Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem

“Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem — em dois sentidos: adquire manchas físicas e máculas éticas. Encantador, porque entre o fogo dilacerante e enlouquecido das estrelas, à espera da morte, esmagado pelos dias e pelas noites, envolvido pelos ventos, dores, tempestades, sorrisos, lamentos, o homem é capaz de catalogar o canto dos pássaros, ornar de ouro e porcelana seus palácios, dar um cunho austero à sua tumba, construir gestos e atitudes sem marcas de história pessoal ou sofrimento com fantasmas. Compor uma música qualquer; por exemplo, as de Mozart.”

Manuscrito 18 – A filosofia é a mais inocente das ocupações

“Este texto, este trabalho, pretende-se poético, como se fosse um poema. Em torno do que diz Hölderlin sobre o poema: o que é inteiramente inocente, a mais inocente de todas as ocupações: a poesia. É um sonho, e coloca em primeiro plano os sonhadores. Mas também um enfrentamento – o mais inocente, do espírito consigo próprio. O diálogo silencioso. Por exemplo, como em Duns Scot, que se coloca a questão da metafísica. Qual o objeto da metafísica, o ser ou Deus e as inteligências separadas? Avicena e Averroes. Avicena tem razão, diz ele. E, a partir daí, nasce uma filosofia, com seu cortejo de idéias e problemas.

A filosofia é a mais inocente das ocupações.”

Manuscrito 17 – Estou encantado com este indivíduo tão sujo que é o homem

“Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem — em dois sentidos: adquire manchas físicas e máculas éticas. Encantador, porque entre o fogo dilacerante e enlouquecido das estrelas, à espera da morte, esmagado pelos dias e pelas noites, envolvido pelos ventos, dores, tempestades, sorrisos, lamentos, o homem é capaz de catalogar o canto dos pássaros, ornar de ouro e porcelana seus palácios, dar um cunho austero à sua tumba, construir gestos e atitudes sem marcas de história pessoal ou sofrimento com fantasmas. Compor uma música qualquer; por exemplo, as de Mozart.”

Manuscrito 16 – A desigualdade social é a desigualdade diante da morte

“O temor da morte exerce seus estragos: como fonte de paixões sociais. Amor pelas riquezas, ambição, (desejo de autoridade e de potência social) inveja. Estas paixões não teriam sentido senão em uma sociedade fundada sobre a desigualdade. A desrazão aparece com a introdução da propriedade privada e da riqueza. Os desejos indefinidos se ligam à riqueza e ao poder que podem sempre ser maiores. A raiz destes desejos é o temor da morte. Porque a desigualdade social é desigualdade diante da morte. Os pobres estão mais expostos à doença e à fome, portanto à morte. Busca-se a segurança (desmedidamente). Não se deseja ficar sob o acaso: à la mercê de la mort.
É uma fuga aterrorizada e pânica: o resultado é o crime, a luta fratricida, a crueldade.

          Os mitos infernais são os reflexos da sociedade desigual.”

Manuscrito 15 – Tornar a vida o modo superior

“A vida, a força da vida, é aquela que transforma os obstáculos em meios, meios de desenvolvimento. Este processo está na base da invenção do homem. O homem conduz a vida ao seu paroxismo: exalta-a, expande-a. Sobretudo quando a vida lhe dá condições de possibilidade para a criação dos problemas. E o problema não é uma deficiência do conhecimento, muito mais que isso – o problema é aquilo que penetra nos horizontes para torná-los ilimitados e sempre, invariavelmente, a serviço da vida. O homem, com o rigor da matemática e a inventividade das artes, produz problemas e vai além de qualquer limite; é esta a natureza do meu trabalho: mostrar o rigor e a beleza da criação humana – mostrar sua potência em problematizar.”

Manuscrito 14 – Transformar obstáculos em meios

“A vida, a força da vida, é aquela que transforma os obstáculos em meios, meios de desenvolvimento. Este processo está na base da invenção do homem. O homem conduz a vida ao seu paroxismo: exalta-a, expande-a. Sobretudo quando a vida lhe dá condições de possibilidade para a criação dos problemas. E o problema não é uma deficiência do conhecimento, muito mais que isso – o problema é aquilo que penetra nos horizontes para torná-los ilimitados e sempre, invariavelmente, a serviço da vida. O homem, com o rigor da matemática e a inventividade das artes, produz problemas e vai além de qualquer limite; é esta a natureza do meu trabalho: mostrar o rigor e a beleza da criação humana – mostrar sua potência em problematizar.”

Manuscrito 13 – A minha dor quando algo é dito sobre Deleuze

“Orlandi,

A minha dor quando algo é dito sobre Deleuze, no nível da irresponsabilidade, é tão grande, que em vez de reagir, constituir um debate, fico com febre. E, no mínimo, choro muito. Mas nada disto é por causa de uma grandeza secreta que possuo. Pelo contrário, é por “paixão parcial”: é que lamento estar em um tempo no qual Deleuze ainda está em excesso para o entendimento humano. Que os homens ainda não se deram conta que, depois da obra de Deleuze, nada é como antes.”

Manuscrito 12 – Finjo que não sei

“Finjo que não sei para colocar a mim e a você em um ponto de partida idêntico. Claro que esta postura não é muito agradável, em razão das lembranças que acarreta. Mas é boa tentativa pois não visa à constituição de uma obra filosófica, mas a nosso entendimento. Não ao acordo por ideologias comuns. Mas adequados na ideia expressiva.”

Manuscrito 11 – Alguns textos participam do meu delírio

“(para entender melhor, dirigir-se ao bloco que chamei “o mais longo caos ”)

Alguns textos participam de meu delírio: a relação de Santo Agostinho com o grego; em que se aproximam místicos e bem-aventurados; os neo-kantianos… mas também algumas imagens: um plano geral de Western; meus sonhos eróticos; as insistentemente sofridas recordações da infância. Não difiro de outro homem, senão na escolha do que foi escolhido: nunca vi um homem diferir-se de outro. Aristóteles tem razão. Mas não é o caso dos acidentes. O múltiplo então nos invade. Já me disse a mim, e tantas vezes, que deveria ser de outro modo. Mas como posso dizer-me tal coisa: que, o que não é, que deveria ser ? Que uma quimera tem mais grau de realidade, que esta própria, enquanto experimentação.

Este texto faz parte do delírio: pois seja como ele for, pretende colocar-se como princípio a-hipotético.”

Manuscrito 10 – Sentir dor revela impotência?

Do bloco Philia – Pagina 1

Sentir dor revela impotência? Então não é dor que sinto quando a música que amo me invade e choro: ou quando a imagem de um ser amado… me visita? Ou eu a visito, de preferência.

Pagina 2

Quando nós mentimos: mentimos inclusive para nós mesmos. Fazemos parte da mentira, mascarando-a. A mentira deve determinar este eu observador, como provavelmente o interlocutor.

Ser livre é ser inteiramente si próprio.