmas, não têm formas. Elas não são formais. As formas emergem…

O que ocorreu aqui é a quebra da ideia de que possa haver alguma forma eterna. Não há nenhuma forma eterna. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo… E o que é uma forma? O corpo. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo é precária. O que quer dizer precária? Ela dura, qualquer forma dura enquanto se mantiver a mesma relação de forças. Modificada essa relação de forças, aquela forma desaparece. Por exemplo, o que é a morte? Quem morre? Quem morre é uma forma. A morte é a morte das formas, não é a morte das forças. Agora, a morte é quando um tipo de relação de forças se desfaz e aquela forma desaparece. (Ainda está difícil, não é? Hein, Márcia? Estão entendendo?)

Vejam o que eu disse: toda forma se tornou precária.

― O que quer dizer uma forma precária? Nenhuma forma é primária nem nenhuma forma tem eternidade existencial: toda e qualquer forma existe em função das relações de forças que a produziram.

Então, aqui, pode-se pensar na mudança de um campo social para outro simplesmente como uma mudança das relações de forças, aparecendo outros tipos de formas. O que o mundo superficial, o mundo em que nós vivemos… é um mundo em que contatamos com formas; e temos a ilusão de que essas formas são unidades. Nenhuma forma é unidade: toda e qualquer forma é produto dessas relações de forças ― a forma do Estado, a forma da sociedade, a forma do discurso, qualquer coisa; tudo que aparece no mundo é uma forma que não tem nenhuma originalidade: é sempre uma emergência, produto de forças que se relacionaram. (Como é que foi, Chico? Eu não tenho nenhuma pressa, hein?… Nenhuma pressa!)

Aluna: Não tem categoria de origem nessa… [inaudível]

Claudio: Forma não tem origem, forma tem emergência. (Vocês entenderam a distinção de emergência de origem?).

Porque nós pensamos, por exemplo, que há seres que têm uma origem, um princípio e vão se desenvolvendo ao longo da história, ao longo do tempo. Aqui não tem nada disso. Tudo que aparece, aparece emergindo por uma relação de forças. Aquela relação de forças desaparece, aquela forma desaparece. Imediatamente.

Aluno: As forças são eternas?…

Claudio: Essas forças, que são a nossa grande complicação, são eternas.

Aluno: Quer dizer, os corpos… [inaudível]. Se necessariamente os corpos desaparecem o que está provocando essa mudança nas forças, na relação de forças?

Claudio: Que é o nosso grande problema! É entender a mutação nas relações de forças, porque essas forças vão ficar mudando, o que são exatamente essas forças… É exatamente o nosso problema (Certo?). Antes de entrar nesse problema ― o de maior dificuldade que nós temos, que são as mutações que essas forças fazem ― nós entendemos já definitivamente que o mundo das formas, que é o mundo dos corpos, não tem identidade ontológica: são apenas acontecimentos de superfície. Porque a metafísica do Nietzsche é a metafísica das forças, e não uma metafísica das formas. Não haveria formas originais que se processariam na história. Nenhuma forma original. Todas as formas que emergem são produtos das relações de forças. (Eu vou seguir um pouquinho…).

Através disso, se pensarmos politicamente, se pensarmos no campo político e verificarmos, com uma clareza muito grande, que aparecem objetivos de manutenção de determinadas formas, objetiva-se manter determinadas formas… Como a do Estado, por exemplo, que é uma forma e tem o objetivo de permanecer. Para ele, permanecer requer a manutenção de um tipo de relação de forças. O que se passa, então, é que você passa a compreender a natureza, não como se ela tivesse uma verdade, mas a natureza como jogos estratégicos. São jogos de estratégia. Por exemplo, um pensador como Maquiavel diz claramente na obra dele que quando você quer manter uma determinada forma, o que você tem que fazer são estratégias de forças, para que aquela forma perdure. Nada no universo perdura se as forças não mantiverem aquilo. Então, no mundo não haveria verdade formal. O que haveria no mundo seriam os jogos de forças. Seria tudo um jogo de forças, mas as forças fazendo as formas aparecerem. Mas essas formas, todas elas ― eu, este copo, seja o que for ― são formas precárias. A precariedade da forma é que uma forma só dura no tempo se a mesma relação de forças durar. Modificada aquela relação de forças, aquela forma vai desaparecer. Qual é a primeira implicação política disso? A primeira implicação política é que essa forma que eu tenho (ou essa forma que ela tem, ou essa forma que nós temos) só se sustenta porque forças estão agindo por baixo. Ou seja, para que eu tenha essa forma que eu tenho é necessário que haja, permanentemente, um tipo de relação de forças. Você não pode ter nenhum ser, nenhuma forma que se mantenha no universo, sem que a ação das forças se dê. Se vocês pensarem isso, passam a pensar o campo social como uma permanente prática de relações de forças. Relações de forças para produzir aqueles tipos de formas. Se aquelas relações de forças pararem ou se modificarem outras formas vão aparecer. (Não sei se vocês conseguiram entender isso).

Por essa tese do Nietzsche, não se pode mais entender nada como sendo forma substancial ― não há forma substancial! Para se manter aqui, tudo pressupõe as forças que conservam aquilo, determinados tipos de força conservando a existência daquela forma. E isso vocês podem aplicar no campo político ou no campo da vida: se, por acaso, as forças do meu corpo se defrontarem com determinados tipos de forças que não são as atuais, essa forma vai desaparecer ― é a morte. A morte é a morte das formas e o deslocamento das forças. Essas forças são eternas e as formas são passageiras. (Acho que ficou difícil, hein, Márcia?).

Aluna: [inaudível] eu estou pensando no conceito de dínamis, no Aristóteles, [inaudível] em Nietzsche e no clinamenen de Lucrécio. Têm alguma coisa a ver, não é?

Claudio: Pode… você pode aproximar! Eu acho que a dinamis aristotélica não dá conta. Não dá conta. Não dá conta, pode dar a ilusão de dar conta, mas não dá… O clinamen, eu acredito que você pode aplicar; pode aplicar sem dúvida nenhuma, porque essas forças não param de fazer deslocamentos…

Aluna: O clinamen… [inaudível]

Claudio: O clinamen eu já dei para vocês aqui: eu falei muito no clinamen nas aulas do Lucrécio. Você pode aplicar o clinamen; mas a dinamis, eu acho que não. A ideia de potência do Aristóteles não entra aí, ela não passa. Porque o que Nietzsche está colocando e, sobretudo, de uma maneira muito assustadora, é que, em nenhum momento, nós poderemos prever qual é a forma que vai se conservar,  nem qual é a forma que vai aparecer. Nós não podemos prever, porque não é no campo das formas que se dá o entendimento da natureza. O entendimento da natureza se dá no campo das forças. E essas forças não são regidas por nenhuma lei, não são regidas por leis ― são estratégicas: elas visam afirmar-se. Então, você não pode, de maneira nenhuma, antever que tipo de formas vai aparecer, porque, subitamente, pode aparecer uma forma nova. (Não sei se vocês me entenderam…). Não há como, pensando o mundo das forças, introduzir uma lei: não há lei nesse campo das forças. O que as forças fazem está inteiramente no regime do acaso. No regime do acaso.

Aluno: As formas, então, não são eternas; elas são…

Claudio: Precárias: inteiramente precárias!

Aluno: Há a evolução de uma forma, não é isso? O desaparecimento de uma, para o surgimento de outra forma

Claudio: Olha, você já viu que a teoria do tempo, a teoria da história, a teoria da evolução… entraram em crise? Três temas já em crise!

Aluno: Agora, partindo disso daí, olha só, se não existe evolução, … [inaudível]   Enquanto uma forma se mantém, as forças que atuam… [inaudível]  da linguagem?

Claudio: Elas estão se reproduzindo ali, estão se reproduzindo e aí você pode pensar uma evolução.

Aluna: É uma ruptura, não uma evolução!…

Claudio: Não, quando uma determinada força se mantém produzindo uma forma, você pode pensar no crescimento daquela forma; pode pensar num termo evolutivo ali dentro.

Aluna: É o caso do Bergson, não é?

Claudio: Sim, mas não precisa aplicar o Bergson. A pergunta dele… Uma determinada forma emerge, dada aquela forma que está ali, você pode perfeitamente pensar numa evolução daquela forma, mas o que você não pode é pensar evolutivamente de uma forma para outra. Isso não! De uma forma para outra, há um corte de descontinuidade. Há continuidade numa forma. Pega-se um nietzscheano: o Foucault, por exemplo. Quando o Foucault pensa o nascimento do discurso psiquiátrico (talvez não esteja muito claro), ele admite que ele tem uma relação com o discurso da medicina. Então, é uma mesma forma se modificando, até mesmo evoluindo. Mas, para nascer, o discurso psiquiátrico pressupõe novas relações de forças. Você aqui teria duas linhas. Você teria as formas emergindo por causa de certas relações de força, mas podendo admitir certa continuidade de uma forma. Uma forma tendo uma certa continuidade. Mas o que fundamenta mesmo esse pensamento é a teoria da descontinuidade. Não haveria, por exemplo, entre o discurso psiquiátrico e o velho discurso da medicina nenhuma relação, a não ser nominal: os mesmos nomes. Mas seriam outras relações de forças.

Aluna: Não é um desenvolvimento.

Claudio: Não é um desenvolvimento! Ele emerge; aquilo emerge ali, vai emergindo ali. Na há dúvida de que a gente pode encontrar uma pequena continuidade. Mas não é por essa pequena continuidade que aquilo vai-se explicar, porque aquilo vai se fundamentar pelas novas relações de forças que apareceram. Então, aparece aquele tipo de forma. Por exemplo: do século XVII para cá, deu-se no ocidente uma prática de proletarização. Começou-se a produzir proletários, subjetividades proletárias. São determinados tipos de forças que produziram esse tipo de subjetividade. Não se pode, o que seria até risível, pensar na evolução do proletário. Seria até cômico (não é?): Ah! Os proletários vão evoluir!  Não, isso daí é um determinado tipo de força que produz. Então, o que eu estou dizendo ― eu vou até aplicar uma coisa um pouco confusa ― que é nós pensarmos o tempo ou a história como descontínua. Um determinado campo social emerge por causa de determinadas relações de forças. Outro campo social vai emergir por causa de outras relações  de forças, cada um produzindo as suas formas. Talvez não aja nenhum parentesco entre mim e o medieval. Porque nós somos duas formas completamente diferentes.

Aluna: O Claudio,… [inaudível] Bergson….

Claudio: Mas aqui eu estou falando do Nietzsche, não é? Você tem que saber que todos os filósofos têm a sua originalidade. Se o Nietzsche não tivesse originalidade ele recobriria integralmente o Bergson, não precisaria falar do Nietzsche.

Aluna: Não… Você pode responder isso para mim?

Claudio: O que você quer saber?

Aluna: [inaudível] como o Bergson libera o tempo, […] porque… se liberar o tempo pressupõe uma certa descontinuidade?

Claudio: Não… não sei porque você está dizendo isso (ouviu, Ana?), esse deslocamento  integral que você está fazendo do Nietzsche, deslocamento integral do Nietzsche. Eu já expliquei inclusive a forma como contínua. Você pode admitir a continuidade de uma forma, que é exatamente o modelo do Maquiavel. O Maquiavel quando pensa a questão política, ele coloca com uma clareza absoluta: se você quer que alguma coisa perdure, você tem que aplicar forças ali para aquilo perdurar. Porque nada no mundo traz uma lei de duração. Nada tem lei de duração. Não há uma lei, não há um Deus, não há um princípio, não tem nada garantindo aquilo. Aquilo só vai permanecer ali se as forças fizerem aquilo permanecer. O que implica em dizer que o campo das formas, o campo da precariedade das formas, nos leva para um mundo muito difícil de ser vivido, muito difícil de ser entendido. Inclusive, essas práticas exacerbadas de segurança que nós executamos são muito tolas, porque o real, a natureza enquanto tal se constitui por essas relações de forças. O que nós temos que fazer é aprender a administrar essas forças para as formas que nós queremos e mantê-las.  Não há aqui moral, não há aqui religiosidade, é todo um conjunto de um mundo constituído nesse campo de forças. (Ana, depois de hoje, fora da aula. Tá?).

Aluno: Claudio, então a gente vai pressupor que os corpos guardam energia….e as forças… [inaudível]

Claudio: Não, não. São as próprias forças que vão agir nas forças. Porque toda a ideia que estou passando para vocês é uma ideia de singularidade, não é o corpo, são as forças ― e depois eu vou passar a explicar o que vêm a ser essas forças. Porque veja aqui o resultado que vai dar: você pega uma criança, por exemplo; o que seria uma criança exatamente? Seria um campo de forças. Se você quer criar aquela criança, quer dar àquela criança uma subjetividade, o que você faz? Você estimula para que saiam determinadas forças para constituir uma forma. A minha constituição, a dele e de qualquer um de nós não é por um processo de repressão de formas; mas é por um processo de estimulação de forças. Estimulam-se as forças que interessam e dali vai saindo uma determinada forma. As formas vão sendo produzidas. Então, a alma que eu tenho, o corpo que eu tenho ― tanto a alma como o corpo ― são consequência dessas relações de forças. Não haveria uma alma em primeiro lugar, um corpo em primeiro lugar que seriam reprimidos por um campo político. Nada disso! Tudo se constitui por esse encontro de forças, aí as formas são produzidas. (Está difícil? Com é que vocês foram?).

Você pega, por exemplo, o Michel Foucault ― que é um nietzscheano; e o Foucault diz (e isso, de saída, vai matar a gente!) que um campo social não se constitui por repressão. Um campo social, diz ele, se constitui por relações de forças: não há repressão. Olha o que eu estou dizendo: não há repressão. Não há repressão, para quê? Não há repressão para a produção das formas; é por relação de forças que as formas aparecem. Mas na hora em que aparece uma forma, aí pode haver repressão naquela forma. Quando o polícia bate com o cassetete na minha cabeça ele está batendo com o cassetete numa forma, mas aquela forma já é produto de uma relação de forças. Então, o campo social não é originariamente formal. Originariamente, ele é uma relação de forças. Aí vão aparecendo as formas e as repressões se dão nas formas. (Não sei se foi bem… Acho que isso foi claro…).

Reprimem-se formas, formas acabadas. O homem que eu sou, isso é reprimível ― mas o homem que eu sou foi produzido por essas relações de forças.

Aluna: O inconsciente também seriam essas forças, não é?

Claudio: O inconsciente são essas forças. Exatamente essas forças. Isso que seria o inconsciente. O inconsciente é aquilo que não para de produzir reais, formas. Ele não para de produzir formas porque nós não teríamos ― e isso que talvez esteja dificultando tudo ― não teríamos nenhuma forma originária. Não há forma originária. Toda e qualquer forma emerge por essas relações de forças!

― O que é uma criança? A criança é uma forma. Essa forma da criança, que nós temos hoje, basta estudar um historiador chamado Philippe Ariès, que vocês vão verificar que essa forma da criança hoje não é a mesma do século XVII. No século XVII era outra forma. Por quê? Porque as estimulações de forças geraram outro tipo de forma. Não existe o objeto formal como identidade metafísica. O objeto formal é exatamente a superfície do mundo. (O que você achou? Fala.)

Aluno: A ideia de força é causa? [inaudível] causalidade?

Claudio: As forças não são… a ideia de causa clássica não passa. Porque uma força não é causa de nada: o que vai constituir as formas são as relações de forças.

(Enquanto vocês não entenderem integralmente, eu não posso sair disso daqui, viu? Porque esse entendimento é que vai gerar teorias como a teoria do dentro, a teoria do fora, a teoria da dobra, utilizadas por nietzscheanos modernos ― coisas lindíssimas que vão nascer aqui e que nós só vamos poder entender se nós tivermos uma compreensão completa dessa ideia de força.

Aluna: [inaudível] a relação de forças seria uma trama….

Claudio: Você gosta desse nome, Ana? Tá bom, manda lá! Trama. Uma trama. É uma trama. Tá bom, trama… pronto! Ana, presta atenção, não importa o nome que você dê a alguma coisa. O nome que você dá só tem algum sentido dependendo da força que apreendeu aquele nome.

Aluno: [inaudível] forças… […] formas diferenciadas… […]

Claudio: Físicas, naturais. São a natureza. Porque vocês vão ver ― e aqui já começou a ficar claro ― que humano é forma, humano é forma; não é força: é uma forma. É exatamente o grande terror para nós, porque o Nietzsche não está dizendo que o humano é uma natureza; é apenas uma consequência de relações de forças ― não existe a natureza do homem, não existe a natureza de não sei o quê. Nada disso existe! Ele está rompendo ― e agora eu vou passar a trabalhar nessa questão; eu não ia trabalhar, mas vou melhorar para vocês entenderem ― ele está rompendo com a ideia de que qualquer coisa tenha uma essência. Nada tem essência. A essência de qualquer coisa é um fragmento ― um conjunto de fragmentos de forças que se relacionam.

Eu vou dar um exemplo estético, dado pelo Paul Veyne:

O universo inteiro é como um caleidoscópio: pedaços de vidro colorido, que você roda e forma flores. As flores são as formas; os cacos de vidro são as forças. É um mundo elementarista; um mundo em que você rompe com a ideia de que há formas originais. Romper com a ideia de forma original significa que não há a essência do homem, não há a essência da mesa, não há essência de nada; nada tem essência. Tudo aparece no mundo, mas nada tem essência; quer dizer, tudo que existe é um simulacro. (Está muito difícil, não é?).

― Qual é a natureza humana? Nenhuma; não há natureza humana! A natureza humana é uma forma, gerada por determinadas relações de força. As relações de força geraram aquela forma. Basta haver a modificação dessas relações de forças, que aquela forma desaparece… imediatamente! Nada a sustenta: nada! Ela é precária por origem; porque qualquer forma é precária. Qualquer forma é precária! A ameaça das forças é permanente; e essas forças não podem ser entendidas como leis ou princípios: elas são o reino do acaso. (Eu vou dar por mais ou menos aqui… eu vou fazer uma modificação. Foi muito mal, não é?).

Se vocês aceitassem e trabalhassem comigo na ideia de forma… é o melhor caminho que nós temos. O melhor caminho que nós temos ― a ideia de forma.  Porque tira de nós uma…

[Final de Fita]


LADO B

Todo nosso entendimento do campo do poder passa por essa prática das relações de forças. (Eu vou dar por entendido, viu?). Foi mais ou menos entendido e assim vou dar alguns exemplos para fortalecer o entendimento:

Vamos pegar um nietzscheano do século XX, o Foucault. (Eu não ia nem fazer esse trabalho… mas resolvi fazer, porque a ideia de forma deu problema.)

O que se passa de original na obra do Foucault é que ele fala que, a partir de determinado momento da história até a atualidade, nasceram as sociedades disciplinares: apareceram certos tipos de sociedades constituídas pela disciplina. (É o que passa de original nele!) E quando ele fala nessa prática da disciplina ele vai colocar duas idéias ― que são as ideias de máquina abstrata e máquina concreta.

Foucault está dizendo que as nossas sociedades ― e isso vai ser surpreendente ― são constituídas pelo modelo das cidades pestíferas. (Aqui já é uma surpresa…). Que as cidades pestíferas seriam exatamente o modelo das nossas cidades. (Eu vou dar uma explicação sobre o que elas são exatamente.)

Uma cidade pestífera traz como problema o fato de haver pestilentos atuais. Pestilentos atuais são todos aqueles que, dentro da cidade, trazem a peste. E a cidade traz, então, o problema de ali haver também os pestilentos virtuais ― aqueles que podem ter a peste. Que é exatamente a grande divisão que se faz numa sociedade pestífera. Você pega uma cidade pestífera, segundo Foucault, e o que se passa nela é essa divisão: pestilentos atuais e pestilentos virtuais. Pega-se os pestilentos virtuais ― logo, pestilentos virtuais se aproximam um pouco da dinamis do Aristóteles ― são aqueles que podem ter a peste, mas não têm. O que vai-se fazer com os pestilentos virtuais é isolá-los; separá-los dos pestilentos atuais. Na hora em que essa separação se faz, o poder político começa a exercer uma prática de força constante em cima dos pestilentos virtuais, numa administração generalizada daquelas vidas ― administra-se o alimento, administra-se a moradia, administra-se o vestuário, administra-se o ar…, faz-se uma administração generalizada daquelas vidas!  Todos são administrados; e, para continuar vivendo, todos têm que receber um tipo de disciplina, (entenderam isso?) que são exatamente o campo de uma sociedade que tem os virtuais da peste. Esses virtuais são administrados, sobretudo por um poder médico, que administra aquelas vidas. O que Foucault vai dizer é que a nossa sociedade traz esse modelo. Ela traz esse modelo; então, para a nossa sociedade, todos nós somos pensados como seres virtuais e, não, como seres atuais. E como seres virtuais, as forças vão fazer uma prática de disciplinarização em cima de nós, para constituir o nosso corpo e a nossa alma. Isso é o que ele chama de máquinas concretas. Num campo social, as máquinas concretas são as instituições que têm a função de trabalhar nessas virtualidades: prisão, hospício, escola, exército…

Aluna: O uso de camisinha… [inaudível]

Claudio: O uso de camisinha já é a instituição trabalhando. As instituições são as máquinas concretas com a função de trabalhar nessas virtualidades. Mas para haver essas máquinas concretas há uma máquina abstrata. A máquina abstrata é a cidade pestífera ― que é o modelo que vai passar em todas as instituições para desenvolver as forças que lhe interessam. (Não sei se foi bem…). As forças que interessam geram o corpo e a alma que eu tenho! O corpo e a alma que eu tenho não são entidades metafísicas ― são produtos de forças.

Aluna: [inaudível] e nós seríamos os virtuais?

Claudio: Os virtuais…

Aluna: [inaudível] os atuais […]

Claudio: Não, filha… Os atuais… Não, filha. Eu vou tentar novamente para vocês entenderem. Vamos tentar por outro lado. É de uma clareza absoluta, não entendo como você não entende, Ana. O [inaudível] do Maquiavel é claríssimo. Mas eu vou explicar de outra maneira; vou tentar outra maneira para explicar isso.

Na obra do Foucault… (Eu agora vou contar de modo bem detalhado, para vocês entenderem). O Foucault é um filósofo e enquanto filósofo ele é nietzscheano: ele se ligou ao Nietzsche. Poderia ter-se ligado ao pai dele, à mãe dele; mas se ligou ao Nietzsche. E ao se ligar ao Nietzsche, ele verifica que o Nietzsche colocou uma questão. (Vocês vão entender!). O Nietzsche colocou ― prestem atenção! ― que não existe sequer um objeto a-histórico.

― O que quer dizer um objeto a-histórico? Quer dizer, uma forma que não tenha emergência.

Todas as formas emergem; logo, todos os objetos que existem são históricos. (Entenderam?). Não existe nenhuma essência atravessando a história. Tudo emerge na história, tudo emerge. Não existe objeto a-histórico, todos os objetos são históricos, todos são produzidos dentro da história, pelo tempo. É isso que Foucault descobre no Nietzsche.

Quando o Foucault descobre isso no Nietzsche, o que ele vai fazer? Ele vai fazer um estudo para verificar quais as forças que produzem esses objetos, que tipo de forças produz esses objetos. O que essas forças fazem, o que elas querem, a que visam elas, que tipo de objetos produzem? Então, Foucault encontra na história (estou simplificando muito…) duas práticas, muito nítidas, a que ele vai se dedicar a trabalhar: uma ele chama de inquérito; a outra ele chama de exame. Seriam duas práticas que apareceram ao longo da história; não formas, mas máquinas para produzir formas, máquinas de produção de formas (Está bem assim o que eu disse?).

Aluno: [inaudível]

Claudio: Elas são formas, porque se efetuam em instituições; mas são as forças produzindo formas para produzir outras formas.

Então, ele encontrou o inquérito e o exame. Eu vou deixar um pouquinho de lado o inquérito… se vocês quiserem, é muito bonito, eu explico o inquérito para vocês.

― O que seria o exame? O que seria exatamente o exame? É muito bonito e um pouco difícil, difícil até para um historiador clássico aceitar.

O Foucault começa por dizer que a história, lendo-se determinados textos ou fazendo-se uma prática iconográfica ― isto é, vendo as telas ― a história nos revelou a existência de indivíduos destacados ― condes, reis, heróis ― que apareceram claramente cantados pelos poemas épicos, cantados pelas narrativas heróicas. Uma série de indivíduos. Que é muito fácil: vocês abrem os livros de História e vocês vão ver! Quais são os indivíduos que são falados no século XVI? O rei, o herói, o príncipe, o bispo, uma mulher, por causa de determinada prática; são os indivíduos que aparecem na história. Então, diz o Foucault, que pelo fato de esses indivíduos se destacarem na história, a luz do mundo ― a luz que o mundo possui ― jorra em cima deles. A luz do mundo jorra sobre esses indivíduos. A história vai ver esses indivíduos: vê-los nos quadros, nas descrições, nas narrativas… Mas a luz não jorra sobre a massa que existe na história; ou seja, a história nos revela a aparição de um plano de visibilidade.

Plano de visibilidade é aquilo que a história está destacando dentro do campo visual. (Entenderam?). Ela está liberando uma série de indivíduos para o campo visual. Pronto! Subitamente, o Foucault, muito louco, encontra uma medalha comemorativa, salvo equívoco, de um rei qualquer. E quando examina essa medalha ele tem a maior surpresa ― porque na medalha aparecem o rei e seu séquito: que são os indivíduos vistos dentro do campo da visibilidade. Mas na moeda vai aparecer também uma série de soldados.

― O que aconteceu? É que a visibilidade está se deslocando. Está havendo um deslocamento da visibilidade; que está tirando a massa do limiar da escuridão e lançando essa massa no campo da visibilidade. Na hora em que essa massa começa a entrar na visibilidade, ela começa a se individuar. Os indivíduos vão começar a aparecer na história; abandonando o campo da epopéia, eles vão passar para as histórias mais miseráveis, histórias de registros. (Conseguiram entender?). O que está sendo feito é um deslocamento da visibilidade. Nós abandonamos as epopéias para conhecer os indivíduos; basta ir num cartório. Por quê? Porque as forças de poder liberaram para esse campo da individualidade a massa anteriormente perdida numa escuridão; e individuou essa massa. Ou seja, o campo do poder – é isso que Foucault está chamando de exame – produz, digamos, a partir do século XIX, os indivíduos, produz a individuação. Ou seja, cada um de nós hoje se julga com todo o direito de dizer-se: eu sou um indivíduo. Mas esse indivíduo que nós somos não pertence à nossa natureza; foi o campo das forças que o produziu. (Foi claro o que eu disse? Ou não? Entenderam? É de uma beleza excepcional!).

Então, o exame é uma máquina de poder que tem a função de produzir a individuação. O que vai acontecer? O que vai acontecer é que quando esses indivíduos caírem no campo da visibilidade vão imediatamente passar para o campo do saber. Vão nascer (estou sendo muito rápido) as ciências de radical psi, que são as ciências do indivíduo. Então, se essas ciências do indivíduo nascessem no século XV, provavelmente os cientistas do indivíduo morreriam de fome; porque só havia quatro ou cinco indivíduos, agora é uma quantidade infinita. (Acho que está bem, não está? Então, vamos tomar um cafezinho para descansar um pouquinho…).

[intervalo para o café]

Um militar, no século XIX, se hospedou numa casa na cidade onde ficava o seu quartel: uma casa de família, que se tornou pensão para ele. E nessa casa havia o casal – pai e mãe; e uma filha. Quando esse jovem militar conheceu a filha, ficou muito surpreendido, sobretudo porque ela era muito bonita ― o que surpreende todo mundo ― e ela não dava a menor importância para ele. E, como era natural, ele procurou se exibir para ela, mostrar- se para ela, mas ela não dava a menor importância, ele não existia para ela! Mas um dia, eles estavam jantando juntos e, de repente, ele sentiu um pé embaixo da mesa, um pé no pé dele. Ele foi olhar, era o pé dela, descalço, alisando a perna dele. Ele ficou (não é?) naquele estado que qualquer um pode ficar! Então, a partir daquilo, em todo jantar ele se aproximava um pouco mais dela e ela ia lá embaixo, com as mãos, com os pés, fazendo a mesma coisa com ele. Por outro lado, sempre que ele tentava se aproximar para falar com ela, ela não dava o menor papo para ele. E ele começou a viver aquelas angústias do apaixonado. Ia para o quarto de noite, sofria, sofria muito, nada acontecia. Até que um dia, de repente, ela parou de fazer os ataques sob a mesa. E aí é que ele pirou mesmo!  Mas um dia, ele estava deitado no quarto, de repente entra, no quarto, a garota. Ela entra no quarto e senta em cima dele e começa aquela beleza que é a prática do amor. Aí, eles começaram a fazer um amor lindíssimo, aquela coisa lindíssima, uma coisa belíssima… Está acontecendo aquilo e, de repente, ela cai, cai para o lado. Ele vai, pensa que aquilo é um orgasmo, a examina, não era um orgasmo: ela tinha morrido; morreu! Agora, vocês imaginam a situação desse cara, ele não sabia mais o que ele ia fazer. Ficou desesperado: não tinha como fazer nada ali. Ele foi, teve uma ideia: eu vou procurar o coronel. Não é? Porque sempre se procura o coronel, o coronel do regimento. Então, ele saiu lá para procurar o coronel do regimento, aí o coronel do regimento viu a gravidade da situação e disse para ele: “Olha, você pega a carruagem e embarca para a cidade tal, deixa comigo que eu vou resolver isso, ta certo? Faz isso”. Aí ele embarcou para a cidade tal e o coronel foi lá resolver. Ele ficou nessa cidade um pouco distante, uns dois anos e não soube nada do que aconteceu. Mas um dia, de repente, a curiosidade despertou nele e ele foi procurar o coronel para o coronel contar o que tinha acontecido. Quando ele se aproximou, ele soube que o coronel tinha ido para a guerra e morrido. Morreu o coronel.  Então, esse rapaz ― aí que termina a história ― realmente nunca soube o que aconteceu. Então, é o tipo do conto em que aparece essa figura: o que aconteceu? Ele não sabia o que tinha acontecido. (Muito bem). O que aconteceu é exatamente o modelo de uma prática que o Foucault chama de inquérito. O inquérito é exatamente uma prática em que os homens vão se preocupar em conhecer o acontecimento do passado. E para fazer isso os homens vão criar uma tecnologia, uma tecnologia para administrar e conhecer o acontecimento que se deu no passado. E qual é a maneira melhor que nós temos para conhecer um acontecimento que se deu no passado? Não há dúvida nenhuma de que a melhor maneira que nós temos é uma narrativa, é o discurso. Porque o discurso é aquilo que tem a propriedade de reatualizar acontecimentos que se passaram. (Entenderam?)

A melhor maneira de nós conhecermos acontecimentos que ocorreram é através do discurso, porque o discurso reatualiza acontecimentos que passaram. No caso do conto que eu narrei, o melhor discurso seria pronunciado por quem? Pelo coronel (está certo?), que seria aquele que poderia reatualizar esse acontecimento.

E quando nasce a prática do inquérito é liberada a questão: De que maneira podemos conhecer bem um acontecimento do passado, sabendo-se que uma acontecimento do passado é reatualizado no discurso. E a tecnologia funda que a melhor maneira de conhecer um acontecimento do passado é quando nós temos diante de nós um discurso que seja neutro. Ou seja, o que está sendo dito é que os acontecimentos do passado, quando são reatualizados por discursos apaixonados, esses acontecimentos podem ser falseados pelo discurso. (Não conseguiu entender não? Por exemplo, vou reexplicar para vocês. Não entendeu, não?).

Esse conto que eu contei é do Barbey D’Aurevilly, é lindíssimo esse conto, se vocês quiserem eu tenho em português e trago aqui para vocês, (ouviu?)… Que é a pergunta: meu Deus, o que é que aconteceu? Só quem sabia era o coronel do regimento! (Agora, prestem atenção:).

Vamos dizer que eu e o Leão Handfas entramos numa disputa. O Leão diz assim: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos. Eu digo, Leão, eu não roubei sua caixa de fósforos. Aí ele diz: Você roubou, sim, minha caixa de fósforos.

Vai chegar um momento da história em que, para resolver essa situação, nós teremos que procurar um representante do poder ― porque o poder vai produzir representantes para resolver os litígios. E quando nós procurarmos esse representante do poder, ele vai-nos ouvir falar…

― O que eu vou dizer? Eu não roubei a caixa de fósforos do Leão!

― E o Leão vai falar: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos!

O poder fica num estado de ambiguidade: não sabe quem está falando a verdade.

― O que o poder faz? O poder procura testemunhas; ele sai à cata de testemunhas ― e as testemunhas são exatamente aquelas que poderão dizer se eu roubei ou não a caixa de fósforos do Leão. Por quê? Porque a testemunha presenciou o acontecimento. Então, a testemunha é o instrumento mais indicado para re-atualizar o acontecimento. (Entenderam?)

Mas acontece que pode aparecer uma testemunha que seja namorada do Leão. Se a testemunha for uma namorada de Leão, é claro que ela vai dizer que fui eu que roubei a caixa de fósforos. Então, a tecnologia das testemunhas considera que a testemunha apaixonada não fala a verdade. Para falar a verdade, tem que ser uma testemunha neutra (entenderam?). É esse modelo que faz emergir no ocidente a ideia de que a verdade é algo que está no passado; é re-atualizada pelo discurso; que, para ser um bom discurso, tem que ser produzido pela razão ― porque a razão é neutra. (Não sei se vocês entenderam…).

Esse modelo é o modelo do inquérito; que o Foucault diz ser uma prática que emerge numa época da história e gera a verdade como reatualização do acontecimento, como desqualificação da paixão e emergência da razão. Ou seja, a razão não é o que nós pensávamos: a razão não é alguma coisa, em si mesma, preparada para a verdade ― a razão é produto de uma prática de poder. (Conseguiram entender? Muito bem!).

― O que vai acontecer [na história], segundo o Foucault?  Segundo o Foucault, o que vai acontecer é que nós vamos sair da pergunta: “o que aconteceu?” para a pergunta: “o que pode acontecer?” Na hora em que nós entramos nessa pergunta ― o que pode acontecer? ― tudo que existe se torna uma virtualidade. (Conseguiram entender? Ou não, Ana?).

Nós passamos agora para um mundo em que a pergunta não é mais: “o que aconteceu?” A pergunta agora é: “o que pode acontecer?” Se você está num mundo de “o que pode acontecer”, a partir daí as práticas de poder vão produzir aquilo que lhes interessa: porque o ser se torna virtual, é uma virtualidade. É exatamente o que o Foucault está explicando para o nascimento da cidade moderna. O nascimento da cidade moderna não é uma procura do que aconteceu, mas é uma questão com o que pode acontecer. É onde nasce, sobretudo, uma ideia, que é muito nossa, a ideia de periculosidade. Nós agora vamos pensar as virtualidades. Tudo vai ser pensado como virtualidade. Em função disso, é preciso produzir, em cima dessas virtualidades, aquilo que interessa ― é isso que é a prática do exame. (Não sei se foi bem… Vocês entenderam?).

Vocês vejam que, aqui, tudo aquilo que nós pensamos que teria uma natureza, ― o indivíduo seria uma natureza ―, nada disso é uma natureza: são as forças do exame que geram essas figuras no mundo. (Vejam se foi bem… Foi ou não, hein? Entenderam bem?…).

Quem trabalha com “O que aconteceu?”? O inquérito.

Quem trabalha com “O que pode acontecer?”? O exame.

O exame é exatamente uma prática que se dá no nosso mundo para produzir a individuação e a identidade. Então, nós vamos ser produzidos como indivíduos e regidos por uma identidade. E vamos lutar toda a nossa vida para garantir o indivíduo que nós somos e a individualidade que nós temos ― quando ser livre é uma conquista da diferença. (Foi muito difícil, hein Chico? Falem lá, para eu ver onde é que está a falha…)

O conto do Barbey D’Aurevilly é nítido para vocês entenderem o nascimento da prática da verdade. A prática da verdade se sustenta na razão, porque a razão é aquilo, em nós, que é neutro e é capaz de re-atualizar os acontecimentos com verdade; enquanto que as paixões retomam os acontecimentos falsamente. É por isso que, na história da verdade, a razão vai ser privilegiada. É aí a emergência do racionalismo.

O racionalismo não é um milagre humano, é uma prática de poder. Uma prática de poder em que a verdade é algo que tem que ser reatualizado. Por quê? Porque, para essa prática, a verdade está perdida no passado. Ela está perdida no passado. (Vocês me entenderam bem? Porque eu acho que essa foi a melhor maneira que eu já usei para explicar essa questão na minha vida… Vou ver outra vez para vocês).

Eu vou contar outra história. Olha essa história aqui:

Sir Lancelot era um homem belíssimo, não sei se vocês sabem, pelo menos nos filmes. Era lindíssimo. E ele era apaixonado pela rainha, mulher do rei Arthur. Todo mundo sabe disso! E eles costumavam ter encontros nos bosques. Mas quando eles começaram aqueles encontros, à boca pequena, os cavaleiros da Távola Redonda começaram a cochichar: olha, o Lancelot está namorando a rainha. Começaram a falar isso. E alguns cavaleiros da Távola Redonda, mais ousados, chegavam para o Lancelot e diziam: Lancelot, você está acabando com a Távola Redonda, porque você está difamando a rainha; tendo encontros amorosos com ela e traindo o rei Arthur. Quando o cavaleiro em questão dizia isso para ele, o Lancelot respondia: você está desafiado para um duelo! E eles iam duelar. E quem vencia? O Lancelot vencia. No momento em que ele vencia, a verdade era o que ele dizia, porque naquele momento da história a verdade era produto do triunfo (entenderam?). Não havia outra prática da verdade. Era verdadeiro tudo aquilo que viesse por triunfo. Mas o Lancelot continuou a ter encontros amorosos com a mulher do rei Arthur, até que, um dia, o filho do rei Arthur, não sei se vocês sabem quem é ele, é o filho da Morgana, que era irmã do rei Arthur… O filho do rei Arthur pegou o Lancelot em flagrante com a rainha. Aí, ele se vira para o Lancelot e diz: você está traindo o meu pai. O Lancelot vai e diz: você está convidado para um duelo. O filho do rei Arthur responde: duelo não, eu vou testemunhar contra você!

O que aconteceu? É que a verdade estava se deslocando. Estava nascendo o inquérito. O inquérito não é mais a verdade como produção; mas a verdade como representação. A verdade torna-se um discurso que re-atualiza um acontecimento. Enquanto que, na primeira fase, a verdade era uma prática produtiva.

Eu estou explicando isso, para mostrar para vocês que todas as formas que emergem no mundo, emergem por relação de forças. (Eu acho que agora vocês entenderam!)

É preciso perder a ilusão de que há uma forma em si mesma: não há! Mudadas as relações de forças… outras formas emergem. Então, a verdade é uma forma, é um valor, é um sentido. Numa determinada época da história, ela emerge como produto de um triunfo; e noutro momento da história ela, a verdade, é apenas uma representação do discurso adequado ao acontecimento.

Através disso, eu acredito que essa aula ganha uma linha boa. Vocês passaram pelo menos a entender mais ou menos que nenhuma forma emerge na história se não tiver atrás dela relações de forças. (É só por hoje. Eu não aguento mais. Foi bem, não é? Vocês veem que, inclusive, eu já posso tranquilamente trazer alguns textos do Michel Foucault e do próprio Nietzsche, que vocês vão entender. Viu? Fui feliz, não é? Então está bem).

Aula de 05/04/1989 – Acontecimento e campo de poder

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

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1ª Parte
LADO A

[…] se não houver o completo entendimento eu terei dificuldade de montar outras teorias no decorrer da aula.

Primeira questão: O que é exatamente o conceito? Em primeiro lugar: o fato da existência do conceito. Por que existe, na linguagem, esta prática chamada conceito? Por uma razão muito simples, diz o Aristóteles. Segundo ele, nós os sujeitos humanos, somos dotados de uma [dupla] semiótica. Semiótica é teoria dos signos. Dupla [semiótica], [porque] nós somos capazes de falar e de escrever. Mas quando nós falamos e quando nós escrevemos, diz ele, nós falamos e escrevemos sobre o mundo. Então, segundo ele, o objeto da escrita e o objeto da fala é o mundo. (Está bem claro?) Isso se chama prática denotativa. Fazer com que a linguagem diga alguma coisa do mundo à nossa frente…. mas existindo uma diferença entre a linguagem e o mundo. É que o mundo é infinito.

O que quer dizer mundo infinito? Por exemplo, o Bento que está na minha frente, pode fazer os mais indefinidos movimentos. Cada um de nós pode fazer indefinidos movimentos. Mas a linguagem é finita, não pode representar nela os movimentos indefinidos do mundo. Por causa disso, a linguagem inventa o nome geral. O nome geral é uma maneira da linguagem dar conta do mundo, porque ela não pode inventar nome para todos os acontecimentos do mundo, pois nossa memória não resistiria. Por exemplo, se eu quisesse dar nome a tudo o que acontece, eu diria assim: Bento passando a mão na barba, e me olhando nesta penumbra da noite de segunda feira. Não! É melhor eu dizer “Bento”. Então, a linguagem inventa o nome geral porque ela é finita diante de um mundo infinito. (Acho que ficou bem claro!)

O que é o nome geral? O nome geral é alguma coisa inventada pela linguagem, mas no real não existe nada que seja geral. No real só existem os indivíduos. O geral é da linguagem. Por exemplo, no real tem “esta mesa”, na linguagem tem “a mesa”. A mesa é um nome geral da linguagem. A linguagem produz [o nome geral] porque ela é finita, e não poderia dar um nome a cada mesa, por isso ela produz o nome geral. (Entenderam?) Então, o nome geral é um artifício da linguagem, devido à sua finitude. A linguagem é finita e inventa os nomes gerais – agora, o real é in-di-vi-du-al. (Entenderam?)

Quando eu faço experiências no mundo vivo, essas experiências são sempre individuais – eu experimento no mundo os indivíduos. Mas a linguagem vem recobrir esse campo da experiência com os nomes gerais. [E aí] aparece uma defasagem entre a linguagem e o real. (Como é que foi, todo mundo entendeu essa diferença?) A linguagem é o instrumento da razão. O que mostra que entre a razão e a experimentação há uma diferenciação. Porque o mundo real – o campo das experiências – é individual, sempre individual! Mas a linguagem gera os conceitos – que são os nomes gerais. (Está bem claro?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. A linguagem não é toda geral, ela gera os nomes gerais, mas [há] também nela nomes como o nome próprio – que é um nome individual. O que eu estou dizendo é que a linguagem gera os nomes gerais porque ela não pode representar todos os movimentos do indivíduo nela – pois nossa memória não suportaria. E ela, então, os substitui. Se a linguagem não tivesse o nome geral, “esta mesa”, por exemplo, teria um nome próprio! “Este cigarro” daqui teria o quê? Nome próprio! Como é que eu chamo este cigarro? O Cigarro! Eu dou, para ele, um nome geral. (Entendeu?) E isso é um artifício da linguagem, porque ela é finita. Ela inventa os nomes gerais para recobrir o mundo e, através disso, resolver o problema da comunicação. Ela resolve o problema da comunicação, utilizando os nomes gerais!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sem o nomes gerais? Não, não. O que eu estou colocando são dois tipos de linguagem – a escrita e a falada. E tanto a escrita quanto a falada trabalham com nomes gerais. Todas as duas! Nós não falamos “A mesa”; “A cadeira”,”O vento”? Veja bem: nas minhas experiências de mundo eu algum dia experimento “A” cadeira? Não! Eu experimento “esta” cadeira. Eu nunca experimentei “A” cadeira. Eu experimento esta cadeira. O nome geral é um artifício da linguagem.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Isto seria singularizar? Repõe, E...! Sim, mas nós não temos possibilidades mnemônicas de fazer isso. Veja bem: se eu quiser falar sobre “o vento” somente com nomes singulares, eu tenho que fazer uma descrição do tipo que eu fiz do Bento. A linguagem vai e utiliza o nome geral para recobrir o problema da memória. Ela resolve isso.

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que está sendo dito, é que isso é a essência da linguagem. A linguagem – escrita e falada – geraria o nome geral porque ela, a linguagem, é finita, e o mundo é infinito. (Entendeu?)

Por que apareceria a linguagem geral? Por causa da finitude da linguagem. Só isso! Ela é finita – é muito simples! Por exemplo: eu não falo “o vento”? O que é “o vento”? O que quer dizer essa palavra? Quando eu falo “o vento” – sobre que vento eu estou falando? Eu estou falando de todos os ventos, de todos os ventos. Mas, eu experimento todos os ventos na minha experiência? Não! Eu experimento um vento singular. É que a linguagem gera o nome geral – ainda que no real não exista o geral. No real só existem os indivíduos.

Aluno: [inaudível]

Claudio: […] Segundo o que o Aristóteles está dizendo, é da essência da linguagem, pouco importa a época em que ela for falada. Pouco importa! Em qualquer época da história a linguagem geraria o nome geral. Geraria o nome geral, quer dizer: permitiria a um homem dizer para o outro: – Ah! O camelo é um animal feio. Quando ele diz: “O camelo é um animal feio” – de que camelo ele está falando? Ele está falando sobre a generalidade do camelo. Mas o campo experimental não me revela nenhum “O camelo”. No campo experimental só existe “este camelo”. [Aluno: inaudível] A linguagem produziria o genérico – ainda que as experiências sejam individuais. Há uma espécie de defasagem entre a linguagem e o mundo. [Aluno: inaudível] Há uma impossibilidade de você se comunicar descrevendo os indivíduos em seus estados atuais. É impossível para nós. Você teria que dar nome próprio a tudo. Qual seria o nome disso daqui [Claudio mostra um objeto qualquer] – se não houvesse nome geral? O nome disso seria, por exemplo, “Pedro Antônio”!?… Esta mesa teria um nome próprio… Tudo teria um nome próprio!

O nome geral recobre o real – ainda que o real não tenha generalidade. […] fica muito claro!… (Entendeu?) Não há o geral. No real só tem o individual. (Já entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha…, não. Por exemplo: a literatura – ela tenta descrever experiências singulares. Por isso, quando ela [faz uma descrição,] ela evita o nome geral. Para descrever experiências singulares, não [se] pode trabalhar com o nome geral. Tem-se que usar outro tipo de linguagem. Mas o nome geral é uma maneira que [se] tem de classificar os indivíduos do real. Querem ver?

Esta sala se divide em mesa, homens e cadeiras. Três nomes gerais. Eu dividi a sala. Classifiquei. Isso é uma prática classificatória. Você recorta o real – que é constituído de indivíduos – com o nome geral. (Eu já não tenho mais nem o que dizer aí. Eu acho que está tão claro… Como é que foi?)

O nome geral chama-se conceito. O que é um conceito? É um nome geral. Pronto! (Entenderam?) O que é “O homem”, por exemplo? Um nome geral – logo, um conceito.

Existe algum “O homem” no real? – O que é que você acha, Bento?

No real existe “este” homem. Mas “O” homem – se vocês encontrarem O homem por aí, tragam para mim, pois quero conhecer esse bicho!! Então, o nome geral é da linguagem – mas não é do… real. (Certo?)

Além disso, a linguagem produz o que se chama proposição. O que é uma proposição? É o momento em que, na linguagem, dá-se um predicado a um sujeito. Por exemplo: A mesa é bonita. O que é “A mesa é bonita”? É uma… proposição. Proposição é quando você dá ao sujeito um predicado. O homem é bonito. A rosa é vermelha. R… é cineasta – são proposições. (Tá certo?)

Então, o que é uma proposição? Uma proposição tem sujeito, verbo ser na terceira pessoa do singular, e um atributo ou predicado. (Está certo?) O atributo da proposição é o conceito. Portanto: o atributo da proposição é o nome geral. (não sei se entenderam…) O atributo da proposição é o nome geral. Bento é homem. Homem é o quê? Homem – não é um nome geral? Mas, na proposição, o nome geral tornou-se atributo. Então, na proposição, o nome geral ou conceito vira atributo. (Entenderam?)

Quando eu digo o homem, a produção do conceito não é verdadeira, nem falsa: é apenas um conceito – O homem, A vaca, O cachorro. Mas, quando o conceito vai para a proposição e se transforma num atributo, – toda a proposição é verdadeira ou falsa. Eu digo: Bento é bonito. Bento é feio. Uma dessas duas proposições é verdadeira e a outra é falsa. Ou seja: a prática do nome geral – no momento em que ele se torna um atributo – é uma prática do verdadeiro e do falso. Quando é que nós estamos no verdadeiro e no falso? Quando nós afirmamos ou negamos um atributo de um sujeito. Negar ou afirmar um atributo de um sujeito é uma prática do… verdadeiro e do falso. (Acabou!)

Então, se eu quero fazer ciência. A ciência é o universo do discurso onde está o verdadeiro e o falso. Fazer ciência é produzir proposições. (Eu acho que deu, não é?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas [nesse caso] o sujeito também é geral, não é? Então, quando você for fazer uma proposição, você procura colocar como sujeito aquilo que não pode ser atributo. O indivíduo é a única coisa que não pode em momento nenhum ser atributo. O indivíduo só pode ser sujeito da proposição – em momento nenhum ele, [o indivíduo] pode ser atributo. Por exemplo: “Bento é bonito”. Mas eu não posso dizer “Chico é Bento”. Eu não posso dizer “Bento é Chico”. Porque o indivíduo é sempre sujeito… nunca atributo. O que são os atributos? Os atributos são os nomes gerais. (Não sei se isso passou… está muito difícil? Fala….)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O atributo é o predicado: o nome geral. Por exemplo: Bento é o quê? Bento é um indivíduo. Logo, Bento só pode ser sujeito da proposição. Não pode ser atributo. Os atributos são os nomes gerais. (Eu acho que está tão claro: não tem como não entender. Posso continuar… ou tá muito difícil? Não está, não é? – Eu agora estou em dúvida!)

Qual é a função da proposição? Afirmar ou negar um atributo de um sujeito. A função da proposição é a produção do verdadeiro e do falso. Quando eu digo assim – Me dá um café! Isso é verdadeiro ou falso? (Aluno: Verdadeiro.) Não! Verdadeira ou falsa é só a proposição. Só há verdadeiro ou falso na hora em que você afirma ou nega um atributo de um sujeito. Só isso. (Entenderam?)

Então: nós, os sujeitos humanos, somos dotados da capacidade de produzir significações através da linguagem. A função da linguagem é produzir significações. Mas a única coisa, na linguagem, que produz o verdadeiro e o falso é a proposição. Então, a linguagem é mais ampla que a proposição, porque a linguagem é o campo da significação; mas a proposição é o campo do verdadeiro e do falso. (Eu acho que foi bem!..)

Quando eu quiser fazer ciência, o que é que eu tenho que fazer? Produzir significação pura e simples ou produzir o verdadeiro e o falso? Então, o campo da ciência é o campo proposicional. (Eu acho que já está claro. Alguma questão? Posso considerar entendido? Posso, não é?)

O atributo é o nome geral? Quando você atribui um nome a um sujeito – esse atributo pode ser essencial ou acidental. (Prestem atenção: porque a aula que eu estou dando para vocês ela não visa a isso aqui – visa a outra coisa. Mas se não entender essa, não vai entender a outra, certo?)

Que tipos de atributo eu posso produzir? Atributos essenciais e acidentais. Quando aparece o atributo essencial – que é um nome geral – ele é a essência do sujeito. Bento é homem. Homem é o quê? Homem é um atributo essencial; é um nome geral; mas também é a essência de Bento. (Certo?)

Então, no nível dos atributos, aparece o atributo essencial e o atributo acidental. Bento é branco. Branco é o quê? Atributo acidental. Homem é o quê? Atributo essencial. (Entenderam?) Nós teríamos duas práticas atributivas: o atributo essencial e o atributo acidental – como prática proposicional. Por exemplo, eu digo: Bento está sentado. Que atributo é esse? Acidental! (Entenderam?) Bento é um animal racional. Que atributo é esse? Essencial!

Então nós teríamos dois atributos: o essencial e o acidental. Muito bem. Por essa tese, o atributo é ou a essência ou o acidente do sujeito. (Viu?) Ele é ou a essência ou o atributo do sujeito. (Corta, Corta! Agora vamos para outra coisa. Está entendido, não é?)

Os estoicos querem fazer ciência. Logo, eles querem fazer, o quê? Proposições. (Certo?) E uma proposição tem sujeito e… atributo Toda proposição tem sujeito e atributo. Então, os estoicos querem fazer ciência – logo, querem fazer proposições; logo, querem criar atributos; logo, querem criar discursos que têm sujeito e atributo. Mas os estoicos não vão concordar em usar o verbo ser. Eles não vão usar o verbo ser.

A primeira tese usa o verbo ser? [Alunos: sim!]

Os estoicos não vão usar o verbo ser – e em vez de colocar como atributo substantivos e adjetivos… Homem é o quê? [Alunos: Substantivo!] Branco é o quê? Sustantivo! Bonito é o quê? Adjetivo! – Os estoicos não vão colocar nem o sustantivo nem o adjetivo como atributo. Como atributo, [os estoicos] vão colocar o verbo no infinitivo ou no gerúndio. Por exemplo, eu digo assim: Esta mesa é azul. Quem é o sujeito? Esta mesa! Quem é o atributo? Azul! – Acidental ou essencial? Acidental! O estoico não dirá isso. O estoico dirá – Esta mesa azulando. Por quê? Porque o atributo dos estoicos não é dito nem pelo substantivo nem pelo adjetivo – é dito pelo verbo no gerúndio. (Não sei se ficou bom…) O que os estoicos estão fazendo? Eles estão rompendo com o atributo essencial; rompendo com o atributo acidental – e estão colocando, como atributo, o acontecimento.

Quantos atributos nós temos? Essencial, acidental e... acontecimento.

O acontecimento é o campo atributivo dos estoicos. A diferença da proposição estoica para a proposição aristotélica é que o atributo de Aristóteles é essencial ou acidental. O atributo dos estoicos é o acontecimento. O acontecimento é o verbo no gerúndio [ou no infinitivo]. O que os estoicos estão fazendo? Uma nova teoria. Nós conhecíamos a teoria das essências e dos acidentes de Aristóteles. Com os estoicos nasce a teoria do acontecimento. Essa é a parte mais difícil:

Uma proposição estoica… Esta árvore é verde – é uma proposição estoica? Não! Como diria o estoico? Esta árvore… verdejando. Ele não diria o campo dos atributos com os substantivos e adjetivos. O campo dos atributos deles é feito com o verbo [na forma] gerundial [ou no infinitivo]. Entenderam?

Agora uma frase negativa: os estoicos fazem proposições sem usar o verbo ser. Eles não utilizam o verbo ser. (Entenderam?) Então, no mundo estoico, não há atributos essenciais; não há atributos acidentais? O atributo estoico é um… acontecimento. (Bom, entenderam?)

Mas, se [há uma modificação do campo atributivo], [já] o campo do sujeito é o mesmo. É o mesmo sujeito. [Tanto] o sujeito do Aristóteles [quanto] o sujeito dos estoicos é o indivíduo. (Vejam se entenderam…)

Então: Esta mesa é verde – é uma prática atributiva da proposição aristotélica. Esta mesa verdejando é uma prática proposicional estoica. (Entenderam?) Mas houve a manutenção de alguma coisa, o quê? O campo do sujeito. (Certo?)

E agora: como é que nós sabemos a essência do sujeito no Aristóteles? Como é que eu vou conhecer a essência do sujeito no Aristóteles? Pelo atributo essencial! Nos estoicos, a essência do sujeito não está no atributo – está no próprio sujeito. A essência não é o atributo, é o próprio sujeito. [Ou seja:] há um deslocamento do campo essencial. Enquanto no campo essencial do Aristóteles o atributo é a essência. Nos estoicos, a essência é o sujeito. (Não sei se está bom aqui, não?)

Em “Bento é homem” – qual a essência? A essência é homem! Logo, a essência é o atributo. Os estoicos não vão trabalhar o campo das essências com os atributos. A essência para eles é o próprio sujeito. (Eu ainda vou explicar!) A essência é o sujeito. Não é o atributo.

Aluno: [inaudível].

Claudio: Sujeito e essência é a mesma coisa. Por quê? Porque para os estoicos a essência é o corpo. A essência é o corpo.

[Se] para o Aristóteles a essência é o atributo lógico – para os estoicos a essência é o corpo. Então: [para os estoicos,] cada corpo no mundo traz com ele a sua essência. (Certo?) [Na primeira teoria,] em Claudio é homem, a essência é homem. [Na segunda teoria,] em Claudio verdeja, por exemplo, a essência é Claudio. A essência para eles é o próprio corpo; não é um atributo lógico – é o próprio corpo. A essência de um ser é o corpo daquele ser. (Entenderam?)

Aluno: Eu não poderia falar Claudio é Claudio?

Claudio: Se você quiser falar Claudio é Claudio... você estará repetindo no predicado a essência sujeito. Não precisa falar isso! O que você tem aqui é um deslocamento do campo essencial. Enquanto a essência no Aristóteles é um atributo, nos estoicos a essência é o próprio corpo. (Vejam se vocês entenderam aqui, para eu continuar.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Você pode falar os acontecimentos! O que você fala do corpo são os acontecimentos que ocorrem a ele. Agora…

(Fim de fita)


LADO B

[…] O corpo é uma potência. A potência do corpo é de produzir acontecimentos. Então, é o próprio corpo que produz os seus atributos. (Não sei se foi bem!) O próprio corpo gera os seus atributos – mas os atributos não são essenciais nem são acidentais; são acontecimentos. (Tá?) Onde está a essência? No próprio corpo. Então, essência e corpo para os estoicos é a mesma coisa. Essência, potência e corpo são a mesma coisa.

Aluno: [inaudível] singular…

Claudio: Não! É melhor esperar um pouquinho, Chico, para não complicar aí. Não complica com isso aqui, não. Se você introduzir o singular agora, você vai se perder!

É melhor vocês entenderem, agora: este copo tem essência? Qual é a essência deste copo? (É fácil!) A essência deste copo é a potência dele. É isso que é a essência de um corpo – a essência de um corpo é a potência [daquele] corpo. Para que serve essa potência? Para expandir esse corpo. A essência de um corpo é a expansão do corpo. Como é que um corpo se expande? Encontrando-se com outros corpos – a expansão de um corpo é o encontro que esse corpo faz com outro corpo. Então, a essência de um corpo é do corpo – mas a função daquela essência é se encontrar com outros corpos. (não sei se vocês entenderam?!)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Poderia, mas aqui é muito melhor você pensar que a essência de um corpo é a potência daquele corpo. É a potência dele. Qual é a potência de um corpo? Expansão. Pronto! (É a coisa mais fácil do mundo!) Um corpo tem uma essência? Tem! Para que serve a essência dele? Para expandir aquele corpo – só isso, mais nada!

Nós, aqui, passamos de uma essência lógica – que a essência aristotélica é uma essência lógica aquisitiva; para uma essência física e real – que a essência dos estoicos é a potência de um corpo. Meu corpo tem essência? Tem, [mas sua essência] não é um atributo – é do próprio corpo.

Aluno: Eu não entendi por que um corpo precisa se encontrar com outros corpos…

Claudio: Aí, eu agora vou explicar. O acontecimento é alguma coisa que vai ser produzida pelos corpos, e os corpos só produzem acontecimentos na hora em que eles se encontram. Só existe acontecimento, se houver encontro de corpos. Vejamos um exemplo barato – Bento respirando. O Bento não está respirando? Por que [o Bento está respirando]? Porque houve um encontro do corpo do Bento com o corpo do ar. O acontecimento é um efeito dos encontros dos corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: É o encontro da mesa com o corpo do azul…

Aluno: Se eu disser, por exemplo, a planta está florescendo.

Claudio: É o encontro do corpo da planta pelo menos com o corpo da terra. (Tá?)  Não pode haver acontecimento nenhum se os corpos não se encontrarem. O acontecimento é o produto do encontro dos corpos. Porque você não vai encontrar sequer um corpo que não esteja num encontro com outro. É impossível encontrar-se um corpo que não esteja em combinação com outro corpo. É aí, então, que emerge o acontecimento. O acontecimento é um atributo gerado pela potência dos corpos. (Está difícil isso?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, o que os estoicos estão dizendo, é que tudo o que existe no real – tudo o que existe – é corpo. Então, os corpos não param de se encontrar. Você quer ver que exemplo interessante? Por essa tese dos estoicos, tudo o que existe é corpo? Sim! A multinacional é um corpo? Qual é o corpo da multinacional? Potência. Potência de quê? [inaudível]. Então, o que é que a multinacional tem que fazer para se expandir? [Ela tem que fazer] encontros – para se expandir. Todos os corpos se expandem através dos encontros. Através dos encontros!

Aluno: [inaudível] O encontro é do corpo e aparece o incorporal?

Claudio: Aparece o acontecimento. O acontecimento é incorporal. O acontecimento não é um corpo. É o efeito dos encontros dos corpos. O que existe no real são os corpos com suas potências. E esses corpos – quando se encontram – produzem o acontecimento. O acontecimento é uma coisa gerada pelos corpos. Se não houvesse corpos, não haveria acontecimento. Quem produz o acontecimento? O corpo!

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma relação afetiva dos corpos produzindo o acontecimento. (Eu já não tenho mais o que dizer, aí. Eu já disse tudo!) É a coisa mais fácil do mundo – por exemplo: Romeu e Julieta namorando. Namorando é o quê? É o acontecimento daqueles corpos que estão alí. Os corpos vão gerando os acontecimentos. O acontecimento não é o corpo – é um atributo do corpo. (Mas eu acho que não foi bem… – Para alguns eu sei que foi, para outros… está meio difícil! Mas é a coisa mais fácil – eu não sei como é que vocês conseguem não entender isso.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Porque quando um corpo se encontra com outro – necessariamente – ele produz um acontecimento! O acontecimento vai aparecer. Em qualquer situação que um corpo se encontrar com outro – ele aparece!… (E enquanto vocês não entenderem isso, eu não posso ir para a frente. Não posso. É impossível!)

Vamos tentar outro caminho…

Aluno: O lago esvaziando – qual é o encontro aí?

Claudio: É do lago com o corpo da terra. A água e o corpo da terra estão se encontrando. Porque é a coisa mais simples do mundo: pensar a ideia de corpo e não pensá-la sem que um outro corpo esteja em contato com ele, encontrando com ele.

Vamos fazer uma coisa – e aí vai ficar mais fácil para vocês. Vamos pensar o corpo vivo. O corpo vivo. Tenta fazer o pensamento do corpo vivo, sem ele se encontrar com outro corpo – é impossível! Porque o corpo vivo tem que se encontrar pelo menos, com quem? Com o corpo do ar! Como é que uma célula, uma bactéria, seja lá o que for, vai poder existir sem se encontrar com outro corpo? Necessariamente encontra outros corpos. Um homem pode ser pensado sem um outro corpo? Ele não tem que entrar em contato com outro corpo? Quando ele entra em contato com outro corpo, o que que aparece? O acontecimento! O acontecimento é a relação de duas potências corporais. [inaudível] Imediato!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Nããooo! A essência do corpo é a potência. O acontecimento não é a essência do corpo. É apenas o resultado dos encontros de corpos. Por exemplo:

Eu – sou um corpo? Eu pego um avião. O avião é um corpo? Na hora que eu pego um avião e o avião levanta vôo, que acontecimento aparece? O passageiro! Passageiro é um acontecimento. Basta eu descer daquele avião e me dirigir para o bar, que eu perco – que acontecimento? O acontecimento passageiro! Eu perco [esse acontecimento] – mas eu continuo a ser um corpo! O corpo é aquilo que se encontra com outro corpo e produz o acontecimento.

Aluno: O dente dói.

Claudio: O que tem que acontecer para alguma coisa doer em alguém? Vê lá o que tem que acontecer. Descreve o que tem que acontecer! Ele tem que encontrar outro corpo, para produzir o acontecimento – não escapa! O corpo está necessariamente em contato com outros corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Algum corpo que encontrou com o seu corpo e produziu a sua morte. Mas morrendo – isso é um acontecimento. Mas, para isso acontecer, é necessário que outro corpo tenha entrado em contato com o seu. Qualquer acontecimento – necessariamente – implica a potência dos corpos. É impossível você pensar a unidade isolada de um corpo. Sobretudo porque – vou dar por mais ou menos entendido – um corpo – qualquer corpo – é constituído por uma multiplicidade de corpos. Não há sequer um corpo que nao seja constiuído por uma multiplicidade de corpos. O meu corpo é constituído por quê? Qualquer biólogo dirá que o meu corpo é constituído de várias células.

Qualquer corpo é constituído de uma multiplicidade de corpos. Você pode descer ao menor dos corpos – e o menor dos corpos é constituído por uma multilpicidade de corpos. Retirando da natureza a ideia de simplestudo o que está na natureza é complexo. Tudo é uma complexidade. Tudo é uma multiplicidade. Não existe o simples – só existe o múltiplo. Qualquer corpo que você encontrar é uma multiplicidade. Qualquer físico atômico sabe disso – encontrou um corpo, o que é que ele pode fazer naquele corpo? Dividir! Por que é que ele pode dividir? Porque aquele corpo é constituido por vários corpos. Não há uma unidade corporal. Todos os corpos são múltiplos. Isto é que é a teoria da multiplicidade. Todos os corpos são uma multiplicidade de corpos. (Certo?)

Então, qual é a minha essência? Múltiplas potências! A essência de cada corpo é uma multiplicidade de potências. (Já deu para entender? Se não entendeu eu não sei mais nem o que eu faço… porque é facílimo!) Em vez de você pensar que um corpo é uno, o corpo é múltiplo. É o que há de mais simples no mudo! Qualquer um sabe disso! Qualquer criança na rua sabe disso; que o corpo é uma multiplicidade… que de repende uma determinada potência do corpo puxa para cá, outra potência puxa para lá – há conflito de potências. (Entenderam?) Muitas vezes nós pensamos que tomamos uma atitude por que nós somos aquilo. Não, são as potências de nosso corpo que se confrontam e conduzem a nossa vida.

Eu vou contar um caso incrível para vocês: um cara está passeando com Nastassja Kinski na praia de Copacabana, e ela está toda apaixonada por ele. Ai passa um negão e ele sai atrás do negão. O que o levou a fazer isso? As potências do corpo, as potências da natureza, as potências da vida que conduzem para lá, que puxam para cá, levam para lá. São as tendências da vida – [são elas] que formam as nossas vidas. São as forças, as potências que nos conduzem. Não houve, agora, o caso de um cara que matou e estuprou uma criança? Pela vontade dele ele mataria? Nunca! Pela vontade, não! Foram as forças que o conduziram. Forças potentíssimas, que o conduziram a fazer aquilo. Outras forças não puderam passar alí e conter aquelas.

É a coisa mais fácil [de se entender]: muitas vezes nós não fazemos coisas que nós não queremos fazer? A nossa vontade não passa ali – mas as forças – que são as potências do corpo, muito mais poderosas que a nossa vontade – nos levam. Na verdade, nem é isso. A nossa vontade está sempre a serviço da potência que vence. Vejam se entenderam. A nossa vontade está sempre a serviço das potências que vencem. Essas potências se confrontam no corpo. A potência vitoriosa… […]

Isso quebra a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio; nós executamos as nossas vidas segundo as potências que nós temos. Se é aquela potência que está passando, é aquela potência que a vontade vai seguir.

É a coisa mais fácil do mundo! O que dificulta, sabe o que é? É o modelo clássico que nós temos do livre arbítrio. Isso é que confunde a gente.

Os estoicos estão dizendo que a nossa vida não se explica pela vontade – mas pela potência de expansão. Quando uma determinada potência vem – é ela que vai se afirmar, se não vier outra para inibi-la. Em Freud, há uma teoria da ambivalência, em que, por exemplo, nós odiamos e amamos alguma coisa ao mesmo tempo. É uma tolice: não é nada disso! O que ocorre é que, de repente, passa a potência do amor, e dali a pouco vem a potência do ódio e faz a do amor abaixar, passando a do ódio! São as potências que governam as nossas vidas!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se são do acaso? Depois eu vou explicar isso – como é que se dá o mecanísmo dessas potências. Mas nós entendermos que a nossa vida se constitui por esse campo de potências. Então, não é uma potência. São múltiplas potências – múltiplas! – que são constituintes das nossas vidas. (Posso dar por entendido?)

Aluno: Você vai andando pela rua, [inaudível] quer dizer, você vai entrando em contato com uma outra coisa…

Claudio: Você quer saber se… Não, não não! Não é o outro corpo que vai fazer eu odiar ou amar. O meu próprio corpo é feito de uma multiplicidade de potências; se vocês repararem nós odiamos, amamos, somos indiferentes e alegres com a relação à mesma coisa em cinco minutos! São essas potências que estão – o tempo inteiro – atravessando dentro de nós. Elas estão o tempo inteiro se defrontando para ver qual vai governar – é uma luta constante!

Aluna: [inaudível] essência dos corpos?

Claudio: São a essência dos corpos. A nossa essência é esse conjunto de potências. É isso que é a nossa essência.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Melancólica? [Aluno: É!] Evidente que sim, evidente que sim! Se de repente determinada força em você começa a governar, é assim que você vai entrar em relação com os outros corpos. [A partir da potência que vencer.] É evidente! Aquela potência começa a passar em você – sua relação com os outros corpos vem dalí. De repente outra passa, as coisas melhoram… ou pioram!

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não, porque a vontade… o que quer dizer vontade, C...? A vontade é alguma coisa que serve à ação da potência. Por exemplo, vencem em mim as potências da preguiça, eu sonho em ser preguiçoso, em não fazer nada. Isto – de ser preguiçoso – é uma potência que está passando em mim. O que eu faço com a vontade? Eu torno a vontade serviçal desta potência, e vou ser preguiçoso ad nauseam. Preguiçoso ao infinito. Boto a minha vontade a serviço da minha preguiça. Por exemplo, os filósofos, para serem filósofos, êles têm que conquistar o ócio. É impossível o filósofo ser filósofo sem ócio. Imagina o filósofo preocupado com o preço da banana! Ele nunca seria filósofo. Ele tem que se preocupar com outras questões. Então, ele tem que colocar a vontade a serviço daquela potência. Porque as outras potências, a potência que quer saber o preço da banana, também está atravessando. (Não sei se vocês entenderam…)

A vontade não é aquilo que decide em nós. O que decide em nós são as potências. A vontade está a serviço das potências. Isso rompe com a teoria da vontade livre. Rompe com a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio. Há vontade a serviço da potência. (O que vocês acharam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Pode, pode, pode… Vou mais devagar aqui, vou mais depressa ali, mas ela está a serviço da potência. Em vez de você pensar que é a vontade que decide qual a potência que vai aparecer… é a potência que coloca a vontade a serviço dela. Fechando para vocês: é isso que, – em Nietzsche – se chama vontade de potência. A famosa vontade de potência de Nietzsche é isso! É a vontade a serviço da potência.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É sempre a potência que governa, a potência que manda. Ou seja, quando uma determinada potência me governa, o que essa potência quer? Ela quer produzir o mundo conforme ela é. Isso que a potência quer.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É evidente que, para eu ir trabalhar, a potência tem que querer trabalho. É evidente! Esta é a grande questão do Ocidente. A grande questão para o nascimento do capitalismo foi a proletarização que vai se dar no nosso campo social a partir do século XVIII. E essa proletarização são práticas de poder estimulando as potências de trabalho. O que se faz no ocidente, é uma prática de proletarização. O que é a proletarização? É pegar os corpos e estimular neles as potências que interessam ao poder político. Então, produz-se estímulos de potências de trabalho. Por isso é muito difícil se pegar um primitivo e colocá-lo na força de trabalho, pois ele já está todo constituído e suas potências se dirigem para a pesca, para o amor – mas se dirigem com dificuldade ao trabalho. Então, para se produzir um corpo no nosso mundo tem-se que pegar a criança e começar a extrair dela as potências que interessam. (Deu para entender?) Porque a potência está em você! Mas o que faz o poder político? Ele vai trabalhar naquele corpo, extraindo dele as potências que interessam a ele [poder político]. Imediatamente a vontade se liga àquela potência [estimulada] e eu digo: “que vontade de trabalhar!”. (Entenderam?)

Aluno: A sua razão não pode estimular potências que lhe interessam e produzir uma vontade livre?

Claudio: Não, não, não! Não senhor! Espera um pouco para entender. Daqui a pouco eu vou falar sobre a razão para você entender! Entender o que eu estou dizendo, é que um corpo é constituído por uma multiplicidade de potências. Então você pega o corpo de uma criança, o que ele é? Uma multiplicidade de potências. O que você faz? Você estimula naquele corpo as potências que lhe interessam; ou seja, um campo social emerge pela prática estimulativa. Assim que se produz um campo social. Entrando em crise direta com o modelo marxista, para quem um campo social se constitui por repressão. Não é por nenhuma repressão, é por estimulação das potências dos corpos. (Não sei se entenderam…) O marxismo pensa que para se constituir um campo social tem-se que fazer práticas repressivas. Eu estou dizendo: não!, para se constituir um campo social, tem-se que estimular as forças que interessam. Por isso que a [questão da] educação é tão problemática. Por isso que a partir de meados do século passado nasceu no ocidente a escolarização obrigatória – porque a escolarização obrigatória é [para] extrair [daquela criança] as potências que interessam [ao sistema].

Aluna: [inaudível] a constituição de um campo social, é porque ele está pensando um novo [inaudível], não é?

Claudio: É porque ele está pensando a essência como atributo. É só isso, filha. É só isso! É só isso! Na hora que você pensa a essência como atributo, o homem já tem uma essência atributiva dentro dele, e as práticas políticas, então, seriam exatamente reprimir o homem. Não há repressão de homem nenhum! Pelo contrário. O que o campo político faz é produzir o homem, ele produz o homem – porque homem é isto que nós somos! Ou seja: as potências que foram estimuladas em nós, para constituir o que nós somos, é que nos tornou homens. Não o homem em essência o homem é uma prática política.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Vamos com calma para vocês entenderem. Não tenta fazer teoria muito grande já não, A.… Vamos entender, filha. Certo? A minha tese neste instante é muito simples: a formação de um campo social não se dá por práticas repressivas na essência do homem; a formação de um campo social se dá por práticas estimulativas nas potências de um corpo.

Aluna: Pois é, mas as práticas estimulativas não estariam ligadas às práticas repressivas, porque…

Claudio: Não, filha. Não! De forma nenhuma! O que eu estou dizendo para vocês é que o campo social vai constituir agências estimulativas. Por exemplo, voce pega uma criança da família conjugal, moderna, capitalistica, século XX. O que se estimula nesta criança? Todas as suas potências econômicas. Todas as potências econômicas dessa criança são estimuladas. Não há sequer uma criança, nas nossas famílias, que não seja criada para vencer na vida. Vencer na vida no mundo capitalista é fazer o quê? Trabalhar! Estimular as potências do trabalho será exatamente o modelo das nossa instituições. (Não sei se vocês entenderam…)

Não há sequer uma família… qualquer família pega sua criança e faz o que naquela criança? Estimula nela o quê? As potências do trabalho. No nosso mundo é sempre a mesma coisa – produz-se uma criança economicamente fortíssima. Economicamente forte, quer dizer o quê? Todas as potências do trabalho são estimuladas naquela criança.

Querem ver uma coisa? De repente chama-se o psiquiatra numa família. Por quê? Porque uma criança, numa família, não está sendo estimulada pelo trabalho. Está se derivando. A deriva dela é porque a prática estimulativa não está funcionando. Aí aparecem as instituições para fazer essa prática de estimulação – a psicologia, a psiquiatria são as fábricas estimulativas… para trazer aquela criança para o campo social. (Entenderam?)

Vou fazer uma narrativa do Michel Foucault. O Foucault diz que era um homem triste, muito triste, porque ele vivia em um campo social em que as forças de dominação se dão diretamente no corpo da criança. Isso o entristecia. A prática de estimular aquela criança para produzir o homem que interessa para a família. Isso produzia nele uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza. E essa prática geraria homens sem nenhuma potência política. Nós teríamos as nossas potências econômicas altamente estimuladas, mas as potências políticas estariam inteiramente fechadas. (Não sei se entenderam…) Potências políticas – se as potências políticas passassem, o capitalismo já teria desaparecido, porque nós não suportaríamos esse modo selvagem de vida; não suportaríamos o que nós somos. Então, o capitalismo estimula o tempo inteiro as nossas potências econômicas – mas não deixa passar as potências políticas. Não deixa passar. Não há nenhuma instituição no nosso campo social que seja estimuladora das potências políticas. A estimulação das potências políticas nos levaria, necessariamente, a fazer transformações sociais; pois quando se estimula uma potência, ela se torna criativa. Nós somos criadores constantes no campo econômico. Sempre criadores no campo econômico. Sempre! Nós não paramos de inventar meios de produzir mais “grana”. Sempre! Por quê? Porque aquilo é estimulado. Se você estimular as potências políticas de um homem, o que vai acontecer? O campo social vai se romper. (Não sei se entenderam…) Então não seria possível que o capitalismo fosse fazer isso. Porque senão ele teria se destruído. (Deu para entender aí? Então eu vou parar dez minutos para vocês tomarem café e eu retomo, tá?)


2ª Parte:

O instinto é inato. Ele não depende de nada para existir, (certo?) É o instinto que me leva a procurar as coisas – não o afeto. O afeto é alguma coisa que só aparece em mim se algo vier de fora e excitar a aparição desse afeto. O afeto é produzido. Ele é uma composição com outro estimulador.

O exemplo do carrapato é nítido: o carrapato é estimulado pela luz. Então, o que acontece? O afeto pela luz aparece, ele se compõe com a luz. A luz se compõe com o afeto. O que o carrapato vai fazer é procurar os pontos mais altos, onde a luz bate mais, [para se instalar]. Quando ele chega aos pontos mais altos ele para. Por quê? Porque é ali que a luz mais o afeta. Aí ele para. Ele vai sempre para os galhos de árvore. Chegando aos galhos mais altos, nada mais o afeta. Ele fica parado ali – olha que coisa incrível – 15, 16, 17, 18 anos, sem fazer nada! Em pleno jejum. De repente, passa por baixo dele um animal de sangue quente. Este animal de sangue quente produz nele um afeto, e ele cai em cima. Esse afeto pelo sangue quente nunca apareceria se o animal não passasse. O afeto pressupõe a presença do estimulador. (Não sei se entenderam…) A ideia de afeto é diferente da ideia de pulsão e de instinto porque o afeto é aquilo que só existe em composição. Não há falta, só composição; só há o que se chama – agenciamento. (Entenderam?)

A única coisa que eu quero que vocês entendam, é que a teoria do afeto não é a teoria do instinto e não é a teoria da pulsão. A teoria do afeto – o afeto é aquilo que para existir pressupõe um estimulador – porque o afeto não funciona sozinho. Ele só funciona em agenciamento. Ele está agenciado, ele existe. Não está agenciado, não existe. (Ficou difícil, não é?)

Eu não estou definindo o afeto – eu estou dizendo como ele funciona. É isso que eu estou fazendo. Em vez de definir o afeto, eu estou [descrevendo] o funcionamento do afeto. Não me importa defini-lo. Importa-me dizer como ele funciona. Ele funciona dessa maneira: o afeto é alguma coisa que para existir pressupõe o estimulador. (Certo?) É preciso que alguma coisa o estimule, para que aquele afeto exista.

O carrapato é citado porque ele só tem três afetos. Só há três meios de o carrapato ser afetado: luz, sangue quente e suor. Só essas três coisas afetam o carrapato. Se não houver essas três coisas o que ele faz? Literalmente não se move. Isso que eu estou chamando de afeto. O afeto é alguma coisa que não pode ser entendida por definição – só pode ser entendida por funcionamento.

Aluna: Ele não é produto do agenciamento?

Claudio: O afeto seria o próprio agenciamento. O afeto só se entende por função. Olhem a palavra que eu estou usando: função! Ele não pode ser definido. Ele não pode ser explicado por nada. Porque ele é um funcionamento. Ele é algo que funciona. Isso que é o afeto.

Então, pelos afetos os corpos fazem os agenciamentos. (Não sei se vocês entenderam… Acho que eu não fui feliz… O que você acha, C..., tranquilo?)

Os corpos vão se agenciar pelos afetos. Então, o que é exatamente a relação dos corpos? A relação entre os corpos é uma relação afetiva – eles fazem agenciamento por afetos. Eles vão fazendo a sua existência [através das] composições afetivas. Mas eu disse a vocês que não há sequer um afeto que funcione sem estimulação. Não há possibilidade disso. O que implica em dizer que os afetos podem ser inventados. Pode-se produzir afetos que você não tem. Na verdade, nós não temos nenhum afeto – os afetos são produção de estímulos.

Eu posso pegar uma criança que nunca viu um livro e começar a agenciá-la com livros – e ela pode criar afeto pelo livro. Ela passa a fazer um agenciamento afetivo com o livro: ela passa por um livro, para e olha – como a gente passa pelas livrarias e tem que olhar, (não é?) Ela vai criando afetos.

Eu posso pegar um brasileiro, ainda que isso pareça impossível, e fazer com que ele deixe de se afetar pelo samba do terreiro e se afete por ópera. Por estimulação. Mozart, por exemplo, é uma invenção afetiva do pai dele, que o pegou aos quatro anos de idade e só jogou música em cima dele, música em cima dele, música em cima dele, afetando, produzindo afeto. Aí, aquilo emerge, nasce a composição. O afeto não é um sentimento, não é uma paixão, não é uma emoção – o afeto é aquilo que faz a composição dos corpos, o agenciamento dos corpos.

Deixa eu só fechar aqui, olha que coisa interessante: os povos nômades são aqueles povos que foram forçados a ir para as estepes e para os desertos. (Eu não pretendo contar aqui toda a história dos povos nômades). Eles foram para a estepe e o deserto por forçamento político, mas quando eles chegam no deserto e na estepe eles têm um problema – que é a alimentação. Lá não é como na planície. Então, eles vão tornar os animais deles produtores de alimentos. Eles começam a relacionar os animais deles com aquela grama rasteira que dá no deserto, porque os animais se afetam por aquela erva. E, os animais entrando em composição com aquela erva, tornam-se produtores de sangue e de leite, eles geram animais “fábrica de alimentos”. Por isto, a relação de um nômade com um animal não é a mesma que entre o sedentário e o animal. Por que o sedentário torna o animal carregador de carga; e o nômade torna o animal produtor de alimentos. Eles têm uma composição diferente. Nós não podemos pensar a relação do nômade com o animal conforme a nossa relação – pois aquilo ali funda um novo campo afetivo. (Não sei se vocês entenderam…) É completamente diferente a literatura do nômade sobre os animais, e a literatura animal aqui, no nosso mundo sedentário. Porque os animais para nós servem diretamente a nós – enquanto para o nômade ele é fábrica de alimento e instrumento de guerra. É completamente diferente o uso que eles fazem, do uso que nós fazemos. Ou seja: voce pega uma criança nômade e vai gerando nela um afeto pelo animal, vai produzindo um afeto nela. Por isso, a relação de uma criança com um animal no mundo nômade é completamente diferente da nossa.

Aluno: [inaudível] encontro de corpos, não é?

Claudio: Agora eu reduzi para o encontro dos afetos. Aquilo já está ultrapassado. Agora, realmente, o encontro de corpos são composições afetivas. Eu passei do encontro de corpos, para encontros afetivos. O que realmente faz com que um corpo se encontre com outro são os afetos. Por que é que eu respiro? Porque o ar afeta meu pulmão, aí eu respiro!

Aluna: Os afetos são agenciamentos?

Claudio: Os afetos são agenciamentos. Não são nem pulsões nem instintos. Eles são produtores de agenciamentos. (O que vocês acharam? Ficou muito difícil?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. O agenciamento de afetos é agenciamento de corpos, que gera… acontecimento. Gera acontecimento. Os corpos fazendo encontros, geram acontecimento.

Aluna: [inaudível] respirar…

Claudio: Você tenta pensar isso. Porque eu estou dizendo que você vai respirar, porque você é afetada no corpo. Você é afetada! Se voce colocar, por exemplo, um homem nas trevas, ele vai viver lá, sem sentir a falta da luz. Ele só ganha o afeto na hora em que alguma coisa vem estimulá-lo. Aí ele vai funcionar. É pensar o corpo vivo como função. E essa categoria de função é matemática. Depois eu passo para vocês. Essa idéia de função – é que um corpo só funciona através de composições afetivas. Senão ele paralisa.

Isso é tão fácil! Isso faz parte das nossas vidas. Nós nos movemos somente em função daquilo que nos afeta. Senão nós não nos movemos! Ninguém vai se mover por aquilo que não o afeta. É só o campo dos afetos que gera os nossos movimentos. Nós vamos fazendo composições afetivas e constituindo o nosso corpo. Pelas composições de afeto que a gente faz. Você pega o telefone e liga para a sua mulher, depois liga para o seu pai e, dalí a pouco para um credor. Olhem como essas três composições de afeto geram vozes diferentes; geram vozes, geram acontecimentos diversos! Porque o que eu estou dizendo é que todo o universo é feito por esse campo de afetos. Por que um homem faz literatura e o outro faz cinema? O que é isso? São campos afetivos. Os campos afetivos vão produzindo as nossas vidas!

Agora eu vou dar uma explicação concreta: há um tempo na história, eu não posso precisar (se tiver alguém que precise essa história para mim…), em que houve a invenção do estribo. Colocaram estribo nos cavalos. Na hora em que puseram estribo nos cavalos, o agenciamento que o homem fazia com o cavalo se modificou. Modifica-se o agenciamento do homem com o cavalo. Nasce a possibilidade de haver a guerra com lança, nasce a possibilidade da armadura; novas relações de corpos vão se formando, e vão se gerando novos acontecimentos.

Agora, eu vou dar como mais ou menos entendido essa questão do campo dos afetos, e vou passar a explicar o que vem a ser acontecimento.

O acontecimento é todo campo do nosso saber. Os afetos é o campo do nosso poder, e o acontecimento é o campo do saber. O que nós falamos, sobre o que nós falamos? O que nós vemos no mundo? Nós vemos e falamos sobre as nossas relações de corpos. O nosso mundo não é um mundo em si mesmo; o nosso mundo é sempre produto das relações de corpos que nós fazemos ao longo da vida. Por exemplo, o saber do mundo medieval não é o mesmo saber que nós temos no século XX. Por que não? Porque eles não falavam e não viam as mesmas coisas. O acontecimento é o campo do saber; é o atributo. E os corpos são as forças.

Quando nós usamos o discurso é para falar exatamente sobre o mundo em que nós vivemos. Por exemplo, se eu disser para vocês que um homem está louco, “aquele homem está completamente louco“, é possível que alguém diga assim “leve este homem ao psiquiatra para tentar curá-lo“? É possível que alguém me diga isso? Sim, é possível. Mas isso não podia ser dito no século XVII. Não podia ser dito, de maneira nenhuma – porque o encontro do corpo do louco com o corpo do psiquiatra ainda não tinha se dado. Aquilo que pode ser dito pressupõe o encontro dos corpos. Senão, não pode ser dito. Não pode ser dita qualquer coisa em qualquer tempo.

Hoje os jornais não podem dizer que determinadas famílias são criminosas porque não mandam os seus filhos para a escola? Por quê? Porque no nosso tempo a escolarização é obrigatória. Mas no século XVIII não era. Você só pode dizer alguma coisa depois que aqueles corpos fizeram a composição. Os enuciados que nós produzimos ao longo da vida, são enunciados efeitos das composições dos corpos. (Não sei se vocês entenderam…) É a coisa mais fácil: quando é que nasce a escolarização obrigatória? Em meados do século XIX. A partir do momento em que a escola fez uma composição com os corpos das crianças, qualquer homem pode dizer – “é um absurdo não mandar essa criança para a escola!“. Mas apenas a partir daquele momento – antes não! Isso não acontecia antes. Todos os enunciados que nós produzimos se originam nesse movimento dos corpos. (Como é que você foi?)

Aluna: A questão da produção do estribo para o cavalo…

Claudio: Modificou a guerra… O estribo é uma criação. Não existe essa coisa de necessidade, não. Não, não há necessidade de nada.

Aluno: Mas, particularizando o caso do estribo, foi uma necessidade realmente não tanto para que a pessoa se equilibrasse, mas para que pudesse montar no cavalo.

Claudio: Não! Se você dissesse isso para o nômade, ele ia te olhar com a cara tão feia… porque ele sabe pular em cima do cavalo.

Aluno: Os nômades têm estribo. Aqueles peles vermelhas é que não…

Claudio: Os nômades têm estribo agora. Têm estribo agora! Eles nunca tiveram estribo! Você sabe o que era o nômade? O nômade era chamado “perna magra”. Eles tinham a perninha magra, preparada exatamente para montar nos cavalos a pêlo. Tanto que as mulheres nômades tinham que aprender a ter desejo sexual por perna magra. Que as pernas magras eram consideradas bonitas.

Na hora que aparece o estribo, é aí que vão ser geradas, por exemplo, as cruzadas. As cruzadas seriam impensadas sem os estribos.

Aluno: Nos documentos antigos que retratam as guerras greco-romanas…

Claudio: Você não encontra estribo. Você tem um agenciamento de corpos… Inventaram o estribo. Inventaram a armadura. Inventaram os torneios. Inventaram os cavaleiros. Inventaram o amor cortês.

Aluno: Olha, a lança era apoiada no pé dos cavaleiros. E para isso, precisava obrigatoriamente ter o estribo, do contrário não funcionava.

Claudio: Exatamente. Quando se inventou o estribo, não modificaram as máquinas de guerra? Modificaram as máquinas de guerra, permitiu-se o acontecimento invasão do oriente – as cruzadas. O acontecimento vai se liberar por esse movimento dos corpos.

Por exemplo: quando é que nós começamos a pensar em visitar a lua? No momento em que pelo menos nós passamos a entender que a gravidade é uma foça e que essa força só pode ser vencida por aceleração. Pronto! Quando se fazem determinados agenciamentos de corpo, aí o acontecimento emerge. De imediato o acontecimento emerge.

Vocês podem ler um livro do Georges Duby – que saiu agora – chamado Idade Média, Idade dos Homens. Leiam o livro para vocês verem esse acontecimento chamado cavaleiro. É um livro lindíssimo que saiu agora.

Toda a natureza se constitui por composições afetivas. Essas composições afetivas geram o acontecimento. Composições afetivas chama-se campo do poder. Acontecimento, campo do saber. (Isso deixa para as próximas aulas.)

Como muita gente perdeu, eu reproduzi a última aula e deixei o campo de saber para a próxima.

Então, o campo de saber pressupõe o campo do poder. Que é alguma coisa que nós não entendemos bem no mundo moderno. Nós pensamos que o saber nada tem a ver com o o poder. Ou quando pensamos que o saber tem alguma coisa a ver com o poder, falamos asneiras sobre o poder. Poder não é o poder do Estado. Poder é o poder dos corpos. Isso que é o poder. É o poder que os corpos têm de fazer composição com os outros corpos. E aí vai nascendo o que se chama saber. Que é o acontecimento.

Então está aberto para vocês falarem, que eu vou terminar, que eu já não aguento mais. (Certo?) Mas eu acho que foi bem.

De alguma maneira, eu reproduzi a aula passada. Não fui muito fundo, mas na próxima aula eu vou começar a explicar campo do saber para vocês, logo – teoria das atribuições… eu tenho que penetrar cada vez mais fundo.

Aula de 20/08/1989 – Nietzsche: A Individuação e a identidade ou A conquista da diferença

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 11 (Conceitos) e 14 (Literatura) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


LADO A

[…] Então, eu tenho que fazer uma montagem, e vocês precisam de um pouco de paciência para, aos poucos, irem compreendendo essas idéias e poderem utilizá-las. Se, por exemplo, eu começasse essa aula dizendo assim: “Nietzsche é o pensador do poder” ― vocês pensariam que tinham compreendido, mas não teriam, (viu?). Então, o que eu vou fazer nesta aula é exatamente dar os fundamentos para que vocês possam passar por esse filósofo bastante difícil de ser pensado. (Muito bem!).

Eu vou começar colocando uma ideia um pouco vaga, um pouco precisa ― é a ideia de força. Ela vai passar inicialmente com certa imprecisão, porque neste instante não há como dominá-la. (Viu?). Eu vou colocar essa ideia: a ideia de força… Aqueles que sabem alguma coisa de física, podem utilizar as quatro forças da física; mas, inicialmente, essa ideia de força irá passar um pouco vaga. E em seguida, na obra de Nietzsche, aparece a ideia de poder. Logo, a ideia de força e a ideia de poder não são sinônimas, não fazem uma sinonímia. Força é uma coisa, poder é outra. E o que Nietzsche chama de poder é exatamente isso: uma relação entre as forças. É como se fosse uma consequência à ideia de poder.

Para vocês entenderem melhor: nós costumamos pensar que a ideia de poder é alguma coisa que nós possuímos. (Eu estou explicando por Foucault!) Nós costumamos confundir a ideia de poder com a ideia de riqueza, porque riqueza é algo que se possui. E nós costumamos pensar que poder também seria algo que nós possuímos. E o Foucault está dizendo que poder não é isso; que poder é uma consequência das relações entre forças. O que torna a ideia de poder uma ideia relacional. De maneira nenhuma o poder é uma unidade: o poder é uma relação de forças. Se nós encontrarmos duas forças que se encontraram, essas forças produzem como consequência o poder. (Eu acho que ficou mais ou menos claro, não é?).

A ideia de poder: a grande dificuldade que nós temos para entender essa ideia é que o modelo de ideia de poder que nós temos é o modelo marxista. E esse modelo é a pressuposição de que poder é algo que se tem. E o que Nietzsche está dizendo não é isso; ele está dizendo que o poder é uma consequência das relações entre forças. (Entenderam, não é? Muito bem!)

Se o poder é consequência de relações entre forças, a ideia de poder só aparece a partir das relações de forças. Não se poderia pensar poder se não houvesse uma relação de forças. (O que você achou, Márcia? Vocês acharam que essa ideia ficou bem?).

Essa ideia é muito rigorosa. Ou seja, não vai variar daí. Sempre que eu utilizar a ideia de poder eu estarei chamando poder de relação de forças. Sempre; sempre!

Através disso, vocês passam a verificar que a clássica ideia que nós temos de que o poder é alguma coisa que o Estado possui, ou até melhor, alguma coisa que alguns possuem e muitos querem, está rompida. Poder não é isso. Poder é sempre a relação entre, pelo menos, duas forças. (Foi bem assim? Muito bem!).

A primeira hipótese que vocês têm que fazer, (novamente eu tenho que explicar para vocês), é que poder para Nietzsche não é uma substância, é uma relação. Então, onde houver relação e forças sempre emerge o poder. O poder não é uma unidade, não é uma coisa em si mesma. Não há o poder como unidade, só há poder como relação ― como essa relação de forças. (Eu fico em dúvida se correu bem, ouviu? Se vocês já conseguiram entender a ideia que estou colocando. Como é que você foi?).

Esse modelo que eu estou colocando ― de que o poder é uma relação entre forças ― é do Nietzsche. Nietzsche nunca vai pensar de outra maneira.  Ele só pensa dessa maneira. E é exatamente isso daí que serve de instrumento para a obra de Michel Foucault. Foucault também vai pensar assim: o poder como uma relação entre, pelo menos, duas forças. (Pronto!).

Agora, o Nietzsche considera que o poder é o fundamento da Natureza. A natureza ― qualquer coisa que exista ― se explica pelo poder. Se qualquer coisa se explica pelo poder, qualquer coisa pressupõe relações de forças. As relações de forças são os movimentos originários da natureza. Seriam esses movimentos das forças que a natureza tem que produziriam o campo de poder. Então, para Nietzsche, por exemplo, o meu corpo ― esse corpo que eu tenho ― é constituído por relações de forças. Logo, meu corpo é dotado de poder. (Entenderam?).

Todo e qualquer corpo para ele, não importa o tipo de corpo (eu já vou acrescentar a essa ideia de corpo), sempre que nós pensarmos um corpo, um corpo é produto de relações de força. Então, para a tese do Nietzsche, não há sequer um corpo que não tenha poder. E, em seguida, ele diz que tudo aquilo que existe na natureza é um corpo. Se tudo aquilo que existe na natureza é um corpo, tudo que existe na natureza tem poder. (Eu não sei se foi bem…).

Tudo que existe na natureza tem poder. Por exemplo, o Estado é um corpo. A Igreja é um corpo. Um átomo é um corpo. O discurso é um corpo. Então, tudo isso que está aí é constituído por relações de forças. E se é constituído por relações de forças, todos os corpos que nós encontrarmos são dotados desta característica: dotados de poder.

(Eu ainda tenho dúvida se eu fui bem, hein? Porque a entrada nessas conceituações novas ― e eu sempre tenho muito cuidado quando eu entro em conceituações novas, inclusive insistindo se vocês gostariam de falar, se as coisas se passaram bem, para eu poder prosseguir…).

Porque, a partir de agora, sempre que eu utilizar a ideia de poder vai ser essa: o poder é uma relação de forças. O que implica em dizer que não haveria sequer um corpo sem poder. Isso marca uma diferença muito grande no entendimento da prática do poder. Porque nós sempre pensamos exatamente o contrário, que há alguma coisa que tem poder e outra que não tem. Ele aqui está dizendo que não: que tudo que existe tem poder, porque tudo que existe é um corpo e todos os corpos são constituídos por relações de forças. (Quer falar alguma coisa?)

Aluno: Você falou que o poder não é alguma coisa que se possui, mas não é uma [inaudível] social também?

Cláudio: Ele é uma relação. Uma relação. Eu então vou explicar essa diferença para vocês, ouviu? Há uma diferença entre um objeto relacional e um objeto substancial. Um objeto substancial é aquilo que é em si mesmo e o objeto relacional depende de dois relatas, de duas coisas que se relacionam. O poder para ele [Nietzsche] não é uma substância, é uma relação. Se houver relação há o poder, se não houver não há o poder. Mas ele acrescenta essa ideia difícil que estou colocando para vocês, que todo corpo é produto de uma relação de forças. Logo, todo corpo possui o poder. A dificuldade de se entender isso é que o modelo de ciência política que nós temos é um modelo que não pensa o poder assim. No modelo de política que nós temos, o poder é pensado como uma substância, é alguma coisa. Em Nietzsche o poder não é alguma coisa, é sempre uma relação, uma relação de forças. (Certo? Eu vou dar por entendido… Viu?).

Aluna: E aí como é que fica a questão do domínio?

Claudio: Depois eu explico a questão do domínio, (certo?).

O que vocês verificaram agora é que eu coloquei que todos os corpos que existem precisam e dependem das relações de forças. Não existe sequer um corpo que não seja produto de uma relação de forças. (Entenderam?). Todo e qualquer corpo é uma relação de forças. Então nós teríamos aqui uma questão já muito clara: o mundo é constituído de corpos e esses corpos são produzidos pelas relações de forças. (Eu ainda estou com critérios de dificuldades aqui para haver entendimento…). Por exemplo, aqui está esse corpo. Quem produziu esse corpo? Relações de forças. Todo e qualquer corpo que emergir emerge das relações de forças, o que coloca no corpo o poder. O corpo tem poder. Todo e qualquer corpo tem poder. Mas o originário não são os corpos, o originário são as relações de forças. São essas relações de forças que vão fundar os corpos que existem. (Como é que você achou? Não está bem, não é?).

Aluno: Não. É difícil o corpo, porque você também colocou o discurso… [inaudível]

Claudio: Porque eu coloquei para vocês que tudo aquilo que existe, sem exceção, é um corpo. Então, o discurso é o quê? Corpo? O Estado é o quê? Corpo?  Qualquer coisa que existir, um átomo, é um corpo? Qualquer coisa que existir é um corpo. Mas o corpo não é originário, é secundário. Ele depende das relações de forças. Essas forças que, provavelmente, são ainda enigmáticas para nós, elementos de compreensão ainda difícil, seriam o fundamento da aparição dos corpos na natureza. (Vamos fazer uma coisa, vamos fazer um esforço por aqui. Talvez esse esforço melhore a gente).

Vamos pensar um pensamento religioso. Um pensamento religioso pressupõe que a existência de corpos é a criação de Deus. Deus criaria os corpos. O Nietzsche abandona Deus e diz que os corpos emergem por relações de forças. Então, ele está dizendo que a natureza tem como fundamento dela as forças. Existiriam forças. Essas forças não têm nome. São apenas forças que existem na natureza e através dessas forças os corpos vão aparecendo. (Eu vou dar uma seguida para melhorar, vou dar uma seguida). Vão aparecendo os corpos. Eu vou dar um sinônimo relativo: corpo é sinônimo de forma. Corpo é uma forma. Por exemplo, isto é um corpo, logo isto é uma forma. Os corpos ou as formas são a estrutura do mundo ― o mundo é constituído de corpos. O mundo é constituído de formas. Mas essas formas são produzidas por relações de forças. O que implica em dizer ― e aí já começa a ficar claro ― que essas formas só se mantêm se a mesma relação de forças se mantiver. Mudou a relação de forças, as formas desaparecem. As formas precisam, para existir, dessas relações de forças, mostrando que todas as formas que emergem na natureza são precárias. Elas emergem e desaparecem através da mudança das relações de forças. Ou seja, não haveria forma como origem, a forma é uma consequência. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo, meu corpo, esta mesa, do Estado, do campo social, do campo político, do discurso… tudo que emerge no mundo é originário dessa relação de forças. Pelo que o Nietzsche está dizendo, o que nós vamos deduzir daí é que na natureza não existe nenhuma unidade eterna, porque essas formas são sempre precárias; elas dependem das relações de forças. (Acho que ficou difícil).

Aluna: Por que não o contrário? Por que as relações de forças, para serem expressadas, dependem exatamente disso? Por que as relações de forças precisariam de um corpo para se expressar?

Claudio: Não!… Não. O que ele está fazendo… inicialmente, com base no que nós temos, é que ele está constituindo um mundo fragmentário, ele está construindo um mundo de elementos micros. Ele está dizendo que tudo que existe no mundo são os corpos ― e esses corpos não são originários, eles são produtos de forças que se encontram. Os corpos emergem a partir da relação de forças. Isso daqui é um rompimento com a metafísica clássica, porque a metafísica clássica pressupõe que o primário são as formas. Ele está invertendo…ele está dizendo que qualquer forma que exista na realidade, qualquer forma pressupõe essa relação de forças. Ele jogou o campo das formas para a precariedade. Ou seja, (ainda está difícil, não é?) ele negou a ideia de que há uma natureza, não existe natureza, o que nós chamamos de natureza são essas formas precárias. Porque o que tem no fundo da natureza são as forças, sem nenhuma forma. Mas são essas forças que vão produzir as formas do mundo: uma árvore, uma montanha, o Estado, a sociedade, o discurso… Todas essas formas, que vão emergindo no mundo, são originárias nessas forças. E essas forças, elas mesmas, não têm formas. Elas não são formais. As formas emergem…

O que ocorreu aqui é a quebra da ideia de que possa haver alguma forma eterna. Não há nenhuma forma eterna. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo… E o que é uma forma? O corpo. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo é precária. O que quer dizer precária? Ela dura, qualquer forma dura enquanto se mantiver a mesma relação de forças. Modificada essa relação de forças, aquela forma desaparece. Por exemplo, o que é a morte? Quem morre? Quem morre é uma forma. A morte é a morte das formas, não é a morte das forças. Agora, a morte é quando um tipo de relação de forças se desfaz e aquela forma desaparece. (Ainda está difícil, não é? Hein, Márcia? Estão entendendo?)

Vejam o que eu disse: toda forma se tornou precária.

― O que quer dizer uma forma precária? Nenhuma forma é primária nem nenhuma forma tem eternidade existencial: toda e qualquer forma existe em função das relações de forças que a produziram.

Então, aqui, pode-se pensar na mudança de um campo social para outro simplesmente como uma mudança das relações de forças, aparecendo outros tipos de formas. O que o mundo superficial, o mundo em que nós vivemos… é um mundo em que contatamos com formas; e temos a ilusão de que essas formas são unidades. Nenhuma forma é unidade: toda e qualquer forma é produto dessas relações de forças ― a forma do Estado, a forma da sociedade, a forma do discurso, qualquer coisa; tudo que aparece no mundo é uma forma que não tem nenhuma originalidade: é sempre uma emergência, produto de forças que se relacionaram. (Como é que foi, Chico? Eu não tenho nenhuma pressa, hein?… Nenhuma pressa!)

Aluna: Não tem categoria de origem nessa… [inaudível]

Claudio: Forma não tem origem, forma tem emergência. (Vocês entenderam a distinção de emergência de origem?).

Porque nós pensamos, por exemplo, que há seres que têm uma origem, um princípio e vão se desenvolvendo ao longo da história, ao longo do tempo. Aqui não tem nada disso. Tudo que aparece, aparece emergindo por uma relação de forças. Aquela relação de forças desaparece, aquela forma desaparece. Imediatamente.

Aluno: As forças são eternas?…

Claudio: Essas forças, que são a nossa grande complicação, são eternas.

Aluno: Quer dizer, os corpos… [inaudível]. Se necessariamente os corpos desaparecem o que está provocando essa mudança nas forças, na relação de forças?

Claudio: Que é o nosso grande problema! É entender a mutação nas relações de forças, porque essas forças vão ficar mudando, o que são exatamente essas forças… É exatamente o nosso problema (Certo?). Antes de entrar nesse problema ― o de maior dificuldade que nós temos, que são as mutações que essas forças fazem ― nós entendemos já definitivamente que o mundo das formas, que é o mundo dos corpos, não tem identidade ontológica: são apenas acontecimentos de superfície. Porque a metafísica do Nietzsche é a metafísica das forças, e não uma metafísica das formas. Não haveria formas originais que se processariam na história. Nenhuma forma original. Todas as formas que emergem são produtos das relações de forças. (Eu vou seguir um pouquinho…).

Através disso, se pensarmos politicamente, se pensarmos no campo político e verificarmos, com uma clareza muito grande, que aparecem objetivos de manutenção de determinadas formas, objetiva-se manter determinadas formas… Como a do Estado, por exemplo, que é uma forma e tem o objetivo de permanecer. Para ele, permanecer requer a manutenção de um tipo de relação de forças. O que se passa, então, é que você passa a compreender a natureza, não como se ela tivesse uma verdade, mas a natureza como jogos estratégicos. São jogos de estratégia. Por exemplo, um pensador como Maquiavel diz claramente na obra dele que quando você quer manter uma determinada forma, o que você tem que fazer são estratégias de forças, para que aquela forma perdure. Nada no universo perdura se as forças não mantiverem aquilo. Então, no mundo não haveria verdade formal. O que haveria no mundo seriam os jogos de forças. Seria tudo um jogo de forças, mas as forças fazendo as formas aparecerem. Mas essas formas, todas elas ― eu, este copo, seja o que for ― são formas precárias. A precariedade da forma é que uma forma só dura no tempo se a mesma relação de forças durar. Modificada aquela relação de forças, aquela forma vai desaparecer. Qual é a primeira implicação política disso? A primeira implicação política é que essa forma que eu tenho (ou essa forma que ela tem, ou essa forma que nós temos) só se sustenta porque forças estão agindo por baixo. Ou seja, para que eu tenha essa forma que eu tenho é necessário que haja, permanentemente, um tipo de relação de forças. Você não pode ter nenhum ser, nenhuma forma que se mantenha no universo, sem que a ação das forças se dê. Se vocês pensarem isso, passam a pensar o campo social como uma permanente prática de relações de forças. Relações de forças para produzir aqueles tipos de formas. Se aquelas relações de forças pararem ou se modificarem outras formas vão aparecer. (Não sei se vocês conseguiram entender isso).

Por essa tese do Nietzsche, não se pode mais entender nada como sendo forma substancial ― não há forma substancial! Para se manter aqui, tudo pressupõe as forças que conservam aquilo, determinados tipos de força conservando a existência daquela forma. E isso vocês podem aplicar no campo político ou no campo da vida: se, por acaso, as forças do meu corpo se defrontarem com determinados tipos de forças que não são as atuais, essa forma vai desaparecer ― é a morte. A morte é a morte das formas e o deslocamento das forças. Essas forças são eternas e as formas são passageiras. (Acho que ficou difícil, hein, Márcia?).

Aluna: [inaudível] eu estou pensando no conceito de dínamis, no Aristóteles, [inaudível] em Nietzsche e no clinamenen de Lucrécio. Têm alguma coisa a ver, não é?

Claudio: Pode… você pode aproximar! Eu acho que a dinamis aristotélica não dá conta. Não dá conta. Não dá conta, pode dar a ilusão de dar conta, mas não dá… O clinamen, eu acredito que você pode aplicar; pode aplicar sem dúvida nenhuma, porque essas forças não param de fazer deslocamentos…

Aluna: O clinamen… [inaudível]

Claudio: O clinamen eu já dei para vocês aqui: eu falei muito no clinamen nas aulas do Lucrécio. Você pode aplicar o clinamen; mas a dinamis, eu acho que não. A ideia de potência do Aristóteles não entra aí, ela não passa. Porque o que Nietzsche está colocando e, sobretudo, de uma maneira muito assustadora, é que, em nenhum momento, nós poderemos prever qual é a forma que vai se conservar,  nem qual é a forma que vai aparecer. Nós não podemos prever, porque não é no campo das formas que se dá o entendimento da natureza. O entendimento da natureza se dá no campo das forças. E essas forças não são regidas por nenhuma lei, não são regidas por leis ― são estratégicas: elas visam afirmar-se. Então, você não pode, de maneira nenhuma, antever que tipo de formas vai aparecer, porque, subitamente, pode aparecer uma forma nova. (Não sei se vocês me entenderam…). Não há como, pensando o mundo das forças, introduzir uma lei: não há lei nesse campo das forças. O que as forças fazem está inteiramente no regime do acaso. No regime do acaso.

Aluno: As formas, então, não são eternas; elas são…

Claudio: Precárias: inteiramente precárias!

Aluno: Há a evolução de uma forma, não é isso? O desaparecimento de uma, para o surgimento de outra forma

Claudio: Olha, você já viu que a teoria do tempo, a teoria da história, a teoria da evolução… entraram em crise? Três temas já em crise!

Aluno: Agora, partindo disso daí, olha só, se não existe evolução, … [inaudível]   Enquanto uma forma se mantém, as forças que atuam… [inaudível]  da linguagem?

Claudio: Elas estão se reproduzindo ali, estão se reproduzindo e aí você pode pensar uma evolução.

Aluna: É uma ruptura, não uma evolução!…

Claudio: Não, quando uma determinada força se mantém produzindo uma forma, você pode pensar no crescimento daquela forma; pode pensar num termo evolutivo ali dentro.

Aluna: É o caso do Bergson, não é?

Claudio: Sim, mas não precisa aplicar o Bergson. A pergunta dele… Uma determinada forma emerge, dada aquela forma que está ali, você pode perfeitamente pensar numa evolução daquela forma, mas o que você não pode é pensar evolutivamente de uma forma para outra. Isso não! De uma forma para outra, há um corte de descontinuidade. Há continuidade numa forma. Pega-se um nietzscheano: o Foucault, por exemplo. Quando o Foucault pensa o nascimento do discurso psiquiátrico (talvez não esteja muito claro), ele admite que ele tem uma relação com o discurso da medicina. Então, é uma mesma forma se modificando, até mesmo evoluindo. Mas, para nascer, o discurso psiquiátrico pressupõe novas relações de forças. Você aqui teria duas linhas. Você teria as formas emergindo por causa de certas relações de força, mas podendo admitir certa continuidade de uma forma. Uma forma tendo uma certa continuidade. Mas o que fundamenta mesmo esse pensamento é a teoria da descontinuidade. Não haveria, por exemplo, entre o discurso psiquiátrico e o velho discurso da medicina nenhuma relação, a não ser nominal: os mesmos nomes. Mas seriam outras relações de forças.

Aluna: Não é um desenvolvimento.

Claudio: Não é um desenvolvimento! Ele emerge; aquilo emerge ali, vai emergindo ali. Na há dúvida de que a gente pode encontrar uma pequena continuidade. Mas não é por essa pequena continuidade que aquilo vai-se explicar, porque aquilo vai se fundamentar pelas novas relações de forças que apareceram. Então, aparece aquele tipo de forma. Por exemplo: do século XVII para cá, deu-se no ocidente uma prática de proletarização. Começou-se a produzir proletários, subjetividades proletárias. São determinados tipos de forças que produziram esse tipo de subjetividade. Não se pode, o que seria até risível, pensar na evolução do proletário. Seria até cômico (não é?): Ah! Os proletários vão evoluir!  Não, isso daí é um determinado tipo de força que produz. Então, o que eu estou dizendo ― eu vou até aplicar uma coisa um pouco confusa ― que é nós pensarmos o tempo ou a história como descontínua. Um determinado campo social emerge por causa de determinadas relações de forças. Outro campo social vai emergir por causa de outras relações  de forças, cada um produzindo as suas formas. Talvez não aja nenhum parentesco entre mim e o medieval. Porque nós somos duas formas completamente diferentes.

Aluna: O Claudio,… [inaudível] Bergson….

Claudio: Mas aqui eu estou falando do Nietzsche, não é? Você tem que saber que todos os filósofos têm a sua originalidade. Se o Nietzsche não tivesse originalidade ele recobriria integralmente o Bergson, não precisaria falar do Nietzsche.

Aluna: Não… Você pode responder isso para mim?

Claudio: O que você quer saber?

Aluna: [inaudível] como o Bergson libera o tempo, […] porque… se liberar o tempo pressupõe uma certa descontinuidade?

Claudio: Não… não sei porque você está dizendo isso (ouviu, Ana?), esse deslocamento  integral que você está fazendo do Nietzsche, deslocamento integral do Nietzsche. Eu já expliquei inclusive a forma como contínua. Você pode admitir a continuidade de uma forma, que é exatamente o modelo do Maquiavel. O Maquiavel quando pensa a questão política, ele coloca com uma clareza absoluta: se você quer que alguma coisa perdure, você tem que aplicar forças ali para aquilo perdurar. Porque nada no mundo traz uma lei de duração. Nada tem lei de duração. Não há uma lei, não há um Deus, não há um princípio, não tem nada garantindo aquilo. Aquilo só vai permanecer ali se as forças fizerem aquilo permanecer. O que implica em dizer que o campo das formas, o campo da precariedade das formas, nos leva para um mundo muito difícil de ser vivido, muito difícil de ser entendido. Inclusive, essas práticas exacerbadas de segurança que nós executamos são muito tolas, porque o real, a natureza enquanto tal se constitui por essas relações de forças. O que nós temos que fazer é aprender a administrar essas forças para as formas que nós queremos e mantê-las.  Não há aqui moral, não há aqui religiosidade, é todo um conjunto de um mundo constituído nesse campo de forças. (Ana, depois de hoje, fora da aula. Tá?).

Aluno: Claudio, então a gente vai pressupor que os corpos guardam energia….e as forças… [inaudível]

Claudio: Não, não. São as próprias forças que vão agir nas forças. Porque toda a ideia que estou passando para vocês é uma ideia de singularidade, não é o corpo, são as forças ― e depois eu vou passar a explicar o que vêm a ser essas forças. Porque veja aqui o resultado que vai dar: você pega uma criança, por exemplo; o que seria uma criança exatamente? Seria um campo de forças. Se você quer criar aquela criança, quer dar àquela criança uma subjetividade, o que você faz? Você estimula para que saiam determinadas forças para constituir uma forma. A minha constituição, a dele e de qualquer um de nós não é por um processo de repressão de formas; mas é por um processo de estimulação de forças. Estimulam-se as forças que interessam e dali vai saindo uma determinada forma. As formas vão sendo produzidas. Então, a alma que eu tenho, o corpo que eu tenho ― tanto a alma como o corpo ― são consequência dessas relações de forças. Não haveria uma alma em primeiro lugar, um corpo em primeiro lugar que seriam reprimidos por um campo político. Nada disso! Tudo se constitui por esse encontro de forças, aí as formas são produzidas. (Está difícil? Com é que vocês foram?).

Você pega, por exemplo, o Michel Foucault ― que é um nietzscheano; e o Foucault diz (e isso, de saída, vai matar a gente!) que um campo social não se constitui por repressão. Um campo social, diz ele, se constitui por relações de forças: não há repressão. Olha o que eu estou dizendo: não há repressão. Não há repressão, para quê? Não há repressão para a produção das formas; é por relação de forças que as formas aparecem. Mas na hora em que aparece uma forma, aí pode haver repressão naquela forma. Quando o polícia bate com o cassetete na minha cabeça ele está batendo com o cassetete numa forma, mas aquela forma já é produto de uma relação de forças. Então, o campo social não é originariamente formal. Originariamente, ele é uma relação de forças. Aí vão aparecendo as formas e as repressões se dão nas formas. (Não sei se foi bem… Acho que isso foi claro…).

Reprimem-se formas, formas acabadas. O homem que eu sou, isso é reprimível ― mas o homem que eu sou foi produzido por essas relações de forças.

Aluna: O inconsciente também seriam essas forças, não é?

Claudio: O inconsciente são essas forças. Exatamente essas forças. Isso que seria o inconsciente. O inconsciente é aquilo que não para de produzir reais, formas. Ele não para de produzir formas porque nós não teríamos ― e isso que talvez esteja dificultando tudo ― não teríamos nenhuma forma originária. Não há forma originária. Toda e qualquer forma emerge por essas relações de forças!

― O que é uma criança? A criança é uma forma. Essa forma da criança, que nós temos hoje, basta estudar um historiador chamado Philippe Ariès, que vocês vão verificar que essa forma da criança hoje não é a mesma do século XVII. No século XVII era outra forma. Por quê? Porque as estimulações de forças geraram outro tipo de forma. Não existe o objeto formal como identidade metafísica. O objeto formal é exatamente a superfície do mundo. (O que você achou? Fala.)

Aluno: A ideia de força é causa? [inaudível] causalidade?

Claudio: As forças não são… a ideia de causa clássica não passa. Porque uma força não é causa de nada: o que vai constituir as formas são as relações de forças.

(Enquanto vocês não entenderem integralmente, eu não posso sair disso daqui, viu? Porque esse entendimento é que vai gerar teorias como a teoria do dentro, a teoria do fora, a teoria da dobra, utilizadas por nietzscheanos modernos ― coisas lindíssimas que vão nascer aqui e que nós só vamos poder entender se nós tivermos uma compreensão completa dessa ideia de força.

Aluna: [inaudível] a relação de forças seria uma trama….

Claudio: Você gosta desse nome, Ana? Tá bom, manda lá! Trama. Uma trama. É uma trama. Tá bom, trama… pronto! Ana, presta atenção, não importa o nome que você dê a alguma coisa. O nome que você dá só tem algum sentido dependendo da força que apreendeu aquele nome.

Aluno: [inaudível] forças… […] formas diferenciadas… […]

Claudio: Físicas, naturais. São a natureza. Porque vocês vão ver ― e aqui já começou a ficar claro ― que humano é forma, humano é forma; não é força: é uma forma. É exatamente o grande terror para nós, porque o Nietzsche não está dizendo que o humano é uma natureza; é apenas uma consequência de relações de forças ― não existe a natureza do homem, não existe a natureza de não sei o quê. Nada disso existe! Ele está rompendo ― e agora eu vou passar a trabalhar nessa questão; eu não ia trabalhar, mas vou melhorar para vocês entenderem ― ele está rompendo com a ideia de que qualquer coisa tenha uma essência. Nada tem essência. A essência de qualquer coisa é um fragmento ― um conjunto de fragmentos de forças que se relacionam.

Eu vou dar um exemplo estético, dado pelo Paul Veyne:

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O universo inteiro é como um caleidoscópio: pedaços de vidro colorido, que você roda e forma flores. As flores são as formas; os cacos de vidro são as forças. É um mundo elementarista; um mundo em que você rompe com a ideia de que há formas originais. Romper com a ideia de forma original significa que não há a essência do homem, não há a essência da mesa, não há essência de nada; nada tem essência. Tudo aparece no mundo, mas nada tem essência; quer dizer, tudo que existe é um simulacro. (Está muito difícil, não é?).

― Qual é a natureza humana? Nenhuma; não há natureza humana! A natureza humana é uma forma, gerada por determinadas relações de força. As relações de força geraram aquela forma. Basta haver a modificação dessas relações de forças, que aquela forma desaparece… imediatamente! Nada a sustenta: nada! Ela é precária por origem; porque qualquer forma é precária. Qualquer forma é precária! A ameaça das forças é permanente; e essas forças não podem ser entendidas como leis ou princípios: elas são o reino do acaso. (Eu vou dar por mais ou menos aqui… eu vou fazer uma modificação. Foi muito mal, não é?).

Se vocês aceitassem e trabalhassem comigo na ideia de forma… é o melhor caminho que nós temos. O melhor caminho que nós temos ― a ideia de forma.  Porque tira de nós uma…

[Final de Fita]


LADO B

Todo nosso entendimento do campo do poder passa por essa prática das relações de forças. (Eu vou dar por entendido, viu?). Foi mais ou menos entendido e assim vou dar alguns exemplos para fortalecer o entendimento:

Vamos pegar um nietzscheano do século XX, o Foucault. (Eu não ia nem fazer esse trabalho… mas resolvi fazer, porque a ideia de forma deu problema.)

O que se passa de original na obra do Foucault é que ele fala que, a partir de determinado momento da história até a atualidade, nasceram as sociedades disciplinares: apareceram certos tipos de sociedades constituídas pela disciplina. (É o que passa de original nele!) E quando ele fala nessa prática da disciplina ele vai colocar duas idéias ― que são as idéias de máquina abstrata e máquina concreta.

Foucault está dizendo que as nossas sociedades ― e isso vai ser surpreendente ― são constituídas pelo modelo das cidades pestíferas. (Aqui já é uma surpresa…). Que as cidades pestíferas seriam exatamente o modelo das nossas cidades. (Eu vou dar uma explicação sobre o que elas são exatamente.)

Uma cidade pestífera traz como problema o fato de haver pestilentos atuais. Pestilentos atuais são todos aqueles que, dentro da cidade, trazem a peste. E a cidade traz, então, o problema de ali haver também os pestilentos virtuais ― aqueles que podem ter a peste. Que é exatamente a grande divisão que se faz numa sociedade pestífera. Você pega uma cidade pestífera, segundo Foucault, e o que se passa nela é essa divisão: pestilentos atuais e pestilentos virtuais. Pega-se os pestilentos virtuais ― logo, pestilentos virtuais se aproximam um pouco da dinamis do Aristóteles ― são aqueles que podem ter a peste, mas não têm. O que vai-se fazer com os pestilentos virtuais é isolá-los; separá-los dos pestilentos atuais. Na hora em que essa separação se faz, o poder político começa a exercer uma prática de força constante em cima dos pestilentos virtuais, numa administração generalizada daquelas vidas ― administra-se o alimento, administra-se a moradia, administra-se o vestuário, administra-se o ar…, faz-se uma administração generalizada daquelas vidas!  Todos são administrados; e, para continuar vivendo, todos têm que receber um tipo de disciplina, (entenderam isso?) que são exatamente o campo de uma sociedade que tem os virtuais da peste. Esses virtuais são administrados, sobretudo por um poder médico, que administra aquelas vidas. O que Foucault vai dizer é que a nossa sociedade traz esse modelo. Ela traz esse modelo; então, para a nossa sociedade, todos nós somos pensados como seres virtuais e, não, como seres atuais. E como seres virtuais, as forças vão fazer uma prática de disciplinarização em cima de nós, para constituir o nosso corpo e a nossa alma. Isso é o que ele chama de máquinas concretas. Num campo social, as máquinas concretas são as instituições que têm a função de trabalhar nessas virtualidades: prisão, hospício, escola, exército…

Aluna: O uso de camisinha… [inaudível]

Claudio: O uso de camisinha já é a instituição trabalhando. As instituições são as máquinas concretas com a função de trabalhar nessas virtualidades. Mas para haver essas máquinas concretas há uma máquina abstrata. A máquina abstrata é a cidade pestífera ― que é o modelo que vai passar em todas as instituições para desenvolver as forças que lhe interessam. (Não sei se foi bem…). As forças que interessam geram o corpo e a alma que eu tenho! O corpo e a alma que eu tenho não são entidades metafísicas ― são produtos de forças.

Aluna: [inaudível] e nós seríamos os virtuais?

Claudio: Os virtuais…

Aluna: [inaudível] os atuais […]

Claudio: Não, filha… Os atuais… Não, filha. Eu vou tentar novamente para vocês entenderem. Vamos tentar por outro lado. É de uma clareza absoluta, não entendo como você não entende, Ana. O [inaudível] do Maquiavel é claríssimo. Mas eu vou explicar de outra maneira; vou tentar outra maneira para explicar isso.

Na obra do Foucault… (Eu agora vou contar de modo bem detalhado, para vocês entenderem). O Foucault é um filósofo e enquanto filósofo ele é nietzscheano: ele se ligou ao Nietzsche. Poderia ter-se ligado ao pai dele, à mãe dele; mas se ligou ao Nietzsche. E ao se ligar ao Nietzsche, ele verifica que o Nietzsche colocou uma questão. (Vocês vão entender!). O Nietzsche colocou ― prestem atenção! ― que não existe sequer um objeto a-histórico.

― O que quer dizer um objeto a-histórico? Quer dizer, uma forma que não tenha emergência.

Todas as formas emergem; logo, todos os objetos que existem são históricos. (Entenderam?). Não existe nenhuma essência atravessando a história. Tudo emerge na história, tudo emerge. Não existe objeto a-histórico, todos os objetos são históricos, todos são produzidos dentro da história, pelo tempo. É isso que Foucault descobre no Nietzsche.

Quando o Foucault descobre isso no Nietzsche, o que ele vai fazer? Ele vai fazer um estudo para verificar quais as forças que produzem esses objetos, que tipo de forças produz esses objetos. O que essas forças fazem, o que elas querem, a que visam elas, que tipo de objetos produzem? Então, Foucault encontra na história (estou simplificando muito…) duas práticas, muito nítidas, a que ele vai se dedicar a trabalhar: uma ele chama de inquérito; a outra ele chama de exame. Seriam duas práticas que apareceram ao longo da história; não formas, mas máquinas para produzir formas, máquinas de produção de formas (Está bem assim o que eu disse?).

Aluno: [inaudível]

Claudio: Elas são formas, porque se efetuam em instituições; mas são as forças produzindo formas para produzir outras formas.

Então, ele encontrou o inquérito e o exame. Eu vou deixar um pouquinho de lado o inquérito… se vocês quiserem, é muito bonito, eu explico o inquérito para vocês.

― O que seria o exame? O que seria exatamente o exame? É muito bonito e um pouco difícil, difícil até para um historiador clássico aceitar.

O Foucault começa por dizer que a história, lendo-se determinados textos ou fazendo-se uma prática iconográfica ― isto é, vendo as telas ― a história nos revelou a existência de indivíduos destacados ― condes, reis, heróis ― que apareceram claramente cantados pelos poemas épicos, cantados pelas narrativas heróicas. Uma série de indivíduos. Que é muito fácil: vocês abrem os livros de História e vocês vão ver! Quais são os indivíduos que são falados no século XVI? O rei, o herói, o príncipe, o bispo, uma mulher, por causa de determinada prática; são os indivíduos que aparecem na história. Então, diz o Foucault, que pelo fato de esses indivíduos se destacarem na história, a luz do mundo ― a luz que o mundo possui ― jorra em cima deles. A luz do mundo jorra sobre esses indivíduos. A história vai ver esses indivíduos: vê-los nos quadros, nas descrições, nas narrativas… Mas a luz não jorra sobre a massa que existe na história; ou seja, a história nos revela a aparição de um plano de visibilidade.

Plano de visibilidade é aquilo que a história está destacando dentro do campo visual. (Entenderam?). Ela está liberando uma série de indivíduos para o campo visual. Pronto! Subitamente, o Foucault, muito louco, encontra uma medalha comemorativa, salvo equívoco, de um rei qualquer. E quando examina essa medalha ele tem a maior surpresa ― porque na medalha aparecem o rei e seu séquito: que são os indivíduos vistos dentro do campo da visibilidade. Mas na moeda vai aparecer também uma série de soldados.

― O que aconteceu? É que a visibilidade está se deslocando. Está havendo um deslocamento da visibilidade; que está tirando a massa do limiar da escuridão e lançando essa massa no campo da visibilidade. Na hora em que essa massa começa a entrar na visibilidade, ela começa a se individuar. Os indivíduos vão começar a aparecer na história; abandonando o campo da epopéia, eles vão passar para as histórias mais miseráveis, histórias de registros. (Conseguiram entender?). O que está sendo feito é um deslocamento da visibilidade. Nós abandonamos as epopéias para conhecer os indivíduos; basta ir num cartório. Por quê? Porque as forças de poder liberaram para esse campo da individualidade a massa anteriormente perdida numa escuridão; e individuou essa massa. Ou seja, o campo do poder – é isso que Foucault está chamando de exame – produz, digamos, a partir do século XIX, os indivíduos, produz a individuação. Ou seja, cada um de nós hoje se julga com todo o direito de dizer-se: eu sou um indivíduo. Mas esse indivíduo que nós somos não pertence à nossa natureza; foi o campo das forças que o produziu. (Foi claro o que eu disse? Ou não? Entenderam? É de uma beleza excepcional!).

Então, o exame é uma máquina de poder que tem a função de produzir a individuação. O que vai acontecer? O que vai acontecer é que quando esses indivíduos caírem no campo da visibilidade vão imediatamente passar para o campo do saber. Vão nascer (estou sendo muito rápido) as ciências de radical psi, que são as ciências do indivíduo. Então, se essas ciências do indivíduo nascessem no século XV, provavelmente os cientistas do indivíduo morreriam de fome; porque só havia quatro ou cinco indivíduos, agora é uma quantidade infinita. (Acho que está bem, não está? Então, vamos tomar um cafezinho para descansar um pouquinho…).

[intervalo para o café]

Um militar, no século XIX, se hospedou numa casa na cidade onde ficava o seu quartel: uma casa de família, que se tornou pensão para ele. E nessa casa havia o casal – pai e mãe; e uma filha. Quando esse jovem militar conheceu a filha, ficou muito surpreendido, sobretudo porque ela era muito bonita ― o que surpreende todo mundo ― e ela não dava a menor importância para ele. E, como era natural, ele procurou se exibir para ela, mostrar- se para ela, mas ela não dava a menor importância, ele não existia para ela! Mas um dia, eles estavam jantando juntos e, de repente, ele sentiu um pé embaixo da mesa, um pé no pé dele. Ele foi olhar, era o pé dela, descalço, alisando a perna dele. Ele ficou (não é?) naquele estado que qualquer um pode ficar! Então, a partir daquilo, em todo jantar ele se aproximava um pouco mais dela e ela ia lá embaixo, com as mãos, com os pés, fazendo a mesma coisa com ele. Por outro lado, sempre que ele tentava se aproximar para falar com ela, ela não dava o menor papo para ele. E ele começou a viver aquelas angústias do apaixonado. Ia para o quarto de noite, sofria, sofria muito, nada acontecia. Até que um dia, de repente, ela parou de fazer os ataques sob a mesa. E aí é que ele pirou mesmo!  Mas um dia, ele estava deitado no quarto, de repente entra, no quarto, a garota. Ela entra no quarto e senta em cima dele e começa aquela beleza que é a prática do amor. Aí, eles começaram a fazer um amor lindíssimo, aquela coisa lindíssima, uma coisa belíssima… Está acontecendo aquilo e, de repente, ela cai, cai para o lado. Ele vai, pensa que aquilo é um orgasmo, a examina, não era um orgasmo: ela tinha morrido; morreu! Agora, vocês imaginam a situação desse cara, ele não sabia mais o que ele ia fazer. Ficou desesperado: não tinha como fazer nada ali. Ele foi, teve uma ideia: eu vou procurar o coronel. Não é? Porque sempre se procura o coronel, o coronel do regimento. Então, ele saiu lá para procurar o coronel do regimento, aí o coronel do regimento viu a gravidade da situação e disse para ele: “Olha, você pega a carruagem e embarca para acidade tal, deixa comigo que eu vou resolver isso, ta certo? Faz isso”. Aí ele embarcou para a cidade tal e o coronel foi lá resolver. Ele ficou nessa cidade um pouco distante, uns dois anos e não soube nada do que aconteceu. Mas um dia, de repente, a curiosidade despertou nele e ele foi procurar o coronel para o coronel contar o que tinha acontecido. Quando ele se aproximou, ele soube que o coronel tinha ido para a guerra e morrido. Morreu o coronel.  Então, esse rapaz ― aí que termina a história ― realmente nunca soube o que aconteceu. Então, é o tipo do conto em que aparece essa figura: o que aconteceu? Ele não sabia o que tinha acontecido. (Muito bem). O que aconteceu é exatamente o modelo de uma prática que o Foucault chama de inquérito. O inquérito é exatamente uma prática em que os homens vão se preocupar em conhecer o acontecimento do passado. E para fazer isso os homens vão criar uma tecnologia, uma tecnologia para administrar e conhecer o acontecimento que se deu no passado. E qual é a maneira melhor que nós temos para conhecer um acontecimento que se deu no passado? Não há dúvida nenhuma de que a melhor maneira que nós temos é uma narrativa, é o discurso. Porque o discurso é aquilo que tem a propriedade de reatualizar acontecimentos que se passaram. (Entenderam?)

A melhor maneira de nós conhecermos acontecimentos que ocorreram é através do discurso, porque o discurso reatualiza acontecimentos que passaram. No caso do conto que eu narrei, o melhor discurso seria pronunciado por quem? Pelo coronel (está certo?), que seria aquele que poderia reatualizar esse acontecimento.

E quando nasce a prática do inquérito é liberada a questão: De que maneira podemos conhecer bem um acontecimento do passado, sabendo-se que uma acontecimento do passado é reatualizado no discurso. E a tecnologia funda que a melhor maneira de conhecer um acontecimento do passado é quando nós temos diante de nós um discurso que seja neutro. Ou seja, o que está sendo dito é que os acontecimentos do passado, quando são reatualizados por discursos apaixonados, esses acontecimentos podem ser falseados pelo discurso. (Não conseguiu entender não? Por exemplo, vou reexplicar para vocês. Não entendeu, não?).

Esse conto que eu contei é do Barbey D’Aurevilly, é lindíssimo esse conto, se vocês quiserem eu tenho em português e trago aqui para vocês, (ouviu?)… Que é a pergunta: meu Deus, o que é que aconteceu? Só quem sabia era o coronel do regimento! (Agora, prestem atenção:).

Vamos dizer que eu e o Leão Handfas entramos numa disputa. O Leão diz assim: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos. Eu digo, Leão, eu não roubei sua caixa de fósforos. Aí ele diz: Você roubou, sim, minha caixa de fósforos.

Vai chegar um momento da história em que, para resolver essa situação, nós teremos que procurar um representante do poder ― porque o poder vai produzir representantes para resolver os litígios. E quando nós procurarmos esse representante do poder, ele vai-nos ouvir falar…

― O que eu vou dizer? Eu não roubei a caixa de fósforos do Leão!

― E o Leão vai falar: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos!

O poder fica num estado de ambiguidade: não sabe quem está falando a verdade.

― O que o poder faz? O poder procura testemunhas; ele sai à cata de testemunhas ― e as testemunhas são exatamente aquelas que poderão dizer se eu roubei ou não a caixa de fósforos do Leão. Por quê? Porque a testemunha presenciou o acontecimento. Então, a testemunha é o instrumento mais indicado para re-atualizar o acontecimento. (Entenderam?)

Mas acontece que pode aparecer uma testemunha que seja namorada do Leão. Se a testemunha for uma namorada de Leão, é claro que ela vai dizer que fui eu que roubei a caixa de fósforos. Então, a tecnologia das testemunhas considera que a testemunha apaixonada não fala a verdade. Para falar a verdade, tem que ser uma testemunha neutra (entenderam?). É esse modelo que faz emergir no ocidente a ideia de que a verdade é algo que está no passado; é re-atualizada pelo discurso; que, para ser um bom discurso, tem que ser produzido pela razão ― porque a razão é neutra. (Não sei se vocês entenderam…).

Esse modelo é o modelo do inquérito; que o Foucault diz ser uma prática que emerge numa época da história e gera a verdade como reatualização do acontecimento, como desqualificação da paixão e emergência da razão. Ou seja, a razão não é o que nós pensávamos: a razão não é alguma coisa, em si mesma, preparada para a verdade ― a razão é produto de uma prática de poder. (Conseguiram entender? Muito bem!).

― O que vai acontecer [na história], segundo o Foucault?  Segundo o Foucault, o que vai acontecer é que nós vamos sair da pergunta: “o que aconteceu?” para a pergunta: “o que pode acontecer?” Na hora em que nós entramos nessa pergunta ― o que pode acontecer? ― tudo que existe se torna uma virtualidade. (Conseguiram entender? Ou não, Ana?).

Nós passamos agora para um mundo em que a pergunta não é mais: “o que aconteceu?” A pergunta agora é: “o que pode acontecer?” Se você está num mundo de “o que pode acontecer”, a partir daí as práticas de poder vão produzir aquilo que lhes interessa: porque o ser se torna virtual, é uma virtualidade. É exatamente o que o Foucault está explicando para o nascimento da cidade moderna. O nascimento da cidade moderna não é uma procura do que aconteceu, mas é uma questão com o que pode acontecer. É onde nasce, sobretudo, uma ideia, que é muito nossa, a ideia de periculosidade. Nós agora vamos pensar as virtualidades. Tudo vai ser pensado como virtualidade. Em função disso, é preciso produzir, em cima dessas virtualidades, aquilo que interessa ― é isso que é a prática do exame. (Não sei se foi bem… Vocês entenderam?).

Vocês vejam que, aqui, tudo aquilo que nós pensamos que teria uma natureza, ― o indivíduo seria uma natureza ―, nada disso é uma natureza: são as forças do exame que geram essas figuras no mundo. (Vejam se foi bem… Foi ou não, hein? Entenderam bem?…).

Quem trabalha com “O que aconteceu?”? O inquérito.

Quem trabalha com “O que pode acontecer?”? O exame.

O exame é exatamente uma prática que se dá no nosso mundo para produzir a individuação e a identidade. Então, nós vamos ser produzidos como indivíduos e regidos por uma identidade. E vamos lutar toda a nossa vida para garantir o indivíduo que nós somos e a individualidade que nós temos ― quando ser livre é uma conquista da diferença. (Foi muito difícil, hein Chico? Falem lá, para eu ver onde é que está a falha…)

O conto do Barbey D’Aurevilly é nítido para vocês entenderem o nascimento da prática da verdade. A prática da verdade se sustenta na razão, porque a razão é aquilo, em nós, que é neutro e é capaz de re-atualizar os acontecimentos com verdade; enquanto que as paixões retomam os acontecimentos falsamente. É por isso que, na história da verdade, a razão vai ser privilegiada. É aí a emergência do racionalismo.

O racionalismo não é um milagre humano, é uma prática de poder. Uma prática de poder em que a verdade é algo que tem que ser reatualizado. Por quê? Porque, para essa prática, a verdade está perdida no passado. Ela está perdida no passado. (Vocês me entenderam bem? Porque eu acho que essa foi a melhor maneira que eu já usei para explicar essa questão na minha vida… Vou ver outra vez para vocês).

Eu vou contar outra história. Olha essa história aqui:

Sir Lancelot era um homem belíssimo, não sei se vocês sabem, pelo menos nos filmes. Era lindíssimo. E ele era apaixonado pela rainha, mulher do rei Arthur. Todo mundo sabe disso! E eles costumavam ter encontros nos bosques. Mas quando eles começaram aqueles encontros, à boca pequena, os cavaleiros da Távola Redonda começaram a cochichar: olha, o Lancelot está namorando a rainha. Começaram a falar isso. E alguns cavaleiros da Távola Redonda, mais ousados, chegavam para o Lancelot e diziam: Lancelot, você está acabando com a Távola Redonda, porque você está difamando a rainha; tendo encontros amorosos com ela e traindo o rei Arthur. Quando o cavaleiro em questão dizia isso para ele, o Lancelot respondia: você está desafiado para um duelo! E eles iam duelar. E quem vencia? O Lancelot vencia. No momento em que ele vencia, a verdade era o que ele dizia, porque naquele momento da história a verdade era produto do triunfo (entenderam?). Não havia outra prática da verdade. Era verdadeiro tudo aquilo que viesse por triunfo. Mas o Lancelot continuou a ter encontros amorosos com a mulher do rei Arthur, até que, um dia, o filho do rei Arthur, não sei se vocês sabem quem é ele, é o filho da Morgana, que era irmã do rei Arthur… O filho do rei Arthur pegou o Lancelot em flagrante com a rainha. Aí, ele se vira para o Lancelot e diz: você está traindo o meu pai. O Lancelot vai e diz: você está convidado para um duelo. O filho do rei Arthur responde: duelo não, eu vou testemunhar contra você!

O que aconteceu? É que a verdade estava se deslocando. Estava nascendo o inquérito. O inquérito não é mais a verdade como produção; mas a verdade como representação. A verdade torna-se um discurso que re-atualiza um acontecimento. Enquanto que, na primeira fase, a verdade era uma prática produtiva.

Eu estou explicando isso, para mostrar para vocês que todas as formas que emergem no mundo, emergem por relação de forças. (Eu acho que agora vocês entenderam!)

É preciso perder a ilusão de que há uma forma em si mesma: não há! Mudadas as relações de forças… outras formas emergem. Então, a verdade é uma forma, é um valor, é um sentido. Numa determinada época da história, ela emerge como produto de um triunfo; e noutro momento da história ela, a verdade, é apenas uma representação do discurso adequado ao acontecimento.

Através disso, eu acredito que essa aula ganha uma linha boa. Vocês passaram pelo menos a entender mais ou menos que nenhuma forma emerge na história se não tiver atrás dela relações de forças. (É só por hoje. Eu não aguento mais. Foi bem, não é? Vocês veem que, inclusive, eu já posso tranquilamente trazer alguns textos do Michel Foucault e do próprio Nietzsche, que vocês vão entender. Viu? Fui feliz, não é? Então está bem).

Fim.

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