Elogio a um signoluz

Sim: extraordinária presença intercessora. Vale dizer: uma fecunda presença de signoluz desencadeando aberturas da sensibilidade para novas maneiras de pensar. Aliás, dizer isso torna igualmente irrisória a própria contabilidade das respostas; é que ninguém é lançado ao mar de uma filosofia a partir de referências professorais destituídas de alguma coisa mais estranha, até mesmo anômala. Essa coisa mais estranha aparece como um diferencial alheio a receituários didáticos, a catedráticas palavras de ordem… Essa anomalia parece advir como ondulações inesperadas em privilegiados momentos de um aprender embalado por bons encontros. Há inúmeros testemunhos que guardam o nome de Claudio como agradável e acesa memória dos seus caminhos rumo à filosofia. E esses testemunhos deixam ver o quanto os envolvidos vivenciaram esse tipo de encontro com ele.

Quero também dizer que, de algum modo, posso me colocar entre os partícipes dessa experiência, embora tenham sido poucos os meus encontros pessoais com Claudio. Poucos encontros, com efeito, mas que se mantiveram extremamente fáceis, alegres e duradouros. É provável que isso tenha acontecido graças aos intermundos neles nascidos. Apesar de nos termos encontrado como professores universitários (lado pesado) e apesar de dedicarmos uma atenção especial ao estudo do pensamento deleuziano (lado leve), em momento algum surgiu entre nós o sinal da maligna tentação de sondar até onde iria o conhecimento do outro ou de julgar o alcance de nossas respectivas maneiras de sentir e pensar essa filosofia. Sabe-se que essa maligna tentação é capaz de horrores entre colegas de todos os naipes profissionais e empresariais. Os códigos morais são impotentes diante disso, pois cada lado sempre arruma um transcendente como apoio para justificar seus exageros. Talvez ajude melhor o esforço por uma ética de composições produtivas mutuamente úteis aos partícipes de um movimento.

Aquela boa experiência de bons encontros em torno de variações filosóficas não quer dizer, portanto, que estávamos fora do mundo? Ora, pelo que se sabe, nunca as filosofias estiveram fora de mundos. E a atração por elas envolve ou desenvolve um desassossego relativamente ao que se encontra na atuali dade imediata das nossas inserções espaciais e temporais. Elas geram até mesmo a certeza de que as variações do pensar e as variações do agir só encontram uma razão satisfatória em sua correspondência com mudanças no mundo em que se vive. E esse tipo de certeza invade os que as apreciam com ardor. Apreciar com ardor, este indício que certos animais parecem conhecer em contato com gramíneas do campo, com folhas de árvores ou com carnes alheias; o indício de se sentir vivo em plena gustação de magníficas criações conceituais, gustação variadamente posta ao alcance de todos os humanos, animais multideslocados pelos encontros…

Luiz B. L. Orlandi

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Fragmento da introdução ao livro de Claudio Ulpiano, Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento

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