“Querendo juntos. Toda a tristeza. Vai se acabar”, por Luiz Orlandi

“Entretanto, com essa vilanagem, espero que esses poderes tenham criado o que nós, democratas, estamos buscando: a calma, vigorosa e pensante oportunidade de nos unirmos num vasto e variado movimento de restauração e aprofundamento de uma democracia concretamente respeitosa das diferenças e seriamente atenta aos problemas vividos neste país. Entre outras coisas, penso que, fazendo isso, manteremos o que Lula deve significar para muitos de nós: o livre e consciente curso de uma cidadania transformadora dessa decrépita realidade, essa que ainda nos golpeia, criada pelo que o Brasil sempre teve de pior: suas classes e elites tão pouco numerosas e, todavia, tão vergonhosamente dominantes com seus poderes de assalto ao povo, ao povo indígena, ao povo negro, ao povo branco, ao povo criança, ao povo mulher, ao povo imigrante, ao povo minorias… e esse destino acaba reservando para nós o papel de gente medrosa, gente esquecida de um corajoso antepassado nosso, chamado Zumbi dos Palmares, ou prematuramente esquecida de um velho nordestino corajoso, chamado Lula.”

Texto publicado no Facebook em 05/04/2018

 

Abril de 2018

Como engolir a tristeza de uma injustiça?

O estado atual do caso Lula, depois do desempate militar-jurídico desferido ontem contra o injustiçado, parece-me suficiente para conversarmos a respeito do que se passa. É visível que o jogo político vem sendo arrebatado por uma variedade de agenciamentos, de conchavos entre distintos poderes: parlamentares, governamentais, militares, policiais, jurídicos, financeiros, econômicos, midiáticos, interesses estrangeiros, interesses religiosos, coxinhosos etc. Apesar de haver alguma heterogeneidade de perspectivas entre esses poderes e entre fatias deles próprios, é também visível que vem se impondo, e cada vez mais profundamente, um tipo de estratégia satisfatória e lucrativa para elites neo escravocratas, sabidamente dotadas de coluna vertebral subserviente ao que há de pior nos movimentos do capitalismo predatório. Ao mesmo tempo, as lentejoulas midiáticas dessa estratégia vão acentuando um desprezo cínico pelos interesses populares e pelas volições de uma democracia concreta. Todo um campo de lutas e esforços sociais é como que ocultado e trocado pelo apoio a negociações golpistas entre partícipes desses poderes variadamente agenciados. Isso tudo dificulta uma espécie de tentativa de identificar o adversário, o inimigo principal do povo. Numa dessas negociações erigiram o Lula, desde os primórdios do golpismo, como o adversário da sóbria postura política. Mas as pesquisas eleitorais acentuaram a perspectiva de Lula e do PT como a mais condizente com anseios populares. Então, a estratégia golpista, repentinamente concentrada no agenciamento militar-jurídico (infelizmente auxiliado-por-três-mulheres), consagrou definitivamente Lula como o mais forte adversário do golpe.

E agora só falta o vergonhoso ato de prender um idoso ex presidente, acusado de um crime, sim, mas sem prova, um suposto crime, portanto, crime todavia comprovadamente cometido por gente da esfera golpista, gente mantida livremente por aí, gente que brilha como escamas da serpente que nos espia, a serpente do golpe, a estratégia disposta a envenenar e apodrecer nossos desejos.

Entretanto, com essa vilanagem, espero que esses poderes tenham criado o que nós, democratas, estamos buscando: a calma, vigorosa e pensante oportunidade de nos unirmos num vasto e variado movimento de restauração e aprofundamento de uma democracia concretamente respeitosa das diferenças e seriamente atenta aos problemas vividos neste país. Entre outras coisas, penso que, fazendo isso, manteremos o que Lula deve significar para muitos de nós: o livre e consciente curso de uma cidadania transformadora dessa decrépita realidade, essa que ainda nos golpeia, criada pelo que o Brasil sempre teve de pior: suas classes e elites tão pouco numerosas e, todavia, tão vergonhosamente dominantes com seus poderes de assalto ao povo, ao povo indígena, ao povo negro, ao povo branco, ao povo criança, ao povo mulher, ao povo imigrante, ao povo minorias… e esse destino acaba reservando para nós o papel de gente medrosa, gente esquecida de um corajoso antepassado nosso, chamado Zumbi dos Palmares, ou prematuramente esquecida de um velho nordestino corajoso, chamado Lula.

Sim, sei que estou no meio da nossa gente. Escrevendo apenas um desabafo da tristeza, uma intenção de resistência. Um cidadão tocado hoje pela tristeza, contra a qual quero lutar, o que me leva a re-politizar fragmentos de uma letra de Geraldo Vandré: “Que todos os tristes. Querendo juntos. Toda a tristeza. Vai se acabar”.


Luiz B. L. Orlandi

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