Aula de 14/04/1994 – Tempo, Pensamento e Liberdade

Capa Grande Aventura

Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 3 (A Zeroidade), 9 (A Imagem Moral e a Liberdade), 10 (Estoicos e Platônicos), 12 (De Sade a Nietzsche) e 20 (Linha Reta do Tempo )  do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com

 

 


Parte I

Eu vou entrar com uma categoria que é literária, que é teatral, mas que de alguma maneira é também matemática e física ― que se chama narrativa. Classicamente, narrativa traduz-se por história. A narrativa é identificada a uma história. Em literatura, chama-se estrutura diegética. É alguma coisa que tem um começo, um meio e um fim. Que lembra, inclusive, uma entrevista com as atrizes Bete Coelho e Júlia Gam sobre a peça Pentensiléias (dirigida pela Daniela Thomas e pela própria Bete Coelho).

Uma entrevista meio tola, que elas deram, mas em que elas falavam exatamente sobre narrativa: que é alguma coisa que conta uma história. A narrativa conta uma história!

E quando você conta uma história, o que está acontecendo ― e aqui eu quero que vocês marquem ― é uma SUCESSÃO.

A narrativa é sempre a narrativa de uma sucessão. Então, quando você fala em sucessão, de imediato você integra, à categoria de sucessão, a idéia de tempo. A sucessão é passado, presente e futuro. Então, quando você pensa em sucessão, você pensa em passagem do tempo: alguma coisa está se passando; está sucedendo; está indo do passado para o futuro, passando pelo presente. Isso que vem a ser sucessão. Na nossa vida cotidiana, nós entendemos o tempo como se fosse uma sucessão. Sempre que nós pensamos o tempo ― invariavelmente ― nós pensamos o tempo como sendo uma sucessão: alguma coisa que começa no passado; vem para o presente; e vai para o futuro. Nenhum de nós põe isso em questão!

Em função disso, sem que haja nenhum erro, os pensadores de uma ciência chamada termodinâmica que vai trabalhar com uma categoria chamada flecha do tempo. (Ninguém precisa se preocupar, pois se depois for necessário, nós temos aqui um físico, o Luiz Alberto, que é doutor em termodinâmica…).

― O que quer dizer Flecha do Tempo? Quer dizer que o tempo é alguma coisa que vai do passado para o futuro. Porque a flecha do tempo é regida por uma lei ― a lei da irreversibilidade. Ou seja: a Flecha do Tempo só vai para frente. Isso dizer que quem está regido pela lei da flecha do tempo e tiver 30 anos ― fará 31, mas nunca fará 29. (Está certo?) Isso seria exatamente a lei do tempo segundo a termodinâmica: é o tempo sucessivo, que vai sempre pra frente ― e é um tempo irreversível. Ele só vai pra frente! A nossa vida é assim: nós só vamos pra frente. (Entendeu, Cacau?). Muito bem!

Mas vocês viram, eu disse pra vocês, que, inclusive cotidianamente, quando nós pensamos o tempo, nós só pensamos o tempo em termos de sucessão. (Certo?)

― O que é sucessão? Primeiro o passado; depois o presente; e depois o futuro ― formando uma sucessão. Mas acontece que sucessão é igual a movimento. Sucessão é sinônimo de movimento. E agora vem o grande segredo:

Então, se nós pensamos o tempo sob o modelo da sucessão, nós pensamos o tempo sob o modelo do movimento. (Vejam se vocês entenderam?) Se o tempo é pensado em termos de sucessão, ele é pensado sob o modelo do movimento. (Ponto)

(Vamos pegar tudo de maneira a simplificar… viu? Eu não estou colocando nada muito difícil ― para vocês poderem entender.)

Isso que eu vou dizer é um pouco de ficção:

Vamos dizer que dois pensadores, na década de 50 na França ― um chamado Alain Robbe-Grillet [2008-2009], provavelmente o literato mais famoso da França, que inaugurou uma escola chamada Nouveau Roman e foi o responsável pela existência da Nouvelle Vague, no cinema… Alain Robbe-Grillet; e, de outro lado, um intelectual chamado Alain Resnais, que era um pensador de cinema (O Robbe-Grillet era um pensador de literatura); os dois se juntam para fazer um filme chamado O ano passado em Marienbad. Esse filme é provavelmente um dos filmes mais famosos que existem, mas que infelizmente não tem em vídeo. (Talvez no CCBB.) Então, quando esses dois artistas se reúnem para fazer esse filme ― o que eles vão fazer é fantástico! ― eles vão fazer um filme sobre o tempo. E nesse filme, inclusive, trabalha uma das mais famosas atrizes do cinema francês, que já morreu, belíssima, chamada Delphine Seyrig. Uma mulher de uma beleza extraordinária, uma atriz extraordinária… Então, esse filme é sobre o tempo.

O ano passado em Marienbad é um filme sobre o tempo. Então, pelo que eu disse, esse filme deveria ser sobre… sucessão. Se o tempo é uma sucessão, então, o filme ― que é sobre o tempo ― deveria ser sobre … sobre o movimento. Exatamente! Mas acontece que esses dois pensadores vão tentar pensar o tempo fora do movimento. Marquem isso: pensar o tempo fora do movimento. (Depois eu dou as razões para isso!)

Alª: Fora do movimento?

Cl: Fora do movimento!

Então, uma coisa, que está fora do movimento, significa que ela não se… move! (Vê lá, Cacau:) Então, se eles vão pensar o tempo fora do movimento, eles estão afirmando que o tempo não se… move! O tempo não se move: é essa a afirmação que eles estão fazendo. O tempo, segundo o que eles estão falando, é a condição ― a CONDIÇÃO ― do movimento. Mas o tempo mesmo não se move. É essa a afirmação que eles estão fazendo, quase enlouquecida, mas…

Alª: O tempo é a condição do movimento?

Cl: Sem o tempo, não há movimento. Mas que eles estão afirmando que o tempo é uma forma que não… se move! Que não se move.

Então, vamos analisar O ano passado em Marienbad, sob esse modelo que o Alain Resnais e o Robbe-Grillet colocaram, que, segundo eles, chama-se o TEMPO PURO.

O que quer dizer o Tempo Puro? O tempo menos o movimento.

O que quer dizer o tempo puro, Sílvia? O tempo sem movimento.

Vamos dizer assim: tempo menos movimento. O tempo puro não… não se move!

Então, agora nós vamos ver o que é isso, tá? O tempo puro, sem movimento.

Então, agora corta aqui, corta os dois autores que eu citei. Um filósofo chamado Gilles Deleuze, que é a alma desta aula, vai escrever dois livros: um, chamado Imagem-movimento; o outro, chamado Imagem-tempo. Esses dois livros são dois tomos. Nesses dois livros, a preocupação dele é encontrar o Tempo Puro.

Então, qual era a preocupação dele? Encontrar… o tempo puro. Qual é a definição que eu dei de tempo puro? O tempo sem movimento. Essa é a definição que eu dei de tempo puro. Tempo sem… movimento! Mas, ao mesmo tempo, a questão é muito difícil aqui: o tempo não se move, mas ele é a condição de… do movimento! Quer dizer: Sem o tempo, não haveria… movimento! Mas o próprio tempo não se move.

Então, o Deleuze vai pensar o tempo; e ele vai encontrar o que ele está chamando de Tempo Puro. Então, ele vai dizer que existem dois tempos puros, duas imagens puras do tempo. Vamos chamar uma delas de PONTAS DO PRESENTE; e a outra de LENÇOIS DO PASSADO.

Então, vamos lá: pontas do presente seria uma imagem pura do tempo; e lençóis do passado também seria uma imagem pura do tempo. Então, o que nós temos que encontrar, tanto nas pontas do presente quanto nos lençóis do passado, é essa coisa estranhíssima: a ausência de movimento. Não pode ter movimento, porque é o tempo puro.

A que eu identifiquei o MOVIMENTO? À sucessão.

SUCESSÃO. Então, tanto nas pontas do presente, que é uma das imagens do tempo puro; quanto nos lençóis do passado, o que não vai existir é Sucessão.

Quer dizer: é quase que impossível a gente dar conta disso nesse momento, o pensamento da gente fica envolvido numa dificuldade muito grande, porque nós estamos encontrando categorias surpreendentes. Porque ele está dizendo pra nós que no tempo puro não há sucessão. Existiriam duas imagens do tempo puro. Quais? Pontas do presente e lençóis do passado. Então, ele vai dizer (vocês não precisam se preocupar, porque eu já vou explicar) que nas pontas do presente não há sucessão, há SIMULTANEIDADE. (Vamos colocando assim, porque daqui a pouco vocês vão compreender). E nos lençóis do passado existiria COEXISTÊNCIA.

(Prestem atenção!)

A que se opõe a simultaneidade e a coexistência? À sucessão.

Simultaneidade não é a mesma coisa que sucessão. Nem coexistência é a mesma coisa que sucessão. Ele está dizendo que o tempo puro teria duas maneiras de aparecer: uma pela simultaneidade dos presentes; e a outra pela coexistência dos passados.

É uma loucura, não é? Nós estamos diante de um dos pensamentos mais sofisticados, mais poderosos e mais brilhantes da história da humanidade. Ou seja: nós estamos entrando no que há de mais difícil, no que há de mais brilhante, no que há de mais moderno. Isso vai ser a fonte de tudo o que pode acontecer no século XXI.

Então, nós vamos investir agora, tentar fazer a primeira investida, no que eu chamei de TEMPO PURO; e as duas maneiras de encontrar o tempo puro ― pontas do presente e lençóis do passado.

Questões! Tudo bem? Sérgio, Cacau,tudo bem? Tá?

Então, vamos investir nisso:

Eu, agora, vou apenas dar um exemplo pra vocês. Eu poderia dar mil exemplos. Eu vou dar esse porque eu acho que é um exemplo fantástico. É uma teoria que os gregos elaboraram e viveram, chamada DOUTRINA DO ETERNO RETORNO.

Quando eu falo ETERNO RETORNO, de quem vocês se lembram?

Alº: Nietzsche.

Mas isso daqui não tem nada a ver com Nietzsche, viu? É uma doutrina do eterno retorno DOS GREGOS. Em que os gregos diziam que o mundo tem uma existência de dez mil anos: ele existiria durante dez mil anos. Quando atingisse os dez mil anos, viria um fogo e queimaria tudo. Tudo acabaria. Aí, esse fogo apagaria, e o mundo recomeçaria por mais dez mil anos.

Quando chega o final dos dez mil anos, vem o fogo e queima. O mundo acaba. Aí o fogo se apaga e o mundo recomeça por mais dez mil anos, outra vez. E isso vai ocorrer infinitamente. Ou seja: isso já ocorreu infinitas vezes e irá ocorrer outras infinitas vezes. Mas o que ocorre dentro desses dez mil anos é absolutamente igual ao que ocorre em outros dez mil anos. Então, este acontecimento que está ocorrendo aqui, identificado como uma coisa que ocorre neste mundo… isso significaria que este acontecimento ― estes gestos que eu estou fazendo ― já ocorreu… infinitas vezes; e vai ocorrer… infinitas vezes. Isso se chama Doutrina do Eterno Retorno. Tudo se repete de maneira absolutamente igual!

(Entenderam? Entendeu, Xuxa?)

Então, eles fizeram essa doutrina, mas eles disseram que os deuses não estariam dentro desse mundo. Que os deuses observariam tudo isso, sem poder fazer qualquer interferência. Então, se um deus se apaixonasse pelo Alexandre, e visse o sofrimento do Alexandre, a única coisa que ele poderia fazer seria sofrer, porque ele não poderia fazer nenhuma interveniência no mundo. Isto se chama O PODER DO DESTINO.

(Entenderam?)

Os deuses poderiam observar, mas não poderiam mudar nada que estivesse acontecendo ali.

(Não sei se vocês entenderam bem aqui. Não entendeu não, Cacau?)

Alª: É que eu perdi…

Veja bem: os acontecimentos que estão dentro do mundo são invioláveis: eles vão acontecer eternamente. Os deuses estão de fora contemplando tudo aquilo, mas eles não podem intervir no mundo: eles não têm o poder de intervir. Aquilo tem que acontecer, os deuses podem até sofrer com aquilo, mas não adianta: aquilo vai acontecer!

Alª: Não existe reza?…

Cl: Nada! Você pode rezar para mudar nada. Não muda. Chama-se a doutrina do eterno retorno. Isso é muito importante vocês entenderem, porque… é por esse fato daí que vai aparecer a importância do mundo judaico, porque o mundo judaico vai mudar isso. Mas, neste instante, isso não interessa. O que interessa é que os deuses, por mais poder que eles tenham, eles não podem mudar nada do que está acontecendo ali dentro. Chama-se o poder do destino, ou o poder da necessidade. É melhor usar a palavra necessidade. (Não é, Sérgio?) A necessidade é intocável: até mesmo os deuses têm que se submeter a ela. (Certo?)

Então, os deuses são obrigados a ver esse filme se repetindo pela eternidade afora. Deve ser chato demais para os deuses, não é? Porque é o mesmo filme se repetindo o tempo todo.

Agora, outro fenômeno. Prestem atenção a esse fenômeno. Ele é o mais importante:

Classicamente, o tempo é dividido em passado, presente e futuro. Assim como nós dividimos o tempo. E o presente… o que nós chamamos de presente? O presente é aquilo que está acontecendo num dado instante. Por exemplo, nós estamos agora no presente. Então, para nós humanos, vamos supor, o presente tem uma extensão mínima. O que é presente para nós, demora um segundo; o segundo seguinte já mudou o presente. Mas para um deus, dez mil anos é o presente. Então, quando o deus observa este mundo aqui ― aqueles dez mil anos que se passam ― vê aquilo de um só golpe: aquilo é tudo presente para ele. Então, quando o deus observa o mundo, ele não está vendo passado, presente e futuro. Ele está vendo somente… o presente! Aquilo é PRESENTE para ele, inteiramente presente. Para um homem, tem passado e futuro. Mas para um deus, é presente.

(Entenderam?)

Então, se os dez mil anos são presentes para um deus, você pode pegar esses dez mil anos e dividir os dez mil anos em dez mil presentes. Logo, o deus está diante de dez mil pequeninos presentes. É isso que ele está vendo!

(Vocês entenderam? Dez mil pequeninos presentes.)

Muito bem! Se ao invés de eu dizer que o deus tem dez mil pequeninos presentes, eu disser que esse deus, quando o primeiro dos dez mil anos começa, e quando o último ano dos dez mil anos vai terminar… esse primeiro dos dez mil anos e esse último ano ― são presentes para o deus?

Alº: São.

Cl: São presentes para o deus!

E os cinco mil anos [do meio] ― é presente para o deus? Tudo é presente para o deus! Então, quando o primeiro ano se der, eu vou chamar de presente do passado. (Vejam se vocês vão entender?). Os cinco mil anos, eu chamo de presente do presente. E o último ano eu chamo de presente do futuro. O deus está diante de três presentes: um presente do passado, um presente do presente e um presente do futuro.

― Para esse deus, o passado, o presente e o futuro são sucessivos ou são simultâneos?

Als: Simultâneos.

Então, isso que é a simultaneidade das pontas do presente. (É difícil, hein?)

Então, para esse deus, o primeiro ano dos dez mil anos e o último ano dos dez mil anos ― são simultâneos ou sucessivos? São simultâneos! (Entenderam?) Tudo o que está ali é simultâneo! Então, para esse deus, o primeiro ano é um presente do passado. O último ano é… um presente do futuro. E o meio é… o presente do presente. Quer dizer: cada presente desses chama-se PONTAS DO PRESENTE: presente do passado, presente do presente, presente do futuro.

Alª: É a simultaneidade dos presentes?

Cl: Simultaneidade dos presentes!

(Todo mundo compreendeu?)

A simultaneidade do presente chama-se pontas… pontas do presente!

Então, vejam bem:

Quando nós temos as pontas do presente, vejam o que vai acontecer: o Alain Robbe-Grillet, o pensador que está pensando as pontas do presente, constrói, em O ano passado em Marienbad, três personagens: X,A e M.

Vamos pensar assim, vamos fazer uma cena assim:

[Claudio escolhe um aluno:] Vem cá, Zé Luiz… (Zé Luiz é meu ator preferido.) Olha, ― vamos ver se eu consigo! ― eu estou no presente do presente. Aí, o Zé Luiz é apresentado a mim. (Tá?) Eu conheço Zé Luiz no… presente do presente! Agora, eu passo para o presente do passado: eu conheço Zé Luiz? Não! Eu passo para o presente do futuro: eu conheço Zé Luiz? Conhece! Conheço ou não? Conhece! Então: no presente do presente eu sou apresentado. No presente do passado, não conheço. No presente do futuro, já conheço.

Então, você vai ver a câmera me mostrando assim: muito prazer! [Cláudio cumprimentando Zé Luiz]. Aí, no momento seguinte, eu estou aqui, ele está ali ―nós não nos conhecemos. Aí, no momento seguinte, nós estamos abraçados… porque a narrativa se submete à simultaneidade dos três presentes. A narrativa se submete à simultaneidade dos três presentes!

(Você entendeu, Xuxa?)

Se nós fizermos um filme desses, em que o Zé Luiz me conhece; não me conhece; e é apresentado a mim, isso não parece uma coisa falsa? Em relação ao nosso mundo, isso parece verdadeiro ou falso? No nosso mundo, isso não ocorre. Quando nós vivemos, nós vivemos na sucessão ―ou não?

(Ou vocês não entenderam bem? Entenderam???)

O que implica em dizer que, quando você entra no tempo puro, você entra na NARRATIVA FALSA. Você entra no MUNDO FALSO. (Isso vai dar um problema imenso para nós entendermos!) É apenas uma anotação que eu estou fazendo pra vocês, na frente isso vai trazer um problema muito grande. Mas isso já permite a vocês verem um filme como O ano passado em Mariembad ou Providence [também dirigido pelo Alain Resnais]. Providence tem em vídeo, não é? [Atualmente, ambos são encontrados em algumas locadoras.] Nós vamos ver esse filme. Tá?

Então, o que eu estou dizendo pra vocês é o seguinte:

No tempo puro não há sucessão. Essas pontas do presente é um exemplo do tempo puro. Então, sempre que você tiver um tempo puro, a narrativa do tempo puro é uma narrativa falsa. Por exemplo: a Cacau mata o marido dela; sai pra ir ao cinema com ele; e não conhece ele. Ou seja: porque nas três pontas do presente, cada personagem vai habitar as três pontas do presente: habita as três pontas do presente ao mesmo tempo. Então, se a personagem habita as três pontas do presente, não pode ter uma manifestação sucessiva, a manifestação…

Alª: Não tem uma lógica?

Cl: Não tem a lógica clássica. Escreve aí: não se submete à lógica clássica.

Então, olha o que está acontecendo (esse momento, eu sei que vai ser muito difícil pra vocês): é que o tempo puro rompe com a lógica dos acontecimentos. A lógica dos acontecimentos se quebra diante do tempo puro. Certo? Então, em função disso, emerge o que eu estou chamando de narrativa falsa.

(Foi bem, não foi? Acho que foi muito bem! Muito bem!)

Esse enunciado da Cacau pode servir como exemplo: o tempo puro rompe com a lógica dos acontecimentos. Porque a lógica dos acontecimentos, por exemplo, você pega uma novela, você vai viver aquela lógica, não é? Nós vivemos a nossa vida com essa lógica da sucessão. Aqui, no tempo puro, toda a lógica é rompida. (Ainda não vou explicar pra vocês porque ainda vai ficar um pouco difícil.) Toda lógica é rompida.

E quando se rompe a lógica, emerge-se no mundo falso. (Certo?) Nós vamos ver um filme, que eu acredito que vai ser muito bom para nós, é A Marca da Maldade.  A Marca da Maldade vai nos dar um bom exemplo disso.

Alº: Dirigido pelo Orson Welles?

Cl: Sim, dirigido pelo Orson Welles. É com aquele ator Charlton Heston. Com a Janet Leigh, com o Akim Tamiroff, que é um ator do Hitchcock, da Nouvelle Vague, um grande ator; e o Orson Welles.

Alº: Que é o delegado, não é?

Alª: Esse tem em vídeo?

Cl: Esse tem. E nós vamos ver. Não já, um pouco mais pra frente.

Agora, nós vamos ter um texto policial, em que nós vamos fazer um trabalho… é um texto do Alain Robbe-Grillet, chamado DJINN. Vocês não vão achar. Para ser lido, vai ter que ser feita uma cópia.

Então, vamos ver o que a gente fez até agora? Está indo bem, Jaime? Tá?

Vejam bem as categorias que entraram:

NARRATIVA – mas nada de muito sério foi dito sobre narrativa. Apenas toquei, não é?

A categoria de TEMPO PURO? Eu só fiz uma coisa com o TEMPO PURO: eu rejeitei a sucessão como propriedade do tempo puro. Sucessão não é propriedade do tempo puro. O que seria propriedade do tempo puro?

Alº: Simultaneidade…

Cl: Simultaneidade e… coexistência.

Eu falei apenas da simultaneidade das pontas do presente. Agora, nós vamos voltar…

Alª: Presente do presente, presente do passado e presente do futuro.

Cl: Essa idéia das pontas do presente é um texto do Santo Agostinho, no livro 11, das Confissões, parágrafo 20. Ou seja: no século V d.C., num livro chamado Confissões, o Santo Agostinho fala sobre as pontas do presente. Presente do passado, presente do presente, presente do futuro. Quem quiser ler as Confissões, pode ler, claro! Eu ainda não estou pedindo. Viu?

Mas, então, já emergiu aí um pensador do século V ― o primeiro pensador cristão que vai se preocupar com o tempo ― que é o Santo Agostinho. Ele vai se preocupar com o tempo, porque ele é herdeiro de um pensador pagão chamado Plotino. Então, eles foram os dois primeiros pensadores do Tempo… Puro; do tempo liberado do… Movimento.

(Entendeu, Cacau?)

Então, sempre que nós formos pensar o tempo puro, é o tempo liberado do movimento.

(Pequena pausa para o café).

(…) se originou nessa escola do Plotino. Depois eu vou falar muito do Plotino pra vocês!

Alª: Então, o primeiro foi o Plotino?

Cl: Foi. O grande pensador do tempo foi Plotino.  Mas Santo Agostinho é cristão; Plotino é pagão. Vocês distinguem bem aqui pagão/cristão, não distinguem? É porque às vezes a gente faz confusão… Depois que a gente entrar no fundo das coisas seriamente, vocês vão ver que todas as concepções que a gente forma nas práticas comuns, é tudo muito equivocado, (ouviu?)

Nós chegamos ao tempo puro, não é isso? No pouquinho de tempo puro que nós tivemos, eu dei como modelo a coexistência e a simultaneidade: falei que o tempo puro são as pontas do presente e… os lençóis do passado, mas não toquei nos lençóis do passado.

Alª: Só uma pergunta: —– o tempo puro?

Cl: O que eu estou dizendo, Cacau, é o seguinte: todos os outros costumam pensar o tempo sob o modelo do movimento. (Vê se entendeu?) Todo mundo pensa o tempo sob o modelo do movimento, que é o modelo da sucessão. Esses pensadores pensaram o tempo sem o modelo do movimento. Então, pensar o tempo sem o modelo do movimento, eu só dei dois exemplos: a simultaneidade das pontas do presente e a coexistência dos lençóis do passado. Só que eu não expliquei os lençóis do passado, nem vou explicar hoje, porque, no momento, não interessa explicar os lençóis do passado. Sobretudo porque quando eu for realmente explicar as pontas do presente, aí vocês estarão muito mais fortes, e poderão entender o que eu vou dizer. (Mas foi bem, não?)

Então, agora, o que me interessa são duas figuras da RETÓRICA, chamadas ― DESCRIÇÃO e NARRAÇÃO. (Tá?) Quando você pega um romance ou pega uma novela, dá no mesmo! Vamos usar o romance, porque o romance tem imagem e a novela não tem; aí fica mais fácil de entender. (Tá?). Então, vamos pegar um romance. Quem já leu um romance aqui? Vamos usar um romance; um romance qualquer… E o vento levou. Tá bom;, qualquer um serve!

Todo romance tem uma narrativa e tem uma descrição. Ou seja: todo romance é narração e descrição. Narração é a narração da história: “Zé Maria era um rapaz muito bonito, namorava Antônia, mas Antônia gostava de José…” E vem aquela história toda: o seu desenrolar ― o desenrolar da história. Isso se chama narração ou narrativa.

Agora, descrição é quando a narrativa é efetuada e o autor ou o narrador descreve objetos ou pessoas. Ele diz assim: “Alexandre, um rapaz bonito, com os cabelos penteados, que servia água para o Claudio” ― ele está fazendo uma descrição. Uma descrição não é uma história; a descrição aponta para as coisas ou pessoas que participam do romance. (Vocês entenderam?)

(Tem até um enunciado muito engraçado: que quando a gente vai ler um romance, por exemplo, no metrô, no trem, no ônibus ou no avião… chega o trecho da descrição, a gente pula.)

Por exemplo, J. está lendo um romance: “o mocinho está batendo na mocinha, eles estão brigando. A mocinha tinha o olho azul, o cabelo louro, estava num quarto aveludado...” ― isso se chama DESCRIÇÃO. Então, romance: narração e descrição.

(Vocês entenderam bem a distinção que eu fiz de narração e descrição, ficou claro? Tranquilo?)

Agora, quando você faz uma descrição, você supõe que os objetos que estão sendo descritos pré-existem à descrição. Ou seja, que você está descrevendo alguma coisa que já existia. Por exemplo, você está descrevendo uma casa. Aquela casa já existia antes da sua descrição. A função do romancista é descrever alguma coisa que já… existia! Isso se chama pré-existir à descrição. Pré-existe à descrição. (Está certo?) Então, sempre que você vai fazer uma descrição, o suposto é que aquilo que está sendo descrito pré-existe à descrição. Com os pensadores do Tempo Puro…

(final de fita)

Parte II

[Na descrição do tempo puro], na hora em que você descreve, o ato de descrever é, simultaneamente, o ato de criar o objeto. Ou seja: o objeto não pré-existe. O objeto emerge na descrição. Por isso, na descrição do tempo puro, na hora que você acaba de descrever o objeto… você faz a descrição, está descrevendo, acaba de descrever o objeto; sabe o que você tem que fazer? Outra descrição. Porque o objeto não pré-existe, na hora em que você acaba de fazer a descrição, ele some! [O objeto existe enquanto dura a descrição, acabada a descrição, não há mais objeto!]

(Não sei se deu para vocês entenderem…)

Então, na teoria da descrição do romancista do Tempo Puro, a descrição cria e apaga o objeto ao mesmo tempo. Cria e apaga. Enquanto que na descrição clássica o objeto pré-existe. Então, vamos fazer uma suposição: eu vou descrever a Cacau. (Neste caso, Cacau não existe, hein? Cacau vai nascer na descrição!) Então, eu a descrevo: descrevo, descrevo, descrevo. Quando eu acabo de descrever, o que tem que acontecer? Eu tenho que começar a descrever outra vez. Então, na descrição do Tempo Puro você descreve o mesmo objeto, indefinidas vezes, por “perspectivas diferentes”.

Alª: Sem desconsiderar o que foi criado?

Cl: O que foi criado desapareceu. Não tem mais nenhum valor.

(Não sei se deu para entender.)

Então, a descrição do tempo puro simultaneamente cria e apaga. (É isso que nós temos que entender. (Você entendeu, Jorge?) Cria e apaga.

Então, quando você descreve um objeto no tempo puro, o pressuposto que você tem que ter é de que o objeto não pré-existe.

(Como é que foi?)

Então, o objeto é criado ali ― como na matemática: cria-se alguma coisa, quando se produz um problema. (Ela, a Tatiana, é matemática!) Então, você cria um problema, você criou alguma coisa. É a mesma coisa! Então, na descrição do Tempo Puro, o objeto criado é criado pela descrição; e no ato de terminar a descrição, o objeto desaparece. O que você tem que fazer? Uma nova descrição. Então ― é sufocante! ― você descreve um mesmo objeto, uma mesma cena, um mesmo acontecimento diversas vezes. É sufocante ― e belíssimo!

Alª: O romance do Robbe-Grillet faz isso?

Cl: Faz! Nós vamos ler um romance excepcional, que é o Djinn, pra vocês entenderem. Por que ele está fazendo isso? Porque no tempo puro não há sucessão: é sempre a mesma coisa; mas a mesma coisa aparecendo de forma diferente. No tempo puro, chama-se REPETIÇÃO.  (marquem aí)

Alº: É uma repetição diferente dessa dos gregos que você falou, não é? É uma repetição… é sempre novo, não é?

Cl: A repetição nos gregos é sempre igual. Sempre igual. No caso do Nouveau Roman, do Tempo Puro, é uma repetição que vai trazer com ela uma diferença. (Mas isso, neste momento, ainda não dá pra eu colocar!)

O problema aqui é que nós estamos diante de uma descrição que descreve sempre o mesmo objeto, mas de “perspectivas diferentes”. Sempre o mesmo objeto, de “perspectiva diferente”!

Alº: Perspectiva?

Cl: Vamos usar “perspectiva” ― porque senão vai dar problema.

Alº: Eu ia te fazer essa pergunta…

Cl: É estratégico!

Alº: Por enquanto… tá!

Cl: Éééé. Pura estratégia minha, a perspectiva. Não tem outro meio!

(Entendeu, Cristina?)

O meu problema agora é mostrar pra vocês que na descrição do pensador do tempo puro, ele não muda de objeto. Ele está sempre no mesmo objeto. Mas esse objeto não pré-existe ― ele é produzido no ato da descrição. Nós temos textos aí que vão nos esclarecer essa questão com muita clareza, (ouviu?) Então, o que nós temos que fazer aqui é uma confrontação. A descrição clássica pressupõe que o objeto pré-existe; a descrição do Tempo Puro é uma descrição que CRIA o seu objeto.

(Vejam se tem alguma questão aí. Eu acho que foi muito bem, hein? Não foi? Como é que foi, Cacau?)

Alª²: Claudio, esse negócio da perspectiva fica esquisito, porque dizer que o objeto está sendo descrito com outra perspectiva, é porque ele pré-existe, não é?

Cl: Mas eu usei a perspectiva, o Dudu já falou aqui,(não é?) Eu usei perspectiva como estratégia: porque eu não tenho como passar isso agora. Então, eu usei a palavra perspectiva ― que depois eu rompo com ela: eu rompo! O que eu tenho de fazer, o que me importa, é apenas mostrar a diferença da descrição clássica para a descrição do Tempo Puro. Só isso!

Alº: Sempre o mesmo objeto sendo descrito, só que de maneiras diferentes.

Cl: É. Vamos usar assim, não é bem isso também, mas vamos usar assim. Agora, vamos para outra linha. Descrição está bom? Prestem atenção: quando eu falar descrição, quem não lembrar direito, fala: “eu não me lembro mais!” Porque na próxima aula eu já começo a dar com mais poderes o que eu estou dando agora. Então, muitas vezes eu estou dando uma aula (por exemplo, a questão que a Tatiana levantou e que o Dudu também colocou) e eu estou utilizando uma estratégia provisória, “pra quebrar um galho”. Eu usei perspectiva, pra quebrar um galho, porque eu não tinha como usar de outra forma, (tá?)

Alª: Claudio, mas , então, eu posso dizer que o objeto vai ser o conjunto de todas essas descrições?

Cl: Aí, não fica um pouco cubista? Não é, não parece isso? Mas, de certa maneira, é! Olha essa situação, eu não sei se algum de vocês já viveu isso: quando, por exemplo, a gente se apaixona por uma pessoa e essa pessoa está distante de nós; e nós queremos nos lembrar dessa pessoa. Então, o rosto dela nos aparece. Mas nós precisamos sempre refazer esse rosto.(Eu não sei se vocês entenderam?) Ele se apaga, se refaz; se apaga, se refaz. É uma obsessão desse tipo. (Você entendeu?) Porque ele se apaga, e você tem que refazê-lo. (Não sei se vocês entenderam isso… Tá, Tatiana?)

Alª: Eu estou entendendo. Desculpe estar insistindo, porque é uma questão minha em outra coisa.

Cl: Tá, pode.

Alª: Mas… se eu consigo tender essas descrições ao infinito, por exemplo?

Cl: É possível que tenda!

Alª: É. Eu estou me aproximando do objeto!?

Cl: Não, você não está se aproximando não.

Alª: Não, o objeto vai ser o conjunto dessas descrições?

Cl: Se você tende para o infinito, se ele é infinito, você não tem um conjunto fechado: você está no aberto!

Alª: Não, não é o objeto que é infinito.

Cl: Mas é.

Alª: O número de descrições.

Cl: Não, mas o número de descrições, aqui você tem uma diferença, que eu não posso fazer agora ― mas você marca, que depois eu faço essa diferença ― entre conjunto e totalidade. Conjunto e totalidade são diferentes: o conjunto é finito; a totalidade é infinita. Eu não vou fazer esse trabalho agora, porque você está diante de uma totalidade. É o que se chama o ABERTO; não há como fechar isso aí.

(Entenderam?)

É o aberto, você tem o aberto diante de você. Então, a melhor coisa é botar TODO e CONJUNTO e, na frente, eu faço essa distinção. Nós não podemos trabalhar isso agora, porque é muito pesado para entrar na distinção de todo e conjunto. Mas só uma coisa que eu vou colocar pra vocês, muito aqui para a Tatiana e para o Luiz Alberto: quando você trabalha na Teoria dos Conjuntos, e quando você trabalha na Teoria do Todo, você tem a fundamental distinção entre SIGNIFICADO e SENTIDO. Vocês podem marcar isso daí ― e deixar isso pra frente. (Viu?) Conjunto é o problema do significado; e o todo é o problema do sentido. Deixa isso pra frente, eu não posso, de modo nenhum, trabalhar nisso agora, porque vocês não resistiriam. Seria muito violento agora. Mas é isso que vai acontecer. Porque quando você tem as duas descrições, a primeira descrição trabalha sob o modelo do conjunto. A segunda trabalha sob o modelo do todo, que é uma teoria bergsoniana sobre finito e infinito. É a única coisa que eu posso responder, Tatiana, e esperar um pouco pra frente para eu dar uma melhorada nisso daí. (Tá?) Não sei se te contentou. Realmente foi uma espécie de coitus interruptus, (não é?) Não satisfaz! Mas o que eu posso fazer? Nesse instante só pode ficar por aí.

Existe um autor com o qual, inclusive, os físicos (Luiz Alberto como exemplo) trabalham muito: chama-se Jorge Luis Borges. No Jorge Luis Borges, um conto famosíssimo chamado O jardim dos caminhos que se bifurcam. Eu preciso que esse conto seja lido!

(pequeno defeito na gravação)

Alª¹: Eu li um sobre… “Se pudesse viver mais um pouco…”

Alª²: O nome é Instantes [de acordo com outras informações, esse poema é datado de 1986, e é de autoria questionada]

Cl: Ele falando isso?

Alª²: É. “Eu teria errado mais…” Eu teria feito tantas bobagens… Eu teria…

Alº: subido as colinas…

Alª¹: Dizendo que ele não teria sido tão perfeito; e ele dizendo isso no fim da vida. Eu não sei se ele fez isso no fim da vida. Mas a sensação é que a pessoa está no fim da vida e tem uma lucidez de quanto a gente é burro, querendo ser perfeito.

Alº: —- andou de balão.

Cl: Andou? Eu sei que nos últimos dias dele, ele escreveu para um amigo dele, chamado Bioy Casares e disse assim: “Dentro de poucas horas eu estarei na eternidade…” Bonito, não é?

Mas essa questão, depois a gente retoma,viu Cacau? Fica em suspenso essa afirmação que você fez. Eu vou entrar com a minha crítica em cima dessa afirmação mais na frente. (Tá?)

Alª¹: Mas isso tem a ver com aquela outra aula que a gente teve aqui…

Cl: Tem?

Alª¹: …que você falou da imperfeição e da…

Cl: Eu falei imperfeição???

Alº: — indeterminação.

Alª¹: Não, é… hesitação… é.

Cl: Hesitação! Imperfeição, não!

Alª¹: É, mas ficou uma idéia assim…

Cl: Não tem nada de imperfeição!

Alº: indeterminação, indefinição, hesitação…

Alª¹: Não, não. É hesitação mesmo!

Cl: Olha, se esse deus, aquele deus que contempla o mundo, dos dez mil anos, tivesse a coragem de chamar um humano de imperfeito, eu pegaria você pelas mãos e mostraria: “Olha a Cacau!” Entendeu? Não há na humanidade nenhuma imperfeição! A imperfeição é uma categoria, um modelo de subjetivação produzido pela religião. A religião que impôs sobre nós a idéia de que nós somos imperfeitos. Nós não somos imperfeitos, nem somos perfeitos ― porque a nossa questão não é essa: a questão da vida não é essa!

Alª: Mas essa obstinação em ser perfeito também é uma clausura!?

Cl: O que eu estou dizendo pra vocês, é que essa obstinação é, radicalmente, originária na religião. Isso nós vamos ver na frente; nós não podemos combater isso agora. Mas isso é originário na religião! Esse par perfeito/imperfeito, esse par exato/inexato. Deixem isso de lado, depois ou vou mostrar isso pra vocês, que todos aqueles que têm essa obstinação em serem perfeitos, serão imperfeitos. Na verdade, nem uma questão nem outra é questão da vida. A vida não tem essa questão; a questão da vida é outra!  Nós vamos tentar compreender ao longo das aulas, que a questão da vida não pode, de maneira nenhuma, ser constituída sob essas duas categorias de perfeição e imperfeição…

Alª: Aquilo que você tinha dito na outra aula era hesitação…

Cl: Hesitação: é outra coisa, Cacau.

Alª: Eu sei,mas qual era o outro mesmo, hein?

Cl: Eu não me lembro mais, você se lembra, Alexandre?

Alº: Indefinição, indeterminação…

Cl: Ah, zona de indeterminação…

Alª: Incerteza, não é?

Cl: Ah, incerteza, isso é outra coisa; outra coisa! Incerteza é uma categoria que o Luiz Alberto trabalha muito com ela, os físicos trabalham muito com ela: deixa isso pra lá, Cacau, depois a gente vai ver!

― Qual o livro que eu disse?

Als: O jardim dos caminhos que se bifurcam. Quem ainda não leu esse texto? (Alª: Eu não li!) Tem que ler! Alexandre já leu? Dudu tem?

Alº: Ficções, tenho! Se virem, leiam, até a semana que vem quero esse texto lido, (tá?)

Esse texto é a procura… é mais ou menos a procura de um LABIRINTO ― procura-se um labirinto! E no final do texto a gente vai descobrir ― é isso o que importa! ― que aquele texto está mostrando um labirinto. Sabem o que é labirinto? Por exemplo, se vocês comprarem “O Globinho” [vocês não compram, mas se comprassem… vocês iriam encontrar o labirinto, para brincar ali no domingo… “O coelho partiu daqui, atravessa o labirinto, chegou ao final… ou não atravessou, ficou preso no labirinto”. Então os labirintos são sempre pensados em termos de ESPAÇO. Labirinto no espaço: faz-se, por exemplo, um jardim com um labirinto. Agora, esse texto do Jorge Luiz Borges é um LABIRINTO no TEMPO. Um labirinto… no Tempo! (Que coisa, não é?) O Jorge Luiz Borges,então, está constituindo um labirinto no tempo.

Olha só: labirinto no tempo! Mas, simultaneamente, sabe o que ele diz que o tempo é? Ele diz que o TEMPO é uma LINHA RETA. Então, como é que pode ser “labirinto no tempo” e o tempo ser uma linha reta? (Não é uma contradição?). Mas ele vai dizer: essa linha reta no tempo se BIFURCA. Então, ele vai dizer que o tempo se… bifurca! Então, ele está colocando, veja bem: eu já coloquei duas categorias no tempo puro. Quais foram? Coexistência e… Simultaneidade. Agora, eu começo a jogar sobre o tempo uma nova categoria chamada… bifurcação. Joguei a categoria de bifurcação no tempo: no interior do tempo. Então, o tempo seria aquilo que seria regido pelas bifurcações!

Então, o que nós veríamos? [Claudio traça uma linha reta e diz:] Aqui vem o tempo; aí ele vai, se bifurca; vai,se bifurca; vai, se bifurca [cada linha de bifurcação vai se bifurcando]: e o tempo se torna UM LABIRINTO, penetrado de bifurcações. (Está claro?) Isso foi feito pelo… Jorge Luiz Borges.

Em 1954, um diretor de cinema chamado Joseph Mankiewicz, não vou dizer que foi ele o primeiro, mas que, praticamente, ele pode ser considerado o primeiro a introduzir o FLASHBACK no cinema.

(Todo mundo sabe o que é flashback?)

― Quem introduziu o flashback no cinema? Pode até ser que outro cineasta tenha feito isso antes dele, mas seriamente o flashback foi feito por ele, num filme chamado A Condessa Descalça. Esse filme nós vamos ter que ver!

― Quem trabalha em A Condessa Descalça? A Ava Gardner, o Humphrey Bogart, Edmond O’Brien, Rossano Brazzi, o resto eu não me lembro. Tá?

Então, nesse filme, ele introduz o… flashback no cinema.

― O que é o flashback?  É um mergulho no passado, ou não?

Alª: É, eu ia falar…

Cl: Fala, Cacau.

Alª: Me veio à cabeça, não sei se está certo, aqueles dez mil anos que se repetem. É flashback?

Cl: Oh, é! Só que não é pro deus, porque pro deus é presente. O flashback, a função do flashback no cinema é ir ao… passado! Então, bota aí: flashback = ir ao passado. Tá certo? Então você vai ver que os flashbacks são narrativas feitas por personagens do filme. Então, nesse filme A condessa descalça, três personagens vão fazer uma narrativa ― por flashback ― sobre a condessa: que é a Ava Gardner.

(Cacau conhece a Ava Gardner? [Conheço!] Sai da frente, não é?)

Nesses flashbacks, não importa ainda, vai haver uma coisa extraordinária: todos ou quase todos os flashbacks do Mankiewicz bifurcam: vão introduzir a bifurcação! Não interessa nem explicar o que é isso agora, não importa! Daqui a pouco, até, Dudu pode dar essa aula pra mim, a gente vê o filme e vê o que é. Então, o que vai haver nos flashbacks? Uma proximidade do Mankiewicz com quem? Com o Jorge Luiz Borges.

 

Agora, prestem atenção: em mil seiscentos e muito (se não me engano é essa data) apareceu um homem chamado Isaac Newton [1642-1727] que construiu um sistema da física. E, nesse sistema, ele construiu uma série de leis: leis dos corpos ― como os corpos se comportariam segundo a força da gravidade. Newton é o grande pensador da gravidade! Com o sistema do Newton, pode-se fazer uma série de previsões. Pode-se, por exemplo, prever, com a maior facilidade, um eclipse que irá ocorrer daqui a mil anos. E isso é reversível, você pode dizer quando houve e quando vai haver um eclipse, pela simples observação da velocidade, da massa, etc. dos corpos.

Mas, no princípio do século, nasce uma prática científica chamada FÍSICA QUÂNTICA. E a física quântica, ao invés de, como o Newton, trabalhar com leis absolutas, trabalha com probabilidade. Então, qual a diferença do Newton para a quântica? Leis absolutas e probabilidade. Por exemplo: você pega uma moeda: a moeda tem cara e coroa. Se você jogar essa moeda dez mil vezes, a probabilidade que caia cara é de mais ou menos cinco mil vezes; e coroa, cinco mil vezes.

(Não é isso, Luiz Alberto? Está certo?)

Então, pela probabilística, você já antecipa o que vai acontecer. Mas é diferente de Newton. Aqui é probabilidade, lá é lei absoluta. (Certo?) Mas o problema fica mais interessante: é que, quando você pega um corpo na interpretação newtoniana do universo, pela análise do movimento, da velocidade, da massa, etc., desse corpo, você sabe exatamente onde esse corpo vai passar, onde vai ficar, etc. Mas, se por acaso, você pegar uma moeda, essa mesma moeda que é jogada dez mil vezes, deve dar cinco mil vezes cara; e cinco mil vezes coroa. Você joga essa moeda pra cima, e se você fizer uma análise perfeita do movimento dessa moeda, você deverá saber, antes mesmo que ela caia, se ela vai dar cara ou coroa. Mas acontece que um pensador chamado Prigogine, que é um pensador do nosso tempo, diz: “de modo nenhum!” Se você joga uma moeda pra cima, você não pode saber se essa moeda vai dar cara ou coroa ― porque ela vai entrar em ZONAS DE BIFURCAÇÃO. (Está bem, Luiz Alberto?) Ela entra em zonas de bifurcação. Então, você vê: o cinema, a literatura e a ciência ― os três se juntam para falar em tempo e bifurcação.

(Conseguiram entender?)

Então, o conceito de bifurcação, sendo apresentado por um literato, por um cineasta e por um cientista ― a bifurcação na Termodinâmica, a bifurcação na Literatura e a bifurcação no Cinema. A bifurcação passando a fazer parte do Tempo. O tempo pensado como bifurcação se torna um LABIRINTO. (Marcaram isso?) Vê lá, todo o mundo aqui: o tempo se torna o quê? Um labirinto!

Alª: Eu sei que é bifurcação, mas eu estava anotando aqui e eu perdi…

Cl: O que você perdeu?

Alª: Do Prigogine.

Cl: O que você quer saber?

Alª: Eu queria que você repetisse…

Cl: Não. Não importa aqui não. O que importa aqui é que o Prigogine acabou de nos dizer que o tempo para ele bifurca. É isso o que importa! Então, se o tempo bifurca, o tempo é… LABIRINTO.

Acontece, prestem atenção: o modelo do tempo grego é CIRCULAR. Quem é que toma o modelo do tempo grego? O Joseph Losey. Quem é que vai quebrar o CÍRCULO DO TEMPO? Abrahão, o judeu, vai criar o TEMPO LINEAR. Então, tempo circular; tempo linear. E para o Prigogine, para o Jorge Luiz Borges e para o Mankiewicz, o tempo é… LABIRINTO.

Então, o labirinto sim, sim. (O tempo circular e o tempo linear são ambos determinados pelo… movimento!) O tempo Labirinto é o TEMPO PURO. (Ficou muito difícil? Hein, Tatiana?)

O que eu estou dizendo é muito simples: que se você pensar o tempo como círculo, é o tempo dominado pelo… movimento. Se você pensar o tempo como Linear, é o tempo dominado pelo movimento. Agora, o tempo como labirinto é o tempo puro.

Então, o Prigogine, quando fala que ao jogar a moeda não pode ser previsto o que está acontecendo com ela, é que ele está dizendo que a moeda penetra no tempo puro e bifurca. Ela entra em ZONAS DE BIFURCAÇÃO e ZONAS DE INCERTEZA. Fantástico, não é?

Então, muito simples: o que eu quero é muito simples. Eu quero que vocês, agora, nesse segundo bloco da aula… (No primeiro bloco, nós encontramos duas propriedades do Tempo Puro, quais foram? Coexistência e simultaneidade.) Agora, no segundo bloco, nós encontramos bifurcação e labirinto.

(Foi tudo bem, não foi? Hein, Alexandre? Foi Cacau? Então, deixem-me descansar um pouquinho.)

Podem perguntar!

Alª: Nossa, essa aula está tão didática que…

Cl: Ahnnn, Tatiana! Tatiana Roque! Eu tinha um orgulho danado da Tatiana Roque…

(pequeno intervalo)

Parte III

(…) e jogo ele nas três pontas do presente. Olha que coisa interessante: Aí o personagem está na ponta do presente do futuro. Aí, na cena seguinte, ele está na ponta do presente do passado. O que vai acontecer? Na ponta do presente do futuro, ele tem 50 anos; na ponta do presente do passado, ele tem 30. Então, é diferente de quem? Da flecha do tempo! Ou seja: nas três pontas do presente,você pode remoçar.

(Não entenderam não? Não entendeu não, Cacau?)

Alª: Não.

Cl: Porque, quando você faz um trabalho artístico com as três pontas do presente, você não se submete à flecha do tempo. A personagem está com 50 anos na ponta do futuro; agora, na cena seguinte ele está na ponta do passado, e está com 21 anos. Porque você pega a personagem e faz a personagem conviver com as três pontas.

(Entendeu?)

Vamos pegar você: um filme que eu vou fazer. Eu pego você e boto você no presente do presente. Você namora Alexandre, no presente do presente; não namorava no presente do passado; e no presente do futuro vocês já acabaram. Então, veja que situação interessante: você é uma personagem que vai atravessar as três pontas. Numa das pontas, você não conhece Alexandre; na outra, você namora ele; e, na outra, você brigou com ele. Então, o espectador sofre um impacto incrível, porque, numa hora você chega e beija Alexandre; na outra, você despreza ele; e, na outra, você nem o conhece!…

Alª¹: Isso não tem a ver com Vestido de Noiva, do Nelson Rodrigues?

Cl: Vestido de Noiva, não.

Porque, aqui, Cacau, nós estamos entrando realmente no Tempo Puro. O que nós temos que começar a entender (Isso que é a dificuldade!…) é que a conquista do Tempo Puro é a conquista da LIBERDADE da VIDA. (Isso vai ser mais duro para se entender, mas é claro que mais na frente vocês vão entender!

Então, nós estamos tentando conquistar o Tempo Puro. A ARTE tenta conquistar o Tempo Puro. Por que ela tenta conquistar o Tempo Puro? Porque seria a liberdade para a vida. (Isso, eu ainda não posso explicar.)

Alª²: Claudio, como é que fica a reversibilidade aí?

Cl: Aí, aí você não tem propriamente a reversibilidade como um oposto da irreversibilidade. Não é a mesma coisa.

Alª²: Pois é!

Cl: Evidente que não! O que acontece aqui nas pontas do presente, é que a flecha do tempo enlouquece. É como se você começasse a dar [a cachaça] “caninha 51” à flecha do tempo: ela começa ― blubulublubulublubulu ― a delirar! Eu não sei se está claro. (você não conseguiu, não é Cacau?)

Alª: Consegui!

Cl: Não, você não pode dizer que conseguiu sem ter conseguido não, hein?

Alª: Eu estou captando!

Cl: Não, não tem nada de captando não, aqui tem que entender mesmo! Tem que entender, porque isso aqui é fundamento para a tua própria vida… de artista, a vida dela de matemática, a vida dele de físico, a minha vida de filósofo! Porque o que eu estou dizendo aqui, da pergunta da Tatiana, é que a flecha do tempo pira, ela delira, ela não tem mais que ir pra frente, não tem que ir pra trás, não tem que ir pra nada! Isso se chama MOVIMENTO ABERRANTE.

― O que é o movimento aberrante? É o movimento que, vamos dizer, perde a ordem da flecha do tempo: o movimento se torna aberrante. O movimento aberrante vai liberar o tempo. (Ficou muito difícil aqui? Ficou um pouco, não é? Vocês entenderam aqui o que é o movimento aberrante?)

Nas pontas do presente, quem é que entra no movimento aberrante, hein Dudu? A flecha! A flecha entra numa loucura… Vocês se lembram, em O Conquistador (1993) [peça infantil, dirigida por André Monteiro e Caíque Botkai] que eu quis fazer com a Maria Alice? Eu quis fazê-la delirar… Aliás, na homenagem que os diretores fizeram a mim, ela delira, lá no fundo do palco. Ela faz um delírio; mas não foi claramente entendido, não é?

Então, quando vocês virem um filme com o Godard, com o Resnais, vocês vão ver esses acontecimentos…Você vê acontecimentos surpreendentes, porque o Alain Robbe-Grillet trabalha com as três pontas do presente. (Está claro?) Mas o Resnais não vai trabalhar com as três pontas do presente: ele vai trabalhar com os lençóis do passado. Então, os Lençóis do Passado vão ficar para a próxima aula, porque ficaria muito pesado, para mim, entrar agora nessa questão. Mas eu vou tentar dar, vou tentar, por outra linha, dar essa questão do Tempo Puro mais poderosamente. Vamos ver se eu consigo isso.

Eu vou fazer uma pausa, fazer uma questão… está tudo bem? Está tudo sendo compreendido? Não é “captei”; “captei” eu não aceito! Está entendido mesmo, não é? Tem que entender, porque… entendendo…

Alª: É que tem muita informação, assim…

Cl: Não é informação, é pensamento! Não adianta você querer apenas anotar; se você não pensar, não dá conta. Entendeu? Então, o que eu estou dizendo é que o artista, a arte enquanto tal é prática de pensamento. E isso daqui é uma afirmação que rompe com o modelo do que todo mundo pensa. Todo mundo pensa que a arte é imaginação. A arte não; a arte é puro pensamento! Não tem diferença entre arte, ciência e filosofia. Tudo é prática do pensamento! Só falta uma coisa que a gente tem que descobrir ainda. O que é… pensamento, não é?

Então, vamos tentar agora o terceiro bloco.

(O que você está achando, Jorge?)

Olha, na aula passada, o Jorge levantou uma questão sobre o Orson Welles. O Orson Welles é um cineasta que tralha com o tempo puro. Depois nós vamos ver isso, não é? Todo artista que trabalha com o tempo puro busca um instrumento qualquer, cria um instrumento para liberar o tempo puro. Não sei se vocês entenderam isso… Não importa muito! O Orson Welles criou um instrumento que se chama PROFUNDIDADE DE CAMPO. (Certo?) Esse é um instrumento que ele vai criar. Então, tem um filme do Orson Welles que a gente vai ter que ver. É Cidadão Kane. Nós vamos ter que ver.

Então, nós já temos três filmes, quais são? A marca da maldade para ver o quê?O falsário qualquer― foi isso que eu levantei? A marca da maldade foi sobre a narrativa falsa. Cidadão Kane para ver o que é profundidade de campo, certo? Pra ver no cinema o que é o tempo puro. E o terceiro filme qual foi? A condessa descalça, do Mankiewicz pra começar a viver o flasback, e verificar ― prestem atenção ao que eu vou dizer ― que o flashback é a recuperação de um antigo presente.

(Vamos ver se todo mundo entendeu o que eu disse!)

― O flashback é uma recuperação de quê? Dos antigos presentes.

Então, sempre que se faz um flashback, vai-se a um ponto que já foi presente. Ou não entenderam? É sempre um antigo presente que a gente recupera no flashback. Mas eu também fiz o Alexandre e a Cacau recuperarem um antigo presente, quando eles dois estavam lá em baixo, e eu disse: Olha que fotografia bonita! Eram eles dois juntos naquela fotografia.

Ao olhar a fotografia ― o que eles estavam vendo? O que vocês estavam vendo ao olhar aquela fotografia?

Alª: Um antigo presente.

Cl: Um antigo presente, que está aonde? Perdido nas brumas do passado… Esse antigo presente está no passado. Esse antigo presente está no passado. Vocês o recuperam pela MEMÓRIA, entende?

― Qual é, então, a função da nossa memória?

Als: Recuperar antigos presentes!

Olha, é seriíssimo que eu estou dizendo, hein? A memória tem a função de recuperar antigos presentes! E a memória às vezes nos faz chorar… A gente recupera antigos presentes magníficos… A gente recupera até os aromas… e até o sabor da Madeleine ― como Proust.

― Então, a memória serve pra quê, D. Cacau?

Alª: Pra recuperar o antigo presente.

Prestem atenção, hein? Parece que é fácil o que eu estou dizendo… mas não é não.

― Então, a memória é para recuperar o passado?

Alª¹: Pra recuperar o antigo presente…

Cl: Qual a diferença de passado para antigo presente? Aí, criou um problema, não é?

Alª¹: Pontas do presente; tudo é presente, não é isso?

Cl: Não. Aí, não. Aí não é mais ponta do presente não. Não tem nada a ver com pontas do presente. Para você ver como é que complica! A única coisa que eu estou dizendo pra vocês no momento é: a memória, a nossa memória, ela não vai apreender o passado enquanto tal. Ela vai apreender o antigo presente. (Pronto. Marquem só isso, pra não complicar!) Não ligue isso, Cacau, às pontas do presente: não tem nada a ver.

Alª¹: A memória…

Cl: Recupera antigos presentes. Ficou muito difícil? Antigos presentes.

Alª¹: Eu achei que você estava falando de presente do passado…

Cl: Não. Passado mesmo. Antigo presente. Presente do passado não é o antigo presente. Não sei se vocês entenderam…  Alguém poderia conversar com ela sobre isso. Confrontar presente do passado e antigo presente: belíssimo trabalho! Presente do passado é uma coisa; e antigo presente é outra. O antigo presente, você apreende pela memória. O presente do passado você apreende pela percepção. (Ficou difícil?)

Alª²: E qual a diferença entre antigo presente e passado?

Cl: Agora a diferença… OH, tem três diferenças: antigo presente; presente do passado; e passado. São três coisas diferentes! Você vê    que quando a gente começa a mexer no tempo, a gente começa a entrar num abismo: num abismo terrível! Então, como a Tatiana levantou, são três elementos diferenciais: quais são?

Alª¹: Antigo presente, passado e presente do passado.

Cl: São três coisas diferentes.

― Quem é que apreende o antigo presente?

Als: A memória.

Cl: O antigo presente é aquilo que constitui a nossa biografia. (Entenderam?) Por exemplo: todos esses Best Sellers que vocês encontram aí são os autores falando sobre seus antigos presentes. Falando sobre seu suposto passado. É a biografia. O que faz a biografia? Vamos fazer a biografia da Cacau, o que nós vamos fazer?

Als: Contar os seus antigos presentes.

Cl: Contar os seus antigos presentes! (Está certo?)

Então, a memória, a nossa memória, só tem uma função: apreender antigos presentes. Prestem atenção! Eu sei que eu vou fracassar agora, mas não faz mal, vamos tentar:

Esta garrafa está nesta bandeja. Então, uma coisa tem que estar em outra. Por exemplo: Alexandre está na cadeira. O copo está na mesa. (Estão entendendo o que eu estou dizendo?) Uma coisa tem que estar em outra: uma coisa repousa na outra. Eis um momento dificílimo de pensamento! Se vocês não conseguirem, vocês podem dizer: “sai pra lá com esse negócio!”

Então, se eu estou dizendo que uma coisa está na outra, Alexandre está na… cadeira; e a cadeira está no… chão. (Certo?) Então, eu pergunto a vocês: se uma coisa está na outra; onde está o antigo presente? (Uma pergunta quase que insuportável!)

Alª: No presente?

Cl: Não, o antigo presente está no passado: ele mora no passado! (Olha que coisa insuportável!!!)

Alª: Mas ele não poderia estar no presente, através da memória?

Cl: A memória, quando você se lembra do antigo presente, ele, o antigo presente, vem para o presente. Quando você não se lembra dele, ele está no passado.

Alª: Mas eu posso…

Cl: Presta atenção ao que eu disse. Há duas situações: por exemplo, eu não posso forçar você agora a se lembrar de um acontecimento qualquer de quando você tinha dez anos? Você não pode se lembrar de um acontecimento seu aos dez anos? Quando você se lembra de um acontecimento seu de quando você tinha dez anos… você traz um antigo presente para o presente atual. Mas quando você não se lembra, onde está esse antigo presente??? É isso que eu estou dizendo: ELE ESTÁ NO PASSADO. O passado e o antigo presente não são a mesma coisa. É como se o passado fosse o solo onde os antigos presentes morassem. Coisa bonita, não é? Mas nós vamos mergulhar mais forte!

― Pelo que eu estou dizendo, quem é que apreende o antigo presente?

Alº: A memória.

Cl: Mas, então, se é a memória que apreende o antigo presente, e se o antigo presente mora no passado, quem é que apreende o passado? (Ou não entenderam? Acho que ficou difícil demais! Barra, hein, Tatiana?)

Alª¹: Pode ser a memória?

Cl: A memória é para apreender o quê? O antigo presente!

―O antigo presente mora aonde? No passado. Então, vamos usar uma palavra que apreende o passado ― vamos usar REMINISCÊNCIA (bota lá!).

Alª²: Huum!

Cl: Hahaha!

Cl: A memória é pra apreender?

Als: Antigos presentes.

Quando nós vimos aquele quadro [do Alexandre e da Cacau] lá embaixo; quem é que apreenderia aquilo dali? A memória, que seria um antigo presente, que torna o antigo presente um presente atual. (Certo?) Mas o antigo presente mora no passado. E não é a memória que apreende o passado. É a reminiscência. Depois eu vou explicar o que é reminiscência e a diferença entre a memória e a reminiscência. Memória e reminiscência.

― Memória e Reminiscência é a mesma coisa, Tatiana?

Alª²: Não.

Porque a memória apreende o antigo presente e a reminiscência vai apreender o passado. Essa tese é do Platão, retomada pelo Bergson. Menos Alexandre que não tem a memória, porque não tem caderno e papel, (não é?) Então, a nossa memória é um instrumento sensacional. Porque ela tem a função … Olha, esse momento da aula é quase que sublime ― porque nele está passando toda a experimentação do Proust.

A nossa memória tem a função de apreender antigos presentes, está certo? Então, com toda a facilidade, nós usamos a memória e, de repente, ela forma dentro de nós a imagem de alguma coisa que já foi vivida por nós. Então, o antigo presente é algo que já foi vivido por nós. (Claro isso? Certo?) Mas o Proust, às vezes comia uma torrada [bolinho-madeleines] e quando, ao mastigá-la [com um gole de chá] seu sabor invadia o palato do Proust, emergia para ele imagens que ele não conseguia atingir pela memória [voluntária]. Ou seja, quando nós queremos [voluntariamente] nos lembrar de alguma coisa, nós usamos a memória: a memória é um ato voluntário.

― O que é um ato voluntário? Por sua vontade, você recupera uma imagem do passado.

Agora, quando Proust comia uma madeleine e, por causa daquilo, alguma coisa aparecia à sua memória, aquilo não era por vontade dele, aquela lembrança era involuntária. (Vocês entenderam a distinção entre voluntário e involuntário? Entendeu, Cacau?)

― O que é involuntário? De repente, sem que tenha sido chamada, emerge uma imagem do passado. Sem ter sido chamada!

(Fantástico isso daqui, não é?)

É como se essa imagem viesse do FUNDO DO PASSADO; de repente, ela emerge em nós! Então, de uma maneira belíssima, Proust vai dizer que tudo o que nós vivemos ― toda a nossa história, ponto por ponto ― são como almas… Todas as nossas histórias são como pequeninas almas. Então, nós possuímos múltiplas almas; e cada alma dessas está escondida num objeto: num bolinho, numa torrada, num paralelepípedo, escondida num nariz, escondida em mil coisas… Então, de repente, eu como uma torrada e quando essa torrada se quebra, essa alma aparece. Então, as muitas almas que nos constituem podem retornar desde que nós quebremos o objeto que a esconde. De repente, você entra em contato com um objeto, aquele objeto se rompe, se racha ― e deixa surgir uma imagem pura do passado. (Entenderam?)

A pergunta é: isto seria uma prática da memória ou da reminiscência? Ainda é da memória!

Alº: Ainda é da memória?

Cl: Ainda é da memória!

Alª²: Memória involuntária?

Cl: Mas é involuntária!

E aqui tem um problema terrível: porque agora esses dois nomes ― voluntária e involuntária ― não podem nos abandonar! Vamos usar a memória como exemplo e dizer: memória voluntária e memória involuntária, mas vamos ter essas duas categorias, voluntária e involuntária, (ouviu, Cacau?) porque vão ser dois instrumentos poderosíssimos para nós mergulharmos no FUNDO DO TEMPO.

(Foi tudo bem Jorge? Foi, Margot?)

Eu vou descansar um pouquinho! Eu acho que foi perfeito—.

Alª²: —

(…) O que vai acontecer, eu tenho colocado pra vocês nas últimas aulas, é a categoria de IMAGEM MÚTUA. (Você se lembra da imagem mútua?)

O que ocorre, é que nós não temos somente um tempo. O modelo do tempo que eu estou passando (essa explicação não é para você, é só para a Tatiana – ou para o Luiz Alberto. viu?) é porque o tempo lança sobre nós dois jorros: um dos jorros do tempo é a flecha; o outro jorro do tempo é o labirinto. Então, quando você pega um pensador da termodinâmica ― por exemplo, Boltzmann ― em princípio, ele vai pensar os gases pelo primeiro jorro: pela flecha. Mas ele diz: “mas não é suficiente, isto não dá conta!” Ele vai precisar do outro tempo, do labirinto. Ele vai precisar. (Não sei se foi claro o que eu disse.) Isso aí, você só pode dar conta se você tiver com o conceito de imagem mútua, mas que não pode entrar agora, porque eu ainda não posso entrar com esse conceito.

Eu acho que… deu pra você entender alguma coisa aí, não deu Luiz Alberto? Uma coisa fantástica que é exatamente a questão do Prigogine, a questão do Boltzmann, a própria questão da termodinâmica!…

Essas almas do Proust: onde é que ele diz que essas almas estão escondidas? Nos objetos.

Vamos chamar essas almas (atenção, vamos marcar), as almas do Proust, de SENSAÇÕES ou AFETOS.

― Como é que as almas se chamam?

Alª: Sensações ou afetos.

Agora, prestem atenção para a gente começar a clarear isso:

Existe um poeta português, chamado Fernando Pessoa, que só faz poesia sobre sensações ou afetos. Ou seja: a poesia dele é sobre AS ALMAS.

(Entenderam?)

O Fernando Pessoa faz poesia sobre coisas, sobre objetos? Não. Ele só faz poesia sobre sensações ou afetos. Nós ainda não sabemos bem o que são sensações ou afetos. Em Proust nós já sabemos: são as almas que estão escondidas nos objetos e que aparecem quando os objetos se racham. Então, essas almas se chamam sensações ou… afetos.

― Quem é o poeta das sensações ou afetos?

Alª: Fernando Pessoa.

Agora, vamos dizer que o pintor das sensações ou afetos seja Cézanne; existem outros; mas vamos fazer assim para o nosso trabalho ser correto:

Cézanne, como o pintor das sensações ou afetos; Fernando Pessoa, como o poeta das sensações ou afetos; e,vamos dizer: Emily Brontë, como a romancista das sensações ou afetos: com Heathcliff e Kathy – os dois [personagens] lobos do Morro dos ventos uivantes.

Então, apareceu aqui uma categoria chamada sensações ou afetos.

― O que tem que se quebrar para que sensações e afetos apareçam?

Als: As coisas ou objetos.

Alª: Isso tudo é a memória involuntária?

Cl: Tudo o quê? As almas são a memória involuntária!

Alª: Tudo o que aparece na quebra dos objetos: é a memória involuntária?

Cl: Exatamente! Nós temos que ter sempre essa distinção voluntária e involuntária ― que é fundamental. E agora eu vou fazer uma coisa, que pode não ser definitiva, mas que vai ser ótima para nós: eu falei que para ter sensações ou afetos tem-se que quebrar coisas ou objetos. Então,vamos fazer assim: (isso tudo é PROVISÓRIO, viu?)

A ciência trabalha com coisas ou objetos;

a arte trabalha com sensações ou afetos;

e a filosofia com o tempo puro.

(Não sei se deu pra vocês entenderem…)

Então, a ciência? Als: Coisas ou objetos;

Filosofia: tempo puro;

Arte? Sensações ou afetos. (É só gravar, porque a gente segue por aí e vai exercendo um domínio muito grande nisso.)

Então, quando um poeta estiver diante de… por exemplo, ele parar ali e ficar olhando pra frente… Olha, pode estar certo que ele não está olhando para aquele edifício: ele está quebrando aquele edifício, para encontrar com sensações e afetos. Um poeta não pára de mergulhar no que é imperceptível… O artista não pára de mergulhar naquilo que é IMPERCEPTÍVEL para o homem comum. (Entenderam?)

Então, qual é a categoria nova que apareceu? Imperceptível. O imperceptível é a potência do artista. O artista nos dá aquilo que nós mesmos não podemos dar para nós. O artista descobre novos mundos e os expõe pra nós; se não fosse a arte, nós teríamos que viver sempre nesse mundinho miserável. O artista é aquele que nos dá NOVOS MUNDOS. Por exemplo, você vê o Príncipe de Salinas do Visconti, ou do Lampedusa [no filme ou no livro O Leopardo] aquilo te deslumbra! Por que te deslumbra? Porque é um mundo novo, que o homem banal não apreende; Só o artista pode produzir! Então, vamos chamar esses mundos que os artistas nos dão de MUNDOS POSSÍVEIS.

― O que são os mundos possíveis? São todos os mundos que não são observados pelo homem comum; mas são produzidos pelo artista. Por exemplo: tem um pintor ― o Modigliani, que fazia figuras humanas com os olhos sem pupila, e o pescoço comprido, levemente pendente. Aquilo dali era um mundo possível… Os mundos possíveis da arte!

Se não fosse o artista, nós não teríamos os MUNDOS POSSÍVEIS, e teríamos que viver nessa miséria da banalidade, que nós vivemos no nosso cotidiano. Se você não fizer da sua vida um encaminhamento para as artes ― e o encaminhamento para as artes implica a conquista do tempo puro ― a sua vida se torna uma miserável reprodução do cotidiano: a insuportabilidade absoluta!

(Vocês entenderam?)

Isso, numa outra linguagem é: nós temos que produzir uma SUBJETIVIDADE ESPIRITUALIZA.  Uma subjetividade espiritualizada é produzir uma alma de artista. Ou então, viver na miséria da reprodução e da banalidade do cotidiano. A ARTE É A NOSSA SAÍDA.

Que horas são?

Alº: 23h.10min.

Deixem-me falar uma coisa pra vocês agora: deixem-me terminar!

Uma AULA tem que ser da mesma forma que uma tela, um filme ou um romance: uma OBRA de ARTE. Se a minha aula não for uma obra de arte, significa que eu não estou inspirado. E se eu não tiver inspiração, eu não sou um artista: a aula não vale nada!

(entenderam o que eu disse?)

A AULA É UMA OBRA DE ARTE. Por isso, quando a gente vai dar uma aula, de maneira nenhuma, a gente tem que saber o que está dizendo. A gente tem que entrar num processo, bifurcar, penetrar num labirinto ― e, cheio de inspiração, produzir as coisas mais lindas. Isso é uma aula!

(Entenderam?)

 

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Aula de 21/09/1995 – O voluntário e o involuntário ou o lógico, o ilógico e o alógico

(Início: Referência à “Cortina Escarlate”, texto de Barbey d’Aurevilly, na aula anterior).

Se eu por acaso fizer umas certas referências a… a não sei o quê… é porque não tenho exatamente o ponto em que eu deixei a última aula – não tenho! Não tenho a memória do ponto da última aula. Não é o ponto físico da última aula – é o ponto do pensamento. Eu sei que eu cheguei até a “Cortina Escarlate”, eu tenho uma certa lembrança de que eu toquei na “Cortina Escarlate”. Eu não sei se eu cheguei a tocar no problema de matemática. Citar, pelo menos, alguma coisa de matemática. Acho que citei. —-??—-, não é? Não me lembro… Bom, mas eu citei a “Cortina Escarlate” – e isso daí já dá uma entrada…

(Eu não sei o que eu vou falar… Vocês me apontem se estiverem entendendo e se não estiverem entendendo também.)

Mas, como fenômeno urgente para mim – a questão do entendimento.

Onde eu for começar… é indistinto, ouviu? Não tem importância onde eu comece.

A leitura que Deleuze faz de Proust – não importa que eu esteja começando em Proust poderia estar começando em outra coisa, foi o que me veio à cabeça – tem um elemento que se destaca… um elemento que se destaca muito – é quando Deleuze coloca a existência, em Proust, de uma faculdade (a noção de faculdade eu dei muito na aula passada…) uma faculdade não psicológica. Quando a gente utiliza esse nome faculdade. .. A palavra faculdade se origina na filosofia do século XVIII, no Kant. E a faculdade ou as faculdades são consideradas, como diz F. A., – as forças no homem.

(Risos)

As faculdades são imaginação, memória, falar, sonhar, raciocinar. .. Então, essas faculdades pertencem ao sujeito humano – elas constituem a atividade do homem no mundo.

Uma surpresa na obra de Proust é ele dizer da existência de uma faculdade que estaria no homem – mas não pertenceria ao sujeito humano. O enunciado é até confuso… Ou seja, o Proust na verdade vai fazer uma distinção entre consciência e inconsciente. .. E ele diz que existem faculdades que pertencem à consciência – inteligência, linguagem, memória, imaginação. .. E uma faculdade que pertenceria ao inconsciente. Essa faculdade ele chama de – pensamento.

Essa primeira distinção – de faculdades que pertencem à consciência e uma faculdade que pertence ao inconsciente – se acrescenta de uma noção que é o fundamento da própria psicologia – que é a noção de vontade. O homem pressupõe-se um ser que exerce a sua vida segundo as determinações ou as causalidades da sua própria vontade – chama-se causalidade psicológica. A vontade seria a causalidade propriamente psicológica – determinante das atividades do homem. Quando o Proust levanta a idéia de uma faculdade que não seria da consciência, ele vai dizer que essa faculdade é involuntária. Essa faculdade, ele chama de pensamento e ela é involuntária. (Essa noção é a noção fundamental!)

Haveria alguma coisa em nós, que Proust chama de pensamento. Essa coisa em nós, chamada de pensamento, não é sinônimo de intelecto – porque o intelecto é uma faculdade que pertence à consciência e é voluntária. O pensamento é inconsciente e é involuntário.

Involuntário quer dizer o quê? Quer dizer que é alguma coisa que só funciona se for acionada por uma força exterior. Ou seja, a idéia que o Proust tem da existência de uma faculdade inconsciente, que ele chama de involuntária… essa faculdade não se exerce se não for acionada por alguma coisa que está fora dela. Essa afirmação – [de] que essa faculdade não funciona sem alguma coisa que estiver fora dela – inclui, na idéia de faculdade, a idéia de fora. Traz uma idéia totalmente original em relação às imagens do pensamento que nós temos, porque o pensamento para Proust pressupõe algo fora dele que o força a pensar. Não é muito isso… aqui não seria muita coisa… se imediatamente não fosse este fora diferenciado de exterioridade física e de interioridade psicológica.

(A aula é muito difícil!…)

Quando Proust coloca a existência de uma faculdade no homem chamada pensamento e essa faculdade só funciona se alguma coisa de fora a acionar… E, imediatamente, esse fora não é alguma coisa do mundo físico – não é a exterioridade física nem é a interioridade psicológica… nós tomamos contato com uma idéia que o Proust está trazendo, de que o mundo não se esgota em psicologia e em física. Porque quando qualquer um de nós observa toda a extensão da realidade, ela… (se vocês tiverem dificuldade, vocês coloquem para mim, basta levantar o dedo!)…quando nós observamos toda a realidade, o que nós dizemos é muito simples – existem os objetos mentais e os objetos extra-mentais. Por exemplo, eu digo assim: “tudo que não estiver dentro da minha mente – os meus sonhos, os meus delírios, as minhas alucinações – todo o resto pertence à realidade”. Aí, a História do Pensamento divide a realidade em mental e extra-mental. Essas duas noções, para a humanidade atingi-las, demorou séculos! Ou seja nada além do mental e do extra-mental. O extra-mental é o mundo físico. Quando eu falo físico é também químico, etc.

O Proust, quando afirma a existência de um fora, ele não está identificando esse fora à exterioridade física nem à interioridade psicológica. Ele abre… ele postula alguma coisa que não é da ordem física nem da ordem psicológica. Ou seja, alguma coisa que jamais foi pensada. Essa coisa chama-se – o impensado.

Por que se chama o impensado? Porque tudo aquilo que na história do homem foi pensado – é exterioridade física e interioridade psicológica. Foi sobre isso que o homem jogou as forças do seu pensamento. No momento em que eu digo da existência dessa categoria que eu estou chamando de fora – o fora – esse fora é sinônimo de o impensado. Impensado pelo fato de que só é pensável o interior e o exterior. O psicológico e o físico. As obras de praticamente todos os pensadores do século XX referem-se a esse fora. Esse fora é a grande questão do século XX. Ele recebe diversas denominações… – aberto em Heidegger, inatual em Foucault e… caos irisado no Cézanne, ponto gris no Paul Klee e, assim por diante. É como se houvesse a descoberta de um novo território. E a idéia de um novo território para a Filosofia, de [uma certa forma] é festejada da mesma maneira que se festeja um território novo no planeta. Esse território. .. não pode ter as regras do psicológico e do físico. (Estão acompanhando?…) Ele não tem as regras do psicológico e do físico. Logo, ele não traz a coerência do mundo físico nem as imprecisões ilógicas do mundo psicológico. Ele não é um sonho, ele não é um delírio, ele não é uma alucinação… Então ele não é constituído – este talvez seja o momento mais importante da aula – ele não é constituído por projetos ou planejamentos da psicologia. Esse fora… não depende da psicologia, ele não depende do campo psicológico. Numa linguagem mais atualizada – ele independe do imaginário.

Esse conceito de imaginário – que é utilizado pela história, ou mesmo pela filosofia e pela literatura – é inteiramente psicológico. E isso que eu estou chamando de fora tem uma autonomia – mas essa autonomia não é nem mental nem extra-mental. Não é uma autonomia psicológica, nem é uma autonomia física. Esse objeto, seja ele lá o que for, não está sob as regras da história. Ele não está sobre (eu vou ter que usar dessa maneira), ele não está sobre ou sob os domínios do tempo. Ele está fora do tempo – no sentido que o mental e o extra-mental são temporais. Por exemplo: quando o Robbe-Grillet diz que o cinema dele – (os que foram ouvir a conferência devem se lembrar disso; eu não ouvi, mas apenas ouvi dizer…) – quando ele diz que o cinema dele não é um cinema do tempo, é um cinema do espaço (não é isso que ele diz?), ele, de maneira nenhuma, está dizendo espaço em termos de espaço físico. O que ele chama de espaço é o que ele opõe ao tempo psicológico, ao tempo físico e ao tempo histórico. (Ficou difícil!)

Al.: Nesse caso, ele quer se opor mais à sucessão?

Cl.: Ele está inteiramente contra a sucessão!

Al.: E com esse espaço ele vai dar a simultaneidade?…

Cl.: É isso que ele quer! O que ele pretende dar, com a idéia de espaço, é exatamente a simultaneidade. É isso que ele faz. Então, ele dá o conceito de simultaneidade e retira o conceito fundamental da história – que é o conceito de sucessão. Então, para ele, o fora… – o fora do Robbe-Grillet chama-se simultaneidade. Eu acho que esse momento é grandioso, porque ele nos dá uma entrada, ele nos mostra quase que uma dupla psicologia do Robbe-Grillet – no sentido de que ele admira a simultaneidade e tem rancor pela sucessão. Ele chama os “pensadores da sucessão” de ideólogos – os seres da ideologia. .. Aqueles que não compreendem que o tempo sucessivo é feito de buracos, rupturas, quebras, brusquidões, que nos remetem sempre para a simultaneidade.

Essa idéia de fora. .. o Deleuze é o verdadeiro arauto dela. Mas um arauto… (é difícil o que eu vou dizer nesse instante… depois melhora…)…Deleuze é um arauto de textos. Um arauto de textos… – é que Deleuze percorre todos os grandes textos do Ocidente que trouxeram com eles a questão de ir além do psicológico e do físico. E esses textos – que vão além do psicológico e do físico – tornam-se a matéria prima da obra do Deleuze. Daí o Robbe-Grillet estar incluído como matéria prima da obra dele.

Essa é a apresentação. A apresentação é essa. E a partir dessa apresentação, vai-me importar, em primeiro lugar, apresentar o psicológico pra vocês. Apresentar o psicológico é ” limpar uma barra”! É dar pra vocês a condição de compreender o que se chama exatamente de psicologia, o que é exatamente a psicologia – quais são os componentes da psicologia que não vão pertencer a esse fora.

Eu vou chamar de psicológico – como melhor ponto de partida – a associação de idéias. A psicologia se regula pela associação de idéias… se regula pela associação de imagens – é o procedimento que ela tem. Essa associação de idéias psicológicas pressupõe a presença da linguagem. A linguagem… se encadeia na associação de idéias – é uma prática psicológica. Numa de suas obras principais – que é a Lógica do Sentido – o Deleuze vai dizer (e aqui acho que é a limpeza final!) que esse fora não é associação de idéias, não é associação de imagens, não é uma estrutura lógica, não é os significantes da linguagem e não é o mundo físico. De outra maneira – não é tudo aquilo que aparece no sujeito – o que aparece no sujeito são associações, lógica, linguagem, representação de conceitos… E não é o que aparece no indivíduo. Ou melhor, o que eu chamei de mundo físico e de mundo psicológico (eu sei que está ficando difícil!), o que eu chamei de mundo físico e de mundo psicológico – numa tradução mais rigorosa – o mundo físico chama-se o mundo do indivíduo. Ou seja, no mundo físico – tudo que existe é individuado. E o mundo psicológico é o mundo do sujeito.

Na obra do Deleuze, a questão dele é sair desses dois.

Vejam bem: não é dizer que esses dois não existam – mas é dizer que a questão dele é trabalhar ou antes ou depois. Esse antes e depois, então, começa a receber uma série de nomenclaturas – e pode ser chamado de singularidade, fora, etc. Todas essas nomenclaturas que os diversos autores vão utilizar. Mas o elemento principal – [que] ainda que às vezes a gente pense [ter] compreendido, ele escapa. .. é porque o mundo da psicologia e o mundo da física ou é lógico ou ilógico, necessariamente. Ou o mundo da física e da psicologia é governado por uma estrutura lógica ou ele é perpassado pelo ilogicismo. O que [leva], de imediato, à conclusão de que nesse fora não nem lógica nem ilógica. Você não está nem no mundo da lógica nem no mundo do ilógico. Isso vai dar um resultado difícil, porque eu terei que explicar pra vocês o que é lógico e o que é ilógico. Vou ter que explicar pra vocês todo um universo constituído desde o princípio da filosofia até agora, que sustenta esses sistemas… os sistemas lógicos e a presença do ilógico dentro do mundo. Esse fora não é nenhum dos dois. O Deleuze vai utilizar o nome de alógico. Alógico, contra lógico, contra ilógico.

Alógico é relativamente fácil. Lógica – numa diminuição, pra que se entenda, isto é, não usando nenhum conceito especifico – é um encadeamento racional. Lógica é um encadeamento demonstrativo. (Se ficar difícil vocês levantem o dedo, ouviu? Porque depois cai em cima de mim.) Um encadeamento demonstrativo não necessita de práticas experimentais. É uma demonstração racional. Todo A é maior do que B, todo B é maior do que C. Logo, todo A é maior do que C. Ou seja – o encadeamento lógico não tem a necessidade das provas empíricas – mas ele é a forma do empírico. (Vocês entenderam aqui?) Ele não tem a necessidade das provas empíricas, mas ele é a forma do empírico – do mundo empírico. Esse mundo empírico – que inclui a psicologia e a física – é constituído pelos encadeamentos racionais. Há um encadeamento racional.

(Vocês entenderam isso? Mais ou menos?…)

O que estou dizendo é o seguinte: a realidade chama-se mental ou extra-mental psicológica ou física. E ela é regulada pelo que se chama princípio de não-contradição. Esse princípio de não-contradição impõe um encadeamento lógico nos raciocínios: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. É esse o encadeamento do mundo lógico. Nesse universo lógico pode aparecer o ilógico. O ilógico aparece aí. O ilógico… pertence ao campo da lógica, ou seja – é aquilo que não é regulado pelo princípio de não -contradição. No mundo físico e no mundo psicológico, o lógico e o ilógico se atravessam… eles se atravessam. Muita gente confunde tudo concluindo que esse fora é ilógico jamais! O fora não é ilógico nem lógico. Vamos mostrar de uma maneira mais simples – o fora é paradoxal. O fora é a presença dos paradoxos. Então, aqui eu tenho um elemento… um elemento que acredito poderoso – o intelecto humano necessita de (eu vou usar só dois princípios pra vocês – se vocês não souberem digam. É só levantar o dedo e eu explico, senão não explico…) O intelecto humano precisa de “dois” princípios – não -contradição e princípio da identidade. Ele precisa desses dois princípios, sob pena de fracassar em tudo que faz. Então, o intelecto humano, quando não utiliza esses dois princípios, o que caiu em cima dele foi o ilógico – que quebrou os regulamentos da não -contradição e da identidade. Esse é o problema da dialética, do Hegel, por exemplo.

(Ruídos: pa…pa…pa…)

Cl.: Isso é tiro!!!

Al.:É…

Cl.: Uma loucura!… Uma loucura!…

Al.: Paradoxo!…

Cl.: Não! Ilógico!

Al.: Um delírio…

Cl.: É o delírio… é o delírio na cidade… – não tem nada a ver com o paradoxo.

O paradoxo é algo repugnante. .. (numa hora eu dou essa aula “precisa”!)…é repugnante ao intelecto. O intelecto não tem repugnância ao ilógico. Ele tem repugnância pelo paradoxo. [Diante do] ilógico ele diz – “Isso não serve para mim, isso está errado” – Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, as galinhas são verdes!?!? – é… uma idiotice! O intelecto brinca, debocha. Agora – o paradoxo… – ele tem repugnância por ele. Ele exclui o paradoxo dele. Por isso, quando eu disser ” o paradoxo” – jamais o intelecto pode lidar com ele. Não lida com ele! Então, por isso eu vou dizer que quem lida com o paradoxo é essa faculdade que o Proust chamou de… involuntária e inconsciente – o pensamento. Ou seja – o pensamento seria o elemento que lidaria com o paradoxo.

(Ponto aqui – porque agora eu clareio melhor isso!)

Eu vou utilizar Bergson – porque é um exemplo banal [de] entender. Na obra do Bergson, ele diz que o intelecto humano é o instrumento utilizado pelo homem para dar conta do mundo físico. O homem usa o intelecto para compreender o mundo físico… e em seguida vai utilizar o intelecto para compreender a psicologia. Ou seja – o intelecto é o instrumento das ciências humanas e das ciências físicas. Através do intelecto nós faríamos todas estas práticas. O Bergson, em seguida, diz que as forças da vida que produziram o intelecto – e o intelecto obteve êxito nas suas práticas junto ao físico e ao psicológico.

[Posteriormente], ele, [o intelecto], começou a se tornar barreira para a vida dar conta de si própria – a vida voltando-se sobre si própria. No momento em que a vida volta-se sobre si própria, em que a vida quer pensar a si mesma, ela não pode mais usar o intelecto, porque a vida… não tem as mesmas linhas que a psicologia e a física. Por causa disso, o Bergson vai utilizar a noção de intuição. A inteligência é incompetente para pensar a vida – é preciso a intuição. Essa noção de intuição do Bergson é o que eu estou chamando de pensamento.

Então, o pensamento, na hora que ele se efetua, ele se efetua numa matéria alógica. (Prestem bem atenção!) Quando o intelecto se depara com o ilógico. .. – o ilógico é uma falha do intelecto. O alógico não é uma falha do pensamento – é a matéria [com] que o pensamento trabalha. O pensamento, quando ele vai trabalhar, o componente que ele vai encontrar é alógico. Ele não tem nenhuma logicidade, logo ele não tem nenhuma i logicidade – ele é paradoxal.

Durante toda a história da Filosofia o paradoxo foi rejeitado como sendo a doença do pensamento. Nessa tese que eu estou colocando para vocês, inverte-se: o paradoxo torna-se a paixão do pensamento. O pensamento é apaixonado pelo paradoxo.

Al.: O paradoxo… é o impensado?

Cl.: Ele é o impensado! Ele é exatamente o impensado. É o momento mais brilhante, porque no momento em que eu declaro – como você perfeitamente compreendeu – “ele é o impensado” – claro que ele tem que ser o impensado, porque ele não é lógico, não pode ser pensado… Esse impensado é… é… uma transformação que ocorre – e é bonito, porque ocorre na filosofia, ocorre no cinema, ocorre na pintura, ocorre em quase todas as artes – é a transformação da compreensão do corpo.

O corpo que, para os sistemas lógicos, foi entendido como obstáculo da compreensão, na filosofia do pensamento vai [ser] considerado o objeto do pensamento. O corpo é o impensado. .. O corpo é o impensado! O corpo é o impensado… – porque o corpo carrega com ele as categorias da vida. O corpo carrega com ele as categorias da vida, ao contrário do que foi compreendido durante toda a história do pensamento ocidental, como aquilo que era o obstáculo do pensamento. Isso se chama a reversão da filosofia. A reversão da filosofia se dá na questão do corpo. O corpo deixa de ser um obstáculo para se tornar o impensado. Ou seja – para se tornar o objeto do pensamento. O corpo é a única coisa que tem que ser pensada. Porque o corpo é a própria vida. Isso é… é… é… difícil quando as pessoas começam a entender ou ouvir essa produção – porque a idéia de corpo se confunde com a idéia de representação orgânica. A idéia de corpo se confunde com a idéia de representação orgânica. Então, nós identificamos corpo com organismo – e não é. Corpo se identifica com organismo enquanto o corpo é o obstáculo do pensamento. Na hora em que o corpo se torna o impensado, o corpo é toda e qualquer matéria de expressão. O corpo é toda e qualquer matéria de expressão – a pedra, o sol… não importa o quê. Ou seja – a natureza é constituída por matérias de expressão. Isso que eu estou chamando de “matérias de expressão” é exatamente o que é o corpo. Então, a partir daí, sempre que um pensamento se der – esse pensamento tem que mergulhar na matéria de expressão. O pensamento se dá sob o corpo. Pensar é pensar o corpo. E aqui parece que as coisas começam a ficar mais fáceis… desde que a gente quebre a identidade de corpo e representação orgânica. Se a gente mantiver a identidade dos dois – a gente não consegue avançar. Então, a única maneira que eu tenho de… de composição com vocês… porque tudo isso que estou falando, pressupõe mil leituras que eu fiz, que vocês não fizeram… Nesse momento a única maneira que eu tenho é… uma certa… um certo vago… dizer que a gente tem que separar corpo e organismo. Ou seja: não é dizer que o organismo não é corpo… – mas é dizer que o organismo não é todo o corpo.

O organismo não seria todo o corpo. Então, eu posso falar, por exemplo: toda a natureza é corpo – mas toda a natureza não é orgânica. O organismo é uma realidade… – mas não é toda a realidade. E aqui, então, ainda que de uma maneira quase que ingênua, eu me proponho a separar a arte da filosofia.

Quando a filosofia pensa o corpo… – a filosofia produz conceitos. Quando a arte pensa o corpo… – ela produz afetos e perceptos. Seriam as diferenças… Então, o filosofo, a filosofia, pelo que eu falei para vocês, ela constitui o problema. E esse problema que ela constitui gera uma série de elementos. Essa série de elementos que o problema constituiu, avalia a qualidade da filosofia. Se a filosofia tiver constituído, tiver colocado… bem colocado… seus problemas, o mundo que esses problemas forçam a aparecer é o mundo que aquela filosofia gerou. A filosofia produz mundos! O que eu estou dizendo é que, jamais… jamais uma filosofia pode ser crítica da outra, porque cada filosofia se explica pelo problema que ela produz.

Por exemplo: uma filosofia [que] tem como questão a compreensão… – [coloca] como principal questão dela a compreensão do que é o sujeito humano. Ela levanta essa questão. Por exemplo, a filosofia inglesa… a questão dela é essa: o que é o sujeito humano. Ela faz essa questão e vai pondo problemas. Esses problemas geram um tipo de mundo. Esse mundo é que vai qualificar a filosofia. Por exemplo: se eu fizer uma questão a uma filosofia religiosa – o que é o sujeito humano? – ela me responderá de uma maneira. Se eu fizer a mesma questão aos empiristas ingleses, eles nem me responderão, porque o ponto de partida deles é o sujeito humano. Então, a filosofia é exatamente isso – ela põe o problema. E esse problema gera um mundo.

Ou seja – nós temos que quebrar a ilusão de que existe apenas um mundo. A ilusão de que nós, os bem dotados, conhecemos o verdadeiro mundo e os filósofos loucos apenas deliram por aí. Não é nada disso! Se não houvesse a filosofia e a arte – nós estaríamos encerrados no mundo que foi inventado pra nós. Então, a filosofia constitui um problema, ela põe um problema.

(Ponto, aqui; eu não vou seguir aqui!) O que importa agora é saber o que é problema.

(Vou voltar…)

A filosofia se explica pela produção de um problema. E essa noção de problema é uma idéia matemática.. . uma idéia matemática que, em sua história, se opõe a teorema. Interessante esse elemento aqui, porque o Pasolini fez um filme chamado Teorema, mas o filme na verdade teria que se chamar Problema. .. Porque problema quer dizer alguma coisa que não pode ser pensada por encadeamento lógico. Ou seja, se você quiser compreender um problema jogando sobre ele um encadeamento lógico… – você não o compreende. Pelo fato de que o problema é o fora. O problema é o fora, o problema é aquilo que está fora do encadeamento lógico da psicologia, da linguagem, do mundo físico… Então, o problema (atenção!) é o elemento constituinte da filosofia – que lida com o fora; ou da arte – que lida com o fora. Essa idéia de problema foi três vezes altamente pensada na história da filosofia. E ela vai receber o nome de autômato espiritual. (Está bem essa aula? Tá? Eu vou descansar dois minutos… Eu vou pedir ao mais jovem ou mais forte para me trazer um café –??–)

E aqui eu abro um pouquinho… se vocês quiserem perguntar… Você ia perguntar?…

Al.: —–

Cl.: Deixa só eu fazer uma pausa existencial… A Filosofia não tem compromisso com o bem-estar de ninguém, (ouviu?). A Filosofia é uma experimentação sem pátria. .. sem pátria. A filosofia talvez seja a arte dos desesperados. A arte de quem já não acredita mais na esperança. A filosofia talvez seja a arte da desvinculação com o mundo. Então, por isso, quando se faz filosofia dessa maneira que eu faço – ligada com o fora. .. é radical… radical! Ela não tem finalidade de prestar serviço a ninguém.

Pra que serve a filosofia? Para… (fim de fita)

LADO B

Cl.: Alguém foi buscar um café para mim? Eu estou sem prestígio nenhum…)

Al.: É que você começou a falar…

Cl.: Não, pode ir buscar. Vai, que eu vou parar.

Cl.: É que eu cansei… dei uma aula antes…

Ruídos…

Se alguém chegasse agora aqui e eu fizesse… começasse a fazer a apresentação da seqüência da aula, essa pessoa poderia tomar, como uma afetação desnecessária, certos componentes que eu vou passar a dar pra vocês. Mas se agente acompanhar a aula… ou o curso, desde o começo, verifica-se que não é uma afetação. Por exemplo: eu vou passar a dar uma aula para vocês – não vou fazer isso hoje, porque é um golpe duro que vocês vão receber – eu vou passar a dar para vocês a teoria das demonstrações, axiomáticas, geometrias projetivas, é… cálculos infinitesimais, é… fenomenologias… todos os sistemas de pensamento que vão conseguir nos conduzir até a compreensão desse fora, mostrando pra vocês que isso atravessa todos os campos… todos os campos. Isso é uma fonte inesgotável e a participação nisso para um brasileiro, provavelmente para um latino-americano, é muito difícil, porque nós não temos, na nossa formação, determinados elementos que o europeu recebe com a maior facilidade. Nós temos que conquistar aquilo, (não é?).

Então…a J. tinha me [feito uma] pergunta aqui, e isso provavelmente pode ter produzido em todo mundo a mesma questão. Eu fiz uma distinção rápida, sem explicar —, entre problema e teorema, (não é?) e citei o Pasolini – o que, imediatamente, também coloca a matemática como uma possibilidade de pensar o fora. Por exemplo: há uma diferença entre a geometria euclidiana, a geometria métrica e a geometria projetiva. Ou também o que se chama analisis situs ou topologia – que são dois sistemas do fora. Todos esses nomes, nesse momento, nos aparecem como difíceis, mas quando eu começar a fazer a exposição, vocês vão compreender inteiramente.

(Houve um atraso nessa aula, desse curso… Um atraso que não é de vocês, é meu. Foi toda uma… uma complexidade, uma complicação de três semanas para cá, as quartas-feiras e as quintas-feiras estão se interpenetrando. E isso produziu uma complicação nas minhas aulas…) Porque a aula de hoje seria fundamentada na leitura do texto do Barbey d’Aurevilly – que é a “Cortina Escarlate”. Esse texto é que vai desencadear a noção de fora. (Então, como eu não posso… eu não pude contar com isso hoje, na quinta-feira que vem nós vamos fazer uma coisa muito original: vai estar aqui na mesa, aqui na sala, na cadeira, os “Cortina Carmesim” de todo mundo e todo mundo vai ler, antes de eu começar a aula. Antes de começar a aula todo mundo vai ler o texto e através desse texto eu vou começar a fazer um trabalho de altíssima sofisticação e absolutamente necessário – não importa a área em que a pessoa esteja incluída, para poder entender o que vai se passar.)

(Eu estou meio sem… sem gás mais para produzir qualquer coisa… Porque não há mais o que preparar, não há mais o que apontar em termos de psicologia e de física, não há mais o que falar em representação orgânica ou em representação cristalina…, não há mais por que distinguir Robbe-Grillet de outros autores e, assim por diante, porque todos vocês, dentro de limites, já conhecem isso muito bem. Então, a minha proposta é um trabalho exaustivo a partir de quinta-feira que vem.

Al.: Quinta-feira que vem eles têm que vir mais cedo por causa do Robbe-Grillet.

Cl.: Ah! Na quinta-feira que vem vai ter o Robbe-Grillet. É isso?

Al.: É.

Cl.: Porque se nós tivermos o Robbe-Grillet… Vai ser O Homem que Mente, não é? A Cléa vai fazer uma tradução simultânea do filme, uma tradução para-simultânea, vai tentar. Agora, eu com Robbe-Grillet e com “A cortina Escarlate”, eu… entro diretamente, penetro diretamente… E talvez já na aula de quinta-feira eu já entre com matemática para vocês e aí nós vamos fazer o caminho mais lindo que vocês possam… imaginar, não; temporalizar, (não é?) Esse caminho de penetrar nesses mundos aí. Então é isso, eu não tenho mais o que dizer. Nós temos que entrar na experimentação direta e acabou… (Certo? Eu não posso contar com ninguém… Ah! Eu vou ler em casa. Eu não conto… eu não acredito mais nisso! A minha experiência… Não, eu não acredito nisso. Vão ler é aqui mesmo! Como o texto são quarenta e poucas páginas, são poucas páginas, meia hora de leitura e mais dez minutos de… impacto. A hora em que acabar de ler é um impacto… vocês vão ter um impacto, porque vocês vão entrar pela primeira vez em contato com o fora. O contato com o fora vai ser dado a vocês…

(Eu só vou [fazer] um [pequeno] término para vocês.)

Eu falei em problema e teorema e isso gerou uma questão da J. Só uma explicação muito rala. Rala é uma expressão de um músico, amigo meu, chamado Ls. Ele fala rala de dois em dois minutos…)

Existe uma figura do pensamento chamada demonstração. A demonstração é um mecanismo lógico que funciona com princípios e conseqüências. Você parte de um determinado princípio… e o que é principio? Princípio é uma proposição não demonstrada. Eu vou usar o nome hipótese. Você produz uma proposição, por exemplo: “As gaivotas comem torrada” (Certo?) Isso é uma proposição. Como eu não posso demonstrar essa proposição – ela se torna uma hipótese. Essa hipótese é que vai ser demonstrada. (Certo?) Isso é o que se chama princípios e conseqüências. E isso é a base do teorema. O teorema funciona assim. Você produz uma proposição – que é uma hipótese, que é uma proposição não demonstrada – e você vai, por conseqüências, fazendo a demonstração dessa proposição. O fora, do problema, não funciona assim. O fora. .. você vai ter contato com alguma coisa que não está no regime lógico. (Foi tudo isso que eu dei na aula pra vocês.) Está fora do regime lógico… Claro que vocês não vão compreender isso agora. Mas a idéia está dada! Sair de qualquer linha clássica da lógica. Nós saímos. Não tem hipótese, não tem proposições não demonstradas, não tem nenhuma dessas figuras que dão um conforto para o pensamento. Não é nada disso! Você entra num universo que se chama universo da ablação, universo das secções cônicas e nesse texto do Barbey d’Aurevilly vocês vão tomar contato com ele. Porque o texto é indecidível e indemonstrável por qualquer processo lógico. Vocês vão ver isso. Então vai ser uma experiência belíssima porque você não pode tornar aquele texto uma proposição não demonstrada. (Vocês entenderam o que é proposição não demonstrada?) Você não consegue… Você não vai conseguir fazer isso. Você mergulha… você mergulha num inferno e esse inferno é o fora.

Al.: É possível inventar uma linguagem para o fora?

Cl.: Claro! Você através… através do mergulho… quando você se defronta com esse fora você vai começar a produzir um pensamento pra ele. Você usou a palavra linguagem. A linguagem é uma palavra… é um nome difícil de se entender. Porque a compreensão clássica que se tem sobre a linguagem é lógica. A linguagem é… é… é regulada, segundo a tradição francesa, pelo significante. Ou seja, você compreende a linguagem pelas composições do significante. Aqui, no pensamento, não. Você compreende a linguagem pelo fora – é o sentido. O sentido é um fora.

Al.: O que eu — é se é possível inventar uma linguagem…

Cl.: Claro! No fora você pode inventar qualquer tipo de linguagem.

Al.: A agramaticalidade.

Cl.: É… você produz uma linguagem qualquer para pensar aquilo. Nada impede. O que… o que você… a dificuldade que a gente vai ter nisso daí, é que os pensadores do fora geralmente fazem uma experimentação no interior da linguagem. Não é somente a agramaticalidade. Você pode produzir ali, em cima desse fora, um discurso quase que clássico… quase que clássico! Quando você lê o Deleuze, você não vê o Deleuze produzindo uma composição sintática diferente da composição sintática clássica. Não é essa a questão. A questão é o problema e a abordagem do pensamento. Isso aqui que varia, (entende?).

A melhor reposta para essa questão que você colocou – e essas questões são poderosas – é que não se entende a linguagem pelo significante (quem não souber o que é significante diz, eu explico), não se entende pelo significante, se entende pelo sentido. E o sentido é o fora. Por exemplo: você pega uma pessoa (isso é um exemplo do Bergson) você pega uma pessoa que teve um problema de ordem cerebral e perdeu o domínio do uso da linguagem. Não tem o domínio do uso da linguagem. Ainda assim essa pessoa continua mergulhada no sentido… mergulhada no sentido. Quer dizer, não é o campo das palavras que produz o sentido. É o sentido que gera as palavras. As palavras mergulham no sentido. É a maneira que você tem para separar porque senão você cai nos logros da psicanálise, nas tolices da psicanálise e vai chegar ao cúmulo de dizer que o fora é estruturado como uma linguagem. Mas esse cúmulo, essa tolice quase que assustadora… é uma tentativa de suavizar a vida (não é?), fazer uma suavidade que a vida não quer. Ela não precisa disso.

(Eu respondi bem? Tá?)

Então seria isso… Certos elementos que a gente tem, eles são rompidos. L. usou a noção de agramaticalidade… a agramaticalidade é um instrumento do pensamento muito poderoso para romper o domínio do lógico… do lógico decerto… mas não é o único… mas não é o único. Você pode inventar quantos forem necessários! O Deleuze tem um texto belíssimo chamado Bartleby. Não sei se vocês conhecem: Bartebly. Não é do Deleuze, o texto é do Melville. Do Herman Melville… O Deleuze faz um trabalho nele. O Bartebly não é a agramaticalidade – mas é uma experiência do fora.

Então essas experiências do fora vão começar a surgir para nós…

E… eu vou dar um ultimo exemplo para vocês. Aqui esse exemplo vai ser bom porque é uma coisa que eu vou transpassar mesmo.

Eu tenho uma idéia de fazer um filme. Então, um exemplo para vocês entenderem… nesse filme… ele vai ter, vamos dizer, seis histórias… seis histórias. Seis histórias como se diz, história mesmo. Com passado, presente e futuro. Agora, ligando essas histórias vai ter um acontecimento que não faz parte dessas histórias. Esse acontecimento é o fora. O filme é o seguinte: é… são doze mulheres formando seis casais e o filme é filmado… o filme é… é… plano americano, plano médio, é sempre plano médio, nunca sai do plano médio. E… existe uma seqüência que é semelhante ao Pickpocket. (Vocês se lembram do Pickpocket?) É um plano médio para baixo, (não é?) só filma para baixo. Então, no… no… no filme, para baixo, vai haver um acontecimento que vai atravessar as seis seqüências do filme. Esse acontecimento é muito simples: é uma mulher botando a mão nas pernas de outra. Então, essa mulher botando a mão nas pernas de outra está inteiramente fora de qualquer tempo histórico. Mas vai atravessar o filme todo e vai ser o elemento constituinte do filme à semelhança do Robbe-Grillet. (Não sei se vocês entenderam? A mão do filme é da R. É ela que vai segurar nas coxas de uma mulher qualquer. —–) Pronto, é isso.

(Está bem, não é?…)

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