Aula em vídeo: Pensamento e liberdade em Espinosa

 

Esta é a primeira aula gravada de Claudio Ulpiano. Foi dada no outono de 1988, no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro.

  1. Proust experimentou torradas Petrópolis!

    Na minha modesta capacidade de observação e entendimento, como aluno “de corpo presente” (êpa!), que tive o privilégio de ser, o Cláudio tinha duas vertentes em seu pensar:

    (1) O estudo solitário e ao mesmo tempo populoso, quando, debruçado sobre “vários livros de uma só vez, espalhados pela mesa”, estudava uma questão e suas correlações (ou talvez fosse mais exato dizer: a correlação entre várias questões [seus agenciamentos ou sua transversalidade]). Uma espécie de “sessão espírita” com uma junta de autores – filósofos, artistas, homens de ciência – vivos ou mortos. Em que ele fazia o papel de médium, por assim dizer, e formatava as mensagens, não do “além”, mas do “aqui mesmo”, ou do ‘aqui-agora’ (também chamado Imanência). E

    (2) Um segundo momento, junto aos alunos (e afinal isso continua, através de aulas transcritas, em áudio ou em vídeo!) quando transmitia seu pensamento, mas totalmente modificado, renovado, ‘repetido e diferente’, nas aulas. Um pensamento em ato.

    Talvez aja um terceiro momento, mas que depende de cada um de nós, seus estudantes, no qual o pensamento do autor (Cláudio) deve ser retomado e busca-se produzir a recombinação desse pensamento com o mundo. O que o próprio Cláudio, em sua aula sobre Espinosa definia como “o devir da obra” (em contraposição à recuperação “daquilo que disse o autor”).

    E essa reapropriação das obras, que pode ser feita pelo estudante em suas experimentações, Cláudio nos mostrava, por exemplo, com suas várias técnicas de explicação (explicare/implicare: dobrar/desdobrar o que se encontrava amassado; como uma folha de papel amassada, contendo uma ideia: eis o que deve fazer um explicador).

    Todo pedagogia que se preza é a provocação de um encantamento. De uma admiração. E ensinar é ser dotado de uma variedade de meios de promover esse encanto, essa alegria. Ora, a sedução é um aspecto notório do nativo de Escorpião (ele em 17/11). Só que nesse caso, o encanto, a admiração, a sedução, serviam, pura e simplesmente, para propiciar o entendimento.

    Por exemplo, ao introduzir o tema do mergulho no tempo realizado por Proust, em sua obra principal (“Em Busca do Tempo Perdido”), ao referir-se à célebre passagem em que o sabor das madeleines provoca o surgimento de uma lembrança, Cláudio substitui o biscoito francês por “torradas Petrópolis”, trazendo prá mais perto de nossos paladares a manobra literária proustiana…
    E vê-se no som de sua voz o sorriso moleque da pausa que se segue. Pra que possamos sentir o gosto da torrada e lembrar… e pensar…

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  2. Na verdadeira “Biblioteca da Babilônia” (J. L. Borges) que é essa aula, pela grande quantidade de temas introduzidos, prontos a serem retomados pelos pelos espectadores, a referencia ao espinosismo de Foucault, logo no início da aula, através do tema do “cuidado de si” (“confronto agonístico consigo mesmo”, como diz o Cláudio) entre os gregos do séc. IV A.C., uma entrevista de Foucault a Dreyfus e Rabinow, em 1983, ilustra e aprofunda este ponto. Vide “Dossier Foucault-Últimas Entrevistas”, p. 41-71; Carlos Henrique Escobar (org.) (Taurus, Rio de Janeiro, Rj, 1984),

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