Aula de 05/04/1989 – Acontecimento e campo de poder

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

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1ª Parte
LADO A

[…] se não houver o completo entendimento eu terei dificuldade de montar outras teorias no decorrer da aula.

Primeira questão: O que é exatamente o conceito? Em primeiro lugar: o fato da existência do conceito. Por que existe, na linguagem, esta prática chamada conceito? Por uma razão muito simples, diz o Aristóteles. Segundo ele, nós os sujeitos humanos, somos dotados de uma [dupla] semiótica. Semiótica é teoria dos signos. Dupla [semiótica], [porque] nós somos capazes de falar e de escrever. Mas quando nós falamos e quando nós escrevemos, diz ele, nós falamos e escrevemos sobre o mundo. Então, segundo ele, o objeto da escrita e o objeto da fala é o mundo. (Está bem claro?) Isso se chama prática denotativa. Fazer com que a linguagem diga alguma coisa do mundo à nossa frente…. mas existindo uma diferença entre a linguagem e o mundo. É que o mundo é infinito.

O que quer dizer mundo infinito? Por exemplo, o Bento que está na minha frente, pode fazer os mais indefinidos movimentos. Cada um de nós pode fazer indefinidos movimentos. Mas a linguagem é finita, não pode representar nela os movimentos indefinidos do mundo. Por causa disso, a linguagem inventa o nome geral. O nome geral é uma maneira da linguagem dar conta do mundo, porque ela não pode inventar nome para todos os acontecimentos do mundo, pois nossa memória não resistiria. Por exemplo, se eu quisesse dar nome a tudo o que acontece, eu diria assim: Bento passando a mão na barba, e me olhando nesta penumbra da noite de segunda feira. Não! É melhor eu dizer “Bento”. Então, a linguagem inventa o nome geral porque ela é finita diante de um mundo infinito. (Acho que ficou bem claro!)

O que é o nome geral? O nome geral é alguma coisa inventada pela linguagem, mas no real não existe nada que seja geral. No real só existem os indivíduos. O geral é da linguagem. Por exemplo, no real tem “esta mesa”, na linguagem tem “a mesa”. A mesa é um nome geral da linguagem. A linguagem produz [o nome geral] porque ela é finita, e não poderia dar um nome a cada mesa, por isso ela produz o nome geral. (Entenderam?) Então, o nome geral é um artifício da linguagem, devido à sua finitude. A linguagem é finita e inventa os nomes gerais – agora, o real é in-di-vi-du-al. (Entenderam?)

Quando eu faço experiências no mundo vivo, essas experiências são sempre individuais – eu experimento no mundo os indivíduos. Mas a linguagem vem recobrir esse campo da experiência com os nomes gerais. [E aí] aparece uma defasagem entre a linguagem e o real. (Como é que foi, todo mundo entendeu essa diferença?) A linguagem é o instrumento da razão. O que mostra que entre a razão e a experimentação há uma diferenciação. Porque o mundo real – o campo das experiências – é individual, sempre individual! Mas a linguagem gera os conceitos – que são os nomes gerais. (Está bem claro?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. A linguagem não é toda geral, ela gera os nomes gerais, mas [há] também nela nomes como o nome próprio – que é um nome individual. O que eu estou dizendo é que a linguagem gera os nomes gerais porque ela não pode representar todos os movimentos do indivíduo nela – pois nossa memória não suportaria. E ela, então, os substitui. Se a linguagem não tivesse o nome geral, “esta mesa”, por exemplo, teria um nome próprio! “Este cigarro” daqui teria o quê? Nome próprio! Como é que eu chamo este cigarro? O Cigarro! Eu dou, para ele, um nome geral. (Entendeu?) E isso é um artifício da linguagem, porque ela é finita. Ela inventa os nomes gerais para recobrir o mundo e, através disso, resolver o problema da comunicação. Ela resolve o problema da comunicação, utilizando os nomes gerais!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sem o nomes gerais? Não, não. O que eu estou colocando são dois tipos de linguagem – a escrita e a falada. E tanto a escrita quanto a falada trabalham com nomes gerais. Todas as duas! Nós não falamos “A mesa”; “A cadeira”,”O vento”? Veja bem: nas minhas experiências de mundo eu algum dia experimento “A” cadeira? Não! Eu experimento “esta” cadeira. Eu nunca experimentei “A” cadeira. Eu experimento esta cadeira. O nome geral é um artifício da linguagem.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Isto seria singularizar? Repõe, E...! Sim, mas nós não temos possibilidades mnemônicas de fazer isso. Veja bem: se eu quiser falar sobre “o vento” somente com nomes singulares, eu tenho que fazer uma descrição do tipo que eu fiz do Bento. A linguagem vai e utiliza o nome geral para recobrir o problema da memória. Ela resolve isso.

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que está sendo dito, é que isso é a essência da linguagem. A linguagem – escrita e falada – geraria o nome geral porque ela, a linguagem, é finita, e o mundo é infinito. (Entendeu?)

Por que apareceria a linguagem geral? Por causa da finitude da linguagem. Só isso! Ela é finita – é muito simples! Por exemplo: eu não falo “o vento”? O que é “o vento”? O que quer dizer essa palavra? Quando eu falo “o vento” – sobre que vento eu estou falando? Eu estou falando de todos os ventos, de todos os ventos. Mas, eu experimento todos os ventos na minha experiência? Não! Eu experimento um vento singular. É que a linguagem gera o nome geral – ainda que no real não exista o geral. No real só existem os indivíduos.

Aluno: [inaudível]

Claudio: […] Segundo o que o Aristóteles está dizendo, é da essência da linguagem, pouco importa a época em que ela for falada. Pouco importa! Em qualquer época da história a linguagem geraria o nome geral. Geraria o nome geral, quer dizer: permitiria a um homem dizer para o outro: – Ah! O camelo é um animal feio. Quando ele diz: “O camelo é um animal feio” – de que camelo ele está falando? Ele está falando sobre a generalidade do camelo. Mas o campo experimental não me revela nenhum “O camelo”. No campo experimental só existe “este camelo”. [Aluno: inaudível] A linguagem produziria o genérico – ainda que as experiências sejam individuais. Há uma espécie de defasagem entre a linguagem e o mundo. [Aluno: inaudível] Há uma impossibilidade de você se comunicar descrevendo os indivíduos em seus estados atuais. É impossível para nós. Você teria que dar nome próprio a tudo. Qual seria o nome disso daqui [Claudio mostra um objeto qualquer] – se não houvesse nome geral? O nome disso seria, por exemplo, “Pedro Antônio”!?… Esta mesa teria um nome próprio… Tudo teria um nome próprio!

O nome geral recobre o real – ainda que o real não tenha generalidade. […] fica muito claro!… (Entendeu?) Não há o geral. No real só tem o individual. (Já entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha…, não. Por exemplo: a literatura – ela tenta descrever experiências singulares. Por isso, quando ela [faz uma descrição,] ela evita o nome geral. Para descrever experiências singulares, não [se] pode trabalhar com o nome geral. Tem-se que usar outro tipo de linguagem. Mas o nome geral é uma maneira que [se] tem de classificar os indivíduos do real. Querem ver?

Esta sala se divide em mesa, homens e cadeiras. Três nomes gerais. Eu dividi a sala. Classifiquei. Isso é uma prática classificatória. Você recorta o real – que é constituído de indivíduos – com o nome geral. (Eu já não tenho mais nem o que dizer aí. Eu acho que está tão claro… Como é que foi?)

O nome geral chama-se conceito. O que é um conceito? É um nome geral. Pronto! (Entenderam?) O que é “O homem”, por exemplo? Um nome geral – logo, um conceito.

Existe algum “O homem” no real? – O que é que você acha, Bento?

No real existe “este” homem. Mas “O” homem – se vocês encontrarem O homem por aí, tragam para mim, pois quero conhecer esse bicho!! Então, o nome geral é da linguagem – mas não é do… real. (Certo?)

Além disso, a linguagem produz o que se chama proposição. O que é uma proposição? É o momento em que, na linguagem, dá-se um predicado a um sujeito. Por exemplo: A mesa é bonita. O que é “A mesa é bonita”? É uma… proposição. Proposição é quando você dá ao sujeito um predicado. O homem é bonito. A rosa é vermelha. R… é cineasta – são proposições. (Tá certo?)

Então, o que é uma proposição? Uma proposição tem sujeito, verbo ser na terceira pessoa do singular, e um atributo ou predicado. (Está certo?) O atributo da proposição é o conceito. Portanto: o atributo da proposição é o nome geral. (não sei se entenderam…) O atributo da proposição é o nome geral. Bento é homem. Homem é o quê? Homem – não é um nome geral? Mas, na proposição, o nome geral tornou-se atributo. Então, na proposição, o nome geral ou conceito vira atributo. (Entenderam?)

Quando eu digo o homem, a produção do conceito não é verdadeira, nem falsa: é apenas um conceito – O homem, A vaca, O cachorro. Mas, quando o conceito vai para a proposição e se transforma num atributo, – toda a proposição é verdadeira ou falsa. Eu digo: Bento é bonito. Bento é feio. Uma dessas duas proposições é verdadeira e a outra é falsa. Ou seja: a prática do nome geral – no momento em que ele se torna um atributo – é uma prática do verdadeiro e do falso. Quando é que nós estamos no verdadeiro e no falso? Quando nós afirmamos ou negamos um atributo de um sujeito. Negar ou afirmar um atributo de um sujeito é uma prática do… verdadeiro e do falso. (Acabou!)

Então, se eu quero fazer ciência. A ciência é o universo do discurso onde está o verdadeiro e o falso. Fazer ciência é produzir proposições. (Eu acho que deu, não é?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas [nesse caso] o sujeito também é geral, não é? Então, quando você for fazer uma proposição, você procura colocar como sujeito aquilo que não pode ser atributo. O indivíduo é a única coisa que não pode em momento nenhum ser atributo. O indivíduo só pode ser sujeito da proposição – em momento nenhum ele, [o indivíduo] pode ser atributo. Por exemplo: “Bento é bonito”. Mas eu não posso dizer “Chico é Bento”. Eu não posso dizer “Bento é Chico”. Porque o indivíduo é sempre sujeito… nunca atributo. O que são os atributos? Os atributos são os nomes gerais. (Não sei se isso passou… está muito difícil? Fala….)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O atributo é o predicado: o nome geral. Por exemplo: Bento é o quê? Bento é um indivíduo. Logo, Bento só pode ser sujeito da proposição. Não pode ser atributo. Os atributos são os nomes gerais. (Eu acho que está tão claro: não tem como não entender. Posso continuar… ou tá muito difícil? Não está, não é? – Eu agora estou em dúvida!)

Qual é a função da proposição? Afirmar ou negar um atributo de um sujeito. A função da proposição é a produção do verdadeiro e do falso. Quando eu digo assim – Me dá um café! Isso é verdadeiro ou falso? (Aluno: Verdadeiro.) Não! Verdadeira ou falsa é só a proposição. Só há verdadeiro ou falso na hora em que você afirma ou nega um atributo de um sujeito. Só isso. (Entenderam?)

Então: nós, os sujeitos humanos, somos dotados da capacidade de produzir significações através da linguagem. A função da linguagem é produzir significações. Mas a única coisa, na linguagem, que produz o verdadeiro e o falso é a proposição. Então, a linguagem é mais ampla que a proposição, porque a linguagem é o campo da significação; mas a proposição é o campo do verdadeiro e do falso. (Eu acho que foi bem!..)

Quando eu quiser fazer ciência, o que é que eu tenho que fazer? Produzir significação pura e simples ou produzir o verdadeiro e o falso? Então, o campo da ciência é o campo proposicional. (Eu acho que já está claro. Alguma questão? Posso considerar entendido? Posso, não é?)

O atributo é o nome geral? Quando você atribui um nome a um sujeito – esse atributo pode ser essencial ou acidental. (Prestem atenção: porque a aula que eu estou dando para vocês ela não visa a isso aqui – visa a outra coisa. Mas se não entender essa, não vai entender a outra, certo?)

Que tipos de atributo eu posso produzir? Atributos essenciais e acidentais. Quando aparece o atributo essencial – que é um nome geral – ele é a essência do sujeito. Bento é homem. Homem é o quê? Homem é um atributo essencial; é um nome geral; mas também é a essência de Bento. (Certo?)

Então, no nível dos atributos, aparece o atributo essencial e o atributo acidental. Bento é branco. Branco é o quê? Atributo acidental. Homem é o quê? Atributo essencial. (Entenderam?) Nós teríamos duas práticas atributivas: o atributo essencial e o atributo acidental – como prática proposicional. Por exemplo, eu digo: Bento está sentado. Que atributo é esse? Acidental! (Entenderam?) Bento é um animal racional. Que atributo é esse? Essencial!

Então nós teríamos dois atributos: o essencial e o acidental. Muito bem. Por essa tese, o atributo é ou a essência ou o acidente do sujeito. (Viu?) Ele é ou a essência ou o atributo do sujeito. (Corta, Corta! Agora vamos para outra coisa. Está entendido, não é?)

Os estoicos querem fazer ciência. Logo, eles querem fazer, o quê? Proposições. (Certo?) E uma proposição tem sujeito e… atributo Toda proposição tem sujeito e atributo. Então, os estoicos querem fazer ciência – logo, querem fazer proposições; logo, querem criar atributos; logo, querem criar discursos que têm sujeito e atributo. Mas os estoicos não vão concordar em usar o verbo ser. Eles não vão usar o verbo ser.

A primeira tese usa o verbo ser? [Alunos: sim!]

Os estoicos não vão usar o verbo ser – e em vez de colocar como atributo substantivos e adjetivos… Homem é o quê? [Alunos: Substantivo!] Branco é o quê? Sustantivo! Bonito é o quê? Adjetivo! – Os estoicos não vão colocar nem o sustantivo nem o adjetivo como atributo. Como atributo, [os estoicos] vão colocar o verbo no infinitivo ou no gerúndio. Por exemplo, eu digo assim: Esta mesa é azul. Quem é o sujeito? Esta mesa! Quem é o atributo? Azul! – Acidental ou essencial? Acidental! O estoico não dirá isso. O estoico dirá – Esta mesa azulando. Por quê? Porque o atributo dos estoicos não é dito nem pelo substantivo nem pelo adjetivo – é dito pelo verbo no gerúndio. (Não sei se ficou bom…) O que os estoicos estão fazendo? Eles estão rompendo com o atributo essencial; rompendo com o atributo acidental – e estão colocando, como atributo, o acontecimento.

Quantos atributos nós temos? Essencial, acidental e... acontecimento.

O acontecimento é o campo atributivo dos estoicos. A diferença da proposição estoica para a proposição aristotélica é que o atributo de Aristóteles é essencial ou acidental. O atributo dos estoicos é o acontecimento. O acontecimento é o verbo no gerúndio [ou no infinitivo]. O que os estoicos estão fazendo? Uma nova teoria. Nós conhecíamos a teoria das essências e dos acidentes de Aristóteles. Com os estoicos nasce a teoria do acontecimento. Essa é a parte mais difícil:

Uma proposição estoica… Esta árvore é verde – é uma proposição estoica? Não! Como diria o estoico? Esta árvore… verdejando. Ele não diria o campo dos atributos com os substantivos e adjetivos. O campo dos atributos deles é feito com o verbo [na forma] gerundial [ou no infinitivo]. Entenderam?

Agora uma frase negativa: os estoicos fazem proposições sem usar o verbo ser. Eles não utilizam o verbo ser. (Entenderam?) Então, no mundo estoico, não há atributos essenciais; não há atributos acidentais? O atributo estoico é um… acontecimento. (Bom, entenderam?)

Mas, se [há uma modificação do campo atributivo], [já] o campo do sujeito é o mesmo. É o mesmo sujeito. [Tanto] o sujeito do Aristóteles [quanto] o sujeito dos estoicos é o indivíduo. (Vejam se entenderam…)

Então: Esta mesa é verde – é uma prática atributiva da proposição aristotélica. Esta mesa verdejando é uma prática proposicional estoica. (Entenderam?) Mas houve a manutenção de alguma coisa, o quê? O campo do sujeito. (Certo?)

E agora: como é que nós sabemos a essência do sujeito no Aristóteles? Como é que eu vou conhecer a essência do sujeito no Aristóteles? Pelo atributo essencial! Nos estoicos, a essência do sujeito não está no atributo – está no próprio sujeito. A essência não é o atributo, é o próprio sujeito. [Ou seja:] há um deslocamento do campo essencial. Enquanto no campo essencial do Aristóteles o atributo é a essência. Nos estoicos, a essência é o sujeito. (Não sei se está bom aqui, não?)

Em “Bento é homem” – qual a essência? A essência é homem! Logo, a essência é o atributo. Os estoicos não vão trabalhar o campo das essências com os atributos. A essência para eles é o próprio sujeito. (Eu ainda vou explicar!) A essência é o sujeito. Não é o atributo.

Aluno: [inaudível].

Claudio: Sujeito e essência é a mesma coisa. Por quê? Porque para os estoicos a essência é o corpo. A essência é o corpo.

[Se] para o Aristóteles a essência é o atributo lógico – para os estoicos a essência é o corpo. Então: [para os estoicos,] cada corpo no mundo traz com ele a sua essência. (Certo?) [Na primeira teoria,] em Claudio é homem, a essência é homem. [Na segunda teoria,] em Claudio verdeja, por exemplo, a essência é Claudio. A essência para eles é o próprio corpo; não é um atributo lógico – é o próprio corpo. A essência de um ser é o corpo daquele ser. (Entenderam?)

Aluno: Eu não poderia falar Claudio é Claudio?

Claudio: Se você quiser falar Claudio é Claudio... você estará repetindo no predicado a essência sujeito. Não precisa falar isso! O que você tem aqui é um deslocamento do campo essencial. Enquanto a essência no Aristóteles é um atributo, nos estoicos a essência é o próprio corpo. (Vejam se vocês entenderam aqui, para eu continuar.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Você pode falar os acontecimentos! O que você fala do corpo são os acontecimentos que ocorrem a ele. Agora…

(Fim de fita)


LADO B

[…] O corpo é uma potência. A potência do corpo é de produzir acontecimentos. Então, é o próprio corpo que produz os seus atributos. (Não sei se foi bem!) O próprio corpo gera os seus atributos – mas os atributos não são essenciais nem são acidentais; são acontecimentos. (Tá?) Onde está a essência? No próprio corpo. Então, essência e corpo para os estoicos é a mesma coisa. Essência, potência e corpo são a mesma coisa.

Aluno: [inaudível] singular…

Claudio: Não! É melhor esperar um pouquinho, Chico, para não complicar aí. Não complica com isso aqui, não. Se você introduzir o singular agora, você vai se perder!

É melhor vocês entenderem, agora: este copo tem essência? Qual é a essência deste copo? (É fácil!) A essência deste copo é a potência dele. É isso que é a essência de um corpo – a essência de um corpo é a potência [daquele] corpo. Para que serve essa potência? Para expandir esse corpo. A essência de um corpo é a expansão do corpo. Como é que um corpo se expande? Encontrando-se com outros corpos – a expansão de um corpo é o encontro que esse corpo faz com outro corpo. Então, a essência de um corpo é do corpo – mas a função daquela essência é se encontrar com outros corpos. (não sei se vocês entenderam?!)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Poderia, mas aqui é muito melhor você pensar que a essência de um corpo é a potência daquele corpo. É a potência dele. Qual é a potência de um corpo? Expansão. Pronto! (É a coisa mais fácil do mundo!) Um corpo tem uma essência? Tem! Para que serve a essência dele? Para expandir aquele corpo – só isso, mais nada!

Nós, aqui, passamos de uma essência lógica – que a essência aristotélica é uma essência lógica aquisitiva; para uma essência física e real – que a essência dos estoicos é a potência de um corpo. Meu corpo tem essência? Tem, [mas sua essência] não é um atributo – é do próprio corpo.

Aluno: Eu não entendi por que um corpo precisa se encontrar com outros corpos…

Claudio: Aí, eu agora vou explicar. O acontecimento é alguma coisa que vai ser produzida pelos corpos, e os corpos só produzem acontecimentos na hora em que eles se encontram. Só existe acontecimento, se houver encontro de corpos. Vejamos um exemplo barato – Bento respirando. O Bento não está respirando? Por que [o Bento está respirando]? Porque houve um encontro do corpo do Bento com o corpo do ar. O acontecimento é um efeito dos encontros dos corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: É o encontro da mesa com o corpo do azul…

Aluno: Se eu disser, por exemplo, a planta está florescendo.

Claudio: É o encontro do corpo da planta pelo menos com o corpo da terra. (Tá?)  Não pode haver acontecimento nenhum se os corpos não se encontrarem. O acontecimento é o produto do encontro dos corpos. Porque você não vai encontrar sequer um corpo que não esteja num encontro com outro. É impossível encontrar-se um corpo que não esteja em combinação com outro corpo. É aí, então, que emerge o acontecimento. O acontecimento é um atributo gerado pela potência dos corpos. (Está difícil isso?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, o que os estoicos estão dizendo, é que tudo o que existe no real – tudo o que existe – é corpo. Então, os corpos não param de se encontrar. Você quer ver que exemplo interessante? Por essa tese dos estoicos, tudo o que existe é corpo? Sim! A multinacional é um corpo? Qual é o corpo da multinacional? Potência. Potência de quê? [inaudível]. Então, o que é que a multinacional tem que fazer para se expandir? [Ela tem que fazer] encontros – para se expandir. Todos os corpos se expandem através dos encontros. Através dos encontros!

Aluno: [inaudível] O encontro é do corpo e aparece o incorporal?

Claudio: Aparece o acontecimento. O acontecimento é incorporal. O acontecimento não é um corpo. É o efeito dos encontros dos corpos. O que existe no real são os corpos com suas potências. E esses corpos – quando se encontram – produzem o acontecimento. O acontecimento é uma coisa gerada pelos corpos. Se não houvesse corpos, não haveria acontecimento. Quem produz o acontecimento? O corpo!

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma relação afetiva dos corpos produzindo o acontecimento. (Eu já não tenho mais o que dizer, aí. Eu já disse tudo!) É a coisa mais fácil do mundo – por exemplo: Romeu e Julieta namorando. Namorando é o quê? É o acontecimento daqueles corpos que estão alí. Os corpos vão gerando os acontecimentos. O acontecimento não é o corpo – é um atributo do corpo. (Mas eu acho que não foi bem… – Para alguns eu sei que foi, para outros… está meio difícil! Mas é a coisa mais fácil – eu não sei como é que vocês conseguem não entender isso.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Porque quando um corpo se encontra com outro – necessariamente – ele produz um acontecimento! O acontecimento vai aparecer. Em qualquer situação que um corpo se encontrar com outro – ele aparece!… (E enquanto vocês não entenderem isso, eu não posso ir para a frente. Não posso. É impossível!)

Vamos tentar outro caminho…

Aluno: O lago esvaziando – qual é o encontro aí?

Claudio: É do lago com o corpo da terra. A água e o corpo da terra estão se encontrando. Porque é a coisa mais simples do mundo: pensar a ideia de corpo e não pensá-la sem que um outro corpo esteja em contato com ele, encontrando com ele.

Vamos fazer uma coisa – e aí vai ficar mais fácil para vocês. Vamos pensar o corpo vivo. O corpo vivo. Tenta fazer o pensamento do corpo vivo, sem ele se encontrar com outro corpo – é impossível! Porque o corpo vivo tem que se encontrar pelo menos, com quem? Com o corpo do ar! Como é que uma célula, uma bactéria, seja lá o que for, vai poder existir sem se encontrar com outro corpo? Necessariamente encontra outros corpos. Um homem pode ser pensado sem um outro corpo? Ele não tem que entrar em contato com outro corpo? Quando ele entra em contato com outro corpo, o que que aparece? O acontecimento! O acontecimento é a relação de duas potências corporais. [inaudível] Imediato!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Nããooo! A essência do corpo é a potência. O acontecimento não é a essência do corpo. É apenas o resultado dos encontros de corpos. Por exemplo:

Eu – sou um corpo? Eu pego um avião. O avião é um corpo? Na hora que eu pego um avião e o avião levanta vôo, que acontecimento aparece? O passageiro! Passageiro é um acontecimento. Basta eu descer daquele avião e me dirigir para o bar, que eu perco – que acontecimento? O acontecimento passageiro! Eu perco [esse acontecimento] – mas eu continuo a ser um corpo! O corpo é aquilo que se encontra com outro corpo e produz o acontecimento.

Aluno: O dente dói.

Claudio: O que tem que acontecer para alguma coisa doer em alguém? Vê lá o que tem que acontecer. Descreve o que tem que acontecer! Ele tem que encontrar outro corpo, para produzir o acontecimento – não escapa! O corpo está necessariamente em contato com outros corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Algum corpo que encontrou com o seu corpo e produziu a sua morte. Mas morrendo – isso é um acontecimento. Mas, para isso acontecer, é necessário que outro corpo tenha entrado em contato com o seu. Qualquer acontecimento – necessariamente – implica a potência dos corpos. É impossível você pensar a unidade isolada de um corpo. Sobretudo porque – vou dar por mais ou menos entendido – um corpo – qualquer corpo – é constituído por uma multiplicidade de corpos. Não há sequer um corpo que nao seja constiuído por uma multiplicidade de corpos. O meu corpo é constituído por quê? Qualquer biólogo dirá que o meu corpo é constituído de várias células.

Qualquer corpo é constituído de uma multiplicidade de corpos. Você pode descer ao menor dos corpos – e o menor dos corpos é constituído por uma multilpicidade de corpos. Retirando da natureza a ideia de simplestudo o que está na natureza é complexo. Tudo é uma complexidade. Tudo é uma multiplicidade. Não existe o simples – só existe o múltiplo. Qualquer corpo que você encontrar é uma multiplicidade. Qualquer físico atômico sabe disso – encontrou um corpo, o que é que ele pode fazer naquele corpo? Dividir! Por que é que ele pode dividir? Porque aquele corpo é constituido por vários corpos. Não há uma unidade corporal. Todos os corpos são múltiplos. Isto é que é a teoria da multiplicidade. Todos os corpos são uma multiplicidade de corpos. (Certo?)

Então, qual é a minha essência? Múltiplas potências! A essência de cada corpo é uma multiplicidade de potências. (Já deu para entender? Se não entendeu eu não sei mais nem o que eu faço… porque é facílimo!) Em vez de você pensar que um corpo é uno, o corpo é múltiplo. É o que há de mais simples no mudo! Qualquer um sabe disso! Qualquer criança na rua sabe disso; que o corpo é uma multiplicidade… que de repende uma determinada potência do corpo puxa para cá, outra potência puxa para lá – há conflito de potências. (Entenderam?) Muitas vezes nós pensamos que tomamos uma atitude por que nós somos aquilo. Não, são as potências de nosso corpo que se confrontam e conduzem a nossa vida.

Eu vou contar um caso incrível para vocês: um cara está passeando com Nastassja Kinski na praia de Copacabana, e ela está toda apaixonada por ele. Ai passa um negão e ele sai atrás do negão. O que o levou a fazer isso? As potências do corpo, as potências da natureza, as potências da vida que conduzem para lá, que puxam para cá, levam para lá. São as tendências da vida – [são elas] que formam as nossas vidas. São as forças, as potências que nos conduzem. Não houve, agora, o caso de um cara que matou e estuprou uma criança? Pela vontade dele ele mataria? Nunca! Pela vontade, não! Foram as forças que o conduziram. Forças potentíssimas, que o conduziram a fazer aquilo. Outras forças não puderam passar alí e conter aquelas.

É a coisa mais fácil [de se entender]: muitas vezes nós não fazemos coisas que nós não queremos fazer? A nossa vontade não passa ali – mas as forças – que são as potências do corpo, muito mais poderosas que a nossa vontade – nos levam. Na verdade, nem é isso. A nossa vontade está sempre a serviço da potência que vence. Vejam se entenderam. A nossa vontade está sempre a serviço das potências que vencem. Essas potências se confrontam no corpo. A potência vitoriosa… […]

Isso quebra a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio; nós executamos as nossas vidas segundo as potências que nós temos. Se é aquela potência que está passando, é aquela potência que a vontade vai seguir.

É a coisa mais fácil do mundo! O que dificulta, sabe o que é? É o modelo clássico que nós temos do livre arbítrio. Isso é que confunde a gente.

Os estoicos estão dizendo que a nossa vida não se explica pela vontade – mas pela potência de expansão. Quando uma determinada potência vem – é ela que vai se afirmar, se não vier outra para inibi-la. Em Freud, há uma teoria da ambivalência, em que, por exemplo, nós odiamos e amamos alguma coisa ao mesmo tempo. É uma tolice: não é nada disso! O que ocorre é que, de repente, passa a potência do amor, e dali a pouco vem a potência do ódio e faz a do amor abaixar, passando a do ódio! São as potências que governam as nossas vidas!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se são do acaso? Depois eu vou explicar isso – como é que se dá o mecanísmo dessas potências. Mas nós entendermos que a nossa vida se constitui por esse campo de potências. Então, não é uma potência. São múltiplas potências – múltiplas! – que são constituintes das nossas vidas. (Posso dar por entendido?)

Aluno: Você vai andando pela rua, [inaudível] quer dizer, você vai entrando em contato com uma outra coisa…

Claudio: Você quer saber se… Não, não não! Não é o outro corpo que vai fazer eu odiar ou amar. O meu próprio corpo é feito de uma multiplicidade de potências; se vocês repararem nós odiamos, amamos, somos indiferentes e alegres com a relação à mesma coisa em cinco minutos! São essas potências que estão – o tempo inteiro – atravessando dentro de nós. Elas estão o tempo inteiro se defrontando para ver qual vai governar – é uma luta constante!

Aluna: [inaudível] essência dos corpos?

Claudio: São a essência dos corpos. A nossa essência é esse conjunto de potências. É isso que é a nossa essência.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Melancólica? [Aluno: É!] Evidente que sim, evidente que sim! Se de repente determinada força em você começa a governar, é assim que você vai entrar em relação com os outros corpos. [A partir da potência que vencer.] É evidente! Aquela potência começa a passar em você – sua relação com os outros corpos vem dalí. De repente outra passa, as coisas melhoram… ou pioram!

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não, porque a vontade… o que quer dizer vontade, C...? A vontade é alguma coisa que serve à ação da potência. Por exemplo, vencem em mim as potências da preguiça, eu sonho em ser preguiçoso, em não fazer nada. Isto – de ser preguiçoso – é uma potência que está passando em mim. O que eu faço com a vontade? Eu torno a vontade serviçal desta potência, e vou ser preguiçoso ad nauseam. Preguiçoso ao infinito. Boto a minha vontade a serviço da minha preguiça. Por exemplo, os filósofos, para serem filósofos, êles têm que conquistar o ócio. É impossível o filósofo ser filósofo sem ócio. Imagina o filósofo preocupado com o preço da banana! Ele nunca seria filósofo. Ele tem que se preocupar com outras questões. Então, ele tem que colocar a vontade a serviço daquela potência. Porque as outras potências, a potência que quer saber o preço da banana, também está atravessando. (Não sei se vocês entenderam…)

A vontade não é aquilo que decide em nós. O que decide em nós são as potências. A vontade está a serviço das potências. Isso rompe com a teoria da vontade livre. Rompe com a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio. Há vontade a serviço da potência. (O que vocês acharam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Pode, pode, pode… Vou mais devagar aqui, vou mais depressa ali, mas ela está a serviço da potência. Em vez de você pensar que é a vontade que decide qual a potência que vai aparecer… é a potência que coloca a vontade a serviço dela. Fechando para vocês: é isso que, – em Nietzsche – se chama vontade de potência. A famosa vontade de potência de Nietzsche é isso! É a vontade a serviço da potência.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É sempre a potência que governa, a potência que manda. Ou seja, quando uma determinada potência me governa, o que essa potência quer? Ela quer produzir o mundo conforme ela é. Isso que a potência quer.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É evidente que, para eu ir trabalhar, a potência tem que querer trabalho. É evidente! Esta é a grande questão do Ocidente. A grande questão para o nascimento do capitalismo foi a proletarização que vai se dar no nosso campo social a partir do século XVIII. E essa proletarização são práticas de poder estimulando as potências de trabalho. O que se faz no ocidente, é uma prática de proletarização. O que é a proletarização? É pegar os corpos e estimular neles as potências que interessam ao poder político. Então, produz-se estímulos de potências de trabalho. Por isso é muito difícil se pegar um primitivo e colocá-lo na força de trabalho, pois ele já está todo constituído e suas potências se dirigem para a pesca, para o amor – mas se dirigem com dificuldade ao trabalho. Então, para se produzir um corpo no nosso mundo tem-se que pegar a criança e começar a extrair dela as potências que interessam. (Deu para entender?) Porque a potência está em você! Mas o que faz o poder político? Ele vai trabalhar naquele corpo, extraindo dele as potências que interessam a ele [poder político]. Imediatamente a vontade se liga àquela potência [estimulada] e eu digo: “que vontade de trabalhar!”. (Entenderam?)

Aluno: A sua razão não pode estimular potências que lhe interessam e produzir uma vontade livre?

Claudio: Não, não, não! Não senhor! Espera um pouco para entender. Daqui a pouco eu vou falar sobre a razão para você entender! Entender o que eu estou dizendo, é que um corpo é constituído por uma multiplicidade de potências. Então você pega o corpo de uma criança, o que ele é? Uma multiplicidade de potências. O que você faz? Você estimula naquele corpo as potências que lhe interessam; ou seja, um campo social emerge pela prática estimulativa. Assim que se produz um campo social. Entrando em crise direta com o modelo marxista, para quem um campo social se constitui por repressão. Não é por nenhuma repressão, é por estimulação das potências dos corpos. (Não sei se entenderam…) O marxismo pensa que para se constituir um campo social tem-se que fazer práticas repressivas. Eu estou dizendo: não!, para se constituir um campo social, tem-se que estimular as forças que interessam. Por isso que a [questão da] educação é tão problemática. Por isso que a partir de meados do século passado nasceu no ocidente a escolarização obrigatória – porque a escolarização obrigatória é [para] extrair [daquela criança] as potências que interessam [ao sistema].

Aluna: [inaudível] a constituição de um campo social, é porque ele está pensando um novo [inaudível], não é?

Claudio: É porque ele está pensando a essência como atributo. É só isso, filha. É só isso! É só isso! Na hora que você pensa a essência como atributo, o homem já tem uma essência atributiva dentro dele, e as práticas políticas, então, seriam exatamente reprimir o homem. Não há repressão de homem nenhum! Pelo contrário. O que o campo político faz é produzir o homem, ele produz o homem – porque homem é isto que nós somos! Ou seja: as potências que foram estimuladas em nós, para constituir o que nós somos, é que nos tornou homens. Não o homem em essência o homem é uma prática política.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Vamos com calma para vocês entenderem. Não tenta fazer teoria muito grande já não, A.… Vamos entender, filha. Certo? A minha tese neste instante é muito simples: a formação de um campo social não se dá por práticas repressivas na essência do homem; a formação de um campo social se dá por práticas estimulativas nas potências de um corpo.

Aluna: Pois é, mas as práticas estimulativas não estariam ligadas às práticas repressivas, porque…

Claudio: Não, filha. Não! De forma nenhuma! O que eu estou dizendo para vocês é que o campo social vai constituir agências estimulativas. Por exemplo, voce pega uma criança da família conjugal, moderna, capitalistica, século XX. O que se estimula nesta criança? Todas as suas potências econômicas. Todas as potências econômicas dessa criança são estimuladas. Não há sequer uma criança, nas nossas famílias, que não seja criada para vencer na vida. Vencer na vida no mundo capitalista é fazer o quê? Trabalhar! Estimular as potências do trabalho será exatamente o modelo das nossa instituições. (Não sei se vocês entenderam…)

Não há sequer uma família… qualquer família pega sua criança e faz o que naquela criança? Estimula nela o quê? As potências do trabalho. No nosso mundo é sempre a mesma coisa – produz-se uma criança economicamente fortíssima. Economicamente forte, quer dizer o quê? Todas as potências do trabalho são estimuladas naquela criança.

Querem ver uma coisa? De repente chama-se o psiquiatra numa família. Por quê? Porque uma criança, numa família, não está sendo estimulada pelo trabalho. Está se derivando. A deriva dela é porque a prática estimulativa não está funcionando. Aí aparecem as instituições para fazer essa prática de estimulação – a psicologia, a psiquiatria são as fábricas estimulativas… para trazer aquela criança para o campo social. (Entenderam?)

Vou fazer uma narrativa do Michel Foucault. O Foucault diz que era um homem triste, muito triste, porque ele vivia em um campo social em que as forças de dominação se dão diretamente no corpo da criança. Isso o entristecia. A prática de estimular aquela criança para produzir o homem que interessa para a família. Isso produzia nele uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza. E essa prática geraria homens sem nenhuma potência política. Nós teríamos as nossas potências econômicas altamente estimuladas, mas as potências políticas estariam inteiramente fechadas. (Não sei se entenderam…) Potências políticas – se as potências políticas passassem, o capitalismo já teria desaparecido, porque nós não suportaríamos esse modo selvagem de vida; não suportaríamos o que nós somos. Então, o capitalismo estimula o tempo inteiro as nossas potências econômicas – mas não deixa passar as potências políticas. Não deixa passar. Não há nenhuma instituição no nosso campo social que seja estimuladora das potências políticas. A estimulação das potências políticas nos levaria, necessariamente, a fazer transformações sociais; pois quando se estimula uma potência, ela se torna criativa. Nós somos criadores constantes no campo econômico. Sempre criadores no campo econômico. Sempre! Nós não paramos de inventar meios de produzir mais “grana”. Sempre! Por quê? Porque aquilo é estimulado. Se você estimular as potências políticas de um homem, o que vai acontecer? O campo social vai se romper. (Não sei se entenderam…) Então não seria possível que o capitalismo fosse fazer isso. Porque senão ele teria se destruído. (Deu para entender aí? Então eu vou parar dez minutos para vocês tomarem café e eu retomo, tá?)


2ª Parte:

O instinto é inato. Ele não depende de nada para existir, (certo?) É o instinto que me leva a procurar as coisas – não o afeto. O afeto é alguma coisa que só aparece em mim se algo vier de fora e excitar a aparição desse afeto. O afeto é produzido. Ele é uma composição com outro estimulador.

O exemplo do carrapato é nítido: o carrapato é estimulado pela luz. Então, o que acontece? O afeto pela luz aparece, ele se compõe com a luz. A luz se compõe com o afeto. O que o carrapato vai fazer é procurar os pontos mais altos, onde a luz bate mais, [para se instalar]. Quando ele chega aos pontos mais altos ele para. Por quê? Porque é ali que a luz mais o afeta. Aí ele para. Ele vai sempre para os galhos de árvore. Chegando aos galhos mais altos, nada mais o afeta. Ele fica parado ali – olha que coisa incrível – 15, 16, 17, 18 anos, sem fazer nada! Em pleno jejum. De repente, passa por baixo dele um animal de sangue quente. Este animal de sangue quente produz nele um afeto, e ele cai em cima. Esse afeto pelo sangue quente nunca apareceria se o animal não passasse. O afeto pressupõe a presença do estimulador. (Não sei se entenderam…) A ideia de afeto é diferente da ideia de pulsão e de instinto porque o afeto é aquilo que só existe em composição. Não há falta, só composição; só há o que se chama – agenciamento. (Entenderam?)

A única coisa que eu quero que vocês entendam, é que a teoria do afeto não é a teoria do instinto e não é a teoria da pulsão. A teoria do afeto – o afeto é aquilo que para existir pressupõe um estimulador – porque o afeto não funciona sozinho. Ele só funciona em agenciamento. Ele está agenciado, ele existe. Não está agenciado, não existe. (Ficou difícil, não é?)

Eu não estou definindo o afeto – eu estou dizendo como ele funciona. É isso que eu estou fazendo. Em vez de definir o afeto, eu estou [descrevendo] o funcionamento do afeto. Não me importa defini-lo. Importa-me dizer como ele funciona. Ele funciona dessa maneira: o afeto é alguma coisa que para existir pressupõe o estimulador. (Certo?) É preciso que alguma coisa o estimule, para que aquele afeto exista.

O carrapato é citado porque ele só tem três afetos. Só há três meios de o carrapato ser afetado: luz, sangue quente e suor. Só essas três coisas afetam o carrapato. Se não houver essas três coisas o que ele faz? Literalmente não se move. Isso que eu estou chamando de afeto. O afeto é alguma coisa que não pode ser entendida por definição – só pode ser entendida por funcionamento.

Aluna: Ele não é produto do agenciamento?

Claudio: O afeto seria o próprio agenciamento. O afeto só se entende por função. Olhem a palavra que eu estou usando: função! Ele não pode ser definido. Ele não pode ser explicado por nada. Porque ele é um funcionamento. Ele é algo que funciona. Isso que é o afeto.

Então, pelos afetos os corpos fazem os agenciamentos. (Não sei se vocês entenderam… Acho que eu não fui feliz… O que você acha, C..., tranquilo?)

Os corpos vão se agenciar pelos afetos. Então, o que é exatamente a relação dos corpos? A relação entre os corpos é uma relação afetiva – eles fazem agenciamento por afetos. Eles vão fazendo a sua existência [através das] composições afetivas. Mas eu disse a vocês que não há sequer um afeto que funcione sem estimulação. Não há possibilidade disso. O que implica em dizer que os afetos podem ser inventados. Pode-se produzir afetos que você não tem. Na verdade, nós não temos nenhum afeto – os afetos são produção de estímulos.

Eu posso pegar uma criança que nunca viu um livro e começar a agenciá-la com livros – e ela pode criar afeto pelo livro. Ela passa a fazer um agenciamento afetivo com o livro: ela passa por um livro, para e olha – como a gente passa pelas livrarias e tem que olhar, (não é?) Ela vai criando afetos.

Eu posso pegar um brasileiro, ainda que isso pareça impossível, e fazer com que ele deixe de se afetar pelo samba do terreiro e se afete por ópera. Por estimulação. Mozart, por exemplo, é uma invenção afetiva do pai dele, que o pegou aos quatro anos de idade e só jogou música em cima dele, música em cima dele, música em cima dele, afetando, produzindo afeto. Aí, aquilo emerge, nasce a composição. O afeto não é um sentimento, não é uma paixão, não é uma emoção – o afeto é aquilo que faz a composição dos corpos, o agenciamento dos corpos.

Deixa eu só fechar aqui, olha que coisa interessante: os povos nômades são aqueles povos que foram forçados a ir para as estepes e para os desertos. (Eu não pretendo contar aqui toda a história dos povos nômades). Eles foram para a estepe e o deserto por forçamento político, mas quando eles chegam no deserto e na estepe eles têm um problema – que é a alimentação. Lá não é como na planície. Então, eles vão tornar os animais deles produtores de alimentos. Eles começam a relacionar os animais deles com aquela grama rasteira que dá no deserto, porque os animais se afetam por aquela erva. E, os animais entrando em composição com aquela erva, tornam-se produtores de sangue e de leite, eles geram animais “fábrica de alimentos”. Por isto, a relação de um nômade com um animal não é a mesma que entre o sedentário e o animal. Por que o sedentário torna o animal carregador de carga; e o nômade torna o animal produtor de alimentos. Eles têm uma composição diferente. Nós não podemos pensar a relação do nômade com o animal conforme a nossa relação – pois aquilo ali funda um novo campo afetivo. (Não sei se vocês entenderam…) É completamente diferente a literatura do nômade sobre os animais, e a literatura animal aqui, no nosso mundo sedentário. Porque os animais para nós servem diretamente a nós – enquanto para o nômade ele é fábrica de alimento e instrumento de guerra. É completamente diferente o uso que eles fazem, do uso que nós fazemos. Ou seja: voce pega uma criança nômade e vai gerando nela um afeto pelo animal, vai produzindo um afeto nela. Por isso, a relação de uma criança com um animal no mundo nômade é completamente diferente da nossa.

Aluno: [inaudível] encontro de corpos, não é?

Claudio: Agora eu reduzi para o encontro dos afetos. Aquilo já está ultrapassado. Agora, realmente, o encontro de corpos são composições afetivas. Eu passei do encontro de corpos, para encontros afetivos. O que realmente faz com que um corpo se encontre com outro são os afetos. Por que é que eu respiro? Porque o ar afeta meu pulmão, aí eu respiro!

Aluna: Os afetos são agenciamentos?

Claudio: Os afetos são agenciamentos. Não são nem pulsões nem instintos. Eles são produtores de agenciamentos. (O que vocês acharam? Ficou muito difícil?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. O agenciamento de afetos é agenciamento de corpos, que gera… acontecimento. Gera acontecimento. Os corpos fazendo encontros, geram acontecimento.

Aluna: [inaudível] respirar…

Claudio: Você tenta pensar isso. Porque eu estou dizendo que você vai respirar, porque você é afetada no corpo. Você é afetada! Se voce colocar, por exemplo, um homem nas trevas, ele vai viver lá, sem sentir a falta da luz. Ele só ganha o afeto na hora em que alguma coisa vem estimulá-lo. Aí ele vai funcionar. É pensar o corpo vivo como função. E essa categoria de função é matemática. Depois eu passo para vocês. Essa idéia de função – é que um corpo só funciona através de composições afetivas. Senão ele paralisa.

Isso é tão fácil! Isso faz parte das nossas vidas. Nós nos movemos somente em função daquilo que nos afeta. Senão nós não nos movemos! Ninguém vai se mover por aquilo que não o afeta. É só o campo dos afetos que gera os nossos movimentos. Nós vamos fazendo composições afetivas e constituindo o nosso corpo. Pelas composições de afeto que a gente faz. Você pega o telefone e liga para a sua mulher, depois liga para o seu pai e, dalí a pouco para um credor. Olhem como essas três composições de afeto geram vozes diferentes; geram vozes, geram acontecimentos diversos! Porque o que eu estou dizendo é que todo o universo é feito por esse campo de afetos. Por que um homem faz literatura e o outro faz cinema? O que é isso? São campos afetivos. Os campos afetivos vão produzindo as nossas vidas!

Agora eu vou dar uma explicação concreta: há um tempo na história, eu não posso precisar (se tiver alguém que precise essa história para mim…), em que houve a invenção do estribo. Colocaram estribo nos cavalos. Na hora em que puseram estribo nos cavalos, o agenciamento que o homem fazia com o cavalo se modificou. Modifica-se o agenciamento do homem com o cavalo. Nasce a possibilidade de haver a guerra com lança, nasce a possibilidade da armadura; novas relações de corpos vão se formando, e vão se gerando novos acontecimentos.

Agora, eu vou dar como mais ou menos entendido essa questão do campo dos afetos, e vou passar a explicar o que vem a ser acontecimento.

O acontecimento é todo campo do nosso saber. Os afetos é o campo do nosso poder, e o acontecimento é o campo do saber. O que nós falamos, sobre o que nós falamos? O que nós vemos no mundo? Nós vemos e falamos sobre as nossas relações de corpos. O nosso mundo não é um mundo em si mesmo; o nosso mundo é sempre produto das relações de corpos que nós fazemos ao longo da vida. Por exemplo, o saber do mundo medieval não é o mesmo saber que nós temos no século XX. Por que não? Porque eles não falavam e não viam as mesmas coisas. O acontecimento é o campo do saber; é o atributo. E os corpos são as forças.

Quando nós usamos o discurso é para falar exatamente sobre o mundo em que nós vivemos. Por exemplo, se eu disser para vocês que um homem está louco, “aquele homem está completamente louco“, é possível que alguém diga assim “leve este homem ao psiquiatra para tentar curá-lo“? É possível que alguém me diga isso? Sim, é possível. Mas isso não podia ser dito no século XVII. Não podia ser dito, de maneira nenhuma – porque o encontro do corpo do louco com o corpo do psiquiatra ainda não tinha se dado. Aquilo que pode ser dito pressupõe o encontro dos corpos. Senão, não pode ser dito. Não pode ser dita qualquer coisa em qualquer tempo.

Hoje os jornais não podem dizer que determinadas famílias são criminosas porque não mandam os seus filhos para a escola? Por quê? Porque no nosso tempo a escolarização é obrigatória. Mas no século XVIII não era. Você só pode dizer alguma coisa depois que aqueles corpos fizeram a composição. Os enuciados que nós produzimos ao longo da vida, são enunciados efeitos das composições dos corpos. (Não sei se vocês entenderam…) É a coisa mais fácil: quando é que nasce a escolarização obrigatória? Em meados do século XIX. A partir do momento em que a escola fez uma composição com os corpos das crianças, qualquer homem pode dizer – “é um absurdo não mandar essa criança para a escola!“. Mas apenas a partir daquele momento – antes não! Isso não acontecia antes. Todos os enunciados que nós produzimos se originam nesse movimento dos corpos. (Como é que você foi?)

Aluna: A questão da produção do estribo para o cavalo…

Claudio: Modificou a guerra… O estribo é uma criação. Não existe essa coisa de necessidade, não. Não, não há necessidade de nada.

Aluno: Mas, particularizando o caso do estribo, foi uma necessidade realmente não tanto para que a pessoa se equilibrasse, mas para que pudesse montar no cavalo.

Claudio: Não! Se você dissesse isso para o nômade, ele ia te olhar com a cara tão feia… porque ele sabe pular em cima do cavalo.

Aluno: Os nômades têm estribo. Aqueles peles vermelhas é que não…

Claudio: Os nômades têm estribo agora. Têm estribo agora! Eles nunca tiveram estribo! Você sabe o que era o nômade? O nômade era chamado “perna magra”. Eles tinham a perninha magra, preparada exatamente para montar nos cavalos a pêlo. Tanto que as mulheres nômades tinham que aprender a ter desejo sexual por perna magra. Que as pernas magras eram consideradas bonitas.

Na hora que aparece o estribo, é aí que vão ser geradas, por exemplo, as cruzadas. As cruzadas seriam impensadas sem os estribos.

Aluno: Nos documentos antigos que retratam as guerras greco-romanas…

Claudio: Você não encontra estribo. Você tem um agenciamento de corpos… Inventaram o estribo. Inventaram a armadura. Inventaram os torneios. Inventaram os cavaleiros. Inventaram o amor cortês.

Aluno: Olha, a lança era apoiada no pé dos cavaleiros. E para isso, precisava obrigatoriamente ter o estribo, do contrário não funcionava.

Claudio: Exatamente. Quando se inventou o estribo, não modificaram as máquinas de guerra? Modificaram as máquinas de guerra, permitiu-se o acontecimento invasão do oriente – as cruzadas. O acontecimento vai se liberar por esse movimento dos corpos.

Por exemplo: quando é que nós começamos a pensar em visitar a lua? No momento em que pelo menos nós passamos a entender que a gravidade é uma foça e que essa força só pode ser vencida por aceleração. Pronto! Quando se fazem determinados agenciamentos de corpo, aí o acontecimento emerge. De imediato o acontecimento emerge.

Vocês podem ler um livro do Georges Duby – que saiu agora – chamado Idade Média, Idade dos Homens. Leiam o livro para vocês verem esse acontecimento chamado cavaleiro. É um livro lindíssimo que saiu agora.

Toda a natureza se constitui por composições afetivas. Essas composições afetivas geram o acontecimento. Composições afetivas chama-se campo do poder. Acontecimento, campo do saber. (Isso deixa para as próximas aulas.)

Como muita gente perdeu, eu reproduzi a última aula e deixei o campo de saber para a próxima.

Então, o campo de saber pressupõe o campo do poder. Que é alguma coisa que nós não entendemos bem no mundo moderno. Nós pensamos que o saber nada tem a ver com o o poder. Ou quando pensamos que o saber tem alguma coisa a ver com o poder, falamos asneiras sobre o poder. Poder não é o poder do Estado. Poder é o poder dos corpos. Isso que é o poder. É o poder que os corpos têm de fazer composição com os outros corpos. E aí vai nascendo o que se chama saber. Que é o acontecimento.

Então está aberto para vocês falarem, que eu vou terminar, que eu já não aguento mais. (Certo?) Mas eu acho que foi bem.

De alguma maneira, eu reproduzi a aula passada. Não fui muito fundo, mas na próxima aula eu vou começar a explicar campo do saber para vocês, logo – teoria das atribuições… eu tenho que penetrar cada vez mais fundo.

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Aula de 10/09/1995 – Uma aula trágica

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 13 (“Arte e forças”) e 15 (“Ecceidade e Espinosa, o Mais Poderoso dos Deleuzeanos”) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano.

Para pedir o livro, clique aqui.


“Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Espinosa […] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar […] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.”

 [Herem – anátema – pronunciado contra Espinosa aos 23 anos de idade, em 27 de julho de 1656].

Esta é uma aula trágica. Trágico não quer dizer sofrimento – não é nada disso; mas uma aula fundada num homem que esteve neste planeta durante quarenta e cinco anos. Nesses quarenta e cinco anos de vida, ele se preocupou em compreender e em observar se há ou havia saída para o sofrimento da alma humana. Esse homem chama-se Espinosa.

Espinosa viveu no século XVII: nasceu em 1632. Ele foi injuriado e odiado durante a sua vida… e acusado de materialista e de ateu. Quando diziam que ele era materialista e ateu, ele, sim, sentia uma enorme alegria, porque ele era materialista e ateu. Mas não considerava isso uma desonra. Pelo contrário! Uma posição, para ele, a mais elevada que o homem poderia ter.

Eu usei uma expressão perigosa – “a posição mais elevada que o homem poderia ter”. Dizer: a posição mais elevada que o homem poderia ter – não tem uma significação moral. Significa que aquele que tem a posição mais elevada venceu todos os medos, todas as angústias e todos os sofrimentos. Ou seja: o homem mais elevado, no conceito de Espinosa, é aquele que, através do seu pensamento, descobriu que a vida pode se dar sem angústia ou depressão.

Então, dizer “o homem mais elevado”, não é um elogio pelos discursos que Espinosa proferiu; mas um fato, que ele teve como questão da vida dele – e os mais jovens talvez não entendam a força existencial do que eu estou dizendo -, que ele teve como questão primacial da obra dele o sofrimento da humanidade. Diante desse sofrimento – e não é o sofrimento do corpo que preocupou Espinosa – é o sofrimento da alma: a alma humana envolvida com o medo da morte, das angústias, dos terrores que a acompanham desde o nascimento.

Se nós, literalmente, não tivéssemos tido Espinosa – quer dizer, este Espinosa que eu vou começar a dar para vocês -, o homem seria um ser sem saída Ele seria um ser definitivamente mergulhado na angústia. Ou melhor: tudo aquilo que está dentro do tempo… nasce, desenvolve-se e morre. O que leva qualquer criatura dentro do tempo – se não houvesse Espinosa -, a estar condenada a um sofrimento insuportável.

Essas afirmações que estou fazendo antes de começar a apresentar Espinosa para vocês, é porque a obra dele tem como principal adversário – e aqui as palavras começam a ficar um pouco difíceis para serem entendidas -, o principal adversário da obra de Espinosa é a ignorância. Ele considera a ignorância o pior inimigo da vida.

Ignorância quer dizer ignorar. E quando você encontra um ser – atenção pela beleza e pela dificuldade do que eu vou dizer! – quando você encontra um ser que é ignorante por acidente, significa que esse ser é ignorante, mas pode deixar de ser. Ou seja: ignorância por acidente significa que esse ser, dependendo de determinadas ocorrências, deixaria de ser ignorante. A questão de Espinosa não é essa! A questão do Espinosa é com aquele ser que é ignorante por essência. E que nada, jamais nada no universo pode modificar aquela ignorância. É um ser que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância.

Espinosa diz que este ser, que tem como elemento inseparável de si mesmo a ignorância, que este ser é o maior inimigo da vida. E ele chama esse ser do mesmo nome que nós costumamos chamar – a consciência. Essa afirmação aqui é uma afirmação inicial.

Aluna: Ele chama a ignorância…

Claudio: A consciência, para Espinosa, é um ser absolutamente ignorante e a ignorância da consciência… – não adianta mandar a consciência para um internato na Suíça, porque ela não tem cura. O Espinosa está dizendo que ela é ignorante por essência, e não por acidente.

É nesse momento que começa uma obra que dada a filosofia… [trecho inaudível] esquece para sempre a consciência. Ela é declarada a ignorante sem cura. E a partir dessa denúncia que Espinosa está fazendo para todos os homens – ele está dizendo para todos os homens: “Olhem, a consciência, ela é… a ignorância absoluta!” Evidentemente que os homens, que são governados pela consciência, não entendem o que ele diz.

A gente ouve essa afirmação que Espinosa está fazendo – que a consciência é ignorante – e, inicialmente, acha que são meras palavras ou jogos de palavras que vão aparecer para nós – como aconteceu durante toda a história do homem – que é ir se deparando com jogos de palavras. Não é essa a questão! A questão de Espinosa é… de uma radicalidade assustadora! Ele diz e afirma que a consciência jamais poderá deixar de ser ignorante. E, a partir dessa afirmação, eu vou mostrar para vocês o que é a consciência.

Em primeiro lugar, o que é algo fácil de ser entendido, o homem é constituído de duas coisas – e as palavras aqui podem ser prejudicadas pelas influências religiosas… – o homem é constituído de um corpo e de um espírito. Essa noção de espírito é a afirmação de que o homem é capaz de tentar – se ele consegue ou não é outro problema! – entender a natureza; capaz de sofrer pelo sofrimento dos outros e dos seus próprios; e é capaz de inventar novos objetos.

Inventar novos objetos, sofrer e procurar entender a natureza são índices de que o homem possui um espírito.

Possuir um espírito é o fato de que o homem avalia, julga, sente, projeta, recorda-se, lamenta, sente alegria, sente tristeza… – todos esses componentes indicam, exaustivamente, que o homem não se esgota no corpo: que ele tem um espírito!

Então, Espinosa começa por essa afirmação: o homem é corpo e espírito! Essa afirmação, pelo menos aparentemente, não é muito original, porque todas as religiões disseram a mesma coisa: o homem tem um corpo e um espírito.

A originalidade começa quando Espinosa diz que o espírito aparece no mundo por uma forma chamada consciência. Ou seja, nosso espírito – não vou dar exemplos porque vocês não iriam entender – aparece no mundo por uma forma que se chama consciência – Atenção! – e essa forma, a consciência, tem por função recolher em si tudo o que ocorre na natureza. A consciência é como que… o resultado dos acontecimentos da natureza. A consciência sofre, se angustia, tem depressões. A consciência é um órgão do espírito, ou um órgão no espírito humano que teria a função de conhecer a natureza das coisas. Teria a função de conhecer a natureza das coisas… mas ela não pode conhecer a natureza das coisas.

Atenção! Espinosa diz que a natureza das coisas são relações causais. O que são relações causais? São relações de forças que percorrem a natureza.

A natureza são as forças dos corpos, ou melhor, diz Espinosa, o infinito inteiro da natureza é constituído por dois afetos – a composição e a decomposição dos corpos.

Quando você conhece a natureza, você conhece – diz ele – que a natureza só tem dois afetos: a composição e a decomposição. Mais nada!

Então, a natureza se explicaria pelos corpos que se compõem e pelos corpos que se decompõem. Para Espinosa a natureza não tem mais nenhuma lei, só essas duas; só esses dois afetos: composição e decomposição.

A consciência – sendo um órgão do conhecimento – teria a função de conhecer as regras que organizam a composição e a decomposição. Mas ela não pode fazer isso – e esse é o momento mais difícil e mais sofisticado para vocês entenderem – porque ela, a consciência, é um efeito da composição e da decomposição [dos corpos]. Ou seja, só porque há composição e há decomposição é que há consciência. A consciência não é primária; ela é secundária – um produto das relações causais da natureza. Por isso, a natureza é toda constituída por relações causais, nas suas composições e nas suas decomposições; e ela, a natureza, só tem um efeito: esse efeito chama-se… consciência!

A consciência é um efeito; e sendo um efeito (ela é como se fosse a Comlurb*) – só recolhe os acontecimentos causais da natureza. Então, quando a consciência pertence a um corpo que está em composição com outro corpo, a natureza recolhe alegria; quando está em decomposição com outro corpo, ela recolhe tristeza. A consciência não compreende a natureza: ela sente a natureza!

[* Comlurb é a Companhia Municipal de Limpeza Urbana da cidade do Rio de Janeiro. N. do E.]

(Atenção, para o que eu estou dizendo:)

A consciência não compreende os movimentos causais que a natureza efetua. Ela não compreende, mas sente esses movimentos. Por isso, a consciência é constituída pela variação das composições e das decomposições da natureza, que dão à consciência variação de sentimentos.

A consciência é uma interminável sucessão de sentimentos. Ela passa de um sentimento para outro, em função das composições e das decomposições que existem dentro da natureza.

Aluno: Uma interminável consciência desses movimentos? É como se fosse um movimento continuado, não é?

Claudio: O que a consciência tem são sentimentos. Ela não sabe o que são as composições e as decomposições da natureza; ela tem apenas sentimentos.

Então, por exemplo, o meu corpo se compõe com outro corpo, a minha consciência sente alegria. O meu corpo e outro corpo se decompõem, ela sente tristeza. Quando a composição permanece por mais tempo, ela sente amor. Quando a decomposição demora mais tempo, ela sente ódio. Então, a consciência vai variando de sentimentos. Ela é uma variação permanente de sentimentos.

Por isso, qualquer homem está em permanente variação de sentimentos. Ele sente amor, ódio, tristeza, alegria, esperança, angústia, desventura, raiva…. Tudo isso está se dando na consciência, porque na natureza os corpos estão em composição e em decomposição. A partir daí, a definição da consciência é “aquela que recolhe os efeitos do afeto que percorre o infinito da natureza: o afeto das composições e das decomposições”. Assim, a consciência é um ser mutilado. Ela é mutilada porque ela não pode apreender, ela não apreende as causalidades. Então, todo o saber que a consciência tem é um saber mutilado, é um saber pela metade: ela não apreende as causas; ela só conhece os efeitos.

Sendo assim, imediatamente, ela, a consciência, é por essência angustiada. Ela se angustia, porque sequer pode saber quanto tempo um sentimento que está nela vai durar. Porque ela não sabe que as variações de sentimentos se dão pelas composições e pelas decomposições da natureza. Ela só recolhe os efeitos.

Aluno: Decomposição seria a separação?

Claudio: A decomposição, M.L., é quando, por exemplo, digamos: você tem uma ideia sobre o que é democracia, aí você lê um texto em que um determinado autor produz uma noção de democracia que entra em choque com a sua. Quando duas ideias não se compõem, elas se decompõem; e a decomposição de uma ideia produz em nós um sentimento de fraqueza.

Então, o que eu estou chamando de composição e decomposição é composição e decomposição de ideias e composição e decomposição de corpos. Nós temos uma série de ideias e, de repente, essas ideias entram em composição com outras ideias. Se essas duas ideias se compuserem nós sentimos alegria, porque nossa força aumenta.

Aluno: Elas somam?

Claudio: Elas somam!

E se elas entrarem em confronto, nós sentimos tristeza. Então, o que nós temos que entender… – e aqui já começou a violência de Espinosa -… que a consciência não entende: ela sente.

(É uma diferença fundamental, vou insistir até que vocês…)

Aluno: Soma ou perde, não é?

Claudio: Ela compõe e decompõe.

Ela não conhece composição nem decomposição. Ela só conhece os sentimentos. A consciência não conhece as leis da natureza. Ela só recolhe – das composições e das decomposições – os sentimentos. Então, a nossa consciência é uma variação interminável de sentimentos e esses sentimentos em variação constante geram um sobre-sentimento, que se chama angústia. A angústia apareceria não como um sentimento, mas como um sobre-sentimento, pelo fato de que a consciência não entende nada do que se passa. Nada! Ela não foi feita para entender; ela foi feita para sentir. Então ela passa toda a sua existência mudando de um sentimento para outro. Essa variação de sentimento chega a um ponto que abafa a própria consciência. Aí ela sente angústia.

A angústia é a impossibilidade de a consciência permanecer num só sentimento. Os sentimentos não param de oscilar, porque a natureza não para de compor-se e de decompor-se. Então, o ponto de partida da aula (está entendendo, R.?) é que a consciência… ela não entende; ela sente.

Aluno: Ela sente a composição e a decomposição?

Claudio: Ela pega os efeitos.

Aqui já apareceu um elemento da ignorância dela. Ela não tem capacidade para entender os movimentos da natureza. Ela não consegue entender. Não conseguindo entender, o processo dela é sentir.

Aluno: A decomposição tem a ver com perda, não é?

Claudio: Isso não tem muita importância, não, porque o importante aqui é o estado da consciência em termos de sentimento.

O que nós chamamos de consciência é que todos nós temos a capacidade de sentir um determinado estado em que a gente está. De repente, você está aqui e uma tristeza te toma, daqui a pouco uma alegria te toma, dali a pouco uma raiva, depois um ódio, dali a pouco um amor. A consciência vai passando de sentimento para sentimento. Então ela não consegue entender a natureza de maneira nenhuma, porque todo o procedimento dela é sentir.

A consciência sente, ela é o ser do sentimento. Então, envolvida em sentimento durante toda a sua existência, – toda a sua existência envolvida em sentimento -, a consciência (prestem atenção ao que eu vou dizer agora porque é o enunciado principal!) a consciência não entende a natureza, ela não pode entender a natureza. (Prestem bem atenção!) Ela não pode entender a natureza! ! Então, ela, a consciência, estaria fora do campo do entendimento.

A consciência está fora do campo do entendimento. E aquilo que está fora do campo do entendimento entra no campo da obediência. A consciência não nasceu para entender. Ela nasceu para obedecer ou desobedecer.

Não tendo como entender a natureza, a consciência acha que ela lhe dá ordens: que a natureza envia ordens para ela, a consciência. E ela responde a essas ordens obedecendo ou desobedecendo.

Quando ela obedece, espera de imediato uma recompensa. Quando desobedece, ela espera uma punição. Então a nossa consciência, obedecendo ou desobedecendo, vive infernizada pela culpa. A culpa a percorre o tempo inteiro. Ela se sente culpada. A culpa que a percorre está na própria incapacidade que ela tem de entender a natureza. Não entendendo a natureza, ela se sabe mutilada Ela é inteiramente mutilada! E em função disso emerge a culpa, que jamais poderá abandoná-la. Então, quando se diz “consciência culpada”, isso é uma afirmação essencial. Toda e qualquer consciência é necessariamente culpada.

Aluno: Como é que ela desobedece à natureza?

Claudio: Ela desobedece… Vou dar um exemplo. Um exemplo famoso em Espinosa.

Espinosa chama de Deus a própria natureza. Natureza para Espinosa é sinônimo de Deus. Então Espinosa diz:

Um dia Deus chegou para Adão – e Adão é um homem da consciência – e disse: “Adão, não coma este fruto!” Adão, quando ouviu aquilo, reagiu a esta afirmação de Deus – qual foi? – “não coma deste fruto”. Adão tomou aquilo como uma ordem: “Deus está me dando uma ordem!” – foi assim que ele entendeu, porque a consciência não entende o que é dito. Tudo o que é dito a consciência toma como uma ordem. Então, Adão recebeu essa ordem de Deus – assim que ele pensou que fosse! – e o que é que ele fez? Ele desobedeceu, isto é: ele comeu [o fruto]!

Quando ele come o fruto, ou seja, na hora em que ele desobedece a ordem de Deus, o corpo de Adão vai sofrer as consequências: ele vai sentir dor! Na hora em que sente dor, Adão pensa que Deus está se vingando dele: que Deus o está castigando, porque ele desobedeceu.

Na verdade, Deus não estava dando uma ordem. Deus estava dizendo: “Olha, meu filho, se você comer esse fruto, quando as partes do corpo desse fruto entrarem em contato com as partes do seu corpo, vai haver uma decomposição. Então, não coma esse fruto, porque você vai ficar envenenado!”. Deus estava dando a ele entendimento.

Mas Adão, regido pela consciência, não pode entender: ele só pode obedecer ou desobedecer. Porque a consciência jamais é capaz de entender!

É nesse momento que Espinosa vai dizer provavelmente um dos enunciados mais violentos da história do homem. Ele vai dizer que o homem, governado pela consciência, é – por essência, por natureza – infeliz.

E ele diz: todos os homens, quando lhes é perguntado qual o momento mais feliz da existência deles, todo homem responde a mesma coisa – “a minha infância”. Todo homem pensa, acha, que a sua infância foi seu momento mais feliz.

Diz Espinosa: ao contrário, a infância é o momento mais infeliz de qualquer homem porque, na infância, o que governa uma criança é a consciência – que só faz uma coisa: obedecer e desobedecer. Espinosa, então, diz que a infância é o momento mais triste da vida, porque [nessa etapa da vida] nós não temos capacidade de entender nada! Toda a nossa vida, na infância, se passa como uma relação de comando sobre nós – que nós obedecemos ou desobedecemos.

A partir daí Espinosa vai considerar a humanidade adâmica, ele vai identificar o homem – todos os homens – a Adão. Ou seja: ele chama “Adão, o ignorante e angustiado”; “o homem, o ignorante e angustiado”. Então, para Espinosa, o fator da perturbação que o homem tem desde que nasce até que morre é a consciência.

Aluno: E quando a criança desobedece?

Claudio: Quando ela desobedece, ela é punida: é assim que ela acha, porque a consciência não entende que a natureza é regida por leis; ela pensa que a natureza dá ordens. Então, ela obedece. E aí, quando ela obedece, [ela acredita que] a natureza dá um premio para ela; e [quando] desobedece, que a natureza a castiga. A consciência é escrava por essência.

O homem da consciência é um homem escravo. Ele é escravo do medo, da angústia, da mutilação, da impossibilidade de conhecer, das incertezas. Espinosa aponta para essas questões, mas a prática que ele está exercendo não é absolutamente original, porque muitos filósofos também viram que há um motivo para o sofrimento do homem. O motivo é a consciência, com sua incapacidade absoluta de sair do sentimento e de entender qualquer coisa: ela não entende!

Não entendendo, vivendo em torno dos sentimentos, ela se embrulha nas suas mutilações e nas suas angústias… e sofre pela passagem do tempo e com todos os efeitos que recolhe das relações causais da natureza.

Essa é a maior denúncia que já houve na história do pensamento, jamais, antes, houve uma denúncia desse tipo. Espinosa denuncia que a causa da infelicidade e da ignorância do homem é a consciência. Então, o homem é um ser “necessariamente ignorante e infeliz” – diz ele. E isso nos coloca numa posição difícil!

Aluno: “Sem saída?”.

Resultado de imagem para Ética EspinosaClaudio: Aparentemente. Mas ele vai utilizar o Livro V – que eu estou começando [a apresentar] nesse curso para vocês! – ele vai utilizar o Livro V da Ética para mostrar a saída.

Começa a surgir, aqui, um confronto com a vida, que a consciência, por sua própria essência, rejeita: a consciência rejeita o confronto com a vida! E nós temos a impressão de que essa rejeição do confronto com a vida é [algo de] bom para nós, mas não é… porque todas as práticas que a consciência faz, – que são práticas de mutilação -, forçosamente geram nela uma angústia.

Então dizer: se surgir um ser vivo em Sirius e me perguntar o que é o homem – eu responderei: é um ser angustiado, ignorante e infeliz! Eu faço essa enunciação com a maior tranquilidade.

(Já estou dando os elementos iniciais…)

A partir dessa noção – que ele vai [fazer] crescer – Espinosa vai apresentar a consciência de todas as maneiras, para o gosto de quem quiser – do cientista, do filósofo, do artista… Ele vai invadir, de maneira total, esse campo da consciência, para nos mostrar que a consciência é ignorante porque ela não pode entender nada; ela só pode sentir. E em seguida, vai dar início a uma famosa prática chamada a desvalorização da consciência.

Ele vai começar a desvalorizar tudo o que a consciência faz. E esse é um momento dramático para história da vida, porque o homem, desamparado, apostou na sua consciência – ele apostou que a consciência iria dar conta das suas questões. E Espinosa disse: “não tem jeito”!

Aluno: Consciência não tem nada a ver com razão?

Claudio: A razão seria um elemento dela, seria um elemento da consciência. (Quer dizer, no decorrer das aulas eu darei essa resposta com mais precisão).

Quando se chega a uma posição dessas, há um pessimismo, como se, então, se dissesse: o homem é a consciência, a consciência é angustiada e infeliz… então… não há saída! Espinosa diz que a consciência produz as paixões tristes e isso se distribui para toda a humanidade. Onde [quer que] você encontre o homem você encontra as paixões tristes. O homem, envolvido na tristeza das suas paixões… como se não pudesse ter outro caminho para ele!

Nesse momento… (eu estou fazendo aqui um apressamento, para vocês começarem a entender todo esse arauto da beleza que é Espinosa.) Nesse momento ele diz que o espírito e a consciência não são a mesma coisa. A consciência é como se fosse uma ponta do iceberg. Há, no espírito, uma parte muito mais ampla que Espinosa chama de inconsciente.

Prestem atenção que esse momento é um dos momentos mais ricos do espírito, porque ele não identificou o espírito à consciência. A consciência é apenas um ponto do espírito. Ele diz que existe no espírito uma parte mais poderosa que se chama inconsciente ou pensamento.

Pela primeira vez na história do saber um filósofo faz essa denúncia da consciência e uma denúncia, que eu ainda não fiz integralmente para vocês, que é uma denúncia sem saída – a consciência não tem saída! Mas ele mostra que o espírito não se resume à consciência. Que há alguma coisa a mais no espírito, que ele chama de pensamento.

Aluno: Ou inconsciente!?

Claudio: Ou inconsciente!

Muita gente pensará: ele está antecipando Freud? Não. Não, porque o inconsciente do Freud é a própria consciência. Isto aqui é muito importante de se entender: a diferença do inconsciente do Espinosa e do inconsciente do Freud. O inconsciente do Freud é um prolongamento da consciência e o inconsciente do Espinosa é uma parte separada da consciência. Então você vai encontrar no espírito humano uma força chamada inconsciente ou pensamento, que não é ignorante e não está governada pelos sentimentos.

Então, essa foi uma apresentação inicial (não é?) do que é o Espinosa, porque nós nos aproximamos cada vez mais de um mundo em que a grande revolução, a grande batalha, será do espírito. O Che Guevara do futuro é o próprio espírito! Ou seja: o esforço enorme da vida para abandonar os domínios da consciência.

Eu vou contar um caso para vocês e só vou contar esse caso para que as pessoas não fiquem confundindo que o homem – louro, de olhos azuis, adulto – do ocidente não é melhor do que ninguém. Isso é uma ilusão…

[virada fita]


Lado B

Antonin Artaud foi ao México procurar uma tribo chamada Tarahumara [Claudio soletra]. (Olhem que coisa que vocês vão ouvir!) Esses primitivos, chamados Tarahumaras, tinham uma prática, em seu cotidiano, de tomar uma beberagem chamada peyote. O peyote é uma droga psicodélica. Ela produz uma… alteração qualquer.

Aí Artaud se informou: – Por que vocês bebem peyote todos os dias? (E agora vem uma coisa para a gente ficar de joelhos!)

Os Tarahumaras responderam: – “é para impedir a dominação de ciguri”.

Aí Artaud perguntou: – “mas quem é ciguri?”

E eles responderam: – “a consciência”.

É Magnífico! A lição das mais brilhantes que eu já ouvi em toda a minha vida! Ela está nos dizendo que, em todos os instantes da nossa vida, nós corremos o risco de sermos tomados pela maldita – pela consciência! Quando ela nos domina, ela empurra desespero e angústia no nosso coração.

Então… eu vou contar para vocês um fato mais… mais erudito, porque não se trata mais de primitivos, mas de um escritor chamado Shakespeare. E, entre as obras dele, há uma chamada Ricardo III”.

Não sei se vocês conhecem o Ricardo III – ele é a pessoa mais deformada: é corcunda, tem pé chato, dedo virado, nariz bicudo, sei lá o quê… ele é horroroso! E, salvo equívoco, ele é o quinto na linhagem de herança do reinado da Santa Inglaterra (não é?). Mas, antes de se tornar rei, tem cinco antes dele. O que é que ele faz? Mata os cinco! Dentre os cinco tem criancinhas, mulheres, homens bonitos…, ele mata tudo! E toma o poder.

Há um momento, na obra, em que ele se encontra com uma princesa chamada Anne, que é mulher de um daqueles que ele matou, e esse encontro é sublime! Porque ela… no olhar dela… ela descobre que homem magnífico é Ricardo III.

O último quadro da obra é Ricardo III num campo com seus soldados. Eles vão lutar com os outros soldados que vieram vingar os cinco mortos.

A luta vai se dar de manhã. Ele dorme, tranquilamente, para acordar de manhã bem disposto. Mas de noite ele sonha; e quem aparece no sonho? Os cinco mortos, dizendo: “Assassino! Monstro! Crápula! Lesa majestade!”.

Aí ele acorda de manhã, bate as mãos aqui [mostrando a testa] e diz: “Perdes tempo, ó consciência: eu não acredito em você!”.

Ou seja: ele não acreditou em nenhuma das acusações que o sonho fez a ele, porque ele sabia que aquelas acusações vinham da consciência. E a consciência é um órgão constituído para um componente só – a angústia. Quando não está angustiada, a consciência está angustiada porque está infeliz, por não estar angustiada (Tá?).

Então, quando um homem não está angustiado… sai da frente porque ele se torna perigoso: ele precisa da angústia para viver… porque é a consciência que precisa da angústia. A obra de Espinosa é para produzir um homem que não precise da consciência. (Ponto para tomar um café.)

(Agora, esse momento de explicação desta passagem do campo teórico, vai ser um pouco difícil. Mas, talvez, seja a mais bonita…)

Espinosa vai fazer uma afirmação: a consciência funciona por julgamento, a consciência… os atos dela… são de julgamento: ela julga. E essa prática… (isso tudo é novo, viu? Não se esgota nisso!)

Julgar – o que é julgar? (Atenção! Se vocês não entenderem, me perguntem!) Julgar é afirmar ou negar. Por exemplo: “V. é bonita” – isso é um julgamento e uma afirmação. “V. não é bonita” – isso é um julgamento, uma negação e uma idiotia! [Risos….]. Então o julgamento… (marquem, para vocês saberem para o resto da vida!) Julgar é afirmar ou negar um predicado de um sujeito.

Então vamos lá, vou fazer um julgamento:

M. é dançarina” – isso é um julgamento. Dançarina é o predicado que eu afirmei do sujeito M. (Compreendeu, M.L.?) Então julgar é afirmar ou negar alguma coisa. E a consciência…

Aluno: é de novo obedecer…

Claudio: (É… vamos por aqui para você entender bem, tá?) A consciência julga, por exemplo, ela julga que V. é bonita. Mas ela não sabe que todo julgamento que ela faz… o fundamento do julgamento… é a tendência da natureza. A minha natureza tende para V., a minha consciência vai e diz: “V. é bonita”. A consciência é sempre secundária; primárias são as tendências.

É a tendência que nos leva para tudo o que nós fazemos. Mas tudo aquilo para o qual nós tendemos, a consciência julga como se fosse bom. E pensa que é o julgamento dela que nos conduz àquilo. Jamais! O que nos conduz às coisas é a tendência da natureza. A minha tendência, por exemplo, é V.. A minha consciência vai e diz: “V. é bonita”… e pensa que é ela que está determinando as minhas atividades… Mas ela não tem poder para isso! A consciência recolhe efeitos. A tendência é da tua natureza. A tua natureza tem tendência e a consciência julga! A consciência…

Aluno: [trecho inaudível]…e as emoções básicas?

Claudio: Como, emoções básicas… por exemplo…?

Aluno:…alegria, tristeza…

Claudio: Você não ouviu que o que eu disse, que o que você está chamando de emoções básicas… são os sentimentos que a consciência recolhe em função das composições e decomposições? Eu disse que a consciência tem sentimentos; e os sentimentos se originam nas composições e decomposições. Isso é que são as emoções básicas! Você sente alegria – quando você sente alegria… é porque o seu corpo se compôs com alguma coisa: aí você sente alegria. O que você está chamando de emoções básicas são efeitos de composição e decomposição… que aparecem na consciência em forma de sentimento.

Aluno: E as tendências estão aonde?

Claudio: As tendências são da natureza. A tendência é do inconsciente. A tendência é do inconsciente!

Aluno: É da natureza ou é…

Claudio: O inconsciente é a natureza! Eu não disse que o espírito tem um pontinho – a consciência; e um nó – chamado inconsciente? O inconsciente do espírito é a tendência!

Aluno: É ela que orienta a nossa vida?

Claudio: A tendência, claro!… É claro, mas o perigo que nós sofremos é essa presunção da consciência. Ela acha que é ela que faz tudo! Então Espinosa vai dizer um enunciado aqui… lindíssimo! Ele diz assim: “Nós não tendemos em direção a uma coisa porque a julgamos boa, mas ao contrário, nós julgamos que ela é boa porque nós tendemos para ela”.

Aluno: A tendência é igual ao inconsciente e o inconsciente é igual à natureza?

Claudio: É exatamente isso!

A tendência é a natureza. Então nós temos uma natureza! A nossa natureza é a nossa tendência. O que o homem não entende é que existem nele tendências que constroem o bom e o mau. A tendência é que constrói o bom e o mau. Não existe nada na natureza que seja bom ou que seja mau. Só é bom e só é mau aquilo que a tendência quer.

Aluno: A tendência é nossa?!

Claudio: É da natureza… do espírito!

Aluno: Do espírito, não da natureza!

Claudio: A natureza e o espírito… é a mesma coisa! Você não falou em animismo? Isso é animismo: a natureza e o espírito são a mesma coisa.

Aluno: Eu falei animismo da natureza… eu pensei que a pedra era natureza, o…

Claudio: Tudo tem tendência. A pedra, por exemplo, tem uma tendência. Qual é a tendência [da pedra]? Submeter-se à gravidade. Tudo tem tendência! Tudo que existe na natureza…

Aluno: E o inconsciente também é…

Claudio: É uma tendência, é a natureza.

Aluno: Só a consciência não é tendência?! É a única parte…

Claudio: Que não é natureza: é um efeito.

Aluno: Capta pelo sentimento.

Claudio: Capta pelo sentimento; pelo sentimento ela capta a natureza. Então, captando a natureza pelo sentimento… ela não entende nada!

Aluno: Ela poderia estreitar o campo das tendências?

Claudio: Estreitar como, diminuir?

Aluno: É… diminuir, comprimir…

Claudio: É, ela tenta fazer isso. O problema da consciência… Eu queria que, nessa aula, vocês mantivessem a compreensão da consciência em termos de ciguri. Lembram-se do ciguri que eu falei? Ciguri ou cigurí, que é o negócio do peyote… Mantenham por aí. A consciência é uma ameaça permanente à vida. Ela ameaça! Então, aqui que temos que partir da ideia espinosista de que nós temos uma natureza e essa natureza é uma tendência. Essa tendência vai fazer… com que seja bom tudo aquilo para o qual nós tendemos. A natureza… não existe o bem e o mal na natureza! A natureza só tem tendências. Então, tudo aquilo para o qual a sua natureza tende você considera bom. Não está entendendo bem, não, N.?

Aluno: Não, aí…

Claudio: A sua natureza… ela tende para alguma coisa. Por exemplo, a sua natureza tende para achar belo o cair da tarde.

Aluno:… Tende para a vida! Ela tende para a vida!

Claudio: Ah! A natureza é vida. Ela é uma tendência! O nosso ser é uma tendência! Então, o nosso equívoco é pensar que nós somos dirigidos pelos julgamentos da consciência… Jamais!! A consciência não tem esse poder! Porque ela julga em função da tendência. Ela diz assim “V. é bonita” porque eu tendo para V.. Jamais na natureza existiria alguma coisa em si mesma bonita ou feia. É a tendência que vai estabelecer isso.

Aluno: Pois é, essa tendência, o que é, hein?

Claudio: Essa tendência começou a aparecer como alguma coisa que seria a força que nos dirige, que dirige a vida. Então, por exemplo, se você tem determinadas tendências na sua vida, que é se compor com alguma coisa, você se compõe com alguma coisa e ao compor-se com aquela coisa você sente alegria, aquilo é tendência! Está difícil a noção de tendência?

[…vozes indistintas…]

A vida… (prestem atenção!) A vida… se você pergunta assim a um gênio: – Gênio, o que é a vida? Ele responde: – A vida são tendências, a vida se explica por tendências. Isso que é a vida!

Aluno: O que quer dizer tendência?

Claudio: Tender para alguma coisa… A vida, ela se dá… tendendo para alguma coisa. A vida não é um ser que se enclausura. Ela tende para. (Entenderam?) É como um elástico, ela tende! Ela cria…

Aluno: Mas todas as pessoas tendem cada uma para alguma coisa, não é isso?

Claudio: Não, de modo nenhum. Se você for por essa linha, você não vai entender! Nós temos que partir de uma ideia muito simples. Vida – definição: tender para. Isso é vida! A vida é isso, a vida é uma tendência. Então, você nunca vai encontrar um vivo que não tenha tendência. Ele tende. A natureza é tendência!

Agora, essa tendência avalia tudo o que está na frente dela. Porque tudo para o qual a sua tendência tende, é belo e bom. É belo e bom a tua tendência. Então, é aqui que começa a surgir o grande momento desse curso, não dessa aula, que é a diferença da natureza, que é tendência; e da consciência, que é julgamento. A consciência passa a existência dela julgando. E a vida passa a existência dela tendendo.

(Nós vamos fazer um esforço!)

Eu vou dizer que julgar é fazer uma prática chamada moral. O julgamento é sempre moral e a tendência (aqui é lindo, hein?) a tendência é sempre ética!

Então, a grande diferença entre ética e moral apareceria exatamente entre tendência e julgamento. A alma moral é uma alma governada pela consciência, dominada pela consciência; e ela julga tudo! Tudo o que cai nas malhas dela, ela julga. E o inconsciente (ou a natureza) não julga nada. Ela [a natureza] tende. Então, ética quer dizer: composição de corpos ou, numa linguagem bem explícita: modo de vida. Ética é modo de vida. Moral é julgamento da consciência. O Nietzsche é lindo! Ele entendeu Espinosa! E disse: “Diga-me como você vive e eu direi o que você pensa”. Ou seja: você não pode produzir determinados tipos de pensamento com determinados modos de vida.

Então, o modo de vida é a tendência. E a tendência é o plano ético da vida. A consciência… ela é julgamento, e o julgamento é moral. Então, nós temos que distinguir o que é moral e o que é ética. A moral é o produto da consciência. A moral é um produto da angústia, um produto do… da mutilação, a moral é um produto do sofrimento. E a ética é um produto das tendências. Então, o homem é ético quando ele avalia as suas composições e as suas decomposições. A ética é o modo de vida.

Aluno: O que é avaliar composições?

Claudio: Avaliar as composições e as decomposições. Por exemplo, é muito famoso, na história da filosofia, uma aposta que Pascal fez. Pascal apostou que Deus existia.

Pascal disse assim: “Eu aposto que Deus existe!”. E Espinosa acrescenta ao que Pascal falou: “Existem modos de vida que podem afirmar a existência de Deus… e outros não”.

(Prestem atenção ao que eu estou dizendo:)

É o modo de vida que constrói a tua vida. Tua vida é produto da tua tendência. É produto das tuas composições. Se você…

(Eu vou me dirigir um pouquinho para a M. porque ela vai entender uma pergunta que eu fiz a ela:) Se você fez determinadas composições na tua vida e de repente você desfaz aquelas composições e faz outras composições, cabe perguntar por quê. Entendeu? Por que; o que houve nessa composição; o que, nessa composição, estava te envenenando? Porque uma composição, quando ela aumenta a nossa potência, nós jogamos toda a força do nosso pensamento para que aquela composição não termine jamais.

Isso daí explica a música minimalista. A música minimalista do (não sei se vocês conhecem) Steve Reich, do Philip Glass, que fazem aquelas músicas da repetição. Repete-se, para não acabar nunca! Porque é a repetição das composições que aumenta a sua potência. (Entendeu o que eu disse?)

 

Então aqui aparece o momento superior da vida. Não é quando você julga, da maneira que a consciência faz. É quando você avalia… Atenção! Aí você entende bem: quando você avalia os seus encontros. Saber entender os encontros que aumentam a sua potência e os encontros que diminuem a sua potência. Todo encontro que é governado pela consciência diminui a nossa potência.

Aluno: Esse é o homem ético. Agora, o homem moral como é que ele age?

Claudio: O homem moral julga tudo! Tudo o que cai na mão dele…

Aluno: Ele julga a si mesmo?

Claudio: Ele julga a si próprio! Ele… se considera… Eu vou responder pelo Nietzsche:

Nietzsche diz que o homem da consciência se divide em dois. Se divide em: “A culpa é tua” e “A culpa é minha”. Que o homem da consciência começa a vida acusando os outros, dizendo (arremeda a voz):

“Eu sou feio porque papai e mamãe são feios”; “Eu sou pobre porque papai e mamãe são pobres”; “Eu sou burro porque o titio não me ensinou”; “Eu tenho esse pé feio porque o meu irmão pisou no meu pé”. Então, tem sempre um culpado para tudo o que lhe acontece. Vocês conhecem essa gente? Os chamados queixosos? Mas… tem um outro, que diz assim: “A culpa é minha!”.

Eu vou contar uma história para vocês… para vocês saberem quem inventou essa ideia de culpa é minha. Vocês conhecem o Eça de Queiroz?

Há uma personagem na obra de Eça de Queiroz chamado Raposão. Raposão era sobrinho de uma mulher podre de rica e o Raposão só pensava numa coisa: herdar aquela grana. Mas a tia dele era carola, carolona daquelas brabas. E ela tinha um altar dentro de casa. Depois do altar dela estava o quarto da empregada. E Raposão não aguentava mais de vontade de comer a empregada! [risos…]

Então, toda noite Raposão ia deslizando, ia deslizando… passava em frente ao altar da tia, entrava no quarto da empregada, trepava com ela e voltava… deslizando pelo chão. Mas o Raposão já ia nu, ele ia nu, deslizando, para chegar ao quarto da empregada. Um dia ele vai deslizando nu e a tia vê. Na hora que a tia vê ele começa a bater no peito: “Mea culpa, mea culpa, mea culpa” [risos…]

(Entenderam?)

Basta que você projete uma culpa para você mesmo, que a consciência te perdoa. Imediatamente ela te perdoa. Ah, você se sente culpado, então é bom. A consciência só sabe viver dessas duas maneiras: dizendo que os outros são culpados ou dizendo-se ela mesma culpada.

E agora aparece um momento magnífico! O momento do “a culpa é minha” – é o nascimento de Édipo.

O famoso Édipo da psicanálise aparece por volta do final do século XVIII, com o surgimento do homem dizendo “a culpa é minha”. Na hora em que o homem passa a dizer que a culpa é dele, sai da frente que o mundo virou um horror!

Não sei se vocês leram uma entrevista que fizeram com Anthony Quinn… Assustadora…! Ele está com oitenta e poucos anos, dizendo que ele se sente culpado de tudo! Assustador! O Anthony Quinn é governado pela consciência… e eu jamais suporia isso dele, depois que eu vi Zorba!

Aluno: Ele parecia o oposto disso!…

[Falas…]

Claudio: Inteiramente dominado pela consciência; inteiramente dominado!

Aluno: Se julga culpado e se vinga!

Claudio: Se sente culpado e se vinga o tempo todo: o culpado se vinga!

Bom, nós chegamos aos dois elementos principais:

Essa expressão mea culpa… – é muito importante se compreender isso. Porque surgiram dois conceitos [nessa aula], que eu não expliquei inteiramente: um, se chama julgamento – que é o exercício da consciência. A consciência julga o tempo inteiro; ela julga tudo!

Notem… (eu não posso dizer quem, hein?). Mas notem o olhar da consciência. [risos] Ela não para. Porque ela está julgando tudo. Está jogando a imundície dela em cima das coisas. Ela é imunda; imunda! E ela vai… apodrecendo tudo que passa!

Espinosa diz: “Tome cuidado… com os encontros que você faz!”.

E eu falo com uma seriedade muito grande:

A nossa vida se explica pelos encontros que nós fazemos. Se nós não soubermos compreender que um encontro é aumento ou diminuição de potência, isso pode nos levar à morte. Tá? Então, aqui nós vamos ter um confronto, lindíssimo, entre o julgamento e a tendência. A tendência é aquilo que leva um homem a fazer [por exemplo], “uma cidade em Teresópolis”. Ou seja, a tendência é o que faz com que um homem faça da vida dele coisas… tão difíceis de se compreender… como pintar girassóis!… [referência a Van Gogh]

Não sei se vocês entenderam a violência que isso é. Quer dizer, um homem recebe a vida, toma peyote e não deixa ciguri tomar conta dele (é lindo isso!) – tomar peyote para ciguri não tomar conta de mim! Ou seja: ele luta até o ultimo instante da vida dele – vou concluir por aqui – para conseguir a liberdade! Espinosa diz que nenhum homem jamais conseguirá atingir a liberdade – porque a liberdade não é uma coisa que se conquiste! A liberdade é um exercício permanente na sua vida; e esse exercício é contra a consciência.

Aluno: Você não ia falar do Édipo?

Claudio: O Édipo… (eu ia falar do Édipo?) Porque o Édipo é igual: a culpa é minha. O Édipo é a introjeção da culpa. É o seguinte: o homem, ele recebia uma punição na hora que ele praticava uma ação.

Por exemplo: eu dava um cascudo em alguém [Claudio diz o nome de um estudante de filosofia]. Aí a estrutura da filosofia [diz rindo]… “Seu canalha, você vai preso!”.

Quer dizer, o homem era julgado e castigado por suas ações!

Mas o Ocidente, a prática de poder do Ocidente, deu um golpe extraordinário (e, inclusive, produziu uma economia de “grana” – na verdade, a razão foi para economizar dinheiro!): inventaram o superego. O superego é um policial que está dentro de nós. Ele não julga as nossas ações; sabe o que ele julga? As nossas intenções! E como as nossas intenções são sempre… – vocês conhecem! -, nós somos o tempo inteiro… culpados. (Entenderam?)

O superego nos destrói: ele fica dentro da gente nos acusando de tudo! Então, nisso daí, Nietzsche foi o primeiro filósofo que viu isso. O que fizeram com a vida, disse Espinosa! Botaram o superego…

Aluno: O superego foi invenção do Freud?

Claudio: Não. O Freud não tem poder para inventar… O que a Psicanálise fez foi se tornar solidária com aquelas forças que produziram o superego. Essas forças que produziram o superego são forças históricas e sociais. Jamais a psicanálise teria poder para produzir o superego!

Aluno: O Freud que deu o sentido terapêutico?

Claudio: O Freud não, o Freud não deu o sentido terapêutico, não. Ele se associou a essas forças reacionárias que jogaram o superego para cima da gente… ele se associou para mantê-las.

[vozes… comentário inaudível]

Aluno: Coitado!

Claudio: Você tem pena dele?

[indignado!] Eu não tenho nenhuma, porque ele me fez muito mal com isso. Eu não tenho pena de nada que me fez mal. Eu não gosto de maus encontros…

Eu não tenho dúvida nenhuma, N., que na hora em você faz uma denúncia desse tipo que Espinosa está fazendo, o que aconteceu com Espinosa?! Deram uma facada nele; ele teve que fugir de Amsterdã; ele teve que não publicar os livros dele em vida! Que indignidade! Um gênio como Espinosa teve que esconder as obras dele…

Aluno: Por quê?

Claudio: Porque, se não, o matariam! [Vozes…] Por que o matariam? Não… [Vozes…)

Aluno: Por que essa reação contra ele?

Claudio: Porque ele está dizendo que a consciência é criminosa! Ele está acusando a consciência!

N., deixa eu explicar uma coisa que talvez vocês não saibam… O homem tem uma consciência. A consciência dele – foi o que acabei de explicar para vocês – ela julga. O homem inventou um Deus. E você sabe qual é o modelo de Deus? A consciência! O Deus cristão é a consciência! Ele se vinga, ele acusa, ele tem vontade, ele tem intelecto… Então foi exatamente [por] aí que o Espinosa foi perseguido! Porque se diz, ah, Espinosa não tinha um Deus? Ele tinha um Deus! Ele usava a seguinte expressão: “Deus sive natura” – Deus ou Natureza. Deus não pode ser uma pessoa, porque as pessoas são… a consciência.

Então, um filósofo que tem a coragem de dizer que essa constituição de um Deus-pessoa é contra a vida, é um homem maravilhoso! Ainda que ele esteja equivocado, ele é um homem maravilhoso! Porque todos os enunciados dele são a favor da vida.

Então, tudo aquilo que vem fortalecer a vida eu me abraço apaixonadamente e tudo que é contra, eu… denuncio. Não quero saber! Tudo que a humanidade pôde fazer de violência comigo, basta vocês olharem para o meu rosto! Então, pouco me importa o que o psicanalista vai achar ou não vai achar… Eu apenas afirmo, textualmente, que a existência da psicanálise não chega a 10 anos mais. Não aguenta mais. Os homens não suportam mais serem condenados a ser, até a morte, edipianos.

Aluno: Pois devia existir uma psicanálise que transformasse o homem de moral em ético!

Claudio: Por que não fizeram isso?

Aluno: Por ignorância?!

Claudio: Eles tiveram o século XX – ele e os marxistas – tiveram o século XX inteiro para resolver essas coisas. E o que eles fizeram? Stalin matou 50 milhões. Quantos Freud matou?

Aluno: Não sei quantos…

Claudio: E vai embora… Eles tiveram o século todo e não fizeram nada! Agora vou fazer o quê? Vou bater palmas para eles? Não! Acabou! Acabou o tempo deles. Agora vamos inventar outras coisas. Então, isso que é Espinosa!

E o Artaud, sofreu tudo aquilo por quê? Hein? O Artaud, o sofrimento de Artaud não tem nada a ver com isso não, viu? Essas ilusões que pensam que o Artaud foi sacrificado por psiquiatra é mentira. Nada disso!

O sofrimento do Artaud é muito parecido com o dos tarahumaras. Ele queria liberar o inconsciente do domínio da consciência. O Artaud é um mártir! O Artaud é um mártir! Então esse desejo de liberar a vida das forças da consciência é que produziram aquele grande sofrimento dele. Mas isso não esgota o Artaud, viu?

O Artaud é um homem que, na verdade, criou uma nova imagem do pensamento. Para explicar isso seria toda uma longuíssima aula… Ele é espinosista. Um espinosista!

Aluno: Qual linha do Espinosa?

Claudio: A linha de Espinosa é ateísta, materialista, liberdade, Deus igual a natureza…

Aluno: Tudo que é bom! Quais são os filósofos que vieram…?…

Claudio: Fundamentalmente são os pós-kantianos. São espinosistas. Alguns desses pós-kantianos, entre eles, por exemplo, Fichte foi notável. Entende? Porque, a obra de Espinosa, ela explodiu na Alemanha do século XIX. Então, no século XIX a Alemanha se torna maravilhosa, porque o pensamento de Espinosa começou a penetrar. Mas, [por outro lado], o pensamento de Kant começou a segurar. Porque o Kant, até um certo momento da obra (eu estou falando muito filosoficamente agora, viu?)… até o próprio Kant se julgava espinosista. Para você ter uma ideia, Hegel se julgava espinosista! Mas Hegel chega a doer, não é? É demais! Porque esses homens não conseguiram – e agora eu vou dizer a palavra final – é muito difícil se libertar da consciência: é muito difícil! Geralmente essa luta é uma luta em que… não se consegue uma vitória! A consciência é mesquinha demais! Porque ela é muito mesquinha, ela não para de aprisionar o que há de mais belo na vida. Ela não para de fazer esse aprisionamento.

Então, onde é que a gente vê essa beleza da vida passar? Onde você vê a beleza da vida passar? É sempre no mesmo lugar: nas artes! A beleza está sempre passando nas artes. Então, eu estou dizendo para vocês que a beleza é como um pássaro de voo, sem planejamento. Se você puder seguir com seus olhos o voo desse pássaro, duas coisas vão acontecer: a primeira é que você vai ficar zarolho, porque o pássaro não tem um planejamento. Ele é como a vida, ele não tem planejamento, ele tem tendências. Mas é a beleza, a saída da vida. A vida sai do seu engasgamento pela beleza.

Eu acho que eu vou mostrar isso para vocês na inauguração que estou fazendo do curso de Espinosa. Porque… Tudo porque eu vi a necessidade de dar Espinosa para vocês. O que vocês vão fazer com ele, não é minha questão? O Deleuze tem uma frase lindíssima – Deleuze é meu Espinosa, não é? Deleuze é tudo, é… nos cursos de Deleuze na França apareciam muitos músicos. E dificilmente um músico vai entender um conceito filosófico. E se eu fosse dar um Espinosa filosófico para vocês, apareceriam aqueles conceitos muito violentos – substância, modo, atributos, essência, existência… E Deleuze é um filosofo, ele é radical, ele não quer saber quem está ouvindo. Ele dá a filosofia dele. E esses músicos que iam assistir a aula do Deleuze, assistir Deleuze falando em Espinosa, eles não conseguiam entender aqueles conceitos espinosistas. Mas quando saiam da aula, faziam músicas espinosistas! Isso é muito curioso.

O que eu estou dizendo… é mais ou menos… é o maior espinosista da história! Chama-se David Herbert Lawrence – D.H. Lawrence – altamente espinosista! Toda a questão desses pensadores é uma exaltação da vida. Exaltar a vida!… Vocês notem que a vida… Há um texto… eu vou ler, está aqui:

Chama-se Yves Bonnefoy. Ele diz assim: “Eu dedico esse livro ao improvável – isto é, à vida”.

A vida, ela é inteiramente improvável. Porque ela é frágil. É frágil e constituída por tendências. Então ela… ela entra na matéria, a matéria pesada, quebradiça, e a vida vai-se bifurcando. Isso que é a vida! E nós, somos produtos dela. Para sermos os guardiões dela, da vida. Ser o guardião da vida! O homem começou a aprender que ele tem que se esquecer do Estado e da Igreja e se ajoelhar para a única coisa bela que existe, que é a vida. Qualquer um sabe disso! Basta liberar suas tendências, que descobre que a vida… é de uma beleza!… Olhem!… Todo aquele que sentiu uma brisa tocar no seu cabelo… tem direito à eternidade. E quem nos dá isso é a vida. É o encanto da vida que deslumbra um pensador maravilhoso!

Então, por isso eu respondi em termos da psicanálise com essa radicalidade, entende? Porque a psicanálise, nesse século, a única coisa que ela apresentou foi Édipo e castração, eu não conheço nada mais: Édipo e castração! Édipo e castração! Édipo e castração! Eu não aguento mais! Porque eu trabalhei com isso muitos anos!… Até que cheguei a um ponto que não suportava mais. Era Édipo de um lado, castração de outro, luta de classes de outro, ato falho de outro… Eu já não aguentava mais! Eram aquele jargões te machucando o tempo todo… E você sabe que a gente, quando é tomado pelo espírito, pela aventura do espírito, bate mesmo, bate forte! Aquilo bateu forte na minha vida! Eu queria fazer um caminho bonito para a minha vida. E o marxismo e a psicanálise me seguravam…

Eu não estou acusando Marx! E de alguma maneira também não estou acusando Freud! Eles tentaram alguma coisa… Mas depois, Freud fez um recuo – um recuo muito grande! -, ele não aguentou tudo aquilo que ele disse, porque a gente não aguenta… É uma… é uma prática muito difícil para o homem… ser ateu. Porque a noção de ateísmo, e isso vai aparecer na nossa aula, viu?

O ateísmo do século XX – eu queria que vocês anotassem isso! – o ateísmo do século XX é um ateísmo vulgar. Jamais o ateísmo de Espinosa é isso. Não tem nada a ver com esse ateísmo banal que vocês encontram aí na rua, não tem nada a ver com isso, esse ateísmo do morreu e acabou. Jamais! O ateísmo de Espinosa… o ateísmo de Nietzsche é excepcional! Eles produzem temas, que eu não vou dizer em final de aula porque a violência é muito grande.

Provavelmente – provavelmente! – cada um de nós é eterno, ainda que sejamos ateus!

Eu vou dizer uma coisa para vocês. Se, por acaso, a natureza for um processo de repetição e… esta cena que está se dando aqui já aconteceu infinitas vezes e vai acontecer infinitas vezes. Ou seja, que a nossa vida se repete infinitas vezes. O que nós teremos que fazer; sempre? Aquilo que for mais belo! Porque nós vamos [nos] repetir eternamente! Vejam se entenderam. Se você aplica em você a ideia de que sua vida vai se repetir, significa que tudo que você fizer vai se repetir infinitamente. Então, você procura fazer aquilo que for mais belo! Isso é uma ética do Nietzsche. Desde que você entenda que a sua vida pode se repetir pela eternidade afora…

Aula de 05/04/1989 – Acontecimento e campo de poder

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


1ª Parte

LADO A

[…] se não houver o completo entendimento eu terei dificuldade de montar outras teorias no decorrer da aula.

Primeira questão: O que é exatamente o conceito? Em primeiro lugar: o fato da existência do conceito. Por que existe, na linguagem, esta prática chamada conceito? Por uma razão muito simples, diz o Aristóteles. Segundo ele, nós os sujeitos humanos, somos dotados de uma [dupla] semiótica. Semiótica é teoria dos signos. Dupla [semiótica], [porque] nós somos capazes de falar e de escrever. Mas quando nós falamos e quando nós escrevemos, diz ele, nós falamos e escrevemos sobre o mundo. Então, segundo ele, o objeto da escrita e o objeto da fala é o mundo. (Está bem claro?) Isso se chama prática denotativa. Fazer com que a linguagem diga alguma coisa do mundo à nossa frente…. mas existindo uma diferença entre a linguagem e o mundo. É que o mundo é infinito.

O que quer dizer mundo infinito? Por exemplo, o Bento que está na minha frente, pode fazer os mais indefinidos movimentos. Cada um de nós pode fazer indefinidos movimentos. Mas a linguagem é finita, não pode representar nela os movimentos indefinidos do mundo. Por causa disso, a linguagem inventa o nome geral. O nome geral é uma maneira da linguagem dar conta do mundo, porque ela não pode inventar nome para todos os acontecimentos do mundo, pois nossa memória não resistiria. Por exemplo, se eu quisesse dar nome a tudo o que acontece, eu diria assim: Bento passando a mão na barba, e me olhando nesta penumbra da noite de segunda feira. Não! É melhor eu dizer “Bento”. Então, a linguagem inventa o nome geral porque ela é finita diante de um mundo infinito. (Acho que ficou bem claro!)

O que é o nome geral? O nome geral é alguma coisa inventada pela linguagem, mas no real não existe nada que seja geral. No real só existem os indivíduos. O geral é da linguagem. Por exemplo, no real tem “esta mesa”, na linguagem tem “a mesa”. A mesa é um nome geral da linguagem. A linguagem produz [o nome geral] porque ela é finita, e não poderia dar um nome a cada mesa, por isso ela produz o nome geral. (Entenderam?) Então, o nome geral é um artifício da linguagem, devido à sua finitude. A linguagem é finita e inventa os nomes gerais – agora, o real é in-di-vi-du-al. (Entenderam?)

Quando eu faço experiências no mundo vivo, essas experiências são sempre individuais – eu experimento no mundo os indivíduos. Mas a linguagem vem recobrir esse campo da experiência com os nomes gerais. [E aí] aparece uma defasagem entre a linguagem e o real. (Como é que foi, todo mundo entendeu essa diferença?) A linguagem é o instrumento da razão. O que mostra que entre a razão e a experimentação há uma diferenciação. Porque o mundo real – o campo das experiências – é individual, sempre individual! Mas a linguagem gera os conceitos – que são os nomes gerais. (Está bem claro?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. A linguagem não é toda geral, ela gera os nomes gerais, mas [há] também nela nomes como o nome próprio – que é um nome individual. O que eu estou dizendo é que a linguagem gera os nomes gerais porque ela não pode representar todos os movimentos do indivíduo nela – pois nossa memória não suportaria. E ela, então, os substitui. Se a linguagem não tivesse o nome geral, “esta mesa”, por exemplo, teria um nome próprio! “Este cigarro” daqui teria o quê? Nome próprio! Como é que eu chamo este cigarro? O Cigarro! Eu dou, para ele, um nome geral. (Entendeu?) E isso é um artifício da linguagem, porque ela é finita. Ela inventa os nomes gerais para recobrir o mundo e, através disso, resolver o problema da comunicação. Ela resolve o problema da comunicação, utilizando os nomes gerais!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sem o nomes gerais? Não, não. O que eu estou colocando são dois tipos de linguagem – a escrita e a falada. E tanto a escrita quanto a falada trabalham com nomes gerais. Todas as duas! Nós não falamos “A mesa”; “A cadeira”,”O vento”? Veja bem: nas minhas experiências de mundo eu algum dia experimento “A” cadeira? Não! Eu experimento “esta” cadeira. Eu nunca experimentei “A” cadeira. Eu experimento esta cadeira. O nome geral é um artifício da linguagem.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Isto seria singularizar? Repõe, E...! Sim, mas nós não temos possibilidades mnemônicas de fazer isso. Veja bem: se eu quiser falar sobre “o vento” somente com nomes singulares, eu tenho que fazer uma descrição do tipo que eu fiz do Bento. A linguagem vai e utiliza o nome geral para recobrir o problema da memória. Ela resolve isso.

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que está sendo dito, é que isso é a essência da linguagem. A linguagem – escrita e falada – geraria o nome geral porque ela, a linguagem, é finita, e o mundo é infinito. (Entendeu?)

Por que apareceria a linguagem geral? Por causa da finitude da linguagem. Só isso! Ela é finita – é muito simples! Por exemplo: eu não falo “o vento”? O que é “o vento”? O que quer dizer essa palavra? Quando eu falo “o vento” – sobre que vento eu estou falando? Eu estou falando de todos os ventos, de todos os ventos. Mas, eu experimento todos os ventos na minha experiência? Não! Eu experimento um vento singular. É que a linguagem gera o nome geral – ainda que no real não exista o geral. No real só existem os indivíduos.

Aluno: [inaudível]

Claudio: […] Segundo o que o Aristóteles está dizendo, é da essência da linguagem, pouco importa a época em que ela for falada. Pouco importa! Em qualquer época da história a linguagem geraria o nome geral. Geraria o nome geral, quer dizer: permitiria a um homem dizer para o outro: – Ah! O camelo é um animal feio. Quando ele diz: “O camelo é um animal feio” – de que camelo ele está falando? Ele está falando sobre a generalidade do camelo. Mas o campo experimental não me revela nenhum ” O camelo”. No campo experimental só existe ” este camelo”. [Aluno: inaudível] A linguagem produziria o genérico – ainda que as experiências sejam individuais. Há uma espécie de defasagem entre a linguagem e o mundo. [Aluno: inaudível] Há uma impossibilidade de você se comunicar descrevendo os indivíduos em seus estados atuais. É impossível para nós. Você teria que dar nome próprio a tudo. Qual seria o nome disso daqui [Claudio mostra um objeto qualquer] – se não houvesse nome geral? O nome disso seria, por exemplo, “Pedro Antônio”!?… Esta mesa teria um nome próprio… Tudo teria um nome próprio!

O nome geral recobre o real – ainda que o real não tenha generalidade. […] fica muito claro!… (Entendeu?) Não há o geral. No real só tem o individual. (Já entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha…, não. Por exemplo: a literatura – ela tenta descrever experiências singulares. Por isso, quando ela [faz uma descrição,] ela evita o nome geral. Para descrever experiências singulares, não [se] pode trabalhar com o nome geral. Tem-se que usar outro tipo de linguagem. Mas o nome geral é uma maneira que [se] tem de classificar os indivíduos do real. Querem ver?

Esta sala se divide em mesa, homens e cadeiras. Três nomes gerais. Eu dividi a sala. Classifiquei. Isso é uma prática classificatória. Você recorta o real – que é constituído de indivíduos – com o nome geral. (Eu já não tenho mais nem o que dizer aí. Eu acho que está tão claro… Como é que foi?)

O nome geral chama-se conceito. O que é um conceito? É um nome geral. Pronto! (Entenderam?) O que é “O homem”, por exemplo? Um nome geral – logo, um conceito.

Existe algum “O homem” no real? – O que é que você acha, Bento?

No real existe “este” homem. Mas “O” homem – se vocês encontrarem O homem por aí, tragam para mim, pois quero conhecer esse bicho!! Então, o nome geral é da linguagem – mas não é do… real. (Certo?)

Além disso, a linguagem produz o que se chama proposição. O que é uma proposição? É o momento em que, na linguagem, dá-se um predicado a um sujeito. Por exemplo: A mesa é bonita. O que é “A mesa é bonita”? É uma… proposição. Proposição é quando você dá ao sujeito um predicado. O homem é bonito. A rosa é vermelha. R… é cineasta – são proposições. (Tá certo?)

Então, o que é uma proposição? Uma proposição tem sujeito, verbo ser na terceira pessoa do singular, e um atributo ou predicado. (Está certo?) O atributo da proposição é o conceito. Portanto: o atributo da proposição é o nome geral. (não sei se entenderam…) O atributo da proposição é o nome geral. Bento é homem. Homem é o quê? Homem – não é um nome geral? Mas, na proposição, o nome geral tornou-se atributo. Então, na proposição, o nome geral ou conceito vira atributo. (Entenderam?)

Quando eu digo o homem, a produção do conceito não é verdadeira, nem falsa: é apenas um conceito – O homem, A vaca, O cachorro. Mas, quando o conceito vai para a proposição e se transforma num atributo, – toda a proposição é verdadeira ou falsa. Eu digo: Bento é bonito. Bento é feio. Uma dessas duas proposições é verdadeira e a outra é falsa. Ou seja: a prática do nome geral – no momento em que ele se torna um atributo – é uma prática do verdadeiro e do falso. Quando é que nós estamos no verdadeiro e no falso? Quando nós afirmamos ou negamos um atributo de um sujeito. Negar ou afirmar um atributo de um sujeito é uma prática do… verdadeiro e do falso. (Acabou!)

Então, se eu quero fazer ciência. A ciência é o universo do discurso onde está o verdadeiro e o falso. Fazer ciência é produzir proposições. (Eu acho que deu, não é?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas [nesse caso] o sujeito também é geral, não é? Então, quando você for fazer uma proposição, você procura colocar como sujeito aquilo que não pode ser atributo. O indivíduo é a única coisa que não pode em momento nenhum ser atributo. O indivíduo só pode ser sujeito da proposição – em momento nenhum ele, [o indivíduo] pode ser atributo. Por exemplo: “Bento é bonito”. Mas eu não posso dizer “Chico é Bento”. Eu não posso dizer “Bento é Chico”. Porque o indivíduo é sempre sujeito… nunca atributo. O que são os atributos? Os atributos são os nomes gerais. (Não sei se isso passou… está muito difícil? Fala….)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O atributo é o predicado: o nome geral. Por exemplo: Bento é o quê? Bento é um indivíduo. Logo, Bento só pode ser sujeito da proposição. Não pode ser atributo. Os atributos são os nomes gerais. (Eu acho que está tão claro: não tem como não entender. Posso continuar… ou tá muito difícil? Não está, não é? – Eu agora estou em dúvida!)

Qual é a função da proposição? Afirmar ou negar um atributo de um sujeito. A função da proposição é a produção do verdadeiro e do falso. Quando eu digo assim – Me dá um café! Isso é verdadeiro ou falso? (Aluno: Verdadeiro.) Não! Verdadeira ou falsa é só a proposição. Só há verdadeiro ou falso na hora em que você afirma ou nega um atributo de um sujeito. Só isso. (Entenderam?)

Então: nós, os sujeitos humanos, somos dotados da capacidade de produzir significações através da linguagem. A função da linguagem é produzir significações. Mas a única coisa, na linguagem, que produz o verdadeiro e o falso é a proposição. Então, a linguagem é mais ampla que a proposição, porque a linguagem é o campo da significação; mas a proposição é o campo do verdadeiro e do falso. (Eu acho que foi bem!..)

Quando eu quiser fazer ciência, o que é que eu tenho que fazer? Produzir significação pura e simples ou produzir o verdadeiro e o falso? Então, o campo da ciência é o campo proposicional. (Eu acho que já está claro. Alguma questão? Posso considerar entendido? Posso, não é?)

O atributo é o nome geral? Quando você atribui um nome a um sujeito – esse atributo pode ser essencial ou acidental. (Prestem atenção: porque a aula que eu estou dando para vocês ela não visa a isso aqui – visa a outra coisa. Mas se não entender essa, não vai entender a outra, certo?)

Que tipos de atributo eu posso produzir? Atributos essenciais e acidentais. Quando aparece o atributo essencial – que é um nome geral – ele é a essência do sujeito. Bento é homem. Homem é o quê? Homem é um atributo essencial; é um nome geral; mas também é a essência de Bento. (Certo?)

Então, no nível dos atributos, aparece o atributo essencial e o atributo acidental. Bento é branco. Branco é o quê? Atributo acidental. Homem é o quê? Atributo essencial. (Entenderam?) Nós teríamos duas práticas atributivas: o atributo essencial e o atributo acidental – como prática proposicional. Por exemplo, eu digo: Bento está sentado. Que atributo é esse? Acidental! (Entenderam?) Bento é um animal racional. Que atributo é esse? Essencial!

Enão nós teríamos dois atributos: o essencial e o acidental. Muito bem. Por essa tese, o atributo é ou a essência ou o acidente do sujeito. (Viu?) Ele é ou a essência ou o atributo do sujeito. (Corta, Corta! Agora vamos para outra coisa. Está entendido, não é?)

Os estoicos querem fazer ciência. Logo, eles querem fazer, o quê? Proposições. (Certo?) E uma proposição tem sujeito e… atributo Toda proposição tem sujeito e atributo. Então, os estoicos querem fazer ciência – logo, querem fazer proposições; logo, querem criar atributos; logo, querem criar discursos que têm sujeito e atributo. Mas os estoicos não vão concordar em usar o verbo ser. Eles não vão usar o verbo ser.

A primeira tese usa o verbo ser? [Alunos: sim!]

Os estoicos não vão usar o verbo ser – e em vez de colocar como atributo substantivos e adjetivos… Homem é o quê? [Alunos: Substantivo!] Branco é o quê? Sustantivo! Bonito é o quê? Adjetivo! – Os estoicos não vão colocar nem o sustantivo nem o adjetivo como atributo. Como atributo, [os estoicos] vão colocar o verbo no infinitivo ou no gerúndio. Por exemplo, eu digo assim: Esta mesa é azul. Quem é o sujeito? Esta mesa! Quem é o atributo? Azul! – Acidental ou essencial? Acidental! O estoico não dirá isso. O estoico dirá – Esta mesa azulando. Por quê? Porque o atributo dos estoicos não é dito nem pelo substantivo nem pelo adjetivo – é dito pelo verbo no gerúndio. (Não sei se ficou bom…) O que os estoicos estão fazendo? Eles estão rompendo com o atributo essencial; rompendo com o atributo acidental – e estão colocando, como atributo, o acontecimento.

Quantos atributos nós temos? Essencial, acidental e... acontecimento.

O acontecimento é o campo atributivo dos estoicos. A diferença da proposição estoica para a proposição aristotélica é que o atributo de Aristóteles é essencial ou acidental. O atributo dos estoicos é o acontecimento. O acontecimento é o verbo no gerúndio [ou no infinitivo]. O que os estoicos estão fazendo? Uma nova teoria. Nós conhecíamos a teoria das essências e dos acidentes de Aristóteles. Com os estoicos nasce a teoria do acontecimento. Essa é a parte mais difícil:

Uma proposição estoica… Esta árvore é verde – é uma proposição estoica? Não! Como diria o estoico? Esta árvore… verdejando. Ele não diria o campo dos atributos com os substantivos e adjetivos. O campo dos atributos deles é feito com o verbo [na forma] gerundial [ou no infinitivo]. Entenderam?

Agora uma frase negativa: os estoicos fazem proposições sem usar o verbo ser. Eles não utilizam o verbo ser. (Entenderam?) Então, no mundo estoico, não há atributos essenciais; não há atributos acidentais? O atributo estoico é um… acontecimento. (Bom, entenderam?)

Mas, se [há uma modificação do campo atributivo], [já] o campo do sujeito é o mesmo. É o mesmo sujeito. [Tanto] o sujeito do Aristóteles [quanto] o sujeito dos estoicos é o indivíduo. (Vejam se entenderam…)

Então: Esta mesa é verde – é uma prática atributiva da proposição aristotélica. Esta mesa verdejando é uma prática proposicional estoica. (Entenderam?) Mas houve a manutenção de alguma coisa, o quê? O campo do sujeito. (Certo?)

E agora: como é que nós sabemos a essência do sujeito no Aristóteles? Como é que eu vou conhecer a essência do sujeito no Aristóteles? Pelo atributo essencial! Nos estoicos, a essência do sujeito não está no atributo – está no próprio sujeito. A essência não é o atributo, é o próprio sujeito. [Ou seja:] há um deslocamento do campo essencial. Enquanto no campo essencial do Aristóteles o atributo é a essência. Nos estoicos, a essência é o sujeito. (Não sei se está bom aqui, não?)

Em “Bento é homem” – qual a essência? A essência é homem! Logo, a essência é o atributo. Os estoicos não vão trabalhar o campo das essências com os atributos. A essência para eles é o próprio sujeito. (Eu ainda vou explicar!) A essência é o sujeito. Não é o atributo.

Aluno: [inaudível].

Claudio: Sujeito e essência é a mesma coisa. Por quê? Porque para os estoicos a essência é o corpo. A essência é o corpo.

[Se] para o Aristóteles a essência é o atributo lógico – para os estoicos a essência é o corpo. Então: [para os estoicos,] cada corpo no mundo traz com ele a sua essência. (Certo?) [Na primeira teoria,] em Claudio é homem, a essência é homem. [Na segunda teoria,] em Claudio verdeja, por exemplo, a essência é Claudio. A essência para eles é o próprio corpo; não é um atributo lógico – é o próprio corpo. A essência de um ser é o corpo daquele ser. (Entenderam?)

Aluno: Eu não poderia falar Claudio é Claudio?

Claudio: Se você quiser falar Claudio é Claudio... você estará repetindo no predicado a essência sujeito. Não precisa falar isso! O que você tem aqui é um deslocamento do campo essencial. Enquanto a essência no Aristóteles é um atributo, nos estoicos a essência é o próprio corpo. (Vejam se vocês entenderam aqui, para eu continuar.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Você pode falar os acontecimentos! O que você fala do corpo são os acontecimentos que ocorrem a ele. Agora…

(Fim de fita)


LADO B

[…] O corpo é uma potência. A potência do corpo é de produzir acontecimentos. Então, é o próprio corpo que produz os seus atributos. (Não sei se foi bem!) O próprio corpo gera os seus atributos – mas os atributos não são essenciais nem são acidentais; são acontecimentos. (Tá?) Onde está a essência? No próprio corpo. Então, essência e corpo para os estoicos é a mesma coisa. Essência, potência e corpo são a mesma coisa.

Aluno: [inaudível] singular…

Claudio: Não! É melhor esperar um pouquinho, Chico, para não complicar aí. Não complica com isso aqui, não. Se você introduzir o singular agora, você vai se perder!

É melhor vocês entenderem, agora: este copo tem essência? Qual é a essência deste copo? (É fácil!) A essência deste copo é a potência dele. É isso que é a essência de um corpo – a essência de um corpo é a potência [daquele] corpo. Para que serve essa potência? Para expandir esse corpo. A essência de um corpo é a expansão do corpo. Como é que um corpo se expande? Encontrando-se com outros corpos – a expansão de um corpo é o encontro que esse corpo faz com outro corpo. Então, a essência de um corpo é do corpo – mas a função daquela essência é se encontrar com outros corpos. (não sei se vocês entenderam?!)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Poderia, mas aqui é muito melhor você pensar que a essência de um corpo é a potência daquele corpo. É a potência dele. Qual é a potência de um corpo? Expansão. Pronto! (É a coisa mais fácil do mundo!) Um corpo tem uma essência? Tem! Para que serve a essência dele? Para expandir aquele corpo – só isso, mais nada!

Nós, aqui, passamos de uma essência lógica – que a essência aristotélica é uma essência lógica aquisitiva; para uma essência física e real – que a essência dos estoicos é a potência de um corpo. Meu corpo tem essência? Tem, [mas sua essência] não é um atributo – é do próprio corpo.

Aluno: Eu não entendi por que um corpo precisa se encontrar com outros corpos…

Claudio: Aí, eu agora vou explicar. O acontecimento é alguma coisa que vai ser produzida pelos corpos, e os corpos só produzem acontecimentos na hora em que eles se encontram. Só existe acontecimento, se houver encontro de corpos. Vejamos um exemplo barato – Bento respirando. O Bento não está respirando? Por que [o Bento está respirando]? Porque houve um encontro do corpo do Bento com o corpo do ar. O acontecimento é um efeito dos encontros dos corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: É o encontro da mesa com o corpo do azul…

Aluno: Se eu disser, por exemplo, a planta está florescendo.

Claudio: É o encontro do corpo da planta pelo menos com o corpo da terra. (Tá?)  Não pode haver acontecimento nenhum se os corpos não se encontrarem. O acontecimento é o produto do encontro dos corpos. Porque você não vai encontrar sequer um corpo que não esteja num encontro com outro. É impossível encontrar-se um corpo que não esteja em combinação com outro corpo. É aí, então, que emerge o acontecimento. O acontecimento é um atributo gerado pela potência dos corpos. (Está difícil isso?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, o que os estoicos estão dizendo, é que tudo o que existe no real – tudo o que existe – é corpo. Então, os corpos não param de se encontrar. Você quer ver que exemplo interessante? Por essa tese dos estoicos, tudo o que existe é corpo? Sim! A multinacional é um corpo? Qual é o corpo da multinacional? Potência. Potência de quê? [inaudível]. Então, o que é que a multinacional tem que fazer para se expandir? [Ela tem que fazer] encontros – para se expandir. Todos os corpos se expandem através dos encontros. Através dos encontros!

Aluno: [inaudível] O encontro é do corpo e aparece o incorporal?

Claudio: Aparece o acontecimento. O acontecimento é incorporal. O acontecimento não -é um corpo. É o efeito dos encontros dos corpos. O que existe no real são os corpos com suas potências. E esses corpos – quando se encontram – produzem o acontecimento. O acontecimento é uma coisa gerada pelos corpos. Se não houvesse corpos, não haveria acontecimento. Quem produz o acontecimento? O corpo!

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma relação afetiva dos corpos produzindo o acontecimento. (Eu já não tenho mais o que dizer, aí. Eu já disse tudo!) É a coisa mais fácil do mundo – por exemplo: Romeu e Julieta namorando. Namorando é o quê? É o acontecimento daqueles corpos que estão alí. Os corpos vão gerando os acontecimentos. O acontecimento não é o corpo – é um atributo do corpo. (Mas eu acho que não foi bem… – Para alguns eu sei que foi, para outros… está meio difícil! Mas é a coisa mais fácil – eu não sei como é que vocês conseguem não entender isso.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Porque quando um corpo se encontra com outro – necessariamente – ele produz um acontecimento! O acontecimento vai aparecer. Em qualquer situação que um corpo se encontrar com outro – ele aparece!… (E enquanto vocês não entenderem isso, eu não posso ir para a frente. Não posso. É impossível!)

Vamos tentar outro caminho…

Aluno: O lago esvaziando – qual é o encontro aí?

Claudio: É do lago com o corpo da terra. A água e o corpo da terra estão se encontrando. Porque é a coisa mais simples do mundo: pensar a ideia de corpo e não pensá-la sem que um outro corpo esteja em contato com ele, encontrando com ele.

Vamos fazer uma coisa – e aí vai ficar mais fácil para vocês. Vamos pensar o corpo vivo. O corpo vivo. Tenta fazer o pensamento do corpo vivo, sem ele se encontrar com outro corpo – é impossível! Porque o corpo vivo tem que se encontrar pelo menos, com quem? Com o corpo do ar! Como é que uma célula, uma bactéria, seja lá o que for, vai poder existir sem se encontrar com outro corpo? Necessariamente encontra outros corpos. Um homem pode ser pensado sem um outro corpo? Ele não tem que entrar em contato com outro corpo? Quando ele entra em contato com outro corpo, o que que aparece? O acontecimento! O acontecimento é a relação de duas potências corporais. [inaudível] Imediato!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Nããooo! A essência do corpo é a potência. O acontecimento não é a essência do corpo. É apenas o resultado dos encontros de corpos. Por exemplo:

Eu – sou um corpo? Eu pego um avião. O avião é um corpo? Na hora que eu pego um avião e o avião levanta vôo, que acontecimento aparece? O passageiro! Passageiro é um acontecimento. Basta eu descer daquele avião e me dirigir para o bar, que eu perco – que acontecimento? O acontecimento passageiro! Eu perco [esse acontecimento] – mas eu continuo a ser um corpo! O corpo é aquilo que se encontra com outro corpo e produz o acontecimento.

Aluno: O dente dói.

Claudio: O que tem que acontecer para alguma coisa doer em alguém? Vê lá o que tem que acontecer. Descreve o que tem que acontecer! Ele tem que encontrar outro corpo, para produzir o acontecimento – não escapa! O corpo está necessariamente em contato com outros corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Algum corpo que encontrou com o seu corpo e produziu a sua morte. Mas morrendo – isso é um acontecimento. Mas, para isso acontecer, é necessário que outro corpo tenha entrado em contato com o seu. Qualquer acontecimento – necessariamente – implica a potência dos corpos. É impossível você pensar a unidade isolada de um corpo. Sobretudo porque – vou dar por mais ou menos entendido – um corpo – qualquer corpo – é constituído por uma multiplicidade de corpos. Não há sequer um corpo que nao seja constiuído por uma multiplicidade de corpos. O meu corpo é constituído por quê? Qualquer biólogo dirá que o meu corpo é constituído de várias células.

Qualquer corpo é constituído de uma multiplicidade de corpos. Você pode descer ao menor dos corpos – e o menor dos corpos é constituído por uma multilpicidade de corpos. Retirando da natureza a ideia de simplestudo o que está na natureza é complexo. Tudo é uma complexidade. Tudo é uma multiplicidade. Não existe o simples – só existe o múltiplo. Qualquer corpo que você encontrar é uma multiplicidade. Qualquer físico atômico sabe disso – encontrou um corpo, o que é que ele pode fazer naquele corpo? Dividir! Por que é que ele pode dividir? Porque aquele corpo é constituido por vários corpos. Não há uma unidade corporal. Todos os corpos são múltiplos. Isto é que é a teoria da multiplicidade. Todos os corpos são uma multiplicidade de corpos. (Certo?)

Então, qual é a minha essência? Múltiplas potências! A essência de cada corpo é uma multiplicidade de potências. (Já deu para entender? Se não entendeu eu não sei mais nem o que eu faço… porque é facílimo!) Em vez de você pensar que um corpo é uno, o corpo é múltiplo. É o que há de mais simples no mudo! Qualquer um sabe disso! Qualquer criança na rua sabe disso; que o corpo é uma multiplicidade… que de repende uma determinada potência do corpo puxa para cá, outra potência puxa para lá – há conflito de potências. (Entenderam?) Muitas vezes nós pensamos que tomamos uma atitude por que nós somos aquilo. Não, são as potências de nosso corpo que se confrontam e conduzem a nossa vida.

Eu vou contar um caso incrível para vocês: um cara está passeando com Nastassja Kinski na praia de Copacabana, e ela está toda apaixonada por ele. Ai passa um negão e ele sai atrás do negão. O que o levou a fazer isso? As potências do corpo, as potências da natureza, as potências da vida que conduzem para lá, que puxam para cá, levam para lá. São as tendências da vida – [são elas] que formam as nossas vidas. São as forças, as potências que nos conduzem. Não houve, agora, o caso de um cara que matou e estuprou uma criança? Pela vontade dele ele mataria? Nunca! Pela vontade, não! Foram as forças que o conduziram. Forças potentíssimas, que o conduziram a fazer aquilo. Outras forças não puderam passar alí e conter aquelas.

É a coisa mais fácil [de se entender]: muitas vezes nós não fazermos coisas que nós não queremos fazer? A nossa vontade não passa alí – mas as forças – que são as potências do corpo, muito mais poderosas que a nossa vontade – nos levam. Na verdade, nem é isso. A nossa vontade está sempre a serviço da potência que vence. Vejam se entenderam. A nossa vontade está sempre a serviço das potências que vencem. Essas potências se confrontam no corpo. A potência vitoriosa… […]

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Isso quebra a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio; nós executamos as nossas vidas segundo as potências que nós temos. Se é aquela potência que está passando, é aquela potência que a vontade vai seguir.

É a coisa mais fácil do mundo! O que dificulta, sabe o que é? É o modelo clássico que nós temos do livre arbítrio. Isso é que confunde a gente.

Os estoicos estão dizendo que a nossa vida não se explica pela vontade – mas pela potência de expansão. Quando uma determinada potência vem – é ela que vai se afirmar, se não vier outra para inibi-la. Em Freud, há uma teoria da ambivalência, em que, por exemplo, nós odiamos e amamos alguma coisa ao mesmo tempo. É uma tolice: não é nada disso! O que ocorre é que, de repente, passa a potência do amor, e dali a pouco vem a potência do ódio e faz a do amor abaixar, passando a do ódio! São as potências que governam as nossas vidas!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se são do acaso? Depois eu vou explicar isso – como é que se dá o mecanísmo dessas potências. Mas nós entendermos que a nossa vida se constitui por esse campo de potências. Então, não é uma potência. São múltiplas potências – múltiplas! – que são constituintes das nossas vidas. (Posso dar por entendido?)

Aluno: Você vai andando pela rua, [inaudível] quer dizer, você vai entrando em contato com uma outra coisa…

Claudio: Você quer saber se… Não, não não! Não é o outro corpo que vai fazer eu odiar ou amar. O meu próprio corpo é feito de uma multiplicidade de potências; se vocês repararem nós odiamos, amamos, somos indiferentes e alegres com a relação à mesma coisa em cinco minutos! São essas potências que estão – o tempo inteiro – atravessando dentro de nós. Elas estão o tempo inteiro se defrontando para ver qual vai governar – é uma luta constante!

Aluna: [inaudível] essência dos corpos?

Claudio: São a essência dos corpos. A nossa essência é esse conjunto de potências. É isso que é a nossa essência.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Melancólica? [Aluno: É!] Evidente que sim, evidente que sim! Se de repente determinada força em você começa a governar, é assim que você vai entrar em relação com os outros corpos. [A partir da potência que vencer.] É evidente! Aquela potência começa a passar em você – sua relação com os outros corpos vem dalí. De repente outra passa, as coisas melhoram… ou pioram!

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não, porque a vontade… o que quer dizer vontade, C...? A vontade é alguma coisa que serve à ação da potência. Por exemplo, vencem em mim as potências da preguiça, eu sonho em ser preguiçoso, em não fazer nada. Isto – de ser preguiçoso – é uma potência que está passando em mim. O que eu faço com a vontade? Eu torno a vontade serviçal desta potência, e vou ser preguiçoso ad nauseam. Preguiçoso ao infinito. Boto a minha vontade a serviço da minha preguiça. Por exemplo, os filósofos, para serem filósofos, êles têm que conquistar o ócio. É impossível o filósofo ser filósofo sem ócio. Imagina o filósofo preocupado com o preço da banana! Ele nunca seria filósofo. Ele tem que se preocupar com outras questões. Então, ele tem que colocar a vontade a serviço daquela potência. Porque as outras potências, a potência que quer saber o preço da banana, também está atravessando. (Não sei se vocês entenderam…)

A vontade não é aquilo que decide em nós. O que decide em nós são as potências. A vontade está a serviço das potências. Isso rompe com a teoria da vontade livre. Rompe com a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio. Há vontade a serviço da potência. (O que vocês acharam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Pode, pode, pode… Vou mais devagar aqui, vou mais depressa ali, mas ela está a serviço da potência. Em vez de você pensar que é a vontade que decide qual a potência que vai aparecer… é a potência que coloca a vontade a serviço dela. Fechando para vocês: é isso que, – em Nietzsche – se chama vontade de potência. A famosa vontade de potência de Nietzsche é isso! É a vontade a serviço da potência.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É sempre a potência que governa, a potência que manda. Ou seja, quando uma determinada potência me governa, o que essa potência quer? Ela quer produzir o mundo conforme ela é. Isso que a potência quer.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É evidente que, para eu ir trabalhar, a potência tem que querer trabalho. É evidente! Esta é a grande questão do Ocidente. A grande questão para o nascimento do capitalismo foi a proletarização que vai se dar no nosso campo social a partir do século XVIII. E essa proletarização são práticas de poder estimulando as potências de trabalho. O que se faz no ocidente, é uma prática de proletarização. O que é a proletarização? É pegar os corpos e estimular neles as potências que interessam ao poder político. Então, produz-se estímulos de potências de trabalho. Por isso é muito difícil se pegar um primitivo e colocá-lo na força de trabalho, pois ele já está todo constituído e suas potências se dirigem para a pesca, para o amor – mas se dirigem com dificuldade ao trabalho. Então, para se produzir um corpo no nosso mundo tem-se que pegar a criança e começar a extrair dela as potências que interessam. (Deu para entender?) Porque a potência esta em você! Mas o que faz o poder político? Ele vai trabalhar naquele corpo, extraindo dele as potências que interessam a ele [poder político]. Imediatamente a vontade se liga àquela potência [estimulada] e eu digo: “que vontade de trabalhar!”. (Entenderam?)

Aluno: A sua razão não pode estimular potências que lhe interessam e produzir uma vontade livre?

Claudio: Não, não, não! Não senhor! Espera um pouco para entender. Daqui a pouco eu vou falar sobre a razão para você entender! Entender o que eu estou dizendo, é que um corpo é constituído por uma multiplicidade de potências. Então voce pega o corpo de uma criança, o que ele é? Uma multiplicidade de potências. O que você faz? Você estimula naquele corpo as potências que lhe interessam; ou seja, um campo social emerge pela prática estimulativa. Assim que se produz um campo social. Entrando em crise direta com o modelo marxista, para quem um campo social se constitui por repressão. Não é por nenhuma repressão, é por estimulação das potências dos corpos. (Não sei se entenderam…) O marxismo pensa que para se constituir um campo social tem-se que fazer práticas repressivas. Eu estou dizendo: não!, para se constituir um campo social, tem-se que estimular as forças que interessam. Por isso que a [questão da] educação é tão problemática. Por isso que a partir de meados do século passado nasceu no ocidente a escolarização obrigatória – porque a escolarização obrigatória é [para] extrair [daquela criança] as potências que interessam [ao sistema].

Aluna: [inaudível] a constituição de um campo social, é porque ele está pensando um novo [inaudível], não é?

Claudio: É porque ele está pensando a essência como atributo. É só isso, filha. É só isso! É só isso! Na hora que você pensa a essência como atributo, o homem já tem uma essência atributiva dentro dele, e as práticas políticas, então, seriam exatamente reprimir o homem. Não há repressão de homem nenhum! Pelo contrário. O que o campo político faz é produzir o homem, ele produz o homem – porque homem é isto que nós somos! Ou seja: as potências que foram estimuladas em nós, para constituir o que nós somos, é que nos tornou homens. Não o homem em essência o homem é uma prática política.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Vamos com calma para vocês entenderem. Não tenta fazer teoria muito grande já não, A.… Vamos entender, filha. Certo? A minha tese neste instante é muito simples: a formação de um campo social não se dá por práticas repressivas na essência do homem; a formação de um campo social se dá por práticas estimulativas nas potências de um corpo.

Aluna: Pois é, mas as práticas estimulativas não estariam ligadas às práticas repressivas, porque…

Claudio: Não, filha. Não! De forma nenhuma! O que eu estou dizendo para vocês é que o campo social vai constituir agências estimulativas. Por exemplo, voce pega uma criança da família conjugal, moderna, capitalistica, século XX. O que se estimula nesta criança? Todas as suas potências econômicas. Todas as potências econômicas dessa criança são estimuladas. Não há sequer uma criança, nas nossas famílias, que não seja criada para vencer na vida. Vencer na vida no mundo capitalista é fazer o quê? Trabalhar! Estimular as potências do trabalho será exatamente o modelo das nossa instituições. (Não sei se vocês entenderam…)

Não há sequer uma família… qualquer família pega sua criança e faz o que naquela criança? Estimula nela o quê? As potências do trabalho. No nosso mundo é sempre a mesma coisa – produz-se uma criança economicamente fortíssima. Economicamente forte, quer dizer o quê? Todas as potências do trabalho são estimuladas naquela criança.

Querem ver uma coisa? De repente chama-se o psiquiatra numa família. Por quê? Porque uma criança, numa família, não está sendo estimulada pelo trabalho. Está se derivando. A deriva dela é porque a prática estimulativa não está funcionando. Aí aparecem as instituições para fazer essa prática de estimulação – a psicologia, a psiquiatria são as fábricas estimulativas… para trazer aquela criança para o campo social. (Entenderam?)

Vou fazer uma narrativa do Michel Foucault. O Foucault diz que era um homem triste, muito triste, porque ele vivia em um campo social em que as forças de dominação se dão diretamente no corpo da criança. Isso o entristecia. A prática de estimular aquela criança para produzir o homem que interessa para a família. Isso produzia nele uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza. E essa prática geraria homens sem nenhuma potência política. Nós teríamos as nossas potências econômicas altamente estimuladas, mas as potências políticas estariam inteiramente fechadas. (Não sei se entenderam…) Potências políticas – se as potências políticas passassem, o capitalismo já teria desaparecido, porque nós não suportaríamos esse modo selvagem de vida; não suportaríamos o que nós somos. Então, o capitalismo estimula o tempo inteiro as nossas potências econômicas – mas não deixa passar as potências políticas. Não deixa passar. Não há nenhuma instituição no nosso campo social que seja estimuladora das potências políticas. A estimulação das potências políticas nos levaria, necessariamente, a fazer transformações sociais; pois quando se estimula uma potência, ela se torna criativa. Nós somos criadores constantes no campo econômico. Sempre criadores no campo econômico. Sempre! Nós não paramos de inventar meios de produzir mais “grana”. Sempre! Por quê? Porque aquilo é estimulado. Se você estimular as potências políticas de um homem, o que vai acontecer? O campo social vai se romper. (Não sei se entenderam…) Então não seria possível que o capitalismo fosse fazer isso. Porque senão ele teria se destruído. (Deu para entender aí? Então eu vou parar dez minutos para vocês tomarem café e eu retomo, tá?)


2ª Parte:

O instinto é inato. Ele não depende de nada para existir, (certo?) É o instinto que me leva a procurar as coisas – não o afeto. O afeto é alguma coisa que só aparece em mim se algo vier de fora e excitar a aparição desse afeto. O afeto é produzido. Ele é uma composição com outro estimulador.

O exemplo do carrapato é nítido: o carrapato é estimulado pela luz. Então, o que acontece? O afeto pela luz aparece, ele se compõe com a luz. A luz se compõe com o afeto. O que o carrapato vai fazer é procurar os pontos mais altos, onde a luz bate mais, [para se instalar]. Quando ele chega aos pontos mais altos ele para. Por quê? Porque é ali que a luz mais o afeta. Aí ele para. Ele vai sempre para os galhos de árvore. Chegando aos galhos mais altos, nada mais o afeta. Ele fica parado ali – olha que coisa incrível – 15, 16, 17, 18 anos, sem fazer nada! Em pleno jejum. De repente, passa por baixo dele um animal de sangue quente. Este animal de sangue quente produz nele um afeto, e ele cai em cima. Esse afeto afeto pelo sangue quente nunca apareceria se o animal não passasse. O afeto pressupõe a presença do estimulador. (Não sei se entenderam…) A idéia de afeto é diferente da idéia de pulsão e de instinto porque o afeto é aquilo que só existe em composição. Não há falta, só composição; só há o que se chama – agenciamento. (Entenderam?)

A única coisa que eu quero que vocês entendam, é que a teoria do afeto não é a teoria do instinto e não é a teoria da pulsão. A teoria do afeto – o afeto é aquilo que para existir pressupõe um estimulador – porque o afeto não funciona sozinho. Ele só funciona em agenciamento. Ele está agenciado, ele existe. Não está agenciado, não existe. (Ficou difícil, não é?)

Eu não estou definindo o afeto – eu estou dizendo como ele funciona. É isso que eu estou fazendo. Em vez de definir o afeto, eu estou [descrevendo] o funcionamento do afeto. Não me importa defini-lo. Importa-me dizer como ele funciona. Ele funciona dessa maneira: o afeto é alguma coisa que para existir pressupõe o estimulador. (Certo?) É preciso que alguma coisa o estimule, para que aquele afeto exista.

O carrapato é citado porque ele só tem três afetos. Só há três meios de o carrapato ser afetado: luz, sangue quente e suor. Só essas três coisas afetam o carrapato. Se não houver essas três coisas o que ele faz? Literalmente não se move. Isso que eu estou chamando de afeto. O afeto é alguma coisa que não pode ser entendida por definição – só pode ser entendida por funcionamento.

Aluna: Ele não é produto do agenciamento?

Claudio: O afeto seria o próprio agenciamento. O afeto só se entende por função. Olhem a palavra que eu estou usando: função! Ele não pode ser definido. Ele não pode ser explicado por nada. Porque ele é um funcionamento. Ele é algo que funciona. Isso que é o afeto.

Então, pelos afetos os corpos fazem os agenciamentos. (Não sei se vocês entenderam… Acho que eu não fui feliz… O que você acha, C..., tranquilo?)

Os corpos vão se agenciar pelos afetos. Então, o que é exatamente a relação dos corpos? A relação entre os corpos é uma relação afetiva – eles fazem agenciamento por afetos. Eles vão fazendo a sua existência [através das] composições afetivas. Mas eu disse a vocês que não há sequer um afeto que funcione sem estimulação. Não há possibilidade disso. O que implica em dizer que os afetos podem ser inventados. Pode-se produzir afetos que você não tem. Na verdade, nós não temos nenhum afeto – os afetos são produção de estímulos.

Eu posso pegar uma criança que nunca viu um livro e começar a agenciá-la com livros – e ela pode criar afeto pelo livro. Ela passa a fazer um agenciamento afetivo com o livro: ela passa por um livro, para e olha – como a gente passa pelas livrarias e tem que olhar, (não é?) Ela vai criando afetos.

Eu posso pegar um brasileiro, ainda que isso pareça impossível, e fazer com que ele deixe de se afetar pelo samba do terreiro e se afete por ópera. Por estimulação. Mozart, por exemplo, é uma invenção afetiva do pai dele, que o pegou aos quatro anos de idade e só jogou música em cima dele, música em cima dele, música em cima dele, afetando, produzindo afeto. Aí, aquilo emerge, nasce a composição. O afeto não é um sentimento, não é uma paixão, não é uma emoção – o afeto é aquilo que faz a composição dos corpos, o agenciamento dos corpos.

Deixa eu só fechar aqui, olha que coisa interessante: os povos nômades são aqueles povos que foram forçados a ir para as estepes e para os desertos. (Eu não pretendo contar aqui toda a história dos povos nômades). Eles foram para a estepe e o deserto por forçamento político, mas quando eles chegam no deserto e na estepe eles têm um problema – que é a alimentação. Lá não é como na planície. Então, eles vão tornar os animais deles produtores de alimentos. Eles começam a relacionar os animais deles com aquela grama rasteira que dá no deserto, porque os animais se afetam por aquela erva. E, os animais entrando em composição com aquela erva, tornam-se produtores de sangue e de leite, eles geram animais “fábrica de alimentos”. Por isto, a relação de um nômade com um animal não é a mesma que entre o sedentário e o animal. Por que o sedentário torna o animal carregador de carga; e o nômade torna o animal produtor de alimentos. Eles têm uma composição diferente. Nós não podemos pensar a relação do nômade com o animal conforme a nossa relação – pois aquilo ali funda um novo campo afetivo. (Não sei se vocês entenderam…) É completamente diferente a literatura do nômade sobre os animais, e a literatura animal aqui, no nosso mundo sedentário. Porque os animais para nós servem diretamente a nós – enquanto para o nômade ele é fábrica de alimento e instrumento de guerra. É completamente diferente o uso que eles fazem, do uso que nós fazemos. Ou seja: voce pega uma criança nômade e vai gerando nela um afeto pelo animal, vai produzindo um afeto nela. Por isso, a relação de uma criança com um animal no mundo nômade é completamente diferente da nossa.

Aluno: [inaudível] encontro de corpos, não é?

Claudio: Agora eu reduzi para o encontro dos afetos. Aquilo já está ultrapassado. Agora, realmente, o encontro de corpos são composições afetivas. Eu passei do encontro de corpos, para encontros afetivos. O que realmente faz com que um corpo se encontre com outro são os afetos. Por que é que eu respiro? Porque o ar afeta meu pulmão, aí eu respiro!

Aluna: Os afetos são agenciamentos?

Claudio: Os afetos são agenciamentos. Não são nem pulsões nem instintos. Eles são produtores de agenciamentos. (O que vocês acharam? Ficou muito difícil?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. O agenciamento de afetos é agenciamento de corpos, que gera… acontecimento. Gera acontecimento. Os corpos fazendo encontros, geram acontecimento.

Aluna: [inaudível] respirar…

Claudio: Você tenta pensar isso. Porque eu estou dizendo que você vai respirar, porque você é afetada no corpo. Você é afetada! Se voce colocar, por exemplo, um homem nas trevas, ele vai viver lá, sem sentir a falta da luz. Ele só ganha o afeto na hora em que alguma coisa vem estimulá-lo. Aí ele vai funcionar. É pensar o corpo vivo como função. E essa categoria de função é matemática. Depois eu passo para vocês. Essa idéia de função – é que um corpo só funciona através de composições afetivas. Senão ele paralisa.

Isso é tão fácil! Isso faz parte das nossas vidas. Nós nos movemos somente em função daquilo que nos afeta. Senão nós não nos movemos! Ninguém vai se mover por aquilo que não o afeta. É só o campo dos afetos que gera os nossos movimentos. Nós vamos fazendo composições afetivas e constituindo o nosso corpo. Pelas composições de afeto que a gente faz. Você pega o telefone e liga para a sua mulher, depois liga para o seu pai e, dalí a pouco para um credor. Olhem como essas três composições de afeto geram vozes diferentes; geram vozes, geram acontecimentos diversos! Porque o que eu estou dizendo é que todo o universo é feito por esse campo de afetos. Por que um homem faz literatura e o outro faz cinema? O que é isso? São campos afetivos. Os campos afetivos vão produzindo as nossas vidas!

Agora eu vou dar uma explicação concreta: há um tempo na história, eu não posso precisar (se tiver alguém que precise essa história para mim…), em que houve a invenção do estribo. Colocaram estribo nos cavalos. Na hora em que puseram estribo nos cavalos, o agenciamento que o homem fazia com o cavalo se modificou. Modifica-se o agenciamento do homem com o cavalo. Nasce a possibilidade de haver a guerra com lança, nasce a possibilidade da armadura; novas relações de corpos vão se formando, e vão se gerando novos acontecimentos.

Agora, eu vou dar como mais ou menos entendido essa questão do campo dos afetos, e vou passar a explicar o que vem a ser acontecimento.

O acontecimento é todo campo do nosso saber. Os afetos é o campo do nosso poder, e o acontecimento é o campo do saber. O que nós falamos, sobre o que nós falamos? O que nós vemos no mundo? Nós vemos e falamos sobre as nossas relações de corpos. O nosso mundo não é um mundo em si mesmo; o nosso mundo é sempre produto das relações de corpos que nós fazemos ao longo da vida. Por exemplo, o saber do mundo medieval não é o mesmo saber que nós temos no século XX. Por que não? Porque eles não falavam e não viam as mesmas coisas. O acontecimento é o campo do saber; é o atributo. E os corpos são as forças.

Quando nós usamos o discurso é para falar exatamente sobre o mundo em que nós vivemos. Por exemplo, se eu disser para vocês que um homem está louco, “aquele homem está completamente louco“, é possível que alguém diga assim “leve este homem ao psiquiatra para tentar curá-lo“? É possível que alguém me diga isso? Sim, é possível. Mas isso não podia ser dito no século XVII. Não podia ser dito, de maneira nenhuma – porque o encontro do corpo do louco com o corpo do psiquiatra ainda não tinha se dado. Aquilo que pode ser dito pressupõe o encontro dos corpos. Senão, não pode ser dito. Não pode ser dita qualquer coisa em qualquer tempo.

Hoje os jornais não podem dizer que determinadas famílias são criminosas porque não mandam os seus filhos para a escola? Por quê? Porque no nosso tempo a escolarização é obrigatória. Mas no século XVIII não era. Você só pode dizer alguma coisa depois que aqueles corpos fizeram a composição. Os enuciados que nós produzimos ao longo da vida, são enunciados efeitos das composições dos corpos. (Não sei se vocês entenderam…) É a coisa mais fácil: quando é que nasce a escolarização obrigatória? Em meados do século XIX. A partir do momento em que a escola fez uma composição com os corpos das crianças, qualquer homem pode dizer – “é um absurdo não mandar essa criança para a escola!“. Mas apenas a partir daquele momento – antes não! Isso não acontecia antes. Todos os enunciados que nós produzimos se originam nesse movimento dos corpos. (Como é que você foi?)

Aluna: A questão da produção do estribo para o cavalo…

Claudio: Modificou a guerra… O estribo é uma criação. Não existe essa coisa de necessidade, não. Não, não há necessidade de nada.

Aluno: Mas, particularizando o caso do estribo, foi uma necessidade realmente não tanto para que a pessoa se equilibrasse, mas para que pudesse montar no cavalo.

Claudio: Não! Se você dissesse isso para o nômade, ele ia te olhar com a cara tão feia… porque ele sabe pular em cima do cavalo.

Aluno: Os nômades têm estribo. Aqueles peles vermelhas é que não…

Claudio: Os nômades têm estribo agora. Têm estribo agora! Eles nunca tiveram estribo! Você sabe o que era o nômade? O nômade era chamado “perna magra”. Eles tinham a perninha magra, preparada exatamente para montar nos cavalos a pêlo. Tanto que as mulheres nômades tinham que aprender a ter desejo sexual por perna magra. Que as pernas magras eram consideradas bonitas.

Na hora que aparece o estribo, é aí que vão ser geradas, por exemplo, as cruzadas. As cruzadas seriam impensadas sem os estribos.

Aluno: Nos documentos antigos que retratam as guerras greco-romanas…

Claudio: Você não encontra estribo. Você tem um agenciamento de corpos… Inventaram o estribo. Inventaram a armadura. Inventaram os torneios. Inventaram os cavaleiros. Inventaram o amor cortês.

Aluno: Olha, a lança era apoiada no pé dos cavaleiros. E para isso, precisava obrigatoriamente ter o estribo, do contrário não funcionava.

Claudio: Exatamente. Quando se inventou o estribo, não modificaram as máquinas de guerra? Modificaram as máquinas de guerra, permitiu-se o acontecimento invasão do oriente – as cruzadas. O acontecimento vai se liberar por esse movimento dos corpos.

Por exemplo: quando é que nós começamos a pensar em visitar a lua? No momento em que pelo menos nós passamos a entender que a gravidade é uma foça e que essa força só pode ser vencida por aceleração. Pronto! Quando se fazem determinados agenciamentos de corpo, aí o acontecimento emerge. De imediato o acontecimento emerge.

Vocês podem ler um livro do Georges Duby – que saiu agora – chamado Idade Média, Idade dos Homens. Leiam o livro para vocês verem esse acontecimento chamado cavaleiro. É um livro lindíssimo que saiu agora.

Toda a natureza se constitui por composições afetivas. Essas composições afetivas geram o acontecimento. Composições afetivas chama-se campo do poder. Acontecimento, campo do saber. (Isso deixa para as próximas aulas.)

Como muita gente perdeu, eu reproduzi a última aula e deixei o campo de saber para a próxima.

Então, o campo de saber pressupõe o campo do poder. Que é alguma coisa que nós não entendemos bem no mundo moderno. Nós pensamos que o saber nada tem a ver com o o poder. Ou quando pensamos que o saber tem alguma coisa a ver com o poder, falamos asneiras sobre o poder. Poder não é o poder do Estado. Poder é o poder dos corpos. Isso que é o poder. É o poder que os corpos têm de fazer composição com os outros corpos. E aí vai nascendo o que se chama saber. Que é o acontecimento.

Então está aberto para vocês falarem, que eu vou terminar, que eu já não aguento mais. (Certo?) Mas eu acho que foi bem.

De alguma maneira, eu reproduzi a aula passada. Não fui muito fundo, mas na próxima aula eu vou começar a explicar campo do saber para vocês, logo – teoria das atribuições… eu tenho que penetrar cada vez mais fundo.

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Aula de 16/06/1992 – Lucrécio e a ontologia da ilusão

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 8 (As Singularidades Nômades) e 12 (De Sade a Nietzsche) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para:webulpiano@gmail.com]

 

 

“Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem…). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos.”

Os corpos são constituídos de átomos e vazio: são dois infinitos. Quando esses átomos se agregam, quando eles se juntam, formam os corpos. (Já começam a aparecer as questões) Ou seja, um corpo, o que se chama de corpo, não é, de modo algum, um átomo. Um corpo é sempre um conjunto de átomos. O que também nos leva a uma conclusão imediata: os corpos, à diferença dos átomos, são duração. Os corpos duram, enquanto que os átomos são eternos.

Por que os corpos duram? Esses agregados de átomos, essas combinações de átomos, fazem-se e se desfazem. O que de imediato nos leva a dizer que não existe nenhum corpo eterno. Não é possível encontrar um corpo eterno. Todos os corpos estão necessariamente na duração. Pode ser até mesmo um corpo com dois átomos. Na verdade, um átomo da Física Quântica é um corpo. (O físico quântico ficaria muito contente com isso, não é?) O átomo deles é um corpo, porque é constituído de partes. O que o atomista grego diria é que o átomo da física quântica é constituído de… átomos, não é? Então, nós aqui temos que, de imediato, opor a eternidade dos átomos à duração dos corpos. (Entenderam?) Todos os corpos estão necessariamente na duração. Não há outra hipótese para se pensar o corpo. Então, o que nós passamos a saber, é que os corpos se fazem e se desfazem. Se a física atual pensasse assim, talvez abandonasse a teoria do Big Bang.

(Nosso amigo, Mário Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, está abandonando a teoria do Big Bang, não é? (Aluno: É!) Há já alguns anos, não é agora no Jornal do Brasil, não. Já faz alguns anos ele vem abandonando essa teoria).

Agora, se esses átomos juntos constroem os corpos, são esses corpos que vão passar a se chamar objetos sensíveis. São os corpos que nós chamamos de objetos sensíveis; não os átomos. O que nós chamamos de objeto sensível são os corpos. Então, é nítido que neste Universo existe o que se chama o sensível.

― O que é o sensível? O sensível é o corpo. Todo corpo é da ordem do sensível ― isso é definitivo! Os átomos percorrem [atenção que eu só vou voltar aqui nas outras aulas…] esse Universo numa velocidade infinita. Difícil falar sobre as velocidades dos átomos neste instante! Mas eles percorrem este Universo numa velocidade infinita. Então, seria um elemento que estaria incluído na lei atômica (vejam bem, eu disse lei atômica, eu não disse lei dos corpos, eu disse lei atômica! – é sempre preciso ter em mente que ao falar em átomo e falar em corpo eu não estou falando a mesma coisa. Átomo é uma coisa, corpo é outra. Então, os átomos que estariam nessa velocidade infinita.

Colocada a ideia de corpo e o corpo identificado como o sensível, numa linguagem não-lucreciana, não-atomística, surge algo que eu posso chamar de fenômeno ― aquilo que aparece: o corpo é aquilo que aparece. O universo é povoado de aparições. Há coisas que aparecem neste universo. As coisas que aparecem neste universo são justamente os corpos, (tá?).

Os atomistas, então, vão dizer que se esse universo é constituído de corpos, logo, de elementos sensíveis, esses corpos podem tocar uns nos outros; podem se encontrar… Os corpos podem se encontrar, da mesma forma que os átomos também podem se encontrar. Na verdade, se os corpos se encontram, os átomos também se encontram. E se por acaso, neste universo sensível, existisse algum ser que tivesse o poder de apreender os outros seres, digamos, um ser que fosse dotado de percepção… Um ser dotado de percepção é um ser que tem o poder de apreender os outros seres. A percepção é exatamente isso: uma potência de apreensão. Se houvesse um ser que pudesse aprender os outros seres, esse ser só faria isso se os outros seres tocassem nele. /, porque isso daqui está parecendo uma teoria da percepção de altíssima dificuldade. O que eles estão dizendo é que se nós percebemos, nós os humanos, ou os seres vivos percebem alguma coisa, é porque, esta alguma coisa que é percebida, emite átomos.

Nós só podemos perceber se os átomos que constroem um determinado ser sensível nos tocarem. Eles estão construindo uma teoria da percepção altamente sensual, ou seja, nós percebemos o mundo pela percepção, olhamos, ouvimos, sentimos temperatura, tato, gosto, palato ― tudo isso porque os átomos nos tocam. Se houvesse um ser sensível qualquer que não emitisse átomos, nós não entraríamos em contato com ele. Ou seja, isso faz com que todo objeto sensível emita átomos. E é uma coisa muito difícil de entender. Todos os objetos sentidos emitem átomos. Eles estão…

Aluno: Emitir, no sentido da palavra?

Claudio: Emitir, no sentido radical; porque eu sempre digo, James, que eu não trabalho com metáfora, é sempre no sentido literal: sempre aquilo que está sendo dito. Então, o que eles estão falando é uma teoria muito bonita e muito difícil, que é a teoria da emissão. O que está sendo colocado aqui é que um corpo é constituído por um conjunto de átomos; e esse corpo, que é constituído por um conjunto de átomos, emite átomos. Por exemplo, nós vamos num jardim e sentimos o cheiro de uma flor. O que é o cheiro dessa flor? É a flor emitindo átomos. Logo alguém pergunta: “e por que essa flor não emagrece? Se ela emite átomos, ela deveria emagrecer!” A teoria atomista se explica não só pela constituição dos indivíduos; ela se explica também pelo meio: todos os seres estão num meio onde há um infinito de átomos. Eles são banhados por átomos. Banhados! Por isso, os átomos se desprendem do corpo deles, mas outros átomos entram para substituir. Ou seja: essa substituição de átomos é permanente.

Se vocês lerem a explicação do que é uma célula, ou do que é uma molécula, vocês vão entender perfeitamente essa questão. Porque se uma molécula viver dez anos, ela vai ter uma permanente troca de moléculas dentro dela. É incrível: o que se mantém é apenas a estrutura. É só uma leitura ligeira e vocês vão se aproximar perfeitamente dessa ideia, porque o que eles estão dizendo é de alta modernidade. Então, não existiria sequer um ser que não fizesse essa emissão de átomos. Essa emissão de átomos vai ser chamada por eles de simulacros. Os átomos emitem simulacros. Esses simulacros são exatamente aquilo dos seres sensíveis com que nós tomamos contato. Neste instante, o Leão está sendo visto por mim e por vocês, porque ele está fazendo emissões de átomos. Nossos corpos, ou todos os corpos, não param de fazer essas emissões ao infinito: sempre emitindo átomos. E eles então…

Aluno: O sensível é o corpo ou é o átomo?

Claudio: O sensível é o corpo.

Aluno: O átomo não é sensível?

Claudio: Não. O átomo, eu ainda não falei; foi a mesma pergunta da Ângela. Eu ainda não falei sobre o átomo. Eu agora estou preocupado com o corpo. Para ficar mais claro, chamem o átomo de simples e o corpo de composto. (Entendeu?) O corpo é um composto de átomos. Então, na hora que eu vejo o Leão, é porque o Leão está emitindo compostos. Todos os corpos emitem compostos.

Aluno: Eles emitem compostos ou simples?

Claudio: Compostos!!! Mas todo composto é constituído de quê? De simples; mas o que ele emite são compostos.

Aluno: Ah, tá! Ele não emite um átomo, eu pensei que…

Claudio: Ele não emite um átomo! Ele emite composto!

Alunos: Ele emite simulacros, é o composto!

Aluna: É a organização desses átomos…

Claudio: Exatamente! Ele emite a estrutura, porque, senão, como é que eu ia ver o Leão? Eu ia confundir o Leão com você… Esses simulacros são compostos.

Lucrécio fala em dois tipos de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície. Isso vai nos dar muito trabalho na frente. Não, hoje; que é uma exposição genérica! Ele fala na emissão de átomos de profundidade e átomos de superfície. Então, ao colocar isso, eles estão colocando uma teoria muito difícil, que é a das duas espécies de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que é por onde eu acredito que eu vá fazer uma teoria física para vocês. E talvez também uma teoria estética. Mas certamente eu farei uma teoria física.

Agora, pelo que eu estou dizendo, nós temos dois processos de emissões feitas pelos corpos: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que são as duas primeiras espécies do simulacro. E aí eles introduzem uma coisa terrível… a terceira espécie de simulacro, que eles chamam de fantasmas.

Então, vejam bem hein? Neste instante, se os corpos emitem, eu vou passar a dar um novo nome ao corpo: o corpo é uma fonte. Fonte de quê? Fonte de átomos, fonte de emissões. Todo corpo é uma fonte. Uma fonte em renovação perpétua. Essa fonte não para de se renovar. Então, não há sequer um corpo que não seja uma fonte de emissão de átomos. Essa fonte emite átomos de profundidade e átomos de superfície ― que eu estou deixando um pouco para o lado. E, em seguida, eles vão colocar a terceira espécie de simulacros, que eles chamam de fantasmas. Essa terceira espécie de simulacros ― que são os fantasmas ― eles dividem em teológicos, oníricos e eróticos: Fantasmas teológicos, oníricos e eróticos. Atenção!, a dificuldade aqui é terrível! Então, apareceria um tipo de emissão que é a terceira espécie ― que eles chamam de terceira espécie! ― que são os fantasmas ― onde aparece o erótico, o onírico e o teológico. São os fantasmas.

Vejam: esses fantasmas não são criados por um sujeito. Não são fantasmas criados por uma ficção, são absolutamente reais! Absolutamente reais, esses fantasmas fazem parte da emissão de um corpo: originam-se numa fonte. Agora, o que define a fantasmática, o que define o fantasma do Lucrécio é que o fantasma é o simulacro distanciado da fonte. Enunciado um pouco difícil!

O que eu estou dizendo, é que quando o Leão emite os seus simulacros, os seus compostos, e eu vejo o Leão, esses simulacros ― que o Leão está emitindo ― prosseguem: eles prosseguem; eles vão embora… vão embora toda a vida! Ou seja: os simulacros vão se distanciando da fonte. O que eu estou chamando de fantasma é um simulacro distanciado da fonte.

Aluna: Claudio, não é uma escolha dirigida, então, para um percepto, para uma percepção…

Claudio: Não.

Aluna: …eles se espalham o tempo todo?

Claudio: Os simulacros não nasceram ― isso aqui é para acabar com qualquer modelo religioso: os simulacros não nasceram para serem apreendidos por uma percepção. São apreendidos por uma percepção; mas não nasceram para isso. É a lei dos corpos. A lei dos corpos é a renovação permanente. Então, a emissão é constante. Mas, esses fantasmas se distanciam da fonte. E ao se distanciarem da fonte, aí eles parecem (a palavra parecer, aqui, é um pouco equívoca) ganhar uma autonomia.

Ganhar uma autonomia é: eles parecem independer das fontes que os emitiram. Não sei se ficou bem aqui, certo? Ao parecer independer das fontes que os emitiram, evidentemente, eles passam a ter, mais ou menos, uma autonomia… E mais: quanto mais distantes das fontes eles ficam, mais perdem suas conformações.

Aluno: Aí, eles podem ser interpenetrados por outros simulacros?

Claudio: Podem! É isso que eu estou dizendo. Mais eles se distanciam das fontes, eles vão perdendo as suas conformações, e vai aparecendo uma coisa estranhíssima, que é a interpenetração. Eles começam a ser penetrados por outros simulacros.

Aluna: Claudio, essa ideia de deformação tem alguma coisa a ver com o conceito de simulacro do Platão?

Claudio: Tem! Eu vou juntar depois, viu?

Aluna: O Lucrécio é contemporâneo do Platão?

Claudio: I a.C.. Morreu aos quarenta e poucos anos, completamente louco… as crianças jogavam pedras nele… Não tinha outro jeito, não é? Esses simulacros se distanciam, não é? Separam-se das fontes. Mas eles podem ser apreendidos pela percepção, da mesma maneira que os simulacros que têm fonte. Então a nossa percepção pode apreender ― eu posso apreender ― tanto o Leão, quanto o simulacro. Tá? Eles têm a mesma característica das práticas emissoras. Eles são seres sensíveis… apreensíveis! Apreensíveis!!

Aluno: E eles são sempre corpos!

Claudio: São corpos, são corpos! São reais, concretos. Inteiramente reais e concretos. Tá?

Então, aqui começa a aparecer uma teoria, cuja importância eu ainda não posso sustentar, mas são esses simulacros, esses fantasmas, que vão ser a origem dos mitos.

Eu tenho que trabalhar muito devagar, porque é dificílima a teoria dele ― é de uma beleza excepcional, mas é dificílima! Origem dos mitos, eu aqui vou usar um autor chamado Michel Tournier, que literalmente é um romancista que, sem dizer, usa muito Lucrécio.  O Michel Tournier conta que uma determinada tribo no deserto africano tinha um mito ― que o vento que vem do norte traz a morte. Então, sempre que soprava o vento do norte, essa tribo admitia que a morte estivesse chegando. E aí ele vai e narra que séculos antes as tribos nômades vinham do norte, e passavam como uma ventania, e devastavam as cidades. Como as tribos nômades do norte desapareceram, desapareceu a fonte, mas ficou o simulacro, ficou o fantasma. Certo? O Mito é produto do distanciamento das fontes.

(Que beleza, não é?) Produto do distanciamento das fontes!

Então, esses fantasmas, como dizem eles, são teológicos, eróticos… (Eu não vou falar no erótico hoje, porque eu tenho certeza que quando eu for falar vai dar um problema terrível, certo?)…e oníricos. O que me faz agora dizer, ― e vocês prestem atenção ao que eu vou dizer! ―, que os nossos sonhos, de modo algum, estão associados às nossas memórias. Estranhíssimo isso que eu estou dizendo. Porque, para ele, o sonho é um enfraquecimento ou uma modificação do corpo ― o nosso corpo se modifica ― fica mais fraco, ou coisa que o valha, perde a potência ascensional, e esses simulacros penetram nele com muita facilidade. O sonho nada mais é do que a apreensão desses fantasmas de terceira espécie. Por isso, nós sonhamos as coisas mais incríveis… que se nós ligarmos com a nossa biografia pessoal, nós não entendemos, é isso que ele está dizendo. Como esses fantasmas estão sempre se misturando, começa a aparecer para nós, cérberos, centauros, dragões de fogo, cavalos alados… E isso tudo que está aí não é, em nada, produzido por um sujeito. É absolutamente real! Isto é absolutamente real, vocês estão entendendo?

Aluno: Uma espécie de ontologia do fantasma?

Claudio: Uma ontologia do fantasma!… Uma ontologia do fantasma! Eles não estão precisando produzir nada fora da natureza. Tudo está no interior da natureza: tanto os átomos, como o vazio, como os compostos, como os fantasmas de terceira espécie. Tudo está na natureza. A natureza é constituída por átomos, pelo vazio, pela composição do átomo e do vazio, pelos excessos… e, por causa das emissões, começa a surgir o teológico, o onírico e o erótico.

O teológico, o onírico e o erótico seriam os responsáveis pelas superstições e pelos terrores. Os grandes terrores e as grandes superstições viriam exatamente dos fantasmas de terceira espécie.

Agora, vamos parar aqui um pouquinho.

O Lucrécio é um físico. Físico. Por que físico? Fácil: é uma teoria atômica. Ele faz uma teoria atômica. Mas ele vai explicar ― eu vou usar uma linguagem moderna! ― que o trabalho dele é especulativo.

― O que quer dizer especulativo? São sínteses do pensamento. Isso é o especulativo! Mas, o objetivo do especulativo é o prático. O que quer dizer isso?

A questão dele não é epistemológica ― a questão dele é ética. Por quê? Por quê? Toda a obra dele é para provar que nós, depois de mortos, estamos mortos. É a única questão que ele tem. Só essa questão: provar que depois de mortos nós estaríamos mortos. Por que isso? Porque, esses fantasmas de terceira espécie ameaçam de tal forma, que nós vamos chegar a admitir estar vivos depois de mortos. E diz ele: nesse momento aparece a coisa mais terrível: o surgimento de mais dois infinitos.

― Quantos infinitos nós tínhamos? Três. Tem mais, mas eu só dei três. Os átomos, o vazio e a composição. Agora, ele vai dizer que esses três infinitos são os verdadeiros infinitos. E vão aparecer agora dois falsos infinitos. Esses dois falsos infinitos, que vão aparecer em função dos fantasmas de terceira espécie, é o poder do corpo para o infinito de prazeres; e o poder da alma para a infinita duração. Estranho! Terrível! O corpo, com o infinito poder de ter prazeres e a alma com o infinito poder de durar. Então, ele coloca que esses dois infinitos ― que o corpo poderia ter prazeres ao infinito ― nos leva a desejar a eternidade. Olha como é que a gente começa a entender as questões!

Aluna: E a eternidade seria um falso infinito?

Claudio: Falso! Porque eternos só são…

Alunos: Os átomos.

Claudio: Os átomos! Então, todo o objetivo de fazer com que os nossos corpos existam eternamente estaria nesse falso infinito da capacidade infinita dos prazeres, diz ele. O outro aspecto do falso infinito é a duração infinita da alma. Mas quando aparece a infinita duração da alma, surgem as dores eternas. Porque se a alma pode durar eternamente, ela também pode sofrer dores eternas. É exatamente isso que vai gerar a aparição do campo social do homem religioso ― que é o criminoso. O criminoso, que é o homem religioso, só pode existir através da tristeza dos outros. Por isso, o religioso só trabalha com falsos infinitos.

Aluno: Por que você fala “criminoso”?

Claudio: Criminoso porque ele é o produtor das tristezas ― que é o maior crime que pode haver para o Lucrécio. Por quê? O Lucrécio diz que se nós fizermos uma panorâmica do homem, o que nós vamos encontrar no homem ― em todos os homens ― é a perturbação das suas almas. O homem tem sua alma inteiramente perturbada. A tal ponto, ele diz, que o grande temor dos homens não é a dor física; o grande temor dos homens é a perturbação da alma. Um exemplo aqui é a AIDS, a AIDS… Porque ele dá exemplo de pestes. Então, para ele, é a alma perturbada ― e essa alma é perturbada exatamente por causa dos fantasmas de terceira espécie ― que provoca a nossa infelicidade.

Aluno¹: A alma também é composta de átomos?

Claudio: Claro! É só átomos e vazio.

Aluno²: A alma também seria um corpo, não?

Claudio: Sim, corpo, corpo! Não há nada que não possa ser corpo.

Aluno¹: Pois é, mas aí você teria o corpo e a alma como dois corpos.

Claudio: Tudo é corpo! Tudo é corpo!

Aluno²: Independentes?

Claudio: Quando se está vivo, não são independentes, não é?

Aluno²: Então, o que são?

Claudio: Um composto, um composto!

Aluno¹: Então, Claudio em que o corpo se diferencia da alma?

Claudio: Provavelmente pelos átomos da alma serem mais finos. Isso tudo eu vou falar na próxima aula que é ― a lei do átomo. O importante aqui é começar a entender que o negativo (eu posso traduzir a palavra “negativo” por ilusão: negativo-ilusão), a ilusão de modo nenhum é uma invenção ― a ilusão é real.  Uma ontologia da ilusão. A ilusão é real, (entenderam?) A ilusão pertence ao campo ontológico. Numa outra linguagem, a ilusão pertence ao plano de imanência. (Ficou muito difícil aqui? Hein, Silvia?) A ilusão pertence ao plano de imanência. (atenção para isso, hein?) A ilusão pertence ao plano de imanência. Eu poderia até dizer mais: que muitas filosofias que nós encontramos são produtos de fantasmas de terceira espécie. Ele vai dizer coisas desse tipo para Platão. A obra de Platão se originaria nos fantasmas de terceira espécie. Não sei se ficou bem aqui. Ou seja: tudo aquilo que nos leva a construir objetos transcendentes ― objetos que não estão no plano de imanência ― são originários no fantasma de terceira espécie. Para ele, só existe o plano de imanência, ― mas é preciso saber que esse plano de imanência é constituído só por positividades. A ilusão também é uma positividade. Nós passamos a descobrir que há um negativo que percorre a natureza. Um negativo que percorre a natureza.

(Não sei se ficou bem aqui).

Aluno: Que negativo é esse?

Claudio: O negativo são os fantasmas de terceira espécie. Ele é real, ele está aí. E é exatamente em cima desses fantasmas de terceira espécie que vai aparecer o homem religioso. O religioso aparece em cima dele para nos dizer que nós somos pecadores, somos não sei o quê, não sei o quê… em função desses fantasmas de terceira espécie. Como a experiência dos fantasmas de terceira espécie é absolutamente real, esse fato de ser real garante o enunciado do homem religioso.  O que vai ser dito agora é que o homem religioso faz uma espécie de composição ― avidez e cupidez, e constrói crimes incessantes: ele vive em função da tristeza dos homens.

A partir daí nós já temos uma entrada no campo político. A entrada no campo político será que é exatamente o medo da morte, ― mas, agora, a noção de medo da morte tomou um cunho muito grande: porque é medo de morrer, [quando ainda não estamos mortos; e de depois de mortos estarmos ainda vivos…  ]

(final de fita)

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Parte 2:

Aluna: De alguma maneira… Os átomos não são eternos? Quer dizer, então, de alguma maneira, o corpo também não seria eterno?

Claudio: Não! O corpo se desmancha, porque o corpo é um conjunto de átomos ― ele se desmancha!… Não há eternidade possível para o corpo.

Aluno: Agora, vamos supor, você morrendo, que o corpo desmancha e os átomos que formavam aquele corpo são eternos?!

Claudio: Eternos, eternos! Ele está trazendo uma coisa muito bonita, ele está constituindo uma eternidade na matéria ― é um materialismo excepcional! A eternidade está na matéria. E, nessa tese dele, ele não vai precisar sequer uma vez de um Deus. Eles não vão precisar de deuses. Ainda assim, ele trabalha com deuses.

Aluna: Isso me lembra aquele negócio do “tu és pó e ao pó retornarás”. Se você substi…

Claudio: Não retorna ao pó, retorna ao átomo.

Aluna: Pois é, mas se você substituir pó por átomo…

Claudio: É. Só que o átomo não é o pó, é a coisa mais ilustre que existe, não é? A coisa mais ilustre que existe!…

Vejam que a apresentação que eu estou fazendo pra vocês é muito simplória, nós não temos ainda idéia do que vai acontecer aqui! Ah, e antes de entrar aqui no Deleuze ― eu vou começar a colocar as questões que o Deleuze vai citar ― para vocês dominarem mais amplamente, eu quero fazer uma colocação para vocês. Colocação difícil e terrível! Que é: isto se chama plano de imanência. Por quê? Porque eu constituí a física e a ilusão no mesmo plano. Dentro da Natureza. Não tem nada fora da Natureza ― tudo vem da Natureza. A própria natureza nos envolve numa miragem. A miragem são os fantasmas de terceira espécie.

Por exemplo: de alguma maneira, o Espinosa reproduz o Lucrécio. Por isso, o Espinosa constrói, na obra dele, um método chamado método reflexivo ou formal ― e nesse método, o objetivo do Espinosa é fortalecer o pensamento. Ou seja, o fortalecimento do pensamento nos livraria da dominação dos fantasmas de terceira espécie. Mas gravem esses fantasmas de terceira espécie, hein? Porque eu vou trabalhar excessivamente neles e possivelmente será a partir deles que eu vou construir o mundo estético, hein? Esses fantasmas terríveis talvez venham me permitir a construção do mundo estético.

Porque ― aqui não fica muito difícil de falar ― vocês sabem que os objetos da obra de arte são pura ficção, são pura ilusão: eles são fantasmas de terceira espécie!

(Foi bem assim?)

Aluno: Claudio, a função fabuladora é parente desse…

Claudio: Aparenta aí. Se eu usasse o Bergson, seria sim. Se eu usasse a função fabuladora, apareceria aí, exatamente. Depois eu explico, está corretíssimo! Corretíssimo!

Bom. Antes de entrar aqui em Deleuze, só mais uma explicação para vocês:

Esses átomos se movimentam: eles têm movimento. E o Lucrécio fez uma teoria das emissões e distribuiu em três: profundidade, superfície e os fantasmas de terceira espécie ― simulacros teológicos, etc. A velocidade desses três é uma velocidade diferente: eles não têm a mesma velocidade. Os emitidos têm velocidade diferente. Então, a velocidade dos simulacros de profundidade é uma, a velocidade dos fantasmas de superfície é outra, a velocidade dos fantasmas de terceira espécie é outra. Se são três velocidades, nós temos três tempos. Os tempos se encaixam um no outro, mas são três tempos diferentes. Nós aí já saímos da tolice de pensar que o tempo é Uno ― o tempo é múltiplo.

(Não sei se vocês entenderam…)

Porque, no começo da aula, eu coloquei que o tempo é dependente dos corpos, o tempo é dependente do movimento. Se você tem movimentos diferentes, você tem tempos diferentes. Essa é a notável teoria que ele está elaborando. Esse vai ser um dos temas difíceis para nós.

E o outro tema difícil, é a exploração desse fantasma da terceira espécie. Que até agora eu coloquei como sendo o homem religioso, não é? Isso vai ser terrível para nós. Vai-nos dar muito trabalho, como também vai dar trabalho a questão do erótico. Porque eles vão fazer uma condenação radical a Eros; uma condenação radical ao amor. E vão fazer o cântico de Vênus Voluptas. Cântico de Vênus.

“Ao descrever a história da humanidade, Lucrécio nos apresenta uma espécie de Lei de Compensação”. Bom, não é isso o que interessa, não.

Ele diz aqui. A questão do Lucrécio eu vou dar umas três ou quatro aulas, viu? Eu não posso dar menos: é impossível!

Eu disse pra vocês a distinção do especulativo e do prático. O especulativo é epistemológico. O prático, ética. Tá? Toda a filosofia lucreciana objetiva a prática. Então, o fim ou o objeto da prática é o prazer. Fantástico o que ele está dizendo: a questão da prática, a questão da ética é o prazer. O prazer se opõe à dor. Então, todo o objeto da prática é o prazer. “Ora, a prática nesse sentido nos recomenda apenas todos os meios de suprimir e de evitar a dor”. Isso como fundamento prático: suprimir e evitar a dor. E aqui vai começar a aparecer a teoria belíssima dele: “Mas nossos prazeres têm obstáculos mais fortes que as próprias dores”. Esses obstáculos são “os fantasmas, as superstições, os terrores, o medo de morrer, tudo o que forma a inquietação da alma.” (Deleuze, Lógica do Sentido – Apêndice 2, p.279, editora Perspectiva, 1975). O grande obstáculo para o prazer não é a dor física. São exatamente as inquietações da alma. “O quadro da humanidade é um quadro da humanidade inquieta, aterrorizada mais que dolorida (mesmo a peste se define não penas pelas dores que transmite, mas pela inquietação generalizada que institui.” (idem).

Então, nós temos que sempre levar em conta essa figura chamada inquietação da alma. Vocês perceberem que ele está conduzindo tudo para uma ética, mas essa ética do Lucrécio se sustenta na Natureza. Se ela se sustenta na Natureza, o fundamento para se chegar a essa ética é que o pensamento possa dominar os fantasmas de terceira espécie para atingir e compreender as leis da natureza. Se o pensamento atingir e compreender as leis da natureza, as inquietações da alma vão ser vencidas. Porque toda a questão do homem está centrada na inquietação da alma. Inquietação da alma em que todos aqui somos mestres, não é? Temos pós-graduação disso. O homem tem pós-graduação em inquietação da alma.

“É a inquietação da alma que multiplica a dor”; (a alma tem esse poder: multiplicar a dor.) “é ela que a torna invencível, mas sua origem é profunda. Ela se compõe de dois elementos: uma ilusão vinda do corpo, que é uma ilusão de uma capacidade infinita de prazeres; depois uma segunda ilusão projetada na alma, ilusão de uma duração infinita da própria alma, que nos entrega indefesos à ideia de uma infinidade de dores possíveis depois da morte”. (ibidem)

Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem…). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos. Foi a questão que o André me perguntou… a questão da função fabuladora: você deslocar o governo. O governo desse fantasma de terceira espécie. Não deixar que ele seja governado pelo religioso. Passar a ser governado por homens que entendem dele, homens que o pensam e, que entrem no campo de pensamento.

Os fantasmas de terceira espécie têm grande independência em relação aos objetos que são suas fontes: eles têm independência em relação às fontes. E são de uma extrema inconstância De uma inconstância terrível. E aqui novamente aparece uma coisa muito difícil. Esses fantasmas são inconstantes, mas sob um céu permanente. Nós os encontramos o tempo inteiro ― uma inconstância terrível! Mas há um céu permanente que eles sobrevoam. (Não entenderam aqui, não?) Esses fantasmas percorrem o universo. Percorrem! Quando você me perguntar o que é o cérbero ― o cão que é porteiro do inferno; o que é o centauro? Não é nada mais do que esses fantasmas, nada mais do que isso. E nós não paramos de ter contato com eles. Nós encontramos uma coisa incrível. É que esses fantasmas de terceira espécie são caóticos. Eles são o caos, o caos integral, e não são produzidos pelo sujeito. Eles são encontrados pelo sujeito. O encontro que o sujeito faz com esse caos é originário em modificações no sistema tensional do sujeito. Modificação no sistema tensional é o sono, é o amor, é a superstição. Modificado o sistema tensional, você começa a fazer a apreensão desses fantasmas. É importante que a gente entenda que há um caos nítido na natureza, e que esse caos se origina nesses fantasmas da terceira espécie. Esse caos não é produzido pelo sujeito, mas é apreendido por ele. Ele se identifica, literalmente, à imaginação do Hume, que eu venho dando pra vocês. É absolutamente a mesma coisa. Vocês se lembrarem que a imaginação do Hume não é uma faculdade ativa. É um poder que as imagens têm de se misturar livremente. Então, o que nós temos agora que aceitar, aceitando Lucrécio, é que nós somos banhados por esse caos de terceira espécie. Banhados por ele.

(Não sei se ficou bem aqui.)

O Lucrécio vê uma única saída para isso. Suprimir esses fantasmas. A supressão deles não é fazer com que eles desapareçam. É ter um outro tipo de relação com eles. É o entendimento das leis da Natureza. Quando ele diz entender as leis da Natureza é a maneira de suprimir a ameaça que esses fantasmas de terceira espécie nos fazem, ele está dizendo que nós temos que levar o pensamento às últimas consequências. E a função do pensamento passa a ser confrontar-se com o caos. (Eu nunca vi coisa tão nítida, tão nítida!) O confrontamento com o caos. Vejam bem, talvez ainda não esteja claro: o caos é sinônimo de velocidade infinita. Isso que é o caos. Caos não é desordem ― é velocidade infinita.

Fala, Jimmy:

Aluno: Vem cá, nesse caso, o pensamento suprimiria o teológico, ou…

Claudio: E o erótico e o onírico. Não quer dizer que ele suprimiria a existência. No momento que você entende as leis da Natureza, você passa a entender o funcionamento desses fantasmas de terceira espécie. Entender o funcionamento dele. Toda questão é o pensamento entender como eles funcionam. Como o caos funciona. No momento em que você passa a entender como ele funciona, ao invés de se submeter a ele, você passa a criar ali dentro. Alguma coisa ficou terrível aqui: é que o pensamento tem como matéria o caos. Isso daqui que é importante. A matéria do pensamento é o caos. Caos = velocidade infinita. O pensamento tem que se defrontar com a velocidade do átomo, com a velocidade das emissões, com a velocidade dos fantasmas de terceira espécie. Ele tem que se defrontar com esse CAOS o tempo inteiro.

Aluna: Agora, o pensamento seria alguma coisa interna à subjetividade, ou seria externa?

Claudio: Nós temos que ver ainda o que é o pensamento, porque seja lá o que for, o pensamento tem que ser o quê? Átomos, não tem jeito. Não tem jeito, porque tudo nesse universo são átomos e vazio. Nós não temos como sair disso daqui. Inclusive, para se compreender melhor, o Lucrécio e o Epicuro combatem ao extremo o homem religioso ― é o criminoso. Esse é o criminoso: produtor das paixões tristes.  Mas eles dizem que existem deuses. Existem deuses. E depois nós vamos ver por que existem deuses. Os deuses deles existem nos intermundos, e são constituídos de átomos muito finos, tão finos são os átomos dos deuses, que eles não tocam nos átomos da matéria. São finíssimos! Então, eles vivem nos intermundos, numa felicidade eterna. Nós devemos fazer hinos para eles, mas sabendo que eles são inteiramente indiferentes a nós. É de uma beleza excepcional. Isso inicialmente… vão aparecer coisas muito maiores!

Aluno: No mundo dele, então, o pensamento seria um corpo.

Claudio: Sim, Corpo! Corpo!

Aluno: Com emissão e tudo. Corpo emissor.

Claudio: Corpo emissor!

Está indo bem? Eu vou dar uma entradinha.

Olhem, vocês vão ver, que esse nosso caminho vai me permitir fazer uma nova teoria da narrativa, viu? Nós vamos mexer com literatura, vamos mexer com física, vamos mexer com uma porção de coisas, com estética, tá? Eu agora estou precisando entrar um pouquinho, um pouquinho de nada, no tempo, tá? Porque, no princípio da aula, eu disse para vocês que o tempo na antiguidade depende do…?

Aluna: Movimento.

Claudio: Movimento. Então, eu quero até fixar isso com vocês, que o tempo depende do movimento, porque se eles são pensadores antigos, eles pensam o tempo, mas o tempo depende do movimento. Aristóteles é um pensador antigo, logo, o tempo depende do movimento. Os estoicos são pensadores antigos, logo, o tempo depende do movimento. Se nós formos para Kant? Nós já sabemos, é o contrário: é o movimento que vai depender do tempo. Então, é muito importante esse curso do Lucrécio e do Espinosa que nós vamos dar umas quatro aulas. É muito importante para mim.  Você podem até me achar um pouco irritante, eu repetir o tempo inteiro, porque eu tenho necessidade. O tempo aqui, literalmente, depende do movimento. (Tá?) Isso vai ser fundamental para o entendimento do que vai se passar. “O tempo se manifesta com relação ao movimento” (Deleuze, LS, p. 283) Enunciado já definitivo pra nós. O tempo se manifesta com relação ao movimento. “É por isso que falamos de um tempo do pensamento com relação ao movimento do átomo no vazio e de um tempo sensível, etc. etc” (idem). Agora começa a aparecer a sua questão; —- a questão mais difícil que existe. Que é a seguinte:

É clássico, na história do conhecimento… (Atenção aqui, marquem isso:) Na obra do Kant, por exemplo, conhecimento e pensamento são nitidamente distintos; conhecimento e pensamento não é a mesma coisa. (Certo?). É clássico, na história do conhecimento, que há uma distinção das duas maneiras como nós podemos conhecer: pelos órgãos sensíveis ― pelos órgãos sensíveis nós conhecemos os corpos, que são os mecanismos perceptivos, chamados por Kant de intuição finita. Eu já expliquei isso pra vocês, nós apreendemos os corpos pela sensibilidade; e outra forma do nosso conhecimento é o conhecimento intelectual. Duas maneiras de conhecer ― que em Kant gera a estética transcendental e a analítica transcendental: conhecimento pela sensibilidade e conhecimento pelo intelecto. Então, a sensibilidade conhece os corpos e o intelecto conheceria pelo processo de abstração.

A abstração do intelecto (isso é o conhecimento clássico, ouviu?) é que o intelecto abstrairia dos corpos a diferença, e ficaria com a semelhança. Por exemplo: aqui, nesta sala, tem uma série de indivíduos. O intelecto não teria questão do conhecimento do indivíduo. O intelecto quereria conhecer a espécie. Então, o intelecto, ao invés de querer conhecer (e nem poderia conhecer) Leão, Jimmy, Ângela, Zé Luiz, o intelecto quer conhecer “o homem”. E “o homem” é abstrato; não tem realidade concreta. (Certo?). É um processo que o intelecto faz de abstrair as semelhanças dos indivíduos. Então, a abstração é um processo intelectual. (Certo?). O que o Lucrécio vai colocar é que o abstrato não está no intelecto, está no real. O abstrato é o átomo. O átomo é abstrato. Logo, o átomo nunca poderá ser apreendido pela sensibilidade. Ele só pode ser apreendido pelo pensamento. (Não sei se vocês entenderam…)

O que a sensibilidade apreende são os compostos. Quem apreende o átomo é o pensamento. (Viu?) Então, o átomo, apareceu algo excepcional. Esse algo excepcional, com outra linguagem, vai ser retomado no Medieval e na Modernidade: o real não é só o concreto; existe também um abstrato real.

Claudio: Quem é esse abstrato real?

Alunos: O átomo.

Claudio: O átomo. Só quem o apreende é o pensamento. Incrível!

Aluno: Hoje, também, o átomo só é percebido pelo pensamento, não, não é?

Claudio: Ah, sim, sim, claro! O átomo do atomista é uma equação matemática! O pensamento quântico é equação. Esse sucesso da física só pode ocorrer a partir da Revolução Científica, no século XVII, em que se fez a introdução da matemática como aquilo que pode recobrir o real. Então, o matemático pode fazer suas equações e seus sistemas e esses sistemas reproduzirem a realidade. É inteiramente abstrato, inteiramente abstrato! Não é do campo experimental. Aí, é uma coisa muito crítica, porque nós pensamos que a ciência se constitui a partir da experiência. De modo algum! Isso é a maior idiotice. A ciência não é da experiência. A ciência pressupõe o abstrato e a construção. Aí, eu aponto pra vocês a obra do Koyré. A obra do Koyré é magnífica sobre isso.

Há, pra terminar a exposição dele aqui,uma figura que é inclusive é retomada pelo Freud. Freud na teoria do apoio. É o clinamen. Essa teoria do apoio é sensacional, incrível, muito bem colocada, muito bem exposta pelo Laplanche. Excepcional! Excepcional! Então, eu ainda vou falar nas próximas aulas a questão do clinamen em Freud, viu?

Então, o clinamen é um poder que o átomo ― o átomo, hein, não os corpos. O átomo se inclina; ele faz uma pequena inclinação. Essa pequena inclinação, que ele faz, torna-o indeterminado.

(Não sei se deu para entender…)

Prestem atenção: vamos dizer que esse átomo percorre o vazio. Se ele percorre o vazio, eu vou aplicar nele o princípio de inércia. Aplicando nele o princípio de inércia, esse átomo vai percorrer o vazio ao infinito. Vai embora, vai embora… nada vai acontecer! Agora, vamos dizer: ele se encontra com outro átomo. Bate noutro átomo, e volta. Basta eu entender a lei dos choques dos corpos que eu sei quais os movimentos e quais os lugares que esse átomo pode ir. Mas, no momento em que eu incluo no átomo o clinamen ― que é a inclinação ― eu torno a Natureza indeterminada.

(Entenderam?)

O indeterminismo penetrando pela Natureza. Não lembra —-, eu volto a ele,viu?

Então, essa noção de clinamen não é um acidente do átomo: é da essência dele. É da essência dele esse clinamen. Isso vai gerar muitos problemas para nós ― problemas inclusive atuais, na questão da liberdade. Nesse instante, o que parece é que esse átomo é livre; não está regido por nenhum determinismo, por nenhuma necessidade. Ele pode fazer novos caminhos, (certo?) Por exemplo, você encontra um mundo, um mundo constituído, um composto constituído ― esse maço de cigarro ou essa enorme Galáxia. Um átomo faz o clinamen, escapa, atrai os outros ― e a Galáxia se desfaz. Como se fosse um novelo de lã. Ela se desfaz. No puro acaso. E outros mundos vão ser constituídos. Então, ao introduzir essa teoria, eles introduzem o indeterminismo dentro da Natureza.

Aluno: Sem isso não seria possível a existência do caos, não é?

Claudio: Não seria possível. O caos estaria vencido.

Aqui, está sendo vencido o Laplace, viu? É o Laplace que sempre admitiu que se houvesse uma inteligência altamente poderosa, essa inteligência daria conta de tudo o que existe no Universo. Não há como!

Bom, agora eu vou tomar um café e voltar, tá? Foi muito bem a exposição, não foi?

Nós já sabemos alguma coisa do Lucrécio, se vocês quiserem ler o texto do Deleuze, vocês já podem.

Aluna: Qual o texto?

Claudio: Lucrécio e o Simulacro, na Lógica do Sentido. O texto é aparentemente fácil, viu? Aparentemente fácil. É um texto dificílimo, se vocês quiserem pegar, peguem, mas daqui a quatro aulas vocês vão poder pegar realmente porque nós vamos trabalhar no Plano de Imanência. Então, essa ideia de plano de imanência…

Aluna: Ainda está muito confusa essa ideia de plano de imanência.

Claudio: Eu ainda não expliquei sobre o Plano de Imanência.

(Foi bem? É uma beleza, não é?)

[Outros desenvolvimentos da filosofia de Lucrécio nas aulas Pensamento: Lucrécio e Espinosa e Lucrécio e os falsos infinitos]

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