Atacar a arte é atacar a vida e a vida quer continuar – por Suely Rolnik

Atacar a arte é atacar uma atividade essencial para a saúde de uma sociedade. È que a função da arte é criar um corpo visível, audível, palpável, etc.. para aquilo que a vida pede toda a vez que ela se vê sufocada em nossas formas de existir, em nosso forma de interpretar o mundo e de reagir aos acontecimentos. Neste sentido a arte está diretamente ligada à vida. A vida quer continuar e para isso ela se constitui, essencialmente, em um processo contínuo de transfiguração. Isso talvez seja mais fácil ver em outros componentes da biosfera que não o componente humano, um rio por exemplo. Ailton Krenak conta que em um trecho do Rio Doce, onde vivia e continua vivendo uma comunidade indígena, o rio secou pelos estragos da mineração pela Vale do Rio Doce. Ele parecia definitivamente morto. Algum tempo depois a comunidade descobriu que o rio encontrou uma maneira de continuar fluindo: estava fluindo caudaloso por debaixo da terra. Na existência humana essa função, ela se dá como um processo de criação. Em nossa cultura é a arte que cumpre essa função. E quando ela consegue que isso aconteça, quando ela consegue trazer a pulsação do que está pedindo passagem, ela tem um poder de contágio e ela abre esse espaço na vida social. Por isso, atacar a arte é atacar a vida. Isso é gravíssimo e nós não podemos deixar que isso aconteça.

Suelly Rolnik

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